Mostrar mensagens com a etiqueta Cataio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cataio. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «… quasi los más son christianos, como después de lo aver oydo a otros, finalmente lo oy a un moro anciano, rico, que, estando yo presente, dixo al Principe que estuviera allá treze años, y a mi me dixo un dia…»

jdact

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik
«(…) Xavier já tinha ,ouvido falar em Kashmir das igrejas do Tibet. O Cataio ficaria para além? Mas logo, na terceira carta, de 1598, alonga as distâncias, colocando na Tartária aquele pais do Veneziano, que parecia ir-se afastando, envolvido em bruma, à medida que era procurado. Corria-se em nova demanda do Preste João.

NOTA: Esta carta, no dizer de D'Elia, nunca foi publicada, dando-a ele à estampa na edição das obras de Ricci. Pelo seu interesse e novidade aqui a reproduzimos: El 2º punto es que el reyno o reynos del Catajo, que es lo que dizen los antiguos Tartaria y es finis terrae orientalis, quasi los más son christianos, como después de lo aver oydo a otros, finalmente lo oy a un moro anciano, rico, que, estando yo presente, dixo al Principe que estuviera allá treze años, y a mi me dixo un dia (yendolo a buscar para esso) que, aunque ay allí moros y judios, los más son christianos. Tienen ygleseas grandes, no circuncidan los hijos, sino que los lavan en la cabeça con agua los padres en la yglesia (que es el bautismo). Tienen padres que visten de negro com bonetes aunque más altos que los nuestros; dize que vió al Rey a la Yglesia algunas vezes, que cada ciudad tiene diez, doze, yglesias grandes; tiene un padre grave a quien hazen todos mucha honrra. Vea Vuestra Paternidad si son buenas señas estas dadas por moro que estuvó allá, treze años? Estos forzadamente han da tener mil ignorancias, como quien carece de comunicación del Papa. Dixone más que tienen hombres recogidos en casas, que no se ocupan sino en oración y penitencia, y que hay casas de mugeres de la misma vida que no se casan, y que los padres no se casan, a lo menos los grandes. Quis comtemnet populum istum qui tam decorasleges & mores habet, ut non pro his merito pugnare debeamus? Por las historias de padres de S. Domingo y por S. Antonin de P. se sabe que averá trezentos años se fueron allá religiosos; unos se tornaron, outros llegaron, tandem se hizieron christianos, no se sabe más; agora se sabe esto. El camino para yr es venir a este Lahor (si ya no digo embiar algunos de los que acá están &c.). Y este Rey tiene tierras por aquella parte; hasta Caximir todo es suyo. De ay ban a Tebat, que es de un Rey que es como subdito deste, a lo menos muy su amigo; e con cartas suyas dará ayuda a pasar de allí hasta Casgar; que de aquí a Casgar ay un mes de camino, y Casgar al Xhambalu, Cambalu, donde reside el Rey, ay tres meses de camino. y la 1.ª ciudad de aquel reyno es de christianos con yglesias, según dize este moro. Y aún es fama de los mercadores que vienen de allá, que en el reyno de Tebat el grande (que está más junto al Xhetaij) ay christianos, yo les escrevi de Caximir (no tuve tiempo para aver respuesta). Assi que por esta parte es muy facil la entrada a aquellas regiones. El mdão de yr es, o como mercader, o como embaxador del Rey de Casgar o del Turco a quien conocen; y tiene el Turco embaixador suyo allá; mas como embaxador de Casgar puede yr por via deste Rey. Podia en lo interior ser mandado por el Papa on en lo exterior com patente para él y cartas &c., y algún paquete de algunas buenas ymágines y piezas para este Rey; con todo esto en el hasta las puertas de aquel reyno. Vuestra Paternidad lo vea y haga lo que in Domino le pareciere. Estos tres indiños hijos suyos estamos oferecidos a todo. Vengan outros en nuestro lugar o como fuerit voluntas in coelo, sic fiat. (Archivio Romano della Compagnia di Gesù, Goa.

Nesse escrito, dirigido ao geral Acquaviva, sugere o itinerário, para ser explorado pelos missionários que fossem escolhidos: Lahore, na corte do grão-mogol, onde estava, devia ser o ponto de partida; depois, uma tirada a Kashmir, daí ao Tibet, terras que dependiam do imperador, donde passariam a Casgar, trajecto já deles çonhecido. Para chegar a Cambalù seriam precisos mais três meses de caminho. A última fase da jornada era assim imprecisa, como o tactear aqueles imensos horizontes. No entanto a preocupação dominante, daquela banda dos nossos, era encontrar cristãos para localizar o Cataio».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.


Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

domingo, 30 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: “a China devia ser o Cataio antigo”; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo»

jdact

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik

NOTA: Corte do grão-mogol. O fundador da dinastia descendia, pelo lado materno, de Gengis Khan. Nos primeiros tempos das nossas missões reinava Acbar (1556-1605), cujos domínios se estendiam do golfo de Bengala ao oceano Índico, compreendendo todo o vale do Indo e grande parte do Afeganistão. Esta primeira missão a que nos referimos (1580-1583) era composta dos padres Rodolfo Acquaviva, italiano e superior, António Montserrat, espanhol, e Francisco Henriques.
Em 1594 foi o próprio Acbar que pediu para Goa uma nova missão de jesuítas. Foi ela constituída pelos padres Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo das Índias, o açoriano Manuel Pinheiro e o irmão Bento de Goes. Em 1600 juntava-se-lhes o padre Francisco Corsi.

«(…) Só na terceira missão (ver Nota) se procurou resolver definitivamente o problema apaixonante. As notícias chegavam de todas as partes, pelos mercadores e pelos missionários da China, havia cristãos perdidos para lá do Himalaia. Seria o Cataio? Mas este, tão recheado outrora de nestorianos, também começava a ser identificado com a China, onde se não haviam ainda encontrado os da nossa Fé. De início Ricci não conhecera cristãos na China: non ve ne esser nessuno e mai esser là arrivata la lege christiana. No entanto, mais tarde chegaram ao grande missionário, em 1602, notícias de nestorianos em Suchow, perto de Kanchow, no actual Kansu. Eram de cor branca, barbudos, tinham igrejas e capelas onde adoravam o crucifixo e a Mãe de Deus. Que tinham sacerdotes com votos de castidade. A carta onde Ricci contava estes factos aos incrédulos padres da Índia sobre a sua identificação deve ter chegado depois da partida de Bento de Goes para a sua viagem. Duas hipóteses diferentes que era preciso esclarecer.
Do lado de Goa, a grande alma do empreendimento era o visitador, padre Nicolau Pimenta (o padre Pimenta nasceu em Santarém em 6 de Dezembro de 1546, entrou na Companhia em 1562. Em 1599 era visitador em Goa, onde morreu em 1614), que incitava os seus ardorosos missionários do grão-mogol na identificação, os que procuravam cristãos para encontrar o Cataio. Do lado do Império do Meio, Matteo Ricci levantava já abertamente o problema de que a terra famosa do Veneziano não era senão a China como anteriormente já o havia dito frei Martin de Rada.

