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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Chaves e as suas Fortificações. Paulo Dordio. «A nível local desenvolve-se uma mentalidade e culturas autárquica que privilegia o ideal de auto-suficiência»

Cortesia de wikipedia e jdact

Evolução urbana e arquitectónica
Cidade Portuguesa no Tempo
«(…) A explicação da cultura político-institucional prevalecente no passado, matricialmente distinta, e da forma como esta lidava com a divisão territorial, são dois dos temas explorados por aquela nova investigação histórica a qual reafirma então que o conceito de Estado não deve ser usado para analisar os universos político-institucionais do Antigo Regime, caracterizados na teoria e na prática, até meados do século XVIII, pela coexistência, a par da coroa, de diversos corpos dotados de uma esfera de jurisdição própria e irredutível, onde se incluiriam, entre outros, a Igreja, o poder senhorial e, também, o poder municipal. Esta investigação, que se estendeu à história da sociedade portuguesa medieval, moderna e contemporânea, bem como das formas da sua expressão territorial, acentuaria a vitalidade e a autonomia dos corpos políticos locais bem como a dimensão anti-regional do poder municipal ao mesmo tempo que constatava a escassez dos meios ao dispor do poder central, para a concretização do projecto de centralização política cujo anúncio precoce data da Baixa Idade Média e em particular dos reinados de Afonso III (1245-1279) e de Dinis I (1279-1325). Não mais seria possível enfrentar o estudo do urbanismo português sem as perspectivas abertas por este aprofundamento irredutível dos conceitos e das premissas.
A rede urbana portuguesa, aparentemente imobilizada no tempo, da Baixa Idade Média à Contemporaneidade, constituída por uma boa armadura de pequenos centros urbanos que contrasta com a inexistência das cidades médias adquire todo um novo significado quando explicada no âmbito da matriz institucional do espaço político de Antigo Regime (António Manuel Hespanha. Ao basear a estrutura de legitimação do poder na tradição, o espaço habitado por uma comunidade natural passa a constituir a unidade política básica. Desta matriz decorre quer a rigidez e indisponibilidade da organização política do espaço quer a sua miniaturização. A nível local desenvolve-se uma mentalidade e culturas autárquica que privilegia o ideal de auto-suficiência. A incapacidade para crescer é outra das consequências desta matriz e cultura políticas. As palavras que José Mattoso utiliza para descrever os concelhos medievais do interior poderiam aplicar-se à generalidade dos núcleos urbanos concelhios ao longo de todo o Antigo Regime: quero-me referir particularmente à constante tendência para as cidades crescerem, alargando o espaço que ocupam, atraindo mais gente, diversificando as funções económicas e multiplicando os poderes. Os concelhos medievais do interior têm uma capacidade de expansão limitada. Quando alargam o seu território tendem a fragmentar-se em concelhos menores. (…). Ao fim e ao cabo, parece ser a tendência autonómica dos concelhos do interior em relação ao poder central, e a compartimentação do espaço que eles controlam, os dois factores determinantes da sua feição estática em termos urbanísticos. Concomitantemente, não se verifica um processo de hierarquização dos núcleos urbanos. E no pensamento político, a boa dimensão de uma povoação é a que não ultrapassava a escala local: as cidades, reescrevia-se em Portugal no século XVII, não deviam ser muito grandes nem muito pequenas, seguindo a mediania aristotélica, de modo a que fosse possível ouvir em todos os cantos a voz do pregoeiro, isto é, onde a sociabilidade fosse a de uma comunidade (Manuel Botelho Ribeiro Pereira, Diálogos Moraes e Políticos.
Por outro lado, os conceitos de centro e periferia são os adoptados para descrever e explicar a relação entre a Coroa e os corpos políticos autónomos como os municípios ou as cidades. As expressões designam não tanto espaços geográficos delimitados mas antes, de um lado, a zona central onde se definem os símbolos, valores e crenças que governam a sociedade, e, por outro lado, a grande maioria da população que se encontra mais ou menos distanciada desse centro. A aludida inexistência da dimensão regional é então igualmente equacionada no âmbito dos processos de centralização régia e da escassez dos meios de extensão à periferia ao dispor do poder central (António Manuel Hespanha, Centro e Periferia nas estruturas administrativas do Antigo Regime, Ler História, nº 8, 1986). As características da rede urbana portuguesa adquirem também aqui significado: parece evidente, aliás, que uma das características que se apontam à rede urbana portuguesa no Antigo Regime, designadamente, a quase inexistência de cidades de média dimensão, tem também (e muito) a ver com isso: não existiam capitais de unidades administrativas regionais. Ser sede de comarca era muito pouco, até porque chegou a haver mais de quatro dezenas e algumas, como Chão de Couce no início do século XIX, não chegavam a ter três centenas de fogos. A cidade como modelo de organização do território e ideal de vida humana, a cultura e mentalidades urbanas, seriam um dos ingredientes do património da zona central da sociedade. É desta forma que para José Mattoso, o próprio processo de centralização régia poderia ser visto como a extensão à periferia da mentalidade urbana: se o que se tem chamado a história nacional não é, afinal, apenas a da centralização régia, e se esta não constitui pouco mais do que o prolongamento da uniformização citadina, assumindo aqui a palavra periferia o duplo sentido geográfico e social». In Paulo Dordio, Chaves e as suas Fortificações, Evolução urbana e arquitectónica, ARQUEOHOJE, Chaves. Levantamento Arquivístico e Bibliográfico. 2006, Chaves, Arquivo Municipal de Chaves, 2015, Wikipedia.

