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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte IV «Casa das Rainhas... Conta-se que D. João V, mirando com alguma surpresa o singular povoado, por ocasião de uma das suas frequentes jornadas às Caldas da Rainha, exclamara; “Eis ali um vilão com uma cinta de oiro!”»

Cortesia de monumentos

«Estes Noronhas, os primeiros (cronologicamente) do seu apelido, eram faustosos, mimosos de mercês régias, e muito ciosos da sua estirpe principesca. Com efeito, aquele D. João, que se distinguiu como alcaide-mor de Óbidos, era bisneto de D. Henrique II, rei de Castela, e do nosso rei D. Fernando.
Procedia do casamento de D. Afonso Henriques, filho bastardo do primeiro desses monarcas, com D. Isabel, filha natural do segundo. Diz-se que tão singular consórcio foi estipulado (tal como o dos filhos legítimos) no tratado de paz assinado pelos dois inimigos em 1383.

Em presença de tais circunstâncias, não pode em verdade estranhar-se que D. João de Noronha, o alcaide-mor, pretendesse possuir no Castelo de Óbidos (que considerava talvez seu senhorio) um palácio digno do seu nome, e que, com o fim de alcançar ou agradecer o auxílio de D. Manuel para realização de tal intento, juntasse ao brasão dos Noronhas o escudo real e ainda alguns dos emblemas que usualmente aparecem nas construções manuelinas. De qualquer modo, porém, o valor histórico dessa construção, avolumado por certos factos ali ocorridos em várias épocas, é considerável.
Por isso, e pelo estado de ruína em que se encontrou agora, exigiram especial atenção e persistente esforço os trabalhos de reparação e até de reconstituição efectuados em todo o edifício no decurso da restauração empreendida pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Assim, generalizando, pode afirmar-se que, apesar de não ter sido necessário resolver qualquer problema técnico de excepcional complexidade - mas também sem descurar jamais a execução integral do programa previamente estudado e elaborado - se conseguiu por fim restituir, tanto ao castelo como à importante parte histórica da vila, o aspecto que devia caracterizar todo esse conjunto no período áureo da sua existência, isto é, depois das reparações, reconstruções e demais benfeitorias realizadas sucessivamente, desde o alvorecer da dinastia borgonhesa até os últimos anos (os anos crepusculares) de dinastia de Avis. Sim, principalmente dentro dos limites de tal período; pois é lícito acreditar que a decadência - a verdadeira decadência - foi a que depois chegou, sem embargo dos «repairos», ordenados por D. João IV, e ainda de outros, menos importantes, devidos aos Mascarenhas, os alcaides-mores a quem Filipe IV de Espanha, e em seguida o nosso D. Afonso VI, fizeram condes de Óbidos.

Cortesia de monumentos

Contudo, é bem certo que o castelo e a vila, inseparáveis como dois membros do mesmo corpo ou como dois seres animados pela mesma vida, ainda no século XVIII constituíam um dos mais admirados ornamentos arqueológicos, e até paisagísticos, da terra estremenha - tão rica, aliás, de aspectos que a Tradição glorifica e a Natureza muitas vezes prestigia. Conta-se que D. João V, mirando com alguma surpresa o singular povoado, por ocasião de uma das suas frequentes jornadas às Caldas da Rainha, exclamara:
  • - Eis ali um vilão com uma cinta de oiro!
A referência é, em verdade, um pouco obscura; pois se por «cinta de oiro», devemos entender a cerca de muralhas (iluminada talvez, naquele momento, pelo nosso brilhante sol meridional), não se pode interpretar com igual facilidade o pensamento associado à palavra «vilão». Talvez o antigo significado, hoje em desuso, de «habitante de vila» baste para justificar a expressão na boca de um monarca tão autocrático, e ao mesmo tempo tão mundano, como o nosso «Magnânimo».
Um escritor contemporâneo, Ramalho Ortigão, que por ali passou há cerca de 80 anos, apreciou principalmente, segundo parece, o seu pitoresco arcaico, pois notou que, para transformar Óbidos em «um velho burgo português de há trezentos anos», bastaria reerguer sobre os antigos alicerces alguns edifícios arrasados pelo terramoto de 1755, suprimir várias construções modernas, e valorizar por fim todo o resto, enobrecendo com alguns breves retoques cenográficos os amesquinhados valores da velha arquitectura… Abstraindo o que em tal quadro deva atribuir-se à fantasia ou «visão literária», do grande escritor, é certo que não podem enjeitar-se, por exageradas ou deslocadas, algumas das opiniões assim expostas.

