Mostrar mensagens com a etiqueta Catulo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Catulo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Poemas. Catulo. «… delícias da minha amiga com quem brincar e ter no colo, a quem no ataque dar a ponta dos dedinhos e acres dentadas incitar costuma…»

Cortesia de wikipédia e jdact

Carmina (tradução de João AO Neto)
1.
«A quem dedico esta graça de livro
novinho em folhas recém-buriladas?
A ti, Cornélio, pois tu costumavas
ver uma coisa qualquer nestas nugas,
já desde o tempo em que ousaste, primeiro
na Itália inteira, explicar toda a História
em três volumes mui sábios, por Júpiter!
muito difíceis. Contigo então, leve,
leva este quê, o que for, de livrinho:
que viva, ó deusa virgem, mais de um século!»

2.
«Pássaro, delícias da minha amiga
com quem brincar e ter no colo, a quem
no ataque dar a ponta dos dedinhos
e acres dentadas incitar costuma
quando lhe apraz ao meu desejo ardente
um capricho, um gracejo preparar,
não sei qual, um consolo à sua dor,
creio, para acalmar o ardor assim
ah poder eu também brincar contigo
e tristes aflições tirar do peito!»

3.
«Podeis chorar, ó Vénus, ó Cupidos,
e quantos homens mais sensíveis vivam:
morreu o pássaro de minha amiga,
o pássaro, delícias da menina,
que bem mais que seus olhos ela amava,
pois era mel e tanto a conhecia
quanto a filha conhece a própria mãe
e de seu colo nunca se movia
mas saltitando em torno aqui e ali
somente a ela sempre pipiava».
In Poemas de Catulo, Wikipédia

Cortesia de Wikipedia

sábado, 31 de agosto de 2019

Mãos de Catulo no 31. As Mulheres de Lesbos. Zilma G. Nunes. «Os sóis podem morrer e retornar mas, quanto a nós, quando a breve luz se vai, só nos resta dormir uma noite sem fim. Dá-me mil beijos, e depois mais cem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,
queimando de amor; tu me trazes a paz».
Safo

«(…) A partir dos poemas de Safo, está claro que ela reunia ao seu redor um grupo de garotas com finalidade educativa. A música e a poesia eram consideradas importantes elementos utilizados pedagogicamente na Grécia primitiva.

Ao cantarem juntas, as garotas aprendiam disciplina e, ao mesmo tempo, um certo sentido de beleza. O canto era normalmente acompanhado pela dança. Por meio dessas danças, as garotas podiam mostrar que sabiam como se mover com elegância. Fiação e tecelagem, duas habilidades ainda mais importantes para as mulheres, eram aprendidas em casa. Não pertenciam às actividades praticadas por Safo e suas virgens.

O que se há-de considerar, finaliza o autor, é que existia um certo relacionamento entre Safo e jovens prestes a se casarem e que viveu numa era diferente com diferentes noções e tipos de sexualidade. De qualquer forma, cria-se um conceito pautado no mito de Safo e das mulheres de Lesbos. O adjetivo pátrio-lésbia passa a nome próprio e os poetas, desde Catulo o utilizam como sinónimo de musa inspiradora. A moralidade e a hipocrisia têm, contudo, condenado Safo e no século XI teve a sua maior pena:

toda a sua obra, contida em nove volumes foi queimada pela Igreja. No entanto, em fins do século XIX dois arqueólogos ingleses descobriram em Oxorinco, sarcófagos envoltos em tiras de pergaminho, numa das quais eram legíveis uns 600 versos de Safo. Foi o que restou, sobrevivendo à fúria do fogo da Igreja e da moralidade hipócrita dos séculos.

Sofrendo com a mesma moral que pretendeu esquecer Safo, Catulo é poeta desconhecido na Idade Média, sendo redescoberto somente no Renascimento. A sua obra compõe-se de 116 carmina. Diz Zélia Cardoso Almeida que embora não haja divisão regular na colectânea, os poemas compõem três grupos distintos. O primeiro compreende os 62 primeiros poemas. São textos curtos, compostos em métricas variados (hendecassílabos, coliambos, estrofes sáficas) escritos numa linguagem viva e espontânea, podendo ser considerados na sua maioria, pelos temas que exploram, como poemas de amor ou de circunstância.

Interessante notar que se no aspecto formal já há uma referência à influência dos versos de Safo, o conteúdo poderá reafirmar essa tendência.

Em muitos poemas, Catulo se dirige a uma espécie de musa inspiradora à qual ele dá o nome de Lésbia. Embora os biógrafos do poeta tenham sempre procurado identificar tal figura com a bela Clódia, irmã de famoso político romano, a crítica moderna procura ver em Lésbia, assim como em outras mulheres mencionadas na poesia latina, uma figura literária, criada provavelmente por influência alexandrina. Em alguns dos textos dirigidos a Lésbia o tom é alegre, despreocupado, brincalhão:

Vivamos, minha Lésbia, e amemos
E atribuamos o valor de um níquel
Às murmurações dos velhos mais severos.
Os sóis podem morrer e retornar
Mas, quanto a nós, quando a breve luz se vai,
Só nos resta dormir uma noite sem fim.
Dá-me mil beijos, e depois mais cem,
Depois mais outros mil, depois mais cem,
Depois mais mil ainda, e ainda cem».

In Zilma G. Nunes, As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo, Prelúdio de uma voz oculta, 2002, UFSC, Wikipedia.

Cortesia de UFSC/JDACT

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo. Zilma G. Nunes. «Safo é singular, não há referência a outra mulher na sua época que na arte tenha-se igualado a ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,
queimando de amor; tu me trazes a paz».
Safo

«(…) A lírica eólica de Safo é pura expressão do sentimento, inspirada na vida circundante e direccionada a um determinado círculo de pessoas. A conexão viva da poesia de Safo, especialmente nas canções nupciais e amorosas, com os anseios das jovens companheiras que se agrupavam em torno dela adquire uma importante significação. Refere Jaeger que tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade e do sentimento subjectivo. Os gregos deviam ter sentido isso como algo de muito significativo quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. Safo é singular, não há referência a outra mulher na sua época que na arte tenha-se igualado a ela. É comum nos versos de Safo a descrição de experiências íntimas com vivo realismo. Exemplo disso encontramos numa canção composta por ocasião das bodas de uma de suas discípulas:

Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo subtil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.

Safo, por meio de uma linguagem pessoal, confere sentimento profundo aos versos e consegue expressar uma forte individualidade através da grande força do amor:

Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.

Essa linguagem viva de Safo é geradora de linguagem. A partir da ideia de que Safo mantinha uma sociedade feminina para as moças de Lesbos surge o emprego actual da palavra lésbica, utilizada pela primeira vez em língua inglesa em 1890. André Lardinois em artigo publicado por Bremmer na obra citada intitulado Safo lésbica e Safo de Lesbos explica que o substantivo lesbianismo, relativo a homossexualismo de mulheres é ligeiramente mais antigo. Nesse contexto, diz o pesquisador, que o termo é utilizado com letra maiúscula para marcar o vínculo com a ilha de Lesbos. As enciclopédias, de modo geral, registram o verbete lesbianismo conforme se pode exemplificar com a reprodução do texto da Encyclopaedia Britannica do Brasil homossexualismo feminino. O mesmo que safismo, pois tem origem no nome de Safo, poetisa grega que liderava um grupo de mulheres que adoravam as musas e Afrodite na ilha de Lesbos (Grécia). Essa Encyclopaedia remete ainda ao verbete Safo e explica (século VII a. C.). Poetisa grega da ilha de Lesbos. De suas preferências sexuais vêm as expressões lesbianismo e amor lésbico.
Afirma Lardinois que as evidências são muito escassas para se atribuir de forma taxativa um comportamento homossexual a Safo. Passa, o autor, a analisar alguns dados relativos aos poemas de Safo que teriam dado margem a essa definição. Escolhe os cantos sobre as jovens garotas, já que foi principalmente por causa deles que surgiu a suposição de que Safo era lésbica. A poeta era respeitada na sua comunidade, escrevia cantos nupciais que eram cantados pelas amigas da noiva. Também faz referências, na sua poesia, a diversas garotas em diferentes situações: aquelas que abandonavam a sociedade para se casarem, ou qualquer outra que ainda permanecia no grupo em situações diversas. Afirma o investigador, que nos versos estudados, não se encontram claras indicações de práticas homossexuais. Há, contudo, que se analisar o facto de que não necessariamente, se ela fosse homossexual, deixaria indícios relatados na sua poesia. A descrição que apresenta das jovens como atraentes, até mesmo a seus olhos, pode ser lida como um elogio justificável e necessário num canto nupcial.
Safo desenvolve nos poemas uma visão cultural da mulher com a valorização do corpo feminino, na qual se diferencia numa ordem prática do que é exposto pela sociedade masculina, no que corresponde aos atributos idealizados, afirma José Roberto Paiva Gomes. Continua o autor:

Vemos surgir, portanto, com a narrativa de Safo, a mulher falando sobre o seu próprio universo e relacionando a experiência do sujeito feminino. Os poemas representam uma excepção, ao representar o quotidiano das mulheres e a sua relação com a sociedade e a natureza. Desta forma, Safo narra e observa de uma maneira distinta as relações sociais quando comparadas com as preocupações masculinas que foram priorizadas numa perspectiva do colectivo e onde a família e a sociedade dos homens são os temas principais».
In Zilma G. Nunes, As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo, Prelúdio de uma voz oculta, 2002, UFSC, Wikipedia.

Cortesia de UFSC/JDACT

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo. Zilma G. Nunes. «Percebe-se que, em muitos casos, a via de chegada das mulheres de Lesbos é por meio dos poemas de Catulo. (…) examinar a influência da poesia de Safo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,
queimando de amor; tu me trazes a paz».
Safo

«O presente trabalho surgiu dentro de um projecto maior, o resgate da poesia inédita do catarinense Ernani Rosas, pesquisa de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina. Como a minha área de actuação como docente é a de Língua e Literatura Latina, procurei relacionar a minha pesquisa com a minha área de actuação e passei a destacar, na poesia de Ernani Rosas, a presença de figuras mitológicas ou históricas abstraídas do modelo greco-latino. Numa primeira observação, pode-se notar na obra de Rosas um mitológico desfile de figuras pagãs como o belo grego Adónis ao lado de Narciso, seguidos do mito, já cristão, de Salomé.
Como título de um poema, Rosas questiona Vénus ou Safo? Interessante marcação, tanto mais que, em outro poema, a latina Vénus dá lugar à sua versão grega Afrodite. Percebe-se, assim, que Safo está presente, emprestando o seu nome, ou suas Lésbias, ou seu modelo lírico, ou a sua ousadia a poetas de todos os tempos. Celebrada por Platão Safo, a bela, imitada por Catulo, a poeta empresta as suas personagens e seu jeito de se referir a elas a poetas como Cruz Sousa, Lésbia nervosa, fascinante e doente, / Cruel e demoníaca serpente / Das flamejantes atracções do gozo. Almeida Garret traduz Quantos me podem saciar, ó Lésbia, / Suaves beijos teus saber desejas?. Péricles Eugênio Silva Ramos Vamos viver e amar-nos, minha Lésbia. Aires Gouveia Do amor, minha Lésbia, / vivamos..., entre outros.
Percebe-se que, em muitos casos, a via de chegada das mulheres de Lesbos é por meio dos poemas de Catulo. Pretendo, portanto, neste trabalho, examinar a influência da poesia de Safo (de Lesbos, nascida por volta do ano 612 a. C.) na poesia de Catulo (Verona, 84 a. C.). A obra lírica de Catulo consiste numa colectânea de 116 poemas curtos, de métrica variada, escritos em linguagem viva e provocante. É bastante recorrente, na sua poesia, uma espécie de musa inspiradora de nome Lésbia. Era comum à época do latino Catulo que os modelos a serem imitados fossem os gregos, o que não parece natural é que um poeta pudesse imitar um raro exemplar feminino. Mais interessante ainda é o facto de que a poeta imitada era Safo, mulher que fugia aos padrões de uma sociedade patriarcal de poetisas educadoras. Safo foi líder de uma sociedade literária feminina chamada Casa das Musas. Objectivava, essa sociedade, reunir mulheres que se devotavam à música, à poesia e ao culto de Afrodite.
Safo, nas biografias, é retratada sempre com os mesmos traços. Nasceu na ilha de Lesbos, em torno do ano 612 a. C.. Era de família aristocrática, conheceu, da mesma forma que o seu contemporâneo, o poeta Alceu, o exílio, vivendo por algum tempo na Sicília. Foi casada com Kerdolas Andros com quem teve uma filha, Kleis. Quase todos os resumos biográficos fazem referência à beleza de Safo, excepção ao Dicionário internacional de biografias que diz Safo não era bonita, mas franzina e trigueira. Levou uma vida de extraordinária independência numa época em que a mulher grega vivia pudicamente retirada no gineceu. Facto referido por todos é que a sua casa, dedicada às musas, era frequentada por mulheres desejosas de aprender música e poesia. Graças a esse facto e ao sentimento ardente de amor na sua poesia, muitos de seus textos foram dedicados a mulheres, correm lendas a respeito de sua vida íntima, de seus costumes, da sua dedicação e carinho ao mesmo sexo. Lembra o biógrafo que os costumes gregos eram muito mais livres que o são hoje e, as ligações entre Safo e suas discípulas podem ser comparadas às de Sócrates e os seus.
Num contexto histórico-cronológico, segundo Jaeger enquanto a poesia jónica posterior a Arquíloco apresenta, nos séculos VII e VI a. C., a forma de uma reflexão universalmente válida sobre os direitos naturais da vida, a poesia eólica se Safo de Lesbos e de Alceu exprime a própria intimidade da vida individual». In Zilma G. Nunes, As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo, Prelúdio de uma voz oculta, 2002, UFSC, Wikipedia.

Cortesia de UFSC/JDACT