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terça-feira, 1 de março de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XV. Descobrimento e Navegação para os Açores. «De acordo com Damião Peres, estas ilhas terão sido descobertas por Diogo de Silves, marinheiro do Infante D. Henrique, no ano de 1427»

Mapa do Arquipélago dos Açores de Luís Teixeira
Cortesia de institutocamoes 

Com a devida vénia a Catarina Garcia e ao Instituto-Camões, publico algumas palavras.

Descobrimento e Navegação para os Açores
«A Oeste de Portugal Continental, de sueste para noroeste, o arquipélago dos Açores é formado por 9 ilhas de origem vulcânica organizadas em 3 Grupos:
  • um Grupo Oriental com as ilhas de S. Miguel e Sta. Maria;
  • um Grupo Central com as ilhas Terceira, S. Jorge, Pico, Graciosa e Faial;
  • um Grupo Ocidental, composto pelas ilhas das Flores e Corvo.
A descoberta das ilhas dos Açores está envolta em muitas dúvidas e poucas certezas pois são praticamente inexistentes documentos régios que o comprovem ou assinalem as circunstâncias e as datas de cada descoberta. Mesmo a cartografia existente, pela sua diversidade, apenas contribui para aumentar a incerteza sobre este acontecimento.
Segundo Gaspar Frutuoso, cronista açoriano do século XVI, os Açores foram descobertos por Gonçalo Velho Cabral que, a mando do Infante D. Henrique, teria chegado à ilha de Sta. Maria em 1432 e a S. Miguel em 1444.

Esquema cartográfico mostrando a «volta da Guiné» e a «volta da Mina»
Cortesia do institutocamoes
Durante o século XIX alguns estudiosos defenderam que este arquipélago já seria conhecido, tendo apenas os navegadores do Infante D. Henrique reencontrado estas ilhas. Estas conclusões baseavam-se na interpretação de alguns mapas de século XIV onde estão representadas várias ilhas a ocidente de Portugal e que só podiam ser os Açores.
Teorias mais recentes refutam a ideia de os Açores já serem conhecidos nesta altura uma vez que as ilhas representadas nessess mapas estavam muito próximo de Portugal Continental, muito mais do que realmente estão os Açores, e com uma disposição geográfica distinta da deste arquipélago, não passando provavelmente de ilhas imaginárias.
Aliada a esta interpretação, surge também a ideia de que no século XIV não haveria ainda conhecimentos técnicos para navegar até aos Açores. No entanto, segundo Verlinden, para se efectuar esta rota não seriam necessários instrumentos de navegação novos, bastando para tal apenas o conhecimento dos ventos conjugado com a navegação por estima e a navegação astronómica primitiva. Ora, atendendo a que a navegação para os Açores implicaria um afastamento da costa, a maioria dos estudiosos é da opinião que tal só terá ocorrido no século XV, com a ajuda das cartas de marear em conjunto com a bússola.

Cortesia de josmaelbardour 
A carta de 1439 do catalão Gabriel de Valsequa apresenta dados mais precisos sobre a descoberta do arquipélago açoreano uma vez que surge já, com algum rigor, a representação dos Açores, em cuja legenda se afirma que estas ilha teriam sido descobertas por um Diego de ?, não sendo possível identificar o segundo nome. De acordo com a leitura feita por Damião Peres, este Diego seria Diogo de Silves. Assim, e à falta de mais dados convincentes para a atribuição do descobridor dos Açores, crê-se que realmente estas ilhas teriam sido descobertas por Diogo de Silves, marinheiro do Infante D. Henrique, no ano de 1427.
As circunstâncias que possibilitaram a descoberta dos Açores continuam no entanto por clarificar. Alguns estudiosos admitem que a sua primeira abordagem por marinheiros do Infante D. Henrique terá sido casual, na sequência das viagens de regresso da costa africana no séc. XV, onde se desenvolve a navegação que tira partido dos ventos dominantes e das correntes favoráveis.

Cortesia do Museu Marítimo de Barcelona
No mais antigo documento régio referente aos Açores, que data de 2 de Julho de 1439, é dada permissão ao Infante D. Henrique para mandar povoar e lançar ovelhas nas 7 ilhas dos Açores, pressupondo que, apesar de as viagens entre o continente e as ilhas terem ocorrido desde 1427 até 1439 com Gonçalo Velho, o povoamento só se terá iniciado em 1439. Neste documento apenas são referidas sete das nove ilhas dos Açores uma vez que as Flores e o Corvo só terão sido descobertas por Diogo de Teive e seu filho João de Teive no ano de 1452.
A carta régia de 5 de Abril de 1443 atesta o desenvolvimento registado nos primeiros anos de povoamento dos Açores. Nesta carta o regente D. Pedro isenta os seus habitantes por 5 anos do pagamento da dízima e portagem dos géneros vindos do arquipélago para o Reino. Quatro anos depois os moradores de S. Miguel são dispensados do pagamento de direitos do pão, vinho, pescado, madeira, legumes e outros produtos que exportassem para o continente. Assim não restam dúvidas de que em 1443 a colonização já havia feito progressos na ilha de Sta. Maria e com certeza na ilha de S. Miguel. No entanto, a colonização das restantes ilhas era ainda bastante lenta e cheia de dificuldades, só mais tarde vindo a usufruir do benefícios das cartas de privilégios de 1443, 1444 e 1447.

Desenho de Jan Huygen van Linschoten mostrando a ilha Terceira em 1589
Cortesia dewikipedia
A Gonçalo Velho terá sido delegada pelo Infante D. Henrique a função de dirigir os trabalhos de povoamento da ilha de Sta. Maria, em conjunto com dois sobrinhos, Nuno Velho e Pedro Velho, e um grupo de colonos.
Muitas dúvidas pairam sobre o povoamento da Ilha Terceira, no entanto está comprovado que o flamengo Jácome de Bruges foi nomeado capitão desta ilha, por doação do infante D. Henrique, em 1450, tendo encetado uma acção pioneira incentivando o seu povoamento.
Mais tarde passam a existir duas capitanias na ilha Terceira, a de Angra e da Praia, ficando Jácome de Bruges na capitania de Angra e Álvaro Martins na capitania da Praia.

A capitania de S. Jorge foi doada em 1483 a João Vaz Corte Real, acreditando-se no entanto que em data anterior a esta já existisse população nesta ilha. Este povoamento deverá ter-se seguido ao povoamento da ilha Terceira, uma vez que a localidade das Velas já era referida em 1460 no testamento do Infante D. Henrique. Do mesmo modo a doação da capitania da Graciosa terá sido precedida do seu povoamento.
O povoamento das restantes ilhas ter-se-à feito com lentidão num processo moroso e difícil, não tendo sido fácil aliciar gente de condição ou mesmo do povo a fixar-se numa ilha distante, desconhecida e deserta, onde a incerteza pairava sobre tudo o que pudesse constituir atractivo para mudança». In Catarina Garcia, Instituto Camões.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

domingo, 2 de maio de 2010

Arqueologia Subaquática: Descreve, estuda e interpreta os vestígios das civilizações que se encontram em meio aquático

Com a devida vénia ao Instituto Camões, na rubrica Navegações Portuguesas, publico um trabalho referente a Arqueologia Subaquática.
Casco do naufrágio de Angra C. Trabalho de registo.
Trata-se de uma disciplina que descreve, estuda e interpreta os vestígios das civilizações que se encontram em meio aquático. Abarca a totalidade da investigação arqueológica praticada debaixo de água ou em meios húmidos, quer sejam lagos, rios ou mar. A arqueologia subaquática utiliza a mesma metodologia da arqueologia terrestre, porém a adversidade do meio onde se encontram os vestígios arqueológicos obrigou a adaptação das suas técnicas às suas características e limitações. Na década de 50, com a destruição e arrombamento de um navio francês de 74 canhões dos finais de séc. XVIII surge na Escandinávia, pela primeira vez, o reconhecimento da importância do contexto do sítio arqueológico.
George Bass vai nos anos 60 iniciar a aplicação de técnicas de arqueologia terrestre na escavação de naufrágios num naufrágio datado da Idade do Bronze (1200 a.C.), no Cabo de Gelidonia, Turquia, contemplando de igual modo os dados da carga do navio, bem como as técnicas de construção naval e de navegação.
Foram escavações como as dos navios do Séc. IV e VII, em Yassi Ada, no Mediterrâneo, que forneceram à comunidade científica informações até então desconhecidas sobre os navios dessas épocas, assim como das suas cargas. Também o norte da Europa começa a revelar sítios arqueológicos subaquáticos. Um exemplo disso é a fabulosa descoberta na Suécia, no porto de Estocolmo, do navio de guerra Wasa. Navio construído em 1628 que sofrendo de graves problemas estruturais de construção, naufragou na sua viagem inaugural logo à saída do porto de Estocolmo.
A sua escavação iniciou-se em 1956, elevando-se para a superfície, em 1961, um casco inteiro e excepcionalmente bem preservado durante trezentos e trinta anos. Depois desta operação, toda a área onde o Wasa se encontrava depositado foi submetida a uma escavação sistemática e intensiva de onde foram recolhidos diversos artefactos pertencentes ao navio e que deste terão caído no momento do naufrágio. Um dos trabalhos mais sistemáticos de arqueologia subaquática ocorreu durante o acompanhamento das drenagens de secagem para a construção de diques na Holanda.
O prévio conhecimento da ocorrência de diversos naufrágios nestas zonas, outrora navegáveis, foi motivo suficiente para o acompanhamento das obras por arqueólogos Holandeses. Em Sutton Hoo, 1939, são descobertos barcos alto-medievais, um dos quais, datado de séc. XVI, é escavado entre 1965 e 1967 sob a coordenação do Museu Britânico. Outro importante barco medieval, do séc. IX foi descoberto em 1970 em Greveney, Kent, sendo a sua escavação coordenada pelo Nacional Maritime Musiam, dando-se início ao maior programa de investigação de barcos do Noroeste europeu, pesquisas que continuam até aos dias de hoje. Os navios da frota Dutch East India Company que se perderam em águas britânicas no séc. XVIII foram alvo da atenção de exploradores e arqueólogos.

Destes, o primeiro barco histórico a ser escavado foi o Dutch East Indiaman. O seu sítio arqueológico, descoberto em 1965, esteve inicialmente associado a um programa de exploração comercial e não arqueológica. No entanto um grupo de arqueólogos iniciou mais tarde os primeiros trabalhos de registo do navio com o recurso a mergulhos no local. Outro dos naufrágios considerados de grande importância foi o navio Amsterdam, que se afundou numa praia perto de Hastings. Os navios da Armada Espanhola de 1588 têm sido igualmente alvo do interesse dos estudiosos, tendo sido possível em 1968 localizar os navios Santa Maria de la Rosa e Girona.
A constituição de clubes de mergulho a partir dos anos 60 contribuiu para o incremento da descoberta de sítios históricos submersos, muitas vezes por acaso, outras vezes resultado de prospecções sistemáticas. A descoberta do Mary Rose, ao largo de Portsmouth entre 1967 e 1971, é um bom exemplo da busca sistemática de um importante navio de guerra de séc. XVI, que se sabia afundado em 1545. Após a sua localização por mergulhadores, o navio foi submetido a uma intervenção arqueológica em tudo muito semelhante à aplicada ao navio Wasa, tendo sido içado para a superfície a restante parte lateral do casco ainda integra.
No Canadá, na década de oitenta, teve lugar uma intervenção arqueológica nas águas do Lavrador sobre um navio baleeiro basco dos meados de séc. XVI, denominado Red Bay. Nesta intervenção, uma equipa de investigadores escavou e desmontou na totalidade o que restou das madeira deste navio. Após o trabalho de registo, os arqueólogos optaram por voltar a colocar as madeiras dentro da água salgada. A informação recolhida serviu para o estudo e a reprodução do navio em laboratório.

A América do Norte e Central são dos locais mais activos em intervenções subaquática devido à riqueza em naufrágios históricos, navios que traziam nas suas cargas grandes quantidades de ouro e prata, ficando por isso conhecidos como os “navios espanhóis da prata”. As intervenções em muitos destes navios foram apenas de cariz comercial e não arqueológico, prevendo-se apenas o lucro e não o conhecimento científico. Felizmente, nos últimos anos essa situação tem vindo a ser alterada, sendo já muito poucos os locais onde ainda se pratica a caça ao tesouro. Muitos estados dos Estados Unidos da América impuseram um controlo legal dos sítios arqueológicos tendo decretado que nas suas costas só poderiam existir intervenções arqueológicas de cariz científico.

Desenho idealizado das escavações terrestres e subaquáticas da La Draga.
Ano de 1998. Desenho de F. Gallent.

O primeiro navio português a ser escavado foi o S. António de Tanna afundado em Mombaça em 1667 e que foi escavado de 1977 a 1980 entre 1977 e 1980 sob responsabilidade do National Museums of Kenya e o INA (Institute of Nautical Archaeology). Porém a arqueologia subaquática em território português só dá os primeiros passos na década de oitenta com as intervenções no local do naufrágio de S. Pedro de Alcântara, um navio espanhol naufragado a 2 de Fevereiro de 1786, junto à costa de Peniche. Esta intervenção iniciou-se em 1988 estando relacionada com as escavações terrestres que já decorriam desde 1985, no local onde foram enterrados muitos dos corpos dos náufragos do S. Pedro de Alcântara. Em 1995, pela ocasião da construção do metro na zona do Cais de Sodré, foi localizado o fundo de uma embarcação de grandes de dimensões no lodo desta zona ribeirinha. Esta descoberta originou uma intervenção arqueológica de emergência neste navio de características ibéricas dos finais de séc. XV, inícios de séc. XVI, para o registo de todo o casco e a sua remoção do local.

Em 1996 inicia-se num dos canais da ria de Aveiro a escavação subaquática de uma embarcação no local conhecido pelo “monte dos cacos”. O sítio arqueológico foi denominado como Ria de Aveiro A, datando da 2º metade de séc. XV. Em Junho de 1996 durante os trabalhos de abertura de condutas para ventilação do metro de Lisboa, na zona da Praça do Município, é localizado o cadaste de uma embarcação denominada de Corpo Santo, descoberta feita a poucos metros do navio Cais do Sodré. Em 1997 inicia-se a intervenção arqueológica subaquática na barra do Tejo, em frente ao forte de S. Julião da Barra, sobre a nau - Nossa Senhora dos Mártires, naufragada em 1606.
O espólio desta intervenção veio a integrar a exposição do Pavilhão de Portugal na Expo’98, em Lisboa. Uma das peculiaridades deste sítio arqueológico foi a preservação durante 400 anos de uma parte da carga no local do naufrágio, muitos grãos de pimenta, que foram recolhidos em de toda a área de dispersão dos vestígios da Nossa Senhora dos Mártires. Ao mesmo tempo 1997 nos Açores, na Baia de Angra do Heroísmo, são descobertos dois navios durante os trabalhos de prospecção devido à construção de uma marina.
Os navios, Angra C e Angra D repousavam precisamente no alinhamento do futuro molhe de protecção da marina, numa baía onde estão registados mais de oitenta naufrágios desde o séc. XV. Angra C e Angra D foram escavados em 1998, vindo a revelarem ser dois importantes exemplares de construção naval dos finais de séc. XVI, inícios de XVII. Estes navios, à semelhança do que foi feito no Canadá, foram desmantelados e depositados no fundo do mar, fora da zona de impacte da marina e em local seguro e acessível para a continuidade dos estudos. Na baía de Angra do Heroísmo para além de Angra C e Angra D estão referenciados mais cinco outros naufrágios e um importante núcleo de âncoras.

Em 1998, em Quarteira, foi concretizado um projecto de estudo sobre a ocupação do litoral algarvio na época romana. Este estudo, baseado nos dados geológicos que apontam para o recuo da linha de costa de à 2000 anos até hoje, levaram à primeira campanha arqueológica subaquática do género em Portugal. Tratou-se de um projecto de localização de estruturas romanas submersas ao largo de Quarteira, que foram detectadas a 700 metros da orla marítima, a 8-10metros de profundidade, confirmando assim o que já se suspeitava, revelando também um riquíssimo potencial de informação das áreas costeiras submersas.
Representação do trabalho de registo arquelógico subaquático com quadrícula e transparência

Cortesia de Catarina Garcia/Instituto Camões/JDACT