NOTA: A ideia da identificação do Cataio com a China tem sido geralmente atribuída a Matteo Ricci. No entanto, já antes dele, o frade espanhol, da Ordem de Sto. Agostinho, frei Martin de Rada, o tinha afirmado. Na sua Relacion de las cosas de china que propriamente se llama Taybin, manuscrito incorporado num códex anónimo compilado em Manila em 1590. Martin de Rada nasceu em Pamplona em 1533. Tomou o hábito de Sto. Agostinho em Salamanca aos vinte anos. Partiu depois para o México como missionário. Em 1564 ofereceu-se para acompanhar Miguel López Legazpi e frei André Urdaneta na expedição às Filipinas. Aí exerceu com verdadeiro ardor apostólico o seu mister. Eleito provincial da sua Ordem empenhou-se em convencer o vice-rei do México na conquista espanhola da China. Pediu para ir sondar o terreno. Se a ideia tinha muito de sentido espiritual, havia também a cobiça das riquezas que os portugueses por ali andavam arrecadando, como constava nas Filipinas. Finalmente, em 1575 foi enviado ao Fukien, onde permaneceu dois meses. Dessa visita e contactos resultou o relato que ele escreveu para conhecimento oficial e onde destacamos a sua ideia da identificação do Cataio com a China.

Escrevia aquele para Roma, ao geral Acquaviva, em Outubro de 1596: Ned fine, voglio scrivere una curiositá che. penso, V. P. et altri si rallegrerá intendere, et è una congettura che feci, che la città di Nanchino, dove fui l'anno passato, metropoli e sedia regale antica della Cina, per varie congetture penso essere il Cataio di Marco Polo... e cosí il Cataio, al mio parere, non è di altro regno che della Cina. Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: a China devia ser o Cataio antigo; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo. Mas assim ainda não pensavam os nossos da Índia. O padre Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo, escrevia de Lahore em 1598, depois da sua viagem ao Kashmir, três cartas que excitaram os ânimos dos seus confrades e iam empurrar decididamente o problema até à sua definitiva conclusão.
Os missionários do Padroado Português, que nunca depararam com dificuldades que não vencessem, levantavam pouco a pouco o véu deste mistério. Contava Xavier, nas suas epístolas de 26 de Julho e 2 de Agosto daquele ano, que um velho mercador maometano dissera ao príncipe Salim, mais tarde imperador, que vinha de Xambalù ou Cambalù, capital do grande reino de Xatai. Logo o missionário comentava que este nome molti sembra essere lo stesso che il nostro Catai. Lá estivera 13 anos, dizendo-se embaixador de Casgar. Mais contava o mercador que os habitantes daquele país distante eram de belo parecer, brancos de cor, usando longa barba. Que praticavam várias religiões, mas a maioria eram cristãos. Tinham muitas igrejas, algumas magníficas e todas adornadas com a Cruz que especialmente veneravam. As crianças eram baptizadas, os sacerdotes celibatários e vestiam-se como aqueles missionários do mogol. Que o rei daqueles reinos era também cristão».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans»

jdact

Os Missionários do Padroado Português no Extremo Oriente
«(…) Francisco Xavier, já triunfador na Índia e nas Molucas, sai estrategicamente do Japão, não fosse ele um soldado experimentado de Loiola, no intuito de o conquistar um dia, quando tivesse ganho a China. O Japão deveria ser o último passo naquele mundo extremo-oriental. Houvera um erro de estratégia que era preciso, quanto antes, rectificar. São do Apóstolo estas palavras, escritas em 1552: A terra da China, está perto do Japão, e, da China lhe forão levadas as seitas que tem. Depois, contava da surpresa dos japoneses perante aquele credo novo. Para eles era coisa estranha que, sendo tal doutrina verdadeira, os chinas não a conhecessem e praticassem: os japoneses se espantavão muyto todos en geral pareçendolhes que, pois n'a lenda dos seus santos nom fazião menção d'este Criador, que nom podia aver hum Criador de todas as cousas. E mais, se todas as cousas do mundo tiverão principio, que a gemte da China soubera isto, de omde lhes veyo as leys que tem. Tem eles pera sy que os chins são muyto sabedores, asy n'as cousas do outro mundo, como n'a gobernação de reepubliqua... Era necessário doutrinar primeiro o velho Império do Meio.
Voltava de novo à Índia Francisco Xavier e aí prepara uma embaixada à China. Em Agosto de 1552 chegava à pequena ilha de Sanchuão, não distante de Macau, ali mesmo em face da imensa terra chinesa cuja conquista para Deus foi o último grande sonho do Apóstolo. Morria pouco depois, em Dezembro desse ano, sem o ter realizado. Mas abria as portas da empresa gigantesca. Poucas semanas antes de S. Francisco Xavier expirar na ilha de Sanchuão, com os olhos postos naqueles distantes horizontes em que ele tanto desejou penetrar, nascia, em Macerata, Matteo Ricci, glória da Companhia de Jesus e de Portugal de cuja obra foi um dos mais ilustres obreiros. Ia ser ele que pegaria no facho luminoso que o Apóstolo das Índias deixara cair das suas mãos inertes.
Organizava-se, em terras bem portuguesas de Macau, cabeça do nosso Padroado do Extremo Oriente, o assalto espiritual à China pagã. Alexandre Valignano, um italiano dos Abruzzos, organiza o ataque há tanto combinado. Mas aquele mundo pareceu-lhe logo impenetrável, o que levava o Visitador a pronunciar a célebre frase, recolhida por Semedo, e atirada pelo famoso jesuíta às terras indomáveis que se desfrutavam do cimo das nossas colinas: O rocca! O rocca! quando finalmente ti aprirai al Vangelo? São pedidos padres para Goa, aonde, com Valignano, haviam chegado tantos na leva de 1574. Em 1579 desembarca, em Macau, Miguel Ruggieri, que se começa a preparar na aprendizagem da língua chinesa com mais quatro irmãos leigos que já ali se encontravam. Pouco tempo volvido, em 1582, chega Matteo Ricci. Era o início da obra portuguesa nas terras do Império do Meio.
Notável foi a compreensão que logo o Visitador Valignano e depois Ricci e Ruggieri tiveram da forma a adoptar para a penetração na China. Queria o primeiro, pô-lo em prática o segundo, que em vez de se pretender europeizar o Oriente fosse cada missionário, nos limites da moral evangélica, indiano na Índia, chinês na China, japonês no Japão. Os resultados de tal critério estão bem patentes no triunfo de Ricci e dos seus sucessores. O rochedo tinha-se aberto.

