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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Du Sabbat au Dimanche. Samuele Bacchiocchi. «Aí encontramos excertos do sermão de Cristo pregado na sinagoga de Nazaré num dia de sábado na inauguração de seu ministério público. Convém notar que no Evangelho de Lucas o ministério de Cristo não apenas começa no sábado…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Apelar para os críticos tornaria fútil esta investigação, pois eles consideram o relato evangélico dos ensinos e actividades de Cristo quanto ao sábado, não como autênticos factos históricos mas como reflexões posteriores da Igreja primitiva. Afirmam que é impossível saber o que o próprio Jesus pensava a respeito. Não vemos nenhuma justificativa para este cepticismo histórico, especialmente porque uma nova busca do Cristo histórico lança sombras sobre a metodologia anterior e promete encontrar nos Evangelhos um número muito maior de autênticos feitos e palavras de Jesus. Entretanto, mesmo se os materiais dos Evangelhos representassem reflexões posteriores da comunidade cristã, este facto não diminui o seu valor histórico. Ainda assim se constituem numa fonte valiosa para o estudo da atitude da Igreja primitiva quanto ao sábado. Na verdade, o espaço considerável e a atenção dada pelos escritores dos Evangelhos a curas realizadas por Cristo no sábado (não menos que sete episódios estão registados; os sete milagres aos sábados são, o paralítico em Betesda, o endemoninhado na sinagoga, a sogra de Pedro, o homem com a mão ressequida, o cego de nascença, a mulher enferma, a cura do hidrópico) e controvérsias, são indicativos de quão importante era a questão do sábado na época em que foram escritos. Um bom lugar para iniciar a nossa pesquisa sobre o conceito de Cristo a respeito do sábado é talvez o quarto capítulo do Evangelho de Lucas. Aí encontramos excertos do sermão de Cristo pregado na sinagoga de Nazaré num dia de sábado na inauguração de seu ministério público. Convém notar que no Evangelho de Lucas o ministério de Cristo não apenas começa no sábado, o dia que, de acordo com Lucas, Cristo observava habitualmente, mas também termina no dia da preparação, quando o sábado começava. O ministério sabático de Jesus que provocou repetidas rejeições parece ser apresentado por Lucas como um prelúdio da própria rejeição e sacrifício final de Cristo. No seu sermão de abertura Cristo refere-se a Isaías, que diz: o Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Praticamente todos os comentaristas concordam que o ano aceitável do Senhor que Cristo está oficialmente incumbido (ungido) de proclamar, refere-se ao ano sabático (isto é, o sétimo ano) ou o ano do Jubileu (ou seja, o 50º ano após sete sábados de anos). Nessas instituições anuais, o sábado vem a ser o libertador dos oprimidos da sociedade hebraica. A terra devia ficar sem cultivo, para produzir livremente para os pobres, os desapossados e os animais. Os escravos eram emancipados, se eles assim desejassem e os débitos dos irmãos eram perdoados. O ano do jubileu também requeria a restauração da propriedade ao proprietário original. Que o texto de Isaías, lido por Cristo refere-se a estas instituições sabáticas está claro pelo contexto que fala da libertação dos pobres, cativos, cegos (ou prisioneiros), oprimidos. É significativo que Cristo no seu discurso de abertura anuncia a sua missão messiânica na linguagem do ano sabático. O seu breve comentário sobre a passagem é muito apropriado: hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir. Como P. K. Jewett sabiamente destaca, o grande sábado do jubileu tornou-se uma realidade para todos os que estavam perdidos por causa dos seus pecados, pela vinda do Messias e n’Ele encontraram uma herança. Podemos inquirir: qual o motivo porque Cristo anunciou a sua missão como o cumprimento das promessas sabáticas da libertação? Planeava Ele explicar, possivelmente numa forma velada, que a instituição do sábado era um tipo que encontrava o seu cumprimento n’Ele próprio, o Antítipo, e daí em diante cessava a sua obrigação? (Neste caso, Cristo teria aberto caminho para a substituição do sábado por um novo dia de adoração). Ou Cristo identificava a sua missão com o sábado para tornar este dia um adequado memorial das suas actividades redentoras?» In Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, A Historical Investigation of the Rise of Sunday Observance in Early Christianity, Du Sabbat au Dimanche, The Pontifical Gregorian University Press, Roma, 1977.

Cortesia de PUG/FHE/JDACT

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «… quando Qumran foi destruído e ocupado por um posto militar romano. Fugindo à invasão e perseguição romanas, os habitantes esconderam os seus preciosos tesouros culturais…»

Cortesia de wikipédia

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas.
«(…) Livros Bíblicos canónicos. Segundo o que sabemos, foi no Concílio rabínico de Jâmnia ou Jabne, entre os anos 80-90, que se formou o Cânone hebraico da Bíblia. Do Antigo Testamento, entre os manuscritos só não está representado o Livro de Ester e de alguns livros há vários manuscritos fragmentados. Os exegetas e críticos atribuem grande significado ao Livro de Isaías, que aparece em dois exemplares. O exemplar completo, com 7,35m de comprido e 66 capítulos, tem particular relevo, porque na coluna 33 apresenta entre o capítulo 39 e o 40 um espaço em branco, que os homens da crítica literária bíblica assumem como um indício e uma reminiscência da distinção estabelecida pelos exegetas entre o Proto-Isaías (séc. VIII) e o Deutero-Isaías (séc. VI). Isso seria a confirmação da exegese crítica moderna sobre a pluralidade de autores daquele livro sagrado. Apareceram também alguns livros considerados Deuterocanónicos (Tobias, Eclesiastico ou Ben Sirac, Carta de Jeremias), isto é, livros bíblicos que só mais tarde a autoridade cristã incluiu na lista dos livros sagrados, o que demonstra o seu interesse. É enorme a série de fragmentos com textos da TENAK, isto é, dos três grandes blocos em que se subdivide a Torá hebraica ou Antigo Testamento cristão.

Livros para-bíblicos ou Apócrifos. São livros que não pertencem ao Cânone da Sagrada Escritura ou são supostamente atribuídos a figuras bíblicas: Livro dos Jubileus, Henoc, Testamento dos 12 Patriarcas, Oração de Nabónides, apócrifo do Génese e os Pesharyim ou comentários aramaicos a livros bíblicos hebraicos (Pesher de Habacuc), bem como os Targumim ou traduções com paráfrases sobre livros bíblicos em aramaico, Levítico, Job, etc..

Literatura de ideologia essénia. Sérek HaYahad, isto é, Livro da Regra também chamado Manual da Disciplina em dois exemplares fragmentados, Sérek Há Eda, isto é, Regra da Congregação, Séfer HáMmilhamah, isto é, Livro da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, Documento de Damasco, já conhecido pela descoberta na guenizá do Cairo em 1892, Hinos (Hodayot), um conjunto de oito salmos próprios da comunidade, colecção de Bençãos.

Literatura vária. Rolo do Templo em dois exemplares (4 Q e 11 Q) e outros muitos fragmentos (dezenas de milhar), que só a paciência e o amor foram identificando. Pelo que foi dito se pode imaginar o trabalho e a técnica a que foi preciso recorrer para se chegar aos textos que agora nos são oferecidos em leitura bilingue. Com a breve resenha apresentada se vê a extraordinária importância destes manuscritos para a Bíblia, em primeiro lugar. É que, desconhecendo ainda a posterior vocalização massorética, mas usando já a escrita plena com as matres lectionis (Alef, He, Yod, Vau), os homens de Qumran vieram em certa medida provar a fidelidade substancial do texto hebraico ou massorético estabelecido pelos rabinos já em adiantada era cristã. Por outro lado, vê-se que, para os textos gregos da Bíblia, os habitantes de Qumran já conheciam a versão grega dos LXX, que tinha sido traduzida no Egipto. É arriscada e não provada a hipótese de se encontrarem textos do Novo Testamento, como quis provar José O’Callaghan. Por exemplo, ele pretendeu num minúsculo fragmento de papiro (3,9cmx2,7cm e 4 linhas), datado de 50 d.C., reconstituir com poucas letras gregas o texto de Marcos sobre o milagre da multiplicação do pão. Quanto ao tipo de escrita semítica usada nos manuscritos hebreus e arameus, vê-se que a letra ainda tem características arcaicas, mas está em nítida evolução para o que vai ser a típica escrita quadrada.

Que comunidade era a detentora do lugar e autora dos textos?
As escavações arqueológicas de 1952 puseram a descoberto as grandiosas ruínas de Qumran na plataforma de marga argilosa sobranceira ao Wadi Qumran, a 50 metros acima do Mar Morto, mas a 330 metros abaixo do nível do mar. Desde logo, esse lugar foi identificado com o mosteiro dos essénios, Essénoi, como informa Flávio Josefo na transcrição grega do aramaico Hasdin ou do hebraico Hasidim = piedosos. Tratava-se dum complexo habitacional, com longo aqueduto e canais de água para sustento das pessoas e abluções rituais, comprovadas pelos vários tanques ou Miqvéh, e onde os arqueólogos foram identificando diversos espaços, a que deram o nome de torre, scriptorium, cozinha, sala de reuniões, oficina de cerâmica, depósito de louça, estábulo, cemitério. Sem dúvida nenhuma, portanto, um vasto espaço de vida comum, apesar de se notarem vários cortes cronológicos nas sucessivas camadas do terreno. A ocupação do lugar estende-se, com certeza, desde 152 a.C. até à guerra 66-70, quando Qumran foi destruído e ocupado por um posto militar romano. Fugindo à invasão e perseguição romanas, os habitantes esconderam os seus preciosos tesouros culturais, fugiram uns e juntaram-se outros aos guerrilheiros da resistência, como informa Flávio Josefo. O complexo ficou deserto, possivelmente, até 132-135, se é que não foi reocupado por outros judeus, que ignoravam a fuga dos anteriores e os esconderijos dos seus manuscritos. À volta de Qumran, outras descobertas foram feitas em Murabba`at, Masada, Hirbet Mird, lugares altos e quase inacessíveis da resistência judaica. Na verdade, toda aquela zona parece ter sido envolvida pela ocupação romana de Pompeu em 63 a.C. e pelas duas guerras judaicas contra os romanos de Tito em 66-70 e de Adriano em 132-135, quando até a cidade de Jerusalém foi arrasada ao solo e reconstruída à maneira romana com o nome de Aelia Capitolina em honra do Imperador Élio Adriano». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «Os conhecimentos arqueológicos e a análise do ‘Carbono 14’ permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia…»

Cortesia de wikipédia

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas
«(…) Trata-se de Hirbet Qumran, mas chegaram também à 3 Q com dois rolos de cobre, e, mais no interior, exploraram Hirbet Mird, restos de antigo mosteiro bizantino, perto de Mar Saba, onde descobriram documentos gregos do século VIII depois de Cristo. Contudo, em Setembro de 1952, os beduínos, guiados pela história da perdiz, contada por um ancião, fizeram-se eles também pesquisadores e, ao longo do Wadi Qumran, descobriram as grutas 4, 5, 6 Q. Entretanto, foi criado em 1960 um grupo de estudiosos, que eu conheci no Museu Rockefeller em 1961 (John Allegro pela Universidade de Manchester, John Strugnel pela de Oxford, os padres João Starky e José Tadeu Milik por Paris e outros), os quais foram fazendo a decifração e leitura dos documentos no Museu Palestiniano ou Rockefeller Museum, na zona oriental de Jerusalém ou Jerusalém Velha.
A Universidade de Oxford, por meio de Millar Burrows, iniciava a publicação: Discoveries in the Judaean Desert. Todavia, seria longa, difícil e controversa a leitura dos documentos. Em França, André Dupont-Sommer traduziu os textos principais e levantou algumas interrogações a esse respeito. Também John Allegro, um dos especialistas dos textos, embarcou, à luz dos mesmos, na visão mítica de Jesus, negando a sua historicidade e reduzindo-o uma espécie de anestesiante cogumelo sagrado (The sacred Mushroom). De 1955 a 1956, novas escavações, sempre dirigidas pelo pe. De Vaux, acabaram por pôr a descoberto as 11 grutas de Qumran, sendo as mais importantes a 1 Q descoberta em 1947, a 4 Q em 1952, a 11 Q em 1956. Depois de algumas hesitações e divergências, é ao pe. De Vaux que se deve o sistema em vigor das siglas para a citação dos documentos de Qumran, apontando o número da gruta e a inicial de cada documento (1 QS = Serek HaYahad; 1 QM = Milhamah; 1 Q P = Pesher de Habacuc; 1 QH = Hodayot; f indica fragmento: 1 Q 35f7) ou antepondo a este o M (grutas de Murabba`at), ou pospondo o P (papiro).
Com a vitória da Guerra dos Seis Dias, que em 1966 levou Israel a tomar a faixa ocidental do Jordão e toda a zona de Qumran até Eilat ou Aqaba, começou a levantar-se uma onda de crítica à demora na leitura e publicação dos textos de Qumran, como se algum intencional atraso ou discreto secretismo favorecido pela Igreja Católica acerca das origens cristãs, quisesse encobrir a verdade dos documentos. Ao mesmo tempo, a comissão internacional tinha os seus membros a envelhecer, com Strugnel diminuído e convertido do Anglicanismo ao Cristianismo, mesmo contando com o dinamismo do epigrafista Emílio Puech do CNRS, o que favoreceu ainda mais a campanha que eu acompanhei pela revista Biblical Archaeology Review. Era preciso apressar a leitura dos textos e completa publicação dos manuscritos e é esse desafio que os cientistas ficam a dever à Universidade Brigham Young pelo seu acordo com o governo de Israel em 1983 e pelo denodo com que se atirou à tarefa, ajudada por Emmnuel Tov. Com muito trabalho, imenso esforço e paciência mais que beneditina, foi possível termos hoje a edição completa em 6 volumes dos Discoveries in the Judaean Desert pela E. J. Brill de Leiden. Os textos estão todos publicados, abertos aos estudiosos de qualquer religião, e desapareceu a maldosa tentativa de soupçon. Há manuscritos dispersos por várias instituições, mas os dois depósitos principais são o belíssimo Santuário do Livro, cuja silhueta decalca a típica tampa das jarras de Qumran junto ao Museu de Israel em Jerusalém e o Rockefeller Museum.

A singular importância dos documentos
Os conhecimentos arqueológicos e a análise do Carbono 14 permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia, dava-se um enorme salto qualitativo que permitia passar do século X da nossa era cristã para o século II antes de Cristo. Por seu lado, a descoberta de moedas, sobretudo na zona do Hirbet Qumran, sem que nenhuma se descobrisse nas grutas, permitiu uma datação muito aproximada dos factos, que se escalonam de cerca 152 a.C, até 135 d.C.. Na verdade, podemos apresentar do seguinte modo, os manuscritos em suporte de papiro, pergaminho e cobre e que conhecemos nas línguas hebraica, aramaica e grega». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Du Sabbat au Dimanche. Samuele Bacchiocchi. «As declarações de Cristo nos evangelhos não contêm a expressão ‘dia do senhor’. [...] uma locução semelhante, ‘Senhor do sábado’, uma frase usada por Cristo no fim de uma discussão com os fariseus sobre as actividades sabáticas»

