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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Águia e o Dragão. Serge Gruzinski. «Em 1518 e 1519, Zhengde conduziu pessoalmente campanhas militares no norte, contra os mongóis, e no sul, em Jiangxi…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Fontes coreanas assinalam a presença de portugueses no ambiente imperial, onde se teriam beneficiado com os serviços de um guia e de um intérprete, o negociante muçulmano Khójja Asan. Em México-Tenochtitlán e na mesma época, Hernán Cortés encontra Moctezuma, o chefe da Tríplice Aliança ou, se preferir, o imperador dos astecas.

Os dois imperadores
Primeiro, Zhengde. Em junho de 1505, em Beijing, Zhu Houzhao sucedeu ao seu pai, o imperador Hongzhi, sob o nome imperial de Zhengde. Tendo subido ao trono aos catorze anos, o décimo imperador Ming morrerá em 1521. O seu reinado foi depreciado pelos cronistas. Se dermos crédito a eles, Zhengde teria abandonado os assuntos do Estado para se entregar a uma vida de prazeres. Preferia viajar para fora da Cidade Proibida, deixando que os seus eunucos predadores amealhassem fortunas. Na verdade, Zhengde era um guerreiro que se esforçava para fugir à tutela da alta administração a fim de reatar com a tradição de abertura, para não dizer de cosmopolitismo, da precedente dinastia mongol, os Yuan. Passava a maior parte do seu tempo fora do palácio imperial e gostava de se rodear de monges tibetanos, clérigos muçulmanos, artistas oriundos da Ásia Central, guarda-costas jurchen e mongóis, quando não frequentava as embaixadas estrangeiras de passagem por Beijing. Ele teria até proibido o consumo de porco para melhorar as suas relações com as potências muçulmanas da Ásia Central. Em 1518 e 1519, Zhengde conduziu pessoalmente campanhas militares no norte, contra os mongóis, e no sul, em Jiangxi. Em 1521, decide liquidar um príncipe rebelde e manda executá-lo em Tongzhou. A sua imagem não sairá engrandecida desse episódio. Pelo menos, essa é a impressão deixada pelas crónicas oficiais e pelas gazetas aparecidas após a sua morte, que são unânimes em fazer do seu reinado uma era de transtornos e de declínio (moshi). Êxodo de camponeses para as minas e as cidades, ascensão dos parvenus, revolução das tradições, costumes locais varridos pelas mudanças, cobranças abusivas perpetradas pela administração, mal-estar e agitação da plebe, boom do contrabando com os japoneses, o balanço que a história oficial reteve não é muito brilhante. Sem contar as catástrofes naturais, a inundação e a fome de 1511, que ninguém hesita em lançar à conta da crise que atinge a sociedade. Ao mesmo tempo, são incontáveis as novas fortunas, a produção aumentou por toda parte e o comércio internacional é mais próspero do que nunca.
Em 1520, o senhor da China, embriagado, cai do barco imperial nas águas do Grande Canal, a principal artéria que liga o norte ao sul do país. A febre ou a pneumonia que ele contrai após esse banho forçado o matará no ano seguinte, em 20 de Abril, com trinta anos. Como a água é o elemento do dragão, alguns cronistas acreditaram que os dragões foram responsáveis pelo seu fim. Alguns meses antes, criaturas estranhas teriam perturbado a calma das ruas de Beijing. Atacavam os passantes, ferindo-os com as suas garras. Eram chamadas de sombrias aflições. O ministério da Guerra se encarregou de estabelecer a ordem e os boatos se dissiparam. Zhengde, que sempre se mostrara curioso por coisas estrangeiras, havia encontrado os portugueses da embaixada pouco antes de morrer. Mas, aos olhos de seus contemporâneos e sucessores, o episódio permanecerá insignificante. Não lhe valerá o renome póstumo e trágico que se ligará à pessoa do tlatoani de México-Tenochtitlán, Moctezuma Xoyocotzin. Um filme feito em 1959, Kingdom and the Beauty, Reino e a beleza, em plena época comunista, não bastará para imortalizar as extravagâncias de um soberano que se disfarçava de homem do povo para se entregar aos prazeres». In Serge Gruzinski, A Águia e o Dragão, Edições 70, 2015, ISBN 978-972-441-844-5.

Cortesia de E70/JDACT

A Águia e o Dragão. Serge Gruzinski. «Em 1520, Carlos V, Francisco I e Henrique VIII são os astros ascendentes da cristandade latina. Regente de Castela desde 1517…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Que horas são lá..., do outro lado?, havíamos nos interrogado sobre a natureza dos vínculos que se estabeleceram desde o século XVI entre o Novo Mundo e o mundo muçulmano. Essas regiões foram então confrontadas com os primeiros efeitos da expansão europeia sobre o globo. Colombo estava convencido de que a sua descoberta forneceria o ouro com o qual os cristãos retomariam Jerusalém e esmagariam o islão. O Império Otomano, por sua vez, se inquietava por ver um continente desconhecido pelo Alcorão e pelos sábios do islão entregue à fé e à rapacidade dos cristãos. Não se poderia abordar a globalização que progressivamente fez do globo o cenário de uma história comum sem considerar o que se deu desde essa época entre terras do islão, da Europa e da América. Mas será suficiente? Se a adjunção de uma quarta parte do mundo é o registo de nascimento da globalização ibérica, a irrupção da China nos horizontes europeus e americanos constitui outra perturbação. O facto de ela ter sido, com poucos anos de diferença, contemporânea ao descobrimento do México deveria ter chamado nossa atenção mais cedo, mas o nosso olhar, por longo tempo retido pela Mesoamérica, havia esquecido que ela não é o extremo do mundo: como repetiam os antigos mexicanos, é o meio. No século XVI, por duas vezes os ibéricos visaram conquistar a China. Mas o desejo deles nunca se realizou. Parafraseando o título da célebre peça de Jean Giraudoux, A guerra da China não acontecerá. Alguns, um pouco tarde, lamentarão isso. Outros, junto connosco, reflectirão sobre aquilo que nos ensinam essas veleidades de conquista, contemporâneas da colonização das Américas e da exploração do oceano Pacífico. China, Pacífico, Novo Mundo e Europa ibérica são os protagonistas de uma história que surge do seu encontro e enfrentamento. Essa história se resume numa simples frase: no mesmo século, os ibéricos falham na China e têm êxito na América. É isso que nos é revelado por uma história global do século XVI, concebida como outra maneira de ler o Renascimento, menos obstinadamente euro-centrada e, sem dúvida, mais em harmonia com o nosso tempo.

Dois Mundos Tranquilos
Em 1520, Carlos V, Francisco I e Henrique VIII são os astros ascendentes da cristandade latina. Regente de Castela desde 1517, sagrado rei da Germânia em 1520, Carlos de Gand nasceu com o século. Francisco I torna-se rei da França em 1515 e Henrique VIII, da Inglaterra em 1509. Em Portugal, o velho Manuel I, o Venturoso, ainda tem força suficiente para contrair novas núpcias, agora com a irmã do rei Tudor. Diante dos rivais franceses e ingleses, Carlos de Gand e Manuel I alimentam ambições oceânicas que projectam os seus reinos em direcção a outros mundos. Em Novembro de 1519, um aventureiro espanhol, Hernán Cortés, à frente de uma pequena tropa de infantes e de cavaleiros, entra em México-Tenochtitlán. Em Maio de 1520, uma embaixada portuguesa, de efectivos ainda mais modestos, penetra em Nanjing. É nessa cidade que o emissário Tomé Pires é recebido pelo imperador da China, Zhengde». In Serge Gruzinski, A Águia e o Dragão, Edições 70, 2015, ISBN 978-972-441-844-5.

Cortesia de E70/JDACT

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A Águia e o Dragão. Serge Gruzinski. «O servo chinês de O sapato de cetim diz a Don Rodrigue, vice-rei das Índias: nós nos tomamos um pelo outro e não há mais como nos desenvencilhar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Escritores da primeira metade do século XX percorreram os caminhos que nos levaram do México à China. Por muito tempo Jean Giraudoux nos sugeriu um título, A guerra da China não acontecerá, que foi preciso abandonar. Paul Claudel soube ressuscitar mundos que, hoje, talvez sejamos mais capazes de compreender. Nas jornadas de O sapato de cetim (1929) dialogam seres vindos dos quatro cantos do globo. O palco deste drama é o mundo, e mais especialmente a Espanha no final do século XVI. Ao comprimir os países e as épocas, Claudel não pretendia fazer um trabalho de historiador, mas nos mergulhava nos remoinhos de uma globalização. Uma globalização que não era nem a primeira nem a última, mas que se instalou rapidamente durante o século XVI, na esteira das expedições portuguesas e espanholas. A águia asteca e o dragão chinês sofreram, então, os primeiros efeitos da desmesura europeia.
Essa globalização é um fenómeno diferente da expansão europeia, que mobilizou muitos recursos técnicos, financeiros, espirituais e humanos. Ela respondeu a opções políticas, cálculos económicos e aspirações religiosas que se conjugaram, com menor ou maior eficácia, para atrair marinheiros, soldados, padres e comerciantes a milhares de quilómetros de distância da Península Ibérica, num deslocamento em todas as direcções do mundo. A expansão ibérica provocou reacções em cadeia e, com frequência, choques que desestabilizaram sociedades inteiras. Foi o que aconteceu na América. A Ásia enfrentou algo mais forte do que ela, quando não atolou nos pântanos e nas florestas da África. A imagem de uma progressão inelutável dos europeus, quer exaltemos as suas virtudes heroicas e civilizadoras, quer a condenemos às gemónias, é uma ilusão da qual é bem difícil se desfazer.
Resulta de uma visão linear e teleológica da história que continua a aderir à pena do historiador e ao olho do leitor. O que é equivocado quanto à expansão ibérica é ainda mais errado quanto à globalização, que podemos definir como a proliferação de todos os tipos de vínculo entre partes do mundo que até então se ignoravam ou se relacionavam com enorme distanciamento. A que se desenrola no século XVI abrange ao mesmo tempo a Europa, a África, a Ásia e o Novo Mundo, entre os quais com frequência se desencadeiam interacções de intensidade sem precedentes. Um tecido ainda frágil, cheio de buracos imensos, sempre prestes a rasgar ao menor naufrágio, mas indiferente às fronteiras políticas e culturais, começa a se estender por todo o planeta. Quais são os protagonistas dessa globalização? Por bem ou por mal, populações africanas, asiáticas e ameríndias participam dela, mas os portugueses, os espanhóis e os italianos fornecem o essencial da energia religiosa, comercial e imperialista, ao menos nessa época e por um bom século e meio. O servo chinês de O sapato de cetim diz a Don Rodrigue, vice-rei das Índias: nós nos tomamos um pelo outro e não há mais como nos desenvencilhar.
O que os contemporâneos percebem de tudo isso? Com frequência o olhar deles é mais penetrante do que o dos historiadores que se sucederam para observá-los. Homens do século XVI, e não somente europeus, compreendem a amplitude do movimento ao qual são confrontados, e na maioria das vezes o fazem em termos religiosos, a partir das perspectivas que a missão lhes abre. Mas a globalização se desenha também no espírito dos que são sensíveis à aceleração das comunicações entre as diferentes partes do mundo, à descoberta da infinita diversidade das paisagens e dos povos, às extraordinárias oportunidades de lucro trazidas por investimentos projectados no outro lado do globo, ao crescimento ilimitado dos espaços conhecidos e dos riscos enfrentados. Nada parece resistir à curiosidade dos viajantes, ainda que muitas vezes estes não fossem a lugar algum sem o auxílio de seus guias e dos seus pilotos nativos.
Pode-se atribuir o descobrimento da América ou a conquista do México a figuras históricas como Hernán Cortés ou Cristóvão Colombo. O assunto é discutível, mas o procedimento é cómodo. A distância dos séculos e a nossa ignorância cada vez maior militam para que aceitemos essas simplificações. Já a globalização não tem autor. Ela responde em escala planetária aos embates provocados pelas iniciativas ibéricas. Mistura histórias múltiplas cujas trajectórias de repente se entrechocam, precipitando desenlaces imprevistos e até então inconcebíveis. A globalização não tem nada de uma maquinaria inexorável e irreversível que executaria um plano preconcebido com vistas à uniformização do globo. Portanto, seria equivocado acreditar que nossa globalização nasceu com a queda do muro de Berlim. Seria igualmente ilusório imaginar que ela é a gigantesca árvore nascida de uma semente plantada no século XVI por mãos ibéricas. Parece, contudo, que o nosso tempo é devedor dessa época longínqua, por várias razões, se aceitarmos que a ausência de filiação directa ou de linearidade não transforma o curso da história numa cascata de acasos e de acontecimentos sem consequências. É no século XVI que a história humana se inscreve num cenário que se identifica com o globo. É então que as conexões entre as partes do mundo se aceleram: Europa/Caribe a partir de 1492, Lisboa/Cantão a partir de 1513, Sevilha/México a partir de 1517 etc. Acrescentemos outra razão que está no cerne deste livro: é com a globalização ibérica que a Europa, o Novo Mundo e a China se tornam parceiros planetários.
A China e a América têm um papel importantíssimo na globalização actual. Mas por que a China e a América se encontram face a face no xadrez terrestre, de onde vem isso? E porque a América dá hoje sinais de esgotamento, enquanto a China parece ter tomado impulso para lhe arrebatar o primeiro lugar?» In Serge Gruzinski, A Águia e o Dragão, Edições 70, 2015, ISBN 978-972-441-844-5.

Cortesia de E70/JDACT

domingo, 3 de abril de 2016

Portugal e a China. A Embaixada de Tomé Pires. Rui Manuel Loureiro. «… a fazer 5 mensuras diante de hum muro das casas do rey, todos em ordem, com ambos os jiolhos no chão e a cabeça e o rosto na terra, de bruços»

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«(…) A embaixada portuguesa encontrava-se em Pequim desde finais de 1520, ou talvez mesmo desde Agosto desse ano, encerrada no palácio destinado às missões estrangeiras, em humas casas de grandes curraes (Cartas). Tomé Pires e os seus companheiros apenas abandonavam estes aposentos para assistirem a sessões de instrução protocolar. Uma vez chegados à capital do Celeste Império, os estrangeiros que deveriam ser recebidos em audiência pelo Filho do Céu eram obrigados a ensaiar minuciosamente todos os passos da cerimónia. Uma das componentes obrigatórias do protocolo imperial incluía um conjunto de prostrações a realizar diante do soberano chinês. De acordo com Cristóvão Vieira, os portugueses, durante a sua estada em Pequim, dirigiam-se quinzenalmente ao palácio imperial, onde eram compelidos a fazer 5 mensuras diante de hum muro das casas do rey, todos em ordem, com ambos os jiolhos no chão e a cabeça e o rosto na terra, de bruços. Assim permaneciam até os mandarem alevantar 5 vezes a esta parede (Cartas). A descrição de Cristóvão Vieira corresponde basicamente ao koutou chinês, aportuguesado em co-tau, cerimónia ritual efectuada diante do imperador, que consistia em ajoelhar e tocar com a cabeça no chão repetidas vezes, normalmente nove. Entretanto, a carta de Vieira, único documento escrito por um membro da embaixada que possuímos, não se refere praticamente a Pequim, o que pode levar a supor que os portugueses não tiveram qualquer oportunidade de visitar demoradamente a cidade, estando quase sempre confinados aos seus aposentos ou encerrados em repartições oficiais. De facto, tinha-lhes sido aplicado um estatuto de semi-prisioneiros.
Depois de resolver a questão da revolta, Zhengde decidiu regressar a Pequim, onde chegou em meados de Janeiro de 1521. Durante a viagem de regresso à capital, porém, sofrera um acidente de barco, do qual não conseguiu recuperar. Depois de três meses de doença, o imperador chinês faleceu na Cidade Proibida, em Abril de 1521. Ainda antes desta data, a embaixada portuguesa começara a enfrentar os primeiros problemas com a burocracia imperial. Portugal nunca antes tivera relações oficiais com a China. Consequentemente, o país dos Folangji não figurava nas listas de estados tributários, cujas delegações eram periodicamente autorizadas a visitar Pequim. Em termos teóricos, os funcionários chineses poderiam aceitar pedidos de submissão à autoridade chinesa vindos de estados asiáticos. Havia exemplos anteriores de soberanos que tinham solicitado o selo imperial, como forma de reconhecimento da suserania da China sobre os seus territórios. Assumindo um compromisso meramente formal, estes governantes beneficiavam de uma protecção tutelar, que os punha ao abrigo, de um modo razoavelmente eficaz, da excessiva ambição territorial de vizinhos mais poderosos. Este sistema de relações externas não possuía qualquer equivalente aproximado na tradição europeia. Antes pelo contrário, el-rei Manuel I assumia nessa época uma postura quase imperial e apresentava-se aos soberanos orientais numa base de completa igualdade. Um dos motivos principais do fracasso da primeira missão portuguesa a Pequim seria precisamente a enorme distância que separava as formas portuguesa e chinesa de entender a política externa e as relações com outros estados. Ao chegar a Pequim, Tomé Pires apresentou às autoridades imperiais as suas credenciais. O embaixador era portador de uma carta selada, enviada pelo nosso monarca, cujo conteúdo se desconhece, mas onde, certamente, o Rei Venturoso escrevia a Zhengde em termos de igualdade, como o fizera antes a outros monarcas asiáticos, mostrando desejos de encetar relações de amizade e comércio. Nas palavras de João de Barros, el-rei Manuel I escrevia ao modo que elle usava escrever aos Reys Gentios daquellas partes». In Rui Manuel Loureiro, A Malograda Embaixada de Tomé Pires a Pequim, Portugal e a China, Conferências, Séculos XVI-XIX, Coordenação de Jorge Santos Alves, Fundação Oriente, Lisboa, 1997-1998, ISBN 972-9440-92-1.

Cortesia de FOriente/JDACT

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Tai-Pan. James Clavell. «… em chinês, significava chefe supremo. Numa companhia, exército, armada ou nação só há um homem desses, aquele que exerce o poder absoluto. Pois, disse Struan. Ele era o Tai-Pan da Casa Nobre»

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«Dirk Struan subiu à tolda do navio-chefe H.M.S. Vengeance e caminhou em direcção ao portaló. O navio de linha, de 74 peças estava ancorado a meia milha da ilha. Em torno estavam os restantes dos navios de guerra da esquadra, os navios para o transporte das forças expedicionárias, os navios de carga e os veleiros do ópio dos negociantes chineses. Amanhecia, naquela cinzenta e fria terça-feira, 26 de Janeiro de 1841. Enquanto Struan caminhava pelo convés principal, ia olhando para a praia e sentia a excitação fervilhar dentro de si. A guerra com a China fora como ele planeara. A vitória havia sido alcançada de acordo com suas previsões. O prémio da vitória, a ilha, era algo que ele cobiçava há vinte anos. Agora, ia desembarcar para presenciar a cerimónia de posse, para ver a ilha chinesa tornar-se uma jóia na coroa de sua majestade britânica, a rainha Vitória. A ilha era Hong Kong. Trinta milhas quadradas de pedra montanhosa, ao norte da embocadura do grande Rio Pérola, ao sul da China. A novecentos metros do continente. Inóspita. Árida. Desabitada, tendo apenas ao sul uma pequena vila de pescadores. Exactamente no caminho das monstruosas tempestades que explodiam todo ano, originadas no Pacífico. Limitada a leste e a oeste por perigosos baixios e recifes. Sem utilidade para o mandarim, nome dado a qualquer oficial do império chinês, em cujos domínios ficava. Mas Hong Kong continha o maior porto da terra. E era o trampolim de Struan para a China. Aguentem aí!, bradou o jovem oficial de vigia ao fuzileiro de capote vermelho. A embarcação do sr. Struan para o portaló dos oficiais. Sim, senhor! O fuzileiro inclinou-se por sobre a amurada e repetiu a ordem…
Struan era um homem gigantesco, com o rosto castigado por mil tempestades. A sua casaca azul tinha botões prateados e as calças brancas e apertadas estavam enfiadas, descuidadamente dentro das botas. Estava armado da maneira usual, uma faca na prega da casaca e outra na bota direita. Tinha quarenta e três anos, cabelos ruivos, olhos verdes-esmeralda. Struan olhou a ilha, por um momento. Depois, virou-se para o contramestre. Larga! Afinal, depois de tanto tempo, hein, Tai-Pan?, disse Robb. Tai-Pan, em chinês, significava chefe supremo. Numa companhia, exército, armada ou nação só há um homem desses, aquele que exerce o poder absoluto. Pois, disse Struan. Ele era o Tai-Pan da Casa Nobre.
Uma trampa p’ra esta fedorenta ilha, disse Brock, cujo olhar percorria a praia e se elevava pelas montanhas. A China inteira a nossos pés, e tudo que conseguimos é este rochedo estéril e inútil e encharcada. Ele estava na praia, acompanhado de dois de seus colegas negociantes na China. Espalhados em torno deles, havia outros grupos de negociantes e oficiais da força expedicionária. Estavam todos à espera de que o oficial da Marinha Real começasse a cerimónia. Uma guarda de honra de vinte fuzileiros encontrava-se formada em duas linhas bem arrumadas, junto ao mastro, o tom escarlate dos seus uniformes como um repentino salpico de cor. Perto deles, havia grupos desarrumados de marinheiros que haviam acabado de lutar para trazer aquele mastro e a sua bandeira até o solo pedregoso. Oito badaladas era a hora de içar a bandeira, disse Brock, com a voz rouca de impaciência. Já se passou uma hora. P’ra que raio é esta demora?
Dá má joss praguejar à terça-feira, sr. Brock, disse Jeff Cooper. Era um americano magro de Boston, com nariz adunco, e usava casaca negra e chapéu alto de feltro, com uma inclinação audaciosa. Muito má! O companheiro de Cooper, Wilf Tillman, ficou hirto ao sentir a intenção empertigou-se ligeiramente, sentindo as ocultas arestas dnos fazem falta, a voz nasalada do companheiro mais jovem. Era atarracado, rubicundo e natural do Alabama. Eu digo-lhe como é, toda esta estuporada caca de mosca é que dá má joss!, Brock. Joss significava em chinês Sorte e Destino e Deus e o Diabo ao mesmo retorquiu tempo. Infernalmente má. Melhor que não seja, senhor, disse Tillman. O futuro do comércio da China está agora aqui, com boa ou má joss. Brock olhou-o com firmeza. Hong Kong não tem futuro nenhum. Portos abertos no continente chinês é que precisamos, e vocês sabiam-no, c’os diabos!» In James Clavell, Tai-Pan, 1966, tradução de Maria Teresa Ramos, Editorial Ibis, Círculo de Leitores, 1982.

Cortesia de EIbis/CLeitores/JDACT

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau»

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Finalmente, um pé em terra
«(…) Finalmente, e segundo as fontes chinesas da época, o facto de os portugueses conseguirem trazer para comerciar uma mercadoria raríssima e muito apreciada pelo imperador, em Beijing, o âmbar cinzento (obtido no Sueste Asiático), seria outro dos factores que abriram as portas ao comércio e mesmo à instalação em terra. Marginal à coroa portuguesa (que nesse ano de 1557 via morrer João III e aparecer no horizonte um  Sebastião ainda criança), ao Estado da Índia e aos imperadores, em Beijing, que durante muitos anos a desconheceram, a realidade de Macau iria impor-se. Até hoje.

Fernão Mendes Pinto e a China
Foi uma vida aventurosa. Pelas suas próprias palavras, foi vendido 16 vezes, feito escravo 13 e naufragou outras cinco. Fernão Mendes Pinto terá nascido em Montemor-o-Velho, por volta dos anos de 1509, 1511 ou mesmo 1514, no seio de uma famí1ia pobre. Em Dezembro de 1521, é trazido por um tio para Lisboa, nessa altura com 60 mil habitantes e o centro de um reino dependente dos seus rendimentos do comércio com a Ásia e a África (65 por cento), assolado por pestes e fomes e pelo fundamentalismo religioso da Inquisição. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal, ao serviço da casa do fidalgo Francisco Faria. e a partir de 1527 é moço de câmara na casa de Jorge, mestre de Santiago e filho bastardo de João II. Em 11 de Março de 1537, parte para a Ásia, numa armada de cinco naus comandada por Pedro Silva. Ia ao encontro de uma Ásia imensa e rica, habitada por 250 milhões de pessoas, sede de civilizações muito mais avançadas, em muitos aspectos, do que a europeia. Nesse mar de gentes e riquezas, uns escassos cinco mil portugueses, munidos da superioridade técnica militar (canhões), chegavam para controlar a maioria dos circuitos comerciais e estabelecer feitorias-fortalezas ao longo das costas do Índico e do Pacífico.
Nos primeiros anos, Fernão terá vivido como soldado, no Indico Ocidental (Goa, Diu, Ormuz), a partir de 1539 em Malaca e. até 1557, como mercador, sobretudo no Sueste Asiático (zonas de Patane, Sião, Pegu) e na Ásia Oriental (litorais da China e do Japão). Uma exposição dedicada a Fernão Mendes Pinto e os Mares da China esteve recentemente patente nas instalações da Missão de Macau, em Lisboa. Comissariada pelo historiador Luís Filipe Barreto, ela deu azo a um catálogo com texto de sua autoria. A vida de mercador aventureiro de Fernão Mendes Pinto deve ter começado por volta dos anos de 1539-40. É então enviado pelo capitão de Malaca, Pêro Faria, ao rei de Aru, em Samatra, e a Patane, na costa oriental da Península Malaia e Sião, na companhia de António Faria, escreve o historiador. Patane, tributária do Sião/Aiuthia, era um porto estratégico para os mercadores malaios e chineses e uma zona de produção de pimenta. A China consumia cerca de 75 por cento da pimenta do Sueste Asiático. Em Patane concentravam-se 300 portugueses ligados ao comércio privado da pimenta. cravo, maça, noz-moscada, âmbar, têxteis indianos de algodão, sedas, porcelanas, cânfora, almíscar, pau-da-china, ruibarbo, metais preciosos, moeda e armas de fogo. Entre 1541 e 1543, o nosso aventureiro vive em Martabão, no reino de Pegu, servindo no exército do rei da Birmânia. O mais tardar em 1543, Fernão Mendes Pinto vai, pela primeira vez, à China e integra-se nas redes de comércio entre o Sião, Pegu, a China e o Japão. Os portugueses começam a fazer comércio em Macau por volta de 1535, e a residir aí por volta de 1557. Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de FOriente/JDACT

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Jou Pu Tuan. Li Yii. «Chegou o momento crítico em que as tranças esticadas, emblema da meninice, se desmancham para dar lugar a madeixas lisas. O menino transformara-se num jovem. Não tardou a chegar a altura do primeiro exame…»

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«A nossa história situa-se nos tempos da dinastia Mongol (1280-1368), no reinado de Chih-ho, harmonia alcançada, 1328). Nessa altura vivia em Kua-ts'ang-shan, a Montanha vestida de azul, um dhûta, ou seja um monge budista, cujo templo era chamado Ku-feng, Cume Deserto. Nascera no condado de Chuchow, na província de Chekiang, e, na sua mocidade, fora um aluno brilhante da teoria política de Confúcio, destinado a vir ocupar um alto posto no governo. As suas tendências, porém, levavam-no a inclinar-se mais para a meditação e para a reflexão filosófica das origens e da essência das coisas do que para a actividade prática de um governo oficial. Quando ainda andava de fraldas costumava murmurar uns sons incompreensíveis que se assemelhavam muito à lenga-lenga de um estudante a decorar textos clássicos. Isto deixava os pais admirados. Um dia veio bater-lhes à porta um mendigo que era monge e andava a pedir esmola para uma obra piedosa. A criada trazia o menino ao colo quando veio abrir. O monge, ao ouvir a criança balbuciar num tom entre o riso e o choro, encheu-se de espanto e exclamou: mas o que ele diz são máximas tiradas do célebre Leng-yen-ching, Sutra da Severidade Angular!, traduzido para chinês em 1312. É isso que o menino está a recitar. Não há dúvida de que reincarnou nele a alma de um antigo santo, o qual fala pela sua boca. E dirigiu-se aos pais da criança, pedindo para lhes confiarem o filho; despertaria nele a vocação religiosa e torná-lo-ia seu discípulo. Os pais, que eram adeptos convictos e esclarecidos de Confúcio, consideraram aquelas palavras como uma superstição tola e recusaram, indignados. O pai começou muito cedo a ensinar-lhe a escrever e a ler os livros clássicos. O rapazinho dava mostras de uma compreensão rápida e extraordinária; bastava ler uma única vez um texto para este lhe ficar gravado na memória a ponto de o recitar de cor. Contudo, caso estranho, logo de princípio a sua tendência ia para os escritos budistas. Muitas vezes o pai o surpreendeu a interromper os estudos para se dedicar secretamente à leitura dos sutras budistas. O pai e a mãe repreendiam-no severamente, chegando mesmo a castigá-lo com varadas, sem que ele renunciasse a esta secreta ocupação.
Chegou o momento crítico em que as tranças esticadas, emblema da meninice, se desmancham para dar lugar a madeixas lisas. O menino transformara-se num jovem. Não tardou a chegar a altura do primeiro exame e o pai mandou-o para a academia da província a fim de se preparar. Aí distinguiu-se de tal forma que o director o nomeou seu assistente e monitor junto dos outros alunos. No entanto o rapaz mostrava-se pouco interessado em passar nos exames; não se sentia atraído por um lugar de carreira tradicional no governo nem pelos êxitos mundanos que os pais lhe prometiam. Então, pouco tempo depois de ter feito o primeiro exame, os pais morreram e ele encontrou-se livre para seguir a sua inclinação. Observou, claro está, os três anos de luto tradicionais, como competia a um filho dedicado, mas depois pôs em prática o projecto, há muito amadurecido, de renunciar, ao mundo. Distribuiu sem hesitar a herança, a sua casa, as suas terras e dez mil moedas de prata, pelos membros da família. Fez com as suas próprias mãos um saco de coiro, reuniu os escassos objectos indispensáveis a um eremita, um cajado, uma esteira para orar, alguns pergaminho e sutras, mandou rapar o cabelo e dirigiu-se às montanhas para ali viver como eremita». In Li Yii, Jou Pu Tuan, Círculo de Leitores, Tradução de Maria Isabel Braga, Novembro de 1982.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Segredo da Flor do Ouro. Jung e Wilhelm. «Seria melhor confessar que não compreendemos este texto esotérico, ou então que não queremos compreendê-lo. Acaso não pressentimos que uma tal colocação anímica, que permite olhar fundo e para dentro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A imitação ocidental é trágica, por ser um mal-entendido que ignora a psicologia do Oriente. É tão estéril como as escapulidas modernas para o Novo México, para as ilhas beatíficas dos Mares do Sul, ou para a África Central onde o homem culto pode brincar de ser primitivo, a fim de fugir disfarçadamente das suas tarefas imediatas. Não se trata de macaquear o que é visceralmente estranho a nós, ou de imitar o missionário, mas de edificar a cultura ocidental que sofre de mil males; isto deve ser feito, no entanto, no lugar adequado, em busca do autêntico europeu, em sua trivialidade ocidental, com seus problemas matrimoniais, suas neuroses, suas ilusões político-sociais e enfim com a sua total desorientação diante do mundo. Seria melhor confessar que não compreendemos este texto esotérico, ou então que não queremos compreendê-lo. Acaso não pressentimos que uma tal colocação anímica, que permite olhar fundo e para dentro, desprendendo-se do mundo, só é possível porque esses homens satisfizeram de tal modo as exigências instintivas de sua natureza, que pouco ou nada mais os impede de ver a essência invisível do mundo? E acaso a condição de possibilidade da libertação desses apetites, dessas ambições e paixões que nos detêm no visível, não reside justamente na satisfação plena de sentido das exigências instintivas, em lugar de uma repressão prematura determinada pela angústia? E não se liberta o olhar para o espiritual quando a lei da terra tiver sido obedecida? Quem conhecer a história dos costumes chineses ou então o I Ging através de um estudo minucioso saberá que esse livro sapiencial impregnou o pensamento chinês há milhares de anos. Alguém assim preparado não deixará de lado tais questões. E compreenderá também que as ideias do nosso texto não representam algo de extraordinário para a mentalidade chinesa, mas são conclusões psicológicas inevitáveis. Nos primeiros tempos da cultura cristã a que pertencemos, o espírito e a paixão do espírito eram pura e simplesmente os valores positivos pelos quais valia a pena lutar. Só no ocaso do medievalismo, isto é, no decorrer do século XIX, quando o espírito começou a degenerar em intelecto, surgiu uma reação contra o predomínio insuportável do intelectualismo; cometeu-se então, o que é perdoável, o erro de confundir intelecto e espírito. Este último foi então acusado pelos delitos do primeiro. Na realidade, o intelecto apenas prejudica a alma quando pretende usurpar a herança do espírito, para o que não está capacitado de forma alguma. O espírito representa algo de mais elevado do que o intelecto, abarcando não só este último como os estados afectivos. Ele é uma direcção e um princípio de vida que aspiram às alturas luminosas e sobre-humanas. A ele se opõe o feminino, obscuro, telúrico (Yin), com a sua emocionalidade e instintividade que mergulham nas profundezas do tempo e nas raízes do continuum corporal. Tais conceitos representam, sem dúvida alguma, concepções puramente intuitivas, mas indispensáveis se quisermos compreender a essência da alma. A China não pode prescindir dessas concepções, pois tal como demonstra a história de sua Filosofia, nunca se afastou dos factos centrais da alma a ponto de perder-se no engano de uma supervalorização e desenvolvimento unilaterais de uma função psíquica isolada. Por isso mesmo nunca deixou de reconhecer o paradoxo e a polaridade de tudo o que vive. Os opostos sempre se equilibram na mesma balança, sinal de alta cultura. Ainda que represente uma força propulsora, a unilateralidade é um sinal de barbárie. A reacção que se iniciou no Ocidente contra o intelecto e a favor do eros ou da intuição constitui, na minha opinião, um sintoma de progresso cultural e um alargamento da consciência além dos estreitos limites de um intelecto tirânico.
Longe de mim a intenção de menosprezar a enorme diferenciação do intelecto ocidental. Comparado a ele, pode-se dizer que o intelecto oriental é infantil (sem que isto tenha algo a ver com inteligência!). Se conseguíssemos elevar outra função, isto é, uma terceira função anímica à dignidade que, entre nós, se atribui ao intelecto, o Ocidente poderia ter a esperança de ultrapassar consideravelmente o Oriente. É lamentável, portanto, que o europeu se renegue a si mesmo para imitar o oriental, afectando aquilo que não é. As suas possibilidades seriam muito maiores se permanecesse fiel a si mesmo e se desenvolvesse a partir de sua essência tudo o que o Oriente deu à luz no decurso de milênios. Em geral, sob o ponto de vista irremediavelmente exterior do intelecto, é como se ignorássemos o valor daquilo que o Oriente tanto aprecia. O puro intelecto não apreende a importância prática que as ideias orientais têm para nós, motivo pelo qual pretende classificá-las como curiosidades filosóficas e etnológicas. Tal incompreensão vai tão longe que os próprios sinólogos ignoram o uso prático do I Ging, considerando este livro uma simples colectânea de fórmulas mágicas e abstrusas». In C. G. Jung e R. W. Wilhelm, O Segredo da Flor do Ouro, Um Livro de Vida Chinês, Editora Vozes, tradução de Dora Silva e Maria Appy, 2011, ISBN 978-853-260-382-1.

Cortesia de EVozes/JDACT

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O Segredo da Flor do Ouro. Jung e Wilhelm. «Disse um antigo: “Se o homem errado usar o meio correcto, o meio correcto actuará de modo errado”. Este provérbio chinês, infelizmente muito verdadeiro, contrapõe-se drasticamente à nossa crença no método ‘correcto’…»

Um vajra-mandala lamaico 
Cortesia de wikipedia

O motivo porque é difícil o Ocidental compreender o Oriente
«Como ocidental, e sentindo do mesmo modo específico, experimentei a mais profunda estranheza diante do texto chinês do qual se trata. É verdade que um certo conhecimento das religiões e filosofias orientais auxiliara de certo modo o meu intelecto e a minha intuição, a fim de compreendê-lo, assim como entendo os paradoxos das concepções religiosas primitivas em termos de etnologia ou de religião comparada. Este é o modo ocidental de ocultar o próprio coração sob o manto da chamada compreensão científica. E o fazemos, em parte devido à misérable vanité des savants, que receia e rejeita com terror qualquer sinal de simpatia viva, e em parte porque uma compreensão simpática pode transformar o contacto com o espírito estrangeiro numa experiência que deve ser levada a sério. A nossa objectividade científica reservaria este texto para a perspicácia filológica dos sinólogos, preservando-o cuidadosamente de qualquer outra interpretação. Mas Wilhelm penetrou demais no segredo e na misteriosa vivência da sabedoria chinesa, para permitir que essa pérola intuitiva desaparecesse nas gavetas dos especialistas. No entanto, este fragmento precioso que ultrapassa o conhecimento dos especialistas talvez corra o risco de ser tragado por outra gaveta científica. Menosprezar os méritos da ciência ocidental, porém, equivaleria a renegar as próprias bases do espírito europeu. De facto, a ciência não é um instrumento perfeito, mas nem por isso deixa de ser um utensílio excelente e inestimável, que só causa dano quando é tomado como um fim em si mesmo. A ciência deve servir e erra somente quando pretende usurpar o trono. Deve inclusive servir às ciências adjuntas, pois devido à sua insuficiência, e por isso mesmo, necessita de apoio das demais. A ciência é um instrumento do espírito ocidental e com ela se abre mais portas do que com as mãos vazias. É a modalidade da nossa compreensão e só obscurece a vista quando reivindica para si o privilégio de constituir a única maneira adequada de apreender as coisas. O Oriente ensina-nos outra forma de compreensão, mais ampla, mais alta e profunda, a compreensão mediante a vida. Conhecemos esta última como um sentimento fantasmagórico, que se exprime através de uma vaga religiosidade, motivo pelo qual preferimos colocar entre aspas a sabedoria oriental, remetendo-a para o domínio obscuro da crença e da superstição. Desta forma, ignoramos totalmente o realismo do Oriente. Não se trata porém de intuições sentimentais, de um misticismo excessivo que tocasse as raias patológicas de um ascetismo primitivo e intratável, mas de intuições práticas nascidas da flor da inteligência chinesa e que não temos motivo algum para subestimar. Esta afirmação talvez pareça temerária, provocando a desconfiança de alguns, o que não é de se estranhar, uma vez que é extremo o desconhecimento da matéria em questão. Além disso, a singularidade do pensamento chinês salta à vista, sendo compreensível o nosso embaraço no tocante ao modo pelo qual ele poderia associar-se à nossa forma de pensar. O erro habitual (o teosófico, por exemplo) do homem do Ocidente lembra o do estudante que, no Fausto, de Goethe, recebe um mau conselho do diabo e volta as costas, com desprezo, para a ciência; o erro ao qual me refiro é o de interpretar erroneamente o êxtase oriental, tomando ao pé da letra as práticas da ioga, numa imitação deplorável. Abandonar-se-ia desse modo o único chão seguro do espírito ocidental, para perder-se nos vapores de palavras e conceitos que nunca se originariam em cérebros ocidentais e nunca neles se enxertarão com proveito.
Disse um antigo adepto: Se o homem errado usar o meio correcto, o meio correcto actuará de modo errado. Este provérbio chinês, infelizmente muito verdadeiro, contrapõe-se drasticamente à nossa crença no método correcto, independentemente do homem que o emprega. No tocante a isso, tudo depende do homem e pouco ou nada do método. Este último representa apenas o caminho e a direcção escolhidos pelo indivíduo; é o modo pelo qual o indivíduo actua nesse caminho que exprime verdadeiramente o seu ser. Se assim não fosse, o método não passaria de uma afectação, de algo construído artificialmente, sem raiz e sem seiva, servindo apenas à causa ilegítima do autoengano. Além disso, poderia representar um meio de o indivíduo iludir-se consigo mesmo, fugindo talvez à lei implacável do próprio. Tudo isto está muito longe da consistência e da fidelidade a si mesmo do pensamento chinês. À diferença deste, tratar-se-ia, na hipótese acima formulada, de uma renúncia ao próprio ser, de uma traição a si mesmo e de uma entrega a deuses estranhos e impuros, artimanha no sentido de usurpar uma superioridade anímica e tudo aquilo que é justamente o contrário do método chinês. Essas intuições surgiram da vida mais plena, autêntica e verdadeira, da vida arcaica da cultura chinesa, que cresceu lógica e organicamente a partir dos instintos mais profundos. Tudo isso é para nós inacessível e inimitável». In C. G. Jung e R. W. Wilhelm, O Segredo da Flor do Ouro, Um Livro de Vida Chinês, Editora Vozes, tradução de Dora Silva e Maria Appy, 2011, ISBN 978-853-260-382-1.

Cortesia de EVozes/JDACT

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ervas Silvestres. Lu Xun. «… como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!»

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Diário de um louco
«(…) Eu conheço dois irmãos. É desnecessário referir os seus nomes. Quando ambos frequentavam a escola secundária, éramos bons amigos. Passaram depois os anos e as notícias que me chegavam mais e mais raras se tornavam. Aconteceu porém que, não há muito, ouvi dizer que um deles estava gravemente doente. Aproveitando uma visita que tencionava fazer à terra natal, não deixei de, num salto, ir visitá-lo. Todavia, ao chegar, fui recebido não pelos dois, mas só pelo mais velho. Este, agradecendo a minha deslocação vindo de tão longe, informou-me estar já o seu irmão recuperado e em viagem. Ia tomar posse de um cargo oficial, após as respectivas provas. E, depois de uma sonora gargalhada, mostrou-me dois volumes manuscritos que constituíam um diário do meu antigo amigo. Referiu o quanto aquela leitura poderia mostrar como o seu irmão mais novo estivera doente. De todo o modo, não punha qualquer problema em que aquilo fosse lido pelos amigos do enfermo. Assim sendo, trouxe eu comigo o dito diário. Não foi necessário mais do que uma passagem de olhos para perceber quanto a sua doença era do foro da mente, da esquizofrenia ou do complexo da perseguição. Linguagem desordenada e sem lógica, do sem sentido ao disparate, sem ordem cronológica nem referência a datas, apenas a desigualdade no carregado do traço e a irregularidade caligráfica mostravam terem sido escritos em tempos necessariamente diferentes. Se bem que, de vez em vez, lá surgissem períodos um pouco mais coerentes. Mostro uma boa parte do referido texto como algo de exemplar ou como matéria para o estudo dos médicos. É como o que segue. Não corrigi um único erro. Apenas alterei os nomes que foram surgindo, apesar de dizerem respeito tão só a pouco importantes aldeões. Quanto ao título, foi dado pelo próprio, depois da sua recuperação. Assim o deixo». In 2 de Abril do ano 7.

«Esta noite está um belíssimo luar. E eu que não via um luar assim há mais de trinta anos! Hoje contemplo-o, e isso dá-me uma grande alegria. Só agora compreendo o quanto foi na escuridão que passei os meus últimos trinta anos. Preciso, porém, de ter muito cuidado. Senão..., por que é que aquele cão da família Zhao terá olhado tão insistentemente para mim? Eu tenho razão em ter medo.
Hoje não há lua. Sei como isso é um mau sintoma. De manhã, quando saía de casa, silenciosamente, bem que reparei no olhar estranho do senhor Zhao. Parece que tem medo de mim, que me quer mal. Também uma boa meia-dúzia de aldeões cochichavam sobre a minha pessoa, parecendo temer-me. Todos os que fui encontrando pelo caminho assim faziam. Um deles, mais bruto, sorriu-me, a boca muito aberta. Senti um frio percorrer-me da cabeça aos pés. Bem sei que eles têm tudo planeado. Mas não me deixo intimidar, sigo o meu caminho. Estava um grupo de crianças mais à frente. Também segredavam sobre mim e os seus olhares eram como os do senhor Zhao, caras fechadas. Mas que raio tenho eu que ver com as crianças? Por que se comportarão elas também assim? Não pude deixar de gritar: Digam-me! Mas fugiram. Pensava por que carga de água havia eu de ter alguma coisa que ver com o senhor Zhao, ou com as outras pessoas da rua. Tanto quanto sei, nunca lhes fiz mal algum. Aconteceu apenas que, já la vão vinte anos, maltratei um livro de história de um velho senhor. Parece que ele terá ficado muito zangado. Mas estou em crer que o senhor Zhao nem conhece esse velho. Será que ouviu dizer qualquer coisa e vem agora fazer justiça não encomendada? E terá mesmo combinado com todos os outros, agora meus inimigos! Mas, e as crianças? Quando isso se passou nem nascidas eram. Como é possível que também elas me olhem com olhares esquisitos, como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!
Não dormi bem durante a noite. As coisas precisam de ser bem investigadas, há que vê-las com maior clareza. Quanto a eles, uns foram condenados a açoites pelos oficiais locais, outros apanharam na cara bofetadas dos ricos, outros ainda souberam a esposa violada por funcionários governamentais, houve mesmo quem visse os próprios pais atirados para o suicídio pela opressão dos credores. Mas não tinham, nem mesmo então, caras tão horrorizadas e agressivas como ontem. A mais estranha foi aquela mulher na rua a bater no filho, dizendo: Palerma o que me apetece é morder-te! Mas com os olhos fixos em mim. Eu assustei-me. E denunciando eu o medo, os outros, com caras maldosas e dentes de lobo, desataram às gargalhadas. Foi quando Chen Lao-wu, o nosso criado, correu para mim e me puxou para dentro de casa». In Lu Xun, Ervas Silvestres, tradução do chinês de Sun Lin e Luís Cabral, Fundação Oriente, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, ISBN 972-8028-960-2.

Cortesia da FOriente/JDACT

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Portugal e a China. A Malograda Embaixada de Tomé Pires a Pequim. Rui Manuel Loureiro. «… o relatório oriundo da metrópole meridional sugeria ao imperador que não recebesse a missão chefiada por Tomé Pires, pois os nossos, sob disfarce de embaixada legítima, vinham apenas espiar as terras com titulo de mercadores, para depois as ocuparem»

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A Malograda Embaixada de Tomé Pires a Pequim
«(…) Tal como o próprio Cristóvão Vieira reconhece, des que a terra da China hé terra, o rígido protocolo chinês não permitia que o imperador se avistasse com estrangeiros (Cartas). Por isso mesmo, os documentos que relatam o encontro entre Tomé Pires e Zhengde em Nanquim têm causado alguma perplexidade, pois apresentam uma versão dos factos totalmente em desacordo com os tradicionais hábitos diplomáticos chineses. Se aceitarmos o testemunho dos documentos citados, e não existe qualquer razão para não o fazermos, apenas duas explicações são possíveis. Ou Tomé Pires e os seus companheiros se avistaram com qualquer alto funcionário chinês, a quem confundiram com o imperador, e valerá a pena lembrar que Gaspar Correia menciona, a determinado passo das suas crónicas, a morte do Rey da China que folgou com nosso embaixador, ou Zhengde, quebrando todos os protocolos, se encontrou repetidamente com os estrangeiros. O temperamento independente e rebelde do imperador, que se manifestou em muitas outras circunstâncias durante o seu reinado, contribui para dar algum crédito a esta última alternativa. De qualquer modo, o soberano chinês ordenou que a embaixada seguisse para Pequim, onde seria formalmente recebida, pelo que os portugueses continuaram viagem em direcção a norte, seguindo pela rede de canais interiores, atingindo a capital imperial em data incerta, talvez em finais de 1520. O imperador chinês partira de Nanquim na mesma altura que a embaixada, mas detivera-se numa pequena cidade dos arredores de Pequim, onde assistiu à execução do príncipe revoltoso: … esteve julgando hum seu parente que se alevantou contra elle, e o mandou queimar depois de emforcado (Cartas).
Durante a sua estada nesta pequena localidade, Zhengde recebeu vários memorandos sobre os portugueses, que são resumidos por Cristóvão Vieira. O companheiro do embaixador não explicita o modo como obteve estas informações, mas é provável que, durante encontros posteriormente mantidos com funcionários chineses, algo transpirasse sobre o conteúdo dos relatórios remetidos ao Filho do Céu. Um dos memorandos tinha sido enviado de Cantão e dizia respeito ao comportamento abusivo adoptado pelas gentes franges da expedição de Simão Andrade. Os funcionários cantonenses descreviam todas as arbitrariedades cometidas pelos portugueses, desde a recusa de pagarem direitos alfandegários até à construção não autorizada de uma fortaleza, passando pela agressão a um mandarim e pelo rapto de crianças (Cartas). Como conclusão, o relatório oriundo da metrópole meridional sugeria ao imperador que não recebesse a missão chefiada por Tomé Pires, pois os nossos, sob disfarce de embaixada legítima, vinham apenas espiar as terras com titulo de mercadores, para depois as ocuparem (Barros). Um outro memorial de idêntico teor fora enviado de Pequim ao imperador, reforçando as acusações contra os estrangeiros. Um terceiro memorando que chegara às mãos de Zhengde tinha sido despachado pelo antigo sultão de Malaca, por intermédio do seu embaixador Tuan Mahamed, que chegara a Nanquim pouco antes de Tomé Pires. Alegando a sua condição formal de tributário do Celeste Império, o soberano malaio solicitava ajuda contra a ocupação portuguesa do seu estado: Os franges, ladrões com coração grande, vierão a Malaca com muita gente e tomarão a terra e a destroirão, e matarão muita gente e a roubarão, e outra cativarão. Ao mesmo tempo, tentava lançar o descrédito sobre a embaixada lusitana, alegando que Tomé Pires falsamente era vindo a terra da China pera enganar e que os portugueses eram ladrões encapotados, que vinham tentar ocupar o território chinês, tal como anteriormente tinham conquistado Malaca (Cartas).O emissário do antigo sultão não conseguira ser recebido pelo soberano chinês em Nanquim, pelo que partira também para a capital.
Ao que parece, o imperador Ming, depois de ser devidamente informado sobre as actividades dos portugueses, adoptou uma posição conciliadora, atribuindo os conflitos surgidos em Cantão, com a frota de Simão Andrade, ao facto de os estrangeiros desconhecerem os costumes chineses: … esta gente não sabem nossos custumes, manso os irão sabendo (Cartas). Mas, como se verificaria mais tarde, nem todos os altos mandarins pequinenses partilhavam esta opinião. O funcionalismo chinês regia-se por uma rígida ética confuciana, que colocava em primeiro lugar a estabilidade governativa e administrativa. Qualquer ruptura da ordem estabelecida era, portanto, encarada pelos mandarins da capital com as maiores reservas. A chegada dos portugueses a Cantão tinha introduzido um elemento de perturbação no tradicional sistema de relações externas do Celeste Império. Por isso, a embaixada de Tomé Pires era hostilizada por muitos funcionários imperiais da capital, mais preocupados com a manutenção da ordem estabelecida do que com o eventual benefício económico que os estrangeiros trariam às províncias meridionais». In Rui Manuel Loureiro, A Malograda Embaixada de Tomé Pires a Pequim, Portugal e a China, Conferências, Séculos XVI-XIX, Coordenação de Jorge Santos Alves, Fundação Oriente, Lisboa, 1997-1998, ISBN 972-9440-92-1.

Em memória do Fernando José. Que estejas em paz.

Cortesia de FOriente/JDACT

domingo, 16 de março de 2014

Estelas e Terra Amarela. Victor Segalen. «Que vê ele ao fundo do buraco cavernoso? A noite sob a terra, o Império de sombra. Eu, dobrado sobre mim e encarando o meu abismo, “ó eu! Estremeço” sinto-me cair, desperto e já só a noite quero ver»

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Estelas viradas para o meio-dia. Os três hinos primitivos
«(…)
Os três hinos primitivos a que os três Regentes haviam chamado Os Lagos, O Abismo, Nuvens, estão apagados de todas as memórias. Que sejam assim recompostos:

Os Lagos
Os lagos afogam nas palmas redondas das suas mãos o rosto do Céu: Rodei a esfera para observar o Céu.
Os lagos, sacudidos por ecos fraternos, em número de doze: Fundi os doze sinos que fixam os tons musicais.
Lago movediço, firmamento líquido ao invés, sino musical, que o homem que recebe os meus compassos igualmente ecoe sob o poderoso Céu-Soberano. Para tal dei nome ao hino do meu reinado: os Lagos.


O Abismo
Face a face com as profundezas, recolhe-se o homem, de cabeça inclinada. Que vê ele ao fundo do buraco cavernoso? A noite sob a terra, o Império de sombra.
Eu, dobrado sobre mim e encarando o meu abismo, ó eu! Estremeço, sinto-me cair, desperto e já só a noite quero ver.

Nuvens
São os pensamentos visíveis do alto e puro Senhor-Céu. Alguns compassivos, cheios de chuva. Outros atroando os seus cuidados, suas justiças, suas sombrias iras.
Que o homem que recebe as minhas liberalidades ou curvado sob os meus golpes conheça através de mim, o Filho, os desígnios do Céu ancestral. Para tal dei nome ao hino do meu reinado: Nuvens.

In Victor Segalen, Stèles, Terre Jaune, Pequim 1912, Edições La Difference, Paris, 1989, Edições Cotovia, Lisboa, 1996, Fundação Oriente, ISBN 972-8028-72-5.

Cortesia de FOriente/JDACT

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Como se processa, três anos depois do acordo de Leonel Sousa, a instalação dos portugueses em Macau? … A de que o território foi cedido graciosamente pela China, em agradecimento por os portugueses terem expulsado da zona uma série de piratas. “Não há documentos que o comprovem”»

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Finalmente, um pé em terra
«(…) Os primeiros anos da década de 50 foram, portanto, de regresso. Dada a associação pública e notória dos portugueses com os piratas japoneses durante os decénios anteriores, e com temor de uma reacção de Beijing, as autoridades de Guangzhou resistiram ao desembarque dos comerciantes, fazendo-se as trocas ao largo. Mas, a pouco e pouco, começaram a ocorrer alguns desembarques em pequenas ilhotas do delta (Shang Chuang e Lang Pai Kao, entre outras). E, em 1554, há notícia do primeiro acordo luso-chinês de comércio. Não terá passado à forma escrita, não terá tido o formalismo que Lisboa procurara em iniciativas anteriores, mas os próprios historiadores chineses não o põem hoje em causa.
Numa carta de Janeiro de 1556, enviada de Cochim pelo capitão Leonel Sousa ao príncipe Luís, irmão do rei João III, diziam-se coisas importantes. O acordo tinha sido firmado, oralmente, com a autoridade marítima chinesa da zona. Os portugueses não poderiam voltar a utilizar como nome identificativo folangji, já que estava proscrito pelos decretos de expulsão de 1522-23. A solução foi apresentarem-se, a partir dessa altura, como gente malaia ou siamesa. Só em 1564, e por um lapso dos intérpretes chineses, se descobre a sua verdadeira nacionalidade, de gente de Portugal. Mas é de crer que os mandarins de Guangzhou sabiam, desde o início, com quem estavam a comerciar de novo.
Depois, os novos malaios ou siameses deram pagar as taxas alfandegárias, tal como faziam todos os outros Estados tributários do Sueste Asiático que vinham comerciar a Guangzhou. Comprometemo-nos a pagar uma taxa alfandegária de vinte por cento, como é costume, tal como os naturais do reino do Sião, que frequentam estas águas sob licença do imperador da China, diz Leonel Sousa. Outra condição era a oferta de presentes às autoridades locais, mas em segredo. Eles querem receber presentes dissimulados, pois existem punições severas para quem aceitar subornos, refere Leonel Sousa.
Por fim, era exigido aos portugueses que, de futuro, obedecessem a todas as normas que regulavam o comércio estrangeiro e respeitassem as autoridades chinesas. Devido à má reputação no passado, os mandarins pediram de modo particular a Leonel Sousa que vigiasse e controlasse bem os seus homens. Como o acordo foi feito sem autorização das autoridades em Beijing, os acontecimentos por ele narrados não podem, naturalmente, ser confirmados nas fontes chinesas oficiais da época, mas existem provas privadas coevas que corroboram a história do capitão português. Como se processa, três anos depois do acordo de Leonel Sousa, a instalação dos portugueses em Macau? A visão, romântica, da historiografia portuguesa foi, durante séculos, a de que o território foi cedido graciosamente pela China, em agradecimento por os portugueses terem expulsado da zona uma série de piratas. Não há documentos que o comprovem. O mais provável é que essa instalação tenha sido acidental, informal e quase despercebida nos primeiros tempos. E que tenha contado com a cumplicidade das autoridades de Guangzhou, entretanto subornadas.
Historiadores chineses dizem hoje que os mandarins de Guangdong terão, através da experiência de comércio e contactos na década de 50, percebido que bastava evitarem que os portugueses colaborassem com a população chinesa pouco escrupulosa e com os japoneses para deixarem de constituir uma grande ameaça para a dinastia ou para a nação. Se os estrangeiros fossem confinados a uma zona onde existissem meios para exercer uma apertada vigilância sobre os naturais que faziam esse contacto, o comércio poderia ser lá realizado. Mas a zona deveria, de preferência, ser no continente e suficientemente perto de Guangzhou, para também satisfazer as necessidades dos portugueses. Quanto a piratas, e no que respeita à segurança da cidade, Macau passaria a ser um porto-tampão nas mãos dos militarmente temíveis portugueses, que assim poderiam afastar as ambições de piratas e rebeldes locais». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de FOriente/JDACT

Portugal e a China. Uma Ponte com 500 anos. Testemunhos de uma convivência. Instituto Camões. «… fica a conduta imprópria dos portugueses, que não só estavam ali sem autorização das autoridades competentes, como tinham cometido uma falta contra os costumes da terra»

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Portugal encontra a China
«(…) Em 1515 partia, desta vez de Goa, uma expedição portuguesa à China. Era comandada por Rafael Perestrelo e o destino, de novo, o delta do Rio da Pérola .Faz comércio e vai a Malaca vender o que comprou, com lucro de vinte para um. O cronista Fernão Lopes de Castanheda coloca na boca de Perestrelo a seguinte apreciação: que os chins queriam paz e amizade com os portugueses, e que era muito boa gente. Rafael chegou a Lisboa no verão de 1518, tornando-se, muito provavelmente, no primeiro português a concluir uma viagem de ida e volta entre Portugal e a China, sendo também o primeiro europeu a fazê-la seguindo uma via exclusivamente marítima.
Uma terceira expedição ordenada pela Coroa portuguesa à China partira, entretanto, de Lisboa, em 1515. Era comandada por Fernão Peres Andrade. Chega em 1517 ao largo de Cantão. Os navios dispararam uma salva de canhão, uma prática corrente usada nesses tempos pelos portugueses em todo o Índico, num misto de saudação e de intimidação. Para os registos chineses fica a conduta imprópria dos portugueses, que não só estavam ali sem autorização das autoridades competentes, como tinham cometido uma falta contra os costumes da terra. A principal missão de Peres Andrade não era a de comerciar. Estava ali para tentar avistar-se com o Imperador. Numa reunião com os mandarins locais, eles julgaram estar perante mais uma visita de cortesia, no âmbito do comércio tributário. Procuraram nos registos imperiais por visitas anteriores dos folangji, o nome pelo qual os portugueses se apresentaram. Mas não encontraram nada.
Isto leva-nos a outro problema: quem eram os portugueses, aos olhos dos chineses? Habilmente, os Portugueses chamavam-se a si vários nomes, a começar por folangji, não se sabe ao certo, mas será corruptela de...francos ou..folang… o nome pelo qual a generalidade dos ocidentais era conhecido na China, reminiscências seculares dos contactos terrestres havidos, através da Rota da Seda, e por intermédio dos árabes, com a Europa Medieval. Mas também se designavam… vindos do país do ocidente, à beira de um grande mar… Esta descrição levaria à classificação de Da Xi Yang Guo, a tradução à letra do conceito. Como o chinês não tem plural para estes casos, o registo nos livros tributários para Da Xi Yang Guo até podia significar vários países, pois os concorrentes dos portugueses, que iam chegando, para poderem comerciar também se acomodavam ao registo que melhor lhes convinha... e passarem a ser todos Grandes Reinos do Mar Ocidental.
Da comitiva de Fernão Peres Andrade fazia parte Tomé Pires, boticário, que tinha alguma experiência da região da Ásia do Sueste e do mar da China. Foi ele o escolhido para chefiar um grupo de portugueses que ficou em terra, à espera de uma decisão das autoridades sobre a sua ida até à corte imperial, em Beijing. Só em l520 saiu de Cantão e, ao chegar à capital, o primeiro embaixador português ia mal preparado: quando foi aberta a Carta que o rei Manuel I mandara ao imperador, descobriu-se que ela era num tom de igual para igual, entre soberanos, e diferia em muito da tradução que os intérpretes tinham feito inicialmente, sendo por isso descabeçados. Depois, houve algum azar na missão de Tomé Pires, pois nessa mesma altura chegavam a Beijing familiares do sultão de Malaca, deposto pelos portugueses que ali ia pedir auxílio. Para somar a tudo isto, o imperador morria, em 1521. Com luto decretado, a corte mandou de volta Tomé Pires e o seu grupo a Cantão.
Terão todos morrido em prisão. Fernão Mendes Pinto, na Peregrinação, fala de ter vistos descendentes destes portugueses, fruto de ligações com chinesas. Aliás, um terço da Peregrinação é dedicado à China, mais abastada que todas as terras quantas há no mundo, com um governo que a todas as outras terras podia fazer inveja, e com um povo muito hábil e engenhoso em todo o negócio mecânico, e de agriculturas». In Portugal encontra a China, Testemunhos de uma convivência, Portugal e a China, Uma Ponte com 500 anos, Instituto Camões, Fundação Oriente, 2004.

Cortesia da FOriente/JDACT

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Estelas e Terra Amarela. Victor Segalen. «Honrar os reconhecidamente Sábios; recensear os Justos; repetir a todos os rostos que aquele viveu, e foi nobre, e virtuosa a sua atitude. Isso é bom. Disso não cuido: tantas bocas sobre tal discorrem!»

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Estelas
«(…) Por deferência, são postadas de frente para o Norte, pólo do negro virtuoso, as Estelas da amizade. Orientam-se as amorosas, para que a madrugada lhes embeleze as mais suaves feições e lhes suavize as más. Voltam-se para o Oeste ensanguentado, palácio do vermelho, as guerreiras e as heróicas. Outras, Estelas da beira do caminho, acompanham o gesto indiferente da estrada. Todas se oferecem a quem passa sem reservas, aos almocreves, aos carreiros, aos eunucos aos salteadores, aos monges mendicantes, aos homens de poeira, aos mercadores. Elas erguem para esses os seus rostos iluminados de sinais; e eles, vergados ao peso da carga ou famintos de arroz e pimentão, passam contando-as entre os marcos miliários. Assim, acessíveis a todos, reservam elas o melhor para alguns. Algumas, não viradas para o Sul nem para o Norte, não para o Leste nem para o Ocidente, nem para algum dos pontos escuros, apontam o lugar por excelência, o meio. Como as lajes tombadas ou as abóbadas gravadas na face invisível, elas propõem os seus sinais à terra em que imprimem um selo. São os decretos de um outro império, e singular. Suportam-se ou recusam-se, sem comentários nem inúteis glosas, aliás sem confrontar nunca o texto verdadeiro: apenas as marcas que se lhe furtam.

Estelas viradas para o meio-dia. Sem marca de reinado
Honrar os reconhecidamente Sábios; recensear os Justos; repetir a todos os rostos que aquele viveu, e foi nobre, e virtuosa a sua atitude. Isso é bom. Disso não cuido: tantas bocas sobre tal discorrem! Tantos pincéis elegantes se esforçam por decalcar fórmulas e formas, que as lápides memoriais se emparelham como as torres de vigia ao longo da via do Império, de cinco mil em cinco mil passos.
Atento ao que não foi dito; submetido pelo que não é promulgado; prosternado diante do que não foi ainda, consagro a minha alegria, e a minha vida, e a minha piedade, a denunciar reinados sem anos, dinastias sem investiduras, nomes sem pessoas, pessoas sem nomes, tudo o que o Céu-Soberano engloba e o homem não realiza.
Não tenha isto, pois, a marca de um reinado: nem dos Hsia fundadores; nem dos Tcheou legisladores; nem dos Han, nem dos Thang, nem dos Soung, nem dos Yuan, nem dos Grandes Ming, nem dos Tshing, os Puros, que sirvo com fervor, nem do último dos  Tshing cuja glória deu nome ao período Kouang-Siu.
Mas desta era única, sem datação nem fim, de caracteres indizíveis, que todo o homem em si mesmo instaura, e que saúda, na madrugada em que se torna Sábio e Regente do trono do seu coração». In Victor Segalen, Stèles, Terre Jaune, Pequim 1912, Edições La Difference, Paris, 1989, Edições Cotovia, Lisboa, 1996, Fundação Oriente, ISBN 972-8028-72-5.


Cortesia de FOriente/JDACT

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Estelas e Terra Amarela. Victor Segalen. «Virada para o ‘Meio-Dia’ se a “Estela” contém decretos; a homenagem do Soberano a um Sábio; o elogio de uma doutrina; um hino de reinado; uma confissão do Imperador ao seu povo»

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Estelas
«(…) O Comentário acrescenta: Cada templo tinha a sua estela. Por meio da sombra que projectava media-se o momento do sol. O mesmo se continua a passar. Nenhuma das funções ancestrais se perdeu: tal como a do olho da estela de madeira, a estela de pedra conserva o uso do poste sacrificatório e mede ainda um momento; mas já não um momento do sol do dia a projectar seu dedo de sombra. A luz que o marca não cai do Cruel Satélite e não gira com ele. É uma luz de conhecimento no fundo de cada um: o astro é íntimo e o instante perpétuo. O seu estilo deve ser aquilo que não se pode dizer que seja uma linguagem, porque não encontra ecos entre as outras linguagens e não pode servir para as relações quotidianas: o Wen. Jogo simbólico em que cada um dos seus elementos, que pode ser tudo, apenas retira a sua função do lugar que no presente ocupa; e o seu valor do facto de estar aqui e não ali. Acorrentados por leis claras como o pensamento antigo, e simples como os algarismos musicais, os Caracteres pendem uns dos outros, agarram-se e entreligam-se numa irreversível rede, refactária até a quem a teceu. Uma vez incrustados na lápide, que entranham de inteligência, aí estão eles, despojando as formas da movediça inteligência humana, agora transformados em pensamento da pedra, cujo grão assumem. Daí aquela composição dura, aquela densidade, aquele equilíbrio interno e aqueles ângulos, qualidades necessárias como ao cristal as espécies geométricas. Daí aquele desafio a quem lhes fará dizer o que guardam. Desdenham de ser lidos. Não pedem voz nem música. Desprezam os tons mutáveis e as sílabas que os aperaltam ao acaso das províncias. Eles não exprimem, significam, são.
Não pode deixar de ser bela, a sua grafia. Tão próximos das formas originais (um homem sob o telhado do céu; uma seta lançada contra o céu; o cavalo, de crinas ao vento, crispado sobre as patas; os três picos de um monte; o coração, e as suas aurículas, e a aorta), os Caracteres não aceitam nem a ignorância nem a imperícia. Porém, sendo visões dos seres através do olhar humano, correndo pelos músculos, pelos dedos e por todos esses nervosos instrumentos humanos daí recebem uma deformação por onde a arte se entranha na sua ciência. Hoje correctos, e só isso, eram cheios de distinção na época Yong-tcheng; longamente estirados no tempo dos Ming, como elegantes dentes de alho; clássicos n tempo dos Thang; largos e robustos no dos Han: sobem até muito mais alto, até aos símbolos nus vergados à curva das coisas. Mas é na época dos Han que se detém a ascendência da Estela.
É que a lápide torna os caracteres cegos à inexistência ou ao horror de um rosto sem feições. Nem aqueles tambores gravados nem aqueles postes informes são dignos do nome de Estela; menos ainda a inscrição de acaso que, privada de pedestal e de espaço e ar quadrangular em seu redor, não passa de uma brincadeira de quem se passeia enquanto fixa uma historieta: batalha ganha, amante rendida, e toda a literatura. A direcção não é indecisa. Virada para o Meio-Dia se a Estela contém decretos; a homenagem do Soberano a um Sábio; o elogio de uma doutrina; um hino de reinado; uma confissão do Imperador ao seu povo; tudo o que o Filho do Céu, sentado de frente para o Meio-Dia, tem o dom de promulgar». In Victor Segalen, Stèles, Terre Jaune, Pequim 1912, Edições La Difference, Paris, 1989, Edições Cotovia, Lisboa, 1996, Fundação Oriente, ISBN 972-8028-72-5.

Cortesia de FOriente/JDACT