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik
Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans, onde se tinham encontrado heréticos. Cruzavam-se aquelas terras adustas, não parava o labor dos nossos padres. E logo na primeira missão à corte do grão-mogol chegam notícias ao padre Montserrat, então no Kashmir, que no Tibet havia quem comungasse em certo templo das mãos dum sacerdote, nas duas espécies sagradas. Pensou-se em mandar reconhecer o terreno, ainda que tão difícil de alcançar, mas o insucesso final desses primeiros mensageiros da Fé Cristã na corte de Acbar fez por de parte o intento».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Os Portugueses no Tibete. Os Primeiros Relatos dos Jesuítas (1624-1635). Estudo histórico. Hugues Didier. «Tinham que existir restos de cristianismo na seita dos lamas, ou então o “Cataio” continuava ainda por descobrir, para lá das montanhas e dos desertos da Ásia»

jdact e cncdp

Tibete, o último destino dos Descobrimentos?
«Os textos que se seguem relatam a descoberta do Tibete pelos europeus. É certo que o mundo ocidental já dispunha de informações mais ou menos falsas sobre o mais misterioso país da Ásia, antes da viagem e estabelecimento de António Andrade e outros jesuítas portugueses no reino de Gu-ge (Tibete Ocidental) e também no de Utsang (Tibete Central), no início do século XVII. Já tinham ocorrido encontros acidentais entre lamas e membros da Igreja romana, como o descrito por Guillaume de Rubrouck, em 1253-1254. Mas nunca nenhum viajante vindo da Europa tinha atravessado os colos dos Himalaias ou posto os pés no Tecto do Mundo . O mesmo não acontecia com os mercadores ou peregrinos chineses, indianos ou muçulmanos que foram, aliás, os percursores das duas equipas de portugueses particularmente destemidos que se lançaram ao assalto da Terra das Neves, a primeira a partir de Agrã e da corte do Grande Mogol, e a segunda a partir de Bengala.
A epopeia marítima de Portugal inspirou uma obra incomparável na Literatura dos tempos modernos, Os Lusíadas, de Luís de Camões. Esta obra, a única epopeia verdadeiramente conseguida nesta época, recordemos La Franciade, de Ronsard…, teria sido impossível sem a existência de uma ampla literatura portuguesa da navegação e descoberta marítima. Ela confirma a ideia de uma nação portuguesa feita de marinheiros ou inseparável da água salgada. Mas ignora-se com frequência que estes Argonautas também abandonaram os seus navios, embrenhando-se nas massas continentais, a pé, a cavalo e até de camelo. O Brasil por um lado e, por outro, a exploração dos corações quentes ou gelados da Ásia, da China continental e sobretudo dos grandes espaços muçulmanos ou submetidos ao islão, Império otomano, Irão safévida, Afeganistão e Índia do Grande Mogol, provam que os portugueses não recearam afastar-se dos mares. À excepção de minúsculos espaços insulares ou costeiros, não houve conquista nem bandeirantes no Oriente. A audácia lusitana nas terras muçulmanas da Ásia e particularmente no Tibete, apenas acessível a partir da Índia dominada pelo islão, talvez não tenha sido menor que a demonstrada nas vagas.
No entanto, ela não inspirou epopeias: não podiam existir duas, uma para o mar e outra para a terra, sendo a segunda o prolongamento da primeira. Mas os homens cujas explorações este livro descreve tinham consciência de nela participarem, como Francisco Azevedo, em 1630, e em plenos Himalaias, recordando de súbito Camões, o nosso poeta, e particularmente um verso de Os Lusíadas que evoca a clara nascente do Ganges, onde se supõe que os habitantes vivem do perfume das flores que brotam
dessa nascente. A estada de um punhado de jesuítas portugueses no Tibete, de 1624 a 1635, prosseguida esporadicamente até 1640, e cujas obras foram retomadas em 1715 por Ippolito Desideri, inscreve-se num duplo contexto: o do Extremo-Oriente, onde a ordem fundada por Inácio de Loiola tentou asiatizar o cristianismo (Matteo Ricci, Roberto de Nobili), e o do mundo muçulmano, onde ela estava também empenhada: no Médio-Oriente das minorias cristãs mais ou menos afastadas da comunhão com Roma, do Líbano à Abissínia e à Índia do Norte (ou Grande Mogol), onde diversas circunstâncias excepcionais, devidas essencialmente às ambições político-religiosas de Akbar (1542-1605), permitiram um diálogo islâmico-cristão pouco usual e singular.
Embora não contenham informações significativamente falsas, estes textos apresentam distorções por vezes espantosas relativamente à ideia do budismo lamaico que nos dão, hoje em dia, as obras modernas. O nome de Chescamoni, Sakyamuni, apareceu pela primeira vez em 1627, sob a pena de Estêvão Cacela, um padre pertencente à província jesuíta de Cochim (e não à de Goa), e livre da autoridade ou influência de Andrade pois residia em Utsang, no Tibete central, e não no Gu-ge. Foi a incapacidade ou a recusa de ver Buda e o budismo na terra dos lamas que impediu o primeiro visitante europeu do Tibete de se tornar o fundador da tibetologia moderna. Mais do que a Cacela ou Cabral, afinal mais lúcidos em Utsang do que os padres de Tsaparang no Gu-ge, o mérito de ter fundado esta ciência coube ao jesuíta italiano Ippolito Desideri (1684-1733). Estes textos, interessantes, vivos, coloridos e cheios de detalhes concretos, acabam por ser mais impressionistas que realistas. Situados a montante da tibetologia moderna, fazem corpo com o imaginário, a lenda, ou melhor, as lendas cristãs e muçulmanas acerca do Tibete, solidárias para fazerem do Buda e do budismo um ponto cego, ou seja, uma alteração paganizante do seu próprio monoteísmo, uma deformação de si próprio.
O Tibete visitado em 1624-1641 é, em sentido próprio e figurado, o ponto mais alto da exploração do mundo pelos portugueses. Estes tinham convivido bastante com os muçulmanos em Ceuta, em Moçambique, em Melinde e nas costas do Oceano Índico, de Ormuz às Malucas, por terem em todo o lado procurado o que, na sua opinião, o islão escondia e não permitia atingir: além das especiarias, cristandades perdidas, isoladas, exóticas, como se pode inferir das palavras de Vasco da Gama: Vimos buscar cristãos e especiarias. Na origem de todas estas expedições, primeiro marítimas e depois terrestres, esteve sempre o mesmo desejo, quase sempre e por todo o lado frustrado mas sempre renascido, de encontrar longe, no sudeste, no nordeste ou a leste do mundo muçulmano, uma espécie de duplo exótico da cristandade latina.
Andrade gostaria, tal como no início acreditou, que os tibetanos fossem cristãos, como uma parte dos indianos de Malabar, os abissínios ou os arménios. Como pensara Góis alguns anos antes, ao atravessar o reino de Kasgar (Xinjiang). E também Cacela e Cabral procuraram na Ásia central, e nomeadamente no Tibete, onze anos depois do fracasso de Góis, o caminho para o Cataio, identificado desta vez como o Shambala (Sam bha lai) dos relatos dos lamas.
O imaginário europeu e o imaginário tibetano também se misturavam. Parece que só o sonho podia engendrar o dinamismo psicológico necessário ao estudo de realidades longínquas ou pouco acessíveis. Mas uma vez atingidas estas, depois de desbravados os furores dos oceanos ou as encostas geladas dos Himalaias, o sonho tinha que debater-se ferozmente contra a decepção. Tinham que existir restos de cristianismo na seita dos lamas, ou então o Cataio continuava ainda por descobrir, para lá das montanhas e dos desertos da Ásia». In Hugues Didier, Les Portugais au Tivet. Les premières relations jésuites (1624-1635), Editions Chandeigne, 1996, Os Portugueses no Tibete, Os Primeiros Relatos dos Jesuítas (1624-1635), Coordenação da edição portuguesa por Paulo Lopes Matos, Tradução de Lourdes Júdice, Colecção Outras Margens, CNCDP, 2000, ISBN: 972-8325-82-7.

