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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Mulheres. Charles Bukowski. «Desculpa, respondeu. Eu compreendo. Lisa levantou os olhos para mim, as lágrimas corriam. A Lisa não deixa que aconteça nada de mau à sua mamã, disse Lydia»

jdact e wikipedia

«(…) Lydia sentou-se silenciosa e pôs-se a trabalhar no barro. Depois pousou o instrumento. Dirigiu-se para o canto da cozinha, ao pé da porta das traseiras. Vi-a inclinar-se para tirar os sapatos. Depois tirou os jeans e as cuequinhas. A sua co… estava ali e olhava para mim. Está bem, meu sacana, disse. Vou mostrar-te como estás enganado.
Tirei os sapatos, as calças e as cuecas. Ajoelhei-me sobre o chão de linóleo, e deitei-me em cima dela. Comecei a beijá-la. Entesei-me rapidamente e senti que a penetrava. Comecei a f…, um, dois, três... Alguém bateu à porta da entrada. Era um bater de criança de pequenos punhos, enérgicos e persistentes. Lydia empurrou-me imediatamente. É Lisa! Ela hoje não foi à escola! Estava em... Lydia pôs-se em pé e começou a vestir-se. Veste-te!, disse-me. Vesti-me o mais rápido possível. Lydia dirigiu-se para a porta e a sua filha de cinco anos lá estava: mamã! Mamã! Mamã! Cortei-me no dedo! Eu passeava-me na sala da frente. Lydia sentou Lisa sobre os seus joelhos. Oooo, deixa a mamã ver. Oooo, deixa a mamã beijar o dedo. A mamã vai pô-lo bom! Mamã, ele dói! Eu olhei para o golpe. Era quase invisível. Olha, dirigi-me por fim a Lydia, vejo-te amanhã. Desculpa, respondeu. Eu compreendo. Lisa levantou os olhos para mim, as lágrimas corriam. A Lisa não deixa que aconteça nada de mau à sua mamã, disse Lydia.
Abri a porta, fechei-a e encaminhei-me para o meu Mercury Comet de 1962. Por essa altura eu editava uma pequena revista, The Laxative Approach. Tinha dois co-editores e havia a sensação de estarmos a publicar os melhores poetas do nosso tempo. Mas também alguns menos bons. Um dos editores, Keneth Mulloch (preto), tinha desistido do liceu, media um metro e oitenta e cinco, e era sustentado pela mãe e pela irmã. O outro editor era Sammy Levinson (judeu), vinte e sete anos, que vivia com os seus pais e era sustentado por eles.

Já estava tudo impresso. Agora, faltava colar e grampear as folhas nas capas. O que você tem que fazer, disse Sammy, é dar uma Festa da Colagem. Você entra com as bebidas e umas merd…, p’ra comer e eles fazem o trabalho. Detesto festa, disse eu. Eu encarrego-me dos convites, falou Sammy. Tudo bem, disse eu. E convidei Lydia. Na noite da festa, Sammy apareceu com as folhas já coladas. Ele era do tipo nervoso, tinha um tique de cabeça; não foi capaz de esperar p’ra ver os seus poemas impressos. Colou sozinho a Abordagem Laxativa e depois grampeou as capas. Ninguém achou Kenneth Mulloch, provavelmente estava na prisão ou sendo procurado. O pessoal chegou. Eu não conhecia quase ninguém. Fui até ao apartamento da senhoria nos fundos do condomínio. Ela me atendeu na porta. Estou dando uma grande festa, senhora O’Keefe. Gostaria que a senhora e seu marido viessem. Tem muita cerveja e salgadinhos. Deus do céu, não é possível! Que foi? Eu vi esse grupo entrando aí. Aquelas barbas e aqueles cabelões e aquelas roupas remendadas! Pulseiras e colares..., parecem um bando de comunistas! Como é que aguenta aquela gente? Eu também não aguento aquela gente, senhora O’Keefe. Só estamos bebendo cerveja e conversando. Nada mais. Fique de olho neles. Essa corja é capaz até de roubar o encanamento. E fechou a porta.
Lydia chegou tarde. Passou pela porta como uma actriz. A primeira coisa que eu reparei foi o seu chapelão de cowboy com uma pluma de alfazema espetada do lado. Não falou comigo. Foi logo se sentar ao lado de um rapaz empregado da livraria, e começou a conversar animadamente com ele. Eu comecei a beber mais e o meu papo perdeu um pouco de pique e humor. O empregado da livraria era um tipo bem-apanhado que pretendia virar escritor». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Editora dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.
                                                   
Cortesia de EdomQuixote/JDACT

domingo, 26 de agosto de 2018

Mulheres. Charles Bukowski. «Numa manhã, alguns dias mais tarde, entrei no pátio de Lydia no momento em que ela chegava, vinda do jardim. Tinha ido visitar a sua amiga Tina, que vivia num apartamento ao fundo da rua»

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«(…) Quando se levantou para se dirigir ao frigorífico, segui-a. Tirou uma garrafa e fechou a porta. Virou-se para mim, enlacei-a pela cintura e puxei-a. Colei a minha boca e o meu corpo contra ela. Segurava a garrafa de cerveja com o braço estendido. Beijei-a. Voltei a beijá- la. Lydia empurrou-me. Está bem», disse ela, chega. Temos trabalho a fazer. Voltámos a sentar-nos e bebi a minha cerveja, enquanto Lydia fumava um cigarro. O barro continuava entre nós. A campainha da porta soou. Lydia levantou-se. Uma mulher gorda com olhos loucos, suplicantes, entrou. Esta é a minha irmã, Glendoline. Olá. Glendoline puxou por uma cadeira e começou a falar. Sabia falar. Teria falado mesmo que fosse uma esfinge, mesmo que fosse uma pedra. Eu perguntava-me quando é que ela se cansaria e se decidiria a partir. Mesmo depois de ter renunciado a ouvi- la, tinha a impressão de estar a ser bombardeado por pequenas bolas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção de tempo nem a menor ideia de que poderia estar a mais. Falava ininterruptamente. Ouve, acabei por dizer, quando é que te vais embora? Depois teve início o número das irmãs. Começaram a falar uma com a outra. Estavam ambas em pé e agitavam os braços. As vozes subiram de tom. Elas ameaçavam-se mutuamente com violência física. Finalmente, perto do fim do mundo, Glendoline efectuou uma espectacular rotação do torso, lançou-se para a saída, batendo com a porta de rede, e desapareceu, mas ouviam-se ainda as suas lamúrias sonoras, em direcção ao seu apartamento no fundo do pátio, aquele que desacertava com o outro, agradava-me. Lydia e eu regressámos para o canto da cozinha e sentámo-nos. Ela apanhou o seu instrumento de esculpir. Os seus olhos mergulharam nos meus.

Numa manhã, alguns dias mais tarde, entrei no pátio de Lydia no momento em que ela chegava, vinda do jardim. Tinha ido visitar a sua amiga Tina, que vivia num apartamento ao fundo da rua. Nessa manhã parecia eléctrica, um pouco como da primeira vez que estivera em minha casa com a laranja. Oh, disse, tens uma camisa nova! Era verdade. Comprara a camisa porque tinha pensado em Lydia e desejava estar com ela. Eu sabia que ela tinha consciência disso e me estava a gozar, mas não me importava. Lydia abriu a porta e entrámos. O barro estava pousado no centro da mesa da cozinha sob um pano húmido. Puxou o pano. O que é que achas? Lydia não me tinha poupado. As cicatrizes lá estavam, o nariz de alcoólico, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas, e lá estava também o sorriso estúpido, contente e ridículo de um homem feliz sem saber porquê. Ela tinha trinta anos e eu mais de cinquenta. Não me importava. Sim, disse eu, apanhaste-me em cheio. Gosto. Parece quase acabado. Vou ficar deprimido quando estiver feito. Passámos manhãs e tardes soberbas.
Isto interferiu com a tua escrita? Não, só escrevo à noite. Nunca consegui escrever de dia. Lydia agarrou no instrumento de esculpir e olhou para mim. Não te preocupes. Tenho muito mais trabalho a fazer. Quero que isto fique bem. No seu primeiro intervalo, foi buscar uma garrafa de whisky ao frigorífico. Ah, disse eu. Como queres?, perguntou-me, levantando um grande copo. Metade, metade. Preparou a bebida e bebi num só trago. Ouvi falar de ti, disse-me. Sobre quê? Sobre o modo como corres com tipos da tua porta. E que bates nas tuas mulheres. Que bato nas minhas mulheres? Sim, disseram-me. Agarrei-me à Lydia e perdemo-nos no mais longo beijo de sempre. Segurei-a de encontro ao rebordo do lava-loiças e comecei a roçar o meu ca… nela. Ela afastou-me, mas apanhei-a de novo a meio da cozinha. A mão de Lydia alcançou a minha e levou-a para dentro das suas cuecas. A ponta de um dos dedos sentiu o alto da sua … Estava molhada. Enquanto continuava a beijá-la, enfiava- lhe o dedo dentro da … Depois tirei a mão, afastei-me, agarrei na garrafa e servi-me doutra bebida. Sentei-me à mesa da cozinha, Lydia deu a volta, e sentou-se do outro lado, olhando para mim. Depois pôs-se de novo a trabalhar no barro. Eu bebia devagar o meu whisky. Escuta, disse eu, sei qual é o teu problema. O quê? Sei qual é o teu problema. O que é que queres dizer? Olha, disse eu, esquece. Eu quero saber. Não te quero ferir. Raios, quero saber do que estás a falar. Ok, dir-te-ei se me deres outro copo. Está bem. Lydia pegou no meu copo vazio e encheu-o com metade de whisky e metade de água. Bebi-o, de novo, de um só trago. Então?, perguntou-me. Ora bolas, tu sabes. Sei o quê? Que tens uma grande … O quê? Não é nada de excepcional. Tiveste duas crianças». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Editora dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.
                                                   
Cortesia de EdomQuixote/JDACT

Mulheres. Charles Bukowski. «Não, não sei. Pois bem, eu acho que é uma pena dos diabos que um homem que escreve tão bem como tu não saiba nada de nada sobre mulheres»

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«(…) Peter correu para a porta. Parou e voltou-se. Está bem, Chinaski! Mas não te esqueças do que eu te trouxe! Bateu com a porta e lá se foi. Lydia sentou-se no sofá, ao pé da porta. Eu estava sentado a cerca de trinta centímetros dela. Olhei-a. Ela estava maravilhosa. Eu tinha medo. Estendi o braço para tocar os seus longos cabelos. O seu cabelo era mágico. Retirei a mão. Todos esses cabelos são mesmo teus?, perguntei-lhe. Eu sabia que eram. Sim, disse ela, são meus. Pus a mão sob o seu queixo, e muito desajeitadamente tentei virar a sua cara para a minha. Nestas situações nunca me sentia seguro. Beijei-a ao de leve. Lydia saltou. Tenho de me ir embora. Estou a pagar a uma baby sitter. Ouve, disse eu, fica. Pagarei eu. Fica mais um pouco. Não, não posso. Tenho que me ir embora. Dirigiu-se para a porta. Eu segui-a. Abriu a porta. Depois voltou-se. Pela última vez estendi-lhe o braço. Ela ergueu o seu rosto e deu-me um beijo fugaz. Em seguida afastou-se e depôs-me na mão algumas folhas dactilografadas. A porta fechou-se. Sentei-me no sofá com as folhas na mão e ouvi o seu carro arrancar. Os poemas estavam agrafados, fotocopiados e intitulavam-se elllla. Li alguns. Eram interessantes, cheios de humor e sexualidade, mas mal escritos. Eram assinados por Lydia e as suas três irmãs, todas elas jocosas, corajosas e sexy. Atirei as folhas e abri a minha garrafa de whisky. Lá fora estava escuro. A rádio difundia sobretudo Mozart, Brahms e Beethoven.
No dia seguinte ou pouco depois, recebi pelo correio um poema de Lydia. Era um longo poema e começava assim:

Sai, velho anão,
Sai do teu escuro buraco, velho anão
Sai connosco para a luz do sol e
Deixa-nos pôr margaridas nos teus cabelos...

O poema continuava, e dizia como me sentiria bem a dançar nos prados com pardas criaturas fêmeas, que me trariam a alegria e o verdadeiro conhecimento. Arrumei a carta na gaveta da cómoda. No outro dia, de manhã, fui acordado por alguém que batia no vidro da minha porta de entrada. Eram dez e trinta. Vá-se embora, disse eu. E a Lydia. Está bem. Espera um minuto. Vesti uma camisa e umas calças antes de abrir a porta. Depois corri para a casa-de-banho e vomitei. Tentei lavar os dentes mas não consegui senão vomitar mais, o adocicado do dentífrico revolveu-me o estômago. Saí. Estás doente, disse Lydia. Queres que me vá embora? Oh, não, estou bem. Acordo sempre neste estado. Lydia parecia estar bem. A luz filtrada pelas cortinas iluminava-a. Ela tinha uma laranja na mão e lançava-a ao ar. A laranja rodopiava na luz da manhã. Não posso ficar» disse ela, mas quero pedir-te uma coisa. Diz lá. Sou escultora. Gostava de esculpir a tua cabeça. Está bem. Terás de ir a minha casa. Não tenho estúdio. Teremos de fazer isso em minha casa. Isso não te aborrece, pois não? Não.
Anotei a sua morada e instruções sobre como lá chegar. Tenta lá estar pelas onze da manhã. As crianças chegam da escola a meio da tarde e distraem-nos. Lá estarei às onze, respondi- lhe. Eu estava sentado em frente de Lydia, ao canto da cozinha. Entre nós estava um pequeno monte de barro. Ela começou a fazer perguntas. Os teus pais ainda estão vivos? Não. Gostas de Los Angeles? É a minha cidade preferida. Porque escreves dessa maneira sobre mulheres? De que maneira? Tu sabes. Não, não sei. Pois bem, eu acho que é uma pena dos diabos que um homem que escreve tão bem como tu não saiba nada de nada sobre mulheres. Eu não respondi.
Ó diabo! O que é que a Lisa fez com...? Ela pôs-se a vasculhar a sala. Oh, estas meninas que brincam a esconder os instrumentos da mãe! Lydia encontrou outro. Vou-me desenrascar com isto. Não te mexas agora, descontrai- te mas fica quieto. Eu estava sentado em frente dela. Ela trabalhava o monte de barro com um instrumento de madeira que terminava num anel de arame. Eu observava-a. Os seus olhos olhavam para mim. Eram grandes, de um castanho escuro. Mesmo o seu olho deficiente, aquele que desacertava com o outro, agradava-me. Eu retribuía- lhe o olhar. Lydia trabalhava. O tempo passava. Eu estava em transe. Então ela disse: que tal uma pausa? Queres uma cerveja?. Óptimo. Sim». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Editora dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

domingo, 4 de setembro de 2016

Mulheres. Charles Bukowski. «Acabei a segunda parte da leitura e esqueci Lydia exactamente como me esquecia das mulheres com que me cruzava na rua. Recolhi o meu dinheiro, escrevi em alguns guardanapos, alguns bocados de papel e depois fui de carro para casa»

