Mostrar mensagens com a etiqueta Casa de Bragança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casa de Bragança. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto Dávila. «A nobreza medieval portuguesa tem sido alvo de importantíssimos estudos, que se dedicam maioritariamente ao estudo da família nobre e da casa senhorial»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto Dávila

Vida e Acção Política
«(…) A mudança política ocorrida com a subida ao trono de João I, a guerra contra Castela, a conquista de Ceuta em 1415 e a consequente criação das casas dos infantes tiveram um enorme reflexo na nobreza portuguesa de Quatrocentos. O esforço de legitimação de poder da nova dinastia de Avis fora acompanhado por uma importante política de mercês e doações a um número diminuto fidalgos que a haviam apoiado ao longo da crise sucessória, propiciando assim a formação de casas senhoriais com uma expressiva base territorial. O maior beneficiado destas doações foi, indiscutivelmente, o condestável Nuno Álvares Pereira que casou a sua única filha e herdeira com o filho bastardo do monarca, Afonso, conde de Barcelos. Nos anos de 1420, Afonso, era o único dos filhos de João I com filhos adultos e titulados. Estes, engrandecidos desde muito cedo pela herança do avô materno, foram imediatamente lançados para uma posição superior à dos servidores mais antigos da coroa. Afonso, conde de Ourém, e Fernando, conde de Arraiolos, não tiveram sequer que aguardar pela herança paterna. Contrariando a tendência das práticas de herança da nobreza, que optava pela reserva do núcleo patrimonial principal para o primogénito, o condestável optou por uma divisão igualitária dos seus bens, títulos e capital simbólico pelos seus netos e genro que passaram a ostentar todos os seus títulos.
O título de conde voltara a ser usado em Portugal no século XIV. Se anteriormente o título representava o exercício de um cargo público, nesta centúria surgiu como uma distinção excepcional, ao título juntava-se a propriedade da terra. Entre os reinados de Dinis I e Pedro I houve, contudo, apenas um título de conde, o de Barcelos, e no reinado de Fernando I dois, o de conde de Ourém e o de conde de Arraiolos. No reinado de João I, e numa altura em que o raio de incidência social da titulação era muito restrito e se limitava, praticamente, a membros da família real, Afonso e os seus filhos detinham os três condados existentes no Reino integrando o topo da nobreza da qual faziam também parte os senhores da terra, detentores de jurisdição, de cargos de administração central, de ofícios palatinos superiores e alguns alcaides-mores. Isto conferia-lhes uma enorme mobilidade de acção e um inumerável desdobrar de solidariedades. Note-se que muitas vezes os três condes se encontraram em facções opostas, como foi o caso da posição que assumiram em relação ao infante Pedro.

Actualmente, devemos grande parte do nosso conhecimento sobre a casa de Bragança aos estudos de Mafalda Soares Cunha sendo que para a época que pretendemos estudar, a obra intitulada Linhagem, Parentesco e Poder. A Casa de Bragança (1384-1483) é uma indispensável base de suporte. Nesta obra a autora caracterizou a reprodução do poder social da casa sendo que o âmbito da sua análise foi o da linhagem, englobando todos os descendentes directos de Nuno Álvares Pereira na análise da afirmação política e consolidação do poder social da casa de Bragança, tendo embora em atenção que os protagonistas decisivos foram os titulares da casa. A sua obra foi, portanto, o nosso ponto de partida para o estudo biográfico do segundo duque de Bragança.
Existem muito poucos estudos de cariz biográfico respeitantes a elementos da casa de Bragança, entre eles encontra-se a obra de Montalvão Machado, Dom Afonso, 8.º Conde de Barcelos, fundador da Casa de Bragança, dedicada ao primeiro duque; o estudo de Anastácia Salgado sobre o marquês de Montemor e os artigos elaborados por João Silva Sousa acerca do conde de Ourém. Aliás, o conde de Ourém tem sido alvo de inúmeras obras, algumas teses em curso, e até de um congresso. Para além da obra de Mafalda Soares Cunha e do capítulo, de cariz biográfico a ele dedicado na Historia Genealógica da Casa Real Portuguesa, sobre Fernando, nosso objecto de estudo, muito pouco se escreveu. Dado este panorama historiográfico pareceu-nos pertinente a realização de um estudo biográfico de uma das personagens politicamente mais influentes do século XV português. Este é, portanto, um estudo de caso, onde tentaremos reconstruir o percurso político e as relações pessoais de dom Fernando tal como uma biografia.
A nobreza medieval portuguesa tem sido alvo de importantíssimos estudos, que se dedicam maioritariamente ao estudo da família nobre e da casa senhorial. Para o nosso trabalho destacamos os estudos de Mafalda Soares Cunha dedicados à casa de Bragança, o de Luís Filipe Oliveira sobre a casa dos Coutinhos; o estudo sobre os Pimentéis de Bernardo Vasconcelos Sousa; o de João Silva Sousa sobre a casa senhorial do infante Henrique e, finalmente, os estudos de Nuno Silva Campos dedicados ao primeiro capitão de Ceuta, Pedro Meneses, e à construção da casa de Vila Real. Estes últimos estudos apresentam, aliás, um carácter mais biográfico. Não podemos deixar aqui de referir também os estudos levados a cabo pelos investigadores do Centro de História de Além Mar, quer os de cariz biográfico, inseridos na obra A Nobreza e a Expansão. Estudos Biográficos, quer os de análise das relações entre a alta nobreza do Reino e a expansão portuguesa, como por exemplo, as actas do colóquio internacional A Alta Nobreza e a Fundação do Estado da Índia». In Maria Barreto Dávila, D. Fernando I, 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto Dávila. «Fernando, 3º conde de Arraiolos, 1º marquês de Vila Viçosa e 2º duque de Bragança, nasceu por volta do ano de 1403, filho segundo de Afonso, bastardo legitimado do rei D. João I e de dona Beatriz Pereira…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto Dávila

Vida e Acção Política
«Fernando, 2º duque de Bragança,  nasceu por volta do ano de 1403, filho segundo de Afonso, bastardo legitimado do rei João I e de dona Beatriz Pereira, única herdeira de Nuno Álvares Pereira. A 4 de Abril de 1422 o condestável assegurou casas para os seus netos, desfazendo-se do seu património em favor dos mesmos, assegurando-lhes assim uma importantíssima posição social e a perpetuação da sua linhagem. O duque Fernando ficou com o núcleo de propriedades alentejanas do condestável e com o título de 3º conde de Arraiolos. Casou em Dezembro de 1429 com dona Joana Castro. Deste casamento nascerem oito filhos: Fernando, herdeiro da Casa de Bragança, João, marquês de Montemor-o-Novo; Afonso, conde de Faro; Álvaro; dona Isabel; dona Beatriz, marquesa de Vila Real; dona Guiomar, condessa de Valença e dona Catarina. Nos anos de 1430, dom Duarte pediu conselhos acerca de uma participação portuguesa na conquista de Granada e sobre uma nova expedição a Marrocos. No seu conselho, de 22 de Abril de 1432, Fernando defendeu a ida do infante Henrique à conquista de Granada e enumerou os benefícios políticos que o rei Duarte I poderia obter com esta intervenção. Sobre a prossecução das campanhas militares portuguesas em Marrocos manifestou-se contra. Contudo, quando Duarte I se decidiu a favor da prossecução da guerra marroquina, foi nomeado condestável da frota que tentou a conquista de Tânger, em 1437. No Reino, o conde liderou a força minoritária que, em cortes, se opôs à entrega da cidade de Ceuta em troca do infante Fernando. Em 1438, após a morte de Duarte I, foi nomeado para a regência quadripartida, cabendo-lhe a administração da justiça. Interveio também nos conflitos armados do início da regência defendendo o partido do duque de Coimbra. Todavia não estaria no Reino para presenciar as divergências entre o seu pai e o infante Pedro, que culminariam na Batalha de Alfarrobeira, porque em 1445 foi nomeado para capitão de Ceuta. Após Alfarrobeira, solicitou ao rei o seu regresso a Portugal. Em 1455 foi-lhe concedido o título de marquês de Vila Viçosa, como agradecimento pelos serviços prestados à Coroa. Nestes seis anos em que foi marquês, participou na conquista de Alcácer-Ceguer e, em 1460, foi um dos três nobres que escreveram pareceres a Afonso V aconselhando-o sobre a situação política externa.
Quando o marquês de Valença morreu em Tomar a 29 de Agosto de 1460, antes do pai e sem deixar sucessão legítima, Fernando tornou-se o herdeiro do ducado de Bragança, ao qual ascendeu em 1461. Voltou pela última vez a Marrocos em mais uma tentativa de conquista de Tânger, em 1463-64. Em 1471, quando o rei partiu à conquista de Arzila ficou no Reino como regente. Voltaria a dar a sua opinião sobre a política ibérica em 1475, manifestando-se contrário à vontade de Afonso V casar com sua prima, dona Joana. Morreu no ano de 1478, sucedendo-lhe no ducado o seu filho primogénito» In Resumo

«Fernando, 3º conde de Arraiolos, 1º marquês de Vila Viçosa e 2º duque de Bragança, nasceu por volta do ano de 1403, filho segundo de Afonso, bastardo legitimado do rei D. João I e de dona Beatriz Pereira, única herdeira do condestável Nuno Álvares Pereira. Foi um dos senhores mais poderosos do seu tempo e um dos nobres mais influentes e activos das cortes de Duarte I e Afonso V. A primeira notícia que dele existe data de 4 de Abril de 1422 quando, à semelhança do que João I havia feito com os seus filhos, Nuno Álvares Pereira assegurou casas para os seus netos (Afonso, dona Isabel e Fernando), desfazendo-se do seu património em favor dos mesmos. Ao fazê-lo o condestável assegurou-lhes uma importante posição social, um possível casamento com membros da alta nobreza e até da casa real e, sobretudo, assegurou a perpetuação da sua linhagem. Fernando, ficou com o núcleo de propriedades alentejanas do condestável e com o título de 3º conde de Arraiolos. Para além do legado recebido do Condestável, os irmãos Fernando, Afonso e dona Isabel aumentaram o seu poder e prestígio tanto através de acções individuais como pelo casamento. Foi o caso de dona Isabel que casou com o seu tio, o infante João, protagonizando assim uma nova ligação da família à casa real. O conde de Arraiolos teve um papel de destaque em Marrocos, onde participou como condestável na mal fadada expedição a Tânger em 1437, foi capitão in solido da praça de Ceuta durante os anos de 1445-1451 tendo estado também presente na conquista de Alcácer-Ceguer. Quando o seu irmão Afonso, marquês de Valença, morreu antes do pai e sem deixar sucessão legítima no ano de 1460, Fernando, então marquês de Vila Viçosa, tornou-se herdeiro do ducado de Bragança, ao qual ascenderia no ano seguinte». In Maria Barreto Dávila, D. Fernando I, 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

domingo, 30 de agosto de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos»

jdact

«(…) João foi capciosamente aceitando tais incumbências, e simultaneamente consolidando o poderio da sua casa com valiosas mercês outorgadas por Filipe IV. Terá constituído uma profunda surpresa para Castela a adesão de João à causa dos conjurados, ficando por esclarecer a estratégia do duque, entre prudente e ambígua, mantendo a sua reserva na aceitação da coroa até meados de Novembro de 1640. O apoio de dona Luísa Gusmão à decisão do marido é consensual nas diferentes fontes históricas sendo, contudo, relegada para o domínio da lenda a sua épica frase antes viver reinando que acabar servindo, que a história, de facto, não regista. Consumada a restauração da independência, a 1 de Dezembro de 1640, com a lendária defenestração de Miguel Vasconcelos e a prisão da duquesa de Mântua, o 8.º duque de Bragança é aclamado rei de Portugal a 15 de Dezembro seguinte, sob o nome de João IV, inaugurando, assim, a última dinastia de Portugal.
João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos. Nada mais é assinalado sobre a saúde do rei até Dezembro de 1654, altura em surgem os primeiros sintomas da doença que o levaria à morte, cerca de dois anos depois. O rei sofre um episódio de retenção urinária, de provável etiologia obstrutiva, descrito pelo seu médico pessoal, Francisco Morato Roma, de forma elucidativa: … estando el-rei nosso senhor João IV, nos campos de Salvaterra, numa madrugada de Dezembro à caça, e depois de alguns dias de exercício, a pé e a cavalo, lhe sobreveio uma repentina e total supressão de urina. Deu conta aos médicos, que palparam e tentaram as vias da urina e acharam que a supressão era superior, porquanto na bexiga nem na uretra havia urina detida. Começaram a aplicar remédios e, como não bastassem, suposto que não havia febre nem dor, o sangraram por haver enchimento nas veias. Não bastaram estas evacuações para desembaraçar as vias da urina, passaram a banhos e cozimentos de ervas apropriadas em que se banhava de manhã e à tarde. Estando no banho tomava remédios diuréticos, assim em bebidas como em substância, quintas essências e outros de grande eficácia. Ajuntaram-se os médicos da câmara real, que eram sete, concordaram todos assim no conhecimento do achaque, como na aplicação dos remédios. Passaram-se neste aparato quatro dias e como nestes casos o prognóstico é de pouca esperança, tratou-se de acudir a Deus. Comungou sua majestade, fizeram-se preces, vieram relíquias, continuando-se os remédios com muito cuidado.
Ao 5º dia se assentou entre os médicos tomasse as pílulas de aço. Levantou-se sua majestade, tomou cinco pílulas, que teriam meia oitava de aço, passeou meia hora, recolheu-se, descansou e nisto pediu retrete. Tomou o urinol, lançou quantidade de uma onça de urina, com a qual saiu um limo de fleima, coisa pequena, e trazia consigo envolta uma pedrinha branca da figura e tamanho de uma pevide de limão pequeno. Foi continuando a urinar em tanta cópia que naquele dia e no outro lançou três canadas e no dia seguinte outro tanto. No quarto dia tornou a natureza o seu curso ordinário. Nos dois anos seguintes, não dispomos de informação sobre a evolução da saúde do rei João IV. A 4 de Outubro de 1656, surge novo episódio de retenção urinária que lhe seria fatal, ao fim de duas semanas de sofrimento». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

domingo, 10 de maio de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «João vivendo tranquilamente no recato do seu couto, não era alheio ao ambiente político do tempo, marcado pela dominação espanhola do reino de Portugal, na pessoa de Filipe IV de Espanha (III de Portugal). A defesa do seu imenso património…»

jdact

«(…) O embalsamamento pré-tumular foi regularmente praticado nos reis da dinastia de Bragança a partir do século XVIII, procedendo-se, nalguns casos, ao concomitante estudo necrótico. Infelizmente, os raros relatórios de autópsia que chegaram aos nossos dias constituem, salvo raríssimas exceções, meros exercícios de anatomia básica, estruturados de forma empírica, não permitindo obter conclusões substantivas sobre as entidades nosológicas subjacentes. As primeiras décadas do século XX foram férteis em estudos nosográficos de personagens régias das quatro dinastias.
Ricardo Jorge dissertou sobre o óbito de João II, Pires Lima sobre a doença de Afonso VI, Cabral Sacadura sobre o parto mortal de dona Maria II, Júlio Dantas sobre a apoplexia de José I e, por último, Montalvão Machado arrisca um trabalho de fôlego procurando aclarar as causas de morte da totalidade dos reis portugueses. Embora provenientes de inquestionáveis figuras da medicina portuguesa, tais estudos pecam, em regra, pelo excesso de certezas, em consonância com a postura afirmativa que caracterizava o pensamento médico de então, convergindo, invariavelmente, as hipóteses de diagnóstico nos grandes grupos nosológicos com os quais os autores estavam mais familiarizados. Apesar de muitas destas hipóteses apresentarem razoável credibilidade, jamais poderão ser subscritas com carácter indiscutível, tendo em conta a subjectividade das fontes documentais, quantas vezes produzidas por pessoas sem qualquer formação clínica, e não raro orientadas por nexos de causalidade estranhos à medicina científica.
Não se pretende, no presente texto, sugerir diagnósticos definitivos a partir da documentação estudada e apresentada. Se alguns relatos poderão ser elucidativos quanto à etiologia de determinado quadro clínico, outros são suficientemente latos para suscitar múltiplas conjecturas diagnósticas. O estudo da doença e das mortes na dinastia de Bragança, que teve a pretensão ser exaustivo, visa, acima de tudo, proporcionar uma perspectiva evolutiva do conhecimento médico em Portugal no decurso de um amplo período histórico, crucial para a história da ciência no mundo ocidental, que se estende desde o pré-iluminismo até à idade moderna.

João IV, o Restaurador (1604-1656). Reinou de 1640 a 1656
Nascido duque de Bragança, em 1604, em plena ocupação filipina, deve o seu reinado, tal como João I, à conjuntura histórico-política do seu tempo. Herdeiro da mais opulenta casa senhorial portuguesa, a Casa de Bragança, estava João destinado a governar um domínio único em património e privilégios, que embora sedeado em Vila Viçosa, abarcava um terço das terras do reino. O seu quotidiano pacato decorria entre a gestão dos bens patrimoniais, as caçadas, os ofícios religiosos e a música, que cultivou com paixão e mestria. Mesmo vivendo longe do círculo aristocrático da corte, e apesar de pouco propenso ao estudo das letras, recebeu de seu aio, Diogo Melo, esmerada educação. Com Jerónimo Soares aprendeu latim e teologia, e com o súbdito inglês Robert Tornar, que seu pai contratara para mestre da capela de Vila Viçosa, estudou composição musical.
João vivendo tranquilamente no recato do seu couto, não era alheio ao ambiente político do tempo, marcado pela dominação espanhola do reino de Portugal, na pessoa de Filipe IV de Espanha (III de Portugal). A defesa do seu imenso património, potencialmente ameaçado pela soberania estrangeira, constituía uma preocupação legítima, já herdada de seu pai, o duque Teodósio, falecido em 1630. O contrato de casamento do duque de Bragança, futuro João IV, com dona Luísa Gusmão, oriunda do ducado andaluz de Medina-Sidónia, em 1633,constituiu um estratégico acordo entre partes, importante para Filipe IV, que assim pensava segurar a fidelidade dos poderosos Braganças, e apelativo para João que esperava manter os seus ancestrais privilégios, no seio da monarquia ibérica. Na mesma óptica aproximativa, Filipe IV, através do seu valido conde-duque de Olivares, parente de dona Luísa Gusmão, foi-se insinuando junto do duque de Bragança, incumbindo-lhe missões pacificadoras junto de alguma nobreza alentejana descontente com a carga fiscal imposta por Castela, e nomeando-o, menos de dois anos antes do 1º de Dezembro, Governador-Geral das Armas de Portugal». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «A doença do rei era institucionalmente assumida como matéria de interesse publico, os seus estados mórbidos mereciam edição destacada na ‘Gazeta de Lisboa’»

jdact

«A morte do rei constituiu, em todos os tempos, um fenómeno de grande impacto social e político, sobretudo se ocorria em circunstâncias trágicas ou se punha em risco o curso da história, como aconteceu nos casos de Sebastião I ou de Carlos I. A medicina prestou sempre grande atenção às figuras reais, sendo convocados os médicos mais conceituados do reino sempre que a doença ameaçava a integridade do monarca. Em cada época, os clínicos deram o seu melhor para mitigar o sofrimento da família real, com recurso às mais avançadas terapêuticas disponíveis, sendo pontualmente requisitada a colaboração de eminentes figuras médicas estrangeiras, quando se suspeitava da insuficiência científica dos clínicos nacionais. A dinastia de Bragança reinou em Portugal durante quase três séculos, entre 1640 e 1910, e por ela passaram 14 cabeças coroadas de ambos os sexos. Apanhada na transição da monarquia tradicional para os modelos liberais emanados da revolução francesa, a última casa reinante procurou adaptar-se à mudança, num percurso político-social conturbado, que incluiu massacres, revoluções, guerras civis, exílios e regicídios, tentado e consumado. Talvez por isso o espectro do sofrimento tenha estado sempre tão presente no seio desta família. A mortalidade infanto-juvenil marcou presença dramática e constante na marcha genealógica da dinastia. A morte precoce ceifou a vida à maioria dos varões primogénitos, príncipes herdeiros por direito, impedindo-os de atingir o trono. É a lendária Maldição dos Bragança, um tenebroso anátema lançado à família real por um frade mendicante a quem João IV terá recusado esmola. Apesar dos desvelados cuidados médicos de que foram alvo, apenas três monarcas brigantinos ultrapassaram os 60 anos de idade, atestando as conhecidas limitações da medicina de então. Os grandes flagelos da época como a sífilis, a tuberculose e a febre tifóide, mas também a patologia vascular cerebral, a loucura e a morte violenta atormentaram a última dinastia, cujo trono ruiu há 100 anos, como consequência indirecta do trágico fim do seu penúltimo caudilho. A doença do rei era institucionalmente assumida como matéria de interesse publico, pelo que os boletins clínicos relatando os seus estados mórbidos mereciam edição destacada na Gazeta de Lisboa. Tais registos representam hoje preciosos documentos para o estudo da história da medicina portuguesa.
A saúde da família real, enquanto assunto de estado, constituía também preocupação diplomática. A correspondência entre a corte e os embaixadores de Portugal acreditados nas diversas capitais da Europa de então, proporciona interessantes detalhes sobre a saúde do rei e da sua família. Reciprocamente, também as delegações estrangeiras representadas em Lisboa se apressavam a informar os seus governos, sempre que algum contratempo perturbava o bem estar do rei ou de algum importante membro da corte. Alguns médicos da real câmara tiveram a preocupação de editar para a posteridade curiosos e detalhados registos das observações clínicas e das terapêuticas aplicadas aos seus régios pacientes, recheados de pitorescos conceitos fisiopatológicos e de bizarros princípios farmacológicos, tão típicos da medicina pré-científica. A análise crítica, à luz documental, dos padecimentos dos diferentes monarcas de Bragança e das suas causas de morte confrontam-nos, de forma fascinante, com os mais avançados conhecimentos da medicina portuguesa de cada época, e com a progressiva evolução do saber médico. Se durante os séculos XVII e XVIII pontuam o empirismo da prática clínica e a ingenuidade das concepções nosológicas, no decurso do século XIX é já notória a preocupação com o rigor científico, procurando os clínicos objectivar, de forma racional, o curso da doença e as causas da morte». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Duquesa de Bragança. Poema em Oito Cantos. José Carlos Gouveia. «Oh! Presta-me um momento, (ser não julgo pretencioso, fero desacato), a lyra, que pulsou sublime vate; dá-me o estro, a candura, o sentimento, uma faisca só d'aquelles fachos, que o mundo alumiaram com seu brilho, que aos povos do porvir ensina o rastro»

Cortesia de wikipedia e jdact

NOTA: De acordo com o original

Canto Primeiro
O regresso do duque
I
«Da gélida mortalha, que te involve,
ó génio do passado altivo surge;
da gloria d’este povo, que foi grande,
os hymnos um momento audaz desperta.
Dos luzos d'outras eras dai-me o esforço,
prestai-me no meu canto o fogo, o impeto
que as quinas portuguezas sobre os mares
por ignotas paragens dirigia.
Tu idolo prostrado, estro fecundo.
Da campa, que três séculos calcaram,
levanta o marcio vulto, o fero porte,
e n'um grito d'angustia aos povos narra
o que foi a nação aventurosa,
qual o arrojo, o poder dos lusitanos.
Proclama ao som das tubas vencedoras
o terror, o respeito, que no mundo
ás nações mais possantes este povo
pequeno mas heroe sob’rano exige.
Desperta do teu somno prolongado,
e a espada flammejante sobre as cinzas
d’esses dias de gloria ergue arrogante.

II
Só tu, que dois colossos reuniste
sobre o throno onde brilha aereo labaro,
onde a c'rôa fulgente de Petrarcha
os vindouros invita a eterna fama;
só tu, que os dois gigantes do talento,
de Lysia padrões d'eterna gloria,
a quem lustros sessenta separaram,
uniste num só elo indissoluvel;
e de louros cercados lá no Olympo
os deixaste formando a luz do espirito,
o génio que preside ás lettras pátrias:
só tu, que de Camões e de Garrett
o idolo formaste d'este povo,
que n'elles sempre vivos tem seus fastos,
repletos de bravura e d' heroísmo;
só tu meu guia podes ser nas trevas,
que abundam sobre a misera progenie
de vultos, que serão immorredouros
da patria, das nações, no livro aberto.
Oh! Presta-me um momento, (ser não julgo
pretencioso, fero desacato),
a lyra, que pulsou sublime vate;
dá-me o estro, a candura, o sentimento,
uma faisca só d'aquelles fachos,
que o mundo alumiaram com seu brilho,
que aos povos do porvir ensina o rastro.

III
Das quinas o pendão, terror da Lybia,
descendo pelas plagas arenosas,
galgara já por fim além dos trópicos;
das tormentas ao cabo era chegado,
e ovante se implantára em novas terras,
entre gentes, que os filhos d'esta Europa
jamais tinham sonhado. Inda seguia
sob um ceu nunca visto, em novos mares,
do Ganges a buscar as férteis ribas,
da India opulenta o grande imperio:
E nos mares d'oeste tremulando,
a encontrar lá ia um mundo virgem,
onde surge qual sonho um novo império,
o rei afortunado ao sceptro d'ouro
o oceano acurvara, e com orgulho
no throno foi sentar-se de dois mundos!
De faustosa nobreza rodeado,
do rispido João largando a senda,
o brilho renovou d'aureos califas,
Os nobres desterrados avocando
á terra de seus paes. De novo á corte
O mais nobre fidalgo então volvia,
O duque de Bragança, o tenro joven
D. Jayme, que no exilio inda expiava
do seu progenitor rebelde intento.
O duque de Bragança, o alto vertice
da mais alta nobreza lusitana.

continua

In José Carlos Gouveia, A Duquesa de Bragança, Poema em Oito Cantos, Lisboa, Tipographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898, Discens Laborans Ébora, Gabriel Augusto Mendes, 1898.

Cortesia de Discens Laborans Ébora/JDACT

sábado, 13 de novembro de 2010

A Casa de Bragança: A sua Origem. 1º Duque, D. Afonso I. O primitivo Estado e património dos Bragança formou-se com bens e terras com que dotou a filha o condestável D. Nuno Álvares Pereira. Foi o fundador da Casa de Bragança

As Armas da Sereníssima Casa de Bragança
Cortesia de Dicionário Histórico

O título de duque de Bragança foi um dos mais importantes do reino de Portugal. Desde a ascensão ao trono da Dinastia de Bragança, em 1640, até à Implantação da República, em 1910, o herdeiro da Coroa Portuguesa usou, simultaneamente, o título nobiliárquico de duque de Bragança. De notar que, por tradição e pela importância da Casa de Bragança, os duques têm os seus nomes numerados tal como os reis (ex. D. Teodósio I e D. Teodósio II), mesmo quando a família ainda não era a Casa Real portuguesa.

A Casa de Bragança foi fundada pelo rei D. João I e pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, concorrendo ambos para o seu estabelecimento pelos dotes que o primeiro fez ao seu filho bastardo, que teve de Inês Pires. D. Afonso, o primeiro duque de Bragança, e o segundo à sua filha D. Beatriz Pereira Alvim, pelo casamento de ambos realizado em Frielas, no dia 1 de Novembro de 1401 (era de 1439). O primeiro duque de Bragança, também conhecido como oitavo Duque de Barcelos, nasceu no Castelo de Veiros, no Alentejo.

(1377-14619
Veiros
Cortesia de marcasdascienciasfcul

O dote atribuído pelo rei D. João I consta da carta de doação, datada em Lisboa no dia 8 de Novembro de 1401 (1439): terras e julgados de Neiva, Danque, Parelhal, Faria, Rates, Vermoim, com todos os seus bens e coutos. O dote feito por D. Nuno Álvares Pereira, consistia na vila e castelo de Chaves, com seus termos, terras e julgado de Monte Negro; no castelo e fortaleza de Monte Alegre; terras do Barroso e Baltar; Paços e Barcelos; quintas de Carvalhosa, Covas, Canedos, Seraes, Godinhaes, Sanfims, Temporam, Moreira e Piusada; e nos casais de Bustelo.
O rei D. João I, conjuntamente com a rainha D. Filipa, e com o infante D. Duarte, verificou a doacção, e acrescentou terras em Penafiel, Bastos e Coutos das Vargeas.


Cortesia de imperiobrasileiro
Também D. Nuno Álvares Pereira acrescentou, por carta de 4 de Abril de 1460, confirmada pelo rei D. Duarte, o condado e Vila de Arraiolos, rendas e direitos de Montemor, Évora Monte, Estremoz, Souzel, Alter do Chão, Fermosa, Chancelaria, Assumar, Lagomel, Vila Viçosa, Borba, Monsaraz, Portel, Vidigueira, Frades, Vilalva, Ruivas, Beja, Campo de Ourique, e padroados de S. Salvador de Elvas e Vila Nova de Anços.
O 2º duque, D. Fernando I era filho segundo do 1º duque, sucedendo no ducado por morte do seu irmão. Depois da referida doação de D. Nuno Álvares Pereira, por virtude de escambo realizado em 10 de Novembro de 1424, entre o duque D. Fernando I e sua irmã D. Isabel, e seus descendentes, foram acrescentadas as terras de Paiva, Tendais e Lousada, confirmado em 9 de Dezembro desse ano pelo rei D. Duarte.

«Nas suas cavalarias alentejanas, à volta de alguma montaria aos lobos ou aos castelhanos, se perdera, em Veiros, pela filha de Berbadão, Inês Pires Esteves, que amara, seduzira, trouxera para o convento de Santos, e de quem houvera um filho, Conde de Barcelos, depois Duque de Bragança, nascido aos 20 anos do pai: foi D. Afonso I de Bragança ou Afonso de Portugal (nascido em Veiros em 10 de agosto de 1377 e morto em 15 de dezembro de 1461 em Chaves, ali sepultado). Foi feito em 30 de dezembro de 1442 Duque de Bragança, 8° Conde de Barcelos, Conde de Ourém.


Cortesia de wikipédia 

O primitivo Estado e património dos Bragança formou-se com bens e terras com que dotou a filha o condestável D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431) 7° Conde de Barcelos. Foi o fundador da casa de Bragança. O senhorio e o ducado de Bragança solicitou-os ao regente D. Pedro, por ocasião de breve reconciliação entre ambos, que lhos concedeu no ano de 1442. Os descendentes foram Duques de Guimarães em 23 de novembro de 1470 e de Barcelos em 5 de agosto de 1562.

Assim se formou a Sereníssima Casa de Bragança. Era então a mais rica de Portugal.

Cortesia de Manuel Inácio Pestana/História de Portugal/Dicionário de História/JDACT