Cortesia de CNCDP/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Portugal e a Ásia Oriental. João de Deus Ramos. «… entre 1246 e 1248, esteve envolvido como Legado no Oriente na contenda político-religiosa entre Roma e Bizâncio, função que desempenhou com o agrado e confiança de Inocêncio IV»


jdact

«Uma semana depois, a 13 de Março, pela bula Cum non Solum seria designado Giovani da Pian di Carpine, que, como é bem sabido, seguiu viagem e cumpriu a sua missão. Nesta primeira fase de aproximação aos mongóis, Inocêncio IV escolheu Franciscanos e Dominicanos. Foi também a fase da Ásia Central.

NOTA: Entra na História, por assim dizer, a partir de 1245. Sobre os primeiros anos da sua vida há a indicação no Árbol Chronologico, de J. de Castro, tão só de que fôra Ministro Provincial da Província Franciscana de Santiago de Compostela. A sua figura surge nítida a partir da Bula Dei Patris Immensa de 1245 pela qual é designado Embaixador aos Tártaros, e a partir desse ano ou do seguinte, é Penitenciário Apostólico em S. João de Latrão. Em seguida, entre 1246 e 1248, esteve envolvido como Legado no Oriente na contenda político-religiosa entre Roma e Bizâncio, função que desempenhou com o agrado e confiança de Inocêncio IV. Terá regressado à Santa Sé em 1248 ou, 1249 para fazer o relato pessoal da sua missão no Oriente. O papa incumbiu-o depois de uma missão junto do Senado e do povo romano. Em 1256 pregava a cruzada em Espanha e finalmente em 1266 foi nomeado bispo residente em Ceuta. Para esta resenha biográfica servi-me das Bulas Pontifícias respeitantes a frei Lourenço, de que encontrei onze, todas do pontificado do Inocêncio IV e com datas que vão de 1245 a 1252.

Mais tarde, com a consolidação do poder mongol no Cataio, a grande figura franciscana que foi João de Montecorvino, primeiro bispo de Pequim, então Khambalik, simbolizaria a transferência de ênfase das missões políticas para as missionárias.

NOTA: O nome dinástico Yuan foi adoptado por Kubilai Khan em 1271 e foi Imperador da China em 1280. Os autores não concordam quanto à data de início da dinastia, mas sim quanto ao seu termo, em 1368.

Foi a Pax Mongolica, alargada ao Cataio, apoiada num papa esclarecido e com visão, numa ordem de religiosos dispostos à dádiva total, que permitiu esse notável florescimento do cristianismo na China de finais do século XIII até à segunda metade do seguinte. Lourenço de Portugal aparece como figura de destaque neste quadro em que o Mundo mudava, nas ideias e nos conceitos de estratégia global. A circunstância de não ter partido para a missão à Ásia Central a que o papa o destinara retirou-lhe a luz da ribalta que de outro modo certamente teria tido.
Pela mesma razão, os orientalistas passaram-lhe ao lado. Mas sem dúvida merecia uma biografia que lançasse luz sobre a sua participação destacada nos acontecimentos mais importantes dos tempos em que viveu. Como escreve Pisanu,
  • (...) I'imporranza e il numero delle missioni affìdategli sono suffìcienti a considerarlo tra gli elementi piú in vista fra i confratelli del suo tempo e nessuno forse tra i Francescani ebbe maggiori poteri di lui, sicché e facile capire la stima che poteva godere fra i membri della Curia Papale.
Em época de vultos de tão grande dimensão, frei Lourenço de Portugal terá sido um dos maiores.

