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segunda-feira, 27 de maio de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «E um pouco de silêncio, per favore. Estou a tentar concentrar-me. Não é fácil para alguém iletrado como eu manter a serenidade de pensamento…»

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2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) O que vai ser de nós?, perguntou, mais preocupado com a sua integridade do que com o resto dos acompanhantes. Não acredito que por esta altura nos vão passear pela rua de capuz com a palavra sodomita, cosida. Vão torturar-nos. E, por mais falsa que seja a acusação, qualquer indício de verdade será motivo suficiente para nos castrarem. Ou isso ou levar-nos-ão directamente para a fogueira. A voz era firme. Os olhos não acompanharam o sentido das palavras que acabava de pronunciar. Continuava suspenso das alternativas que se desvirtuavam na sua mente e se restauravam em várias oportunidades, a maioria das quais com resultado funesto. Bartolomeo trocou a preocupação por medo.
Vão torturar-nos e queimar-nos?! Por uma simples acusação anónima, sem provas?! A sua reclamação podia ouvir-se a metros de distância, mas não interessava nem aos novos inquilinos dos subterrâneos nem aos escassos Oficiais da Noite e Guardas da Moralidade dos Mosteiros. Baccino pôs-se a rezar. Estava tão certo da sua inocência que sabia que o fim só podia ser o Paraíso, mas uma prece nunca era demais. Só receio uma coisa, interrompeu Tornabuoni, tentando transmitir uma serenidade que não acompanhava os sentimentos que lhe percorriam o corpo. Se os guardas subornarem Saltarelli e este fizer declarações contra nós, considerar-se-á verdadeira a calúnia lançada sobre nós, e aí teremos graves problemas. Jacopo é um imberbe de dezassete anos, e não acredito que aceite que o apontem na rua como um cão que gosta de ser açoitado com a verga. Achas que se venderá por alguns florins?, apressou-se a indagar Bartolomeo.
Não me parece, respondeu Tornabuoni, hesitante. Baccino interrompeu a oração. Os olhos saíam-lhe das órbitas. Não dava crédito à conversa que os companheiros de cela, não amigos, entabulavam enquanto aguardavam um castigo que consistia em flagelos e sabe Deus que coisa pior. Ignorantes!, gritou, como se de repente quisesse iniciar um ritual cristão. Não percebeis? Se Judas atraiçoou Nosso Senhor por um punhado de moedas, o que não fará este jovem por quem ninguém dá nada! Maldito seja, seremos executados na praça! Meu Deus, tende piedade... Deus é surdo.
De novo, a voz do engenheiro que sulcava a pedra com um punção metálico interrompeu cortante a discussão tão inútil quanto acalorada que se travava nos escassos metros quadrados que lhes serviam de sala. Registava um tom calmo e seguro, e não só na aparência. A convicção das suas palavras e a serenidade da entoação não eram próprias de uma situação tão preocupante.
E um pouco de silêncio, per favore. Estou a tentar concentrar-me. Não é fácil para alguém iletrado como eu manter a serenidade de pensamento se só disserdes disparates. Disparates?, perguntou, ofendido, o crente Baccino. Pelo menos procuramos adivinhar o futuro em conjunto. Não tentamos agarrar avaramente o destino com as mãos e um punção ou apropriarmo-nos dele ignorando a companhia que, tão injustamente acusada como vós, nos rodeia. Apesar de não existir uma relação profunda entre ambos, nunca se haviam falado daquela maneira, tudo fora cortês e educado. Mas o medo e a incerteza pouco a pouco faziam mossa entre os mais frágeis e inseguros, como era o caso de Baccino. A boca matou mais gente do que a espada, caro Baccino, pronunciou a voz. E acrescentou: a liberdade é o maior dom da natureza. Logo que a virtude nasce, a inveja vem ao mundo para a atacar; e, lembrai-vos do que vos digo, meus amigos, mais cedo haverá corpo sem sombra do que virtude sem inveja. Vamos, meu amigo, não é a altura certa para filosofar, afirmou Bartolomeo. O que pensais fazer?
