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sábado, 6 de junho de 2020

Indiscreto. Charles Dubow. «Ele leva a mão até ao seio dela, e ela deixa. Gosta da maneira como ele a toca e do cheiro que ele tem. Couro e areia. Do facto de ele ser britânico»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eles entram por uma rua de cascalhos ladeada por mudas recém-plantadas. Nem posso dizer-lhe quanto tempo demorou para conseguir deixar esse lugar pronto, diz Clive. Quase estrangulei o meu empreiteiro quando ele me disse que não ficaria pronto antes do Memorial Day. Só conseguiram terminar a piscina na semana passada. Dá para imaginar? Eu a comprei há mais de um ano. Algumas pessoas não têm a menor noção de respeito. Eles estacionam em frente à casa. O lugar é moderno e branco. Há vários carros estacionados logo à frente. Um Range Rover e dois Mercedes. Ela nunca viu um relvado tão verde em toda a sua vida! Levando a mochila de Claire, Clive a conduz pela porta até uma sala ampla, escura e com o pé-direito alto. Uma lareira domina uma das paredes, e uma pintura moderna cobre a outra. Ela reconhece o artista. Esteve numa das suas exposições naquela primavera. Gosta dela?, pergunta. Não é exactamente uma das minhas paixões. Não sei quase nada sobre arte. Mas meu decorador disse que eu precisava de uma pintura enorme nessa parede, e eu decidi comprá-la.
O tecto deve estar a uns dez metros de altura. Quase não há mobília, apenas um longo sofá de couro branco e várias caixas de papelão empilhadas no canto.
O restante deve chegar na semana que vem, diz ele. Basicamente, estamos acampando agora. Vamos lá, deixe-me mostrar a casa. Ele coloca a mochila dela no chão e a conduz pela casa, mostrando-lhe a sala de jantar, a cozinha, a sala de televisão e uma sala de jogos completa com mesas de bilhar, pebolim, pingue-pongue e uma máquina de fliperama. Em cada sala uma televisão grande de tela plana. É a típica casa de um homem, comenta, sabendo o que ele quer ouvir. Nem se incomodou em mobiliar a sua casa nova, mas já está com todos os brinquedos instalados. Ele ri, sentindo-se lisonjeado. Vou-lhe mostrar o quarto onde vai ficar. Eles voltam pelo caminho por onde vieram e ele leva a mala dela até um enorme quarto de casal, onde a cama está desarrumada, sapatos jogados pelo chão, roupas colocadas sobre o encosto de uma cadeira e um notebook sobre a escrivaninha, com o navegador aberto no site de
notícias da Bloomberg. Revistas e telefones móveis estão espalhados por cima da mesinha de cabeceira. Sobre a cómoda há uma foto de Clive posando com esquis e outra com uma mulher jovem, no que parece ser um barco à vela. Sem olhar de perto, Claire percebe que ela está com os seios à mostra.
Desculpe, está meio bagunçado. Não consegui arrumar o lugar. Espero que não se importe. Como se não esperasse que ela respondesse, ele vira-se e beija-a. Estou muito feliz por ter vindo. Eu também, responde, retribuindo o beijo. Ela precisa ir à casa de banho. A viagem de comboio foi longa, e ela sofre os efeitos do calor e do desconforto. Ele leva a mão até ao seio dela, e ela deixa. Gosta da maneira como ele a toca e do cheiro que ele tem. Couro e areia. Do facto de ele ser britânico. É como ser violentada por um duque regente do século XVIII. Ela sente a mão entrar por baixo da sua camisa e os mamilos se enrijecerem. Não se quer afastar, e decide que pode esperar. Não vai demorar. Ele nem se preocupou em tirar a sua camisa ou a dela. A cueca ficou junto de um dos seus calcanhares, e ela está sentada na cama enquanto ele lava o rosto no lavatório.
Acabámos de inaugurar o quarto, diz, ainda lá dentro. Insatisfeita, ela olha para as suas pernas nuas e os pelos púbicos negros, sentindo-se um pouco tola. Ele volta para o quarto. Bem, que tal irmos encontrar os outros? Só um momento. Ela vai até à casa de banho, levando a sua roupa íntima e o short. A princípio, não parecia haver qualquer motivo para vesti-los. A casa de banho é grande e revestida em mármore. As toalhas, decadentemente macias. Há duas pias, um bidé, um chuveiro com vários esguichos de aço brilhante, que provavelmente custou o equivalente a um mês do seu salário. Há outro aparelho de televisão escondido atrás do espelho. Ela joga água no rosto e pensa que seria melhor ter trazido a sua própria necessaire com objectos de uso pessoal. Não trouxe a sua escova de cabelo nem o batom». In Charles Dubow, Indiscreto, 2013, Companhia Editora Nacional, 2013, ISBN 978-850-401-867-7.

Cortesia de CENacional/JDACT

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Indiscreto. Charles Dubow. «Talvez ela o leia mais tarde, na praia, se tiver tempo. O pica passa para recolher o canhoto dos bilhetes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Onze da manhã. O quintal das casas passa ruidosamente por mim. Aqui e ali uma piscina elevada acima do solo, móveis para o terraço descartados, bicicletas enferrujando. Cachorros latindo, amarrados com cordas. Relvados secos. O céu é de um azul pálido, o calor do início do Verão ainda começando a se desdobrar. A cada quinze minutos, mais ou menos, o comboio pára. Entram mais pessoas do que saem. Os banhistas de fim-de-semana procuram por assentos vazios em meio ao trem lotado, barulhento e fortemente iluminado. Trazem sacolas estufadas com protector solar, garrafas de água, sanduíches e revistas. As mulheres usam trajes de banho debaixo da roupa e explosões de cores fluorescentes ao redor do seu pescoço. Os homens, jovens, tatuados e musculosos, com os fones de seu iPod enfiado nas orelhas, usam bonés com a aba virada para trás, bermudas e chinelos, com toalhas jogadas ao redor do seu pescoço, prontos para um sábado na praia.
Claire está entrando com eles. Mas não está com eles. Também não estou lá. Ainda não nos encontrámos, mas posso imaginá-la. Se fechar os olhos, ainda consigo lembrar-me do som da sua voz, do seu jeito de andar. Ela é jovem, atraente e vai rapidamente em direcção a um destino que vai mudar a sua vida, e a minha, para sempre. Ela encolhe-se contra a janela, tentando concentrar-se no seu livro, mas levanta os olhos das páginas de tempos em tempos para observar a paisagem que passa ao lado. O sacolejar do comboio a deixa com sono. A viagem parece levar mais tempo do que realmente leva, e ela deseja já estar no seu destino. Silenciosamente, tenta fazer que o comboio ande mais depressa. A sua mochila, a mesma que levou nas suas viagens pela Europa, está no assento ao seu lado, e ela espera que ninguém lhe peça que a tire dali. Ela sabe que é grande demais, e parece que está vindo para passar uma semana ou um mês, não apenas uma noite. A sua colega de quarto levou a outra mala, aquela com rodinhas que as duas compartilham, numa viagem de negócios. Ela abre o seu livro e tenta se concentrar nas palavras outra vez, mas não adianta. Não que seja um livro ruim. Teve vontade de lê-lo desde que chegou às livrarias. O autor é um de seus favoritos. Talvez ela o leia mais tarde, na praia, se tiver tempo. O pica passa para recolher o canhoto dos bilhetes. Ele tem um bigode farto, avermelhado, e está vestindo uma camisa envelhecida azul-clara, de mangas curtas e um boné redondo, azul-escuro.
Já fez esse trajecto centenas de vezes. Speonk, entoa, com a voz anasalada, alongando a última sílaba. Próxima estação, Spe-onnnnk. Ela consulta o folheto que tem na mão. Faltam apenas algumas estações. Em Westhampton, os banhistas começam a descer do comboio em pequenos grupos. Alguns encontram-se com amigos que têm carro. Cumprimentos, apertos de mão e risos. Outros ficam por ali e tentam orientar-se no estacionamento banhado pelo sol, pressionando o seu telefone móvel contra a orelha. As suas aventuras já estão a começar... Ela recoloca o folheto no bolso. Tem de esperar mais 38 minutos até chegar ao seu destino. Na estação, Clive está esperando. Vá para a esquerda quando sair, disse-lhe ele. Estarei lá. Ele é alto, loiro e inglês. A fralda da camisa, cara, que veste não está colocada por dentro da bermuda. Ela nunca o viu com esses trajes antes. Ele está bronzeado. Faz apenas uma semana que o viu pela última vez, mas ele dá a impressão de que viveu aqui a vida inteira. Que os casacos sob medida que normalmente veste parecem pertencer a algum outro homem. Ele inclina-se para a beijar no rosto e pega na sua mala.
Quanto tempo pretende ficar, exactamente?, pergunta, com um sorriso. Eu sabia que ia dizer isso, responde, com um beijo. Não precisa entrar em pânico. Dana levou a mala boa. Ele ri tranquilamente e começa a caminhar, dizendo: Estacionei ali adiante. Imaginei que a levaria para casa e depois poderíamos sair todos juntos para almoçar. Ela ouve a menção de outras pessoas e fica surpresa, mas tenta não demonstrar. Venha passar o fim-de-semana aqui, dissera, tocando-lhe o ombro com os lábios. Quero que venha. Vai ser bem tranquilo. Apenas nós. Você vai adorar. Ele abre a porta do seu carro conversível, com espaço apenas para o motorista e o passageiro, e joga a mala para trás dos assentos. Ela não entende nada sobre carros, mas sabe dizer que esse é um belo modelo. A capota está baixada e o cheiro forte do couro está agradavelmente quente contra a pele nua da parte detrás das suas pernas. Embora seja mais velho do que ela, ele tem a jovialidade comum dos homens que nunca se casaram. Mesmo se viajam com uma mulher, há um ar de despojamento ao seu redor, como se nunca houvessem sentido o peso de nada que não fossem os seus próprios desejos.
Quando ela o conheceu, numa festa em Tribeca, e depois no restaurante e, posteriormente, na cama, ele parecia um garoto que voltou para a casa da sua família para passar o natal, e que tentava conseguir o máximo de prazer antes que tudo estivesse terminado. Então, quem mais está ficando consigo?, ela não quer fazer que aquilo soe como uma acusação. Ah, apenas o restante do meu harém, diz, piscando o olho. Estendendo o braço, ele pousa a mão sobre a coxa dela. Não se preocupe. Clientes. Se auto-convidaram no último instante, e eu não consegui dizer não. Desculpe. Eles passam por cercas vivas altas, atrás das quais há vislumbres ocasionais de casas grandes. Trabalhadores mexicanos, ou talvez guatemaltecos, vão de um lado para o outro, empurrando cortadores de relva, podando galhos, limpando piscinas, organizando pilhas de cascalho, com as suas velhas camionetas estacionadas inofensivamente à beira da estrada. Há outras pessoas nas estradas também. Homens e mulheres correndo, alguns pedalando a sua bicicleta, uma ou duas Empregada doméstica empurrando carrinhos de bebê. A luz do sol brilha por entre as folhas. O mundo inteiro parece ser um lugar bem cuidado, verdejante e privado». In Charles Dubow, Indiscreto, 2013, Companhia Editora Nacional, 2013, ISBN 978-850-401-867-7.

Cortesia de CENacional/JDACT