Resumo
Pode considerar-se a Bula Dei Panis Immensa, de 1245, enviando frei Lourenço de Portugal aos Tártaros, como o impulso inicial que marcou o começo do século, Franciscano na Ásia; e a queda da dinastia Yuan, em 1368, como o seu termo. Neste período de 123 anos há essencialmente duas linhas de força: uma primeira, político-religiosa, que decorre ao longo de umas duas décadas e geograficamente se confina à Ásia Central Mongol. E uma segunda, marcadamente missionária, que surge a partir da dominação da China pelos Mongóis e da instauração da dinastia Yuan com Kubilai Khan, em c. 1277, e que permite a criação, pela primeira vez, da Sé Metropolitana em Khanbalik, e Sufragana em Zaiton.

No primeiro ciclo, as figuras determinantes e de maior relevo foram o papa Inocêncio IV, São Luís, Rei de França, Lourenço de Portugal, Carpine e Rubruck; no segundo, destacou-se a figura excepcional de Montecorvino, primeiro arcebispo de Pequim. Aos franciscanos se ficou a dever a heroicidade espiritual e física que tornou esse longínquo século um exemplo até aos dias de hoje. O termo abrupto desse esforço na China deveu-se sem dúvida à queda dos Yuan e ao desaparecimento do espírito de tolerância que os caracterizou. Mas também à circunstância de não terem os franciscanos conseguido inserir-se na população chinesa, criando nela raízes.
A queda dos senhores Mongóis arrastou consigo o desaparecimento total, durante mais de dois séculos, do cristianismo na China. Desse esforço apenas ficou a memória e a admiração». In João de Deus Ramos, Portugal e a Ásia Oriental, Fundação do Oriente, 2012, ISBN 978-972-785-102-7, Comunicação apresentada no 3º Seminário sobre o Franciscanismo em Portugal, Abril de 1995, ISBN 978-972-785-202-7.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Portugal e a Ásia Oriental. João de Deus Ramos. «Frei Lourenço nã seguiu viagem por razões que não se conhecem ao certo. Tal não retira, porém, significado à circunstância de ter sido ele o escolhido em primeiro lugar. Uma semana depois, a 13 de Março, pela bula Cum non Solum seria designado Giovani da Pian di Carpine…»

jdact

«O Preste João passa do imaginário medieval à realidade dos factos nesta trama de contactos. O arcebispo Montecorvino é apoiado nos primeiros tempos pelo Rei Jorge, descendente do Preste João, que até ao seu falecimento em 1299 traz os nestorianos à obediência de Roma.

NOTA: O Príncipe Nestoriano da tribo dos turcos Ongut foi convertido por Montecorvino. À sua morre, em 1299, os seus opositores conseguiram que os Ongut revertessem ao Nestorianismo.

Os cristãos encontrados pelos Polos eram os remanescentes da diáspora Maniqueia, todos sob a alçada de departamento oficial com tutela sobre os cristãos no império mongol-chinês da dinastia Yuan. O fim dinástico em 1368 faria baixar o pano sobre o século Franciscano, a paz mongólica e a tolerância. Os Ming (1368-1644) iriam fechar as portas ao exterior, só reabertas no declínio da dinastia, no século XVI, pelo esforço dos portugueses e dos Jesuítas.

NOTA: É o Tribunal, no sentido que os nossos cronistas de quinhentos dariam aos departamentos da administração chinesa, que se ocupava dos Cristãos (não apenas os de obediência a Roma, mas todas as cristandades latinas, gregas, arménias, nestorianas, jacobitas), o Chong Fu Si. O Cristianismo sob os Yuan era designado por Shi zi jiao, a ‘Religião da Cruz’; mais tarde, ao tempo dos jesuítas, seria a Tian zhu jiao, a ‘Religião do Senhor do Céu’, com toda a celeuma que envolveu esta matéria e que ficou conhecida pela ‘Questão dos Termos’.

A Diocese de Pequim ficaria vaga durante quase três séculos, apagando-se, ao mesmo tempo, quase por completo, a memória de tão notável século de intercâmbio e missionação.
O ímpeto e eficácia da gesta franciscana na Ásia Central e Oriental devem-se, em larga medida, à visão de Sinibaldo Fieschi, o papa Inocêncio IV e também ao espírito de cruzada do rei São Luís. O mito do Preste João, o ténue e distante fulgor das cristandades orientais, concitaram o pensamento e as vontades no Ocidente, para, em aliança com os khan mongóis, fazer frente e destruir o mundo islâmico e os respectivos centros do poder, o Califato Abasside de Bagdad e o Sultanato Mameluque do Egipto. Inocêncio IV recorreu a franciscanos e dominicanos como mensageiros à Ásia Central, iniciativa política em que o ‘rei santo’ também se envolveu. Três netos de Gengiskhan, Kubilai, fundador da dinastia na China, Hulagu, fundador da dinastia dos Il-Khan na Pérsia, e Batu, fundador da ‘Horda de Ouro’, da Rússia e Cazaquistão, eram aliados do Ocidente na luta contra o Islão. Este entendimento iria permitir, um pouco mais tarde, no início do século XIV, a criação da primeira Sé Episcopal em Pequim e noutras cidades da China.
É neste contexto que surge a figura enigmática mas, sem dúvida, notável, de Frei Lourenço de Portugal. A escolha do primeiro emissário do Sumo Pontífice ao Grande Khan da Mongólia, senhor do Oriente, não foi certamente tomada de ânimo leve. O que estava em jogo era a sobrevivência do mundo cristão e a destruição do islâmico, um reequilíbrio estratégico de forças a nível global, pela primeira vez na História. A primeira escolha para missão de tanta monta recaiu sobre Frei Lourenço, nomeado pela bula Dei Patris Immensa, de 5 de Março de 1245, como enviado pontifício ao Khan dos Mongóis,
  • ‘(...) regi et populo Tartarorum viam agnoscere veritatis. (...) Propter quod ad vos dilectum filium fratrem Laurentium de Portugallia et Socios eius latores presentium ordinis fratrum Minorum viros religione conspicuos, honestate decoros et sacre scripture scientia preditos, ut ipsum dei filium Ihesum Christum salutaribus eorum erudicionibus agnoscentes suum gloriosum nomen Christiane fidei observatione colatis, duximus destinandos (...)’.
Frei Lourenço não seguiu viagem por razões que não se conhecem ao certo. Tal não retira, porém, significado à circunstância de ter sido ele o escolhido em primeiro lugar. Uma semana depois, a 13 de Março, pela bula Cum non Solum seria designado Giovani da Pian di Carpine, que, como é bem sabido, seguiu viagem e cumpriu a sua missão». In João de Deus Ramos, Portugal e a Ásia Oriental, Fundação do Oriente, 2012, ISBN 978-972-785-102-7, Comunicação apresentada no 3º Seminário sobre o Franciscanismo em Portugal, Abril de 1995, ISBN 978-972-785-202-7.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

