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quarta-feira, 4 de março de 2015

República e Republicanismo. Maria C. Proença e Luís Farinha. «No fim do dia 4, a situação das tropas fiéis ao Governo no Rossio, era difícil. Os navios tinham rumado para perto do Terreiro do Paço. ‘O São Rafae’l fez fogo sobre os ministérios desta praça…»

Cortesia de wikipedia

A Monarquia Nova e o Congresso de Setúbal
«(…) Um dos aspectos a ter em conta era o do apoio externo após a revolução. Nesse sentido, em Abril de 1910, reuniu-se um novo Congresso em que foi nomeada uma comissão encarregada de ir ao estrangeiro expor e tornar conhecidos o programa do partido e as intenções dos seus dirigentes quando se desse a mudança inevitável do regime. Um dos pontos essenciais da referida missão consistia em garantir na Inglaterra que, no caso de um triunfo republicano, seria mantida, nas mesmas bases, a aliança tradicional entre os dois países, para assegurar a não interferência da nossa velha aliada em defesa do trono. A missão republicana deslocou-se ainda a outros países, tendo distribuído pelos principais órgãos da imprensa internacional um relatório sobre a situação política portuguesa.

O 5 de Outubro de 1910
As forças armadas, consideradas indispensáveis para levar a efeito uma acção revolucionária, foram um campo importante de recrutamento para os ideais republicanos. O aliciamento da maior parte dos oficiais ficou a dever-se ao vice-almirante Cândido dos Reis. A acção conjunta deste, no Comité Militar Republicano com Machado Santos na Carbonária tornou possível infiltrar simpatizantes em várias unidades da Guarnição de Lisboa: Artilharia 1, Infantaria 2, Infantaria 5, Infantaria 16, Cavalaria 2 (Lanceiros), Cavalaria 4, Caçadores 2, Caçadores 5, Regimento de Engenharia, Guarda Fiscal e corpo de marinheiros, incluindo a guarnição dos três cruzadores surtos no Tejo (Adamastor, São Rafael e D. Carlos) e base de torpedeiros em Vale do Zebro. Cândido dos Reis não estava muito convicto de que os republicanos dispusessem do apoio militar suficiente para o triunfo da revolução, mas Machado Santos, continuava entusiasmado e queria avançar para a luta armada, o mais cedo possível. Após o trabalho de recrutamento passou-se à elaboração do plano do movimento revolucionário, para o qual concorreram três oficiais de carreira: o capitão Sá Cardoso e os tenentes Hélder Ribeiro e Aragão Melo. A cidade foi dividida em zonas para as quais se disporia de 60 grupos de civis, cada um deles constituído por 16 homens, 5 armados com 5 bombas cada um, 5 com pistolas-metralhadoras e 6 desarmados que tinham por missão a vigilância e a transmissão de ordens. A esta  organização civil juntava-se a preparação militar do golpe que tinha como objectivo o ataque simultâneo a três pontos considerados fundamentais: o Quartel do Carmo, o Quartel-General e o Palácio Real das Necessidades, onde o rei devia ser preso. Duas notícias precipitaram a revolução: o assassinato de Miguel Bombarda que estava incumbido da distribuição de armas aos grupos civis, e a informação, dada a Cândido dos Reis, de que os navios que estavam no Tejo iriam sair no dia 4. Perante estas notícias e a informação de que a Guarnição de Lisboa estava a ser posta de prevenção alguns oficiais republicanos desaconselharam a revolução, mas Cândido dos Reis e Machado Santos resolveram avançar. O plano traçado não se concretizou, porque se foi fácil para os revolucionários apoderarem-se de Infantaria 16, Artilharia 1 e do Quartel de Marinheiros em Alcântara, não conseguiram, contudo, sublevar a maior parte das unidades. De início as coisas não pareciam correr bem para os revoltosos. Desde logo, o sinal de três tiros de canhão que marcaria para civis e militares o momento de avançar falhou. Apenas um tiro foi ouvido e Cândido dos Reis que esperava o sinal para embarcar e assumir o comando dos navios, perante o silêncio que se seguiu, convenceu-se do malogro da revolução e, pouco depois, suicidava-se.
Com as tropas sublevadas que se tinham concentrado na Rotunda, também as coisas não começaram por correr bem. Face à ausência dos principais dirigentes republicanos e aos boatos que começavam a circular, os capitães Sá Cardoso e Afonso Palla, com outros oficiais, consideraram que deveria levantar-se o acampamento, mas Machado Santos recusou-se a desistir e manteve-se sozinho no comando. A pouco e pouco, os civis e soldados ajuramentados na Carbonária começaram a juntar-se aos revoltosos na Rotunda, assegurando a resistência. A revolta da esquadra sita no Tejo contribuiu decisivamente para a vitória republicana. Por outro lado, logo no início da revolução os carbonários tinham desligado os fios telegráficos impedindo o Governo de pedir reforços vindos de fora. As linhas férreas também tinham sido cortadas, impossibilitando o avanço de tropas, enquanto que do Sul também não podiam chegar reforços, já que os navios revoltados dominavam o Tejo. No fim do dia 4, a situação das tropas fiéis ao Governo no Rossio, era difícil. Os navios tinham rumado para perto do Terreiro do Paço. Ao fim da tarde, o São Rafael fez fogo sobre os ministérios desta praça, provocando o pânico nas hostes monárquicas que se sentiam entre dois fogos, com os republicanos de Machado Santos na Rotunda e os navios frente ao Terreiro do Paço. Perante o evoluir dos acontecimentos e depois dos bombardeamentos dos navios sobre o Palácio das Necessidades, o rei, a conselho de Teixeira Sousa, abandonou Lisboa, para que as tropas que defendiam o Paço pudessem ir auxiliar nos combates na Rotunda e no Rossio.
Na manhã do dia 5, após um cessar fogo de uma hora, pedido pelo encarregado de negócios alemão para embarcar os estrangeiros residentes em Lisboa, ocorria a rendição das tropas monárquicas perante Machado Santos. Pouco depois, era proclamada a República no edifício da Câmara Municipal de Lisboa». In Maria C. Proença e Luís Farinha, República e Republicanismo, Instituto Camões, Março 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