Por alguns segundos, o único som que quebrava o silêncio que se produzia na sala eram as lascas de pedra a saltar para o solo, atingidas por um incansável punção. Ninguém estava à espera do que iam ouvir. Não era uma proposta. Era uma sentença. Eu, Leonardo da Vinci, penso fugir desta prisão. Antes estar morto do que não ter liberdade. Entretanto, a cento e vinte quilómetros dali, estava prestes a surgir a encarnação do novo representante do Céu na Terra para desencadear o seu próprio Juízo Final». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «… fragilidade da cela em forma de cúpula em que se encontravam. Muito pequena, mesmo para quatro ocupantes. É desumano, pensou»

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2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Vira-o a criar, da mesma maneira, na oficina Via Bufalini, onde uma vez por mês levava as indumentárias remendadas dos aprendizes por ordem do mestre Andrea. O ateliê era fácil de localizar, pois pelo menos quinze pequenos edifícios haviam sido demolidos em volta para a iminente construção do futuro Palazzo Strozzi, e ele tinha de proteger a roupa que transportava do pó que se erguia. Mas essa informação escapava a Baccino, visto que, para ele, crente no Todo-Poderoso, havia apenas um destino e, no momento e no lugar em que se encontravam, este parecia muito próximo. Aceitá-lo-ia com resignação, se fosse o que o Senhor houvesse decidido. Embora, para quê negá-lo, parte do seu espírito desejasse regressar ao Bairro de Or San Michele, onde recentemente abrira a sua própria loja. Tentou ajudar à sua maneira, esquadrinhando qualquer indício de fragilidade da cela em forma de cúpula em que se encontravam. Muito pequena, mesmo para quatro ocupantes. É desumano, pensou.
De repente, os seus olhos pousaram em Tornabuoni, que, envergando o habitual hábito negro, descansava no canto oposto, com as mãos apoiadas na cabeça, como se lamentasse cada um dos minutos de vida que lhe escapavam sob as camadas infinitas de rocha e humidade. Não queria que aquela falsa acusação manchasse o imaculado apelido que carregava, familiar de nada mais nada menos que Lucrecia Tornabuoni, esposa de Piero Médici e mãe de Lorenzo Médici. Em suma, aparentado com a mulher mais influente da família mais poderosa dos Estados italianos. Tudo remontava a dois meses antes, a quatro dias do vigésimo quarto aniversário de Leonardo. Uma mão tão anónima quanto cobarde abriu a caixa de Pandora numa pequena arcada lateral do Palazzo Vecchio. Não se conheciam as motivações desse indivíduo, mas, efectivamente, espoletou a guerra. Deixou uma falsa acusação no pior sítio onde esta podia ser deixada em toda a cidade de Florença. O depósito de pedra, a boca da verdade, o tamburo. Uma simples nota com uma acusação detalhada com nomes e apelidos era suficiente para dar início à perseguição dos caluniados e para os pôr, no mínimo, na presença da justiça. O documento notarial seria desprezado em algumas semanas se não surgissem provas definitivas e testemunhas de peso sem cortinas de anonimato para reafirmar a acusação.
Absoluti cum condizione ut retamburentur.
O encarceramento fora grotesco. A recepção no palácio representara uma guerra psicológica permanente. Logo que entraram pela porta da inexpugnável fortaleza, o pátio acolheu-os com uma série de murais difamatórios explícitos, onde os criminosos eram atormentados pelos seus pecados e os diabos os torturavam a caminho do inferno. Lá dentro, a dúvida revoava pelo reduzido tecto da prisão. Apareceria alguém? Seriam condenados? Ou, pelo contrário, seriam absolvidos do crime imputado? Fosse como fosse, ninguém questionava que a dúvida semeada mancharia a reputação de mais de uma pessoa. Bastava que corresse de boca em boca o texto da acusação entregue no tamburo:

Notifico-os, signori Officiali, de um facto certo, ou seja, que Jacopo Saltarelli, irmão de Giovanni Saltarelli, vive com este último na ourivesaria de Vacchereccia, frente ao tamburo: veste de negro e tem cerca de dezassete anos. Este Jacopo foi cúmplice em muitos actos vis e consente em agradar às pessoas que lhe peçam tal iniquidade. E deste modo teve muitos entendimentos, quer dizer, serviu várias dezenas de pessoas a respeito das quais sei muitas coisas e aqui nomearei algumas: Bartolomeo di Pasquino, ourives, que vive em Vacchereccia; Leonardo di Ser Piero da Vinci, que vive com o Varrocchio; Baccino, o alfaiate, que vive em Or San Michele, na rua onde há duas grandes lojas de cortadores de panos e que dirige a Loggia dei Cierchi; recentemente abriu uma alfaiataria; Lionardo Tornabuoni, chamado il teri, veste de negro. Estes cometeram sodomia com o dito Jacopo, e isto testemunho eu diante de vós.