terça-feira, 24 de julho de 2012

Portugal e a Ásia Oriental. João de Deus Ramos. «A ‘Pax Mongólica’ surge a partir das condições criadas pelo termo da expansão para ocidente motivada pelo falecimento do ‘Grande Khan Ogodei’ em 1241. Sem se poder fixar uma data, era sem dúvida uma realidade em 1245»


jdact

Frei Lourenço de Portugal e o Século Franciscano no Cataio
«A gesta franciscana na,Ásia Central e no Cataio foi uma das mais nobres aventuras humanas temporal e espiritualmente falando, ao longo de pouco mais de cem anos, o ‘Século Franciscano’.

NOTA: O ‘Século’, em sentido alargado, pois foram efectivamente mais de cem anos. Considero como ímpeto e marco iniciais a bula ‘Dei Panis Immensa’, de 1245, e como termo, a queda da Dinastia Yuan, em 1368, que determinou a extinção das missões cristãs na China. Ao todo, portanto, 123 anos. É certo que os religiosos fugiram da China para a Ásia Central, mas aí já, nada foi possível consolidar pois, quatro anos mais tarde, em 1370, Tamertão dava início a uma nova fase de violência e conquista que abrangeria a Ásia Central, a Pérsia, a Rússia até Moscovo, o sub-continente indiano, a Ásia Menor e a Síria. A islamização progrediu rápida e fortemente, a ‘pax mongolica’ destruída inviabilizou a Rota da Seda, as rotas marítimas a sul ficaram sob o controlo islâmico; na Europa, a Peste Negra tinha consequências demográficas que se reflectiam no esforço missionário possível. Só cerca de 230 anos mais tarde, com Mateus Ricci, voltariam os missionários a pisar terras da China.

Coincidente e intimamente ligada a uma outra aventura de vasta dimensão e consequências, a expansão Mongol, ambas contribuíram para que, pela primeira vez, a humanidade se globalizasse. Do Ocidente Europeu à Asia Extrema, a política e estratégia militar estavam interligadas, e o que se pensava em Karakorum, no centro da Ásia, era relevante para Roma e para Pequim.

NOTA: Karakorum, capital do Império Mongol, nas margens do rio Orkhon, a 200 km a sudoeste de Ulan Bator, capital dos nossos dias da República Popular da Mongólia. Fundada por Gengis Khan, c. 1220, foi destruída em finais do século XIV e as suas ruínas só identificadas em fins do século passado por um arqueólogo russo.

Neste turbilhão de acontecimentos, a imaginação fantasmagórica medieval sobre o Oriente ia cedendo lugar ao conhecimento científico e à ‘realpolitik’, prenunciando os alvores do Renascimento. Nesta trama se envolveram os grandes da Europa e do Oriente, em torno dos dois pólos que eram o Sumo Pontífice e o Grande Khan Mongol. Ao longo do século XIII, em poucas décadas se passou, na Europa, do temor e pânico originado pela violência das hordas vindas da estepe, para uma política de aproximação e aliança contra o Islão. É, em parte, nesta reviravolta político-religiosa que os franciscanos surgem como emissários-negociadores, e missionários depois, paradigmas numa e noutra qualidade das maiores virtudes. Ainda hoje, volvidos sete séculos, o fascínio opera sobre quem se debruce sobre a fantástica aventura desses frades, Menores no nome, gigantes em tudo o resto.
A abordagem desta temática depara com várias dificuldades. Por um lado, tentar saber os factos implica conhecimentos sobre o Ocidente cristão, o Próximo e Médio Oriente islâmicos, a Ásia Central e o Império do Meio; sobre as religiões e heresias em todo esse espaço geográfico, de que hoje pouco mais resta do que a memória nos livros e arquivos; sobre o homem è a sociedade, os móbeis e motivos da sua actuação, a sua maneira de ser e pensar, em tempos recuados em civilizações tão distintas. Por outro lado, a interpretação dos factos depara com a diversidade, complexidade e, não poucas vezes, escassez das fontes, num período em que o mundo sofria uma mutação. Em minha opinião quem até hoje melhor superou aquelas dificuldades foi Paul Pelliot.

NOTA: Orientalista e sinólogo francês (1878-1945) dispunha de excepcional erudição e memória, ao serviço de uma inteligência que não se saciava nos gabinetes e arquivos mas se complementava nas missões de estudo aos mais variados locais da Ásia. A melhor síntese do que este homem foi é, para mim, a de Duyvendak, «He became a Marco Polo of the spirit, equipped with all the knowledge of languages, religions and books that Marco Polo himself had lacked».

Os seus estudos continuam a ser leitura indispensável, embora difícil, nestas matérias.
A Rota da Seda surge em torno da era cristã, ligando os confins do Império Romano à China da Dinastia Han (estende-se por mais de quatro séculos em torno da era cristã e divide-se em duas fases: os Han anteriores ou ocidentais, de 206 a.C. a 8 d.C., e os Han posteriores ou orientais, de 23 a 220 d.C. No meio (8-23), aquilo a que é tradicionalmente chamado o Interregno Wang Mang). Ao longo da sua milenar história, nunca a sua enorme extensão terá sido percorrida em tanta segurança como durante a ‘Pax Mongólica’ dos séculos XIII e XIV.

NOTA: A ‘Pax Mongólica’ surge a partir das condições criadas pelo termo da expansão para ocidente motivada pelo falecimento do ‘Grande Khan Ogodei’ em 1241. Sem se poder fixar uma data, era sem dúvida uma realidade em 1245 quando a Santa Sé envia os primeiros emissários a Karakorum. Estende-se ao Cataio, ou seja, à China, a partir da consolidação do poder Mongol por Kubilai Khan, primeiro Imperador da Dinastia Yuan, c. 1277. E termina com o fim desta em 1368.

Do supremo poder decorria neste caso a suprema segurança, viabilizando o comércio e o cosmopolitismo das capitais. Os franciscanos irão encontrar europeus em Karakorum e Khanbalik, ao lado de todos os povos asiáticos de todas as etnias e convicções religiosas. A ‘Pax Mongólica’ da segurança física era também a da tolerância religiosa». In João de Deus Ramos, Portugal e a Ásia Oriental, Fundação do Oriente, 2012, ISBN 978-972-785-102-7, Comunicação apresentada no 3º Seminário sobre o Franciscanismo em Portugal, Abril de 1995, ISBN 978-972-785-202-7.

 
Cortesia da F. Oriente/JDACT

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Portugal e a Ásia Oriental. João de Deus Ramos. «… fixar-se para Portugal a designação de ‘Grande Reino do Mar Ocidental’, o ”Da Xi Yang Guo”. Esta designação, baseada nas explicações geográficas dos Jesuítas, mostrou-se adequada como nome a dar ao nosso país, perdurando até aos começos do presente século, e mantendo-se em Macau até aos dias de hoje»


jdact

Designações dadas pela China a Portugal
«Quanto julgo saber, a primeira tentativa entre nós de sistematização das designações dadas pelos chineses a Portugal, ficou a dever-se a João Feliciano Marques Pereira, no ‘Ta-Ssi-Yang-Kuo’, “Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Português”. No primeiro número desta publicação periódica, que saiu de 1899 a 1900, ao tratar da ‘Razão do Título’, aborda sumariamente os nomes dados a Portugal, e a páginas 43, num texto com o título “Denominações dadas pelos Chinezes ao seu paiz, ao Japão e aos principaes paizes europeus, etc.”, dedica uma página ao caso de Portugal, onde novamente sintetiza o tema.
Um grande passo em frente é dado por Paul Pelliot, no artigo publicado no ‘T'oung Pao’ de 1948, ‘Le Hoja et le Sayyid Husain de l'Histoire des Ming’. Este texto tão importante e tão desconhecido entre nós, em torno da embaixada de Tomé Pires, desenvolve no aparato crítico o que resultava das fontes orientais e ocidentais quanto aos nomes dados pela China a Portugal.
Em 1982, o jesuíta Albert Chan, no livro ‘The Glory and Fall of the Ming Dynasty’, alarga-se, ao falar sobre a extensão de um nome dado às peças de fogo de artilharia, aos portugueses. Esta curiosa circunstância decorre do prestígio militar dos primeiros portugueses nos mares da China e da sua sofisticação técnica no campo da artilharia, em comparação com os chineses.
Muito recentemente, em 1989, Stefania Stafutti, no artigo ‘Portogallo e Portoghesi nelle Fonti cinesi del XVI e del XVII Secolo’, faz a mais completa síntese das designações dadas pela China a Portugal.
Há, naturalmente, muitas outras referências a esta matéria noutros trabalhos, mas os três casos, parecem-me exemplificar o percurso seguido neste século pelos historiadores que procuraram fazer uma sistematização tão completa quanto possível.

Os tipos de designações
São de quatro tipos as designações dadas pela China a Portugal. Ao chegarem aos mares da China, no começo do século XVI os Portugueses foram vistos, a olhos chineses, como ocidentais cujo país de origem não era conhecido com clareza. Como essa chegada, e a questão pôs-se com acuidade aquando da embaixada de Tomé Pires, correspondeu a envolvimentos portugueses com nações do sueste asiático tributárias do Império do Meio, o primeiro nome que nos foi dado corresponde à adaptação para a língua chinesa de uma designação vinda do Próximo e Médio Oriente. A memória das Cruzadas e dos Francos originara a designação “Firinghi” ou “Faranghi” (nas nossas crónicas os “Frangues”) que, pela via do mundo árabe e da Pérsia, chegara aos confins da China. A fonia destes vocábulos deu em chinês “Folangji” ou “Folangxi”, o primeiro nome dado pela China a Portugal. A estrutura da língua e da escrita chinesas, leva a que um mesmo fonema possa ser escrito de várias formas, ou por vários caracteres. Daqui que as três sílabas da palavra “Folanfji(xi)” apareça em chinês com diferentes grafias. A primeira sílaba “Fo”, aparece escrita, entre outros, com o caracter referente a Buda, ou Budismo, e alguns autores quiseram ver nisto a possibilidade de atribuição de um sentido. Mas creio que a preocupação chinesa era fonética (dentro de um leque de possibilidades, uma escolha simplesmente adequada) e que, no caso dos portugueses, não se poderá extrapolar do sentido próprio dos caracteres intenções que não sejam puramente fonéticas. Outro tanto se poderá dizer da última sílaba “ji”, engenho ou máquina, ou “xi”, ocidente, onde também a preocupação fonética é predominante. E também para a sílaba intermédia, “lang”, são utilizados diversos caracteres homófonos.

O segundo tipo decorre da vinda dos missionários para a China. Como é bem sabido, os Jesuítas, ao entrarem na China no último quartel do século XVI, conceberam uma estratégia para a cristianização do Império do Meio em que uma das facetas importantes era a transmissão da ciência ocidental. O objectivo era o de levar os chineses a valorizarem a doutrina cristã uma vez constatada a superioridade científica e tecnológica europeia.
De entre as várias ciências, a geografia e cartografia permitiram aos Inacianos mostrar de onde vinham. Dada a íntima ligação, à época existente, entre o Padroado Português do Oriente e a Companhia de Jesus, pôde então fixar-se para Portugal a designação de ‘Grande Reino do Mar Ocidental’, o ”Da Xi Yang Guo”. Esta designação, baseada nas explicações geográficas dos Jesuítas, mostrou-se adequada como nome a dar ao nosso país, perdurando até aos começos do presente século, e mantendo-se em Macau até aos dias de hoje como termo do conhecimento geral.


Como terceiro tipo, surgem desde os primeiros contactos as fonetizações chinesas do nome de Portugal, ou seja a transliteração para caracteres chineses das três sílabas do nome do nosso país. Tendo novamente em conta a estrutura da língua chinesa, da transliteração resultava em regra um vocábulo de quatro a seis sílabas. ‘Potoulijia’, ‘Poertujialiya’, ‘Pocushtoujialiya’, ‘Poertuhaer’, etc. No presente século, o nome dado a Portugal, “Putaoya”, é deste tipo, numa transliteração sintética e trissilábica.
Finalmente, um último tipo de designações engloba aquelas que têm carácter pejorativo. Muito se fala da xenofobia chinesa, do conceito de superioridade que têm de si próprios e do ‘desprezo’, pelos estrangeiros.
Creio que estas generalizações são perigosas, e têm mais a ver com determinados períodos em que, por razões específicas, esses sentimentos xenófobos vêm à superfície, tal como noutras nações, noutras épocas. Designações pejorativas usadas por alguns povos em relação a outros não é de modo algum monopólio chinês». In João de Deus Ramos, Portugal e a Ásia Oriental, Fundação do Oriente, 2012, ISBN 978-972-785-102-7, Comunicação apresentada à Academia Portuguesa da História, 5 de Abril de 1995.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

terça-feira, 8 de maio de 2012

Portugal e a Ásia Oriental. João de Deus Ramos. «A título de exemplo, repare-se que, enquanto a esmagadora maioria dos países tratam a China por “China”, a Rússia, até aos dias de hoje, a trata por “Cataio”. O Cataio era bem conhecido de todo o Ocidente medieval, mas a confirmação, no século XVII, que “China e Cataio” eram a mesma realidade…»



jdact

Designações dadas pela China a Portugal
«Os contactos do Império do Meio com o Ocidente datam dos primeiros séculos antes de Cristo, quando comerciantes e aventureiros através da Ásia Central e pela Rota da Seda, ligavam o Mediterrâneo levantino à China.

NOTA: Não se pode precisar a data dos primeiros contactos. “À seres”, ao país da seda, se referem os autores clássicos, e à atracção que aquele produto exercia na Grécia e em Roma. Sabe-se que cerca de 150 a. C. o general Zhang Qian foi enviado pelo Imperador Wu da dinastia Han em missão oficial ao Ocidente.

Viajantes anónimos, o seu rasto ficou no domínio da arqueologia ou nas referências gerais das histórias dinásticas chinesas. Este tipo de contactos manteve-se durante alguns séculos. A interrupção determinada pela pujança nascente do mundo islâmico, que isolou a Europa da Ásia Central, duraria uns seiscentos anos, só voltando a restabelecer-se os velhos trilhos da Rota da Seda aquando da “pax mongólica” e do ‘Século Franciscano’, no Cataio, do século XIII ao XIV.
É a época de Rubruquis, de Carpine e também dos Polos, dos viajantes religiosos, comerciantes e aventureiros. Neste período surgem os relatos de viagens, a génese do intercâmbio entre Ocidente e Oriente no mundo moderno que dealbava. Mas só no século XVI teve início, para o Ocidente, o conhecimento científico da China, o estudo sistemático da sua civilização e cultura, os alicerces da sinologia como disciplina autónoma das ciências sociais, tal como ainda hoje a entendemos. Ensaiaram-se os primeiros passos no relacionamento entre Estados/nações à luz da emergente ordem jurídica internacional, em que Portugal teve um papel predominante e fulcral:
  • a chegada do primeiro português a terras da China, Jorge Álvares, em 1513, a malograda embaixada de Tomé Pires à Corte do Filho do Céu, uns cinco anos depois, o início do trato nos mares da China meridional e o estabelecimento de Macau, em meados do século e, um pouco mais tarde, a espantosa gesta jesuíta na China, apoiada, por um lado, no ímpar escol da primeira geração e, por outro, no impulso dado pela Coroa de Portugal ao Padroado do Oriente e à Sociedade de Jesus.
Para o estudo da história do relacionamento entre nações, é útil conhecer o imaginário recíproco. Mas é difícil, em regra, que esse conhecimento seja equilibrado, não poucas vezes a historiografia daquele relacionamento sendo obra de nacionais de uma delas. O caso das relações entre Portugal e a China, diria que é paradigmático. Ao conhecimento da riqueza das fontes de um, não corresponde equivalente conhecimento das fontes do outro; os historiadores portugueses conhecem mal as fontes chinesas, e os chineses, as nossas. A imagem recíproca que temos uns dos outros resulta assim distorcida, levando a equívocos, a teses simplistas que viciam o processo de construção da História do mais antigo relacionamento permanente entre o Ocidente e o Oriente.



O nome, ou designação, dada por um país a outro, pode conter poucas indicações sobre o percurso das relações entre ambos, ou sobre o conteúdo passado delas. Outras vezes, porém, não é assim. A título de exemplo, repare-se que, enquanto a esmagadora maioria dos países tratam a China por “China”, a Rússia, até aos dias de hoje, a trata por “Cataio”.

NOTA: O Cataio era bem conhecido de todo o Ocidente medieval, mas a confirmação, no século XVII, que “China e Cataio” eram a mesma realidade, fixaram a primeira designação enquanto a segunda caía em desuso.

Para além disso, o tipo de escrita é relevante nesta matéria: se a escrita fonética judaico-cristã e árabe tende a obnubilar a origem e substância das relações, já a escrita figurativa do mundo sínico tende a conservar, nas próprias designações, aplicadas a si mesma e aos outros, o significado daqueles aspectos.

NOTA: O aspecto figurativo na escrita é importante mas não é único, havendo também a componente fonética, o que permite a existência de um alfabeto fonético chinês, sendo o mais recente e oficial o ‘Pinyin’.

O sentido intrínseco dos caracteres chineses não se perde por completo mesmo quando utilizados por razões fonéticas. É o caso dos nomes que a China, ao longo dos tempos, atribuiu a Portugal. São curiosos em si e são, ao mesmo tempo, indicativos dos conhecimentos sobre o nosso país e sobre o estado das relações entre ambos. A história do relacionamento luso-chinês fica incompleta se desconhecermos as designações com que fomos identificados ao longo dos tempos». In João de Deus Ramos, Portugal e a Ásia Oriental, Fundação do Oriente, 2012, ISBN 978-972-785-102-7, Comunicação apresentada à Academia Portuguesa da História, 5 de Abril de 1995.

Cortesia da F. Oriente/JDACT