terça-feira, 21 de outubro de 2014

República e Republicanismo. Maria C. Proença e Luís Farinha. «A organização das forças civis do movimento foi confiada à Carbonária. Nos dezoito meses entre o “Congresso de Setúbal” e a “Revolução do 5 de Outubro” multiplicaram-se os trabalhos de organização do movimento para evitar que se repetissem os malogros de 1891 e 1908»

O Zé Povinho
Cortesia de wikipedia

A Ideia e os símbolos
«(…) Os primeiros, fiéis à tradição do movimento vencido, tinham a consciência de que a natureza do regime monárquico só lhes permitiria ascender ao poder pela via revolucionária. No Sul, pelo contrário, era maioritária uma linha mais moderada que manifestava tendência para aglutinar os elementos monárquicos fiéis aos princípios do liberalismo tradicional, com os quais pretendia, em momentos de crise, formar alianças que sempre se tinham mostrado inoperantes. Os republicanos da zona norte, embora reconhecessem a impossibilidade de pôr em prática, de imediato, qualquer solução revolucionária, opunham-se às coligações empreendidas até então, e preferiam optar pela abstenção a intentar qualquer tipo de colaboração com outras forças políticas. Com a subida de João Franco ao poder a acção repressiva da ditadura viria a provocar uma mudança na definição da estratégia do PRP onde gradualmente a linha que defendia a acção revolucionária foi ganhando terreno perante a linha mais moderada. Esta modificação levou os republicanos a procurarem a aliança com outras forças. Entre as organizações que se juntaram ao PRP para levar a efeito o derrube da Monarquia pela luta armada, destacaram-se a Carbonária, entre os civis, e a Corporação dos Sargentos, entre os militares. Com a agitação política e a repressão que se verificou ao longo de todo o ano de 1907, intensificou-se a campanha do Partido Republicano cuja propaganda revestia aspectos de extrema violência, como aconteceu na visita de João Franco ao Porto, onde as impressionantes manifestações de hostilidade deram origem a recontros entre o povo e a polícia, de que resultaram numerosas vítimas e um considerável número de prisões, ocorridas em consequência das agitadas manifestações de desagrado com que o ditador foi recebido à sua chegada a Lisboa.
A gravidade da situação do país e a obstinada atitude de João Franco no governo acabaram por quebrar as hesitações do Partido Republicano e conduzir à organização de um golpe revolucionário que contou com a participação da Carbonária e dos dissidentes de José Alpoim. A participação da Carbonária foi decisiva, pressionando o Directório do PRP que se mostrava indeciso quanto à possibilidade de enveredar decisivamente pela via da revolução armada. Para a organização deste movimento, os contactos entre o Directório e a organização revolucionária foram estabelecidos através de António José de Almeida. Uma denúncia de um dos conjurados levou à prisão dos principais organizadores. A 28 de Janeiro de 1908 foram presos vários líderes republicanos, naquele que ficou conhecido como o Golpe do Elevador da Biblioteca. Afonso Costa e o visconde de Ribeira Brava foram apanhados de armas na mão no dito elevador, conjuntamente com outros conspiradores, quando tentavam chegar à Câmara Municipal. António José de Almeida, o dirigente Carbonário Luz Almeida, o jornalista João Chagas, João Pinto Santos, e Álvaro Poppe contavam-se entre os noventa e três conspiradores presos. José Maria Alpoim conseguiu fugir para Espanha. Alguns grupos de civis armados, desconhecedores do falhanço, ainda fizeram tumultos pela cidade, mas foram facilmente dominados pelas forças fiéis ao governo.
À agitação que se ia tornado irreprimível, a ditadura continuava a responder com repressão. Em 31 de Janeiro, o rei, em Vila Viçosa, assinava o decreto que permitia ao governo expulsar do país todos os que fossem pronunciados por crimes compreendidos no Art. 1.º do Decreto de 21 de Novembro de 1907. No dia seguinte o rei Carlos I iniciava o seu fatídico regresso à capital. Da descrição do Regicídio e da possível participação do PRP no violento acto levado a efeito por Buíça Costa, existem vários e contraditórios relatos, mas nunca foi possível provar cabalmente a colaboração do Partido Republicano com os regicidas. Com este acto violento encerraram-se definitivamente as tentativas de engrandecimento do poder real, que anunciadas pelos arautos da Vida Nova, tiveram o seu mais duro e implacável defensor em João Franco. Paradoxalmente , a queda da Monarquia que se aproximava, tinha por obreiros aqueles que propunham escudar-se na autoridade para a reformar e engrandecer.

A Monarquia Nova e o Congresso de Setúbal
Apesar dos reveses sofridos os republicanos não abandonaram a sua acção de propaganda. Aliás a Monarquia Nova do monarca  Manuel II, embora procurasse pôr em prática algumas das reformas preconizadas pelos republicanos, enredava-se numa série de escândalos de índole financeira (questão dos adiantamentos, caso Hinton, ruína do Crédito Predial) acompanhados por diversas questões religiosas que puseram em foco o anticlericalismo existente entre as massas populares afectas aos republicanos. Estes que tinham conseguido aumentar substancialmente a sua representação parlamentar nas eleições de Abril de 1908, aproveitaram esta vantagem para uma vigorosa campanha para as eleições municipais do mesmo ano. Não obstante a oposição dos principais partidos monárquicos, as eleições realizaram-se em Novembro de 1908 e constituíram uma importante vitória para os republicanos que não só conquistaram todos os lugares da Câmara de Lisboa, como uma digna representação maioritária ou minoritária em muitos concelhos do país.
Estes triunfos eleitorais não fizeram desistir a facção que no PRP continuava a defender a via revolucionária. No Congresso de Setúbal, em que pela primeira vez esteve representada uma organização feminina, a recém-criada Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, saiu eleito um novo Directório a quem foi confiado o mandato imperativo de fazer a revolução. Na sua acção de preparar a revolução o novo Directório seria acompanhado por uma Junta Consultiva e uma Junta Administrativa. A acção de propaganda e combate destes elementos da organização partidária, era, como vimos, completada por uma notável obra de instrução e esclarecimento a cargo dos centros republicanos espalhados pelo país e de mais de meia centena de jornais, revistas e outras publicações periódicas que desenvolveram também uma importante acção de propaganda e divulgação dos ideais republicanos. Esta acção esclarecedora foi de grande importância para a preparação cívica de grandes camadas da população que, progressivamente, iam sendo aliciadas para as fileiras republicanas. A divulgação dos novos ideais corria a par com o descrédito da monarquia, bem visível nos grandes comícios de Agosto de 1910 e no aumento da representação parlamentar obtido nas eleições do mesmo mês. Para consumar a obra que lhe fora confiada de preparar e organizar a revolução, o Directório republicano eleito em Setúbal, tinha começado por organizar comités revolucionários para estabelecer as ligações especialmente com as unidades militares do exército e da armada. A organização das forças civis do movimento foi confiada à Carbonária. Nos dezoito meses entre o Congresso de Setúbal e a Revolução do 5 de Outubro multiplicaram-se os trabalhos de organização do movimento para evitar que se repetissem os malogros de 1891 e 1908». In Maria C. Proença e Luís Farinha, República e Republicanismo, Instituto Camões, Março 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

República e Republicanismo. Maria C. Proença e Luís Farinha. «Na sua primeira experiência, em Portugal, o republicanismo surge sem um corpo ideológico próprio, pois mesmo a obra de Henriques Nogueira que anuncia alguns dos temas mais caros da futura propaganda republicana, é de nítida inspiração socialista. Esta relação unitária com o socialismo passou, contudo, a ser posta em causa a partir da década de 70»

Representação da vitória republicana
Cortesia de wikipedia

A Ideia e os símbolos
«(…) Muito interessante também é o busto da República ou a sua representação de corpo inteiro, elaborados nos mais variados materiais, umas vezes de expressão ingénua, outras de forma elaborada, bebendo profunda inspiração em representações como A Liberdade Guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix. Reproduzida em escultura, em cartaz, em selos, na nova moeda, em pequena ou em grande dimensão, a República é um símbolo de uma riqueza e versatilidade quase infinitas. As alegorias à República são diversíssimas, embora quase sempre na base de uma figura poderosa, com túnica pendida, sandálias romanas, barrete frígio e seios normalmente desnudados. Como uma deusa (ou a Virgem dos católicos) vai transmutando os seus atributos em função dos objectos que carrega consigo: a palma da vitória; a balança da justiça; as rosas da beleza; o leão da força; a espada e a lança da condução dos exércitos; os seios desnudados da liberdade. Símbolo da coragem, da determinação, da decisão, a República é bem o melhor ícone da Pátria e da Nação republicana, uma espécie de transmutação do sagrado para a sociedade profana que se pretendia erigir. Com a degradação do regime, a República foi adquirindo defeitos nas mãos dos caricaturistas. Figura anafada, passa a motivo de mofa pelos erros e desilusões que acarreta: fina, esperta, impostora ou traidora. Em cartaz ou postal, também figuras como o Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro passam a ser adoptados pela simbólica republicana. Normalmente aplaude ou desconfia, de forma acrítica, a obra republicana. Por vezes é ele o herói, como símbolo do povo republicano que acredita piamente na República e por ela se bate, de armas na mão, ao lado do marinheiro e do soldado. No contexto de uma nova religião cívica ganham especial relevo as festas cívicas, organizadas com uma liturgia própria e que procuravam ganhar o povo para os ideais e o regime republicanos. Realce-se entre todas elas a festa da árvore, reunindo adultos e crianças em torno do símbolo da vida, da abundância e da prosperidade, por meio do trabalho.

Implantação da República (1906/1910). Evolução do ideário republicano
Na sua primeira experiência, em Portugal, o republicanismo surge sem um corpo ideológico próprio, pois mesmo a obra de Henriques Nogueira que anuncia alguns dos temas mais caros da futura propaganda republicana, é de nítida inspiração socialista. Esta relação unitária com o socialismo passou, contudo, a ser posta em causa a partir da década de 70, a que não foi alheia a experiência da Comuna em França. Data desta década uma nova estratégia da propaganda republicana que passou a assumir características mais conservadoras, na linha de um liberalismo democrático, mas onde ainda se albergavam tendências diferentes, desde um republicanismo federal muito próximo do socialismo, até aos positivistas, como Teófilo Braga que, abandonando os ideais de reformismo social, passaram a enveredar decisivamente por uma política de propaganda que fazia depender da mudança de regime a solução para os diversos males que afligiam a Pátria. Esta nova estratégia passaria a congregar o esforço das hostes republicanas num crescente contínuo que alcançaria os seus pontos mais entusiásticos nos festejos das comemorações do centenário da morte de Camões e nas grandes manifestações nacionalistas de repúdio pelo Ultimatum Inglês. A inclusão do republicanismo num liberalismo de carácter democratizante não deixa margem para dúvidas, mas em relação ao positivismo não se pode postular que fosse esta a única corrente de pensamento a influenciar a elite intelectual republicana, pois, apesar da nítida influência da obra de Comte e, posteriormente, de Littré entre a maioria dos grandes vultos do republicanismo português, não se pode negar que também existiam outras tendências. Veja-se o exemplo de Sampaio Bruno, reconhecidamente anti-positivista e cujo ardor republicano não deixa margens para dúvidas. O positivismo republicano, como o positivismo português em geral, não revestiu carácter dogmático. Adoptando uma posição mais heterodoxa, reteve da obra comtiana a teoria dos três estados e a crença na necessidade imperiosa do advento do estado positivo, mas ao recusar as teses místicas do fundador não sistematizou propostas tendentes a institucionalizar uma religião da humanidade. O positivismo em Portugal caracterizou-se fundamentalmente pelo seu cientismo e pela crença na evolução e no progresso.
Basílio Teles, um dos grandes ideólogos republicanos, afirmava que todas as energias e valores sociais figuravam no partido e, na verdade poderiam encontrar-se defensores do republicanismo em diversos estratos sociais, desde grandes proprietários como Henriques Nogueira e José Relvas, a professores universitários como era o caso de José Falcão, Teófilo Braga e Duarte Leite entre outros, ou a pequenos comerciantes e industriais. Se analisarmos as categorias socioprofissionais dos principais activistas republicanos encontraremos: médicos, professores, profissões liberais, industriais, comerciantes e um número assinalável de farmacêuticos, em suma, uma grande percentagem de profissões para cujo desempenho era necessário possuir um curso superior, o que permite afirmar que o republicanismo recrutaria as suas hostes entre uma elite intelectual que pensava o futuro da Pátria na busca da regeneração capaz de inverter a situação de decadência a que a monarquia a conduzira. No binómio decadência/regeneração surgiu e se consolidou ao longo do século XIX o pensamento republicano tornando-se esta dicotomia um dos principais vectores da sua cultura política. A elaboração e divulgação da tese da dependência externa face à Grã-Bretanha tornou-se outro dos esteios políticos do republicanismo que não se cansava de vituperar a velha aliança e a posição da nossa aliada preferencial em diversas ocorrências, desde a independência do Brasil ao Ultimatum.
O combate ao rotativismo monárquico e a defesa do sufrágio universal constituíam também pontos altos da propaganda republicana que, na década de 90, tinha abandonado as teses federativas que perfilhara de início para adoptar um empolgado discurso nacionalista e colonialista. Neste aspecto a República foi ainda mais longe do que a monarquia que acusava de inércia e descuido face ao Império Ultramarino. Um outro aspecto relevante do pensamento republicano é o seu reconhecido anticlericalismo, característica muitas vezes associada à filiação maçónica de muitos dos membros do P.R.P.

A difusão do republicanismo
Após um amadurecimento caldeado nas realidades políticas e sociais do país, as principais componentes ideológicas do Partido Republicano viriam a concretizar-se no Manifesto ou Programa de 1891, elaborado pouco antes do 31 de Janeiro, que persistiria até à proclamação da República. O progressivo pragmatismo dos republicanos e o seu acentuado nacionalismo contribuíam para que, para a maioria dos seus simpatizantes, ser republicano fosse ser contra a Monarquia, contra a Igreja e os jesuítas, e contra a corrupção política dos partidos tradicionais. O facto de o PRP colocar acima de qualquer outra questão o derrube da Monarquia não queria dizer que o partido não se preocupasse com a difusão dos seus ideais. Para a propaganda das suas doutrinas foram criadas inúmeras agremiações que, por todo o país contribuíram para a difusão do republicanismo. A estratégia de propaganda do PRP não se limitou a esta acção divulgadora. Frequentemente o partido organizava grandiosas manifestações populares, comícios, festas, marchas de protesto, que, não raro, eram severamente reprimidas pelas forças da ordem, com prisão dos mais activos dirigentes. Apesar da repressão a propaganda republicana ia alastrando, principalmente nos centros urbanos, o que não deixava de ser motivo de preocupação para os governos monárquicos. O percurso eleitoral do Partido Republicano foi, desde 1878, de difícil e fraca expressão, devido não só às características da legislação eleitoral, como às ilegalidades que se verificavam durante as campanhas e no decurso dos escrutínios. Como protesto pelas limitações impostas pela legislação o PRP não concorreu às eleições de 1895 e 1897. Os republicanos que, na maioria das vezes concorriam com candidaturas próprias, chegaram a fazer algumas alianças, como aconteceu, em 1890, com alguns sectores monárquicos progressistas e, em 1900 e 1901, com os socialistas, formando a denominada Concentração Democrática. De qualquer modo, as esperanças de que o partido pudesse vir a ascender ao poder por via eleitoral eram praticamente nulas e as tendências discordantes que se tinham manifestado no Congresso de 1891 e que separaram os republicanos do Norte e do Sul no movimento de 31 de Janeiro, continuavam a dividi-los». In Maria C. Proença e Luís Farinha, República e Republicanismo, Instituto Camões, Março 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

República e Republicanismo. Maria C. Proença e Luís Farinha. «Para os republicanos históricos da ‘Geração de 90’ e também para a nova geração de 1910, intransigente e rebelde, a República era a sua “Dulcineia”. Com a sua implantação ambicionavam tudo: o início de uma profunda reorganização que deveria modificar de alto a baixo toda a arcaica sociedade portuguesa»

Primeira República Portuguesa, 5 de Outubro (uma criança)
Cortesia de wikipedia

A Ideia e os símbolos
«Um século depois do 5 de Outubro e mais de oito décadas após a sua queda, a Primeira República é ainda hoje memorada pela revolução política que lhe deu origem e pelas vicissitudes de um regime instável que, de solução, se tornou ele próprio, com o decorrer do tempo, num problema a resolver. Contudo, a República e o Republicanismo foram, antes de regime, um movimento cultural regenerador que, para além da mudança do sistema monárquico, pugnava pela democratização da sociedade portuguesa, pela laicização das instituições e das consciências e pela modernização económica e social do país. Constituiu-se como movimento em meados do século XIX, depois do afloramento revolucionário de 1848, instituiu-se como partido com a finalidade de disputar o poder político a partir da década de 80, falhou o golpe revolucionário em 31 de Janeiro de 1891, reforçou o seu compromisso histórico interclassista no modo ordeiro como disputou as eleições parlamentares e municipais e, sustentado por um bloco histórico vasto e diversificado, preparou a transição revolucionária de 1910 a partir do Congresso de Setúbal do ano anterior. A crise política e financeira de finais de século XIX, o arcaísmo sócioeconómico e cultural do país e a sua dependência externa encarregaram o Partido Republicano (as classes médias urbanas, as suas elites civis e militares e as aristocracias operárias) de resgatar Portugal do atraso histórico que todos diagnosticavam e do declínio inevitável, caso não fosse invertido o rumo dos acontecimentos nefastos que se iniciaram com o Ultimato de 1890.
Para os republicanos históricos da Geração de 90 e também para a nova geração de 1910, intransigente e rebelde, a República era a sua Dulcineia. Com a sua implantação ambicionavam tudo: o início de uma profunda reorganização que deveria modificar de alto a baixo toda a arcaica sociedade portuguesa. Imaginavam irradicar o analfabetismo que impedia a modernização social e conduzia à desmoralização das elites e ambicionavam modernizar o sistema político, pelo combate a todos os messianismos e corrupções clientelares que apontavam ao rotativismo monárquico. As instituições que queriam (escola, exército) e os órgãos de soberania que idealizavam (Parlamento, Municípios, etc.) deviam guiar-se pelos princípios democráticos que orientavam as sociedades modernas, como parecia acontecer na França da III República. Sonhavam com um verdadeiro projecto ultramarino, modernizador e autonomista e pretendiam desenvolver uma política de independência nacional, sustentada sobre a valorização dos recursos nacionais e africanos. Prometiam resolver, de forma justa, a condição económica e social das classes humildes e substituir uma moral católica e provinciana por uma moral secularizada e cosmopolita, sustentada na militância do político doutrinador, do militar educador e do professor sacerdote. Perante um país dependente, arcaico, rural e analfabeto, as elites republicanas (de homens de leis, de escritores e jornalistas, de oficiais das forças armadas, de médicos e de professores) incumbiram-se a si próprias de uma missão histórica: a de salvar a Pátria através da República, libertando o país do passado e das suas dependências crónicas. Se na primeira fase o movimento republicano era essencialmente federalista e democrático, na segunda, depois do Congresso de 1891, o seu projecto é o de galvanizar os portugueses para o ressurgimento nacional, através de um projecto interclassista e social-republicano, aliciante para as elites e pequenos possuidores e produtores e capaz de agregar também o operariado, muito eivado pelas ideologias anarquistas e socialistas.
Em finais de 1908, este compromisso histórico firmado em torno da refundação regeneradora da Pátria pela fusão da Nação com a República estava praticamente consolidado. O progresso da Ideia era assinalável: um núcleo de 7 deputados republicanos eleitos em 5 de Abril (onde avultava a figura de Afonso Costa) demolia de forma arrasadora todas as tentativas reformadoras da Monarquia Nova; a vitória da lista republicana para a Câmara de Lisboa, em Novembro desse ano, servida por reconhecidas competências técnicas na vereação, credibilizava a futura acção governativa do país pelos republicanos; uma acção de massas explosiva, centrada sobre comícios monumentais e uma vida associativa dos Centros Escolares Republicanos, intensa e proveitosa, juntava milhares de portugueses ao projecto republicano. O movimento reproduzia-se em organização, recrutamento e força: Lisboa era republicana e a revolução seria matemática e fatal, pensava-se em finais de 1908. De fora deste bloco regenerador ficariam apenas as elites monárquicas e o clero reaccionário, que seria preciso destronar das habituais e ancestrais fórmulas de domínio: social, religioso e político. Sabia-se bem como o recrutamento dos homens para a Ideia republicana havia de fazer-se pela doutrinação e como esta havia de sustentar-se sobre uma nova religião cívica, assente na festa cívica, na reconstrução do imaginário colectivo, numa nova gramática simbólica e mesmo numa renovação das fórmulas administrativas.
A nova unidade nacional, superadora da descrença e anunciadora da esperança, congregou-se em torno dos grandes símbolos nacionais, pelo recurso à História. Heróis, feitos valorosos e datas da independência da nação ressuscitam a verdadeira raça portuguesa e alimentam a alma do futuro homem novo republicano. A educação cívica e política passou a realizar-se por meio de novos manuais escolares, em festas e cerimónias públicas e em centenas de milhares de objectos que, pelo uso comum, veiculavam os ideais republicanos. Multiplicaram-se os símbolos da Ideia, materializada na Raça, na Família, na Pátria e na Humanidade. Destes, sempre sobressaíram três: o Hino Nacional (A Portuguesa), a Bandeira Nacional e a República (um busto ou um corpo completo de mulher, de seios desnudados e barrete frígio). A Portuguesa, elaborada por altura do Ultimato, com letra de Henrique Lopes Mendonça e música de Alfredo Keil, mantinha-se proibida desde 1891, altura em que animou a revolta do 31 de Janeiro no Porto, tendo sido adoptada pelo Governo Provisório em 1911 como Hino Nacional. Trata-se de um texto de carácter nacionalista e patriótico, onde estão omissas referências à democracia ou à República, embora tenha sido cantado em reuniões e comícios, a par da Marselhesa, esse sim um hino de honra à liberdade. Por seu lado, a bandeira verde-rubra acendeu uma querela que só terminará com a sua adopção, na Festa da Bandeira Nacional, em 1 de Dezembro de 1910, por decisão do Governo Provisório (Decreto de 22/11/1910). Autores como João Medina entroncam a bandeira nas tradições carbonárias e maçónicas que antecederam a implantação da República. Na verdade, as cores verde e rubra e a esfera armilar, preenchida pelas quinas, estão presentes em muitas das bandeiras que guiaram a acção conspirativa e revolucionária de entre 1907 e 1910». In Maria C. Proença e Luís Farinha, República e Republicanismo, Instituto Camões, Março 2009.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Exposição Mundial de Filatelia: CTT. FIL. «CTT nos Cem Anos do Regime Republicano». Até 10 de Outubro de 2010. Congresso da Federação Internacional de Filatelia


Cortesia de hojelusofonia
Mais de um milhão de selos vão poder ser vistos na exposição de filatelia «Portugal 2010» que decorre na FIL, no Parque das Nações até ao pf dia 10 de Outubro. Será a maior exposição de selos alguma vez realizada em Portugal.
Os CTT, Correios de Portugal, em parceria com a Federação Portuguesa de Filatelia assumiram a responsabilidade de patrocinar e organizar uma exposição mundial de filatelia em 2010 a realizar em Lisboa.
Ano mais apropriado não se poderia ter escolhido pois celebra-se o Centenário da Implantação do Regime Republicano em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, que substitui uma das mais antigas monarquias da Europa.

Cortesia de casadecamilo
Sofrimentos e glórias da História de Portugal que estão registados nas emissões de selos produzidos pela Filatelia dos CTT, considerada com justiça como uma das melhores, quer pela sua beleza e qualidade, quer pela sua contribuição para a divulgação dos principais acontecimentos da nossa Pátria e do Mundo. Os CTT e a Exposição Mundial de Filatelia mostram selos de setenta e sete países. A maior mostra filatélica alguma vez realizada em Portugal e com entrada livre.


Cortesia de filabell
Há 4 anos que os CTT e a Federação Portuguesa de Filatelia vêm a preparar esta exposição. Até 10 de Outubro, um milhão de selos, entre eles, o primeiro selo português, emitido em 1853, e o primeiro utilizado oficialmente no sistema postal internacional, um «Penny Black» britânico que data de 1840, vão estar em exposição na FIL (Parque das Nações).

Cortesia de bibliarnoso

Cortesia de leonardoconcon
A entrada para a maior exposição filatélica de sempre realizada em Portugal é livre e coincide com o Congresso da Federação Internacional de Filatelia.

Cortesia de cemanosderepublica
A Portugal 2010 tem garantidas as presença de 600 colecções filatélicas de 77 países, na secção competitiva, que serão avaliadas por um júri. Paralelamente, serão exibidas raridades e algumas «jóias» do mundo dos selos. «Liberdade, Igualdade e Fraternidade» são as directrizes da mostra, escolhidas a partir de um tema maior que é o Centenário da República.

Cortesia de sherpas2
Haverá ainda uma área de exposições subordinada «aos CTT nos Cem Anos do Regime Republicano», que integrará reproduções de Estações de Correios do último século; um programa pedagógico dirigido a crianças e escolas; e um programa de conferências e concertos.

Cortesia de img401imageshack
«Ainda durante o evento, e pela primeira vez em Portugal, será possível que os visitantes produzam selos com a sua própria imagem e os levem para casa (ou usem no envio da sua correspondência). Foi ainda preparado um passaporte filatélico que permitirá coleccionar selos e carimbos de todo o mundo durante a visita aos expositores.
São esperados cerca de 150 mil visitantes e a área em que a exposição se irá posicionar é de cerca de dez mil metros quadrados; mil estão destinados ao centenário dos CTT no Regime Republicano.
"Vamos tentar que muitas escolas ponham no seu roteiro, em Outubro, uma visita à exposição", disse Pedro Coelho", vice-presidente dos CTT, a propósito da ambição do projecto». In DN Artes.

Cortesia de filatelicamentecentro
Ceres é um conjunto de emissões base ou ordinárias de selos de Portugal após a Implantação da Républica, a primeira das quais em 1912, substituindo assim os selos com a efígie do Rei D. Manuel II com a sobrecarga Républica, que circulavam desde 1910.

Cortesia de caleida

Cortesia de CTT/Exposição Mundial de Filatelia/JDACT

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Álvaro de Campos: «(...)Partir! Nunca voltarei, nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, a gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia(...)»

Cortesia de versoeprosaning

Acordar
Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Álvaro de Campos, Heterónimo de Fernando Pessoa, in «Poemas»
 
JDACT

Al Berto: «Por vezes uma gaivota pousava nas águas, outras era o sol que cegavae um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite, os dias lentíssimos... sem ninguém»

Alberto Raposo Pidwell Tavares
Cortesia de nescritas

Mais Nada se Move em Cima do Papel
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto, in «O Medo»

Os Amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
Al Berto, in «Sete Poemas do Regresso de Lázaro»

JDACT

Luís de Camões: «Perdigão que o pensamento subiu a um alto lugar, perde a pena do voar, ganha a pena do tormento»

Cortesia de escolarenovada

Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
Luís de Camões

Perdigão perdeu a pena
Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões

JDACT

José Saramago: «Quem tu és não importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face: cristal vazio e mudo»

Cortesia de adesenhar

Passado, Presente, Futuro
Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
José Saramago, in «Os Poemas Possíveis»

No Coração, Talvez
No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
José Saramago, in «Os Poemas Possíveis»

JDACT

David Mourão Ferreira: «Quantas mãos... Quantos dedos, para que em seda cedam as paredes»

Cortesia de comunidade

Canção Amarga
Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
— Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
— Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!
David Mourão-Ferreira, in «A Secreta Viagem»
 
Paisagem
Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
David Mourão-Ferreira, in «A Secreta Viagem»

JDACT

Natália Correia: «Dão-nos a honra de manequim para dar corda à nossa ausência. Dão-nos um prémio de ser assim sem pecado e sem inocência»

Cortesia de enwikipedia

Nuvens correndo num rio
Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
Natália Correia

JDACT

Sofia Melo Breyner: «Bebido o luar, ébrios de horizontes, julgamos que viver era abraçar o rumor dos pinhais, o azul dos montes e todos os jardins verdes do mar»

Cortesia de sebentadonando

Esta Gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sofia de Mello Breyner Andresen, in «Geografia»

JDACT

António Aleixo: «Eu não tenho vistas largas nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas lições de Filosofia». Não sendo um revoltado, acaba por desabafar na sua poesia todo o sofrimento provocado por certas injustiças

Cortesia de ssebastiaowordpress

A Gentil Camponesa

MOTE
Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza;
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

GLOSAS
És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão:
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora;
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno;
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste;
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela;
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!...
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

JDACT

Vasco Costa Marques: «Sou apenas uma boca que pensa». «Nada mais tenho, escrevo na palavra outra palavra»

(1928-2006)
Lisboa
Cortesia de poesiadosdiasuteis-vcm

Em qualquer papel se anota um verso
Quando a mão de obra
mete as mãos à obra
que falta?
que sobra?

uma volta à chave
o dedo inquieto
que o raio dispara
o nobre sem sorte
o verdete amargo
na senda (???) da cobra
achada no escombro
pender a cabeça
e não achar ombro
estender a mão
e não achar faca
senão a que corta
a meia torrada
e o café deserto
no peso da tarde
regalo da mosca
no sono do velho
que pediu conselho
por dez mil ou mais
pois tem o cartão
o sessenta e cinco
que comprou depois
de apertar o cinto
Vasco Costa Marques
Hino de Caxias
Longos corredores nas trevas percorremos
sob o olhar feroz dos carcereiros
mas nem a luz dos olhos que perdemos
nos faz perder a fé nos companheiros.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Cortam o sol por sobre os nossos olhos
muros e grades encerram horizontes
mas nós sabemos onde a vida passa
e a nossa esperança é o mais alto dos montes.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Podem rasgar meu corpo à chicotada
podem calar meu grito enrouquecido
que para viver de alma ajoelhada
vale bem mais morrer de rosto erguido.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.
Vasco Costa Marques

JDACT

Alexandre O’Neill: Um dos grandes génios da poesia moderna portuguesa. «Palavras de amor, de esperança, de imenso amor, de esperança louca»

Cortesia de institutocamoes
Cortesia de poesiadosdiasuteisvcm

Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill, in «No Reino da Dinamarca»

JDACT

Florbela Espanca: Os temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude

Cortesia de espelhoporescrito

A Tua Voz de Primavera
Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!
Florbela Espanca, in «A Mensageira das Violetas»

Doce Certeza
Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer...

Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!...
Florbela Espanca, in « Mensageira das Violetas»

JDACT

Antero de Quental: Sonetos. Uma poesia de combate, dedicada ao elogio da capacidade humana. Uma poesia intimista, direccionada para a análise da individualidade

Cortesia de asilhasencantadas

Redenção
I
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!

II
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...

Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, in «Sonetos»

JDACT

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Primeiro Busto da República: A Musa escolhida foi Ilda Pulga. O Alentejo «presente» no Parlamento. A escultura não sofreu alterações, passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910

Cortesia de forum1viriatoweb

Com a devida vénia ao Jornal Público e LUSA.
O orgulho está patente na forma como um dos descendentes de Ilda Pulga, a «musa» que serviu de modelo para o primeiro busto da República, descreve a sua familiar, que supõe ter sido «uma mulher atrevida» para a época. «Deverá ter sido uma mulher lindíssima, para o escultor a ir buscar para ser o seu modelo para o busto, o que me leva a pensar também que terá sido uma pessoa muito atrevida» para a época, afirma à agência Lusa Joaquim Pulga.

Cortesia de republica100anos19102010
Apesar de não ter conhecido Ilda Pulga, que faleceu em 1993, com 101 anos, o sobrinho bisneto da mulher que posou e inspirou o escultor que concebeu o busto da República encara esse facto como «um afago para o ego». «Uma pessoa que, aos 18 ou 19 anos, serve de modelo a um escultor para busto da República deve ter evoluído de uma forma diferente do comum dos mortais», presume, considerando que a sua familiar «terá sido uma mulher com uma vida cultural muito intensa».
O interesse de Joaquim Pulga pelo assunto «nasceu» em 1993, depois de ler num jornal a notícia da morte da Ilda Pulga. Na altura, desconfiou, porque, segundo diz, «Pulgas em Portugal só há uma família», que é a sua. «Ao ver no jornal Ilda Pulga, natural de Arraiolos, fui procurar, mas foi muito difícil, porque tinha de entrar nos arquivos da igreja», conta, lembrando que «só a partir da implantação da República é que os assentos começaram a ser feitos no registo civil».
O sobrinho bisneto da «mulher que representa a República» lembra ainda que sempre existiu uma «grande dúvida sobre quem foi o escultor do busto», mas defende que «o verdadeiro autor foi João da Silva, que usava como pseudónimo João da Nova». «Era João da Nova porque também escrevia para a revista Seara Nova», acrescenta. In Jornal Público, LUSA.

Em Portugal, a escultura não sofreu alterações e passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910 a Comissão para as Comemorações do Centenário não prevê a modernização do símbolo. Fernanda Rollo, Comissária das Comemorações do Centenário da República, disse à Lusa que, ao contrário de França, dificilmente a sociedade portuguesa iria aceitar a mudança e que o importante é conhecer o busto actual. «Temos dinâmicas diferentes. Não está prevista pela Comissão qualquer iniciativa no sentido de mudar o busto da República. Estamos mais interessados em conhecer o busto actual e as várias manifestações artísticas que inspirou. Em relação a França, não temos de ter esse quadro de mimetização. Não sei se a sociedade portuguesa aderiria a este tipo de mudanças», disse a historiadora Fernanda Rollo. Também António Arnaut, antigo grão mestre do GOL, considera que alterar o busto da República seria deturpar os símbolos originais da República Portuguesa. «Os símbolos são representações perpétuas da ideia. Mudar o busto seria um absurdo. Uma profanação», disse.
Busto da República
Cortesia de parlamento

Tal como o busto com a mesma alegoria, de Tomás da Costa, esta cabeça da República, da autoria de Francisco Santos, foi executada para o concurso promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1910. Vencedora sobre as propostas de Costa Mota (sobrinho) e de Júlio Vaz (respectivamente premiadas com o 2º e 3º prémios), veio, porém, a ser mais tarde preterida pela de Simões de Almeida (sobrinho), quando esta última foi profusamente difundida para fins propagandísticos oficiais em medalhas e moedas. In Parlamento.

Cortesia de forum-numismatica, galeria presidentes

 Cortesia de artesvivas
Da autoria de Simões de Almeida (sobrinho). A imagem da República retirou o barrete frígio, por vezes a bandeira, a figura feminina, o olhar decidido e a sensualidade, não explícita no erotismo dos seios descobertos daquela, mas recatada e implícita na blusa de cordões afrouxados que deixa entrever o peito, acrescentando-lhe o raminho de loureiro como símbolo triunfal, ou o molho de feno e a foice como símbolo da abundância.



A Liberdade guiando o Povo de Eugène Delacroix 1830
Inspiração da imagem da República.
Cortesia de wikipédia
Cortesia de alentejanand
Cortesia de alleurocoins
Cortesia do Parlamento/LUSA/Jornal Público/JDACT