jdact

«O ciclo de seis dias de trabalho e um de adoração e repouso, não obstante o legado da história dos hebreus, tem, felizmente, prevalecido através de quase todo o mundo. De facto, o culto judeu e cristão encontra a sua expressão concreta num dia, a cada semana, no qual a adoração a Deus torna-se possível e mais significativa pela interrupção das actividades seculares. Recentemente, entretanto, nossa sociedade tem sofrido muitas transformações radicais, por causa de suas realizações tecnológicas, industriais, científicas e espaciais. O homem moderno, como afirma Abraham Joshua Herschel, vive sob a tirania das coisas do espaço. A crescente disposição tempo e lazer, causados pela diminuição da jornada de trabalho, tende a alterar não apenas o ciclo de seis dias de trabalho e um de repouso, como também os valores religiosos tradicionais, e até mesmo a santificação do dia do Senhor. Por esta razão o cristão hoje é tentado a considerar o tempo como uma coisa que lhe pertence, algo que ele pode utilizar para seu próprio prazer. As obrigações de culto, se não totalmente negligenciadas, são frequentemente reduzidas e facilmente dispensadas conforme os interesses da vida. A noção bíblica do santo sábado, entendida como uma ocasião de cessar as actividades seculares a fim de experimentar as bênçãos da Criação-Redenção por meio da adoração a Deus e do trabalho desinteressado pelos necessitados está cada vez mais desaparecendo dos planos do cristão.
Consequentemente, se alguém observa a pressão que nossas instituições económicas e industriais estão exercendo para obter a utilização máxima das instalações industriais, programando turnos de trabalho que ignoram qualquer feriado, é fácil compreender que o plano a nós transmitido de uma semana de sete dias, com o seu dia de repouso e adoração, pode sofrer alterações radicais. O problema é constituído por uma geral concepção errónea do significado do santo dia de Deus. Muitos cristãos bem intencionados consideram a observância do domingo como uma hora de adoração em vez de o santo Dia do Senhor. Uma vez cumpridas suas obrigações de culto, muitos, em boa consciência, gastam o restante do domingo ganhando dinheiro ou se divertindo. Algumas pessoas, preocupadas com a profanação generalizada do dia do Senhor, estão desejando uma legislação civil que torne ilegais todas as actividades não compatíveis com o espírito do domingo. Para que esta legislação seja aceita até pelos não-cristãos, algumas vezes tem-se apelado para a necessidade de preservar os recursos naturais. Um dia de total descanso para homens e máquinas ajudaria a salvaguardar as nossas reservas de energia e o precário meio ambiente. As necessidades sociais ou ecológicas, entretanto, embora possam encorajar o descanso no domingo, dificilmente conseguirão levar a uma atitude de adoração. Não se conseguiriam melhores resultados educando nossas comunidades cristãs para que compreendessem o significado bíblico e a experiência do santo dia de Deus? Entretanto, para que isto seja possível, é indispensável, antes de tudo, articular claramente o fundamento teológico da observância do dia de repouso. Quais são as razões bíblica e histórica para a guarda do domingo? Pode este dia ser guardado como legítima substituição do sábado judaico? Pode o quarto mandamento ser corretamente invocado para proibir sua observância? Pode o domingo ser considerado como a hora de culto em vez de o santo dia de repouso do Senhor?
Para dar uma resposta a esses problemas vitais é indispensável verificar, antes de mais nada quando, onde, e por que o domingo surgiu como um dia de culto cristão. Somente após reconstruir este quadro histórico e identificar os principais factores que contribuíram para a origem do domingo, será possível prosseguir com a tarefa de reconsiderar a validade e o significado da observância do domingo.

A expressão Dia do Senhor, que primeiro aparece como uma incontestável designação cristã para o domingo próximo à parte final do segundo século, denota um dia que pertence exclusivamente ao Senhor. Já que o domingo tem sido tradicionalmente considerado por muitos cristãos como o dia do qual Cristo é Senhor e que é consagrado a Ele, podemos muito bem começar nossa pesquisa histórica da origem da observância do domingo verificando se Cristo antecipou a instituição de um novo dia de culto dedicado exclusivamente a Ele. As declarações de Cristo encontradas nos evangelhos não contêm a expressão dia do senhor. Os Sinópticos, entretanto, contêm uma locução semelhante, a saber, Senhor do sábado, uma frase usada por Cristo no fim de uma discussão com os fariseus sobre a questão de legítimas actividades sabáticas. Vários autores têm procurado estabelecer uma relação causal entre Cristo proclamar a Si mesmo Senhor do sábado e a instituição do domingo como o dia do Senhor. Mosna, por exemplo, declara enfaticamente que Cristo proclamou-Se senhor do sábado especificamente para liberar o homem das cargas cerimoniais referentes ao sábado, e que se tornaram desnecessárias. Ele vê neste pronunciamento a intenção de Cristo de instituir Seu novo dia de culto. Semelhantemente, Stott interpreta o dito de Cristo como uma implícita referência ao domingo: Ele é o Senhor do sábado e nesta expressão, citada por três dos Sinópticos, há uma referência oculta ao dia do Senhor. Ele, como Senhor, escolhe Seu próprio dia. Para verificar a validade destas conjecturas, devemos determinar a atitude básica de Cristo quanto ao sábado. Indo directo ao assunto, Cristo observou verdadeiramente o sábado ou quebrou o propositadamente? Se a última hipótese é a verdadeira então precisamos descobrir se Cristo, por suas próprias palavras e actos, planeou estabelecer os fundamentos para um novo dia de culto que eventualmente substituísse o sábado». In Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, A Historical Investigation of the Rise of Sunday Observance in Early Christianity, Du Sabbat au Dimanche, The Pontifical Gregorian University Press, Roma, 1977.

Cortesia de PUG/FHE/JDACT

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «Ficou, porém, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro. Assustado, juntou o rebanho e partiu…»


Cortesia de wikipedia

Os manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto
«Temos a honra e o privilégio de ter entre nós uma curiosa exposição sobre antiquíssimos manuscritos bíblicos e todo o contexto arqueológico em que se encontravam envolvidos. Na verdade, os Documentos de Qumrah, ou Manuscritos do Mar Morto, ou Rolos do Deserto de Judá, já que variados são os nomes para indicar a sensacional descoberta deste conjunto de documentos judaicos, fazem-nos dar o salto qualitativo e cronológico do século X d.C. para o século II a.C., da Idade Média para antes de Jesus Cristo. Na verdade, estes numerosos documentos manuscritos, mais de 800, e inumeráveis e complicados fragmentos, constituem verdadeira biblioteca. Por um lado, apresentam-nos documentos em hebraico, aramaico e grego; por outro lado, dada a importância e antiguidade dos manuscritos bíblicos, põem-nos diante do problema científico da fidelidade e veracidade do texto hebraico massorético, constituído bastante mais tarde; dão-nos ainda a conhecer o quadro ideológico judaico ao tempo do nascimento do Evangelho cristão, isto é, o ambiente vital em que o Cristianismo nasceu. Com os documentos de Qumrah, portanto, é todo um labirinto de problemas a afectar o mundo das ciências bíblicas e das origens do Cristianismo, que veio trazer algumas perturbadoras perguntas sobre a figura de João Baptista, cuja vida e pregação os Evangelhos cristãos situam no Deserto de Judá. Terá ele sido, afinal, um membro desta desaparecida comunidade, possivelmente essénica, que, ao fugir dos romanos aquando da primeira revolta judaica de 66-70, escondeu os seus preciosos manuscritos? O próprio Cristianismo é tocado pela questão do messianismo e pela hipotética identificação do Mestre de Justiça com Jesus Cristo. Terá mesmo Jesus sido influenciado pelas doutrinas dos essénios? Terá Jesus aprendido ou tirado deles alguma coisa?

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas
Um mero acaso está na origem da mais sensacional e importante descoberta de documentação hebraica. Na Primavera de 1947, um pastor da tribo beduína dos Ta`âmirah, que vagueiam com seus rebanhos ao sabor da transumância entre Belém e o Mar Morto, o Mar do Sal para os hebreus, Yam HaMmelah, encontrava-se quase na embocadura do Wâdi Qumrah, um desses muitos ribeiros secos, que atravessam o deserto de Judá. Estava preocupado e aflito pelo desaparecimento duma cabra. Olhando para a parede rochosa do Wâdi, viu um buraco e atirou uma pedra, porque talvez a cabra tivesse entrado por ali. Ficou, porém, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro. Assustado, juntou o rebanho e partiu para o acampamento, mas, ainda assim, decido a voltar com um amigo para encontrar resposta àquele ruído estranho. Muhammad ed-Di`b (Maomé o Lobo) voltou no dia seguinte com um primo, e penetraram na gruta. Descobriram, então, uma gruta com pedaços de barro partidos e 8 jarras ou ânforas intactas, 7 das quais vazias, mas dentro da oitava acharam três rolos de couro, que levaram a um antiquário de Belém para vender. Este, pensando que estavam escritas em caracteres siríacos, levou-as a Mar Atanásio, arquimandrita do mosteiro siríaco de S. Marcos de Jerusalém. Era a descoberta em 1947 da gruta nº 1 de Qumrah (1 Q). A notícia da descoberta divulgou-se e outros beduínos começaram a fazer pesquisas por conta própria, de tal modo que em Dezembro de 1947, a Universidade Hebraica de Jerusalém, por meio do arqueólogo judeu Eliezer Sukenik, que tinha intuído a antiguidade dos documentos e a sua ligação aos essénios, comprou um maço de três manuscritos, que hoje se conservam e mostram através de réplicas no Santuário do Livro em Jerusalém.
Entretanto, em Fevereiro de 1948, Mar Atanásio mostrou os 4 rolos da 1 Q à ASOR (American School of Oriental Research) para ver se os seus técnicos podiam decifrar aquela estranha escrita. Contudo, o rebentar da guerra pela independência de Israel, obrigou-o a emigrar para os Estados Unidos, levando consigo os manuscritos, onde, em seguida, por intermédias pessoas, o novo Estado de Israel os comprou por 250 mil dólares. Após o armistício da guerra Palestino-Israelita, em Julho de 1948, com a divisão da Palestina entre Israel e a Jordânia, a parte oriental da Palestina, chamada Cisjordânia, ficou integrada no Reino Hashemita da Jordânia e, logo no começo de 1949, o Departamento de Antiguidades da Jordânia, em colaboração com a École Biblique et Archéologique Française e outras instituições científicas de Jerusalém oriental, empreendeu escavações na região de Qumrah, cujas descobertas arqueológicas, desde 1947 a 1958, foram logo estudadas e publicadas. Quando em 1951 decorria a campanha associada de escavações, os beduínos trouxeram a Jerusalém mais um lote de documentos descobertos um pouco mais abaixo nas grutas de Murabba`ât, que foram datados da 2ª Guerra Judaica, entre 132-135, a revolta de Bar Kokheba (Filho da Estrela) no tempo de imperador Adriano. Há mesmo algumas cartas autografas deste chefe de rebelião, considerado um avatar messiânico ou realização messiânica da profecia de Balaão, segundo o Livro dos Números: Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo. Uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel.
Em Fevereiro de 1952, os beduínos Ta`âmirah descobriam a 2 Q com fragmentos semelhantes aos da 1 Q. Imediatamente se associaram em pesquisa arqueológica, sob a direcção do Pe. Roland De Vaux, OP, os vários organismos interessados na antiguidade (Direction des Antiquités de Jourdanie, École Biblique et Archéologique Française, American School of Oriental Research, Palestine Museum ou Rockefeller Museum). De facto, passaram a pente fino numa pesquisa arqueológica sistemática toda a região da zona rochosa ou falésia de Qumrah com uma extensão de 8 quilómetros passando por `Ain Fesha, a fonte de água potável da região, até às grutas Murabba´at. Exploraram também o sítio das ruínas das instalações de Qumrah ou antigo mosteiro de Qumrah, possivelmente sede dos essénios». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manuel Ribeiro Sanches: O médico dos «males de amor»

(1699-1783)
António Nunes Ribeiro Sanches foi um médico português e grande intelectual, considerado por muitos como um verdadeiro enciclopedista (médico, filósofo, pedagogo, historiador, etc.), escreve largas dezenas de manuscritos, sob a influência do pedagogismo no século das Luzes, dos quais apenas nove foram publicados em vida, a maioria continua nos arquivos. Na medicina, onde se distinguiu na venereologia, sendo por isso também chamado o médico dos males de amor, escreveu a pedido de D'Alembert e Diderot para a Enciclopédia. O seu nome está na primeira fila dos grandes mestres do pensamento europeu da sua época, o Marquês de Pombal vai aproveitar muito do seu saber para implementar a sua acção cultural e científica, na sua tarefa de modernização de Portugal.
Centro de estudos Judaicos/Paulo Campos/Arquivo Histórico/JDACT