Cortesia doAMChaves/ARQUEOHOJE/JDACT

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Chaves e as suas Fortificações. Paulo Dordio. «… centralização régia, e se esta não constitui pouco mais do que o prolongamento da uniformização citadina, assumindo aqui a palavra periferia o duplo sentido geográfico e social»

Cortesia de wikipedia e jdact

Evolução Urbana e Arquitectónica
Cidades Portuguesas no Tempo. Rede Urbana e Sociedade em Portugal
«(…) As características da rede urbana portuguesa adquirem também aqui significado: parece evidente, aliás, que uma das características que se apontam à rede urbana portuguesa no Antigo Regime, designadamente, a quase inexistência de cidades de média dimensão, tem também (e muito) a ver com isso: não existiam capitais de unidades administrativas regionais. Ser sede de comarca era muito pouco, até porque chegou a haver mais de quatro dezenas e algumas, como Chão de Couce no início do século XIX, não chegavam a ter três centenas de fogos (Monteiro 1996). A cidade como modelo de organização do território e ideal de vida humana, a cultura e mentalidades urbanas, seriam um dos ingredientes do património da zona central da sociedade. É desta forma que para José Mattoso, o próprio processo de centralização régia poderia ser visto como a extensão à periferia da mentalidade urbana: se o que se tem chamado a história nacional não é, afinal, apenas a da centralização régia, e se esta não constitui pouco mais do que o prolongamento da uniformização citadina, assumindo aqui a palavra periferia o duplo sentido geográfico e social. Em síntese, poder-se-ia afirmar que ao começo do triunfo da Monarquia, que o reinado de Afonso III estabelece depois das incertezas do reinado anterior, corresponde a progressiva consolidação de um modelo de ordenamento do território veiculado pelo poder régio que tomava a cidade como o ideal de organização com o qual era imperativo fazer preencher todo o espaço disponível. Cidade e Concelho tenderão a identificar-se e, até ao final do século XV, verifica-se a universalização do modelo concelhio como a unidade administrativa e judicial de primeira instância. Os resultados revelariam porém o compromisso entre as formas tradicionais de organização na periferia e os modelos propagados pela autoridade do centro. A investigação da cidade como materialidade, a investigação da forma e da localização, a investigação da cidade como documento para a história da sociedade foi um tipo de aproximação do fenómeno urbano lançado entre nós em primeiro lugar pela geografia. Os textos de Orlando Ribeiro assumem aqui um papel fundador (Orlando Ribeiro, Opúsculos Geográficos. Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 1994) a que se seguiriam alguns dos seus discípulos como Jorge Gaspar (1969) embora com escassa continuidade posterior no que à dimensão histórica diz respeito Diante do atraso da arqueologia medieval e moderna em Portugal, foi a história da arquitectura e do urbanismo que deram a necessária continuidade às problemáticas então abertas. Várias equipas e investigadores individuais abriram novas frentes de trabalho a partir da década de 1980 elegendo como objecto de estudo a forma e a morfologia urbana. Toda esta dinâmica nova da história do urbanismo português culminaria em realizações colectivas de síntese como O Universo Urbanístico Português 1415 – 1822, já em meados da década de 1990. É no seio da equipa liderada por Walter Rossa no Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que estas frentes de trabalho melhor adquiriram profundidade de abordagem, reflexão crítica, apuramento das metodologias e ao mesmo tempo sentido de projecto em continuidade e de largo fôlego.
Inicialmente centrado sobre a cidade setecentista, a orientação da investigação cedo sentiu a indispensabilidade de um recuo no tempo discutindo a questão dos antecedentes e recentrando-se sobre o período que medeia entre o momento fundador baixo medieval e o momento de reformulação e redefinição das primeiras décadas de Quinhentos. A investigação perseguiria então a identificação dos procedimentos urbanísticos e de ordenamento do território mais comuns, os quais designaria por invariantes, e que na sua sistematização configurariam uma específica maneira de fazer cidade, ou, de um modo mais abrangente, uma cultura do território portuguesa». In Paulo Dordio, Chaves e as suas Fortificações, Evolução Urbana e Arquitectónica, ArqueoHoje, Chaves, Lavantamento Arquivístico e Bibliográfico, 2006, Chaves, Arquivo Municipal de Chaves, 2015, Wikipédia.

Cortesia de AMChaves/ArqueoHoje/JDACT

Chaves e as suas Fortificações. Paulo Dordio. «A rede urbana portuguesa, aparentemente imobilizada no tempo, da Baixa Idade Média à Contemporaneidade, constituída por uma boa armadura de pequenos centros urbanos que contrasta com a inexistência das cidades…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Evolução Urbana e Arquitectónica
Cidades Portuguesas no Tempo. Rede Urbana e Sociedade em Portugal
«(…) A explicação da cultura político-institucional prevalecente no passado, matricialmente distinta, e da forma como esta lidava com a divisão territorial, são dois dos temas explorados por aquela nova investigação histórica a qual reafirma então que conceito de Estado não deve ser usado para analisar os universos político-institucionais do Antigo Regime, caracterizados na teoria e na prática, até meados do século XVIII, pela coexistência, a par da coroa, de diversos corpos dotados de uma esfera de jurisdição própria e irredutível, onde se incluiriam, entre outros, a Igreja, o poder senhorial e, também, o poder municipal. Esta investigação, que se estendeu à história da sociedade portuguesa medieval, moderna e contemporânea, bem como das formas da sua expressão territorial, acentuaria a vitalidade e a autonomia dos corpos políticos locais bem como a dimensão anti-regional do poder municipal ao mesmo tempo que constatava a escassez dos meios ao dispor do poder central, para a concretização do projecto de centralização política cujo anúncio precoce data da Baixa Idade Média e em particular dos reinados de Afonso III (1245-1279) e de Dinis I (1279-1325). Não mais seria possível enfrentar o estudo do urbanismo português sem as perspectivas abertas por este aprofundamento irredutível dos conceitos e das premissas.
A rede urbana portuguesa, aparentemente imobilizada no tempo, da Baixa Idade Média à Contemporaneidade, constituída por uma boa armadura de pequenos centros urbanos que contrasta com a inexistência das cidades médias adquire todo um novo significado quando explicada no âmbito da matriz institucional do espaço político de Antigo Regime (António Manuel Hespanha, L’ Espace Politique dans l’Ancien Regime, 1983). Ao basear a estrutura de legitimação do poder na tradição, o espaço habitado por uma comunidade natural passa a constituir a unidade política básica. Desta matriz decorre quer a rigidez e indisponibilidade da organização política do espaço quer a sua miniaturização. A nível local desenvolve-se uma mentalidade e culturas autárcita que privilegia o ideal de auto-suficiência. A incapacidade para crescer é outra das consequências desta matriz e cultura políticas. As palavras que José Mattoso utiliza para descrever os concelhos medievais do interior poderiam aplicar-se à generalidade dos núcleos urbanos concelhios ao longo de todo o Antigo Regime:

Quero-me referir particularmente à constante tendência para as cidades crescerem, alargando o espaço que ocupam, atraindo mais gente, diversificando as funções económicas e multiplicando os poderes. Os concelhos medievais do interior têm uma capacidade de expansão limitada. Quando alargam o seu território tendem a fragmentar-se em concelhos menores. (…). Ao fim e ao cabo, parece ser a tendência autonómica dos concelhos do interior em relação ao poder central, e a compartimentação do espaço que eles controlam, os dois factores determinantes da sua feição estática em termos urbanísticos.

Concomitantemente, não se verifica um processo de hierarquização dos núcleos urbanos. E no pensamento político, a boa dimensão de uma povoação é a que não ultrapassava a escala local: as cidades, reescrevia-se em Portugal no século XVII, não deviam ser muito grandes nem muito pequenas, seguindo a mediania aristotélica, de modo a que fosse possível ouvir em todos os cantos a voz do pregoeiro, isto é, onde a sociabilidade fosse a de uma comunidade (Manuel Botelho Ribeiro Pereira, Diálogos Moraes e Políticos, Viseu. Por outro lado, os conceitos de centro e periferia são os adoptados para descrever e explicar a relação entre a Coroa e os corpos políticos autónomos como os municípios ou as cidades. As expressões designam não tanto espaços geográficos delimitados mas antes, de um lado, a zona central onde se definem os símbolos, valores e crenças que governam a sociedade, e, por outro lado, a grande maioria da população que se encontra mais ou menos distanciada desse centro (Shils, 1992). A aludida inexistência da dimensão regional é então igualmente equacionada no âmbito dos processos de centralização régia e da escassez dos meios de extensão à periferia ao dispor do poder central (António Manuel Hespanha, 1986)». In Paulo Dordio, Chaves e as suas Fortificações, Evolução Urbana e Arquitectónica, ArqueoHoje, Chaves, Lavantamento Arquivístico e Bibliográfico, 2006, Chaves, Arquivo Municipal de Chaves, 2015, Wikipédia.

Cortesia de AMChaves/ArqueoHoje/JDACT

sábado, 31 de agosto de 2019

No 31. Chaves e as suas Fortificações. Paulo Dordio. «Um primeiro diagnóstico da evolução histórica da rede urbana portuguesa foi realizado por autores como Vitorino Magalhães Godinho e José Gentil Silva…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Evolução urbana e arquitectónica
Cidade Portuguesa no Tempo
«(…) Entre os séculos XVI e o XVIII, as elites urbanas desenvolvem um discurso crítico em relação à matriz tardo-medieval que as suas cidades exibiam. Monumento e Monumentalidade serão as palavras de ordem por detrás de numerosas e variadas intervenções no espaço urbano cuja expressão mais completa estará na Praça regularizada e monumentalizada com equipamentos (chafarizes, pelourinhos, etc) e edifícios (Casas da Câmara, Igrejas, Igrejas da Misericórdia, Hospitais, Capelas, Palácios, etc). Para o final daquele período, tocado já pelas exigências do Iluminismo, o discurso propunha mesmo corrigir traçados a fim de adequar o desenho urbano a uma ordem e um racionalismo que seria expressão do poder do Estado. A 2ª metade do século XIX trará consigo a expansão urbana moderna com o rápido crescimento da população urbana. As cidades e as vilas preparam-se para receber esse afluxo de novas gentes elaborando Planos de Melhoramentos em cuja preocupação estará em primeiro lugar o grau zero do urbanismo, as infra-estruturas. Será a época das grandes obras municipais viárias, de iluminação pública, abastecimento de água, drenagens e saneamentos, etc.
As décadas de 1930 e de 1940, coincidindo com nova fase de expansão e crescimento urbanos, mostram a emergência da Obra Pública e do Plano Geral de Urbanização como os novos instrumentos adequados às novas exigências de planificação urbana de um Estado que se queria fazer reconhecer como forte. As duas décadas seguintes continuarão a mostrar a concretização daqueles instrumentos do urbanismo a mais das vezes falha de inovação e enredada numa inércia burocrática. As rupturas introduzidas nas décadas de 1970 e 1980 prepararam o momento actual e o futuro, numa terceira fase de expansão e crescimento, mais exigente, introduzindo novas preocupações, como as Patrimoniais, e fazendo uso de novos e mais eficazes instrumentos de planificação e controle (PDM’s, Planos de Pormenor, Inventários do Património, Planos de Salvaguarda, Planos de Reabilitação, etc).

Rede Urbana e Sociedade em Portugal
Um primeiro diagnóstico da evolução histórica da rede urbana portuguesa foi realizado por autores como Vitorino Magalhães Godinho e José Gentil Silva os quais apontaram a estagnação do respectivo desenvolvimento entre o século XVI e os inícios do XIX como um dos principais traços realçando que uma boa armadura de pequenos centros urbanos contrasta com a inexistência das cidades médias ao mesmo tempo que a capital é das primeiras cidades do mundo de então. Nos dois séculos seguintes (XIX e XX), quando por toda a Europa desenvolvida, se observa uma descolagem sem precedentes da população urbana, Portugal irá manter de uma forma generalizada níveis de urbanização diminutos, casos à parte de Lisboa e do Porto, para apenas ver acelerar o crescimento a partir da década de 1950. A incapacidade dos centros provinciais da rede urbana em atrair o êxodo rural que se verifica e que opta antes pela emigração, que é antiga e persistente, é apontada como o outro traço estrutural conexo de um mesmo esquema de bloqueamento do desenvolvimento e da Modernização da sociedade portuguesa. Uma nova geração de historiadores realizou a partir da década de 1980 uma crítica e desconstrução de paradigmas prevalecentes até aí aportando a emergência do local e um novo equacionamento do papel do centro e da periferia (José Mattoso e António Manuel Hespanha).
O trabalho crítico incidiu principalmente sobre a ideia de Estado e de Nação legada pelos historiadores do século XIX, que a historiografia do Estado Novo havia cristalizado: a omnipresença da coroa, a ideia da centralização precoce (ou o paradigma da centralização contínua e interminável (…)), a utilização dos conceitos de Estado e de Nação num sentido quase contemporâneo para falar da história portuguesa desde os finais da Idade Média, e a imagem da atrofia de todos os poderes que não os da monarquia constituíam património comum dos historiadores portugueses, quase sem excepção». In Paulo Dordio, Chaves e as suas Fortificações, Evolução urbana e arquitectónica, ARQUEOHOJE, Chaves. Levantamento Arquivístico e Bibliográfico. 2006, Chaves, Arquivo Municipal de Chaves, 2015, Wikipedia.

Cortesia doAMChaves/ARQUEOHOJE/JDACT

sábado, 24 de agosto de 2019

Chaves e as suas Fortificações. Paulo Dordio. «Chamaram-se então povoas ou vilas novas mostrando no respectivo desenho o carácter planificado da sua origem. Centro urbano e território surgem indissoluvelmente relacionados»

Cortesia de wikipedia e jdact

Evolução urbana e arquitectónica
«Consideraram-se sucessivamente quatro momentos geradores da cidade: a Póvoa medieval, a Vila renascentista, a Praça de Guerra barroca, e finalmente a Cidade Moderna. A póvoa medieval surge no âmbito das reorganizações do território e do povoamento que a Monarquia Portuguesa empreende sobre os espaços das periferias do NE. Mais tardia do que a fundação de Bragança por Sancho I mas anterior à criação de Miranda do Douro por Dinis I, a Póvoa de Chaves surgirá por iniciativa do rei Afonso III ao mesmo tempo que este se dedicava à paralela fundação de Vila Real. A característica de vila de fronteira com objectivos bélicos mas, ao mesmo tempo, controlando importantes relações comerciais com o lado Leonês e Castelhano, constituirá desde a origem uma característica fundamental da identidade urbana de Chaves. A Vila renascentista surge na continuidade da póvoa medieval procurando actualizar-se ao sabor de novas tendências e exigências que percorriam a Europa do Renascimento. A característica de vila de periferia, fronteira e distante dos centros ordenadores, persistirá impondo limitações à actuação dos protagonistas da construção da sua história. Oscilando entre a expansão possível e a contenção, será terreno de intervenção das suas elites empenhadas num esforço de monumentalização do tecido urbano mas que não deixará de ser marcado pelo deficit de recursos ou de ambições.
A análise da Praça de Guerra na época barroca determina necessariamente uma atenção particular ao processo de construção das estruturas de fortificação abaluartadas bem como ao entendimento da lógica da máquina de guerra subjacente e as implicações urbanísticas decorrentes. Procurou analisar-se também os modos como Chaves organizou as suas periferias urbanas ou subúrbios nesta época, considerando que aquele tipo de fortificações, com as extensas obras exteriores que implicava, impunha normalmente um corte radical entre o espaço urbano e a periferia rural ou suburbana. O momento difícil que o desastre da campanha de 1762 representou para os núcleos urbanos em Trás-os-Montes inaugurou o que chamamos de morte lenta da praça de guerra. Mas a vila e as suas elites foram capazes de reagir a uma conjuntura desfavorável e relançar uma nova dinâmica de crescimento em Chaves que se reflectiu num original período de renovação urbana entre os fins do século XVIII e as três primeiras décadas do XIX, antecipando o que teria o seu pleno desenvolvimento no decorrer da 2ª metade do século XIX.
Analisaram-se em seguida as dificuldades do crescimento urbano que é geral ao longo de Oitocentos. Observou-se o fim da Praça de Guerra, a actualização da presença militar com novos projectos e realizações bem como a reabilitação das estruturas de fortificação em desuso com novos significados e utilizações. Situamo-nos então em pleno processo de criação da Cidade Moderna, identificando-se dois planos sucessivos ainda no interior das lógicas dos Planos de Melhoramentos Urbanos, o primeiro desenvolvendo-se ao longo das últimas décadas do século XIX e o segundo estruturando uma outra lógica para a cidade a partir da instauração do poder republicano e o fim da 1ª Guerra Mundial. A elaboração do Ante Plano de Urbanização nas décadas de 1940 e 1950 procura uma actualização do espaço urbano e respostas aos desafios de uma expansão urbana que se vê chegar mas que marcará passo depois com a crescente emigração para fora de Portugal. Porém, as últimas décadas do século XX trarão consigo uma explosão urbana e edificadora que os planos de urbanização da década de 1950 não terão capacidade de ordenar. Já nos nossos dias assistimos a uma nova atenção aos problemas urbanos e do crescimento que procura a criação de instrumentos eficazes de planeamento e controle cujo corolário é o Projecto Polis para o qual o presente trabalho de investigação histórica e arqueológica visou contribuir.

Cidade Portuguesa no Tempo
O estudo e conhecimento do urbanismo em Portugal conheceram grandes avanços, registados sobretudo nas duas últimas décadas. Os anos de formação da Monarquia Portuguesa (séculos XII – XIV) são coevos de uma nova dinâmica urbana que acompanha o momento da expansão medieval iniciada após o ano 1000. Grande parte dos núcleos urbanos actuais podem, com proveito metodológico, reconhecer as suas origens nessa época. A Monarquia Portuguesa afirmou o domínio sobre o território a partir da matriz urbana ordenando e reordenando com ela o espaço em função dos seus interesses centralizadores. Numa primeira fase, o limite que a muralha da cerca materializa parece ser sinónimo de urbano. Com efeito dizia-se, na altura, fazer vila como exprimindo construir uma muralha de cerca e com ela assim fundar um núcleo urbano. Muitos núcleos urbanos surgiram naquela época, sobremaneira durante os reinados de Afonso III e de Dinis I, como actos de vontade régia, fundações novas e ordenadas com o objectivo de criar centros a partir dos quais organizar, ou reorganizar, o território. Chamaram-se então povoas ou vilas novas mostrando no respectivo desenho o carácter planificado da sua origem. Centro urbano e território surgem indissoluvelmente relacionados pois um centro urbano exige sempre um termo no qual tem assento as aldeias, quintas e casais em que moram as populações rurais que daquele dependem. Um centro urbano é pois normalmente um município e um território concelhio. O crescimento das concentrações humanas e o desenvolvimento das actividades de relação trouxe a formação de rossios e de arrabaldes nos exteriores próximos das muralhas da cerca. Ao mesmo tempo esboça-se uma diferenciação entre a Alta e a Baixa urbanas, esta última muitas vezes designada por Ribeira. Iniciava-se então um movimento clássico das populações que se aproximam das áreas mais abertas à relação e à expansão, abandonando os altos e adensando-se sobre os baixos, junto aos caminhos e às margens dos rios navegáveis». In Paulo Dordio, Chaves e as suas Fortificações, Evolução urbana e arquitectónica, ARQUEOHOJE, Chaves. Levantamento Arquivístico e Bibliográfico. 2006, Chaves, Arquivo Municipal de Chaves, 2015, Wikipedia.

Cortesia doAMChaves/ ARQUEOHOJE/JDACT

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Tecido Urbano Flaviense. De Aquæ Flaviæ a Chaves Medieval. João Manuel Ribeiro. «Para o estudo da cidade romana de “Aquae Flaviae”, definimos como objectivos específicos: reavaliar a localização dos eixos estruturantes da cidade (‘Kardus e decumanus maximus’) e as ruas secundárias, bem como a localização do ‘forum’»

Cortesia de wikipedia

Resenha historiográfica de Chaves
«(…) Com efeito, esta década marca, na historiografia flaviense, o incremento do leque de temas a desenvolver e o estabelecimento de novas posturas epistemológicas associadas às origens do traçado urbanístico de Chaves. Em 1990, Firmino Aires, colaborador de Rodríguez Colmenero nas intervenções arqueológicas levadas a cabo na década de 80, publica um compêndio dos topónimos da cidade de Chaves, intitulado Toponímia Flaviense, que corresponde, mais do que à adscrição de ruas a determinados períodos históricos, a um enunciado das histórias e lendas associadas a cada um dos eixos viários da cidade. Ainda no mesmo ano, destacam-se as obras de Nuno Pinto Dias, intituladas As cidades de fronteira de Portugal com a Galiza e Chaves medieval: séculos XIII e XIV, profusamente imbuídas na corrente de alguns historiadores portugueses que preconizava um ermamento inerente ao processo de Reconquista, encetado por Afonso I. Determinava-se, deste modo, a criação de uma nova corrente de investigação em defesa da génese medieval de Chaves, por oposição à tese filo-romana, presidida por António Montalvão. Nuno Dias defende a fundação e povoamento da cidade por iniciativa régia, na segunda metade do século XIII, no reinado de Afonso III.
O processo de Reconquista constitui, igualmente, um ponto central na obra de Mário Jorge Barroca (1990-91), intitulada Do Castelo da Reconquista ao Castelo Românico (séc. IX a XII), tema que o mesmo autor retoma, em 2004, num artigo publicado também na Revista Portugália, desta feita intitulado Fortificações e Povoamento no Norte de Portugal (Séc. IX a XI). Em 1993, Paulo Amaral defende a sua tese de mestrado, subordinada ao tema O Povoamento Romano no Vale Superior do Tâmega - Permanência e mutações na Humanização de uma Paisagem. Esta obra constitui o resultado de continuadas investigações sobre a cidade romana e o mundo rural adjacente, contribuindo de forma significativa para o avanço nos conhecimentos sobre a evolução urbana da cidade de Aquae Flaviae. Dela fazem parte, igualmente, um importante e avolumado compêndio onde constam as evidências arqueológicas descobertas ou recolhidas até à data da sua publicação, bem como dos habitats romanos identificados nas proximidades de Aquae Flaviae.
No mesmo ano, Paulo Gomes apresenta a sua tese de mestrado, intitulada Arqueologia das Vilas Urbanas de Trás-os-Montes e do Alto Douro. A reorganização do povoamento e dos territórios na Baixa Idade Média (séculos XII-XV), numa linha de investigação claramente filiada nas obras de Nuno Dias. No entanto, as asserções de Paulo Gomes, a propósito da cidade medieval, parecem denunciar uma postura mais tolerante em relação à génese do traçado urbano da cidade e à sua extensa ocupação anterior ao século XIII. Em 1994, Rafael Alfenim, num artigo dedicado à A Barragem de Aquae Flaviae, analisa o sítio arqueológico do lugar de Abobeleira e aventa alternativas às funções tradicionalmente propostas para esta estrutura hidráulica. Em 1996, Ricardo Teixeira defende a sua tese de mestrado, intitulada De Aquae Flaviae a Chaves. Povoamento e organização do território entre a Antiguidade e a Idade Média, uma obra notoriamente análoga à de Paulo Amaral, muito embora referente a um período cronológico diferente. O início do século XXI constitui um ponto de viragem nas investigações sobre a evolução urbana da cidade, graças, sobretudo, ao aumento do número de intervenções arqueológicas realizadas, quer por organismos privados, quer pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal, que se constitui como o principal responsável pela gestão e salvaguarda do património arqueológico. Estas intervenções têm permitido, por sua vez, engrossar o volume das publicações, sob a forma de relatórios ou artigos, contribuindo, igualmente, para introduzir novas interpretações acerca das sucessivas ocupações que a cidade foi alvo.
Assiste-se, ainda, a publicações que reflectem sobre as considerações tecidas ao longo das décadas anteriores, tais como as revisões dos relatórios da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, actualmente disponíveis num sitio dedicado a esta instituição, já extinta. Em 2008, Ricardo Teixeira retoma o tema do Povoamento e organização do território nas regiões de Chaves, Vila Real e Lamego (Séc. IX – XIV), no III Congresso de Arqueologia de Trás-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior, enquanto Paulo Gomes publica um estudo sobre a evolução urbana da cidade, intitulado Chaves e as suas Fortificações. Estudo histórico, arqueológico e evolução Urbana e Arquitectónica. Para além da evolução do sistema defensivo medieval e moderno de Chaves, o autor analisa as consequências provocadas na malha urbana pelas sucessivas alterações das referidas estruturas defensivas.

Objectivos
O estudo da evolução urbana da cidade de Chaves, desde a sua fundação romana até aos nossos dias, constitui um tema extremamente aliciante, não só pelo seu carácter inovador, mas também, pelo enorme desafio que representa. Contudo, dado o elevado volume de dados que um estudo desta natureza implica e os limites de tempo que possuímos, centrar-nos-emos num período cronológico mais restrito, designadamente, na análise da paisagem urbana flaviense nos períodos romano e medieval. Assim, pretendemos com este trabalho dar início a um estudo que tem por finalidade reconstituir a forma urbana que caracterizou a cidade no período de ocupação romana e medieval, bem como perceber as transformações que ocorreram entre estes dois momentos, através da implantação de uma nova metodologia com provas dadas em outras cidades históricas, como o caso de Braga. Para a concretização do objectivo geral deste trabalho, contribuíram um conjunto de objectivos específicos que permitiram traçar a evolução morfológica entre a época romana e a época medieval, bem como aferir a continuidade ou descontinuidade urbanística existente entre os diferentes momentos de ocupação da cidade. Para o estudo da cidade romana de Aquae Flaviae, definimos como objectivos específicos: reavaliar a localização dos eixos estruturantes da cidade (Kardus e decumanus maximus) e as ruas secundárias, bem como a localização do forum; propor uma malha teórica segundo a qual a cidade se organizaria, designadamente a dimensão e a localização de algumas insulae, bem como a orientação da cidade romana nos períodos alto e baixo-imperiais e por fim analisar a localização e funcionalidade de alguns edifícios». In João Manuel Gonçalves Ribeiro, O Tecido Urbano Flaviense, de Aquæ Flaviæ a Chaves Medieval, Universidade do Minho, Mestrado em Arqueologia, Instituto de Ciências Sociais, 2010.

Cortesia da UMinho/JDACT

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Tecido Urbano Flaviense. De Aquæ Flaviæ a Chaves Medieval. João Manuel Ribeiro. «As últimas décadas do século XX correspondem, sem sombra de dúvida, ao período de maior ‘volume literário’ a propósito das origens da cidade e da sua evolução urbana. A primeira obra de referência, da autoria de António Montalvão, remonta a 1972…»

Cortesia de wikipedia

«A cidade de Chaves possui um longo passado histórico, cujas origens remontam ao século I da nossa era. Desde a fundação romana como Aquae Flaviae, a cidade conheceu sucessivas ocupações, condicionadas por circunstâncias geográficas e históricas variadas. Actualmente, Chaves constitui uma verdadeira cidade histórica, onde as marcas e os vestígios materiais dos mais de 2000 anos de ocupação se entrelaçam no plano urbano actual. Pese embora este conhecimento, reconstituir a forma urbana que caracterizou os diferentes momentos de ocupação do espaço urbano flaviense, bem como perceber as transformações morfológicas que ocorreram na diacronia, constitui, ainda, um enorme desafio. A cidade de Chaves, localizada no distrito de Vila Real, desenvolve-se numa zona de vale, numa área correspondente a 25km², sendo banhada pelo Rio Tâmega, importante eixo fluvial, cuja transposição desde cedo determinou amplos investimentos públicos pelo poder central e local. Enquadrada a leste pela Serra do Brunheiro, com altitude máxima de 919 metros, a cidade encontra-se limitada a oeste por pequenas elevações de terreno, as quais consolidam a Serra de Bustelo. Esta, por seu turno, constitui contraforte à Serra do Larouco e ao planalto de Barroso. A norte localiza-se a Serra de Mairos que se expande até Espanha e a sul situa-se um conjunto de colinas que se prendem ao Brunheiro, no lugar de Pêto de Lagarelhos.
A posição geográfica de Chaves terá sido avaliada desde muito cedo, constituindo um espaço de circulação muito importante que desde os romanos materializou um conjunto relevante de vias. Uma dessas vias, a via XVIII, ligaria a cidade a duas importantes capitais de conventus, Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga). Para além da importância geográfica, também os recursos naturais, designadamente as qualidades medicinais das suas águas, terão contribuído para a importância acrescida que a cidade de Chaves adquire no período de dominação romana, mas também, nos períodos seguintes. Actualmente, a cidade beneficia ainda de algumas destas vantagens.  Pretende-se estudar a evolução da morfologia urbana da cidade de Chaves, entre o período romano, Aquae Flaviae, a Idade Média, Flavias ou Chaves medieval, analisando o enquadramento histórico e geográfico que fundamenta os traços morfológicos e as principais construções que caracterizaram o plano urbano romano e medieval. É igualmente objectivo analisar as transformações morfológicas ocorridas no espaço urbano flaviense entre os referidos períodos históricos, procurando aferir as continuidades e ou descontinuidades verificadas entre os sucessivos planos urbanos.

Resenha historiográfica de Chaves
A historiografia flaviense apresenta uma tradição de cerca de quinze séculos, mergulhando as suas origens nos relatos dos cenários das invasões suevas à cidade de Flavias, no século V. Reportamo-nos à Cronica ou Cronicon da autoria de Idácio, bispo de Chaves, na qual é feita a descrição deste período tão atribulado da história da cidade. Pese embora a subjectividade empregue pelo autor, esta obra integra os acontecimentos que marcaram Aquae Flaviae, à data Flavias, no período de queda do Império Romano e consequente ocupação suevo-visigoda. A narrativa histórica da cidade retomar-se-ia apenas no século XVIII, com a obra Noticias Geographicas e Historicas da Provincia de Tras dos Montes, da autoria de Tomé Távora Abreu e do padre José Fontoura Carneiro. Estes manuscritos modernos foram, já no século XX, transcritos e, por conseguinte, democratizados, por Júlio Montalvão Machado, em artigo homónimo à referida obra, publicado em 1989, no nº 2 da Revista Aquae Flaviae (1989). A referida revista viria a tornar-se num veículo editorial de significativa importância para a historiografia flaviense, constituindo o meio preferencial de publicação da história de Chaves, quer a nível arqueológico, designadamente das intervenções do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal, quer dos estudos de cariz histórico ou etnográfico. Refiram-se, ainda, para o século XIX as referências feitas à cidade de Chaves, na obra História de Portugal, de Alexandre Herculano.
As últimas décadas do século XX correspondem, sem sombra de dúvida, ao período de maior volume literário a propósito das origens da cidade e da sua evolução urbana. A primeira obra de referência, da autoria de António Montalvão, remonta a 1972 e intitula-se Permanece a urbanística de Aquae Flaviae?. Este artigo constitui um ponto de partida irrecusável para quantos se debruçam sobre a análise do traçado urbanístico da cidade romana de Aquae Flaviae e determina o início de uma corrente de investigação que postula uma origem romana para a malha urbana da actual cidade de Chaves. Nos finais da década de 70, Francisco Gonçalves Carneiro publica A Igreja de Santa Maria Maior de Chaves, obra que versa a história deste edifício polarizador das urbanizações medievais, bem como a descrição do referido imóvel à data desta publicação (1979). A mesma igreja integraria uma obra de índole mais generalista, da autoria de Carlos Alberto Ferreira Almeida, denominada História de Arte em Portugal. O Românico (1986). O dealbar da década de 90 encontra-se pautado pela publicação da obra Aquae Flaviae, de Antonio Rodríguez Colmenero, a qual constitui a primeira grande exposição das evidências arqueológicas, móveis e imóveis, descobertas até à década precedente. Esta obra inclui ainda uma revisão da literatura a propósito da génese da cidade, filiando-se o autor na corrente presidida por António Montalvão (1990)». In João Manuel Gonçalves Ribeiro, O Tecido Urbano Flaviense, de Aquæ Flaviæ a Chaves Medieval, Universidade do Minho, Mestrado em Arqueologia, Instituto de Ciências Sociais, 2010.

Cortesia da UMinho/JDACT

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Tratado de Confissom: Um dos primeiros livros impressos em língua portuguesa. O Tratado de Confissom é uma obra de cariz pastoral. Desconhece-se o autor, sendo descoberto em 1965 pelo investigador Pina Martins


Cortesia de livrariabizantina

O Tratado de Confissom é um dos primeiros livros impressos em língua portuguesa.
A sua importância reside no facto de ter sido considerado algum tempo «o primeiro livro impresso em língua portuguesa» conhecido. Contudo, o Sacramental parece ter sido impresso ainda antes, em 1488.
Foi impresso em 1489 em Chaves, provavelmente por impressores castelhanos. A obra é um pequeno tratado sobre a confissão, para instrução do clero com cura de almas acerca da melhor forma de administrar o sacramento da penitência. Desconhece-se o seu autor. Pelos castelhanismos existentes no texto, é provável que a obra tenha sido traduzida de uma outra em castelhano. Até 1965, não há qualquer notícia da existência da obra. Nessa data, é descoberto um exemplar, o único encontrado até ao momento e que se encontra na Biblioteca Nacional. Pina Martins publicou em 1973 uma edição do texto com um estudo histórico-cultural e José Barbosa Machado publicou em 2003 uma nova edição acompanhada de um estudo linguístico.

Cortesia de paulowdesignerwordpress
Polémico e repressivo, é um retrato dos «comportamentos desviantes» dos cristãos do século XV, especialmente no âmbito sexual. Nele são tratados em pormenor o adultério, a violação ou estupro, a pedofilia, o incesto, o aborto e a homossexualidade. No estudo de José Barbosa Machado são referidos aspectos fonéticos, gráficos, morfossintácticos, lexicológicos e semânticos que permitem concluir, por um lado, que a redacção do texto da obra é bastante anterior à data da sua impressão, o que vem contrariar tudo o que foi dito até ao momento acerca da sua datação, e por outro, que a obra é uma tradução/adaptação de textos castelhanos com a mesma temática.

Tratado de Confissom
Do Prólogo
«Todo iuiz e prelado da sãcta igreia pera seer boo iuiz e manteer bem seu estado deue a seer dereyto e auer dereyta emtençom em todalas coussas que fezer e iulgar. E esto aparece per muitas razooës e semelhãças, ponhamos segumdo dize Aristotiles. Se algum da semtemça dereyta empero que nõ ha a emtëçom dereyta mais daa por medo ou peita ou por amor do outro, tal iuiz como este nõ he dereito iuiz, ainda que dee a sentença dereita, porque a nõ da com dereyta emtëçom. Veemos nos aynda nas cousas corporaaes que aquella cousa que dizemos dereita, que ha todallas partes iguaaes e non se inclina mais da hüa parte que da outra o quall iuiz deue asi seer dereito que em nenhüa maneyra nem por nenhüa rezom nõ se inclinar mais a hüa parte que a outra. E por eso diz Sãt Bernardo: Deus deu ao homem corpo e estatura dereyta pera lhe dar a entëder que deue a guardar e teer dereyto em todallas cousas e como quer que dito he, todo iuiz deue auer sempre em iulgamdo dereita emtemçom empero sem esta dicta emtemçom deue a confirmar com aquellas cousas que ë dereyto sõ scriptas e ãte ell forë alegadas.

Chaves, século XVI
Cortesia de causamerita
Onde diz Santo Ãbrosio que o iuiz quando uyer ao iuizo nõ deue a iulgar següdo a cõciencia e uoontade que trouuer de sua casa mais següdo as razooës e os dereitos que forë em iuizo perante ell alegados. Onde se huü homë ante alguü iuiz he acusado de algüa cousa falsamëte, empero suficientemente lhe he prouado per falsas testimunhas en tal caso següdo os doutores dizë. O iuiz se pode achar alguü caso pera o liurar apoëdo algüa cousa cõtra as testemunhas para o seu testemunho nõ ualer podeo fazer. Se nõ se ëtender que he mais segura cousa pera o acusado, deueo a inuiar a outro iuiz mayor. Se sabe que per ell sera liure e se nõ peca se nõ da sëtença cõtra ell següdo as razooës que forem alegadas ante ell, como quer que o faça contra sua emtëçom e cõtra a uerdade que en outra maneira sabe nõ como iuiz. Ca tall nõ condepna ell, mais aquelles que cõtra ell derõ aquel falso testemunho. E se ë outra maneira o iuiz da sentëça cõtra conciëcia e contra dereito e em periuizo doutro por amor ou por peita, fica sospëso do oficio por huü ano e he theudo dentregar a outra parte quãto per sua sëtença perdeo e demais se he oficiall na igreia, he irregular e nõ pode seer absolto senom pollo papa de Roma següdo diz a degratal.

Chaves, século XVIII
Cortesia de causamerita
Següdo dizë os sãctos cada huü iuiz e moormente eclesiastico tã firme e tan estauell deue a seer ë iulgãdo dereito que nõ deue a leixar a iulgar todo aquello que dereito for por medo de pessoa que no mundo aia, në por periigoo que lhe ende posa uiir, nem por amor në por peita në por odio, que alguë aia ca estas quatro cousas sõ porque algüas uezes algüus iuyzes nom iulgã dereito cõuem a saber temor, cobiiça, et cetera, unde uersus quatuor ista timor, odium, dilectio sësus, sepe solët hominü peruertere sësus. Onde bë deue a parar mëtes todo iuiz e deue saber següdo diz um degredo que se algüa sëtëça da contra dereito por algüa destas cousas ou por outra quallqueer que ëtende, deue a ëtregar aquell comtra que deu a sentença todo aquello que per ella perdeu saluo se fezese aa outra parte que lho ëtregasse e demais segumdo as leis dos emperadores he theudo a outras muitas penas. E este tall por este pecado deue a receber mui grãde peemdemça». In Projecto Vercial.

http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/revistas/revistaicalp/idconfissom.pdf

Cortesia de Alfarrabio Di UMinho/Projecto Vercial/JDACT

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nadir Afonso: Toda a arte se limita a descobrir e representar formas simples

diariodetrasosmontes
Nadir Afonso é um arquitecto e notável pintor português. Nasceu na cidade de Chaves no ano de 1920.
De acordo com o Sentido da Arte que expressa no seu sítio oficial da Net, Nadir Afonso analisa os mecanismos da criação artística a partir de quatro princípios:
  • Sob a forma de condições de existência, as leis preexistem no cosmos;
  • Universo e obra de arte mantêm com estas leis relações de semelhança;
  • Mediante a sensibilidade receptiva a esse meio legítimo que o criador concebe o objecto;
  • Para sentir as qualidades próprias do objecto criado, seja necessário contemplar as leis. 

Começando por uma explicação dos erros da percepção, o autor prossegue enumerando as contradições em que caem normalmente os estetas e historiadores do fenómeno artístico, acabando por mostrar que o Sentido da Arte não está na intencionalidade do sujeito, nem na extensão do objecto, mas nas condições reais da existência.



Para Nadir Afonso, não há nenhuma necessidade de entremear a arte com qualquer magia e mitologia, ou de acreditar que ela expressa estados da alma e paixões do corpo. O único mistério da arte é o da preexistência das leis. Mistério que o autor não procura resolver através de uma nova metafísica, dado que apenas lhe interessa perceber a relação entre o acto humano de criação e as causas primeiras. Para o efeito, Nadir Afonso dedica-se particularmente aos fenómenos da percepção das formas geométricas anteriores ao homem - sol e disco lunar, superfícies do céu e do mar limitadas pela linha do horizonte, troncos que se entrecruzam em quadrados, triângulos e rectângulos, pois são estas as figuras básicas da Arquitectura, da Pintura e da Escultura, como das restantes artes. Para ele, toda a arte se limita a descobrir e representar estas formas simples, ou a aduzir-lhes as estruturas mais desenvolvidas que delas decorrem. Deixando de lado a criação «ex nihilo», Nadir Afonso insiste na ideia de que a originalidade de cada objecto evoca os outros, expressando simultaneamente a perfeição das figuras para o sujeito, dentro de uma totalidade que tende para a harmonia da bela forma que confere à arte a sua universalidade.
Com toda a amizade para Nadir. Com um abraço para a cidade de Chaves.
JDACT