Cortesia de monumentos

Todavia, não é menos certo que a DGEMN, sem se abalançar à inglória tarefa de reedificar, por falta de elementos idóneos e talvez de boa razão histórica, os edifícios lamentavelmente subvertidos há dois séculos, nem tampouco ao inútil rigor de demolir outros, de recente construção, logrou de facto harmonizar (não reconstituir), nas suas linhas gerais, o aspecto de todo o monumento com aquele que o devia afamar nos tempos manuelinos, a época provável da sua maior fortuna, conforme já notamos.
Neste ano de 1952, Óbidos, a vila-fortaleza ou vila castelã, nobre entre as mais nobres da terra portuguesa, conserva sem dúvida alguma, na sua velhice finalmente amparada, muitas das feições da juventude, e sem que, para isso, fosse necessário desvirtuar com quaisquer artifícios cenográficos as obras da restauração geral ultimamente concluída.

Antes da restauração
Apesar de alguns visitantes nacionais e estrangeiros terem celebrado, como fenómeno raro em construções de tão grande antiguidade, o estado de conservação do Castelo de Óbidos, é certo que foram muitos, muito demorados e por vezes muito pesados, os trabalhos da restauração empreendida pela DGEMN, para o preservar da ruína que de facto ameaçava converter proximamente em um acervo de escombros quase todos os seu poderosos muros». In Castelo de Óbidos, DGEMN, IGESPAR, 68-69, 1952.

Cortesia de DGEMN/IGESPAR/JDACT

domingo, 6 de março de 2011

Óbidos. Castelo: Parte III. «Casa das Rainhas... Foi ali que uma das mais ilustres dessas donatárias, D. Leonor, mulher de D. João II e criadora da obra das Misericórdias Portuguesas, se refugiou em 1491, para chorar livremente a perda de seu único filho, o princípe D. Afonso»


Cortesia de oacor

«Depois, nada mis que mereça crónica ou sequer lembrança. Oprimida pelas suas muralhas e pelas suas ruínas, que a divorciavam do mundo moderno, a antiga praça de armas estremenha caiu pouco a pouco na sonolência de um tardio envelhecer. Sem a sua paz interna jamais ameaçada por naturais ou estranhos, aceitou com resignação a decadência que o destino lhe impôs e, deperecendo sob a indiferença dos governantes ou por efeito do predomínio de certas ideias, a que chamavam «ideias novas», por buscarem a sua força agressiva no desprestígio do passado, qualquer que este fosse, quase pode acreditar-se que abjurou passivamente o credo histórico a que durante longos séculos foi fiel.

Isto não quer dizer que Óbidos tenha uma história bélica bem conforme com os arrogantes muros de praça forte. Depois dos tormentos que a dilaceraram em 1148, quando foi arrebatada ao jugo muçulmano e dominada por outro povo e outros costumes não menos bravios, é certo que logo em seguida readquiriu poder ofensivo e defensivo para novos empreendimentos ou novos sacrifícios; todavia, só muito raramente, como se sabe, achou ocasião de participar do tumultuoso fervet opus exigido pela formação da nossa nacionalidade. 

Cortesia de santamariaobidos
O acontecimento que mais a lembra, nesse remoto período, é o da heróica resistência que em 1246 opôs ao cerco e aos assaltos com que encarniçadamente pretenderam submetê-la os parciais do Conde de Bolonha, então regente do Reino. Tal como o famoso Martim de Freitas, em Coimbra, também o alcaide-mor de Óbidos, cujo nome se ignora, tendo o o castelo por el-rei D. Sancho II, não consentiu em entregá-lo, nem se deixou vencer pelas poderosas hostes que à força o quiseram tomar. E tão valoroso, tão desinteressado foi esse acto de fidelidade, que o mesmo «Bolonhês», depois de proclamado rei, com o nome de D. Afonso III, logo o honrou publicamente, como soberano e como cavaleiro. Óbidos recebeu então, com efeito, além de várias mercês e privilégios foralengos, o título de «Sempre Leal», que conservou até aos nossos dias.

Cortesia de IGESPAR
Esse antigo episódio constitui, em verdade, a mais bela e talvez a única página verdadeiramente notável da história militar de Óbidos. Estranhável esse facto, que atesta grande desproporção entre os seus recursos materiais de vila acastelada e os serviços prestados, em tão longa vida, ao rei e à grei? Não, por certo; pois é sabido que só as fortalezas raianas ou as praças fortes situadas na vizinhança das fronteiras terrestres foram deveras atingidas pelas tormentas guerreiras que tantas vezes se repetiram no decurso da nossa vida nacional. Certo, Óbidos não dista muito de outra fronteira, a marítima; contudo, essa, tal como era mantida e defendida, mais a protegia do que a ameaçava. Talvez por isso, o nosso «Rei Lavrador», embora se esmerasse no cuidado de lhe ampliar e consolidar as fortificações, não esqueceu também os seus direitos e privilégios de vila nobre, oferecendo-a afinal, como jóia de alto preço, a sua mulher D. Isabel de Aragão, a «Rainha Santa». logo que a recebeu por esposa, no terceiro ano do seu reinado.

Cortesia de moradasdedeus 
E tão acertada se julgou essa mercê conjugal, que todos os demais reis, seus sucessores, o imitaram. Assim, aquele senhorio, que se diria fadado para apanágio de um grande capitão, ficou pertencendo sempre, até soar a hora das reformas liberais, à «Casa das Rainhas». Foi ali que uma das mais ilustres dessas donatárias, D. Leonor, mulher de D. João II e criadora da obra das Misericórdias Portuguesas, se refugiou em 1491, para chorar livremente a perda de seu único filho, o princípe D. Afonso, morto por desastre, em plena adolescência, 28 dias depois de ter sido festejado, «com a maior magnificência que até então se tinha visto na Europa», afirma um cronista, o seu casamento com a filha primogénita de Fernando e Isabel, os reis Católicos

Cortesia de skyscrapercity

Cortesia de cienciahoje
O castelo propriamente dito ainda chegou aos nossos dias com os muros exteriores, que medem cerca de 13 m de altura, sem danos ou mutilações que irreparavelmente desfigurassem ou de qualquer modo amesquinhassem a sua fisionomia, bem característica, de gigante medieval; apenas em um estreto lanço da fachada do poente era mais visível a obra demolidora da ruína geral. Esta, porém, assinalou-se por estragos ainda maiores em toda a parte interior, sobretudo na alcáçova, ou palácio dos alcaides-mores, cuja construção data, segundo a tradição, do século XVI. Obra de D. Manuel, como induz a bela decoração arquitectónica das janelas e da porta, assim como o escudo real e a esfera armilar, que ali se vêem também? Sim, não seria justo negar a participação do rei Venturoso na edificação desse palácio. Todavia, a par de tais emblemas, há ainda outro, não menos expressivo, o brasão dos Noronhas, bem próprio para confirmar a tradição que explica de diverso modo a origem da obra. Diz-se e com fundada verosimilhança, que o autor da iniciativa foi D. João de Noronha, alcaide-mor do castelo no primeiro quartel do século XVI, pai de outro, do mesmo nome, cujo mausoléu renascentista, existente ali mesmo, em Óbidos, na histórica igreja de Santa Maria, é um dos mais notáveis do nosso país». In IGESPAR

Cortesia de IGESPAR/JDACT