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domingo, 21 de dezembro de 2014

Um Enigma na História do Castelo de Lisboa. Fernando Castelo Branco. «… foi emtregue o castello ao Meestre trimta dias do mes de dezembro; e foi pousar em elle, e mandouho devassar e tirar as portas da parte da çidade per comsselho de todo o poboo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É, pois, natural que os lisboetas , partidários do Mestre e vencedores da revolução, vissem um perigo no castelo, receassem que este pudesse no futuro voltar a tomar partido ou atitude diferente ou mesmo oposta à da população da cidade. Era preciso afastar esse perigo. Mas, para tal, não seria necessário derrubar todo o castelo. Bastava derrubar as muralhas confinantes com o burgo, mantendo as que davam para o exterior, as que se integravam no perímetro defensivo da cidade. Deste modo, deixaria na verdade de existir o castelo, como era desejo e interesse dos lisboetas, e continuavam a existir intactas as muralhas que protegiam e defendiam Lisboa. Nem a cinta coroando o monte, nem a cerca velha ou moura, nem a cerca fernandina seriam minimamente afectadas. As estruturas defensivas, as muralhas que lhes tinham permitido resistir aos cercos postos pelos castelhanos em 1373 e 1384 subsistiam. Isto também interessava e muito aos lisboetas. Assim sendo, a situação tão inaceitável inferida do trecho de Fernão Lopes deixava de existir. O castelo como castelo tinha desaparecido. A resposta à questão posta por Augusto Vieira Silva está dada. O problema de procurar outro castelo, que parecia praticamente impossível de solucionar, desaparece.
Esta hipótese tem confirmação num passo da Crónica de D. João I de Fernão Lopes que não foi referido por Augusto Vieira Silva. Diz o cronista que foi emtregue o castello ao Meestre trimta dias do mes de dezembro; e foi pousar em elle, e mandouho devassar e tirar as portas da parte da çidade per comsselho de todo o poboo. E bem claro: o Mestre de Aviz mandou per comsselho de todo o poboo que se tirassem as portas confinantes com a cidade e não todas as portas do castelo. E aquelas interessava que fossem retiradas para que a fortaleza passasse a estar franqueada à população de Lisboa e não pudesse a sua guarnição hostilizá-la. As outras, dando para o exterior, mantinham-se para segurança da cidade. Considerando não ser suficiente terem sido eliminadas as portas, pois poderiam as aberturas serem rapidamente entaipadas, podendo nelas, em bem pouco tempo, erguerem-se barricadas, foi-se mais longe e destruíram-se as muralhas do castelo confinantes com Lisboa. O castelo como castelo, apesar de só demolido parcialmente, desaparecera. Podia-se dizer ter sido derrubado. Acontecimentos posteriores mostram a razão que assistia aos lisboetas e ter sido a parte derrubada reconstruída, voltando a existir o castelo de S. Jorge. E conhecido o papel decisivo da capital portuguesa para a regência do reino ser entregue ao infante Pedro durante a menoridade de Afonso V. Narrando os sucessos que antecederam essa regência, escreveu Joaquim Veríssimo Serrão: a solução jurídica acabou por se impor, partindo da Câmara de Lisboa que logo obteve o apoio das principais cidades e vilas. Considerando um perigo para o Reino a existência de dous rregedores e duas cabeças no governo, pois não era conveniente a partilha de tamanha responsabilidade. Impunha-se encontrar hum solido regedor baram dereito e per reall sangue lidimo português e o único capaz de preencher o cargo era o duque de Coimbra. E nas Cortes de 1439,reunidas em Lisboa, diz o mesmo historiador, a grande força proveio do Senado olisiponense, representado pelos procuradores Pêro Serpa e João Lourenço Farinha, que concertaram o plano antes da realização das Cortes, não havendo um só procurador que não o apoiasse. Mas o castelo de Lisboa não alinha nesta atitude, antes pelo contrário, mantém-se fiel à rainha dona Leonor. Eis como Gaspar Dias Landim narra os acontecimentos relacionados com o castelo de Lisboa: Era alcaide-mór da cidade de Lisboa, n'este tempo, Affonso, Senhor de Cascaes, e tinha o castello pela Rainha cuja parte seguia, e com elle estava dentro no castello seu filho Fernando, com outros fidalgos seus parentes e amigos, que seguiam a mesma opinião, com a gente de suas casas, os quaes vendo a cidade tão alvoroçada, temendo alguma força do povo, se fizeram fortes repartindo suas estancias com suas rondas e vigias, o que vendo os da cidade, com achaque de dizerem que de cima do muro lhes diziam affrontas, confusamente ordenaram pôr cerco ao castello e combatel-o, mas o Infante João por evitar os males que d'ahi se podiam seguir, impediu por então o cerco, e tomou á sua conta socegar alteração tão perniciosa como fôra da cidade com o castello, (...). Os da cidade tanto que souberam que Affonso não queria entregar o castello, alvoraçados e amotinados com dizer que podia d'ahi vir algum grande mal á cidade e ao reino, e o que é mais certo pelo grande odio que tinham á Rainha, e induzidos pelo Infante João, pozeram logo cerco ao castello com tanta vigilancia e cuidado, e o vallaram, e cercaram todo de vallas e alta cavas, pondo suas estancias repartidas de gente armada por tal ordem, que de dia, nem de noite podia entrar, nem sahir pessoa alguma, nem se lhe podia dar socorro de mantimento, gente, ou munições, do que estava muito desprovido, o que tudo se fazia por trama do capitão Alvaro Vaz que em similhantes materias era bem experimentado; e como Affonso e seu filho entraram no Castello apressadamente, se não poderam aperceber, e passados alguns dia de cerco, vendo-se os cercados apertados, com pouca gente e menos ordem para se deffender, e sem esperança de soccorro, entregaram o castello ao Infante João, havendo primeiro d'elle seguro para todos os que estavam dentro, e tudo o que n'elle tinham, e deixando-o em poder do Infante se foram para a Rainha. Rui de Pina, na sua Cronica de D. Afonso V, dá-nos uma narrativa destes acontecimentos praticamente idêntica». In Fernando Castelo Branco, Um Enigma na História do Castelo de Lisboa, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um Enigma na História do Castelo de Lisboa. Fernando Castelo Branco. «Disse o Meestre que hüu dos empachos que tiinha neste feito, era o castello da çidade que estava comtra elle por parte da Rainha; o quall compria muito de seer filhado, por a çidade nõ rreceber dampno peo elle dalguüas gemtes, sse viinr quisessem comtreellae»

jdact e joaonunestinoco, 1650

«Fernão Lopes ao tratar dos privillegios que deu aa çidade de Lisboa o Mestre de Aviz em 1384, diz que os da çidade forom mui comtemtes, e ell [o Mestre] cobrou gram louvor e fama. Os quaaes lhe pedirom por merçee que mamdasse logo derribar o castello dessa çidade; e seemdo outorgado per elle, foi deitado em terra sem outra tardamça. No estudo O Concelho de Lisboa na Crise de 1383-1385, ao enumerar as concessões feitas pelo Mestre de Aviz à cidade de Lisboa, termina afirmando: além disso foi demolido o castelo, tido pelos moradores como velho instrumento de opressão da sua autonomia municipal. Não cita a fonte para esta referência, mas foi decerto o trecho da Crónica de D. João I atrás transcrito. Esse mesmo trecho de Fernão Lopes suscita, supomos, dois problemas, pelo menos. O primeiro é o do sentido a dar à palavra castelo. Significaria a cinta de muralhas que cerca o monte ou só o castelejo? Parece-nos que significaria o castelejo, pois a cinta de muralhas incorporava uma parte da cidade, a actual freguesia de Santa Cruz do Castelo, e estava em causa a antinomia guarnição do castelo, povo de Lisboa. Mas se os lisboetas pediram para derribar o castelejo e este foi deitado em terra sem outra tardança, ficava no perímetro defensivo da cidade, nas suas muralhas, quer nas da cerca velha ou moura, quer nas da cerca fernandina, um trecho não preenchido e portanto sem defesa.
É evidente que esta situação não convinha de nenhum modo à população de Lisboa. Constituía um terrível perigo perante um atacante. E Lisboa com o estuário do Tejo exposto às investidas de qualquer armada inimiga ou de piratas podia ser atingida quase de surpresa. De recordar ter o monarca Dinis I mandado erguer as muralhas da Ribeira. A razão diz-se no diploma régio de 4 de Junho de 1294: A todos aqles q esta Carta uirem e leer ouuyrem ffaço saber Que como a Cydade de Lixboa steuesse en perhygoo de La mha Torre da escriuanya ataas mhas Casas das Galees de cõtra o mar per razõ do muro q hy nõ auia ne fortaleza nenhüa e q recebya per hy o Concelho muyto mal e muyto dano, per razõ daqles q uiam pelo mar de fora parte. Como admitir ficar Lisboa e por vontade dos seus habitantes sem um trecho das muralhas do seu perímetro defensivo, para mais dando acesso à parte superior da cidade, ao cume do monte do castelo, portanto à zona de grande parte da cidade de então?
A planta de João Nunes Tinoco de 1650 tem marcados o castelejo e grande parte da muralha fernandina. Basta olhar para ela para se verificar a abertura que se rasgava na cinta de muralhas de Lisboa se o castelejo desaparecesse. E se por castelo se designassem as muralhas que coroam o monte, a abertura só ficaria maior. O grande estudioso das fortificações medievais de Lisboa, que as reconstituiu com tanta precisão, Augusto Vieira Silva, certamente por este motivo, pois infelizmente não explicita o seu pensamento, considera ter sido derrubado outro castelo, que não o de S. Jorge. Eis as suas palavras: Mas o que seria o Castelo de Lisboa que aquele cronista diz ter sido rapidamente derribado? Não era certamente o Castelo de S. Jorge que nós temos ainda o prazer de ver no alto do monte do seu nome.
Mas se não se tratava do castelo de S. Jorge, que castelo seria esse do qual não resta o menor vestígio nem a mais ténue notícia documental? Onde poderia ele situar-se? Como e quando foi construído e como desapareceu tão misteriosamente? Por não ver a menor possibilidade de resposta às questões enunciadas, apesar de conhecer tão profundamente as fortificações medievais de Lisboa e a sua história, certamente por isso, Augusto Vieira Silva formulou o problema, mas não tentou qualquer solução, nem sequer tentou apresentar uma mera hipótese. Noutro trecho da mesma obra, o douto olisipógrafo, depois de transcrever o seguinte trecho da Monarquia Lusitana de frei Manuel dos Santos: O castelo [está] no mesmo monte que hoje, mas outro, porque o presente he já segundo, comenta: Que mistério está aqui anunciado? Realmente, tudo isto parece um mistério. Um segundo castelo de que não há vestígios nem notícias documentais ou uma Lisboa franqueada a um atacante, por faltar um trecho na linha das suas muralhas por vontade dos seus habitantes, é na verdade um mistério. No entanto, parece haver uma solução verosímil e simples. Como se sabe e Fernão Lopes narra, a guarnição do castelo não aderiu à causa do Mestre de Aviz nem apoiou o movimento para o elevar a Regedor e Defensor do Reino pelos lisboetas abraçado com entusiasmo. Escreveu a este respeito Fernão Lopes: Disse o Meestre que hüu dos empachos que tiinha neste feito, era o castello da çidade que estava comtra elle por parte da Rainha; o quall compria muito de seer filhado, por a çidade nõ rreceber dampno peo elle dalguüas gemtes, sse viinr quisessem comtreellae. Por isso, o Meestre hordenou emtom de os combater; e mãdou fazer huü artefiçio de madeira que chamam gata: que, como huüa baixa cava que entomçe o castello tiinha fosse chea, podesse hir per çima jumtar com elle, e de sso ella podesse hir picar o muro e emtrar demtro. E deziam os de fora aos do castello, que o dessë ao Meestre seu Senhor. O castelo acabou por se entregar ao Mestre de Aviz depois de algumas negociações e delongas». In Fernando Castelo Branco, Um Enigma na História do Castelo de Lisboa, a Joaquim Veríssimo Serrão os Amigos, Fraternidade e Abnegação, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1999, ISBN 972-624-126-X.

Cortesia da APdaHistória/JDACT

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Tomar: Um tríptico escondido e Densos Mistérios. Parte IV. «Saindo de Tomar, é obrigatório ver, ainda nas imediações da cidade, o monumental aqueduto de Pegões. Era por aqui que o convento se abastecia de água. O facto de atravessar vales acentuados confere ao monumento um carácter impressionante, em alguns pontos dos seus sete quilómetros de extensão»

Cortesia de cmtomar 

A Festa dos Tabuleiros é preparada quase em segredo por centenas de pessoas que, durante meses, recortam milhares e milhares de flores e ornamentos em papel - para as ruas do centro histórico de Tomar e para os 700 tabuleiros que este ano desfilarão.

Um Tríptico Escondido.
«Voltemos aos segredos que Tomar esconde. Por exemplo, o tríptico de origem flamenga, do século XVI, que está no baptistério da igreja de São João Baptista, logo à esquerda quando se entra. Tem que se pedir ao sacristão da igreja que faça o favor de abrir a porta do baptistério. Só assim se pode apreciar a obra - não haverá maneira de proteger o quadro sem ter que o esconder? Representando cenas da vida de Jesus - o baptismo no centro, as bodas de Caná e as tentações, além de São João e Santo André nas portas -, a obra é de uma delicadeza ímpar.
Há nesta igreja ainda outras sete telas a justificar a visita. São todas de Gregório Lopes, um dos nomes mais destacados do Renascimento português. Do lado direito, estão A Degolação de João Baptista, a Apresentação da Cabeça de João Baptista, Abraão e Melquisedeque, a Apanha do Maná, a Última Ceia e a Missa de S. Gregório. Na parede defronte, vemos uma Visitação. Gregório Lopes tem obra distribuída por Setúbal, Madeira e Tomar (há pinturas suas também no Convento de Cristo).


Cortesia de cmtomar

Em Tomar, além de podermos pousar o olhar de cada vez que passamos junto do Nabão, ainda é possível dar um salto à ermida de Santa Iria. Destaca-se aqui um retábulo em calcário representando a paixão de Cristo, com a curiosidade de a cruz ser em T, ou Tau, representação iconográfica invulgar. Ou à igreja de Santa Maria dos Olivais, onde os templários eram armados cavaleiros.
Subindo de novo para as bandas do castelo e do Convento de Cristo, encontramos a ermida da Senhora da Conceição. Há quem diga que foi construída para capela funerária de D. João III. Álvaro Barbosa diz que isso não é verdade: "Não tem dimensão para ser mausoléu", assegura, foi mesmo edificada como espaço de culto. Aviso aos visitantes: até Novembro, os acessos de automóvel ao convento e ao castelo estão condicionados por causa de obras de requalificação.

Densos Mistérios.
«Saindo de Tomar, é obrigatório ver, ainda nas imediações da cidade, o monumental aqueduto de Pegões. Era por aqui que o convento se abastecia de água. O facto de atravessar vales acentuados confere ao monumento um carácter impressionante, em alguns pontos dos seus sete quilómetros de extensão. No vale de Pegões, a parte mais comovente do percurso, o aqueduto desenha uma curva, num pórtico com 58 arcos de volta inteira e 16 arcos quebrados. Uma obra a pedir reabilitação, de modo a que se possa passear pelo aqueduto.

Cortesia de cmtomar

Mais longe, espera-nos a torre templária de Dornes, a uma meia hora da cidade. Uma vez mais, estamos perante um monumento único. E, também aqui, fechado a visitas, neste caso pelo mau estado da escada de acesso. Uma pequena obra e uma bilheteira permitiriam dar outra visibilidade a esta construção, transformada no tempo de Dom Manuel em torre sineira da igreja matriz, situada ao lado.
A igreja terá sido fundada pela Rainha Santa Isabel e nela se pode ver uma assombrosa Pietá em pedra, do século XVI. Os 42 círios de Dornes, representando outras tantas povoações vizinhas, estão guardados na sacristia: saem em procissão desde segunda-feira de Páscoa até ao terceiro domingo de Setembro. Já houve alturas em que a rivalidade entre aldeias foi pretexto para ameaças de tiroteio. Construída sobranceira à albufeira, numa das curvas do Zêzere, o edifício é de planta pentagonal e teria servido como torre-atalaia dos templários. O mistério adensa-se pela serenidade conferida ao lugar pela confluência do rio, da torre, dos montes e vales em redor. Há por aqui segredos que o tempo não desvendará nunca». In António Marujo.

Cortesia da CMTomar/JDACT

Tomar: Do Paraíso ao Inferno. Parte III. «Durante o seu consulado como grão-mestre da Ordem de Cristo e governador de Tomar, o Infante Dom Henrique chamou judeus para povoar a cidade e dinamizar a economia local. Deu-lhes um bairro e o direito a construir a sinagoga. Edificado entre 1430 e 1460, o lugar de oração seria desactivado décadas depois»


Cortesia de cmtomar

A Festa dos Tabuleiros é preparada quase em segredo por centenas de pessoas que, durante meses, recortam milhares e milhares de flores e ornamentos em papel - para as ruas do centro histórico de Tomar e para os 700 tabuleiros que este ano desfilarão.

Do Paraíso ao Inferno.
«Menos escondida, agora, está a Sinagoga de Tomar, depois de séculos destinada a outros fins. Está na Rua Dr. Joaquim Jacinto, antiga Rua Nova ou Rua da Judiaria. Hoje, o edifício de planta quadrangular é quase só um espaço de memória, a aguardar obras de recuperação.
Durante o seu consulado como grão-mestre da Ordem de Cristo e governador de Tomar, o Infante Dom Henrique chamou judeus para povoar a cidade e dinamizar a economia local. Deu-lhes um bairro e o direito a construir a sinagoga. Edificado entre 1430 e 1460, o lugar de oração seria desactivado décadas depois, após a expulsão dos judeus de Portugal - a Sefarad do judaísmo.


Cortesia de cmtomar

Transformada em cadeia, capela e casa térrea, seria classificada como monumento nacional em 1921 e comprada, em 1923, por Samuel Schwarz, polaco e engenheiro de minas a trabalhar em Portugal, que estudou a comunidade de judeus escondidos de Belmonte. Em 1939, Schwarz doou a sinagoga ao Estado, mas para que nela fosse instalado um museu luso-hebraico.
Atravessando duas ruas, vamos descansar no Paraíso. O café completou um século a 20 de Maio. Situado na Rua Serpa Pinto (antiga Rua da Corredoura), é propriedade de Alexandra Vasconcelos, que o herdou dos pais, depois do avô e de um tio-bisavô.

Cortesia de cmtomar

Um trocadilho local diz que, de manhã, o café é o paraíso, à tarde o purgatório e, à noite, o inferno. Alusão ao público predominante que o frequenta: reformados pela manhã e, progressivamente, um público cada vez mais jovem. Já mal se usam cafés assim: não há inox em sítio nenhum. Apenas madeira e ferro, espelhos, mesas em mármore, colunas e um pé direito altíssimo. Numa das paredes, recortes vários a falar do Paraíso. No tecto, duas ventoinhas. O conjunto tem, apesar da patine do tempo, um encanto especial.
Por aqui passa meia Tomar e Umberto Eco, o autor de "O Nome da Rosa", ia escrever numa das mesas, quando esteve na cidade há uns 15 anos. Com uma fachada em vidro (que transformou a fachada anterior, de quatro pórticos), o melhor do Paraíso, segundo a sua proprietária, é o facto de ser um espaço "arejado e ter um pé direito maravilhoso". Intemporal». In António Marujo.

Cortesia da CMTomar/JDACT

domingo, 10 de julho de 2011

Tomar: Pedras Mágicas. Parte II. «Pedras mágicas no convento são as da janela do capítulo, com quatro metros de altura. Estava incorporada na nave que Dom Manuel mandou fazer para ampliar a igreja templária, depois do descobrimento do caminho marítimo para a Índia»

Cortesia de cmtomar 

A Festa dos Tabuleiros é preparada quase em segredo por centenas de pessoas que, durante meses, recortam milhares e milhares de flores e ornamentos em papel - para as ruas do centro histórico de Tomar e para os 700 tabuleiros que este ano desfilarão.

Pedras Mágicas.
«Da memória dos tempos vêm outros sinais, como uma pedra romana que indicia a presença remota no lugar. Ou, mais junto do rio Nabão e ainda perto da roda hidráulica, no centro da cidade, a escultura que representa Santa Iria - na lenda que vem do tempo da evangelização dos visigodos pelos beneditinos, a monja teria sido atirada ao rio por um príncipe apaixonado e não desejado. O seu corpo teria ido depois parar a Santarém, onde o rio se abriu para deixar ver a urna.

Pedras mágicas no convento são as da janela do capítulo, com quatro metros de altura. Estava incorporada na nave que Dom Manuel mandou fazer para ampliar a igreja templária, depois do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, explica Álvaro Barbosa. Mais próxima de nós, hoje, do que a sua altura inicial (o claustro de onde a podemos olhar é posterior), traduz uma profusão de símbolos. Com o mar omnipresente, tendo em conta os Descobrimentos.
A janela é toda uma lição de simbologia. A coluna, cujo fuste faz a analogia ao tronco da árvore, remete para a simbologia bíblica da profecia do livro de Isaías, que no cristianismo é lida como antecipação do nascimento de Cristo: "Brotará um rebento do tronco de Jessé". Mas também ali se representam as armas dos reis portugueses (há uma fivela de cinto, como sinal da entronização real) e elementos de flora, de onde sobressaem as alcachofras e os ramos de vime.

Cortesia de cmtomar

Triste é ver a janela a ser comida por líquenes invasivos. Só terão aparecido depois da plantação de coníferas na Mata dos Sete Montes, diz Álvaro Barbosa. Procurava-se imitar as matas de Sintra que, por sua vez, reproduziam as florestas alemãs. Mas Tomar não é Sintra e o efeito foi encher de líquenes as pedras do convento.
De lado, numa das torres, nota-se já o efeito da limpeza: aplicaram-se pachos biológicos com nutrientes que promovem a emigração dos líquenes da pedra para uma calda biológica. A diferença é notória: a pedra foi devolvida à sua beleza na torre já limpa, continua sujeita à patine do tempo na janela e em grande parte das paredes do edifício. Os mais distraídos podem não reparar que há uma outra janela semelhante. Inicialmente, havia três: uma a Ocidente (a actual) e duas a Sul, uma das quais foi entaipada. A que ainda está visível está junto da charola, num dos corredores da casa do capítulo. Vê-se de cima para baixo.

Chegamos ao outro lugar encantado deste convento, a charola. Conta a lenda que os templários entravam montados nos seus cavalos pelo deambulatório. O responsável do convento diz que é impossível confirmar tal versão - provavelmente apenas uma lenda.

Cortesia de cmtomar

Verdade é que, em 1640, vários conjurados foram ali sagrados cavaleiros, para lutar contra a ocupação filipina. Tomar sempre no centro da história.

"A mística do espaço tem a ver com a memória trazida do Oriente", diz Álvaro Barbosa. A igreja conventual era a de Santa Maria dos Olivais. A igreja da charola, do convento, era dedicada às cerimónias iniciáticas, aprendidas com os cristãos da Síria e os ortodoxos. Colocada no cimo do monte, a charola era a parte mais elevada do lugar.
"É um dos símbolos da mística fundadora de Portugal", diz o conservador do convento. Os edifícios de planta circular são trazidos para Ocidente depois da tomada de Jerusalém pelos cruzados e pelos templários. Na Cidade Santa, havia um templo circular à volta do Santo Sepulcro.
A charola alude, aliás, à morte e ressurreição de Jesus: estão ali representados os instrumentos da paixão e, na nave manuelina, a ressurreição - explica ainda Álvaro Barbosa. "O rei Dom Manuel nunca perdeu a ideia fundiária do espaço: imitar o lugar onde se deu a ressurreição de Cristo." A representação pictórica traduz também esse simbolismo, através de cenas e imagens ligados à vida de Cristo. No tambor central, uma coroa de espinhos esculpida circunda o anagrama de Cristo. Está, no entanto, escondida, mal se vê de baixo». In António Marujo.

Cortesia da CMTomar/JDACT

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Os segredos que Tomar desvenda: Templários. «Esta sala é quase secreta. Tem que se ir buscar a chave, descer umas escadas meio escondidas e entrar numa ligeira penumbra que só a iluminação artificial pode quebrar. Ao fundo, abre-se um vão sobre a mata. Por ali sairiam cavaleiros, à procura de encontros secretos, lugares de fuga ou cerimónias ocultas»

Cortesia de wikipedia

Tomar, onde as flores nascem nas mãos.
«Uma santa atirada ao rio. Uma janela património mundial que fala de uma epopeia. Uma adega que poderia ter sido um lugar de iniciação. A mais antiga sinagoga de Sefarad. Uma mata dos sete montes. Mistérios templários escondidos nas pedras. Um magnífico tríptico fechado à chave. Ir do Paraíso ao inferno num único café. Uma albufeira mágica e um barco no cais.
Esta sala é quase secreta. Tem que se ir buscar a chave, descer umas escadas meio escondidas e entrar numa ligeira penumbra que só a iluminação artificial pode quebrar. Ao fundo, abre-se um vão sobre a mata. Por ali sairiam cavaleiros, à procura de encontros secretos, lugares de fuga ou cerimónias ocultas. Para aceder à adega - seria aqui a adega do Convento de Cristo, em Tomar, descem-se sete degraus. Número mítico, símbolo da perfeição na linguagem bíblica. São degraus fora da proporção, que vão aumentando de altura de baixo para cima.


Cortesia de wikipedia

Também no tecto se podem ver símbolos relacionados com a figura da mãe de Jesus:
  • rosas, conchas, antes de ser símbolo de Compostela, a concha era já símbolo de Nossa Senhora, remetem para Maria de Nazaré como vaso de vida, explica o arquitecto Álvaro José Barbosa, ex-director e actual conservador do Convento de Cristo.
Não se sabe a razão de, numa adega, encontrarmos esta decoração, que se repete na cozinha. Certo é que Nossa Senhora da Conceição foi invocada como padroeira da Ordem de Cristo quando, há sete séculos, esta herdou os membros e património dos Templários em Portugal.
A adega, que para alguns era, antes, uma sala de iniciação aos segredos templários - levava ao lado de fora. Ali estava a cerca do convento e a floresta, que já foi «tão densa» que estava vedada «não só aos olhos da vista mas também do espírito», como escrevia Fernão Álvares do Oriente na novela Lusitânia Transformada.
A Mata dos Sete Montes, que está a sofrer pequenas obras de beneficiação para reabrir a tempo da Festa dos Tabuleiros, era o espaço rústico do convento, explica Álvaro Barbosa. Ali, os monges podiam isolar-se e o boticário podia também ir procurar as plantas para as mezinhas e outros remédios.


Cortesia de wikipedia

Voltamos a encontrar decoração noutro lugar simples como a cozinha. Flores, cálices, cruzes... «O símbolo destinava-se a exprimir conceitos» diz o ex-director do Convento. Provavelmente, acrescenta, seria um modo de levar os monges a recordar em permanência as razões da sua vida naquele lugar. Mas não há certezas. Sabe-se, no entanto, que o complexo constituído pelo Convento de Cristo e pelo Castelo de Tomar, incluindo a Mata dos Sete Montes, está ligado intimamente à História de Portugal.
Essa relação é dominada pela forte presença templária, já que os cavaleiros da Ordem do Templo são chamados a repovoar o território depois da sua conquista aos reinos muçulmanos. Gualdim Pais, mestre da ordem, é o promotor da construção do castelo de Tomar, em 1160. Mas também Almourol, Pombal, Atalaia, Langalhão, Dornes ou Cardiga são entregues aos templários.

Mais tarde, os templários dão lugar, em Portugal, à Ordem de Cristo, em 1319. E, um século depois, o seu grão-mestre será o Infante Dom Henrique, primeiro não-clérigo no cargo, que traz para a antiga casa militar do castelo, entretanto transformada em convento, um grupo de frades orantes. Mais 100 anos e o rei Dom Manuel faz do paço a sua residência favorita, promove o seu alargamento e manda fazer um corpo de igreja com coro alto e pintar a charola, além de outras obras. Com a rainha Catarina, mulher de Dom João III, o edifício torna-se palácio real». In António Marujo.


Cortesia da CMTomar/JDACT

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte II. «... sobreveio ao cabo de 25 anos de relativa tranquilidade... em que a guerra civil, determinada pela proclamação de D. Miguel como rei absoluto, ali entrou violentamente, perturbando o povoado, com tumultos, atrocidades e atentados. Toda a vila aderiu à causa liberal, que antes de 8 meses devia conquistar o triunfo na Batalha da Asseiceira»

Cortesia de wufp

«Entre os povos que antes de nós, e em épocas diversas, possuíram a parte do solo hispânico onde a pátria portuguesa fixou e avigorou as suas raízes de nação livre, houve dois, o Romano e o Árabe, que, mestres na arte da guerra, deixaram ao mundo moderno preciosas lições de arquitectura militar e, ainda mais, aquilo a que se pode chamar a ciência topográfica das fortificações, ciência que consistia não só na escolha dos lugares que cumpria fortificar, mas também na distribuição desses lugares em todo o território ameaçado. No nosso País, se sondássemos oa alicerces ou os subalicerces de antigos castelos e fortalezas, encontraríamos quae sempre iniludíveis vestígios de obra romana ou de obra mourisca. Um e outro, esses dois povos, ambos conquistadores e invasores tão duramente combatidos, foram também nossos mestres.

Assim, hoje, um só olhar atento e compreensivo basta para denunciar a origem mourisca do castelo de Óbidos e desautorizar a opinião daqueles que levianamente atribuíram  a D. Dinis a sua fundação. Sim, em 1148, quando D. Afonso Henriques, depois das vitórias alcançadas em Santarém, Lisboa e outras povoações fortificadas da terra estremenha, se assenhoreou de Óbidos, já ali existia, bem firme em sobranceiro trono de rocha viva, um castelo edificado pelos descendentes daqueles que, quatro séculos antes, em 714, após a desastrosa batalha de Guadalete, gritando vitoriamente os nomes de Alá e do seu Profeta, invadiram e submeteram, de Sul a Norte, quase todo o cobiçado solo da Península. É possível, e até provável, que naquele mesmo lugar tivesse existido anteriormente outra fortaleza construida pelos Romanos; todavia, não há nenhuma notícia segura desse facto. Somente o exame dos mais profundos alicerces da construção poderia desvendar tão antigo segredo.

Cortesia de chilacamomila
Só os alicerces do castelo? Talvez ainda os de toda a povoação; pois é certo que Óbidos, tendo chegado aos nossos dias estreitamente cingida pelas suas muralhas medievais, forma com o castelo um todo indivisível. Um autor seiscentista, Jorge Cardoso, reconhecendo tal facto no seu Agiológico compara aquele arrogante conjunto de fortificações a uma nau, «servindo de popa o castelo, de proa a Torre do Facho e de mastro a do Relógio, que fica no meio da vila».
D. Afonso Henriques, depois da vitória de 1148, não se limitou a reparar os estragos causados no castelo pela terrível luta em que se empenhou para vencer a heróica resistência dos sarracenos; as muralhas exteriores deviam ter sido igualmente recompostas e até reforçadas sem detença, a fim de poderem proteger como cumpria a nova população cristã que ali enraízou logo em seguida. D. Sancho I mandou efectuar obras conforme testemunha a inscrição existente na chamada Torre de Facho.
D. Dinis foi, entre os monarcas que se seguiram, o mais diligente reconstrutor do Castelo e das muralhas e deve-se-lhe segundo se crê, a construção de uma nova torre, que ainda hoje conserva o seu nome.

Cortesia de IGESPAR 
Só em 1375, reinava então D. Fernando novas obras foram realizadas em Óbidos e que abrangeram a construção da Torre de Menagem, concluída em 1375 (ano de 1413 da era hispânica), segundo atesta uma inscrição gravada num dos umbrais da respectiva porta. D. Manuel, que em toda a parte deixou vestígios da sua administração eminentemente progressiva e construtiva, também vinculou o seu nome à conservação do Castelo de Óbidos com pormenores arquitectónicos caracterizados pela graça do seu «manuelino». Depois, como a política de D. João III foi sempre inspirada pelo pensamento de consolidar a paz peninsular, inaugurada por seu pai, e nunca teve qualquer repercussão notável, naqueles sítios, a guerra civil motivada pelas pretensões, legítimas direi eu, do Prior do Crato (D. António I), só no século seguinte, em 1642, foram ordenadas novas obras, tanto no Castelo como nas demais fortificações, quando o novo rei, D. João IV, resolveu atender os respectivos moradores, que instantemente lhe pediram «mandasse reformar os muros e as portas da vila, por tudo estar danificado».
Após essa época de inquietação geral, que durou 28 anos, sem que o valor defensivo das fortificações nem o brio patriótico da respectiva guarnição fossem jamais sujeitos a qualquer prova, ainda se tentou centralizar ali, em 1673, cinco anos depois de assinada a paz, alguns dos principais fios de uma conspiração urdida contra o regente do reino, D. Pedro II, pelo Conde de Humanes, embaixador de espanha na corte de Lisboa. Descoberto a tempo esse tenebroso enredo, que compreendia o assassinato do Regente, de sua mulher e da pequenina infanta D. Isabel Luísa Josefa (então sua única filha), quando ele e elas estivessem a banhos nas Caldas da Rainha, foi o infiel embaixador reenviado para o seu país e imediatamente justiçados vários Portugueses delinquentes. Alguns, de Óbidos, morreramtambém na forca ali erguida dentro das muralhas, com aplauso dos patriotas que abundavam entre os seu moradores.

Cortesia de IGESPAR
Volvidos 175 anos, no decurso da primeira invasão francesa, um novo alarme sobressaltou os moradores de Óbidos. Os ecos de uma brava peleja travada em lugar vizinho, entre as avançadas tropas anglo-portuguesas, comandadas por Wellesley, e a rectaguarda de um dos exércitos invasores chefiado por Delaborde. Esse combate, ocasionado em 15 de Agosto de 1808 constituiu a primeira fase da gloriosa batalha ganha dois dias depois, pelos dois aliados antinapoleónicos, nos campos da Roliça, a 6 km daqueles sítios.
Outra, mais importante, por lhe exigir participação directa e também algum sacrifício de vulto, sobreveio ao cabo de 25 anos de relativa tranquilidade, pois houve um dia  em que a guerra civil, determinada pela proclamação de D. Miguel como rei absoluto, ali entrou violentamente, e violentamente perturbou, durante algum tempo todo o povoado, com grandes tumultos, algumas atrocidades, atentados de vária espécie, e até estragos materiais de considerável importância. Dominada pelas forças miguelistas, Óbidos só recuperou o perdido sossego depois de 29 de Setembro de 1833, data em que a tomou Sá da Bandeira, em um memorável assalto. Toda a vila aderiu à causa liberal, que antes de 8 meses devia conquistar o triunfo definitivo na Batalha da Asseiceira». In IGESPAR.

Continua.
Cortesia de IGESPAR/JDACT

terça-feira, 13 de abril de 2010

Numão: Uma povoação muito antiga e habitada por povos Celtas antes da romanização

Cortesia de eritage2008
Numão é uma população muito antiga, provavelmente habitada por povos celtas antes da romanização.
Pertence ao concelho de Vila Nova de Foz Côa.
Do período romano, subsistem vários monumentos, nomeadamente fontes, a ponte sobre a ribeira Teja, Inscrições, e as colunas do fórum romano situadas no castelo.
O castelo tem uma igreja românica, uma cisterna, e as muralhas com seis torres, que foram reconstruídas na época medieval e nos anos 50 do século passado.
Podem ainda ver-se numerosas sepulturas antropomórficas, dentro e fora do castelo.
Nos mapas medievais a população designa-se Nonian e obteve o primeiro foral ainda antes da independência de Portugal, e obteve novo foral na época Manuelina. Foi vila até ao século XVIII. «A freguesia de Numão, amplamente estudada neste século por uma multiplicidade de investigadores, tem uma história resplandecente, com um auge assinalável em plena Idade Média. Podendo existir vestígios de uma Pré-História distante, são no entanto já certos e inventariados restos de povoados do Calcolítico a Bronze. Nos «cerros» do «Sobreiral», que inventariámos com a denominação de «Citânia da Teja», fomos encontrar enormes vestígios de uma Pré-História recente (III a II milénios antes de Cristo). Também no morro do Castelo se pode recolher cerâmica destes períodos, o que, «a priori», nos leva a induzir da ocupação do «morro de Numão» desde tempos imemoriais. Teria sido este morro resguardado de povoados do Cobre, do Bronze, do Ferro, fortaleza Romana (?) destruída pelos Árabes, fortaleza Medieval até à pacificação do território Português (após afastada a «Mourama» e delimitadas as fronteiras)?
Do período Pré-Histórico são inúmeros os materiais (essencialmente machados de anfibolite) que se encontram numa colecção particular hoje pertencente ao Senhor Engº Carlos Lacerda. Quanto à fixação Romana, por aqui restaram e se misturaram com os povos autóctones, podendo nós encontrar vestígios (enterrados) na parte baixa da actual freguesia. Inúmeros materiais deste período, com incidência para moedas e pesos de tear em barro foram recolhidos pelo médico Dr. João Gouveia. Restos de colunas em granito, bases e capitéis e outros materiais têm sido exumados em vários pontos da freguesia.
Desses primeiros séculos da nossa era, ficou-nos uma «ara votiva» dedicada aos Deuses e Deusas CONIUMBRICENSES! Durante muitos anos os investigadores ligaram os CONIUM aos CONIM (versus Conimbricenses), o que levou a interpretar a dedicatória aos Deuses de Conímbriga! No entanto, hoje, à luz de uma nova investigação e reinterpretação dos textos, podemos verificar, num documento do século XIII, a referência a «um lugar contra Columbria», provavelmente a tal Coniumbriga que se refere na Ara de Numão! Daí a nossa inclinação para a existência naquele lugar de uma grande «VICUS» e porque não uma «CIVITAS» com a denominação provável de CONIUMBRIGA. Deste período de ocupação são ainda duas inscrições na rocha granítica, uma junto ao Castelo, no caminho do Areal, onde se cita a gens que fez a estrada Romana; outra no lugar da Telheira, onde ficou registado o nome do proprietário (um tal REBURRI). Vários outros lugares com vestígios da «época dos Imperadores» encontram-se espalhados pela área, sobressaindo os lagares e lagaretas, no Morgado, no Arnozelo e outros lugares». In CMVila Nova de Foz Côa.

Cortesia de eritage2008
«Em 960, o castelo de Numão pertencia, juntamente com outros, a D. Châmoa Rodrigues que o doou ao convento de Guimarães, através de sua tia, a Condessa Mumadona. Deve, entretanto, ter sido ocupado pelos mouros, pois, segundo alguns, Numão terá sido reconquistado por Fernando I, o Magno, de Leão, em 1055. O convento vimaranense manteve, contudo, o interesse por este castelo, dado que um inventário das suas propriedades, datado de 1059, continua a mencioná-lo. A vila de Numão teria ficado, em resultado das investidas árabes, completamente abandonada. Se isso na verdade aconteceu, não durou, todavia, muito tempo uma vez que pouco depois, em 8 de Julho de 1130, D. Fernão Mendes de Bragança e seus filhos dão-lhe o primeiro foral. O castelo primitivo deve ter sofrido bastante nas lutas com os mouros, levando a que nele se realizassem obras de melhoramento, em 1189, no reinado de D. Sancho I. Vestígio ainda dessa época - século XII - é um Cristo de bronze esmaltado, de Limoges, testemunho, talvez, da presença de cruzados franceses nas lutas contra o Islão. A própria Igreja Matriz, apesar de todas as adulterações sofridas ao longo dos tempos, é de traça românica, assim como a Igreja de Santa Maria, construída dentro do castelo e hoje em ruínas. Em 1247, era tenente da «terra» D. Afonso Lopes de Baião a quem, como representante régio que era, competia exercer funções de carácter administrativo e militar. A conservação do castelo preocupa ainda D. Dinis que, em 1285, o mandou reconstruir. Em 1373 era alcaide de Numão Vasco Fernandes Coutinho, um dos homens mais poderosos das Beiras. Durante a crise nacional do fim da primeira dinastia, o concelho de Numão adoptou uma posição mais favorável à princesa D. Beatriz, nomeando inclusive um procurador às Cortes de Torres Novas de 1380.
No século XV, o julgado de Numão era obrigado a contribuir com 12 besteiros, sinal da sua importância militar. Em 1512, D. Manuel I concede-lhe a carta de foral nova, isto numa época em que Numão e o seu termo estaria com uma população de cerca de 300 moradores.

Posteriormente, a importância de Numão começou a enfraquecer, deixando mesmo de ser o local de residência de algumas das suas autoridades mais importantes. A própria justiça que aí se administrava foi contestada, levando a população a pedir a substituição dos juizes locais por juizes de fora, acusando-os de serem aparentados uns com os outros e de não serem imparciais. A partir de meados do século XVII deixa de ser definitivamente a sede do concelho que muda para uma das suas antigas freguesias - Freixo de Numão - localidade onde passam a residir os juizes de fora, novos administradores do concelho.
No século XVIII, Numão deve também ser sido vítima do célebre terramoto de 1755, dadas as várias datas oitocentistas inscritas nas paredes da Igreja Matriz. Como a generalidade das povoações do concelho apresentou um crescimento populacional contínuo desde o século XVIII até que, já no nosso século, a sangria da emigração o veio anular.
Do muito que já se escreveu sobre Numão, queremos deixar aqui reproduzidas algumas citações da obra «História da Diocese de Lamego» do Dr. Manuel Gonçalves da Costa:
1. O Castelo de Numão, tanto no sentido de fortaleza que de facto foi como de cabeça administrativa dum território, desempenhou papel de primordial importância ao longo da história como baluarte fronteiriço e estratégico do alfoz pelo rio Douro a norte, Custóias a poente, a sul por uma calçada provavelmente romana que desembocava próximo da confluência da ribeira de Duas Casas com a de Tourões, e a nascente pelo veio do rio Águeda. A vasta área deste alfoz, significa, para R. Pinto de Azevedo, a realidade do despovoamento da região, confirmada aliás por outros documentos. Estaria pois na intenção do donatário promover o repovoamento da terra. No respeitante a rendas e direitos, dispôs o foral de D. Afonso III que, em vez do oitavo da cevada, cada morador da vila e termo pagasse 2 alqueires acrescidos de 5 reais «da nossa moeda de 6 ceitis». A pena de arma revertia a favor dos juizes ou do alcaide; os maninhos e um terço dos montados pertenciam ao concelho, sendo os outros dois terços do senhorio, bem como o gado ao vento, ficando a pessoa que o achasse obrigada a declará-lo ao escrivão dentro de 10 dias, sob pena de ver-se «demandado» por furto. Apenas a portagem de compra e venda se reservava como direito real.

Ainda no reinado do Bolonhês surgiu uma disputa entre o concelho e Santa Cruz de Vilariça, sobre parte da veiga de Santa Maria, além-Douro, «contra Columbria», mandada «apegar» pelos moradores de Numâo. Estes fizeram-se representar na corte pelo seu procurador Egas Anes (Egeas Joanes) e depois de discutidas as pretensões das duas partes, acordou-se em partir o lugar ao meio a fim de ambos os concelhos o povoarem e granjearem, excepto o barco e o porto com o respectivo «cartario», acordo confirmado por el-rei em Santarém, a 8 de Fevereiro de 1263. Na crise nacional que se seguiu à morte de D. Fernando, o município numantino tomou o partido da rainha de Castela, solidarizando-se com as outras vilas acasteladas de Penedono, Pinhel, Sabugal, Castelo Rodrigo e Trancoso. Consequentemente, os juizes, juntos «por concelho apregoado» segundo o uso e costume, constituíram «por nosso lydimo avontoso procurador, autor e mensageiro especial» a João Antão, natural de Mós, para em seu nome eleger, por sucessora de D. Fernando, a sua filha Dona Beatriz. Firmes na sua oposição às pretensões do mestre de Avis e ao sentimento geral da nação, os numantinos voltaram a reunir-se três anos mais tarde e escolheram o juiz Afonso Domingues como seu representante no casamento da infanta com D. João de Castela, em documento lavrado pelo tabelião Afonso Fernandes».

«Mantêm-se ainda algumas casas de granito que convém preservar, sob pena de se virem a perder características urbanas que, sem serem muito seculares (a partir do século XVII), são no entanto dignas de preservação, com saliência para as casas com traça de arquitectura «Judaica».
Na Arquitectura Religiosa, saliência para: IGREJA MATRIZ - dos séculos XVI-XVII, a atestar pelas datas do 1630 ou 1632 gravadas na cabeceira, e a de 1699 no muro sul. Deve ter sido restaurada no século XVIII. No púlpito encontra-se gravada da data do 1729. Tem nave única; portais em arco de volta perfeita; torre sineira adossada, com coroamento em meia esfera; abóbada de berço em madeira com a «Última Ceia» pintada; altares em talha dourada. CAPELA DE SANTA TERESA - Datada do 1710, com inscrição no lintel da porta. Tem nave única; porta em arco recto, rematada por friso encimado por pedra de armas; altar em talha setecentista. CAPELA DE SANTA EUFÊMIA - Do século XVI, recentemente descaracterizada. Tem nave única; pórtico em arco de volta perfeita; possui púlpito exterior; altar de talha setecentista, mas de carácter popular. CASTELO - Monumento Nacional por D.L. do 16/6/1910. É de planta de configuração irregular; quase não apresenta ameias; possui três portas (a do Poente, a do Arco e a de S. Pedro), torre de menagem e quatro torres. Integra, intra-muros, ruínas da igreja românica de Santa Maria. Extra-muros existe uma Necrópole com sepulturas cavadas na rocha, junto às ruínas da antiga Capela (ou igreja) de S. Pedro, extra-muros». In CMVila Nova de Foz Côa.



Bibliografia:
António N. Sá Coixão e António R. Trabulo, Por Terras do concelho de Foz Côa - Susídios para a sua História - Estudo e Inventário do seu Património, Vila Nova de Foz Côa, Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, 2ª edição - 1999.
guiadacidade/CMVNFoz Côa/JDACT