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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A Celta. Joana D’Arc. Leon Denis. «Imaginai a curiosidade malsã de todos e, particularmente, dos soldados, no meio dos quais, tem de viver suportando constantemente as fadigas, as penosas cavalgadas, o peso esmagador de uma armadura de ferro…»

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«(…) Anatole France, nos seus dois volumes, obra de arte e de inteligência, não vai tão longe. Não tenta deixar de reconhecer-lhe as visões e as vozes. Aluno da École des Chartes, não ousa negar a evidência, perante a vasta documentação de que dispõe. A sua obra é uma reconstituição fiel da época. Pinta a fisionomia das cidades, das paisagens e dos homens do tempo com mão de mestre, com uma habilidade, uma finura de toque, que lembram Renan. Entretanto, a leitura dos seus escritos deixa-nos frios e desapontados. As opiniões que emite são às vezes falsas, por efeito do espírito de partido, e, coisa mais grave, sente-se, desfolhando-lhe as páginas, uma ironia subtil e penetrante, que já não é história. Na verdade, o juiz imparcial deve dar testemunho de que Joana, exaltada pelos católicos, é denegrida pelos livres pensadores, mais por espírito de contradição e de oposição aos primeiros do que por ódio. A heroína, disputada por uns e outros, torna-se assim uma espécie de joguete nas mãos dos partidos. Há excessos nas apreciações de ambos os lados e a verdade, como quase sempre, é equidistante dos extremos.
O ponto capital da questão é a existência de forças ocultas que os materialistas ignoram, de potências invisíveis, não sobrenaturais e miraculosas, como pretendem, mas pertencentes a domínios da natureza, que ainda não exploraram. Daí, a impossibilidade de compreenderem a obra de Joana e os meios pelos quais lhe foi possível realizá-la. Não souberam medir a enormidade dos obstáculos que se deparavam diante da heroína. Pobre menina de dezoito anos, filha de humildes camponeses, sem instrução, não sabendo o A, B, C, diz a crónica. Tem contra si a própria família, a opinião pública, toda a gente! Que teria feito sem a inspiração e sem a visão do Além, que a sustentavam? Imaginai essa camponesa na presença dos nobres do reino, das grandes damas e dos prelados. Na corte, nos acampamentos, por toda a parte, simples vilã, vinda do fundo dos campos, ignorante das coisas da guerra, com o seu sotaque defeituoso, cumpre-lhe enfrentar os preconceitos de hierarquia e de nascimento, o orgulho de casta; depois, mais tarde, os motejos, as brutalidades dos guerreiros, habituados a desprezar a mulher, não podendo admitir que uma donzela os comandasse e dirigisse. Juntai a isso a desconfiança dos homens da Igreja, que, nessa época, viam em tudo o que é anormal a intervenção do demónio; esses não lhe perdoaram actuar sem a permissão deles, fazendo jus à autoridade que se arrogavam, e aí estará, para ela, a causa principal da sua perda.
Imaginai a curiosidade malsã de todos e, particularmente, dos soldados, no meio dos quais, virgem sem mácula, tem de viver suportando constantemente as fadigas, as penosas cavalgadas, o peso esmagador de uma armadura de ferro, dormindo no chão, sob a tenda, pelas longas noites do acampamento, presa dos acabrunhadores cuidados e preocupações de tão árdua tarefa. Todavia, durante a sua curta carreira, vencerá todos os obstáculos e, de um povo dividido, fragmentado em mil facções, desmoralizado, extenuado pela fome, pela peste e por todas as misérias de uma guerra que dura há perto de cem anos, fará uma nação vitoriosa. Eis aí o que escritores de talento, mas cegos, flagelados por uma cegueira psíquica e moral, que é a pior das enfermidades intelectuais, procuram explicar por meios puramente materiais e terrenos. Pobres explicações, pobres argúcias claudicantes, que não resistem ao exame dos factos! Pobres almas míopes, almas de trevas, que as luzes do Além deslumbram e atordoam! É a elas que se aplica esta sentença de um pensador: o que sabem não passa de um nada e, com o que ignoram, se criaria o Universo!
Coisa deplorável: certos críticos da actualidade como que experimentam a necessidade de rebaixar, de diminuir, de anular com frenesim tudo que é grande, tudo que paira acima da sua incapacidade moral. Onde quer que brilhe um luzeiro, ou se acenda uma chama, havereis de vê-los a correr e a derramar um dilúvio de água sobre o foco luminoso. Ah!, como Joana, na ignorância das coisas humanas, mas com a sua profunda visão psíquica, lhes dá uma lição magnífica por estas palavras que dirigia aos examinadores de Poitiers e que tão bem se enquadram nos cépticos modernos, nos pretensiosos espíritos superiores do nosso tempo: Leio num livro em que há mais coisas do que nos vossosIn Léon Denis, Joana D’Arc, A Celta, A missão histórica da heroína, as suas visões e espiritualidade, tradução de Eduardo Amarante, projecto Apeiron, Zéfiro, 2010, ISBN 978-989-677-023-5.