Dois meses de interrogatórios, torturas e vexames que, aos poucos, minaram o moral dos acusados, Bartolomeo, o ourives vizinho da localidade de Vacchereccia, foi o primeiro a cortar o ambiente com a sua voz apreensiva». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 27 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga»

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2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Majestade, não perdi contra a dificuldade dos desafios. Perdi apenas contra o tempo..., disse Leonardo, retirando importância às notícias de Chambord. Maître, prefiro que me chameis Francesco, respondeu o rei num acto de humildade que Leonardo soube agradecer com o mais caloroso dos olhares. Assim seja, querido Francesco, assim seja. E fechou os olhos. Kekko..., aproximai-vos... O ajudante aproximou-se, veloz. Nesse breve período, Francesco Melzi esqueceu a presença do rei de França, e o próprio Francisco I passou por cima dessa falta de formalidade. Dizei, mestre... O que desejais?, perguntou, como se o tempo parasse apenas para agradar ao tutor. Apenas um abraço, meu amigo. Apenas um abraço, respondeu Leonardo com um delicado tom de voz. Quando Melzi se abalançou serenamente sobre o corpo do mentor, criou-se tal fusão que qualquer casal de amantes teria hesitado. Mas, longe de qualquer libido, ali respirava-se carinho, respeito, admiração e dor, muita dor. Kekko, meu amigo. Não estejas tão triste. Leonardo tentou apaziguar o incondicional e jovem assistente com belas palavras. Viverei sempre que falarem de mim. Lembra-te de mim. E terminou piscando-lhe um olho carregado de cumplicidade.
Leonardo inspirou de tal maneira que os ali presentes souberam que não veria um novo amanhecer. Que a vida lhe fugia. Após tanto sofrimento e tanta perseguição. E tanta mensagem em código e tanta pincelada para a história. Leonardo da Vinci chegava ao fim. Francesco..., amigos..., chegou a hora... Simultaneamente venerável e vulnerável, Leonardo estava preparado para partir…, de percorrerem o caminho sem mim. Mestre!, gritou Melzi sem reprimir um soluço. MaîtreMon père... As palavras do rei afogaram-se não só no seu próprio mar de lágrimas, mas no oceano onde se fundiam com as lágrimas dos outros. Chegou a hora..., de voar...
E voou. Mais alto e mais longe do que nunca. Um voo de ida, apenas. Um voo que, mais cedo ou mais tarde, todos faremos. Um silêncio sepulcral invadiu a sala. François Desmoulins, como se de um fantasma se tratasse, deu meia volta e, sigilosamente, transpôs a porta que, acto contínuo, fechou com extrema precaução. Mathurina encharcou de lágrimas o pano, que já não enxugava líquido algum. Francisco I manteve-se em silêncio. Um silêncio cortês e admirável. Um silêncio que dizia tudo. Francesco Melzi, Kekko, caiu no chão, junto à cama, com o piscar de olhos cúmplice a pairar-lhe na memória. Leonardo da Vinci conquistara o céu ancorado ao chão.

Florença. 29 de Maio de 1476. Calabouços subterrâneos do Palazzo del Podestà
No ano de 1476 de Nosso Senhor, uma mão trabalhava com esforço sobre a fria e húmida parede de pedra que fechava uma das celas da prisão, nas divisões inferiores do Palazzo del Podestà, futuro Palazzo del Bargello, situado a pouco mais de quatrocentos metros do centro nevrálgico de Florença. Um edifício bastante reconhecível ao longe, pois a sua torre de menagem era das mais altas da cidade. Ali residia o magistrado governador da urbe, um estrangeiro eleito com o propósito de representar a objectividade no exercício da justiça. Na fachada, uma inscrição alertava para o poder de Florença:

Florença está repleta de inimagináveis riquezas.
Proclama-se vencedora contra os seus inimigos, tanto na guerra como nas lutas civis.
Goza do favor da Fortuna e tem uma população poderosa.
Com sucesso, fortifica e conquista castelos.
Reina sobre os mares e as terras e sobre o mundo inteiro.
Sob o seu comando, toda a Toscana transborda de felicidade.
Tal como Roma, Florença triunfa sempre.

A mão rasgava uma e outra vez no mesmo sentido, para que a gravura ficasse nítida e se pudesse desenvolver a ideia seguinte. Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga. As linhas horizontais terminavam numa bifurcação, e cada opção transformava-se em nova linha que voltava a concluir-se irremediavelmente numa nova divergência. Uma ramificação pedregosa com uma única intenção. Os companheiros de cela não sabiam distinguir o que o dominava, a sua obstinada teimosia ou a genialidade que pouco a pouco lhe ressumava dos poros da pele. Baccino, dias antes alfaiate e hoje também prisioneiro, não se atreveu a perguntar. Sabia perfeitamente a resposta do homem que tinha diante de si, a escassos metros. O silêncio. Tal era a sua concentração. Embora também não fosse necessário pronunciar palavra alguma para descodificar o mistério que aos poucos se espalhava pela cela de pedra. Estava a calcular probabilidades; a calcular possíveis futuros, ter-lhe-ia respondido o companheiro. Sabia-o bem». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 18 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Quem sou eu para dar conselhos a um rei, isso é trabalho para outros, que, possivelmente, fá-lo-ão melhor do que eu, disse Leonardo apontando com a única mão capaz para François…»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Tendes de me desculpar, majestade. Os olhos atónitos de Francisco I não entendiam o porquê desta súplica. Vós e todos os homens. Vós e Deus em pessoa, que está no céu. Peço perdão, porque o meu trabalho não teve a qualidade que deveria. E é uma ofensa para o Criador e para toda a criação... Desta vez foram os olhos de Leonardo que, através das 1ágrimas, se tornaram cristalinos. O ar que se respirava naquela divisão tinha perfume de despedida..., e sabor de amargura. François Desmoulins, a personificação do protocolo na corte real, fazia um esforço titânico para manter a compostura. Não integrara o círculo de confiança do quase extinto mestre florentino, mas professava-lhe carinho apenas pela forma como tratava o seu aluno e, ao mesmo tempo, senhor de França. Poucos meses depois de se instalar nos domínios franceses de Francisco, já se podia ler no rosto do experiente artista italiano a expressão mais sincera de agradecimento por um mecenato sem igual na sua terra natal.
Quem sou eu para dar conselhos a um rei, isso é trabalho para outros, que, possivelmente, fá-lo-ão melhor do que eu, disse Leonardo apontando com a única mão capaz para François, que nesse momento despertava dos pensamentos. Mas deixai-me que vos diga, majestade, que tendes de procurar adquirir em vossa juventude aquilo que diminuirá os danos em vossa velhice. Vós, amante das letras e das artes, que acreditais que a velhice tem por alimento a sabedoria, fazer o possível e o impossível em vossa juventude, de tal modo que, em vossa velhice, majestade, não vos falte esse sustento. Assim farei, maître Leonardo... Um nó na garganta impedia-o de falar. Nem o uso de sessenta canhões de bronze contra vinte mil soldados pertencentes aos três contingentes dos confederados na batalha por Milão o deixara sem palavras. Kekko, meu amigo, dirigiu-se a Melzi, disponde de tudo tal como determinámos. Agora sois vós o protector.
As pausas entre palavras eram cada vez mais longas. Assim se fará, mestre, assentiu Francesco, de forma mais sentimental do que profissional. Está tudo preparado. Podeis descansar em paz. Leonardo voltou-se para a sua vetusta governanta. Antes de abrir a boca, abraçou-a com um enorme sorriso. Mathurina secava as lágrimas com um pano, o mesmo que dias depois lhe seria entregue de forma especial. Mathurina, manda os meus cumprimentos a Battista de Villanis, que cuide de Milão e do Salai. E a ti, eterna companheira, obrigado por cada palavra de ânimo que me dedicaste. Nem a tosse do mestre maculou a atmosfera de carinho. Por vezes, tal como as palavras têm duplo sentido, as peças de roupa estão cosidas com duplo forro. Ninguém compreendeu esta última frase, nem Mathurina. Também ninguém se esforçou para entender o enigma das suas palavras. Mais cedo ou mais tarde, ou alguém teria uma surpresa ou o mestre levaria o resultado da adivinha para a sepultura.
Leonardo, dei ordem para iniciar o vosso projecto. O château de Chambord começará a ser construído logo que dispusermos do necessário. Domenico está ansioso por ver o seu trabalho arquitectónico fundido com a escada de dupla hélice. França e Itália, tudo em um. Apesar da dificuldade que implicava criá-lo a partir do nada, asseguro-vos que será um êxito, mon ami. Francisco I presenteou-o com estas belas palavras. Sabia que Leonardo nunca veria a obra terminada. Nem chegaria a ver o pôr-do-Sol. Mesmo assim, tomava por certo que uma boa notícia alegraria os ouvidos receptivos do sábio amigo. No entanto, o rei não estava preparado para ouvir as palavras pronunciadas a seguir». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 17 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Francesco teve de desviar o olhar para esconder o riso. Procurou cumplicidade em Mathurina, mas o que encontrou foi uma silenciosa reprimenda que o fez ruborizar»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) A última coisa que jantou foi uma sopa quente, disse entredentes, afastando o olhar do rei, que, apesar da confiança que tinha com o seu senhor, lhe instilava um profundo respeito. Francesco Melzi encontrava-se junto à cabeceira. O fiel secretário pessoal de Leonardo não estava há mais de doze anos com ele, mas o seu carinho, a sua preocupação e o trato familiar haviam-no confirmado como o seu braço direito. Está tudo a postos, majestade, disse ao rei. O monarca percebeu imediatamente. Leonardo tivera tempo suficiente e prudência para preparar a sua partida e tinha como assente que o seu testamento estava definido e que mais nada o prendia ao mundo dos vivos. Francisco I de França dirigiu um olhar rápido ao seu conselheiro real, François Desmoulins. Uma das capacidades do jovem regente era a comunicação não verbal, algo muito útil em situações como aquela. Numa fracção de segundo, Desmoulins instou a comitiva que apinhava a pequena sala que fazia as vezes de quarto principal que concedesse a sua majestade alguns minutos de intimidade. Com um pequeno gesto, indicou que os mais próximos de Leonardo poderiam, se fosse do seu agrado, ficar ali. Nada tinha a esconder daqueles que partilhavam igual afecto pela mesma pessoa.
Mon père..., foram as únicas palavras que o governante de França ousou pronunciar. Francesco, disse Leonardo com uma confiança que ultrapassava qualquer solenidade real e um finíssimo fio de voz, o qual mantivera o costume de italianizar os nomes daqueles com quem lidava. Grazie por realizar semelhante... Não há nada para agradecer,  interrompeu Francisco, evitando que o idoso desperdiçasse esforços. Por onde anda Caprotti? Pensava que, num momento como este, haveria de querer estar presente. Sabia que a pergunta era a menos adequada, mas precisava de começar de qualquer maneira, e não sabia quanto tempo lhe restava. O jovem Francesco apressou-se a responder. Sabia que Salai tinha consciência do delicado estado de saúde do mestre. Ele próprio procurara transmitir-lho por meio de carta, da qual obteve como resposta um seco mais cedo ou mais tarde, tinha de acontecer. Uma informação que administrou com cuidado e dissimulação, já que a missiva nunca chegou às mãos de Leonardo. Vontade não faltou a Francesco, visto que, apesar do abandono, Leonardo se lembrara de Gian Giacomo Caprotti, alás, Salai, com grande generosidade, no seu testamento. Mas era a vontade do maior génio que havia conhecido, e decidiu mantê-lo na ignorância para não provocar males maiores. Não lhe custou muito mentir a um rei. Giacomo encontra-se em Florença a tratar de questões financeiras, afirmou com uma credibilidade esmagadora, e, na impossibilidade de chegar a tempo às vossas terras de França, preferi não o alertar acerca deste funesto acontecimento. Maldito fornicador, este diabo!, gritou Leonardo, fazendo acompanhar estas palavras de uma ruidosa tosse. De certeza que anda a passear a verga e, ao mesmo tempo, a limpar os bolsos, não sabe fazer outra coisa!
Francesco teve de desviar o olhar para esconder o riso. Procurou cumplicidade em Mathurina, mas o que encontrou foi uma silenciosa reprimenda que o fez ruborizar. Francisco acompanhava toda a cena com atenção e, apesar da tristeza que se respirava no ambiente, esboçou uma careta que poderia perfeitamente ter resultado num acesso de riso. Mas, acto contínuo, Leonardo voltou a pousar os olhos no rei de França, como fazia há mais de vinte anos. Leonardo, mon ami, calma..., sussurrou Francisco enquanto compunha os cabelos de um idoso agora alterado que se revolvia ligeiramente por baixo dos lençóis. Há algo que possa fazer por ti, maître? Não, majestade. Já não há nada a fazer. Queriam matar Leonardo da Vinci. De uma maneira ou de outra, conseguiram. Pequenas lágrimas apareceram nos espelhos da alma de Mathurina. Francesco Melzi abanou a cabeça. Quanto mais tempo passava, mais custava a Leonardo da Vinci articular alguma palavra, e demorava-se a dosear a respiração que expelia de uma maneira inteligente e racional, como se se tratasse de um novo invento para formular as palavras necessárias no tempo certo». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. « Ali, em Milão, esperava-o um Leonardo cada vez mais velho, mas suficientemente enérgico para voltar a embarcar noutra aventura: atravessar de novo as fronteiras da sua pátria»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«Majestade, Leonardo da Vinci está a morrer. Subiu as amplas escadas que separavam a entrada do primeiro andar da quinta de Clos em segundos. Francisco I, rei de França, ignorou o comportamento próprio do protocolo real para chegar rápido junto do leito do amigo. Não hesitara um segundo ao deixar a esposa, Claudia de Valois, em boas mãos, alguns dias antes, depois de confirmado o estado de saúde do seu quarto filho e futuro delfim da casa Valois-Angoulême. Confiava plenamente no serviço do château de Saint-Germain-en-Laye. O mensageiro fora breve e directo. Majestade, Leonardo da Vinci está a morrer. Não fora preciso acrescentar mais nada. Francisco e Claudia necessitaram apenas de um olhar para compreender que aquele imprevisto tinha um único desenlace. O monarca em pessoa estaria presente no último sopro de vida do mestre florentino. Como rei, como padrinho, como aluno, como amigo. Dois dias intensos de caminho a reflectir sobre os últimos tempos. Haviam-se passado apenas três anos desde que Francisco I de Valois e de Angoulême entrara vitorioso em Milão, depois de vencer a Confederação Suíça na batalha de Marignano, que à data se proclamava senhora do milanesado. Em momento algum a sua ânsia de expansão territorial ofuscara a mente deste jovem rei amante das letras e das artes. Com o seu bom senso, reclamava apenas aquilo que por herança pertencia a sua esposa, Claudia, filha do anterior rei de França, Luís XII de Orleães.
Ali, em Milão, esperava-o um Leonardo cada vez mais velho, mas suficientemente enérgico para voltar a embarcar noutra aventura: atravessar de novo as fronteiras da sua pátria e, desta vez, aceitar o convite de um verdadeiro monarca para se tornar o primeiro pintor, o primeiro engenheiro e o primeiro arquitecto do rei. Embora, na época, Francisco tivesse outros planos. Queria, para lá de qualquer cargo cívico, um conselheiro, um amigo, um pai. Faz o que quiseres. Foram estas as palavras dirigidas a um Leonardo que, logo chegado à nova residência campestre, já imaginava o seu novo ateliê enquanto o seu assistente ainda não acabara de desembalar os instrumentos e as tintas do mestre. Como despedirmo-nos de alguém quando não estamos preparados? Como despedirmo-nos de alguém quando sentimos que muito fica por partilhar? Estas perguntas pairavam na mente do rei enquanto subia as escadas que conduziam ao primeiro andar da quinta onde o seu amigo italiano se estabelecera havia três anos.
Os seus poucos amigos, a criadagem, parte da corte real destinada a Amboise, todos ali estavam, encerrados numa construção de tijolo vermelho e lousa. Ao transpor a porta, não quis interromper o ritual que decorria aos pés do idoso que jazia na cama. Mais tarde, ficaria a saber que Leonardo, que sempre se debatera entre a fé e a razão, acabava de se confessar e recebia a extrema-unção, um indício de que o filho de Vinci sabia que a vida se lhe ia extinguindo. Lançou uma olhadela pela divisão. Tudo continuava na mesma. A secretária do amigo estava onde o vira escrever pela última vez, frente à janela. À direita, a lareira, sem sinal de ter sido utilizada recentemente.
Mal o sacerdote terminou o trabalho de Deus, afastou-se da cama para dar lugar ao rei de França. Desta vez, a pressa com que chegara ao quarto transformou-se numa sucessão de passos pesados, lentos, prudentes, respeitosos. À medida que Leonardo voltava a cabeça e, com surpresa, recebia esta inesperada visita, Francisco I louvou, com um sorriso forçado, a companhia de que seu pai gozava. Mathurina, cozinheira, governanta e a extensão viva da residência, já adiantada nos anos, aguardava de um dos lados com uma manta, pois era habitual preocupar-se com a possibilidade de o seu senhor apanhar frio. As rugas que acumulava no rosto eram, na realidade, um conjunto de volumes sobre a experiência que não seria possível encontrar nem nas melhores colecções de Lorenzo de Médici». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT