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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Damião de Góis e os Mercadores de Danzig: «A carta sem data dirigida a D. João III, constituindo um memorial sobre a cunhagem de moeda, que se anunciava, foi, de todas aquelas em que Damião de Góis tratou de questões económicas. Góis comentava as desvantagens que as amoedações traziam para todos, visto que "se segue ha carestia de mantimentos e fructos da terra e asy das mercadorias naturaes como estrangeiras ...»

Cortesia de quetzal

«Sirvam também exemplos a descrição da chegada de Vasco da Gama a Calicut e da prosperidade económica da região; ou a descrição da nova terra do Brasil; ou a do comércio do Coulão. Narrando a descoberta da ilha de S. Lourenço, Damião de Góis não se esqueceu de mencionar,com todo o pormenor, as suas produções agrícolas e mineiras; e o mesmo fez quando descreveu «o sítio das terras, e senhorios que possue ho preçioso João, Emperador da Ethiopia».
Da Crónica do Príncipe D. João, citamos três exemplos onde Damião de Góis aludiu a assuntos económicos. O primeiro, quando tratou das produções das ilhas dos Açores, mencionando a exportação cerealífera para o Reino e a de pastel para a Flandres, Inglaterra, etc. O segundo, ao falar da posição estratégica de Alcácer Ceguer e da sua situação económica, vila povoada por gente do mar e por mercadores, vivendo essencialmente da indústria textil. O terceiro, quando mencionou a proibição do resgate da malagueta, gatos de argália e unicórnios, e o reenforço das medidas proibitivas da saída de ouro e prata do Reino.

Cortesia de wikipedia 
Mas foi nas cartas a D. João III que as referências de tipo económico se tornaram mais abundantes e precisas. Ainda secretário da feitoria de Antuérpia, escrevendo em 13 de Outubro de 1528, a propósito da aliança do Duque de Geldren com o rei de França contra a Flandres, acentuava terem daí resultado graves prejuízos «pryncipallmente porque as mercadorias nom podião pasar por Allemanha, França e outras partes por ter terras nas fronteiras». A paz que acabava de ser tratada entre Carlos V e Francisco I fora muito bem acolhida na Flandres, «e na verdade pera estas terras nehua cousa lhe podera mais bem fazer que ysto de que todos estam muito ledos e contentes as especyarias a causa também o sentirão porque daquy peravante terão muito melhor despacho per que poderão ir pera todas partes que he grande bem seguramente».
Veja-se, como outro exemplo, a carta que dirigiu de Antuérpia, em 2 de Julho de 1544, justificando-se por não ter partido ainda para Portugal: bem metade era preenchida com temas económicos, queixava-se de já muitas vezes ter escrito ao rei sobre os «negoceos desta terra e feytorya», sem nunca receber resposta; e era com perfeito conhecimento de causa e visão racional dos problemas económicos portugueses e mundiais, que afirmava não ser honra nem proveito do rei «mandar nenhuas especearyas fora dese reyno per sua conta, nem fazer contratos çarados, que dahy procede emriquecer toda Europa dos bens de Vossa Alteza, e eses reynos e Vossa Alteza empobrecerem». 

Cortesia de wikipedia
Defensor intransigente da liberdade de comércio, foi com manifesta alegria que felicitou o monarca pelo encerramento da feitoria da Flandres (carta de 15 de Fevereiro de 1549), aconselhando-o:
  • «e pois agora por bom e verdadeiro conselho tirou a estes reynos de todo todallas dividas de Flandres, como pessoa desinteressada digo a Vossa Alteza (...) que por modo que seja consinta se fazer contracto serrado, para o qual já muitos fazem liga, com intenção de outra vez tomarem Vossa Alteza entre talas, e o fazerem dever fora destes reinos, o que dantes devia, por que desta parte se tem toda a Europa feita rica».
A carta sem data dirigida a D. João III, constituindo um memorial sobre a cunhagem de moeda, que se anunciava, foi, de todas aquelas em que Damião de Góis tratou de questões económicas, a mais importante. Antes de entrar propriamente no assunto que se propunha abordar, Góis comentava, num exórdio, as desvantagens que as amoedações traziam, em regra, para todos, visto que «se segue ha carestia de mantimentos e fructos da terra e asy das mercadorias naturaes como estrangeiras ...». In Portugal Quinhentista (Ensaios), A. Oliveira Marques, Quetzal Editores (Referências), Lisboa 1987.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2011

