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sábado, 2 de julho de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal. As suas Damas: «...Mas não será desnecessario acentuar de um lado os traços de parentesco com os quadros da Luz e o do Mosteiro da Encarnação, como são a testa alta, cabello loiro, olhos azues, tez muito clara, e do outro lado a semelhança, notavel da retratada com el-rei D. Manoel»

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NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«Cumpre-me explicar agora quaes motivos me levam a aceitar a antiga tradição aãrtistica, que designa com o nome «Infanta D. Maria» a bella dama pintada por Moro, dizendo porque reconheço no vulto a filha de D. Manoel, comquanto nem no proprio quadro nem tão pouco em documento algum relativo a Moro haja noticias elucidativas. tambem, Por que razão regeito e considero inconsistentes as duvidas levantadas por certos criticos escrupulosos.
De onde essas duvidas nasceram, bem o sei. Da coexistencia de tres damas diversas de nome igual, que, nascidas no terceiro decennio do seculo XVI de allianças entre a casa de Austria e a dynastia manoelinao e casadas ou promettidas em casamento a principes do mesmo sangue, tinham jus a figurar nas galerias de retratos dos Felipes, e deviam, segundo todas as previsões, apresentar certo ar de familia, ostentando trajes de estylo parecido.
Ei-las pela ordem, chronologica:
  • Primeiramente temos a nossa Infanta, filha de D. Manoel de Portugal e D. Leonor de Áustria (1521-1577).
  • Em segundo logar, a filha de D. ]oão III e D. Catharina, a qual nasceu a 21 de maio de 1527, casou em 1543 com seu-primo Felipe, e falleceu ao cabo de dois annos, ao dar á luz o Infante D. Carlos, de triste memoria.
  • De passagem seja dito, que os dois nubentes eram de idade igual e celebravam o seu anniversario no mesmo dia como os reinantes actuaes de Portugal.
  • A terceira é a filha de Carlos V e da Imperatriz D. Isabel de Portugal. Essa nasceu em 1528. Casando em 1548 com o Imperador Maximiliano II, conservou-se todavia na Peninsula até 1551.

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É impossivel que Antonio Moro pintasse a segunda, se realmente veio de Flandres depois de 1550, no que todos concordam. Impossivel tambem que o quadro em questão represente uma joven de 17 ou 18 annos. Tambem não póde representar a terceira D. Maria, pois o retrato d'ella conservou-se e lá está hoje no Prado ao lado do que nos occupa, mas também sem inscrispção comprovativa. Resta portanto a hypothese que defendo e outros impugnam, por confundirem as tres Marias.
A estada do-pintor flamengo, «pintor das noivas regias», como um dos mais entendidos criticos de arte costuma nomeá-lo na côrte portuguesa em 1552, com cartas de recommendação da Rainha-viuva de Hungria para sua irman D. Catharina é um facto incontestavel e comprovado.
Com quasi igual certeza consta que o eximio artista retratou do natural, além dos reinantes, ao principe real, ao Infante D. Luiz e uma D. Maria de Portugal e que esses quadros foram parar, ainda no seculo XVI, a Hespanha, onde figuraram até 1608 na Sala dos Retratos do palacio «El Pardo». E como em 1550 havia uma única «D. Maria de Portugal» é quasi superfluo relevar ainda a perfeita concordancia da idade, e da indole que a pintura revela. Mas não será desnecessario acentuar de um lado os traços de parentesco com os quadros da Luz e o do Mosteiro da Encarnação, como são a testa alta, cabello loiro, olhos azues, tez muito clara, e do outro lado a semelhança, notavel da retratada com el-rei D. Manoel.

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O trage cujos tons sombrios dão realce á singular alvura das mãos e do rosto, finamente modelado, está em harmonia na sua singeleza distinctissima com a nobreza natural do porte, e com a melancholica suavidade da physiognomia. O velludo preto, afogado, de corte modesto, guarnecido apenas na frente com alguns laços de cor clara que se repetem nas mangas golpeadas, denuncia a elevada categoria do personagem, sem ostentar as suas grandes e falladas riquezas que tantas cobiças despertaram. Poucas joias de preço destacam-se do estofo e do veu de gaze, sem annullar o aspecto tristonho do quadro, Poucas, relativamente, diadema, collar, remate do veu e cinto, se tivermos em mira, conforme reclama a justiça, outros quadros da mesma epoca e do mesmo pintor, representando damas das familias reaes de Hespanha, porque o vestuário de algumas está litteralmente coberto das mais raras preciosidades da ourivesaria e joalheria.
Veja-se o retrato da Rainha D. Catharina, o da outra D. Maria, filha da Imperatriz D, Isabel de Portugal, o da Princeza D. Joanna, todos no Prado. E tambem o da Rainha D. Leonor que juntamos a essas paginas, por ser inteiramente desconhecido em Portugal. Vestida á franceza, com decote discreto, em cores brilhantes, parece tão juvenil como a filha; mais bonita e alegre, não.
Fosse em conformidade rigorosa com o seu estado de innupta, fosse por entender que dizia bem com a tez e o colorido, ou que não precisava de luxuosos atavios e grossa pedraria para se distinguir entre as primeiras, a virgem sábia, «egregium virgo decus innuptarum», escolhera aquelle vestido grave, á antiga portugueza». In A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas, edição fac-similada, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Biblioteca Nacional 1994.

Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal. As suas Damas: «... a respeito das mulheres instruídas que conviveram com Cataldo Sículo e dele receberam cartas e versos, das quais D. Leonor (1488-1563) foi provavelmente a que faleceu mais tarde, temos de admitir que havia um movimento de interesse pela nova cultura entre as damas da corte, antes de 1520, ano em que o humanista já teria deixado de viver. Ao número dessas senhoras pertenceram, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã do rei D. Manuel, e a infanta D. Joana, irmã de D. João II»

Cortesia de wikipedia 

«... O livro do Sabelico chama-se Enneades seu Ehapsodia historiarum e foi D- Leonor de Noronha quem aportuguesou o título em eneyda, sem com isto pretender criar qualquer confusão com o poema de Vergílio. Por outro lado, Enneades é uma palavra derivada do grego «nove», porque cada um dos onze livros das Enneades está dividido em nove partes. ... a respeito das mulheres instruídas que conviveram com Cataldo Sículo e dele receberam cartas e versos, das quais D. Leonor (1488-1563) foi provavelmente a que faleceu mais tarde, temos de admitir que havia um movimento de interesse pela nova cultura entre as damas da corte, antes de 1520, ano em que o humanista já teria deixado de viver. Ao número dessas senhoras pertenceram, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã do rei D. Manuel, e a infanta D. Joana, irmã de D. João II.

Cortesia de absoluteastronomy 
Também não tem fundamento afirmar que a rainha D. Leonor, terceira mulher de D. Manuel, e mãe da Infanta, foi a impulsionadora do humanismo da corte no pouco tempo que viveu entre nós, e que sua irmã, D. Catarina, mulher de D. João III, não era muito instruída. Há provas em contrário desta afirmação. E no séquito que veio de Castela um conjunto de personalidades, cuja acção se fez sentir na vida cultural do país, como os irmãos Pedro e Rodrigo Sanches, Julião de Alba, Turíbio Lopes outros mais.
António de Castro, que promoveu a edição das obras de Cataldo Parísio Sículo, não foi discípulo do humanista italiano nem publicou as suas obras completas. Esta edição de António de Castro, se foi de facto impressa, não chegou até nós. Tudo o que temos é a publicação no século XVIII, a partir de António de Castro (manuscrito? livro impresso?), da parte dos versos de Cataldo, com cortes, por vezes, nas peças publicadas. Fez essa publicação D. António Caetano de Sousa no volume VI, das Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa.  

Trabalho de impressão de Valentim Fernandes
Cortesia de tipografos
De um modo geral, pode dizer-se que na edição das Provas não está metade sequer da obra poética de Cataldo e que lá faltam por completo os dois volumes de Epistolae e todas as Orationes menos uma. O primeiro volume de Epistolae et Orationes foi acabado de imprimir por Valentim Fernandes da Morávia, em Lisboa, em 21 de Fevereiro de 1500, o segundo, cerca de 1514. Das Orationes, D. António Caeteno reimprimiu a Oratio habita a Cataldo in aduentu Elisabet Principis Portugaliae ant ianuam Eburae; pronunciada pelo humanista em 28 de Novembro de 1490; e das Epistolae apenas a dirigida ao princípe D. Afonso, filho de D. João II, que precede os Prouerbia Cataldi.
Quanto a António de Castro, editor de Cataldo, a origem das confusões a seu respeito, como em tantos outros casos, esteve na Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado, livro certamente útil, mas pleno de erros de facto e de erros tipográficos». In Prefácio de Américo da Costa Ramalho, A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas, edição fac-similada, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Biblioteca Nacional 1994.


Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

sábado, 22 de janeiro de 2011

Recensões. Cataldo Parísio Sículo: Parte I. «Numa das cartas que formam o conjunto dos 73 textos da Cataldi epistolarum et quarundam orationum secunda pars, saída em Lisboa certamente em 1513 num volume impresso em caracteres góticos, endereçada a D. Álvaro (irmão do Duque de Bragança D. Fernando, condenado em 1483), o humanista italiano que, chamado por D. João II, já se encontrava em Portugal em 1485...»

Cortesia de leituragulbenkian

Recensões
Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte. Fixação do texto latino, tradução e notas de Américo da Costa Ramalho e de Augusta Fernanda Oliveira e Silva, col. «Estudos Gerais. Série Universitária», Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, 233 pp. + fac-símiles

«Numa das cartas que formam o conjunto dos 73 textos da Cataldi epistolarum et quarundam orationum secunda pars, saída em Lisboa certamente em 1513 num volume impresso em caracteres góticos evidenciando um razoável cuidado tipográfico, aquela que ocupa o 42º lugar, endereçada a D. Álvaro (irmão do Duque de Bragança D. Fernando, condenado em 1483), o humanista italiano que, chamado por D. João II, já se encontrava em Portugal em 1485, confessava: «Non soleo, natura mea, longas conscribere litteras nisi ubi maxima urget necessitas» (p. 132) = «Não costumo, por minha natureza, redigir uma carta longa, senão quando urge uma necessidade muito grande». A frase deixa transparecer a faceta auto-valorizadora de Cataldo, espelhada em diversificados momentos da sua obra e, portanto, deste corpus, efectivamente caracterizado pelo predomínio quase absoluto de textos curtos.

D. João II
Cortesia de wikipedia
No volume quinhentista em causa, textos longos são as duas orationes nº 45 e 59, já anteriormente publicadas com estudos e tradução (p. 145, n. 172; p. 177, n. 214), textos que, por definição, não poderiam ser breves sob pena de incorrerem no menosprezo do género e da própria situação em que haviam sido proferidas, a carta dirigida a D. Pedro de Meneses, conde Alcoutim (nº 64, p. 188), que é a dedicatória do poema cataldiano Martinho, Verdadeiro Salomão, objecto já, há três décadas, de uma edição e tradução orientadas pelo Prof. Costa Ramalho, e cuja extensão se compreende dessa perspectiva enunciativa e finalmente a referida carta a «D. Álvaro, presidente de Portugal» (D. Álvaro foi regedor da Justiça e chanceler-mor do reino, n. 149), que não deixa de ser também a manifestação caracterizadora da imagem que Cataldo busca dar de si mesmo ao longo deste conjunto de textos.

D. Isabel
Cortesia de wikipedia
Numa outra carta, inscrita na 57ª posição (p. 172), recorre à imagem banal em escritos do tipo laudatório como são predominantemente os textos desta II Parte, para manifestar a sua dor face à «repentina desventura» de saúde que afligira D. João de Noronha, a qual não poderia ser escrita «numa folha de papel por longa 224 Recensões que fosse»; mas a carta é, em si mesma, de pequena extensão.
E qual a razão para a angústia de Cataldo nessa circunstância?
O destinatário, pertencente à família dos Meneses (era irmão de D. Pedro de Meneses), incorporava em si o exemplo de cavaleiro letrado que Cataldo transforma em elemento central da imagem que pretende fazer passar para o leitor ao longo deste conjunto de textos.

Na verdade, tanto nesta carta, «E não é por seres um cavaleiro muito excelente e essa excelência emanava da actividade militar na guerra contra os árabes, nas praças do Norte de África, que tanta honra dera aos Meneses que hás-de desprezar a língua latina», porque, para além do mais, ela «ser-te-á útil» para aquelas situações de convivialidade social junto do príncipe, onde convinha «não só falar de armas mas também de Letras» (p. 172), como naquela outra antes referida, dirigida a D. Álvaro reportando-se à personalidade dos dois filhos do fidalgo, faz sobressair o mais novo pela sua beleza e, sobretudo, pela sua propensão para o estudo («Natus ad eloquium, doctrinas natus ad omnes qualis adhuc nullus traditur esse puer»), mostrando uma «seriedade» própria de «um ancião», contrastando com a maneira de ser do mais velho, «entregue aos cavalos e às caçadas de lebres», afastando-se «do estudo das Letras».

D. Álvaro
Cortesia de albergariadosfusos
Cataldo deixa patente o modelo de formação da juventude aristocrática que orientava a sua actuação como preceptor humanista na corte joanina e manuelina. Era um modelo de origem italiana, de facetas modernizantes que deviam suscitar o interesse de uma nobreza que pretendia ser ela também mais moderna, por diversas razões, entre as quais se devia contar essa aludida utilidade das Letras para o cavaleiro que tinha de estar, nesse sentido forte de «estar junto, de assistir», «quer perante o César, quer perante os restantes grandes homens» (p. 173) – na companhia do monarca, como conselheiro prudente e virtuoso, conforme toda esta literatura não se cansava de sublinhar. Um modelo que bem podia situar-se como oferta muito mais valiosa do que esse outro modelo da dignitas do fidalgo fundada na prosápia genealógica sustentada pela violência belicosa identificada com o figurino do cavaleiro proposto nos livros de cavalaria.
O empenhamento com que Cataldo enaltece as virtudes das Letras na educação da juventude aristocrática mais próxima do rei não podia estar alheado de uma intenção polémica, que passava tanto pelas pessoas em si mesmas, e o feitio de Cataldo, como sempre vincou o Prof. Costa Ramalho nos seus trabalhos, não era marcado pela suavidade, nomeadamente no que dizia respeito a outros mestres de latinidade, como por uma outra literatura marcada pelo atractivo da ficção romanesca e por isso tão procurada.

O valor da obra cataldiana não emana propriamente da sua qualidade intrínseca em termos literários, o que não autoriza a que se desvalorize a sua importância no quadro da expressão em latim renascentista. Mas, exceptuando alguns momentos mais felizes, em que o discurso ganha em vivacidade expressiva, em regra bem se lhe pode aplicar o juízo que, na introdução à presente edição, se tece a Via Spiritus 13 propósito dos Poemata do humanista (um primeiro conjunto saído em 1502-1503 e um segundo cerca de 1513, portanto em momento coincidente com a Secunda pars):
  • «O valor poético de muitas destas observações não é grande, mas o seu interesse documental é incalculável» (p. 16). Trata-se de facto de uma obra vasta e multifacetada e incontornável para um conhecimento menos apoiado em lugares-comuns que vagabundeiam (aproveitando a sugestão do sintagma «influências vagabundas» já usado por alguém) pelos manuais a propósito dos tempos de D. João II e de D. Manuel, tempos também do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e de uma boa parte da produção dramatúrgica de Gil Vicente.
Ora, como mais de uma vez o Prof. Costa Ramalho evidenciou, as relações entre esses três grandes conjuntos são mais reais e significativas, do ponto de vista documental, do que se poderia imaginar há umas décadas atrás.

Cortesia de wikipedia
Neste enquadramento, atentemos no volume saído talvez nesse ano de 1513 como II Parte das cartas e de alguns discursos de Cataldo Sículo, que a presente edição disponibiliza ao leitor actual, fornecendo-lhe não só um texto latino crítico no sentido de cientificamente fixado tendo em atenção que os hábitos de leitura e de empaginação não são os mesmos de há 500 anos, mas também uma tradução rigorosa, conforme na introdução se explicita. O cuidado que marca a edição levada a cabo por Américo da Costa Ramalho e por Augusta Fernanda Oliveira e Silva fica ainda patenteado tanto pela inclusão das notas, índices e bibliografia. Ambas as impressões quinhentistas, pelas suas características materiais, partilham daquilo que se poderia designar como o livro manuelino, isto é, uma linguagem tipográfica que participa na projecção dignificadora do príncipe, no quadro de uma linguagem ostentatória do reinado do Venturoso que corresponde sobretudo ao período ao seu casamento com D. Maria, rainha que, não fora certamente a grande discrição que parece tê-la caracterizado, devia surgir aos nossos olhos como uma figura bem mais influente e culturalmente importante (quiçá até para a actividade de Gil Vicente) do que podemos pensar». In Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva, Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte, Estudos Gerais. Série Universitária.  

Cortesia da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005/JDACT