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«Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Mastur… regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher, mesmo em termos não sexuais, estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35 anos, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era doze anos mais nova do que eu. Acredito também que ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi... Não sei quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi há cerca de seis anos, tinha eu acabado de abandonar um emprego de doze anos como funcionário dos correios, e tentava tornar-me escritor. Estava mais aterrorizado e bêbedo do que nunca. Debatia-me com o meu primeiro romance. Todas as noites, enquanto escrevia, esvaziava meia garrafa de whisky e duas embalagens de seis cervejas. Fumava cigarros baratos e escrevia à máquina, bebia e ouvia música clássica pela rádio até amanhecer. Impus-me um objectivo de dez páginas por noite, mas nunca sabia até ao dia seguinte quantas tinha escrito. De manhã levantava-me, vomitava, dirigia-me para a sala da frente e olhava para o sofá para ver quantas lá estavam. Excedia sempre as minhas dez. Por vezes eram 17,18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite teria de ser limpo ou deitado fora. Para escrever o meu primeiro romance levei vinte e uma noites.
Os donos da casa onde então vivia, e que moravam nas traseiras, pensavam que eu era maluco. Quando acordava de manhã, estava um grande saco de papel castanho à porta. O conteúdo variava algumas vezes, mas habitualmente era tomates, rabanetes, laranjas, cebolas verdes, latas de sopa, cebolas vermelhas. De vez em quando eu bebia cerveja com eles até às 4 ou 5 da manhã. Habitualmente o velho desaparecia, e eu e a velha aproveitávamos para nos darmos as mãos, e às vezes até a beijava. À porta, dava-lhe sempre um grande beijo. Ela era terrivelmente enrugada, mas nada podia contra isso. Era católica e ficava muito gira quando punha o seu chapéu cor-de-rosa para ir à igreja ao domingo de manhã. Penso que encontrei Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Kenmore Avenue, The Drawbridge. Estava, mais uma vez, aterrorizado. Vaidoso, mas aterrorizado. Quando entrei só havia lugares em pé. Peter, que se ocupava da livraria e vivia com uma preta, tinha uma pilha de notas à sua frente. Mer…, pensei, se eu conseguisse juntar sempre assim tantas, teria dinheiro suficiente para fazer outra viagem à Índia! Entrei e eles começaram a aplaudir. No que diz respeito à leitura de poesia, ia de facto ser de arromba. Eu li durante meia hora e fiz um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir no escuro os olhos presos em mim. Vieram algumas pessoas falar comigo. Depois, no momento em que eu estava mais livre, Lydia Vance aproximou-se. Eu bebia cerveja sentado a uma mesa. Ela pousou as duas mãos no rebordo da mesa, inclinou-se e olhou para mim. Tinha longos cabelos castanhos, na verdade muito compridos, um nariz proeminente e era estrábica. Mas desprendia vitalidade, sabia-se que ela estava ali. Eu sentia passarem vibrações entre nós. Algumas eram confusas e não muito boas, mas estavam ali. Ela olhou-me e eu devolvi- lhe o olhar. Lydia Vance usava um casaco de cowgirl em camurça, com uma franja à volta do pescoço. O seu peito era mesmo bom. Eu disse- lhe: gostaria de arrancar essa franja do seu casaco podíamos começar por aí!. Lydia afastou-se. Não tinha pegado. Eu nunca sabia o que dizer às mulheres. Mas ela tinha cá um traseiro. O fundo das suas calças de ganga moldavam-no na perfeição, e eu continuava a fixá-lo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte da leitura e esqueci Lydia exactamente como me esquecia das mulheres com que me cruzava na rua. Recolhi o meu dinheiro, escrevi em alguns guardanapos, alguns bocados de papel e depois fui de carro para casa. Nessa altura ainda passava noites a trabalhar no meu romance. Nunca começava a trabalhar antes das 6 e 18 da tarde. Dantes, a essa hora, estava eu a carimbar e a selar no terminal dos Correios. Eram 6 horas da tarde quando Peter e Lydia Vance chegaram. Abri a porta. Peter disse: olha, Henry, olha o que eu te trouxe. Lydia saltou para a mesa de café! As suas calças de ganga moldavam-na mais do que nunca. Ela sacudia para a esquerda e para a direita os seus longos cabelos castanhos. Era louca; era milagrosa. Pela primeira vez pus seriamente a hipótese de fazer amor com ela. Pôs-se a recitar poemas. Era muito mau. Peter tentou pará-la: não! Não! Nada de poesia rimada na casa de Henry Chinaski!. Deixa-a continuar, Peter! Eu queria olhar para as suas nádegas. Ela fazia trepidar a velha mesa de café. Depois dançou. Agitava os braços. A poesia era péssima, mas não o corpo nem a sua loucura. Lydia saltou para o chão. Gostaste, Henry? De quê? Da poesia. Não muito. Lydia ficou imóvel com os poemas na mão. Peter agarrou-a. Vamos f…!, disse-lhe. Anda, vamos f…! Ela repeliu-o. Está bem, disse Peter. Se assim é, vou-me embora! Então vai. Eu tenho o meu carro, disse Lydia. Posso ir para casa sozinha». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Publicações dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2011

Há dias assim... Dia Mundial da Poesia: Charles Bukowski. «...A tua vida é a tua vida. Memoriza-o enquanto a tens. És magnífico. Os deuses esperam por se deliciarem em ti»

Cortesia de literaturaemfoco 

O Coração que Ri
A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.
Charles Bukowski

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