Damião de Góis e os Mercadores de Danzig: «Cinco anos mais tarde, em 1554, veio a público uma das primeiras «monografias» da Lisboa quinhentista. Com perfeia propriedade de linguagem, Damião de Góis descreveu-nos o Terreiro do Trigo, dissertando um pouco sobre a situação cerealífera de Portugal no século XVI»

Cortesia de purl 

«Em cada uma destas obras se notava uma preocupação económica muito acentuada: Damião de Góis apresentava os quantitativos em ouro, dos rendimentos dos arcebispados e bispados de Península e dos principais membros da Nobreza. O seu capítulo, «Mercancias que da Espanha são levadas a outros países», era um primoroso resumo das exportações dos dois reinos peninsulares no século XVI. Na «Defesa da Espanha contra Munstero», o assunto retomava-se com todo o pormenor. Damião de Góis debatia, por exemplo, o problema da carência de trigo, que atribuía à falta de braços, causada pelas navegações de portugueses e espanhóis. Era ainda nesta mesma obra que o seu autor mencionava o tráfico das especiarias com o Oriente, discriminando também os principais produtos da ilhas do Atlântico, do Brasil e da África, objecto de comércio. A carta dirigida, a Fugger, a quem chamava «Diogo amigo» e a resposta deste, ambas incluídas no opúsculo de que tratamos, mostravam bem como Damião de Góis se achava em contacto, e em termos de quase familiaridade, com representantes da grande finança da Europa de então.

Cortesia de quetzaleditores
Em 1546, o futuro cronista publicou a sua primeira obra em Portugal:
  • uma descrição do cerco de Lovaina, onde tomara parte activa.
Deu-lhe o título latino de Vrbis lovaniensis obsidio. É fácil de compreender que o tema agora tratado nunca seria propício à exibição de conhecimentos de natureza económica. O mesmo se diga do opúsculo contendo a descrição do segundo cerco de Diu, editado em 1549:
  • De Bello Cambaico ultimo Commentaríi tres.
Cinco anos mais tarde, em 1554, veio a público uma das primeiras «monografias» da Lisboa quinhentista. Com perfeia propriedade de linguagem, Damião de Góis descreveu-nos o Terreiro do Trigo, dissertando um pouco sobre a situação cerealífera de Portugal no século XVI:
  • o mercado do peixe, cuja técnica de abastecimento era abordada; 
  • a Casa da Índia.
O problema do trigo voltava a ser focado quando o cronista passava a tratar de Santarém e de Alenquer. Não se esqueceu ele de mencionar a sua amizade com o escrivão da Casa da Índia. E só não entrou no capítulo das importações e das exportações de Lisboa por se lembrar de que tratara já esse assunto no opúsculo sobre a grandeza da Espanha, para que remeteu o leitor.

Cortesia de alenquermonumentos 
A descrição de Lisboa encerra o capítulo dos trabalhos menores de Damião de Góis, todos escritos em latim. Durante 12 anos foi o escritor recolher pacientemente os materiais com que redigiria as duas grandes obras, que o consagraram na historiografia portuguesa:
  • a Crónica de D. Manuel, impressa em 1566-67,
  • a Crónica do Princípe D. João, cuja edição «princeps» levava a data de 1567.
Seria fastidioso e demorado fazer referência a todas as passagens da Crónica de D. Manuel onde o seu autor dava provas da formação mercantil que possuía. mencionem-se apenas alguns casos mais interessantes. Assim, na parte IV, cap. XX, Damião de Góis falava de algumas cunhagens de numérico, ordenadas pelo rei Venturoso, não se esquecendo de referir o contrato realizado com Jacob Fugger para a compra de 50 000 quintais de cobre; na mesma parte, descreveu-nos as negociações entabuladas pela Senhoria de Veneza, sobre o tráfico das especiarias». In Portugal Quinhentista (Ensaios), A. Oliveira Marques, Quetzal Editores (Referências), Lisboa 1987.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

quinta-feira, 17 de março de 2011

Damião de Góis e os Mercadores de Danzig: «A formação comercial de Damião de Góis revela-se em toda a sua obra, quer se trate das crónicas ou dos opúsculos latinos, quer da correspondência numerosa que trocou durante toda a vida. Em 1541, publicou mais um trabalhinho histórico, descrevendo a Espanha: Pro Hispania adversus Munsterum defensio, em que rebatia algumas informações do célebre Sebastião Münster»

Cortesia de purl   

Os conhecimentos económicos de Damião de Góis não têm sido suficientemente realçados. De todos os seus biógrafos, apenas Marcel Bataillon foi ao ponto de «representar Damião de Góis como um agente comercial da mais alta categoria, dirigindo-se em nome de um rei a outras cabeças coroadas, aos príncipes da finança», e afirmando mesmo que «uma parte do prestígio de que gosa atem-se, não o ponhamos em dúvida, ao volume dos negócios de que trata, à riqueza do soberano a quem representa».
Na verdade, a formação comercial de Damião de Góis revela-se em toda a sua obra, quer se trate das crónicas ou dos opúsculos latinos, quer da correspondência numerosa que trocou durante toda a vida. Poucos são, realmente, os escritos de sua autoria, se exceptuarmos as cartas que dirigiu aos colegas humanistas, onde as referências a comércio ou a finanças se encontrem omissas.

Túmulo de Damião de Góis
Cortesia de alenquermonumentos 
Em 1539 saíu a público o seu opúsculo sobre o cerco de Diu. Este livrinho, dividido em duas partes, narrava na primeira, sob a forma de carta dirigida ao cardeal Bembo, os feitos militares dos portugueses; na segunda, endereçada a Paulo Jóvio, defendia os direitos de Portugal na Índia e rebatia as informações menos verdadeiras que se tinham, na Europa, sobre o império português. Nesta segunda parte, o problema económico do nosso domínio no oriente e a concorrência feita aos italianos eram demorada e magistralmente  analisados. O tráfico das especiarias, a acusação de Portugal vender pimenta deteriorada, o lado económico da expansão, o aspecto deficitário de muitas das viagens ao Oriente, tudo Damião de Góis, referia com conhecimentos técnicos, só próprios de alguém que com as práticas comerciais estivesse familiarizado. 

Cortesia de arquimedeslivros
Nos dois pequenos trabalhos, editados em 1540, o primeiro sobre a religião e os costumes dos Etíopes, o segundo sobre a Lapónia, não está tão patente a formação comercial do autor, até pela natureza dos assuntos tratados. Não obstante, havia entre as suas páginas alguns informes sobre matéria económica (geografia comercial da Etiópia, por exemplo).
Em 1541, Damião de Góis publicou mais um trabalhinho histórico, descrevendo a Espanha: Pro Hispania adversus Munsterum defensio, em que rebatia algumas informações do célebre Sebastião Münster. No ano seguinte, endereçava a Hans Jacob Fugger, sobrinho do grande financeiro Anton Fugger, uma nova defesa da Espanha: Pro defensione Hispaniae. Os dois opúsculos foram conjuntamente publicados em 1572». In Portugal Quinhentista (Ensaios), A. Oliveira Marques, Quetzal Editores (Referências), Lisboa 1987.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT