Mostrar mensagens com a etiqueta Cavalaria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cavalaria. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?...»

jdact

Dor que enlouquece
«(…) A multidão olhava para aqueles dois, esperançada como se aquele homem de gorra negra e cabelos de neve fosse o símbolo imaculado da Pátria, que os de Castela pretendiam matar, e o outro, um bastardo real, monge-cavaleiro de vinte e seis anos, representasse a maior promessa e a mais rútila esperança de um Portugal remoçado, mais forte, mais brilhante, de mais pura e altiva alma, emergido daquela decadência pelos milagres de esforço de uma revolução. Viva o nosso Messias!, gritaram algumas mulheres comovidamente. E envolveram, num olhar de sonho, aquele homem jovem, de amplas costas, trigueiro e rubro como os galeotes da Ribeira e os picos das montanhas; de rosto largo numa forte expressão de energia; naquela cabeça de pensador o bacinete emplumado dos campeadores fidalgos, nos ombros largos o manto branco dos Cavaleiros de Avis e sobre a cota de armas o estreito escapulário com a esguia cruz verde do mestrado da Ordem, estampada naquela brancura do hábito, a lembrar as toalhas dos altares e a bandeira da Nação.
Messias da Pátria para a redimir, filho de um rei para ascender ao trono, se a Nação vencesse, filho de uma mulher do povo, como o aclamavam febrilmente. Que Deus vos guarde, Senhor!, clamava a ralé num voto fervoroso, de braços erguidos como para o abraçar, e a trapagem de burel agitava-se-lhe sobre o peito arquejante. Deus vos ouça, gente leal, e a todos nos mantenha na santa defesa de Portugal, volveu-lhes o Mestre, pondo neles, afectuosamente, os seus olhos negros, penetrantes, e esboçando nos lábios rubros um sorriso de familiaridade, que lhe modificava as linhas duras do longo rosto, quase quadrangular, de queijo proeminente e barba escanhoada, conforme o preceito imposto aos monges cavaleiros.
Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?, perguntou um mesteiral, de barrete na mão. Dezassete naus e outras tantas galés. Mestre e Defensor nosso, bom socorro será, mas a outra de Castela tem mais do dobro! Respondeu-lhe. Deus estará connosco, e pela nossa causa a alma e o sangue de nós todos. Ficai prevenidos. Ao romper da manhã, estaremos todos onde for preciso. Conto convosco; contai comigo. El-rei de Castela não levará a herança que vem aqui buscar. Só Lisboa lha poderia entregar, e nem vós nem eu deixaremos que a tome. Mestre e Defensor, honradas palavras dissestes!, acudiu Afonso Eanes na sua voz dominadora. A cidade não se rende e a herança não se entrega! Assim o queremos todos e assim será com a ajuda de Deus!, confirmou o Mestre com uma grande energia sugestiva.
Todos!, gritaram. Por esta nossa terra contra as hostes de Castela: Portugal e S. Jorge! Ide agora repousar, meus filhos, disse-lhes paternalmente Álvaro Pais, na sua voz tremente de velho. Ao romper da manhã seremos uns com os outros e o dia há-de ser de bravia luta. Mas até eu, com as minhas pernas trôpegas, me hei de arrastar para onde for preciso para que a soldadesca de Castela veja como os velhos de Lisboa são capazes de morrer pela sua terra. Pai do povo sois vós, disse uma regatona velha da Ribeira conhecida entre o povo por Tia Lourença da Ribeira, que reunia à sua volta um grupo de mulheres mais novas, e aqui tendes quem vos ajude a ir ver como esse bailado de amanhã há-de ser. Falta o pão na cidade, mas ainda, louvores a Deus, não faltam as pedras para britar os focinhos a esses cães danados de Castela! Ide repousar, meus filhos, repetiu o alquebrado chanceler dos tempos de Fernando I. Muito há que dispor para o dia de amanhã, e a todas as coisas precisa de prover a sua graça, disse indicando o Mestre. Ide com Deus. Até ao amanhecer, acudiu dom João num gesto amigável de despedida. E foi andando para cima, ao lado de Álvaro Pais e do douto João das Regras.
Viva o Mestre! Viva o nosso Messias!, aclamou a multidão num arrebatamento de entusiasmo, como se estivesse esquecida de todas as privações, de todas as misérias e de quantos perigos enormes podia trazer-lhe o dia seguinte. Vamos ter pão, mulheres de Deus!, disse a regatona da Ribeira. Virá trigo na armada do Porto. Vai acabar a fome! Destacando-se do adro da Sé, numa aparição como a de um fantasma, nos braços a criancita morta, a pobre mãe enlouquecida, disse em gritos agudos como uivos: acabar a fome!... Também a minha filha... Acabou! Tantas mulheres! E não houve nenhuma... Nenhuma... Que lhe matasse a fome... A ela!... Olhai... Morreu! Uma profunda impressão de estranheza e de supersticioso pavor oprimiu a multidão, e com mais profunda violência o coração das mulheres. Recuaram, cheias de terror como se aquela desventurada fosse um espectro fugido de alguma campa da Sé». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, 2013.

Cortesia de LLivros/JDACT

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Infante Henrique. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Pois o pae mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão…»

jdact

A Tomada de Ceuta
«(…) Nun’Alvares desceu a estreitar nos braços o antigo companheiro de armas, e divagando os dous em passeio, João I narrou ao amigo tudo o que havia acerca do designio da empreza de Ceuta. Ouvio-o o condestavel serenamente a principio, mas depois as lagrimas soltaram-se-lhe de entre as palpebras cansadas, e proferiu, tremente a voz: pois eu vos digo que esse feito foi inspirado por Deus! João I exultou com o parecer de Nun’Alvares e comoveu-se tambem. E os dous entreolhando-se, sentiram a um tempo nos corações amigos a mesma saudade pelos dias idos de gloria e ardor. Porém era necessario cuidar dos novos que tambem almejavam glorioso futuro. E o condestavel, sempre bom, sempre leal, recommendava ao rei: reuni conselho que eu serei comvosco. Separaram-se. O rei e o infante Pedro volveram a Santarem e os dous outros infantes foram para Evora, de onde haviam partido. Os infantes socegaram e razão tinham. Pois o pae mandara trigosamente cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arraes, pintitaes, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Alfonso Azambuja dava ordem a Ruy Peres Alandroal, thesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, á uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os Anadeis para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forças nos alcaizes, ou livros de revistas. A azafama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Magdalena e de Villa Nova, os arcabouços das galés e naus e galeotas em construcção arqueavam-se como costellas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos dobadoyras aprestavam-se a lançar á agua as embarcações já promptas; estrinqueiros torciam e retorciam a cordoalha; enxerqueiras preparavam carne e pescado para as armadas; accorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alemtejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo commandal’as e fazel’as embarcar na frota que organisava; e as do Minho e Traz os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcellos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João Basto levantavam um grande numero de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o rei a reunir. Tivera elle lugar em Torres Vedras.
Viera o rei João I, de Cintra, e os infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Approximava-se o infante Henrique da villa e encontrando o pae, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E accrescentara: quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que va primeiro por ella, que outro algu. E o pae, rindo, retorquiu-lhe: em tempo proprio te darei resposta. E foram todos ao conselho: rei, infantes, Nun’Alvares e os maioraes da corte. O condestavel dissera a João I que apresentasse o negocio como feito já determinado, e socegava-o: fallai assim que eu serei comvosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reuniao, missa do Espirito Santo. Depois o rei fallou, fallou, allegando não querer guerrear christãos e só almejar combater os infieis, em gracas a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos. O rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a fallar; desistiu comtudo em favor do condestavel, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarchal, grave, sereno, como uma visão do passado, alii mostrou na sua phrase suasoria toda a importancia e justica da empreza. E terminando ajoelhara-se aos pes do rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavalleiro. Todos se electrisaram ao ouvirem o condestavel; alii haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavalleiro-modelo, attentos, mas aquellas phrases suggestionadoras de impetos bellicosos, João Gomes Silva, um dos antigos, enthusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos elles já as cans se destacavam, e gritou-lhes: russos, além! Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabellos brancos, os russos tinham de ir levar os rapazes á conquista da gloria, pois não! Além! Além!, clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Galant de bien ferre, Memória Histórica, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de TCommercioPorto/1894/JDACT

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os Cavaleiros de Carneiro e a Herança da Cavalaria Vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede. Luís Filipe Oliveira. «Mas essa é já uma outra história, por muito que nela ecoem alguns dos costumes herdados da antiga cavalaria vilã»

Cortesia de wikipedia

Apêndice Documental, nº 2, [1434]. Arruda. Costumes da Vila de Arruda passados a escrito por ordem do Infante João, governador da Ordem de Santiago
«(…) Jtem o Senhorio them tres meses do rellego .s. janeiro feuereiro e março em os quaaes tres meses se nom ha de vemder outro vijnho atauernado saluo ho do Senhorjo e no primeiro dija de janeiro podem tirar cargas de vijnho e ho podem vemder quem ho teuer atauernado atee que tamgam aa myssa do dija e d hj em dijamte quem ho quiser leuar almoedado pagara rellegajem .s. hüu almude de cada tonell ou seu verdadeiro vallor qual o Senhorjo amte quiser comtamdo a cada hüu tonel cijmquoemta almudes.
Jtem No dicto dija Primeiro de janeiro tamto que sahirem da myssa do dija logo o Senhorio ha de mandar apregoar pella vijlla o vijnho do dicto rellego .s. bramco e vermelho em dous pichees e o pode poer em camanho preço quiser E daquello que for for [sic] posto nom pode mais alçar saluo abaixar.
Jtem despois que o dicto vijnho se começar a vemder em o dicto relego nenhüa outra pessoa nom possa vemder outro vijnho atauernado de praça nem escomdido. E qualquer que for achado que ho vemde ha de pagar çijmquo soldos da moeda amtijga pella primeira vez e por a segumda dez soldos pera o Senhorio. E por a terçeira o senhorjo lhe pode cortar tres da cabeça ao tonell em tall guisa que se vaa o vijnho todo do tonell pello chãao.
Jtem o Senhorio em duramdo os dictos tres meses do relego vemdera naquella adega quanto vijnho elle poder comtanto que o dicto vijnho que assy vemder seja das suas vijnhas propijas e dos seus oitauos e outro nenhüu nom. E sse em estes tres meses o Senhorio nom poder vemder todo os sobredictos vijnhos ao postumeiro dija de março elle fechara sua adega e nom vemdera em ella per todo o anno nenhüu vijnho atauernado posto que lhe sobeje saluo almudado.
Jtem se lhe o dicto vijnho mijngoar pera vemder aas canadas em duramdo o dicto rellego. o Senhorio nom pode meter na dicta adega outro vijnho pera vemder atauernado mas amte çarrara sua adega. E emtom pode o comçelho vemder seus vijnhos como lhe apouuer sem nenhüa pena assy como quamdo hj nom ha relego.
Jtem todo aquelle oytaueiro amte que vemdyme as vuas ho ha de fazer saber ao almoxerife e lhe ha de leuar o sseu direito do vijnho a adega e tijmta. E sse ho leuar de noite pagara aa hordem a camdea que arder em carretamdo ho vijnho
Jtem qualquer barca que vier carregar de vijnhos da dicta vijlla e vier aa Ribeira d aalhandra em duramdo o rellego aa hordem ha d auer de cada hüu tonel de vijnho hüu almude. E de cada barca ha d auer ho almoxerife hüa meya pescada. E o rellegueiro outra meya. em tal guisa que cada barca ha de dar hüa pescada emteira. E outrosy de todo o vijnho que for per terra a hordem ha d auer de cada tonell hüu almude ou seu verdadeiro vallor E esto emquamto o rellego durar
Jtem todo aquelle que teuer o rrellego arremdado ou a hordem se ho correr per sy ham de teer tres homeens que guardem os vijnhos pella villa que se vemdem de chiche calla E estes ham de seer juramentados. E a hordem lhes quita por aquelle anno as cauallarias por trabalho que asy filhom.
Jtem Se algüus tirarem da dicta vijlla e thermo vijnho assy per as barquas como pera outros quaeesquer logares em no tempo que o dicto rellego durar sem o primeiro fazer saber aa hordem ou a sseu almoxerife ou remdeiro que o dicto rellego teuer arremdado taaes como estes perderom o vijnho e as vasilhas em que ho leuarem pera a dicta hordem ou seus remdeiros comtanto que aquella pessoa ou pessoas sejom chamadas com o dicto vijnho amte que sayam do termo da dicta vijlla. E sse achadas forem passado ho termo taaes como estes se hirom em paz e a hordem nem seus remdeiros nom teerom mais com elles de fazerpois que no termo da dicta vijlla nom forom achados como suso dicto he». In Luís Filipe Oliveira, Os cavaleiros de carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura, Os casos de Arruda e de Alcanede, Companhia Portuguesa Editora, 1925, Medievalista, Instituto de Estudos Medievais, Universidade do Algarve, 2005.

Cortesia de UAlgarve/JDACT

domingo, 5 de julho de 2015

Gonçalo Vasques Coutinho. Senhor do Couto de Leomil. «Em Outubro de 1385, quando se encontrava no Porto, João I volta a convocar a hoste régia, decidido a avançar de imediato contra as praças-fortes transmontanas que ainda mantinham voz por Castela…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os homens de Trancoso
«(…) Facto é que, ao fim de várias horas de combates, a vitória acabaria por sorrir às forças comandadas por Gonçalo Vasques Coutinho que, para além de terem sofrido um número, tudo o indica, pouco significativo de baixas, conseguiram ainda recuperar todo o saque que era transportado no trem de apoio castelhano e libertar os inúmeros prisioneiros que eram levados para cativeiro. Os motivos para este desfecho não são fáceis de encontrar, mas é provável que a eficácia da liderança de Gonçalo V. Coutinho tenha sido decisiva para manter coesas as linhas e, assim, suportar o embate com as forças inimigas, cuja cadeia de comando pode não ter funcionado tão bem. Mas há um outro argumento que parece ter jogado um papel importante no desfecho da batalha: o vento. De facto, Ayala sublinha os problemas sentidos pelos combatentes castelhanos devido à poeira levantada pelo vento que soprava na sua direcção e que, segundo o cronista, lhes terá dificultado a visão. Parece, pois, de admitir que esse pode ter sido um factor que Gonçalo Coutinho e os outros capitães tiveram deliberadamente em linha de conta quando procederam à escolha da melhor posição para defrontar os homens de Castañeda. Como sintetiza João Gouveia Monteiro, o desfecho da Batalha de Trancoso vinha confirmar, cerca de um ano depois de Atoleiros, que os exércitos castelhanos não eram invencíveis, pelo que o triunfo das forças comandadas pelo Coutinho teve ainda o efeito de animar ainda mais os que tinham apostado na causa de João I. Além disso, a batalha servira ainda para desmoralizar consideravelmente o adversário e, depois das avultadas baixas sofridas durante o cerco de Lisboa, para o privar de mais alguns dos seus principais comandantes militares. Mas acima de tudo, o resultado do prélio vinha anular a ofensiva liderada por Pedro Tenório, que acabaria por não se concretizar em resultado das baixas sofridas na Veiga de Trancoso, obrigando Juan I a alterar os seus planos, ou seja a mudar a estratégia e a rota de invasão das planícies das Alentejo para a estrada da Beira.
Com efeito, pouco mais de um mês depois, a hoste régia castelhana cruza, então, a fronteira, junto a Almeida, passa nas imediações de Trancoso, onde lança fogo à Ermida de São Marcos, símbolo da derrota averbada semanas antes por Juan Rodriguez Castañeda. Daí progride para sudoeste em direcção a Coimbra e a Leiria, até ao planalto de São Jorge, onde chega no dia 14 de Agosto de 1385. Porém, Gonçalo não participará na Batalha de Aljubarrota, segundo Luís Filipe Oliveira, em virtude de um posicionamento algo expectante, ditado pela preocupação em não se comprometer demasiado num enfrentamento que, todos o sabiam, poderia ser decisivo. E tratou-se de uma ausência feita ao arrepio das ordens do rei, que o convocara para que se juntasse à hoste régia, aliás tal como a Vasco Martins, Gil Vasques e Martim Vasques Cunha, João Fernandes Pacheco, Egas Coelho, os outros capitães vitoriosos da Batalha de Trancoso, mas dos quais só os dois últimos conseguem chegar a São Jorge ainda a tempo de integrar o exército português. Contudo, a sua ausência, aliás, tal como a dos Cunha, não terá, em nada, beliscado a relação com o rei.
O cerco a Chaves e a ofensiva de 1386
Em Outubro de 1385, quando se encontrava no Porto, João I volta a convocar a hoste régia, decidido a avançar de imediato contra as praças-fortes transmontanas que ainda mantinham voz por Castela, aproveitando os efeitos da vitória alcançada, meses antes, no planalto de São Jorge. Mas perante a relutância demonstrada por muitos quanto à participação numa campanha que iria decorrer em pleno Inverno, o rei viu-se forçado a ameaçar com o confisco de bens todos quantos, apesar de terem já recebido remuneração, não acorressem ao seu apelo. Gonçalo terá sido um destes, já que parece ter demorado a acatar a ordem do monarca que, chegado a Vila Real, em finais de Novembro, voltará a convocá-lo, bem como aos irmãos Martim Vasques e Gil Vasques Cunha, para que se juntasse à hoste.
Será, pois, para tentar apaziguar a relutância que demonstrara em integrar a hoste régia que João I beneficia Gonçalo com um novo e impressionante conjunto de doações. Assim, ao longo do mês de Dezembro de 1385, entrega-lhe as terras de Numão, Horta, Vila Nova de Foz Côa, Cedovim; Tavares, Cinfães, Parada, Meã; Viseu e a barca da Régua, para além de uma nova carta de doação de todos os bens móveis e de raiz que haviam pertencido a Martim Gonçalves Ataíde. Terá sido, portanto, por essa altura que os contingentes de Gonçalo Vasques Coutinho, e provavelmente também os de Martim Vasques Cunha, finalmente, se reuniram à hoste estacionada em Vila Real e pronta para dar início ao cerco à cidade de Chaves. Perante a resistência demonstrada pela guarnição comandada por Martim Goncalves Ataíde, cunhado de Gonçalo Vasques, João I manda erguer uma grande torre de assalto para impedir o acesso ao rio Tâmega. Ao privar os sitiados de água potável o rei esperara conseguir acelerar a sua rendição. Mas nem assim a resistência esmoreceu, com o cerco a arrastar-se muito para além do que inicialmente se previa e com inúmeros episódios reveladores da tenacidade da guarnição flaviense que, apesar da sede, não dava quaisquer sinais de enfraquecimento. Uma das poucas pessoas que, no interior da cidade, tinha as suas necessidades mitigadas era dona Mécia V. Coutinho, mulher do alcaide e irmã de Gonçalo Vasques, a quem o rei mandava entregar diariamente, por amor de seu irmão, como assegura Fernão Lopes, um cântaro de água». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Geraldo Geraldes. O Sem-Pavor. «Ainda que as fontes não permitam perceber qual a composição e dimensão das forças comandadas por ‘Geraldo’, parece evidente que não constituíam uma grande hoste como as que eram mobilizadas pelas monarquias cristãs peninsulares»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os primeiros sucessos
«(…) Vasta, populosa e rica, a cidade estava completamente rodeada por uma forte cintura de muralhas reconstruída no século X, depois de em 913 ter sido devastada pelo rei de Leão Ordonho II. Para além disso, encontrava-se também dotada de um imponente castelo, o que a convertia, em teoria, num alvo ainda mais difícil de alcançar. Contudo, sem o apoio da praça-forte de Alcácer, que os portugueses, na sequência de várias tentativas frustradas, haviam conquistado em 1160, e sem a cobertura de Beja, reduzida a ruínas, como vimos, em 1163, encontrava-se praticamente isolada e à mercê de quem se dispusesse a atacá-la, o que ajuda e explicar, por um lado, o porquê da escolha e a forma fácil como parece ter sido conquistada e, por outro, o facto de não ter sido, no imediato, objecto de uma contra-ofensiva muçulmana. As fontes não adiantam qualquer informação que permita reconstituir a operação, sabendo-se apenas que a cidade tombou, tal como Beja e Trujillo, através de uma operação furtiva lançada durante a noite, como sublinham os Annales D. Alfonsi, de modo a apanhar desprevenida a guarnição inimiga que, em poucas horas, terá sido completamente dominada. Porém, em lugar de reservar para si, como fizera com Trujillo, o domínio directo da praça-forte recém-conquistada, o caudilho volta a surpreender tudo e todos ao decidir entregá-la ao rei de Portugal.
Ainda que, como sugerimos já, a articulação e a comunhão entre os interesses estratégicos dos dois comandantes possam remontar à tomada de Beja, é com esta nova conquista que a relação entre ambos se estreita. Com efeito, em retribuição pela entrega da cidade, Afonso Henriques terá escolhido Geraldo para o cargo de alcaide-mor de Évora, uma nomeação a que tanto os Anais de Santa Cruz de Coimbra como o Al-Bayan, de Ibn Idari, aludem, ainda que de forma breve e pouco clara. Alguns autores veem neste acto, quanto a nós, com algum exagero, a expressão de uma relação feudo-vassálica que se teria então constituído ou cimentado. Contudo, parece-nos evidente, e independentemente de esse vínculo ter, ou não, existido, que O Sem-Pavor não teria muitas mais alternativas, pois dificilmente conseguiria assegurar o domínio efectivo da cidade apenas com as suas forças. Assim, entre pilhá-la e, depois, abandoná-la, como havia sido feito dois anos antes em Beja, e continuar a controlá-la, mesmo que em nome de Afonso Henriques, a opção terá sido, compreensivelmente, a entrega da cidade ao rei.
Esta venda, como pejorativamente é referida pelo cronista Ibn Idari, terá certamente trazido muitos benefícios para Geraldo. De facto, para além da consolidação de uma importante aliança militar e da obtenção do comando da praça-forte de Évora, o caudilho conseguiu ainda assegurar a posse directa de algumas pequenas fortificações próximas da cidade, como o Castelo dos Ladrões, mencionado, por exemplo, em documentos de meados do século XIII, ou o pequeno reduto amuralhado situado a sudoeste da urbe e onde a tradição ainda hoje assinala a localização do Castelo do Geraldo. Mas, acima de tudo, iria passar a beneficiar dos inúmeros recursos que Évora tinha para oferecer: protecção, riquezas, homens, armas, cavalos, alimentos, etc., ou seja, os meios de que necessitava para tornar ainda mais poderoso o exército que tinha sob as suas ordens.
Ainda que as fontes não permitam perceber qual a composição e dimensão das forças comandadas por Geraldo, parece evidente que não constituíam uma grande hoste como as que eram mobilizadas, por exemplo, pelas monarquias cristãs peninsulares para os habituais fossados lançados anualmente contra território inimigo. Pelo contrário. A preferência pelas conquistas furtivas, que envolviam uma logística extremamente simples; ou a rapidez e a discrição com que se deslocavam de um objectivo para o outro, o que remete também para um apurado sistema de informação e exploração do terreno, bem patentes na dificuldade revelada pelo adversário em prever e deter as suas incursões, apontam precisamente para contingentes relativamente reduzidos. Ainda assim, teriam um núcleo mais ou menos permanente na casa das três ou quatro centenas de combatentes veteranos, a que se acrescentavam as guarnições estacionadas nas fortalezas que, a pouco e pouco, iam sendo dominadas, uma cifra que certamente foi crescendo à medida que os êxitos se somavam e que a reputação do líder aumentava». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Antão Vasques. Portugueses Medievais. Miguel G. Martins. «… ainda vir a receber, o lugar de Unhos e a adega de Camarate. Nesse documento, datado do dia 10 de Setembro de 1384, ou seja, lavrado nem uma semana depois da partida da hoste inimiga…»

jdact

O Tejo, Coimbra e o Minho
«(…) Terá, pois, chegado incólume a Lisboa onde, tal como os tripulantes, guarnições e comandantes dos restantes navios vindos do Porto, foi recebido pelo Mestre de Avis. Integrou-se então na defesa da capital, não se lhe conhecendo, no entanto, qualquer acção armada durante o cerco, o que não invalida que, como pensamos, se tenha envolvido em algumas das escaramuças que tiveram lugar entre as últimas semanas de Agosto e os primeiros dias de Setembro. Foi precisamente no dia 4 desse mês que a hoste castelhana, profundamente desgastada devido a um surto de peste que dizimava diariamente uma centena de combatentes, levantou o cerco iniciado em Maio. Ao fim de quase quatro meses de fome e angústia, a cidade e os seus habitantes podiam, finalmente, respirar de alívio. Não demorou até que o Mestre de Avis recompensasse de forma generosa muitos daqueles que o tinham apoiado durante esse período, em particular os que tinham integrado a defesa da capital portuguesa.
Trata-se, como sublinha Valentino Viegas, do maior número de doações individuais de toda a vida de João I, totalizando, só durante Setembro, cerca de 130, pelas quais são beneficiados os seus vassalos, escudeiros e criados, algumas figuras nobres e respectivos vassalos e escudeiros, diversos mestres de naus, comendadores das ordens militares, clérigos, etc.. Quanto a Antão Vasques, que Fernão Lopes integra precisamente na lista dos que ao Mestre foram companheiros em defender o reino de seus inimigos, recebe então de João I, em recompensa pelas suas acções e serviços anteriores, mas também pelos que dele esperava ainda vir a receber, o lugar de Unhos e a adega de Camarate. Nesse documento, datado do dia 10 de Setembro de 1384, ou seja, lavrado nem uma semana depois da partida da hoste inimiga, o Mestre de Avis identifica-o como cavaleiro morador em Lisboa. Reencontramo-lo, já em finais de Dezembro, entre as forças que cercaram Torres Vedras, tendo muito provavelmente integrado os contingentes que, sob o comando do Mestre, partiram da capital para se juntarem às forças de Diogo Lopes Pacheco que, em Outubro, tinham dado início a essa operação, mas que, em resultado de alguma falta de efectivos, se defrontavam com grandes dificuldades. Com a chegada da hoste a Torres Vedras, foi entregue a Antão Vasques o comando de um contingente encarregado de manter sob apertada vigilância uma das portas da vila, de modo a evitar que fosse usada pelo adversário para o lançamento de surtidas. Contudo, a tentativa de assassinato do Mestre, por um lado, e a forte resistência demonstrada pelos sitiados, por outro, levou a que João I decidisse interromper o cerco e avançar para Coimbra, para onde estavam marcadas as cortes e onde começavam já a chegar os primeiros procuradores. Não admira, pois, que Antão Vasques esteja presente nas cortes de Março de 1385, nas quais o Mestre de Avis foi eleito, seguramente que com o seu apoio, como rei de Portugal. Com efeito, entre os que participaram nessa assembleia encontramos, como seria de esperar, o seu nome, arrolado por Fernão Lopes no grupo dos cavaleiros.
Como assinalou João Gouveia Monteiro, tanto o rei quanto o condestável escolheram o Minho como palco das acções militares conduzidas depois das cortes de Coimbra. Nesse sentido, é muito natural que, desde logo, Antão Vasques tenha regressado às fileiras do exército de Nuno Álvares, com o qual mantinha uma estreita relação desde a primavera do ano anterior, e, como tal, que tenha participado, durante o mês de Abril e primeiras semanas de Maio, na conquista das praças-fortes de Neiva, Viana, Cerveira e Caminha, tendo igualmente estado presente na tomada de Braga. Já em meados de Maio, Antão Vasques participará também na conquista de Ponte de Lima, uma operação conduzida em conjunto por João I, que deixara o grosso das suas forças a manter o cerco a Guimarães, e pelo exército de Nuno Álvares, a que se tinham já juntado alguns dos auxiliares ingleses que, dias antes, haviam desembarcado no Porto». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia ELivros/JDACT

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Fernando. Senhor de Serpa. Miguel G. Martins. «Não admira, pois, que tivesse sido Sancho II, receoso de uma atitude vingativa por parte do seu ex-chanceler, o verdadeiro mandante, da violenta ofensiva conduzida, em finais de 1236, pelo infante de Serpa»

jdact

Dos primeiros anos aos anos de fogo
«(…) Instalado no seu senhorio, procura então cimentar relacionamentos com os diversos poderes locais e regionais, nomeadamente com o bispo de Évora, Fernando, de quem se faz vassalo e a quem se compromete, em Outubro de 1235, a entregar todos os direitos episcopais que lhe eram devidos, designadamente a terça pontifical das igrejas de Serpa, tanto das já existentes, quanto das que futuramente aí viessem a ser edificadas. Para todos os efeitos, tratava-se do reconhecimento do poder do bispo e da sua supremacia relativamente ao ainda algo frágil poder regional do jovem infante. A mudança para Serpa tem lugar nas vésperas de grandes perturbações e violências no Norte do reino, em Braga, no Porto e em Lamego, por exemplo, e antecede a enorme agitação e mudança nos meios cortesãos e da administração do reino, que levarão, a partir de 1236, a um isolamento cada vez maior do rei. Não admira, pois, que nos anos seguintes Fernando, que não teria ainda 20 anos de idade, se converta num dos principais suportes de Sancho II. E será o próprio monarca que o manipula e empurra para o centro dessas mesmas convulsões colocando-o em rota de colisão com o bispo da Guarda, mestre Vicente.

Uma autêntica caça ao bispo
Aquele prelado havia ascendido à dignidade de chanceler do rei em 1224, depois de uma brilhante carreira eclesiástica que o levou de deão da Sé de Lisboa a canonista e professor na Universidade de Bolonha e, em 1229-1230, ao bispado da Guarda. Será mestre Vicente, durante a sua permanência na chancelaria régia, o responsável por uma profunda reorganização administrativa, no âmbito da qual eleva o cargo que ocupa a uma posição hegemónica, omnipresente e que chega mesmo a eclipsar a figura do rei. Contudo, pouco depois de Janeiro de 1236, naquilo que parece ser um autêntico golpe palaciano, o chanceler é afastado. Com ele tombam também algumas das figuras e famílias nobres mais destacadas no seio da administração do reino. Entre os que são atingidos por esta autêntica purga encontram-se o tio do rei, Rodrigo Sanches, os poderosos Sousas e todos aqueles que, de alguma forma, a eles se encontravam mais ligados. Acossado, humilhado e refugiado na diocese da Guarda, mestre Vicente convertia-se, agora, na perspectiva do monarca, numa figura incómoda, perigosa e ameaçadora, mercê dos seus contactos e capacidade de influência junto do papa. Não admira, pois, que tivesse sido Sancho II, receoso de uma atitude vingativa por parte do seu ex-chanceler, o verdadeiro mandante, da violenta ofensiva conduzida, em finais de 1236, pelo infante de Serpa.
Segundo as queixas do bispo, que se conhecem apenas através do conteúdo das bulas papais emitidas a propósito desses actos, Fernando e os seus homens assaltaram as propriedades do prelado, mas também as dos seus clientes e vassalos, quer no bispado da Guarda, quer no de Lisboa. Num e noutro local, apropriaram-se de bens, destruíram haveres, perseguiram pessoas e praticaram diversos sacrilégios, recorrendo, por vezes, ao auxílio de combatentes muçulmanos recrutados no senhorio de Serpa e nas regiões próximas. Em Santarém, o infante teria ido ainda mais longe ao matar, na presença do próprio mestre Vicente, aparentemente com as próprias mãos e, numa atitude claramente ameaçadora, da qual não mostrou quaisquer sinais de arrependimento, alguns clérigos ligados ao bispo e que ainda exerciam funções na chancelaria régia. Mas seriam estes actos devidos única e exclusivamente à iniciativa de Fernando que, ao que parece, nada teria a ganhar com eles, salvo o que conseguisse roubar e saquear? Tudo indica que não. Pelo menos em alguns meios não existiam quaisquer dúvidas a esse respeito. Com efeito, ao ser informada destes acontecimentos, a Santa Sé reage de imediato e, nos finais de Abril de 1237, envia ao arcebispo de Toledo e ao bispo de Leão instruções para lançar a excomunhão sobre o infante e os seus homens. Porém, ordena igualmente o interdito, a pena eclesiástica que privava os fiéis dos sacramentos, dos ofícios ou mesmo de sepultura religiosa, sobre todo e qualquer local onde o rei e a corte estacionassem, sinal claro de que sabia perfeitamente de onde tinham partido as ordens recebidas por Fernando. Tal como no caso das violências conduzidas contra mestre Vicente, também os abusos cometidos contra a diocese de Lisboa, talvez nos primeiros meses de 1238, parecem ter tido, no mínimo, o beneplácito do rei que, à imagem do que sucedera no ano anterior, terá sido, mais uma vez, o autor moral de todos esses novos desmandos». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Álvaro Vaz de Almada. Conde de Avranches. Alfarrobeira. «… no dia 9 de Outubro, por alturas do meio-dia, o arraial português é novamente alvo de um poderoso exército inimigo. Porém, atempadamente avisado do perigo, o infante Henrique…»

jdact e wikipedia

Tânger. A miragem e o desastre
«(…) Neste dia, uma quinta-feira, os muçulmanos conduzem então o seu primeiro ataque em larga escala. Contudo, o infante Henrique opta por não os deixar aproximar demasiado e, inteligentemente, decide defrontá-los em batalha campal numa zona relativamente arredada do acampamento. Segundo as informações veiculadas por Rui Pina, o dispositivo táctico português era composto, como habitualmente, por uma vanguarda e uma rectaguarda. Enquanto a segunda era apenas capitaneada pelo infante Henrique, a primeira encontrava-se dividida em duas unidades, uma, a que o cronista chama ala esquerda, posicionada do lado do mar e comandada por Álvaro Vaz de Almada e Duarte Meneses; a que se acrescentava, no seu flanco direito, uma outra de menor dimensão e liderada pelo marechal e pelo seu filho Gonçalo Coutinho. Segundo o testemunho das fontes narrativas, terão sido os portugueses a tomar a iniciativa, conseguindo, logo nos primeiros momentos da peleja, romper as linhas muçulmanas, cujos efectivos se põem de imediato em fuga perseguidos pelos cristãos, designadamente pelas forças comandadas por Álvaro Vaz, entretanto reforçadas pelas restantes unidades. Porém, entusiasmados pela perspectiva de uma vitória fácil, acabam por levar longe demais a perseguição afastando-se demasiado da zona do arraial. Este distanciamento, que pode mesmo ter sido intencionalmente provocado pelo inimigo, foi explorado de forma inteligente pelas forças da guarnição de Tânger, que lançam uma surtida contra o arraial, então protegido apenas por um reduzido número de homens. Contudo, apesar da surpresa e da manifesta superioridade numérica do inimigo, os defensores do palanque conseguem dar conta do recado e acabam mesmo por obrigar as forças adversárias a retirar para a cidade, permitindo, assim, o retorno seguro dos seus camaradas-de-armas, entretanto regressados da perseguição.
E apesar dos riscos resultantes da presença de um número cada vez maior de contingentes inimigos nos montes em redor da cidade, no dia 5 de Outubro o infante Henrique arrisca um segundo assalto. Porém, tal como o primeiro, também este se salda num fracasso, com os muçulmanos, em particular os inúmeros besteiros granadinos, a conseguirem repelir facilmente todas as ofensivas. Destas, só a que era liderada por Vasco Fernandes Coutinho terá logrado aproximar-se das muralhas e encostar a escada de assalto que, no entanto, foi de imediato incendiada pelos sitiados. Frustrado mais este ataque, no qual, tudo o indica, Álvaro Vaz não terá participado, permanecendo junto das bocas de fogo, os portugueses acabam por regressar ao arraial, surpreendentemente, e para espanto do próprio Rui Pina, apenas com um número reduzido de baixas, que o cronista contabiliza em apenas sete mortos. Entretanto, os cada vez mais numerosos reforços muçulmanos começam a revelar-se uma verdadeira ameaça à segurança das forças portuguesas. De tal forma que, no dia 9 de Outubro, por alturas do meio-dia, o arraial português é novamente alvo de um poderoso exército inimigo. Porém, atempadamente avisado do perigo, o infante Henrique, ao contrário do que fizera no dia 3 de Outubro, ordena a retirada de todos os efectivos que defendiam a praia, para os concentrar numa zona mais próxima do palanque. Esta medida levou a que os portugueses perdessem o contacto directo com a faixa ribeirinha e, consequentemente, com os navios da frota. Mas não era apenas o arraial principal que estava na iminência de sofrer um ataque. Por isso mesmo, o comandante teve o bom-senso de enviar alguns reforços para a zona onde se encontravam as bocas de fogo. Ainda assim, esta medida não foi suficiente para suster a violenta investida inimiga, pelo que sem conseguirem aguentar aquela posição, por si só indefensável porquanto muito afastada do arraial e demasiado próxima da cidade, o marechal e Álvaro Vaz Almada vêem-se forçados a ordenar a retirada. Esta decisão, se bem que salvasse a maioria dos combatentes que aí se encontrava, significava o abandono das bocas de fogo, munições e pólvora, o que trouxe a perda de boa parte da capacidade ofensiva da hoste portuguesa, agora privada da quase totalidade da sua artilharia». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Infante Afonso Sanches. Senhor de Portalegre. «Mas havia ainda um outro problema a perturbar as relações entre os dois filhos d’O Bolonhês e de dona Beatriz; a tentativa por parte de Afonso de assegurar os direitos dos seus filhos, considerados ilegítimos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Herança d’O Bolonhês. Ventos e casamentos
«(…) Mas Dinis I, que em 1295 se preparara mesmo para intervir militarmente em Castela em apoio ao monarca espanhol Juan, acabará por recuar na sua posição. Para isso contribuiu o encontro com Enrique, tutor de Fernando IV, então com dez anos, que trazia ao rei português uma proposta de tréguas, acompanhada da promessa de uma nova demarcação da fronteira entre os dois reinos e que contemplava a entrega imediata a Portugal das vilas de Noudar, Serpa, Moura e Mourão e, mais tarde, em 1296, de Aroche e Aracena. A aceitação de tão atraente oferta abriu caminho para uma nova entrevista, em Ciudad Rodrigo, com o próprio Fernando IV, com a rainha-mãe, dona Maria Molina, e com Enrique, na qual foi acordado o casamento entre o jovem monarca castelhano e a infanta dona Constança, filha de Dinis I. E assim, uma vez mais, o rei e o infante voltavam a encontrar-se em lados opostos da barricada. Contudo, na sequência do auxílio militar aragonês às pretensões de Alfonso la Cerda à Coroa castelhana, Dinis I volta a inverter a sua posição e alia-se a Jaime II de Aragão, seu cunhado. Nos planos dos dois soberanos estava um ambicioso projecto que consistia, por um lado, no afastamento de Fernando IV e, por outro, na divisão de Castela em duas entidades políticas distintas, com o infante Juan como rei de Leão, da Galiza e de Sevilha, enquanto Alfonso la Cerda assumiria o título de rei de Castela, de Toledo, de Córdova, de Múrcia e de Jaén. É, pois, com a perspectiva de um enfraquecimento do reino vizinho, que só poderia trazer benefícios para os outros reinos peninsulares, que Dinis I se envolve neste vespeiro. E, deste modo, é possível que Afonso, mais uma vez a perspectivar a possibilidade de a sua filha ascender ao trono de Leão, da Galiza e de Sevilha, tenha voltado a apoiar abertamente a política externa do irmão. Ainda assim, as fontes não o registam entre as forças portuguesas que, em 1296, sob a liderança do próprio rei português, invadiram Castela.
Porém, a campanha salda-se num quase total fracasso, já que não foram alcançados os objectivos político-militares de derrubar Fernando IV e de fragmentar o gigante castelhano. Ainda assim, Dinis I acabaria por conseguir ocupar militarmente as praças-fortes de Alfaiates, do Sabugal e de Castelo Rodrigo que, em 1297, seriam formalmente entregues a Portugal no âmbito dos acordos então firmados em Alcanices. E como seria de esperar, na sequência deste tratado, onde Afonso estará presente, foi também ratificado o acordo de casamento entre Fernando IV e dona Constança, filha de Dinis I, bem como o matrimónio de dona Beatriz, irmã do rei castelhano, com o herdeiro do trono português, o futuro Afonso IV. Mais uma vez, o infante de Portalegre e os seus interesses em Castela seriam relegados para um segundo plano.
Mas havia ainda um outro problema a perturbar as relações entre os dois filhos d’O Bolonhês e de dona Beatriz; a tentativa por parte de Afonso de assegurar os direitos dos seus filhos, considerados ilegítimos porquanto resultantes de um casamento que a Igreja não reconhecia. Com efeito, Afonso e dona Violante eram parentes em grau de consanguinidade interdito, já que ambos descendiam de Fernando III de Leão e Castela, bisavô de Afonso e avô de dona Violante Manuel. Do casamento resultara o nascimento de um filho e de quatro filhas: Afonso, Isabel, Constança, Maria e Brites, nascidos em altura que se desconhece. Isso não foi, contudo, impeditivo de que viessem a contrair matrimónio com figuras destacadas da nobreza castelhana: a primeira, casou, como ficou já registado, com Juan, El Tuerto; a segunda com Juan Nuñez Lara, irmão de Álvaro Nuñez; a terceira com Telo, sobrinho de dona Maria Molina, mulher de Sancho IV; e a quarta com o poderoso fidalgo galego Pedro Fernandez Castro. Quanto a Afonso, sobre quem muito pouco se sabe, frei Francisco Brandão sugere que terá morrido ainda muito jovem, talvez antes de 1300. Com efeito, o grande problema que esta situação de ilegitimidade acarretava era a impossibilidade de Afonso lhes transmitir o seu senhorio, já que uma das condições impostas por Afonso III era que só poderia ser legado a herdeiros legítimos, o que, em virtude da falta de reconhecimento do casamento por parte da Igreja, não era o caso.
Ainda assim, em Fevereiro de 1297, provavelmente para apaziguar o irmão e evitar que pudesse colocar em xeque as negociações preparatórias do Tratado de Alcanices, que então decorriam, o rei decide legitimar os sobrinhos. Fê-lo, no entanto, contra a vontade publicamente expressa da rainha dona Isabel, que invocou, por um lado, os direitos do seu filho e herdeiro do trono, o futuro Afonso IV e, por outro, o prejuízo que a transmissão do senhorio poderia vir a constituir para a Coroa, que perderia definitivamente o controlo sobre esses territórios, como os principais problemas para se opor à legitimação dos herdeiros de Afonso. De nada lhe serviu, pois Dinis I não alterou a sua posição». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Afonso Peres Farinha. Miguel G Martins. «… ambicionavam protagonizar e que se convertiam num verdadeiro tirocínio para a idade adulta e, acima de tudo, para uma bem sucedida e, se possível, lucrativa ‘carreira de armas’»

jdact

De Jerusalém à margem esquerda do Guadiana
«(…) Ainda que os seus ascendentes tivessem sido figuras próximas da Coroa e com alguma projecção e fortuna no seio da nobreza, o que lhes possibilitou mesmo armar diversos cavaleiros, Afonso Peres Farinha não passaria de um humilde cavaleiro de um escudo e de uma lança, como o próprio não hesita em afirmar na lápide que mandou gravar para o Mosteiro de Marmelar. Seria, pois, mais um entre muitos outros nobres detentores de pouco ou quase nenhum património e a quem o rei, de quem eram vassalos, atribuía soldadas tão reduzidas que mais não lhes permitia que a aquisição e manutenção das suas próprias armas e cavalo. Talvez isso seja, em parte, o resultado de alguma perda de importância social, económica e militar por parte de seu pai. Foi, pois, a busca de fortuna e, naturalmente, de algum protagonismo, que o impeliu a demandar paragens mais meridionais e a instalar-se, como muitos outros jovens cavaleiros nas mesmas condições, nas regiões de fronteira. Quase sempre impacientes, agressivos, por vezes brutais, turbulentos e instáveis, como os caracteriza Georges Duby, era nessas zonas que esperavam encontrar as oportunidades para o desempenho das façanhas guerreiras que ambicionavam protagonizar e que se convertiam num verdadeiro tirocínio para a idade adulta e, acima de tudo, para uma bem sucedida e, se possível, lucrativa carreira de armas.
Será, pois, neste contexto que, como um autêntico cavaleiro andante, Afonso Peres se instala na fronteira sul do reino. E será também aí que surgirão as tão desejadas ocasiões para demonstrar o seu valor e capacidades guerreiras, ao ponto de se converter, nas palavras de Hermenegildo Fernandes, num grande especialista da fronteira. Talvez Afonso Peres tenha chegado a essas regiões acompanhado por um pequeno contingente próprio, ou então talvez se tenha rapidamente integrado num dos muitos bandos de aventureiros que pululavam nestas zonas raianas e que colocavam os seus serviços à disposição de quem mais os beneficiasse. A maior parte dos exemplos conhecidos aponta justamente no sentido da preferência por uma errância, ou vagabundagem, colectiva e não individual ou mesmo solitária. Os principais motivos para esta opção parecem-nos fáceis de identificar: em primeiro lugar, por uma questão de segurança, pois assim podiam proteger-se mais facilmente de eventuais perigos; em segundo, porque talvez fosse mais fácil encontrar acolhimento junto de uma casa senhorial ou de uma ordem militar disposta a recrutá-los; e em terceiro, porque muitos destes jovens faziam-se acompanhar, nessa errância, por alguns dos que consigo haviam sido criados, ou que haviam, na mesma altura, recebido a investidura da cavalaria e cujos familiares mantinham, muitas vezes, relações de vassalagem ou outro tipo de dependência com a casa de origem do cavaleiro que, a partir de então, encabeçava essa pequena mesnada.
Diz-nos a lápide do Mosteiro de Marmelar que depois da sua ida para sul e durante cerca de 5 a 8 anos andou em guerra com muitos cavaleiros poderosos seus vizinhos, isto é, integrado nas mesnadas de alguns grandes senhores da região. Talvez na de Fernando, senhor de Serpa, ou na de Martim Anes Vinhal, que por essa altura actuava nas regiões do leste alentejano e que em 1238 desempenhou um papel fundamental na conquista de Mértola; ou ainda na de João Garcia Sousa que, também durante o reinado de Sancho II, embora em data que não é possível precisar, conseguiu submeter pela força das armas a vila de Alegrete. Uma outra hipótese é a de se ter associado à Ordem de Santiago, que então, sob o comando de Paio Peres Correia, lançava uma grande ofensiva contra as regiões do leste alentejano, ou mais provavelmente à do Hospital que, poucos anos antes, acabara de conquistar as praças-fortes de Moura e de Serpa». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Afonso Peres Farinha Miguel G Martins. «Os Hospitalários fazem a sua entrada na Península Ibérica através do reino de Aragão, a partir de onde iniciam a sua expansão em direcção a ocidente, chegando a Portugal, tudo o indica, entre 1125 e 1128…»

jdact

De Jerusalém à margem esquerda do Guadiana
«Por alturas de 1278, em data próxima da conclusão das obras de construção do novo edifício da igreja de Vera Cruz de Marmelar, situado nas imediações da vila alentejana de Portel, o freire hospitalário Afonso Peres Farinha, então com perto de 60 anos de idade, ordenava a colocação de uma lápide numa das paredes daquele templo. Na longa inscrição que ostentava e que o próprio mandara gravar, recordava-se, para a posteridade, não apenas o seu papel como fundador dessa igreja, mas também alguns dos momentos mais significativos da sua vida atribulada e plena de aventuras, boa parte das quais vividas ao serviço da Ordem do Hospital. As origens desta Ordem Militar remontam aos finais do século XI, embora a sua existência enquanto organização seja apenas datável de 1113, ano em que recebe a protecção da Santa Sé através da bula Piae Postulatio Voluntatis, de Pascoal II. Contudo, nesta altura, a Ordem possuía ainda uma faceta exclusivamente assistencial, dedicando-se sobretudo à prestação de cuidados sanitários aos peregrinos que se dirigiam a Jerusalém, vindo a adquirir a sua vertente militar apenas alguns anos depois. De facto, a circunstância de ter iniciado a construção, em 1128, do castelo de Calansue e o facto de ter sido encarregada pelo rei de Jerusalém, em 1136 ou 1137, da defesa do castelo de Bethgibelin, no sul da Palestina, tal como a referência à existência, em 1126, ao condestável da Ordem, afiguram-se como sinais indesmentíveis de que, a partir de meados da década de 1120, possuía já um elevado grau de militarização.
Os Hospitalários fazem a sua entrada na Península Ibérica através do reino de Aragão, a partir de onde iniciam a sua expansão em direcção a ocidente, chegando a Portugal, tudo o indica, entre 1125 e 1128, embora a primeira referência segura e inequívoca à sua presença date apenas de 1132. Mas ao contrário da sua congénere do Templo, a Ordem do Hospital foi praticamente esquecida pela monarquia portuguesa até ao reinado de Sancho I, muito provavelmente porque, nos teatros de operações ocidentais, ao contrário do que sucedera na Palestina, o seu processo de militarização foi consideravelmente mais lento, não se encontrando concluído antes de finais do século XII. É, precisamente nessa altura que os Hospitalários começam a desempenhar, em território português, as primeiras missões de natureza bélica: em 1189, participando no cerco de Silves e, em 1194, através do início das obras de edificação do castelo de Belver, finalizadas pouco antes de 1210. Localizado dentro dos limites da herdade de Guidintesta, entregue por Sancho I precisamente com a condição de aí ser erguida uma fortaleza, convertia-se assim no primeiro de um vasto conjunto de castelos erguidos e/ou defendidos pela Ordem. Não são abundantes as informações respeitantes ao papel desempenhado pelos Hospitalários durante os primeiros anos do século XIII na progressão das forças cristãs para sul, sabendo-se apenas que em 1217 integraram a hoste mobilizada para o cerco a Alcácer. Ainda assim, é natural que tenham protagonizado outras acções de índole ofensiva, pois em 1224 recebem de Sancho II, em recompensa pelos serviços prestados, mas também pelos que haveriam de prestar, o castelo transmontano de Algoso, implantado também numa outra zona de grande importância estratégica, a da fronteira leonesa. A Ordem edifica ainda uma nova fortificação no Crato, numa região doada também pel'O Capelo, em Março de 1232, e que estaria concluída, tudo o indica, antes de 1248. Esta doação, vizinha da herdade de Guidintesta, alargava, assim, o senhorio beirão da Ordem do Hospital para sul do Tejo, região para onde havia já começado a estender os seus domínios, a partir de 1226, através da conquista dos castelos e vilas de Mourão, Moura e Serpa, na margem esquerda do Guadiana, precisamente onde, alguns anos mais tarde, iremos encontrar Afonso Peres Farinha.

Um escudo e uma lança
A fazer fé na lápide a que atrás nos referimos, Afonso Peres terá nascido, em altura próxima de 1218, no seio de uma família nobre de cavaleiros oriunda da zona de Coimbra. Segundo o Livro de Linhagens do conde D. Pedro, era bisneto de Gonçalo Dias Góis, O Cid, alcaide de Coimbra em 1129-1148 e participante na Batalha de Ourique, neto de Salvador Gonçalves e um dos muitos filhos de Pedro Salvadores Góis e de Maria Nunes Esposade. Com boa parte do património familiar concentrado precisamente em Góis, na região de Coimbra, foi aos bens que possuíam na povoação de Farinha Podre que alguns dos filhos de Pedro Salvadores e de Maria Nunes, Vasco Peres, Afonso Peres, João Peres e Teresa Peres, foram buscar o apelido Farinha. Aliás, é mesmo possível que aí tenham nascido, ao contrário dos restantes, Sancha Peres, Maria Peres, Elvira Peres, Teresa Peres, Urraca Peres, Margarida Peres e Estêvão Peres, que optariam por manter o apelido de Góis». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Nuno Álvares Pereira. Miguel Martins. «Com 16 anos, o pai terá, então procurado assegurar-se do seu futuro. Foi assim que, com grande relutância, Nuno Álvares casou com dona Leonor Alvim, uma rica viúva detentora de um património considerável na região a norte do Douro»

jdact

O filho do Prior do Crato
«Filho ilegítimo de Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Hospital, e de dona Iria Gonçalves Carvalhal, Nuno Álvares nasce nos paços de Cernache de Bonjardim em Junho de 1360, sendo legitimado logo no ano seguinte, na mesma altura que os seus irmãos Fernão e Lopo. Boa parte da sua infância foi passada junto do pai e, por isso, num ambiente profundamente militarizado como era o daquela ordem militar. Terá sido nesse meio, certamente entre os castelos do Crato, sede da Ordem em Portugal, e da Amieira e o mosteiro fortificado de Flor da Rosa, que se iniciou nas leituras de romances de cavalaria, em particular das lendas arturianas, onde teria encontrado o seu modelo de perfeição cavaleiresca na figura de Galahad. Com os Hospitalários terá também aprendido os primeiros ensinamentos da arte de cavalgar e do manuseio de armas, que mais tarde viria a aperfeiçoar pela mão do tio e aio, Martim Gonçalves Carvalhal. Mas a presença junto do pai tê-lo-á também posto desde muito cedo em contacto com uma outra faceta menos romântica da guerra, através do convívio com outros cavaleiros, portugueses, mas também alguns estrangeiros. Muitos deles seriam mesmo veteranos que nessas ocasiões davam certamente conta das suas aventuras, relatando campanhas, batalhas e cercos, que muitas vezes serviam de mote para o debate de assuntos relacionados com táctica e estratégia militar. De tudo isso Nuno Álvares seria um ouvinte atento, imaginando-se decerto na pele desses guerreiros e sonhando poder vir, um dia, a protagonizar o mesmo tipo de façanhas. A tudo isto não terá sido alheio o papel desempenhado pelo próprio Álvaro Gonçalves Pereira que, apercebendo-se do interesse e das capacidades reveladas por seu filho, procurou também desenvolver todas essas apetências. Recorde-se, por exemplo, o episódio em que o mandou, com o irmão Diogo Álvares, observar a hoste castelhana comandada pelo rei Enrique II, quando esta, em Janeiro de 1373, ou seja, em plena Segunda Guerra Fernandina, passava nas imediações de Santarém, em direcção a Lisboa. Questionado acerca do que testemunhara, Nuno Álvares terá desde logo causado impacto nos presentes ao responder entusiasticamente que o inimigo, que avançava mal comandado, sem quaisquer cautelas defensivas, pouco disciplinado e excessivamente confiante, poderia ser facilmente desbaratado.
O atrevimento deste jovem de apenas 13 anos de idade terá impressionado a rainha dona Leonor Teles, mulher de Fernando I, que insistiu para que fosse ela própria a armá-lo como seu escudeiro. Para a cerimónia, Nuno Álvares envergou o arnês usado por João quando ascendera, em 1364 e com apenas sete anos, à dignidade de Mestre de Avis, já que era o único que se ajustava ao seu tamanho franzino. De facto, o futuro condestável nunca será um homem de estatura muito elevada, como se depreende da variada iconografia, embora toda ela posterior, que o representa quase sempre como uma figura baixa e de cabelos claros, mas deixando já antever alguma calvície, como se observa na gravura de abertura da edição de 1526 da Crónica do Condestável. A partir daquele momento, como escudeiro da rainha e sob a orientação do tio, Martim Gonçalves Carvalhal, terá passado a residir na corte régia, onde aperfeiçoou a sua educação militar. Com 16 anos, o pai terá, então procurado assegurar-se do seu futuro. Foi assim que, com grande relutância, Nuno Álvares casou com dona Leonor Alvim, uma rica viúva detentora de um património considerável na região a norte do Douro e de quem teve dois filhos, que morreram à nascença, e uma filha, dona Beatriz. Os seus primeiros anos de vida adulta terão, portanto, sido passados no Norte do reino, na zona de Basto, onde levaria um estilo de vida característico de um pequeno fidalgo de província, dedicado, acima de tudo, à gestão do seu património. Mas toda esta tranquilidade, que certamente pouco lhe terá agradado, estava prestes a chegar ao fim, com a deflagração da Terceira Guerra Fernandina, no Verão de 1381.

Em busca do baptismo de fogo
Por essa altura, o seu irmão Pedro Álvares Pereira é designado pelo monarca Fernando I para desempenhar as funções de fronteiro-mor em Portalegre. Consigo vinha também o jovem Nuno Álvares, acompanhado por uma pequena mesnada formada por 25 cavaleiros e 30 peões. Porém, cedo Nuno Álvares terá ficado desapontado com a excessiva prudência revelada pelos comandantes portugueses, pouco dispostos a enfrentar o inimigo. A passividade e a indecisão das forças lideradas por Gonçalo Vasques Azevedo e Pedro Álvares foi tal, que não esboçaram sequer qualquer reacção às incursões lançadas contra Pavia e Coruche ou mesmo quando o inimigo pôs cerco à vila de Elvas». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Infante Fernando. Senhor de Serpa. Miguel G. Martins. «Chegado à idade de ‘róbora’, os 14 anos, em 1232 e sem que se percebam em toda a extensão os motivos dessa atitude, Fernando terá reclamado a parte que lhe cabia da herança de seu pai…»

jdact

Dos primeiros anos aos anos de fogo
«Filho mais novo de Afonso II e de dona Urraca, filha de Afonso VIII de Castela, o infante Fernando nasceu na vila de Santarém, poucos meses antes de Fevereiro de 1218, altura em que começa a surgir referido, como era habitual, na documentação régia. Tendo perdido a sua mãe quando tinha somente dois anos e o pai três anos depois, a criação de Fernando é feita à sombra do rei seu irmão Sancho II e na constante presença deste, o que parece explicar a grande proximidade existente entre ambos. Esse relacionamento ter-se-á certamente estreitado depois da saída do reino, talvez em 1229, do seu irmão Afonso, para França, onde seria educado pela sua tia Branca de Castela e, sobretudo, após a partida de sua irmã Leonor, pela mesma altura, para a Dinamarca, onde casou, em 1229, com o rei Valdemar, e que até então, admitimos, deve ter exercido um papel quase maternal junto do jovem Fernando, relativamente ao qual seria mais velha sete anos. Desconhece-se, no entanto, quem esteve, de facto, encarregado da sua educação, mas foi seguramente, como era prática corrente, um membro da nobreza cortesã a prepará-lo, como seria de esperar de um infante, para que viesse a converter-se num guerreiro. Chegado à idade de róbora, os 14 anos, em 1232 e sem que se percebam em toda a extensão os motivos dessa atitude, Fernando terá reclamado a parte que lhe cabia da herança de seu pai e que este havia \estipulado que deveria ser repartida em partes iguais pelos filhos. Porém, o irmão Sancho II tê-lo-á calado mercê a entrega, ou apenas com a promessa do seu pagamento, de uma avultada soma de dinheiro. Mas não era apenas através dessa quantia que o rei procurava afastar o seu irmão mais novo da herança de Afonso II.
É também com esse objectivo que, antes de 1235, lhe faz a entrega do castelo e senhorio de Serpa, conquistados no âmbito da ofensiva de 1232, conduzida pelas forças da Ordem do Hospital e durante a qual tombou igualmente a vizinha praça-forte de Moura. Trata-se, como sublinha Hermenegildo Fernandes, de uma doação que parece revelar uma atitude cautelosa por parte do monarca. De facto, ao doar-lhe um senhorio periférico, Sancho II afastava-o dos grandes centros urbanos do reino (Lisboa e Coimbra), bem como dos principais eixos viários que os ligavam. Ainda assim, tratava-se de um território de grande importância estratégica, não só pela sua posição fronteiriça, mas também porque permitia um controlo eficaz do Guadiana e dos territórios da margem esquerda desse rio, cujos direitos de conquista Portugal reclamava. Embora pressionado a norte pelo vasto termo de Évora e pelos domínios da Ordem de Avis, a oeste pelo avanço das forças santiaguistas e a leste novamente pelos Espatários, mas também pelas hostes castelhano-leonesas, Fernando tinha a sul de Serpa um imenso território que permanecia ainda em mãos muçulmanas e que se convertia, assim, na zona natural de expansão do seu senhorio. Era para aí que o rei esperava poder canalizar toda a agressividade do infante. Porém, tudo indica que as campanhas militares que dele eram esperadas e para as quais havia sido preparado durante a sua ainda curta vida nunca foram concretizadas. Os motivos não os sabemos ao certo, embora o próprio Fernando venha a insinuar, mais tarde, que tal se deveu a uma manifesta falta de motivação dos cavaleiros que supostamente o deveriam seguir e que não viam, como outrora, a fronteira como um local atractivo e pleno de oportunidades de enriquecimento e de prestígio. Aliás, não era apenas o infante que, por essa altura, renunciava à Reconquista. De facto, também as grandes campanhas ofensivas, como as dos reinados anteriores, haviam praticamente cessado depois da conquista de Alcácer, em 1217.
Ainda assim, é possível, como adianta Armando Sousa Pereira, que o infante Fernando tenha levado a cabo uma ou outra razia depredatória contra território inimigo, podendo também ter tomado parte, por exemplo, na conquista de Aljustrel, levada a cabo pela Ordem de Santiago em 1234. Contudo, por se tratar ainda de um jovem, é provável que a sua intervenção nesses episódios não tenha ido além de um eventual comando nominal da sua mesnada, ou mesmo de uma participação, como era corrente com combatentes menos experientes, na qualidade de mero observador». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT

Infante Afonso Sanches. Senhor de Portalegre. «… se manifesta contra as dificuldades económicas e financeiras por que continuavam a passar e que tinham levado à ausência massiva da alta nobreza da ‘campanha de 1281 contra Castelo de Vide’»

Cortesia de wikipedia

A Herança d’O Bolonhês
«(…)
Ventos e casamentos
Encerrado mais este episódio e quase como se nada tivesse acontecido, as relações entre o rei e o infante retomaram, pelo menos na aparência, uma certa normalidade, o que também se percebe pelo facto de Afonso voltar a assumir, talvez a partir de 1290, a tenência da terra da Guarda. E não deixa de ser interessante que este regresso tenha lugar numa altura em Dinis I tinha já procedido, em 1287-1288, à extinção do regime administrativo das tenências, situação que levou a que muitos ricos-homens se sentissem profundamente atacados nos seus privilégios e certamente que também nos seus rendimentos, pese embora a circunstância de o infante até nem ter sido particularmente lesado, porquanto continuará, numa situação verdadeiramente excepcional, a ostentar o título de tenente da Guarda pelo menos até, 1293. Contudo, em inícios da década de 1290, será precisamente Afonso a encabeçar, com Nuno Gonçalves Cogominho e outros ricos-homens e fidalgos, uma ampla frente de nobres que, mais uma vez, se manifesta contra as dificuldades económicas e financeiras por que continuavam a passar e que tinham levado à ausência massiva da alta nobreza da campanha de 1281 contra Castelo de Vide. Alegavam que são minguados muito e pobres e privados das possessões e das heranças de suas avoengas, acrescentando que, por isso, não podiam viver no reino nem servir o rei, tão bem nem tão honradamente como serviram os fidalgos e as outras gentes que foram ante eles. Em suma, não tinham forma de cumprir as suas obrigações militares do mesmo modo que haviam feito os seus antepassados. Esta queixa, que, ao mesmo tempo, não deixava de constituir uma ameaça e uma forma de pressão junto da Coroa, acabou por se apresentar como um óptimo pretexto para o rei retomar uma política de desamortização que interessava particularmente à monarquia, mas também à nobreza. De facto, tanto a um como à outra importava impedir as instituições religiosas de continuar a aumentar o seu património fundiário em prejuízo da monarquia e da nobreza laica, um processo que o rei conseguiu inverter graças à Lei de Desamortização, publicada em 1291. Mais difícil é descortinar em que medida aquelas dificuldades financeiras eram reais ou se, pelo contrário, não passavam de argumentos esgrimidos pelos nobres para obterem maiores benefícios da Coroa, embora não seja difícil vislumbrar aí uma reacção às inquirições gerais ordenadas tanto por Afonso III como por Dinis I que podem, realmente, ter trazido uma quebra de rendimentos a muitos dos visados por esses inquéritos ao património. Para além disso, como bem sublinhou José Augusto Pizarro, o processo de expansão senhorial havia atingido o seu limite no reinado d'O Bolonhês, pelo que é possível que alguns dos fidalgos começassem realmente a sentir problemas de ordem económica e financeira. E não deixa de ser interessante o facto de ser o infante um dos principais proponentes dessa petição feita ao rei e que este, de bom grado, aceitou. É mesmo possível que este protagonismo junto da grande nobreza do reino, de que foi um dos porta-voz, o tenha convencido de um eventual aumento do seu prestígio e da sua influência.
Ainda assim, isso em nada parece ter contribuído para afastar o infante do seu irmão. Aliás, é muito possível até que tenha existido uma maior aproximação entre ambos por alturas de 1295-1296, quando Dinis I apoiou o infante castelhano Juan nas suas pretensões à Coroa de Leão. Com efeito, esse apoio beneficiaria indirectamente Afonso, pois uma das suas filhas, dona Isabel, estava casada precisamente com o filho de Juan, pelo que se o projecto de revolta contra o jovem Fernando IV resultasse, o senhor de Portalegre poderia ver a sua filha, futuramente, converter-se na rainha de Leão». In Miguel Gomes Martins, Guerreiros Medievais Portugueses, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-486-4.

Cortesia Esfera dos Livros/JDACT