Cortesia de Zéfiro/JDACT

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A Celta. Joana D’Arc. Leon Denis. «O seu ponto de vista é o dos materialistas: Não cabe a nós, diz, que consideramos o génio uma neurose, censurar Joana por ter objectivado em santas as vozes da sua própria consciência…»

jdact

«Nunca a memória de dona Joana D’Arc foi objecto de controvérsias tão ardentes, tão apaixonadas, como as que, desde há alguns anos, se vêm levantando em torno dessa grande figura do passado. Enquanto de um lado, exaltando-a sobremaneira, procuram monopolizá-la e encerrar-lhe a personalidade no paraíso católico, de outro, de forma brutal com Thalamas e Henri Bérenger, ou hábil e erudita, servida por um talento sem par, com Anatole France, esforçam-se por amesquinhar-lhe o prestígio e reduzir-lhe a missão às proporções de um simples facto episódico. Onde encontra Reims a verdade sobre o papel de dona Joana D’Arc na história? A nosso ver, nem nos devaneios místicos dos crentes, nem tampouco nos argumentos terra-a-terra dos críticos positivistas. Nem estes, nem aqueles parecem possuir o fio condutor, capaz de guiar-nos por entre os factos que compõem a trama de tão extraordinária existência. Para penetrar o mistério de dona Joana D’Arc, afigura-se-nos necessário estudar, praticar longamente as ciências psíquicas, sondar as profundezas do mundo invisível, oceano de vida que nos envolve, onde emergimos todos ao nascer e onde mergulha Reims pela morte. Como poderiam compreender dona Joana escritores cujo pensamento jamais se elevou acima do âmbito das contingências terrenas, do horizonte estreito do mundo inferior e material, e que nunca consideraram as perspectivas do Além? De há cinquenta anos a esta parre, um conjunto de factos, de manifestações, de descobertas, projecta uma nova luz sobre os amplos aspectos da vida, pressentidos desde a aurora dos tempos, mas sobre os quais apenas tínhamos até aqui dados vagos e incertos. Graças a uma observação atenta, a uma experimentação metódica dos fenómenos psíquicos, foi-se construindo, pouco a pouco, uma vasta e poderosa ciência.
O Universo aparece-nos como um reservatório de forças desconhecidas, de energias incalculáveis. Um infinito vertiginoso abre-se-nos ao pensamento, infinito de realidades, de formas, de potências vitais, que nos escapavam aos sentidos. Algumas manifestações dessas forças já puderam ser medidas com grande precisão, por meio de aparelhos registadores. A noção do sobrenatural esboroa-se; mas a natureza imensa vê os limites dos seus domínios recuarem sem cessar, enquanto se revela a possibilidade de uma vida orgânica invisível, mais rica, mais intensa do que a dos humanos, regida por majestosas leis, vida que, em muitos casos, se mistura com a nossa e a influencia para o bem ou para o mal. A maior parte dos fenómenos do passado, afirmados em nome da fé, negados em nome da razão, podem doravante receber explicação lógica, científica. Estão nessa ordem os factos extraordinários que matizam a existência da Virgem de Orleães. Só o estudo de tais factos, facilitado pelo conhecimento de fenómenos idênticos, observados, classificados, registados nos nossos dias, pode explicar-nos a natureza e a intervenção das forças que nela e em torno dela actuavam, orientando-lhe a vida para um nobre objectivo. Os historiadores do século XIX, Michelet, Wallon, Quicherat, Henri Martin, Siméon, Luce, Joseph Fabre, Vallet de Viriville, Lanéry d'Arc, foram unânimes em exaltar dona Joana, em considerá-la uma heroína de génio, uma espécie de messias nacional.
Somente no século XX é que a nota crítica se fez ouvir, e por vezes de forma violenta. Thalamas, professor substituto da Universidade, na sua obra Jeanne d’Arc: l’histoire et la légende nunca sai dos limites de uma crítica honesta e cortês. O seu ponto de vista é o dos materialistas: Não cabe a nós, diz, que consideramos o génio uma neurose, censurar Joana por ter objectivado em santas as vozes da sua própria consciência. Todavia, nas conferências que fez em França, foi geralmente mais incisivo. Em Tours,  a 29 de Abril de 1905, falando sob os auspícios da Liga do Ensino, recordava a opinião do professor Robin, de Cempuis, um dos seus mestres, segundo o qual dona Joana nunca existira, e a sua história não passava de um mito. Thalamas, talvez um tanto constrangido, reconhece a realidade da vida de dona Joana, mas arremete contra as fontes em que os seus panegiristas beberam. Engendra amesquinhar-lhe o papel, sem descer ao ponto de injuriá-la. Segundo ele, dona Joana pouco ou nada teria feito, pelo que caberia aos habitantes de Orleães todo o mérito de se terem libertado. Henri Bérenger e outros escritores abundaram em apreciações análogas e o próprio ensino oficial como que se impregnou, até certo ponto, dessas opiniões. Nos manuais das escolas primárias, eliminaram da história de dona Joana toda a componente espiritualista. Neles já não se alude às suas vozes; é sempre a voz da sua consciência que a guia. É notória a diferença». In Léon Denis, Joana D’Arc, A Celta, A missão histórica da heroína, as suas visões e espiritualidade, tradução de Eduardo Amarante, projecto Apeiron, Zéfiro, 2010, ISBN 978-989-677-023-5.

Cortesia de Zéfiro/JDACT

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «… muitos factos e personagens foram preservados também no folclore da Irlanda, da Ilha de Man e da Escócia. ‘A magia’ é uma característica constante: humanos assumem a forma de animais…»

Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico. O Livro das Invasões da Irlanda
«(…) Conhecido como a Canção de Amergin, esse poema é uma ode à Natureza, tão nobre e inspirador quanto os textos sagrados hindus. Parafraseando Peter Ellis, grande pesquisador dos mitos e lendas celtas, nesta canção Amergin une o universo a seu próprio ser, num pensamento filosófico que remete à declaração de Krishna no Bhagavad Gita hindu. Assim como os textos mitológicos indianos estão repletos de referências históricas e vice-versa, também na Irlanda celta o mesmo se aplica. Por analogia, se Shiva, Sarasvati, Ganesh e outas deidades hindus são ainda hoje cultuadas após a restauração do hinduísmo nos últimos séculos, também os deuses e deusas celtas permanecem vivos nos corações, nas mentes e nas almas dos que procuram restaurar a mitologia/espiritualdiade celta como fonte coerente e válida de inspiração para nossas vidas.

Ciclo do Ulster
A Irlanda celta era dividida em cinco províncias:
  • Leinster, a leste; 
  • Munster, ao Sul; 
  • Mídhe, no centro; 
  • Connacht no oeste; 
  • Ulster ao norte.
Daquela região nos chegam as lendas e feitos de heróis como Cuchulainn, Conchobhar mac Nessa e Fergus mac Róich, poderosas mulheres como Macha, Maedbh e Fedelm, e a trágica história de amor de Deirdre dos Pesares. Menos divino do que o Ciclo Mitológico, o Ciclo do Ulster, também conhecido como Ciclo do Ramo Vermelho tem os seus primeiros registos por escrito datando do século VIII, e muitos factos e personagens foram preservados também no folclore da Irlanda, da Ilha de Man e da Escócia. A magia é uma característica constante: humanos assumem a forma de animais e interagem com os divinos Tuatha de Danann. Os hábitos e costumes relatados fornecem um retrato bastante claro dos valores dos celtas da Irlanda:
  • sociedades guerreiras em busca de prestígio e ascensão, mulheres e homens em paridade, riqueza representada pela posse de gado, heroísmo individual e irmandade tribal.
Alguns dos textos mais importantes do Ciclo do Ulster são: O Banquete de Bricriu; A Destruição da Pousada de Da Derga; A Doença de Cuchulainn e o Único Ciúme de Emer e, principalmente, O Roubo de Gado de Cooley (Táin Bó Cuailgne), onde vemos a saga de Cuchulainn como o guerreiro irlandês por excelência.

Ciclo Feniano
Como diz o próprio nome, este grupo de lendas, poemas e contos apresentam as aventuras dos Fianna Éireann, um mítico grupo de guerreiros liderados pelo herói Fionn mac Cumhaill. Os relatos apresentam diversos factos históricos que retratam a transição da religião celta para o cristianismo, especialmente no Colóquio dos Anciães, em que Oisín, filho de Fionn, argumenta com S. Patício a favor da antiga religião, enaltecendo suas virtudes: a coragem, a generosidade, a hospitalidade e a liberdade da sociedade celta original. Oisín também é o protagonista da bela história de amor A Balada de Oisín em Tír na nog, na qual o nobre guerreiro é atraído para o Outro Mundo pela aparição de Niamh dos Cabelos Dourados, uma donzela de irresistível beleza. Também as lutas entre tribos celtas do sul e do Oeste da Irlanda são retratadas. Assim como no Ciclo do Ulster, as lendas do Ciclo Feniano estão repletas de eventos mágicos e contactos com deuses ancestrais. Além de O Colóquio dos Anciães, dois outros textos significativos são Os Feitos de Fionn na Infância, que relatam como ele se tornaria o grande guerreiro e sábio que é, e a história de amor A Perseguição de Diarmuid e Gráinne, que pode ser identificada como uma das mais remotas raízes para o clássico Romeu e Julieta de Shakespeare». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «Sou o vento que sopra sobre o mar; sou a onda das profundezas; sou o rugido do oceano; sou o Gamo de Sete Batalhas; sou um falcão no penhasco; sou um raio de sol…»

Lugh surge para conduzir os Tuatha de Danann à vitória na Segunda Batalha de Moytura. (Ilustração de Jim Fitzpatrick)
Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico. O Livro das Invasões da Irlanda
«(…) Lugh, Manannan mac Lír, Brighid, Morríghan, Dagda, Nuada, Ogma, Angus Óg, Bóann, quem se interessa por mitos e lendas celtas certamente já viu ao menos alguns desses nomes antes. São os mais importantes deuses e deusas da mitologia celta irlandesa, seres poderosos, divinos, passionais, carismáticos. Oriundos de quatro cidades míticas, Falias, Findias, Gorias e Murias, de onde trazem quatro tesouros, os Tuatha de Danann chegam à Irlanda vindos do Oeste, a direcção do Outro Mundo, em navios mágicos envoltos por uma bruma que eclipsa o sol por três dias. São eles a introduzir na Irlanda o conhecimento druídico (draíocht), bem como a criação de suínos.
Eles derrotam os Fir Bolg na Primeira Batalha de Moytura, e depois, sob a liderança de Lugh Lamfhóta, finalmente repelem os temíveis Fomorianos de uma vez por todas na Segunda Batalha de Moytura, estabelecendo uma era dourada de paz e prosperidade durante a qual reina a magia e a força desses deuses e deusas. Uma dessas deusas é Ériu, que, ao lado de suas irmãs Banba e Fotla, personifica as terras da Irlanda. A chegada dos Milesianos, um grupo de mortais liderados por Mil Espáine, põe fim ao domínio dos Tuatha de Danann que, dali por diante, passam a habitar as colinas ocas e/ou as ilhas paradisíacas a oeste da Irlanda, entre os nomes para esse Outro Mundo, Emain Ablach, a Fortaleza das Macieiras (associada à Avalon Arthuriana) e a Ilha dos Abençoados, Hy Brasil. Mas tal feito só é alcançado pelos Milesianos quando seu poeta, Amergin, promete eternizar o nome de Ériu como nome da própria Irlanda, com efeito, o nome da República da Irlanda, Éire, até hoje mantém viva a magia e a força dessa deusa.
De forma grosseira, podemos dizer que os Tuatha de Danann deixam de habitar este mundo e passam a viver noutra dimensão, mais súbtil, espiritual, mas ainda em contacto com esta realidade. Prova disso é sua habilidade de transitar entre nós, mortais, graças ao encantamento conhecido como féth fiada (maestria da névoa) ou ceo druídecta, o fog druídico, através do qual o utilizador fica invisível ou assume a forma de um animal, uma habilidade de evidente natureza xamânica, posteriormente associada também a São Patrício. Os Milesianos são a última onda migratória a se assentar na Irlanda. Após derrotarem os poderosos Tuatha de Danann, o povo liderado por Mil Espáine se estabelece nas terras irlandesas e encerra o Livro das Invasões. De todos os factos narrados no texto mitológico, a invasão dos milesianos parece ser a que mais possui equivalência histórica, por sua associação com os Goidels, tribos históricas e ancestrais directos dos modernos irlandeses.
Segundo o Livro das Invasões, os Milesianos vêm da Cítia (área hoje ocupada pela Bulgária, Rússia e Cazaquistão) e se instalam na Península Ibérica, na região onde hoje fica a cidade portuguesa de Bragança (Trás-os-Montes, uma área rica em vestígios da ocupação celta pré-romana). De lá, após avistarem a Irlanda do alto de uma torre, enchem-se de desejo de habitar aquela ilha verdejante. Assim, os milesianos rumo a Irlanda, onde aportam durante Beltaine. Ao lá chegarem, são obviamente desafiados pelos poderosos Tuatha de Danann, então senhores das terras irlandesas. A conquista dos milesianos só se dá após embates físicos e mágicos com os Tuatha de Danann, durante os quais os Milesianos demonstram grande conhecimento da mais poderosa forma da magia: a maestria das palavras. Um dos mais belos exemplos dessa magia é o poema recitado por Amergin, o primeiro bardo da Irlanda, ao desembarcar em solo irlandês:

Sou o vento que sopra sobre o mar;
sou a onda das profundezas;
sou o rugido do oceano;
sou o Gamo de Sete Batalhas;
sou um falcão no penhasco;
sou um raio de sol;
sou a mais verdejante das plantas;
sou um javali em fúria;
sou um salmão no rio;
sou um lago na planície;
sou uma palavra de Sabedoria;
sou a ponta de uma lança;
sou a fascinação para além dos confins da terra;
como os deuses, posso mudar de forma.

In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

domingo, 15 de junho de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «Algumas gerações depois, chegam à Irlanda os ‘Fir Bolg’, literalmente os ‘Homens de Builg’. São uma variação da tribo celta histórica dos ‘Belgae’, que povoaram áreas no sul da Irlanda, na Inglaterra e no continente europeu, no território que hoje recebe o nome, a ‘Bélgica’»

Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico
«(…) Os compiladores do Lebor Gabála acreditavam estar redigindo um registo confiável dos eventos humanos mas, devido ao seu constante uso de fontes fantásticas o que eles produziram foi algo bem diferente. Autores diferentes em diferentes períodos tentaram sincronizar os mitos, lendas e genealogias da Irlanda antiga com a estrutura da exegese bíblica (Jean Markale).

O Livro das Invasões da Irlanda
A primeira invasão descrita na narrativa é liderada por uma rainha chamada Cesair que, acompanhada por um pequeno contingente, chega a Inis Fáil (Ilha do Destino, outro nome para a Irlanda) e tenta povoá-la, sem muito sucesso. Seguem-se os Partholonianos, assim chamados em homenagem a seu líder, Partholon, e oriundos do leste do Mediterrâneo. Pesquisadores que procuram nos textos evidências de eventos historicamente comprováveis entendem essa alusão geográfica como uma possível referência ao território original das primeiras tribos celtas, nos Balcãs. Os Partholonianos se mostram hábeis colonizadores, introduzem a agricultura e a pecuária, as artes metalúrgicas e outras formas de artesanato, a medicina, desenvolvem leis e introduzem a confecção de cerveja à Irlanda (algo que se tornaria uma tradição). Malaliach, o primeiro a produzir cerveja, é também o primeiro a valer-se de técnicas divinatórias na Irlanda, o que comprova a sacralidade do consumo de bebidas fermentadas como formas de se atingir o êxtase ritual que permite o contato com os deuses ( a palavra divinação deriva do latim divinatio/divinare, falar com os divino). Os Partholonianos são também os primeiros a precisar enfrentar os temíveis Fomoire (ou Fomorianos), um povo de piratas e saqueadores. Segundo o texto, uma praga levou todos à morte no breve período de uma semana.
O Povo de Nemed, ou simplesmente os Nemedianos, são os próximos a aportarem em terras irlandesas, vindos por mar desde a Cítia. Liderados por Nemed, contavam entre eles o druida Míde, o primeiro a acender uma fogueira sagrada na Irlanda na colina de Uisnech, o centro que unia as quatro províncias da Irlanda celta. Uma fogueira acesa no centro cósmico da Irlanda é algo de grande importância espiritual, e as escavações na colina revelaram grandes quantidades de cinzas, de facto, Uisnech era usada pelos celtas como centro dos fogos de Beltaine. Por três vezes na sua história, os Nemedianos conseguem repelir as hostes invasoras dos Fomorianos. Na quarta batalha, contudo, a terrível raça de piratas leva a melhor e obriga os Nemedianos a pagar um pesado tributo anual, durante o período de Samhain. A tentativa de se livrar dessa opressão fracassa, e os Nemedianos são massacrados, os poucos sobreviventes espalham-se pelo continente europeu. Alguns historiadores, como O’Rahilly, identificam nos Nemedianos elementos que os associam aos Érainn, um dos primeiros povos a historicamente colonizar a Irlanda, por volta de 500 a.e.a.. Após a destruição dos Nemedianos, a Irlanda fica sob o controle dos violentos Fomorianos.
Algumas gerações depois, chegam à Irlanda os Fir Bolg, literalmente os Homens de Builg. Os Builg são uma variação da tribo celta histórica dos Belgae, que povoaram áreas no sul da Irlanda, na Inglaterra e no continente europeu, no território que até hoje recebe seu nome, a Bélgica. Mitologicamente, os Fir Bolg descendem de Starn, um dos filhos de Nemed, portanto, não eram desconhecidos na Irlanda, mas sim uma nova leva de invasores Nemedianos, que voltavam para a Irlanda fugindo de opressão nas terras gregas onde originalmente habitavam. O Livro das Invasões explica que são os Fir Bolg a trazer armas de ferro pela primeira vez à Irlanda, e que o reinado de Eochaid mac Eirc é justo e próspero. É o Rei Eochaid que determina que as colheitas serão anuais, uma conexão clara com o desenvolvimento da agricultura. O facto de sua esposa Tailtiu ser uma deusa ctónica é outro ponto que mostra a ligação dos Fir Bolg com o desenvolvimento agrícola. Posteriormente, Tailtiu ressurgirá como a mãe adoptiva de Lugh, um dos principais deuses celtas. Curiosamente, durante o período de ocupação dos Fir Bolg, os sempre terríveis Fomorianos não são mencionados. Quem viria a interromper a dominação Fir Bolg seria os mais formidáveis invasores da Irlanda: os Tuatha de Danann». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «… os celtas não costumavam escrever seus mitos, preservando-os vivos através da tradição oral de seus bardos, poetas e druidas. A escrita chega à Irlanda somente por volta do século V»

Trecho de manuscrito conhecido como Livro da Vaca Marrom.
Cortesia de wikipedia

«A contínua história de isolamento da ilha da Irlanda revelou-se a um só tempo uma maldição e uma bênção para a cultura celta naquelas terras. Livre da influência romana e em tempos de cristianismo longe do controle do Vaticano, a Irlanda conseguiu preservar com muito mais riqueza de detalhes os mitos e lendas dos celtas. Conhecida pelos gregos como Ierne e pelos romanos como Hibernia ou Scotia, nome que certamente gera alguma confusão com a moderna nação escocesa, a Irlanda recebeu os primeiros povos celtas no último milénio a.e.a.. Seus antigos habitantes haviam deixado um maravilhoso legado de estruturas megalíticas e complexos como os de Newgrange, Knowth e Dowth, os quais posteriormente foram incorporados às lendas e mitos celtas. Podemos especular que muitas das deidades celtas a povoar sua mitologia também tenham, ainda que apenas parcialmente, origem nos mitos e lendas desses primeiros habitantes, como costuma ocorrer sempre que uma nova cultura se estabelece numa região.
Já sabemos que os celtas não costumavam escrever seus mitos, preservando-os vivos através da tradição oral de seus bardos, poetas e druidas. A escrita chega à Irlanda somente com a cristianização dos irlandeses, por volta do século V. Para muitos estudiosos, os primeiros monges cristãos na Irlanda eram bardos e druidas que se converteram ao cristianismo, tese que, somando-se ao facto de que o cristianismo na Irlanda instalou-se de forma muito mais pacífica e tolerante do que em outras terras, pode ser a razão para que tenham sido justamente esses primeiros monges a registar muitos dos mitos e lendas da Irlanda celta pré-cristã. Foi somente com a chegada do cristianismo à Irlanda que os filidh, convertidos e agora monges, viram-se livres da proibição mágica que lhes impedia de passar para a escrita o que sobrevivera de sua tradição (Jean Markale). Graças aos esforços desses monges e seus belíssimos manuscritos, as gerações futuras puderam conhecer esses mitos, estudá-los e, por que não, restaurá-los como fontes de sabedoria e inspiração espiritual tão válidas quanto quaisquer outros textos sagrados de outras culturas, como o Talmud, o Corão, o Bhaghavad Gita ou o Novo Testamento.
Muitas vezes deparamo-nos com narrativas irlandesas sendo descritas como pseudo-história, como se um mito precisasse do suporte histórico para ser válido. Apesar das poucas, e questionáveis, evidências históricas da existência de um líder espiritual chamado Jesus na Galileia de dois mil anos atrás, ninguém questiona a valia do cristianismo ou trata os relatos do Novo Testamento como pseudo-história. Curiosamente, os textos da Irlanda celta relatam factos e eventos que estudos modernos comprovam estarem fundamentados em factos reais, como a migração de tribos celtas à Irlanda a partir da Península Ibérica, ou no exemplo de Arthur nos mitos celtas da Grã-Bretanha. Seja como for, a mitologia celta irlandesa é vigorosa e oferece uma fonte inesgotável de lendas, poemas e contos inspiradores. Pela abundância de textos, pela riqueza de fontes e pelo carinho que os irlandeses até hoje dedicam aos antigos mitos, a Irlanda é, sem dúvida, o mais importante manancial de informação sobre as crenças, mitos e costumes dos celtas.

Os Ciclos Mitológicos Irlandeses
Para fins de estudo, a mitologia celta irlandesa costuma ser dividida em quatro ciclos:
  • Ciclo Mitológico; 
  • Ciclo do Ulster;
  • Ciclo Feniano; 
  • Ciclo dos Reis.
Ciclo Mitológico
A este grupo pertencem alguns dos mais importantes relatos mitológicos da Irlanda celta, o maior de todos sendo, sem dúvida, o Léabhar Gábhala na hÉireann (literalmente Livro das Tomadas da Irlanda), mais conhecido como Livro das Invasões. Trata-se de uma intricada narrativa, redigida por várias mãos ao longo de várias décadas e que descreve as sucessivas chegadas de povos míticos às terras irlandesas mesclando os mitos nativos celtas a eventos bíblicos». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Nome de Viriato: «...Viriatus seria aquele que usava viriae (nome celtibérico, viriolae, em celta, segundo Plínio, XXXIII, 40); nome comum que, depois, se tornou próprio. Esta interpretação, já defendida por Leite de Vasconcelos em vários passos da sua obra»

Cortesia de deltarascunhos

Com a devida vénia a Ágora 2002, Portugália, Nova Série, Vol. XXIV, 2003.

O nome de Viriato
«No corpus epigráfico peninsular, o nome Viriato e congéneres, como Viranus, Vironus, Vironicus e Virotus, encontra-se atestado numa série de inscrições latinas, escritas sob o domínio romano, mas reportando-se a indivíduos de onomástica indígena, obviamente pré-romana.
Segundo os dados actuais, conta-se 41 referências antroponímicas e 4 designações gentílicas, concentradas na área reconhecida como indo-europeia.

Cortesia de wikipedia

A variante mais corrente é Viriatus-i, um tema em –o- da segunda declinação, que aparece testemunhado em 9 casos, 6 em nominativo e 3 em genitivo. A outra variante só foi conhecida em 1887, pela forma do genitivo Viriatis que foi explicado por Hubner como peregrine formatus, sendo hoje testemunhado por 5 inscrições com formas em nominativo e genitivo da terceira declinação.
Estes dados talvez ajudem a compreender a decomposição do indo-europeu visível, em ambiente de mescla de povos no Ocidente peninsular, na ulterior corrupção da declinação latina nessa zona, podendo pensar-se que a orientação desta mudança morfológica estaria determinada pela língua do substrato, isto é, pela língua que continuava, com maior ou menor vitalidade, a ser falada pelas populações.

Cortesia de agora2002

Dados arqueológicos, sobretudo relacionados com as primitivas formas de incineração, de que os funerais de Viriato representam talvez a expressão de maior visibilidade, mas já reconhecidas na região entre 1250 e o ano 1000 a. C., convergem para o entendimento deste conjunto de inovações como características de elementos indo-europeus protoceltas, de preferência a outros esquemas interpretativos.
Viriatus seria aquele que usava viriae (nome celtibérico, viriolae, em celta, segundo Plínio, XXXIII, 40); nome comum que, depois, se tornou próprio. Esta interpretação, já defendida por Leite de Vasconcelos em vários passos da sua obra, e que é hoje corrente, foi recentemente retomada por Vilatela, invocando a importância do braço armado como um conceito fundamental na ideologia de muitos povos antigos.

Cortesia de porviseu

As inscrições gravadas em estátuas transmitem uma onomástica indígena circunscrita, no âmbito da celtização, ao conjunto linguístico lusitano-galaico. Vincula conceitos e instituições típicas dos castrejos segundo um esquema tradicional de nomes relacionados com as comunidades de linhagem, que podem ajudar a compreender o significado de Viriato.
Um guerreiro, de S. Julião de Caldeias, Braga, chamava-se Malceinus, nome céltico de provável função patronímica, que quer dizer «filho da montanha», e a etimologia do nome de seu pai Dovilo pode relacionar-se com a ideia de «força», ambos quadrando bem com a geografia e a história dos povos pré-romanos.

Cava de Viriato
Cortesia de geocaching

Outra inscrição, atribuída à estátua do guerreiro do Castro de Rubiás, na Galiza, pertenceria a um Ladronus, com significado específico de guerrilheiro, tal como latro, não deixando de ser curioso verificar que o nome de seu pai Verotus = Virotus se aproxima o nome de Viriatus que, deste modo, poderá alcançar contextos mais esclarecidos. Fica-se com a impressão de que o «nome» e o «renome» estão aqui ligados, como acontece na generalidade das comunidades dominadas por uma certa hierarquia. Conceito que forma expressão de função e sobretudo de virtude típica, como coragem, força e celebridade, de uma sociedade guerreira». In Portugália, Nova Série, Vol. XXIV, 2003, O nome de Viriato, Armando Coelho Silva, Comunicação apresentada em Ágora 2002, El debate peninsular Viriato, Mérida, Junta da Extremadura, Novembro 2002.

Continua.

Cortesia de Agora 2002/JDACT

sábado, 19 de junho de 2010

Celtic Legends: Genuínos representantes da cultura irlandesa, onde se funde o estilo mais tradicional com as influências mais contemporâneas







«Genuínos representantes da cultura irlandesa, os Celtic Legends regressam para um espectáculo onde se funde o estilo mais tradicional com as influências mais contemporâneas. Violinos, gaitas de fole, acordeões, guitarras e flautas celtas (Tin Whistle) juntam-se à voz de Michael Londra, um dos mais importantes cantores irlandeses da actualidade. É o regresso para confirmar o sucesso desta recriação inovadora do folclore tradicional, num espectáculo que conta com a coreografia de Ger Hayes. Criado em 2002, Celtic Legends já se apresentou em mais de duas dezenas de países, de diferentes continentes». In Escape by Expresso.
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