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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Miguel Corte Real: Cataldo Sículo. «Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para a sua biografia, até hoje não aproveitado»

Pintura de Gaspar Corte Real
Cortesia de manuellucianodasilva 

Foge-me o talento e a eloquência,
apodera-se de mim o terror, quando tento
dizer os feitos de tão grande capitão.
É aquele que tem o nome do príncipe
celeste dos cavaleiros e a quem os
antepassados legaram o apelido de Corte Real.

Tudo quanto faz é digno de triunfos,
digno de ser posto em tábua de cedro.
Avô e bisavô o tornaram nobre pelo
sangue. E ele os adorava em todas as
virtudes.

Ele tudo realiza, segundo o
pensamento de quem lho ordena (o Rei).
Cavaleiro ilustre, ora actua como
soldado, ora veste armas ligeiras. Em
qualquer caso, a sua presença significa
victória.
Cataldo Sículo, «Poemata, 1502» 
 
Carta Real de Miguel Corte Real emitido em 02 de Maio de 1502 Cortesia de dightonrock
 
Não há nenhuma pintura de Miguel Corte Real. O Prof. Américo Costa Ramalho afirma:
  • Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para a sua biografia, até hoje não aproveitado. O poema é dedicado a Miguel Corte Real.
Cortesia de Manuel Luciano da Silva/JDACT

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cataldo Sículo: A ele se dve a introdução das ideias do humanismo greco-latino renascentista em Portugal, sendo as suas obras as primeiras representativas daquela corrente de pensamento impressas em Lisboa

Palermo, Sicília
Cidade natal de Cataldo Sículo (1455-1517)
Cortesia de fotografieitalia
Giovanni Cataldo Parisio (Palermo, 1455 – 1517), também conhecido por Cataldo Sículo, foi um poeta e proto-humanista siciliano que viveu alguns anos em Portugal, sendo preceptor de príncipes e de membros da aristocracia. Deve-se a Cataldo a primeira introdução das ideias do humanismo greco-latino renascentista em Portugal, sendo as suas obras as primeiras representativas daquela corrente de pensamento impressas em Lisboa.

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Cataldo. Nasceu em Palermo, Sicília, na última metade do século XV, tendo estudado nas Universidades de Bolonha, Pádua e Ferrara.

D. João II
Cortesia de marebaixa
Por recomendação do bispo de Lamego, D. Fernando Coutinho, o rei D. João II contrata-o como preceptor do príncipe-bastardo D. Jorge, o que faz partir para Lisboa no ano de 1485. A sua capacidade oratória e os seus conhecimentos de latim fazem com que ascenda rapidamente na corte, passando a secretariar o rei na escrita de missivas em latim para a Santa Sé e para monarcas e príncipes europeus. Vindo para Portugal, aos 30 anos de idade, e falecido aqui cerca de 1517, acabou por viver mais tempo entre nós do que na Itália natal. Deste seu apego à terra portuguesa são testemunho declarações nos seus versos em que se considera português por adopção.

Depois da morte prematura do príncipe D. Jorge, continua a sua actividade como preceptor de filhos da alta nobreza lisboeta, fazendo desta actividade o seu meio de vida. Entre outras personalidades notáveis, educou D. Leonor de Noronha (1488-1563), uma das primeiras mulheres a publicar obra em Portugal.

Isabel de Castela (1470-1498)
Cortesia de absoluteastronomy
Em 1490 coube-lhe pronunciar em Évora o discurso de saudação à princesa Isabel de Castela, noiva do príncipe D. Afonso. Em 1497 foi-lhe concedida uma pensão real e teve o apoio, particularmente na edição das suas obras, de alguns membros da aristocracia portuguesa, nomeadamente de D. Pedro de Meneses, 3.º marquês de Vila Real e 2.º conde de Alcoutim. Manteve contacto epistolar com alguns dos expoentes do nascente humanismo italiano, entre os quais Pontano, PlatinaAntonello Petrucci e Aurelio Brandolini, tendo publicado parte da correspondência nas suas Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi, que publicou em dois tomos (1500 e 1513).

Publicou diversas obras em latim, incluindo poemas, provérbios, cartas e análises do pensamento e da literatura dos clássicos. Algumas das suas obras são hoje desconhecidas. Uma rua de Palermo, sua cidade natal, ostenta o seu nome (a via Cataldo Parisio).
 
Obras publicadas
  • Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi, tipografia de Valentim Fernandes, Lisboa, 1500;
  • Poemata, tipografia de Valentim Fernandes, Lisboa, 1501-1502;
  • Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi (2.º parte), tipografia de Valentim Fernandes, 1513 (ou 1514);
  • Visiones, tipografia de Valentim Fernandes, 1513 (ou 1514);
  • Omnia Cataldi Aquillae Siculi, quae extant opera per Antonium de Castro denuo correcta, ac nunc primum in lucem edita, Lisboa, 1509 (não se conhece qualquer exemplar).
Bibliografia
  • Cataldo e André de Resende. Actas do Congresso Internacional do Humanismo Português, Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Centro de Estudos Clássicos, Lisboa, 2002;
  • Adriano Milho Cordeiro, O Poema - Triunfo dos Anjos e das Musas que se Congratulam com Gonçalo Filho de Martinho - Cataldo Sículo, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1992;
  • Américo da Costa Ramalho (editor). Epistolae et Orationes, edição facsimile, a cargo de Américo da Costa Ramalho, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1988;
  • Américo da Costa Ramalho. Um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real in Humanitas, vol. 25-26 (1973-1974), p. 3;
  • Augusta Fernanda Almeida Oliveira Silva. Algumas Cartas a Portugueses do Séc. XVI (Livro II) - De Cataldo Parisio Siculo - Introdução, Texto Latino, Versos e Notas, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1992;
  • Domingos Maurício Gomes dos Santos. Cataldo Áquila Parísio Sículo e a Princesa santa Joana, Porto Publicações do XXVI Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, Secção VII, Porto, 1962;
  • Ema Jesus Rodrigues Barcelos. O Livro II do Poema a Águia de Cataldo Siculo, tese de mestrado em Literatura Novilatina em Portugal, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1986;
  • Helena Maria Ribeiro Almeida Costa Toipa. Cataldo e as duas Princesas, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1991;
  • Maria Beatriz Silvestre. A Correspondência de Cataldo com os Condes de Alcoutim, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1965 (dissertação de licenciatura, dactilografada);
  • Salvatore Statello. Cataldo Siculo Parisio - Un umanista siciliano, grande in Portogallo, ma dimenticato in Sicilia, Revista Agorà, n.º 21-23, Editoriale Agorà, Catania, 2005;
  • Simão Pires Diz. Humanismo Italiano e Cultura em Portugal nas Epistolae de Cataldo, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1986.

Poemata Cataldis. - [Lisboa : Valentim Fernandes, 1500]. - [126] f. ; 2º (28 cm).
Dados de publicação retirados de obra de referência: Lisboa : Valentim Fernandes, 1500. - Assin.: a-p//8, q//6. - H 4678. - GW 6213. – F. com a assin. q//6 em branco. - F. restauradas. - Manchas de acidez e humidade . - Notas mss. marg. - Enc. com: "Epistoli Cataldi". - Enc. em pele grav. a ferros dourados

Cortesia de leituragulbenkian
«Esta obra apresenta a fixação do texto latino, tradução, prefácio e notas por Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva de algumas das cartas e outros textos do humanista italiano Cataldo Parísio Siculo, nascido na Sícilia em 1455 e morto em Portugal cerca de 1517, país para onde veio viver em 1485. Os textos desta personalildade foram impressos numa primeira parte em 1500 por Valetim Fernandes num volume de Epistolae et orationes, de que cerca de 1513 saiu uma segunda parte, que é reproduzida no fim deste volume em fac-simile, sem que a problemática que envolve esta edição seja focada na introdução de Costa Ramalho. De assinalar que antecedem a presente edição duas realizações: a primeira é a edição fac-similada das Cataldo Parísio Siculo, com introdução de Américo da Costa Ramalho, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1988 e a outra, que se prende directamente com a obra aqui apresentada, é a tese de mestrado em Literatura Novilatina em Portugal, apresentada à Universidade de Coimbra em 1992, por Augusta Fernanda Oliveira e Silva, Algumas cartas a portugueses do século XVI (livro II) de Cataldo Parísio Siculo. A publicação das Epístolas de Cataldo, que seria bom não se ficar apenas por esta segunda parte, constitui uma iniciativa do maior realce no panorama da Cultura Portuguesa, pois era de há muito aguardada, permitindo a partir de agora que os estudiosos do Renascimento em Portugal possam ter fácil acesso a textos que eram pouco conhecidos por se limitarem às suas versões latinas. As cartas agora traduzidas incidem sobre a primeira fase do Humanismo em Portugal e revelam as relações mantidas por Cataldo Siculo em Portugal». In José Manuel Garcia, 2005, leitura.gulbenkian.

Cortesia de wikipédia/Paulo Heitlinger/Américo da Costa Ramalho/JDACT

O Retrato de Miguel Corte Real: As honras desta grande descoberta vão para o Doutor Américo da Costa Ramalho, especialista em Cultura Helénica e Humanista. Foi este académico que descobriu um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta italiano Cataldo Sículo

Pintura de Gaspar Corte Real
Cortesia de dightonrock
Com a devida vénia a Manuel Luciano da Silva, publico algumas das sua palavras.
Todas as honras desta grande descoberta vão direitinhas para o Doutor Américo da Costa Ramalho, Professor da Universidade de Coimbra e especialista em Cultura Helénica e Humanista, em Portugal.
Foi este académico que descobriu um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta italiano Cataldo Sículo, que residia temporariamente em Lisboa e foi publicado na colectânea POEMATA, em 1502.

Cortesia de booksgoogle
Miguel Corte Real foi à procura do irmão em Maio de 1502. Nem um nem outro jamais voltaram a Portugal. Que eu saiba não há pintura nenhuma de Miguel Corte Real. Nunca ninguém tinha analisado este poema em relação ao navegador Miguel Corte Real. Logo no começo da sua monografia o Professor Costa Ramalho alerta-nos:

Prof. Américo da Costa Ramalho 
Cortesia de uc
«Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para sua biografia, até hoje não aproveitado». O poema consta de quarenta e quatro versos dedicado a «michaele curie regalis» ou seja a Miguel Corte Real. Vamos rever a tradução do referido poema feita pelo Professor Costa Ramalho: O título do poema é como acima se disse -- «Dedicado a Miguel Corte Real». Nos primeiros versos o poeta expressa a sua «humildade poética» mas ao mesmo tempo revela bem claro o nome do protagonista como sendo descendente dos famosos Corte Reais. Diz o poema:

«Foge-me o talento e a eloquência, apodera-se de mim o terror, quando tento dizer os feitos de tão grande capitão».
«É aquele que tem o nome do príncipe celeste dos cavaleiros e a quem os antepassados legaram o apelido de Corte Real».
«Tudo quanto faz é digno de triunfos, digno de ser posto em tábua de cedro».
«Avô e bisavô o tornaram nobre pelo sangue. E ele os adorava em todas as virtudes».
«Ele tudo realiza, segundo o pensamento de quem lho ordena (o Rei)».
«Cavaleiro ilustre, ora actua como soldado, ora veste armas ligeiras. Em qualquer caso, a sua presença significa victória».

E agora vêm os versos que nos dão em pormenor a aparência, o retrato físico e o carácter do famoso navegador Miguel Corte Real:

«É amável com pessoas amáveis, brando com brandos amigos, mas com os arrogantes torna-se bastante ríspido».
«Não aprendeu as belas letras na infância, mas ensinado pelo seu talento tudo sabe».
«De aspecto, é sereno e belo, e mais belo é o seu íntimo. Da sua boca eloquente jorra uma graça variada».
«Gosta de dar muito, com mão larga, a quem o merece e piedosamente se esforça por não prejudicar a quem o não merece».

Qual era a posição oficial de Miguel Corte Real? É Cataldo Sículo que nos informa:

«Talvez queiras saber qual é o ofício deste Senhor?
«O Rei confia-lhe todos os encargos. Principalmente como porteiro-mor do palácio sobre as muralhas, é ele quem, no meio do silêncio geral, manda trazer os alimentos».
«A este homem tão leal confia D. Manuel com razão os seus segredos, tão grande é a virtude que nele reside, tão grande a honra».

E agora vem a parte guerreira de Miguel Corte Real que era totalmente desconhecida:

«Passou às costas africanas em navios. Era o comandante. Preparava-se para aí conquistar uma fortaleza, pondo-lhe cerco».
«Fosse inveja, fosse o fado iníquo, a multidão dos companheiros entrega-se a vergonhosa fuga, sob a pressão do inimigo».
«Ele com uma pequena força , faz frente aos africanos que se precipitam ao ataque e retira coberto de sangue, depois de grande morticínio».

E o poeta Cataldo conclui o seu poema comparando o heroísmo de Miguel Corte Real aos heróis da Antiga Grécia. O Professor Costa Ramalho faz uma análise pormenorizada dos vários dados revelados neste poema. Explica a origem do nome Corte Real que foi dado à Vasco Eanes, um dos antepassados de Miguel, pelos grandes serviços prestados à Corte Real presidida pelo Rei D. Duarte.

Confirma a posição de porteiro-mor da Casa Real, portanto uma das posições mais altas na Corte Portuguesa. Explica que o verso que diz que Miguel Corte Real «Não aprendeu as belas letras na infância», isso não quer dizer que o navegador era analfabeto! Quer dizer, sim, que Miguel Corte Real não sabia Latim. E o Professor Costa Ramalho acrescenta que isto é muito importante para darmos razão ao facto de Miguel Corte Real não ter deixado nenhuma mensagem em latim gravada na Pedra de Dighton. Esta conclusão é igual à que afirmei no meu livro «Portuguese Pilgrims and Dighton Rock» publicado em 1971.

Infelizmente a mensagem que o psicólogo-historiador, Prof. Delabarre da Universidade de Brown, sugeriu em 1928 de que Miguel Corte Real tinha deixado na Pedra de Dighton uma mensagem em latim = "V(oluntate) Dei Hic Dux Ind(orum)", significando: " Chefe dos Indios aqui", é uma FANTASIA que continua a ser repetida em muitas notas de rodapé, que na realidade são aquilo a que eu chamo "notas de chulé"!

Outra análise importante do poema de Cataldo é o facto de ficarmos a saber que Miguel Corte Real também foi guerreiro nas campanhas de Norte Africa. Isto é muito importante para explicar a assinatura duma carta dele em 1501 dirigida ao Rei D. Manuel, que o próprio historiador Henry Harrisse teve dificuldade em entender porque não tinha dados que explicassem que Miguel Corte Real jamais tinha estado em Málaga, Espanha, no ano antes de partir para a América do Norte, em 10 de Maio de 1502, à procura do irmão Gaspar Corte Real que não tinha regressado a Lisboa da sua segunda viagem em 1501.

O Professor Costa Ramalho conclui o seu trabalho desta maneira:

«Durante anos, a teoria prevalecente foi a do psicólogo, tornado historiador, Professor Edmund Burke Delabarre, que , descobriu o nome de Miguel Corte Real, o Escudo Português e a data de 1511. Posteriormente (1951), um professor universitário de Português, José Dâmaso Fragoso, (na New York University), revelou a existência de heráldica lusa no rochedo, três cruzes da Ordem de Cristo. E um médico de origem portuguesa, estabelecido nos Estados Unidos, o Dr. Manuel Luciano da Silva, tem sido o ardente propagandista da teoria de que o rochedo de Dighton é um documento histórico da presença de Miguel Corte Real nas costas da América do Norte. Ele nega a mensagem em latim, reduzindo o texto da inscrição ao nome do navegador e a uma data, 1511, além de um Escudo Português e três Cruzes da Ordem de Cristo».

Manuel Luciano da Silva, médico
Cortesia de atlanticconference
Fez, no dia 18 de Dezembro de 1998, 80 anos que o Professor Delabarre lançou a teoria portuguesa das inscrições portuguesas gravadas na Pedra de Dighton. Durante estas oito décadas todas as investigações só têm servido para consolidarem cada vez mais a Teoria Portuguesa da Pedra de Dighton. Claro que fiquei satisfeito com este artigo original do Professor Costa Ramalho que chegou a ser «Visiting Professor» de Português na «New York University», entre 1959-1962. Devo realçar ainda mais a importância da investigação original do Professor Costa Ramalho pelo facto de ser baseada na análise dum documento contemporâneo de Miguel Corte Real. In Manuel Luciano da Silva (médico).


A Pedra de Dighton
Cortesia de topazio1950
Cortesia de Manuel Luciano da Silva/JDACT