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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Poesia. Cesário Verde. «Batem carros de aluguer, ao fundo, levando à via-férrea os que se vão. Felizes!»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Sentimento dum Ocidental

I
Avé-Maria
«Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão.
Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II
Noite Fechada
Toca-se às grades, nas cadeias.
Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III
Ao Gás
E saio. A noite pesa, esmaga.
Nos Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

<>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

IV
Horas Mortas
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!»

In Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde (1873-1886), Typografia Elzeviriana, Lisboa, 1887, Biblioteca Nacional de Lisboa.

Cortesia da BNdeLisboa/JDACT

domingo, 9 de março de 2014

Trompete. Jazz. Hugo Alves. Poesia. «E, afastados da aldeia e dos casais, eu contigo, abraçado como as heras, escondidos nas ondas dos trigais, devolvia-te os beijos que me deras; quando, se havia lama no caminho, eu te levava ao colo sobre a greda, e o teu corpo nevado como arminho pesava menos que um papel de seda...»

jdact

Setentrional
Talvez já te esquecesses, ó bonina,
que viveste no campo só comigo,
que te osculei a boca purpurina,
e que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste comigo da Babel,
mulher como não há nem na Circássia,
que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
e regámos com prantos uma acácia.

Talvez já te não lembres com desgosto
daquelas brancas noites de mistério,
em que a Lua sorria no teu rosto
e nas lajes campais do cemitério.

Quando, à brisa outoniça, como um manto,
os teus cabelos de âmbar, desmanchados,
se prendiam nas folhas dum acanto,
ou nos bicos agrestes dos silvados.


E eu ia desprendê-los, como um pajem
que a cauda solevasse aos teus vestidos,
e ouvia murmurar à doce aragem
uns delírios de amor, entristecidos.

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
pousarem borboletas doudejantes
nas tuas formosíssimas madeixas,
daquela cor das messes lourejantes.

E no pomar, nós dois, ombro com ombro,
caminhávamos sós e de mãos dadas,
beijando os nossos rostos sem assombro,
e colorindo as faces desbotadas;
[…]
Poema de Cesário Verde, in ‘Poesias Dispersas’

JDACT

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Jazz. Clairdee. «E eu vou acompanhando-a, corcovado, no trottoir, como um doido, em convulsões, febril, de colarinho amarrotado, desejado o lugar dos seus truões, sinistro e mal trajado. Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário e desvendar a vida, o mundo, o gozo, como um velho filósofo lendário»

Cortesia de wikipedia


Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
em sedas multicores.

Deita-se com langor no azul celeste
do seu landau forrado de cetim;
e os seus negros corcéis que a espuma veste,
sobem a trote a rua do Alecrim,
velozes como a peste.


É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
se a vissem ficariam ofuscadas
tem a altivez magnética e o bem-tom
das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
e as mãos, que o Jock Club embalsamou,
entre peles de tigres as regala;
de tigres que por ela apunhalou,
um amante, em Bengala.


É ducalmente esplêndida! A carruagem
vai agora subindo devagar;
ela, no brilhantismo da equipagem,
ela, de olhos cerrados, a cismar
atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
e a doce brisa dá-lhes de través
nas capas de borracha esbranquiçada,
nos chapéus com reseta, e nas librés
de forma aprimorada.


E daria, contente e voluntário,
a minha independência e o meu porvir,
para ser, eu poeta solitário,
para ser, ó princesa sem sorrir,
teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
preferiria ir, fardado, aí,
ostentando galões de velha prata,
e de costas voltadas para ti,
formosa aristocrata!

Poema de Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’


JDACT

domingo, 9 de setembro de 2012

Poesia. O Livro de Cesário Verde. «Ou domina, a rezar, no pavimento da capela onde outrora se ouvia missa, a música dulcíssima do vento e o sussurro do mar, que se espreguiça. Pudesse eu ser o mar e os meus desejos eram ir borrifar-lhe os pés com beijos»


Cortesia de auladeliteraturaportuguesa

Responso (continuação)
E ela vaga nas praias rumorosas,
triste como as rainhas destronadas,
a contemplar as gôndolas airosas,
que passam, a giorno iluminadas.
Pudesse eu ser o rude gondoleíro
e ali é que fizera o meu cruzeiro.

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
murmurando palavras aflitivas,
vagueia nas umbrosas alamedas
e acarinha, de leve, as sensitivas.
Fosse eu aquelas árvores frondosas,
e prendera-lhe as roupas vaporosas.

Ou domina, a rezar, no pavimento
da capela onde outrora se ouvia missa,
a música dulcíssima do vento
e o sussurro do mar, que se espreguiça.
Pudesse eu ser o mar e os meus desejos
eram ir borrifar-lhe os pés com beijos.

E às horas do crepúsculo saudosas,
nos parques com tapetes cultivados,
quando ela passa curvam-se amorosas
as estátuas dos seus antepassados.
Fosse eu também granito e a minha vida
era vê-la a chorar arrependida.

Cortesia de bnp

No palácio isolado como um monge
erram as velhas almas dos precitos,
e nas noites de Inverno ouvem-se ao longe
os lamentos dos náufragos aflitos.
Pudesse eu ter também uma procela
e as lentas agonias ao pé dela.

E às lajes, no silêncio dos mosteiros,
ela conta o seu drama negregado,
e o vasto carmesim dos reposteiros
ondula como um mar ensanguentado.
Fossem aquelas mil tapeçarias
nossas mortalhas quentes e sombrias.

E assim passa, chorando, as noites belas,
sonhando uns tristes sonhos doloridos,
e a reflectir nas góticas janelas
as estrelas dos céus desconhecidos.
Pudesse eu ir sonhar também contigo
e ter as mesmas pedras no jazigo.

Mergulha-se em angústias lacrimosas
nos ermos dum castelo abandonado,
e as próximas florestas tenebrosas
repercutem um choro amargurado,
Uníssemos, nós dois, as nossas covas,
ó doce castelã das minhas trovas!

In Cesário Verde, ‘O livro de Cesário Verde, Março, 1874’.

JDACT

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poesia. O Livro de Cesário Verde. «Fosse eu aquelas aves de pilhagem, e cercara-lhe a fronte, em homenagem»

Lisboa no século XIX
Cortesias de geopedrados e auladeliteraturaportuguesa

Responso
Num castelo deserto e solitário,
toda de preto, às horas silenciosas,
envolve-se nas pregas dum sudário
e chora como as grandes criminosas.

Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas
em que ela esconde as lágrimas singelas.

É loura como as doces escocesas,
duma beleza ideal, quase indecisa;
circunda-se de luto e de tristezas
e excede a melancólica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados
e havia de escutar-lhe os seus pecados.

Alta noite, os planetas argentados
deslizam um olhar macio e vago
nos seus olhos de pranto marejados
e nas águas mansíssimos do lago.

Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna,
E faria que a noite fosse eterna.

E os abutres e os corvos fazem giros
de roda das ameias e dos pegos,
e nas salas rossoam uns suspiros
dolentes como as súplicas dos cegos.

Fosse eu aquelas aves de pilhagem,
e cercara-lhe a fronte, em homenagem.
Poema de Césário Verde, in «O Livro de Cesário Verde»

JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Hoje, só Poesia. Cesário Verde. «Deita-se com langor no azul celeste do seu landau forrado de cetim; e os seus negros corcéis que a espuma veste, sobem a trote a rua do Alecrim…»

Cortesia de wikipedia 

Esplêndida
Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E os seus negros corcéis que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
Se a vissem ficariam ofuscadas
Tem a altivez magnética e o bem-tom
Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
E as mãos, que o Jock Club embalsamou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar
Atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com reseta, e nas librés
De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado,
No trottoir, como um doido, em convulsões,
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejado o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!


Eu e Ela
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...
Poemas de Cesário Verde, in «O Livro de Cesário Verde»

JDACT

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Bela Poesia. O Livro de Cesário Verde. Crise Romanesca. «...Que viveste no campo só comigo, que te osculei a boca purpurina, e que fui o teu sol e o teu abrigo»


Cortesia de bnp

Setentrional
Talvez já te esquecesses, ó bonina,
Que viveste no campo só comigo,
Que te osculei a boca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste comigo da Babel,
Mulher como não há nem na Circássia,
Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
E regámos com prantos uma acácia.

Talvez já te não lembres com desgosto
Daquelas brancas noites de mistério,
Em que a Lua sorria no teu rosto
E nas lajes campais do cemitério.

Quando, à brisa outoniça, como um manto,
Os teus cabelos de âmbar, desmanchados,
Se prendiam nas folhas dum acanto,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,
 
E eu ia desprendê-los, como um pajem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos,
E ouvia murmurar à doce aragem
Uns delírios de amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borboletas doudejantes
Nas tuas formosíssimas madeixas,
Daquela cor das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, ombro com ombro,
Caminhávamos sós e de mãos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer de aurora, unidos ambos
Num amor grande como um mar sem praias
Ouvíamos os meigos ditirambos,
Que os rouxinóis teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casais,
Eu contigo, abraçado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigais,
Devolvia-te os beijos que me deras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao colo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como arminho
Pesava menos que um papel de seda...

E foste sepultar-te, ó serafim,
No claustro das Fiéis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo tão calado como a Morte
Nesta velha cidade tão sombria,
Chorando aflitamente a minha sorte
E prelibando o cálix da agonia.

E, tristíssima Helena, com verdade,
Se pudera na terra achar suplícios,
Eu também me faria gordo frade
Eu cobriria a carne de cilícios.
Cesário Verde, in «O Livro de Cesário Verde».
 
Cortesia de bnp

JDACT

domingo, 17 de julho de 2011

A Bela Poesia. O Livro de Cesário Verde. «Em si tudo me atrai como um tesoiro: o seu ar pensativo e senhoril, a sua voz que tem um timbre de oiro e o seu nevado e lúcido perfil!»


Cortesia de poemargens e alfobre 

Deslumbramentos
«Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e anormal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas! ...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina ...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérfula e feminina,
E tão alta e serena como a Morte! ..

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar:
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais,
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!»
Cesário Verde, in «O Livro de Cesário Verde».

JDACT