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segunda-feira, 6 de abril de 2020

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «As bibliotecas públicas de leitura gratuita e domiciliária, eram enquanto bibliotecas populares, destinadas a um público que, embora mal tivesse aprendido a ler e a escrever…»

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As bibliotecas populares e a leitura pública. A criação da leitura pública
«(…) A preocupação com a leitura para benefício do povo é um conceito que surge integrado nos ideais iluministas do século XVIII, difundidos através da Revolução Francesa de 1789. Surgem as primeiras bibliotecas populares e o papel do bibliotecário começa a ser valorizado, porque os livros deviam estar acessíveis a toda a população. No entanto, é na América do século XIX que este conceito tem o maior desenvolvimento. Todos, independentemente da sua condição de nascimento, deviam ser educados para se tornarem bons cidadãos.
Biblioteca pública e escola são conceitos que surgem intimamente ligados. A biblioteca pública é a escola informal para toda a vida do cidadão, numa ideia de aprendizagem contínua Em Portugal, as ideias liberais levaram à criação da primeira biblioteca pública em 1836 no Porto, a partir da incorporação dos bens das ordens religiosas, facto que se estende às capitais de distrito a partir de uma Ordem de Agosto daquele ano de 1836. Devido ao carácter dos seus acervos, estas bibliotecas portuguesas revelaram uma faceta de conhecimento erudito, pouco acessível a todas as camadas da população com problemas graves de analfabetismo, e constituíram-se mais como depósitos do património documental português, do que com o objectivo (então afirmado) de instruir o povo, permitindo-lhe um livre acesso.
O movimento de criação de bibliotecas populares para combater os problemas da info-exclusão de grandes franjas da população portuguesa começou em 1870, pelo Decreto de 2 de Agosto. Os objectivos destas bibliotecas prendiam-se com a disponibilização do acesso a conhecimentos gerais às camadas populares da população, com o apoio à sua formação profissional, ou seja, como complemento do ensino formal, e por fim, facilitar a leitura a mulheres e crianças. Tratava-se, concretamente, de um público masculino e feminino, constituído indiscriminadamente por adultos, jovens e crianças, diz-nos Magalhães (2003). As bibliotecas criadas neste âmbito foram as de Setúbal (1873), de Santarém (1880), Coimbra (1892), Guimarães (1883). Seguidamente, aproveitando a situação criada com a extinção das ordens religiosas, outros municípios de menor dimensão procuraram implementar pequenas bibliotecas municipais.
De início, as bibliotecas eram uma possibilidade das camadas populares terem acesso à cultura das classes privilegiadas. Segundo Magalhães (2003):

As bibliotecas públicas de leitura gratuita e domiciliária, eram enquanto bibliotecas populares, destinadas a um público que, embora mal tivesse aprendido a ler e a escrever, corria o risco de, por falta de meios, ler ainda menos do que aquilo que aprendera.

As bibliotecas populares tornam-se assim num factor de coesão social e de progresso económico e de iniciativa oficial.

Extinção dos conventos e criação do DLEC (Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos)
Com a extinção das Ordens Religiosas em Portugal, em 1833, que formaram e mantiveram durante séculos as verdadeiras bibliotecas deste país, o património artístico-cultural português sofrera um grande abalo. Por isso, uma portaria de 9 de Setembro de 1834 determinou a criação de bibliotecas públicas com os livros dos conventos e ordens religiosas. Barata (2003) refere:

Ainda antes do Decreto de 28 de Maio de 1834, que extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer casas de religiosos de todas as ordens regulares (...) adoptaram-se várias medidas legislativas tendentes a salvaguardar diversas bibliotecas conventuais, tendo elas como destinatário natural a Biblioteca Pública.

Barata explica que é a partir da Biblioteca Pública que surge a ideia de criar um depósito geral: é então que do seio da Biblioteca Pública parte a ideia do estabelecimento de um Depósito Geral… Esta Biblioteca Pública vai administrar as livrarias provenientes dos conventos extintos, mesmo durante a vigência do Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos (DLEC)». In Filomena M. F. Sousa Bruno, Mestrado em Formação de Adultos e Desenvolvimento Local, ESE Portalegre, 2010, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

quinta-feira, 2 de abril de 2020

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Se indagarmos quantas são as escolas, ficaremos sabendo que, em números redondos, há 3700 do sexo masculino e apenas 840 do sexo feminino»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) A alfabetização e a educação cívica tornam-se num projecto tanto destinado às crianças como aos adultos: a instrução e a moral devem ser duas companheiras inseparáveis do homem. (Goodolphim). A instrução, segundo Vieira Silva, tipógrafo do jornal Ecos dos Operários (1850/51) é o melhor meio de moralizar, por outras palavras, previne o operário dos malefícios das plebes urbanas, torna-lhe agradável e fácil o trabalho e confere os princípios e a prática que lhe garantem o bem-estar físico. Confere-lhes não só a liberdade mas também a igualdade.

Instrução da Mulher em Portugal. Importância das Bibliotecas Populares na instrução feminina
António Costa defende já nos finais do século XVIII a instrução da mulher: as mães occupadas com o lidar da casa, ou fora d'ella occupadas também em trabalhar para compensarem a insufficiencia do ganho dos maridos, não têem tempo que lhes chegue. Ahi está a educação das classes populares no lar domestico. (...) Como ha de ensinar e educar os filhos a mãe que não foi educada nem ensinada? Como ha de formar homens e cidadãos aquella que foi deixada na mais completa ignorância? (Costa).
No livro de Joaquim Ferreira Gomes, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, intitulado Estudos para a História da Educação no século XIX, pode ler-se o seguinte:

A instrução da mulher, na organização do ensino público entre nós, está num imenso atraso. Os factos provam esta verdade. Se indagarmos quantas são as escolas, ficaremos sabendo que, em números redondos, há 3700 do sexo masculino e apenas 840 do sexo feminino. De 4 000 freguesias, 3650 não possuem escolas para mulheres (Gomes).

Mais adiante, Ferreira Gomes transcreve, do Relatório do Decreto de 16 de Agosto de 1870, o seguinte: com uma população de 4 200 000 habitantes no Continente e com 4 800 freguesias, tem Portugal apenas (segundo os últimos dados) 2 300 escolas oficiais e, destas, só 350 são do sexo feminino. Curiosamente, no jornal O Alto Alentejo, de 23 de Agosto de 1908, ainda se lê: não gosto que a minha filha aprenda a ler porque é a perdição das mulheres conta-nos a propósito dos pais não mandarem os filhos à escola, o cronista do jornal O Distrito, que assina João Ninguém. Segundo António Costa em Portugal educam-se incomparavelmente menos mulheres do que homens. As Bibliotecas Populares proporcionariam às mulheres a possibilidade de aumentar a sua instrução. Segundo o Ministro da Instrução, António Costa: o empréstimo pelas casas promove a leitura das mães, das esposas, das filhas, que não concorreriam à bibliotheca, já pela sua lida caseira, já pela discordância com os costumes nacionaes.
E acrescenta ainda que a leitura pelas casas não aproveita só ao leitor porque a discussão familiar que se levantasse em commum crearia no lar um espírito de instrucção que junto ao succedido em outras famílias produziria resultados geraes de vantagem incontestável. Mas como poderia a leitura, a que poucas mulheres tinham acesso nestas bibliotecas, contribuir para a sua instrução? Afinal que obras liam? Como lidavam com a leitura no seu quotidiano? Marlyn Lyons, num artigo intitulado Os novos leitores no século XIX: mulheres, crianças, operários, através dos depoimentos deixados por leitoras da época, do número registado de tiragens de revistas, jornais produzidos por mulheres ou directamente dirigidos para o público leitor feminino, delineia a figura da mulher leitora, no decorrer de todo o século XIX, na Europa. Segundo Lyons, a leitora constitui parte substancial e crescente de um novo público que não só devora romances, mas também lê revistas para mulheres, vida de santos, manuais de cozinha, conselhos sobre etiqueta, revistas semanais ilustradas. Uma leitora que passa a ser objecto de cuidado por parte de romancistas e editores, profissionais que exploram ao máximo as novas capacidades de investimento capitalista.
Neste estudo, seria importante saber se as mulheres tinham acesso a esta(s) biblioteca(s), se poderiam mesmo ser sócias e acima de tudo se essa possibilidade lhes fosse dada, quem eram elas afinal? Que tipo de obras requisitavam e com que frequência? Seria interessante fazer um paralelismo entre o universo feminino que tinha acesso a este acervo e o tipo de população feminina existente nesta época em Castelo de Vide». In Filomena M. F. Sousa Bruno, Mestrado em Formação de Adultos e Desenvolvimento Local, ESE Portalegre, 2010, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Neste caso concreto, o que significava povo para a as associações estudadas? José António Serrano, um dos principais fundadores destas associações, refere-se ao povo como público-alvo da associação do Gremio de Ilustração Popular, na conferência que dá em 1871, em Castelo de Vide:

O meu programa é este, a associação de que vos falo tem por fim concorrer simultaneamente para a illustração dos que a formam e para a illustração do povo. (1871: 8)

E acrescenta:

Vós os que me ouvirdes, vós, os que acudirdes ao meu brado, estudareis e ensinareis; estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca; haverá certames literários; e para isso organizar-se-hão saraus litterários, e podendo ser abrir-se-hão escolas, editar-se-hão livros. Estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca (Serrano, l871).

Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos:

o povo, sabeis o que é o povo? O português? Sciencia, literatura, governos, tudo tem mudado e tem mudado progredindo. (...) Mas o povo não mudou, o povo está; e sabeis onde e como? Encastellado na sua ignorância e agarrado aos seus prejuízos, amando o passado e evocando-o, maldizendo o presente e repellindo-o, sem fé na sciencia, sem fé nos homens (...) O século dezanove, infinda cousa coincide com a idade media (Laranjo, 1870).

A Educação Popular deve ser uma educação participativa, orientada para a realização dos direitos do povo. Não é uma educação imposta pois baseia-se no saber da comunidade e parte geralmente do diálogo entre a população. Não é Educação Informal porque visa a formação de sujeitos com conhecimento e consciência cidadã. É uma estratégia de construção da participação popular para encontrar novos caminhos na vida social. A principal característica da Educação Popular é utilizar o saber da comunidade como matéria-prima para o ensino. Visa aprender a partir do conhecimento que o sujeito possuiu. Visa ensinar a partir de temas geradores, motivações e interesses do quotidiano do formando. A educação é vista como acto de conhecimento e transformação social.
A educação popular pode ser desenvolvida em qualquer contexto, mas tem geralmente lugar em locais rurais, em instituições socioeducativas e no ensino de jovens e adultos. Nas décadas finais do século XIX, o tema da educação popular entra na ordem do dia, associado à descoberta dos elevados índices de analfabetismo da população portuguesa. A instrução do povo era vista como fonte de progresso, novamente segundo António Costa:

A instrucção popular cria um grande capital financeiro no desenvolvimento dos espíritos. Quanto mais apurados forem os conhecimentos dos operários e dos trabalhadores, mais perfeitos, e por isso mais rendosos serão os produtos industriaes e agrícolas. O salário dos operários, o lucro dos capitalistas e a prosperidade do paiz crescem na proporção em que se augmenta a cultura das intelligencias e a melhoria do trabalho individual (1870).

No jornal O Castellovidense de 19 de Janeiro de 1910, pode ler-se:

A instrucção é como o sol que ilumina e os paes analfabetos criam filhos analfabetos que não sabendo ler nem escrever não podem acompanhar o progresso das artes, das industrias, não podem desenvolver a nossa agricultura e o nosso comercio.

A instrução popular era também vista como regeneração social:

A educação do povo estreita o bom commercio da vizinhança, derrama nos centros da população o pensamento do bem, semeia os principios da ordem e da virtude, e se não consegue extinguir o mal, pugna com elle e enfraquece-o. É facto averiguado que a instrucção diminue os crimes e restringe a miséria (Costa,1870).

O ideal da formação do cidadão consciente e participativo fazia com que o analfabeto não pudesse assumir o papel de cidadão, eleitor, que a República tanto viria a apregoar». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «… todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006)»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Em Portugal, na época, era o Estado o elemento principal da instrução primária. O regime liberal trouxera importantes princípios: o direito à instrução gratuita, o ensino obrigatório, as escolas normais, o segundo grau, os cursos nocturnos. Em trinta anos, segundo António Costa (1870), as escolas primárias haviam passado de 991 para 2313, tendo aumentado também as escolas do sexo feminino de 25 para 348, e o orçamento despendido duplicara. A reforma de 20 de Setembro de l844, concedeu às câmaras e corporações locais a livre autorização para com os seus orçamentos, fundarem escolas primárias. No entanto, esta organização local do ensino, apostando no municipalismo como auxiliar do Estado, não satisfazia as necessidades de instrução. A instrução primária recebe também auxílio da acção particular, mas se das 125 escolas sustentadas por associações e iniciativa individual, deduzirmos as 79 que possuem Lisboa, o Porto e Bragança, restam-nos apenas 46 no reino e ilhas. Em suma, as associações preocupavam-se mais com as questões da piedade do que com as questões do ensino e a instrução primária continuava dependente da acção centralizadora do Governo, não recebendo da localidade nem da iniciativa dos cidadãos o auxílio necessário. Era assim urgente nacionalizar a escola local e popularizá-la. A escola deveria contar com a ajuda do Estado, do município e da iniciativa particular. Nas palavras de António Costa:

Pretende uma associação, um indivíduo fundar uma escola, uma bibliotheca popular, uma publicação útil para as classes populares? Saiba desde logo o individuo ou a associação, que a sua idea se não há de esterilisar, que o estado o há de auxiliar no benéfico propósito.

António da Costa dizia-nos ainda:

Vimos a organisação da nossa instrucção primária, por excepção única no mundo, basear-se na centralisação do estado, figurando a localidade, e a iniciativa particular como tentativas proveitosas, mas não como elementos nacionaes da educação publica (1871).

Conceito de Povo e de Educação Popular no século XIX
Poucas palavras têm um emprego tão frequente quanto a palavra povo. Esse uso imoderado, embora natural no mundo em que vivemos, deu ao vocábulo uma significação tão genérica, que a despojou de qualquer compromisso com a realidade. Todos se consideram povo. No entanto, nem sempre assim foi. Facto é que o conceito de povo se encontrava ligado à situação económica de classes sociais. Algumas correntes identificam o povo com os trabalhadores. É verdade que em todas as fases históricas, o povo se identificou com as classes trabalhadoras. No entanto, isto não passa de uma inequívoca limitação. É importante assinalar que o conceito de povo não pode ser definido senão considerando as condições reais de tempo e de lugar. Nos finais do século XVIII, o conceito de povo compreendia a burguesia.
Para Jaime Cortesão, historiador português do século XX, (citado por Pintassilgo, 2006), o povo abarca todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006). No entanto, como nos refere o mesmo autor, nas reflexões de Cortesão, encontramos um olhar sobre o Povo marcado por alguma ambivalência: não obstante a ignorância que o caracteriza, mantém algumas das virtudes da raça». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348…»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Ler, mas ler mal, era a missão da escola, Do dizer de António Costa (1870:22). A Instrução do Povo foi o objectivo das nações e do nacionalismo, sobretudo a partir de finais de setecentos, embora as suas raízes remontem à invenção da imprensa, que tornou possível o proselitismo protestante e católico do século XVI e seguintes. Em Portugal, uma questão que parecia pertinente era a de saber se o povo devia ler. O debate iria prolongar-se até à segunda metade do século XIX. Para uns não havia qualquer dúvida sobre a necessidade e urgência de todo o povo receber uma instrução elementar e, portanto, aprender a ler e escrever; já para outros, o filho do camponês e do pastor deviam continuar o ofício do pai. Uns defendiam a instrução popular, em todos os estratos e sem discriminação de sexo, enquanto outros insistiam numa via elitista, defendendo um ensino para a nobreza e burguesia, considerando que nas aldeias não devia haver escolas e não se referindo praticamente a um ensino no feminino.
António Costa defendia uma instrução nacional para todas as classes sociais. Num artigo escrito para o periódico A Folha, Frederico Laranjo confirma-nos essa ideologia:

A instrucção nacional de que D. António Costa nos falla é a instrução primaria, a instrucção que se pode e se deve derramar por todas as classes, a luz que é precisa para todos os espíritos, como a do sol para todos os corpos (Laranjo, 1870: 93).

As leituras das gentes do povo são ainda reveladoras de um sentido: saber ler é útil para a vida. Os livros dirigidos ao povo deviam ser escritos em português e num estilo simples e acessível. Mas livros deste género não abundavam, seja porque a conjuntura política estava conturbada, seja porque as instituições vocacionadas para a difusão das luzes pareciam alhear-se do problema que era o nosso atraso cultural, neste domínio da instrução popular. Podemos dizer que o conjunto de textos para instrução económica obedecia a um objectivo bem preciso. Para o povo, as elites intelectuais e políticas pensavam e ofereciam produtos de baixa qualidade e custo: manuais em estilo catequético e o ensino mútuo. Porque as elites continuavam o velho preconceito voltairiano: o povo era estúpido, portanto, não era dado a abstracções, nem a grandes leituras. Preconceito que, partindo da afirmação da superioridade intelectual dos homens bem instruídos, levava a procurar doutrinar o povo, mais do que a aprender com o povo, ou a olhar para os grupos populares como dotados de um saber e cultura genuínas.
A escola necessitava de constituir-se como algo novo, que desse resposta à necessidade de uma formação integral do Homem nas suas componentes física, intelectual e moral, uma vez que o Homem deve ser visto como um ente physico, intellectual e moral. Para o homem das classes populares, a Escola assume um papel muito importante. Segundo António Costa, a Educação permite a um Povo salvaguardar a sua independência: a educação nacional, como  elemento poderoso da boa administração e da preponderância do nosso direito, é uma salvaguarda da nossa independência, ainda superior ao poder das armas. Segundo este Ministro da Instrução, caberia à família a educação; no entanto defende que isto apenas seria possível em relação às classes elevadas e mesmo estas delegavam nos colégios a educação dos seus filhos. Isto porque, segundo António Costa, nas classes populares, as crianças eram um capital aos olhos do pai pescador, do pai agricultor. Então se a família não conseguia educar (porque também ela não fora educada!), caberia à escola essa importante missão. Como nos dizia Costa:

Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348, dizer que a educação nacional pertence á família equivale a affirmar que a educação seria mentira.

Ainda segundo o autor, a escola portuguesa não tinha organizado a educação física e moral e era também por demais evidente um atraso na educação das classes populares». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola)»

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«(…) No entanto, foram tomadas logo nos primeiros anos do regime liberal, algumas medidas:

O ensino primário passou a ser livre e um direito de cada cidadão; eram três anos de frequência obrigatória e mais um ano para os que assim o desejassem. Construíram-se muitas escolas e aumentou o ordenado dos professores; um forte apoio ao ensino técnico foi dado por Fontes Pereira Melo, com a abertura de escolas industriais, comerciais e agrícolas; em 1861, foi criado, em Lisboa, o curso Superior de Letras. Houve uma profunda reforma no ensino liceal inspirada no sistema francês. Passou a incluir o estudo das ciências e das línguas vivas. No entanto, os liceus só existiam nas principais capitais de distrito. As meninas só tinham acesso ao ensino secundário através de colégios ou de professores particulares.

A Educação nos finais do séc. XIX
Ultimamente, o campo da História da Educação, sob o paradigma da História Cultural, tem-se preocupado com novos temas e consequentemente com novos problemas. Assim, sujeitos e práticas têm-se tornado em objectos de pesquisa. Este estudo centrou a sua atenção na sociedade oitocentista, mais concretamente nas últimas quatro décadas do século XIX. O Liberalismo, corrente que marcou esta época, não permitiu uma ruptura com as estruturas educativas anteriores, principalmente porque teve dificuldade em implantar as novas ideologias. Pedagogicamente, assistimos a um período onde impera a instrução sensorialista, racionalista, naturalista e ainda defensora da educação nacional e individual. Os princípios educativos anteriormente veiculados nos planos reformistas do século XVIII passavam pelo desenvolvimento da educação estatal, tentando a todo o custo lançar as bases da educação nacional. Constantemente, são apregoados os princípios da educação universal, gratuita e obrigatória. É evidente uma preocupação em organizar a instrução pública. Acentua-se o espírito cosmopolita e universalista. No século XVIII, com a intervenção directa do Estado no Ensino, nasce a Educação Estatal e inicia-se a Nacional. A Educação passa a ser um problema da Nação, relegando para um plano secundário a Igreja e as Ordens Religiosas. Como consequência, os docentes profissionalizam-se e tornam-se funcionários públicos.
O Estado passa a ver o ensino como meio e instrumento de poder. Talvez por isso, nos censos realizados de 1878 até, 1930, são considerados alfabetizados os indivíduos que sabiam pelo menos ler, com excepção do censo de 1890. Pensa-se que o relativo aumento de escolarização ocorrida neste ano de 1890 se relacionou com a lei que determinava uma idade legal durante a qual a escolarização era obrigatória e que previa advertências e multas aos adultos que não fizessem as crianças, dependentes deles, cumpri-la. Por outras palavras, este aumento deveu-se ao facto dos pais terem medo de declarar neste censo que os seus filhos não frequentavam a escola. Mas saber ler seria ou não suficiente para se tornar cidadão no verdadeiro sentido da palavra? Seria interessante atentarmos em alguns dados retirados do 1º censo realizado no dia 1 de Janeiro de 1878, no que concerne aos níveis de alfabetização da população portuguesa nesta época.
Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola) é considerada alfabetizada. Outro dado interessante tem a ver com a diferença acentuada entre a percentagem da população masculina alfabetizada com mais de 7 anos (31%), que se revela muito superior à população feminina alfabeta com mais de 7 anos (13%), apesar da população total masculina com idade superior a 7 anos ser praticamente em número idêntico à feminina do mesmo escalão etário». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões»

Cortesia de purl

«[…]
Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, neste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.

Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veio a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo Rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao Rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o Rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto.
Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o Rei, porem, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo:

Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Alem disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.

O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões. Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame:

Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há-de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.

E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer.

Quanto ás coudelarias militares ou antes potrís eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.

No tocante à questão das subsistências, o Rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros…»

Cortesia de purl

«(…) Além do exame de latinidade, D. Pedro fez, com brilhante êxito, o de retórica e história, de inglês, ficando satisfeito o seu professor Graveley, aquele mesmo que acreditava todos os boatos que lhe encaixavam nos cascos e que os espalhava no Paço quando foi a revolta do marechal Saldanha. Durante o ano de 1851 estudou o príncipe a matemática com o dr. Filipe Folque, sem abandonar os outros estudos, fazendo os exames do costume em 22 de Dezembro. Assim se procedeu também no ano seguinte, dando o príncipe conta dos seus trabalhos no exame de 23 de Dezembro, que foi o último a que o sujeitaram. A mãe falecia-lhe em 15 de Novembro de 1853, e desde então D. Pedro, entregue a si próprio, numa quási libertação do poder paternal, entregara-se ao estudo de todos os assuntos com um afinco verdadeiramente sobrenatural. A mãe fora uma grande educadora. A consideração e favor que dedicava aos mestres; a atenção que dispensava à maneira como corriam os estudos; a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros; todo o conjunto de cuidados, que sempre lhe pareciam poucos, com que se desvelava para que tivessem uma educação exemplar sob todos os aspectos, conferiam justamente a esta grande mulher o título da melhor das mães.
A lenda levava até o último recanto do país as repreensões que ela lhes dava em público, quando praticavam algum acto que o rigor da mãe julgava repreensível. Agora obrigava a creança a beijar o filho do povo que ela afastara de si, logo aplicava-lhe o vulgar puxão de orelhas para que o povo visse bem como ela o sabia corrigir. E assim, a Rainha, a figura mais nobre que teve o país constitucional, a vítima dos ódios recíprocos dos estadistas do seu tempo, ensinava às senhoras portuguesas com os exemplos vindos do trono, como o amor das mães se compadece com a austeridade empregada na educação dos filhos. Ainda obedecendo ao plano que a Rainha traçara para a educação do presuntivo herdeiro, percorrera D. Pedro, em duas viagens, quási todas as nações da Europa, estudando, apreciando e criticando sucessivamente tudo quanto vira, em dois Diários que, sem embargo dos descuidos de redacção em alguns pontos, devidos à pressa com que lançava no papel os seus apontamentos, revelam bem o alto critério e a grande ilustração do príncipe. Com esta preparação, e sendo certamente o talento mais precoce do seu tempo, e em todos os tempos raríssimo, compreende-se que pretendesse conhecer todos os negócios e quizesse impôr-se a toda a gente.
Era este temperamento, em parte natural e em parte proveniente da educação recebida, compatível com o sistema constitucional, em que os ministros nunca podem ser meros instrumentos em mãos alheias, por mais competentes que sejam, visto que são os únicos responsáveis pelos actos do governo? Certamente, não. E daí promanaram todos os desgostos do' Rei e, consequentemente, todos os ódios e rancores que o açulavam contra os homens que, conscientes do seu valor e dos seus direitos, resistiam às ordens do soberano, por vezes impertinentes.
Nos primeiros meses do reinado nenhum acontecimento extraordinário ocorreu. O novo Rei herdara três questões internacionais de extrema gravidade e delas faremos a história na ocasião oportuna e quando estiverem apuradas em todos os seus incidentes. Estas questões eram a da concordata com a Santa-Sé, a do Ambriz e ainda a da convenção com a Holanda a respeito de Timor e Solor. Todas preocuparam grandemente o ânimo do Rei. Entretanto, os factos corriam com certa aparência de serenidade. D. Pedro abria cuidadosamente as duas Caixas, e nenhum dos requerentes deixava de ter a desejada resposta no fim da semana.
Em 18 de Outubro assinou D. Pedro um decreto, demitindo do lugar de amanuense da Junta de Crédito Público Eduardo Mesquita Cabral Almeida, em vista da consulta da mesma Junta de 16, que participava haver conhecido que este empregado com inteiro esquecimento dos seus deveres duplicara uma porção de coupons que negociara e fora apresentada a pagamento. O decreto mandava também que a Junta remetesse à secretaria de estado todos os documentos comprovativos de tão desagradável ocorrência para se formar o competente processo afim de o delinquente ser punido com todo o rigor da lei. Chegados os documentos, pareceu que era caso para ouvir o conselho de Estado. O Rei estuda a questão e escreve a Rodrigo Fonseca (24 de Novembro):

Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas. No entretanto de cada um se aproveita o que for bom, e o Governo fará aquilo que em consciência entender. A questão divide-se em três pontos: o primeiro constitue a acusação á Junta pela sua pouca vigilância, e desleixo em proceder contra o delinquente; o segundo: devem ou não pagar-se os coupons falsos ou para falar com mais propriedade, duplicados; 3.° quais os meios a empregar para evitar a repetição de um caso semelhante? Sobre todos estes pontos discorreu-se largamente.
A opinião de duas corporações muito respeitáveis, o banco e a associação comercial é, como sabe, que se paguem as obrigações dos coupons sem distinção de qualidade, para evitar o abalo do crédito que em tal caso, apesar das asserções em contrário, não pode deixar de se produzir.
[…]
In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 19 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida»

Cortesia de purl

«(…) Mal podia sonhar o mestre que o discípulo se ria das suas lucubraçoes alfarrábicas e tabacais. E verdade que para o consolar, o discípulo o presenteara com um capote finíssimo de pano azul ferrete, gola de veludo, e forrado de orleans, com seus cordões mui compridos, e borlas de retrós preto e tudo na maior perfeição. Também lhe adoçara a boca com uma condeça de doces muito finos e primorosos, uma pouca de anona muricata, duas excelentes maçãs e seis penas de escrever. E assim fazendo progressos na língua latina, chegou D. Pedro ao fim de 1847. Emquanto estudava o latim, dedicava-se também à música, à pintura e à história natural, colecionando conchas e insectos afim de organisar um museu. Esta tendência para a coleccionação acompanha-o ainda nos anos seguintes. Em 4 de Junho de 1851 escreve de Sintra a Sarmento:

Consagrei a tarde a uma excursão conchiliológica com o visconde, a qual me deu oito espécies que o mano Luiz lhe mostrará.

E em 1855, já depois de Rei, pede a Rodrigo da Fonseca que tenham cuidado com uns pássaros que vem do Chile para ele a bordo do patacho Indústria. Foi chamado para organisar o museu Francisco Tomás Silveira Franco, lente de medicina no Hospital de S. José. No dia 3 de Abril de 1848 dava D. Pedro a primeira prova pública do seu adiantamento nos estudos. Fazia exame de latim perante a corte. Mas antes quiz ir à capela, onde naquele dia havia lausperenne, para implorar o auxílio do Senhor, esclarecendo-lhe o entendimento afim de fazer bom exame. E fê-lo bom na verdade, porque traduziu, com desembaraço, um capítulo de Eutropio e uma fábula de Phedro. Tinha então onze anos de idade e apenas seis meses de tradução latina. O resultado do exame foi sujeito à votação dos presentes. Todos votaram, muito bem, ou muitíssimo bem, só a mãe, sempre grave e austera, lhe concedeu simplesmente um Bem. Esta nota, que a muitos parecerá indiferente, revela, contudo, fielmente o carácter da Rainha. Altamente satisfeita com o exame do filho, gosta de que todos o elogiem, mas para não o lisongear excitando-lhe a vaidade, e para se não mostrar parcial, é quem lhe dá o voto menos laudatório. Bem; e nada mais. O professor extasia-se perante os conhecimentos do discípulo e não se cança de lhe festejar o talento e a aplicação:

A tal ponto chegava o amor que Sua Magestade tinha aos livros latinos que achando-se doente de uma angina na primavera de 1848, queria que lhe trouxessem os seus livros para a cama, e até os guardava debaixo do travesseiro, onde eu mesmo os encontrava, e pedia a Sua Magestade que tomasse descanço, porque não faltava tempo em que pudesse estudar. Que hei de fazer?, disse Sua Magestade, hei de perder os meus estudos, deixando-me atrasar? Esta mesma resposta dava a todos.

O velho professor tinha às vezes adoráveis ingenuidades. Quando a Rainha, em 1848, deu à luz o príncipe Leopoldo, Martins Bastos escrevia nas suas Memórias:

Sua Magestade El-rei, pela sua edade e mais ainda pela sua inocência, nada disto empreendia, e somente pensava que um menino, seu primo, estava chegando ou havia chegado da Alemanha.

Neste tempo, quando o primo chegava da Alemanha, já D. Pedro se ocupava das aventesmas que povoavam o Paço. No princípio de 1849 D. Pedro traduzia as epístolas de Cícero, e escrevia cartas em latim ao seu mestre, datadas de Sintra, uma do segundo dia antes das Calendas de Agosto, de 1849, outra do quarto dia antes dos idos de Julho, de 1850. Já conhecia Salustio, Tito Livio e Virgílio, e era preciso dar-lhe mestre de grego, retórica, filosofia racional e moral e princípios de direito natural. Veio continuar a educação do príncipe António José Viale, conhecido humanista e perito nos estudos clássicos. No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca. Em 1850 D. Pedro já conhecia, além dos autores citados, Ovídio, Horácio e Tácito, e em 23 de Dezembro fez o terceiro exame, assim descrito por Martins Bastos:

Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida; e uma ode inteira de Horácio, aberto tudo à sorte por El-rei, como fica dito. Não é possível traduzir com mais propriedade e elegância, do que o fez Sua Magestade, no que me enchi da maior glória, por ser aquele o último exame daquela disciplina que Sua Magestade fez».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta…»

Cortesia de purl

«(…) No governo, confirmado pelo novo Monarca, achavam-se o duque de Saldanha na Presidência do conselho e na pasta da Guerra; no Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães; na Justiça Frederico Guilherme; na Fazenda Fontes Pereira de Melo; na Marinha visconde de Athoguia. Fontes tinha também a pasta das Obras Públicas, e Athoguia a dos Estrangeiros. Eram ainda os representantes da revolução, ou antes da revolta de 1851. E era com eles que o Rei tinha de governar, emquanto os factos não lhe aconselhassem ou impuzessem uma mudança de ministério. O primeiro acto, praticado por D. Pedro, foi a instituição da Caixa Verde. Dois dias depois da aclamação, aparecia na folha oficial este anúncio na última página do periódico:

O Camarista de Semana previne o Público que do dia 20 do corrente mês em diante, Sua Magestade El-Rei não receberá requerimentos, nem papéis alguns na rua, e que para este fim se mandarão no Real Paço das Necessidades, junto á portaria do antigo convento, colocar duas caixas para os receber; uma, pintada de azul, destinada aos requerimentos que tendam a obter socorros ou esmolas; outra, pintada de verde, para as súplicas dirigidas a outros fins. Igualmente se previne que todos os sábados as pessoas interessadas ali poderão ir receber o despacho das suas súplicas do meio dia ás duas horas da tarde. Paço das Necessidades, 18 de Setembro de 1855, conde de Linhares, Camarista de Semana.

Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o Rei havia de ter por muito tempo, emquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O Rei não despachava sem ler primeiro os decretos, demorando, por vezes, alguns para os estudar, pedindo informações que o habilitassem a dar uma referenda concienciosa. Dez dias depois de ter principiado o seu governo escrevia D. Pedro a Rodrigo da Fonseca:

Como ontem ao despacho não houvesse o tempo para lê-lo (um regulamento) e como eu não quero poder acusar-me de ter assinado um papel sem o ter lido, fiquei com ele até esta manhã; que só agora achei o tempo para lê-lo.

E a Saldanha dizia:

Eu não desejo autorisar medida alguma que eu não tenha estudado. Desejo sempre estar seguro e em plena consciência do que faço.

A Caixa Verde funcionava sem novidade. Em 25 de Setembro dizia D. Pedro a Rodrigo:

Entre os papéis que hoje recebi da Caixa achei uma representação sobre a gerência administrativa da Santa Casa da Nazaré. Se os factos são verdadeiros merecem algum remédio, sobretudo o corte de pinhais de que nela é acusada a Administração.

Faria Rodrigo obra pelas denúncias anónimas lançadas na Caixa Verde? Não é de crer. A maior parte dos decretos vinham glosados pelo Rei. Os dois de 28 de Novembro, um aprovando os novos estatutos dos sócios do Montepio das Secretarias do Estado e outro a Caixa de Socorros Mútuos voltavam acompanhados de comentários feitos por seu punho. Esta interferência activa do Rei nos negócios públicos, o desejo de os estudar, provinham principalmente da educação que recebera. O Rei, era na sua principal feição, um escolar, trabalhando no seu gabinete e tendo prazer no esforço da sua inteligência. Aos dezoito anos sabia tudo, porque muito lhe tinham ensinado e muito também tinha aprendido nos livros, nas viagens e no trato com os homens eminentes do seu país.
Deixando a mestra dona Maria Carolina Mishisch, fora em 5 de Agosto de 1847, aos 10 anos, entregue aos cuidados de Martins Bastos que lhe ensinou latinidade. Dirigiu-lhe toda a educação o visconde da Carreira, como seu aio, e cujos serviços D. Pedro retribuiu com a maior dedicação. Entregue ao compêndio de gramática latina do padre António Pereira, deu logo a primeira lição, sabida na ponta da língua, no dia 11 de Agosto. Já no meiado de Outubro, decorridos apenas dois meses de gramática, D. Pedro estava a braços com o Eutropio e com o Phedro. O professor extasia-se perante a inteligência do aluno e escreve:

… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de edade madura do que um menino de nove anos e dez meses».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Poesia em Conflito. Cristovam Pavia. «Há de haver velas pela casa e xales negros e um silêncio que eu poderia entender»

Cortesia de wikipedia e jdact

Na Noite da Minha Morte
«Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças».


Ao Meu Cão
«Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo..., e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado».
Poemas de Cristovam Pavia, in “35 Poemas”, 1959

Cortesia de wikipédia

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nostalgia na Segunda. Poesia. A Voz de Brel. «… é já uma legenda da sua época e da sua geração. … e que na ressaca da contra-revolução silenciosa continuou a batalhar, não sem amargura…»

jdact

Cancão com lágrimas
«Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera».

Capa negra rosa negra
«Capa negra, rosa negra
rosa negra sem roseira
abre-te bem nos meus ombros
como o vento na bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
vira as costas à saudade
capa negra rosa negra
bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar».

Pedro soldado
«Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada
triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Onde não andas ceifando
já o campo se fez verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada
triste vai Pedro Soldado.

Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado».
Poemas de Manuel Alegre in “Trovas do vento que passa

Em memória do amigo Fernando José († 4/4/1992). Que estejas em paz.
Abraça o Filomeno e o Mateus. Eu vou ficando por cá…


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT