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segunda-feira, 11 de maio de 2020

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «Se o teu inimigo tem fome, alimenta-o, se tem sede, sacia-o, estarás a juntar brasas sobre a sua cabeça, e Jeová to retribuirá»

jdact

«(…) Confusão e separação das línguas são provações a que estamos sujeitos todos os dias, não só entre nós próprios e os outros mas também de nós para connosco próprios. Mas, no entanto, o desespero não está em causa; é ao construirmos a nossa existência, ao sermos construtores da nossa catedral, que se torna possível reencontrar o dom das línguas, e comunicar com tudo o que existe. Num fresco de Saint-Savin-sur-Gartempe, Cristo, provavelmente concebido como o Mestre de Obras da Jerusalém celeste, contempla uma comunidade de construtores a trabalhar. Constroem uma torre, uma torre de Babel que não se desmorona.

Um Fogo Sobre a Cabeça
Se o teu inimigo tem fome, alimenta-o,
Se tem sede, sacia-o,
Estarás a juntar brasas sobre a sua cabeça,
E Jeová to retribuirá.

Este provérbio do rei Salomão dá conta de um acto ritual conhecido da tradição egípcia. Dizia-se que uma personagem simbólica de nome Khamwese segurava um bastão numa mão e tinha um braseiro sobre a cabeça. Esta tão curiosa acção tinha um sentido muito preciso. Pôr um fogo sobre a cabeça de outrem tem por objectivo fazer nascer nele a humildade. Não a fraqueza e o abandono de todo o orgulho de criar mas a autêntica humildade, que é o conhecimento da posição do homem como intermediário entre céu e terra e como participante das duas naturezas.
Um outro rito praticado pelos antigos egípcios evoca na perfeição esta ideia. Quando o defunto era posto no sarcófago, ou o iniciado em certas cerimónias rituais, trava-se apenas de uma morte e não d’a morte. Para que o indivíduo pudesse ultrapassar
vitoriosamente as provações do além, era-lhe colocada uma chama sob a cabeça. A cabeça, que simbolizava o corpo inteiro, análoga ao naos de um templo, recebia assim a luz necessária para iluminar o caminho do Desconhecido.

Os Dedos Do Escriba
As palavras do deus, são a denominação egípcia dos hieróglifos, palavra formada pelos gregos e que significava sinais sagrados. Os hieróglifos, portadores de tamanha energia, não podiam ser confiados a qualquer um. Para aprender a manejá-los, era preciso passar pela Casa da Vida, onde os ensinamentos esotéricos guiavam os escribas na via da Sabedoria.
Quando os dedos do escriba gravavam as palavras do deus, ele fazia irradiar a energia de que os homens necessitam para viver. A Bíblia não esqueceu o tema dos dedos do escritor sagrado que inspira a Sabedoria divina ao ditar-lhe a sua obra. O que deve estar ligado à simbólica da mão e dos dedos do próprio Criador. Pensemos, por exemplo, na mão de Deus saindo das nuvens, na mão possante que, na catedral de Puy, suporta uma coluna.

O Cobre que Cura
Segundo a tradição egípcia, o corpo dos deuses é formado por diversos metais preciosos. Deve ser esta uma das origens simbólicas da alquimia medieval. Falava-se também na existência de um cobre muito especial, de origem celeste, que exercia um poder purificador e curativo sobre as doenças». In Christian Jacq, A Mensagem dos Construtores de Catedrais, 1980, Instituto Piaget, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia IPiaget/JDACT

domingo, 8 de setembro de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «Todos os vestígios de um vil passado devem desaparecer decretou Apopis. Este velho cemitério ocupa demasiado espaço»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas o cretense inclinou-se tanto como os outros antes de se lançar num longo discurso elogiando a grandeza e a força do imperador dos Hicsos, de quem era um fiel vassalo. Durante a maçadora peroração, Ventosa, uma magnífica eurasiática, jovem irmã de Apopis, aproveitava para acariciar o seu amante Minos, um pintor cretense enviado a Auaris para decorar o palácio de Apopis. O jovem corou mas deixou-a continuar. Os servidores do diplomata depositaram aos pés do imperador espadas, vasos de prata e móveis requintados. Creta mostrava-se igual à sua reputação. O almirante Jannas anda a limpar as Cíclades declarou o imperador com a sua voz rouca que fez estremecer a assistência e esse esforço de guerra custa-me caro. Como Creta fica próximo do lugar dos combates, entregar-me-á um tributo suplementar. O embaixador mordeu os lábios e curvou-se de novo. Apopis estava muito satisfeito com a decoração cretense do seu palácio fortificado e com o mobiliário que ali acumulara: um leito real roubado em Mênfis, queimadores de perfume e bacias de prata dispostas sobre as mesas de alabastro na sua sala de banhos com chão de calcário vermelho e, sobretudo, esplêndidas lâmpadas formadas por uma base em calcário e uma pequena coluna em sicómoro encimada por uma taça em bronze. No fim das suas abluções, o imperador vestiu uma túnica castanha com franjas e dirigiu-se ao apartamento da sua esposa Tani, sem sombra de dúvida a mulher mais feia da capital, à qual recusava o título de imperatriz para não ceder nem uma migalha de poder. Estás finalmente pronta?
Pequena e gorda, Tani experimentava sem cessar novos unguentos na esperança de melhorar as suas feições. Mas os resultados eram desastrosos. Felizmente, aquela antiga criada podia vingar-se quotidianamente nas egípcias outrora bem colocadas na vida e agora reduzidas à escravidão. Olha para isto, Apopis: não é surpreendente? Tani manipulava pérolas fabricadas com um estranho material. O que é? Segundo a minha nova escrava originária de Mênfis, chama-se vidro. Obtém-se fundindo quartzo com natrão ou cinzas. E pode-se colorir como se quiser! Pérolas de vidro... Estas são um pouco opacas, mas deve-se poder aperfeiçoar o processo. Anda, tenho pressa de ver realizados os nossos dois projectos, o teu e o meu. Vou acabar de me maquilhar. Tani recobriu a testa e as faces de uma espessa camada de khôl, à base de galena, óxido de manganésio, ocre castanho e malaquita.
Indiferente à acentuada fealdade da esposa, o imperador sempre apreciara o seu ódio ao Egipto que lhe inspirava excelentes ideias. Apertada num vestido com riscas brancas sobre fundo castanho, Tani saiu de cabeça levantada do palácio, um passo atrás do marido. Khamudi e a guarda imperial esperavam-nos. Está tudo pronto, Majestade. O cortejo dirigiu-se para o último cemitério egípcio de Auaris, onde estavam enterrados os antepassados que ali tinham vivido antes da invasão. Centenas de escravos indígenas apertavam-se uns contra os outros, por ordem da polícia. Todos receavam uma execução massiva.
Todos os vestígios de um vil passado devem desaparecer decretou Apopis. Este velho cemitério ocupa demasiado espaço. É por isso que vamos construir aqui casas destinadas aos oficiais. Uma idosa mulher conseguiu destacar-se da multidão e ajoelhou-se, implorante. Não, senhor, não ataqueis os nossos antepassados! Deixai-os dormir em paz, suplico-vos! Com uma pancada violenta desferida com o lado da mão, Khamudi quebrou o pescoço da insolente. Desembaracem-me disso ordenou aos polícias e abatam imediatamente quem ousar interromper o imperador. A partir de agora continuou Apopis enterrareis os vossos mortos diante das vossas casas ou mesmo no interior delas. Na minha cidade, não devem ocupar espaço. Não haverá mais nem oferendas nem preces pelos defuntos. Os mortos já não existem. Não há nem Belo Ocidente, nem Oriente eterno, nem Luz de ressurreição. Quem for surpreendido a exercer as funções de sacerdote funerário será imediatamente executado. A dama Tani estava encantada: com o seu génio habitual, Apopis não se contentara em pegar na sua ideia mas melhorara-a bastante. Nada podia mergulhar melhor os egípcios no desespero. Serem privados de qualquer contacto com os seus antepassados far-lhes-ia finalmente compreender que tinha nascido um mundo novo. O cortejo imperial tomou as barcas para atravessar o braço de água e atingir a ilha na qual estava edificado o templo de Set. Construído em tijolos, o santuário principal de Auaris era igualmente dedicado ao deus sírio da tempestade, Hadad. Em frente da entrada erguia-se um altar rectangular, rodeado de carvalhos e de fossas cheias com ossos calcinados de animais sacrificados, principalmente burros». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

As Egípcias. Christian Jacq. «O planalto de Gize sofreu muito nos últimos anos. A cidade moderna e a poluição agridem-no, construções aberrantes ameaçam desfigurar a estação, o mágico cenário e a serenidade de outrora…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nitocris, a Primeira Mulher Consagrada Faraó
Rodópis e Cinderela
(…) A bela Nitócris continuava a dar que falar para além dos factos históricos. Foi confundida com uma certa Rodópis, a dama de tez rosada, mas houve várias Rodópis que se confundiram um pouco na memória dos narradores orientais. Pensemos na cortesã grega nascida em Naucratis, uma cidade do Delta. Apesar dos seus costumes dissolutos, os gregos atribuíram-lhe a construção da pirâmide de Miquerinos! Será idêntica à muito sedutora Rodópis pela qual se apaixonou o rei Psamético, o qual teve uma filha chamada Nitócris, que foi sumo sacerdotisa do deus Amon, em Tebas, onde levou uma vida austera? Como vemos, tudo se mistura e se confunde, mas parece que os antigos admiraram muito os loiros cabelos de Nitócris e Rodópis. Nitócris-Rodópis foi a vedeta de uma lenda que todos conhecem, pelo menos em desenhos animados. Eis a sua versão egípcia: enquanto a jovem se banhava no Nilo, um falcão (Hórus, protector da realeza) apoderou-se de uma das suas sandálias, voou até à cidade de Mênfis, onde residia o faraó, e deixou-a cair no colo do monarca; este, imaginando o delicado e maravilhoso pé que as dimensões e a requintada confecção do objecto faziam supor, mandou então procurar a sua proprietária por todo o país. A empresa foi coroada de sucesso e os emissários do rei conduziram a bela jovem à corte; o rei apaixonou-se imediatamente e desposou-a. Quando morreu, o modelo de Cinderela teve o insigne privilégio de ser inumado numa pirâmide.

O fantasma de Nitócris
O planalto de Gize sofreu muito nos últimos anos. A cidade moderna e a poluição agridem-no, construções aberrantes ameaçam desfigurar a estação, o mágico cenário e a serenidade de outrora parecem pertencer ao passado. No entanto, quem tivesse a ventura de passear junto da pirâmide de Miquerinos ao poente, num dia ameno, poderia ver, sob o louro dos derradeiros raios de sol, uma mulher nua e muito bela. É Nitócris, ou, mais exactamente, o seu fantasma, a alma da pirâmide, encarregada de guardar o monumento. Diz a tradição que quem ceder aos seus encantos enlouquece; mas, se conhecermos o seu nome, se soubermos falar-lhe da idade áurea, não estaremos, simplesmente enfeitiçados pela mulher faraó de cabelos loiros e róseas faces?


Sebeq-neferu, mulher faraó antes da tormenta
Venturas do Médio Egipto
Cerca de 2060 a.C., o Egipto sai de uma longa crise. Durante duas dinastias, a décima primeira e a décima segunda (de 2133 a 1785 a.C.), três linhagens de faraós, os Mentuhotep, os Amenemhat e os Sesóstris, governaram um país novamente próspero onde, infelizmente, a obra arquitectónica desapareceu por completo. Alguns monumentos, desmontados com cuidado, foram utilizados como alicerces dos seus próprios edifícios pelos reis do Novo Império. Podemos, no entanto, admirar a capela branca de Sesóstris I, reconstruída pelo arquitecto francês Chevrier e exposta em Carnaque no museu ao ar livre. Elegância da geometria, beleza do calcário, delicadeza dos hieróglifos, perfeição das cenas esculpidas: tudo evoca a idade clássica do Médio Império, inspiradora de grandes obras literárias como o Conto de Sinué, verdadeiro romance de espionagem que narra a missão de um dignitário egípcio no estrangeiro e o seu regresso ao redil. É verdade que já não constróem pirâmides gigantes em pedra talhada como as do planalto de Gize, mas o símbolo não é abandonado, ainda que os faraós desta época se contentem com pirâmides mais modestas, algumas das quais construídas em grande parte com tijolo. Uma estação como a de Licht, a sul do Cairo, manifesta porém uma grandeza sempre perceptível, apesar das destruições infligidas aos conjuntos funerários de Sesóstris. Nos últimos anos tem-se tentado demonstrar que o estatuto social e legal da mulher egípcia se havia degradado um pouco durante o Médio Império, mas o estudo da documentação prova que continuava a ser livre e autónoma, em conformidade com os princípios civilizadores enunciados na primeira dinastia. O Médio Império conheceu três séculos e meio de paz, que terminaram com o reinado de uma mulher faraó, Sebeq-Neferu». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT

terça-feira, 30 de julho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «Embora o almirante Jannas estivesse sempre ocupado com os piratas nas Cíclades e a revolta dos tebanos ainda não controlada, a entrega dos tributos realizava-se em Auaris, de acordo com o cerimonial habitual»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O governador Emheb saberá manter a frente. Eu quero partilhar a morte do meu marido. Majestade, não me atrevo a compreender... Devo penetrar na Morada da Acácia e ninguém me impedirá de o fazer. Já eram apenas três. Três velhas sacerdotisas que formavam a comunidade das reclusas da Morada da Acácia, votada a um desaparecimento certo se a Rainha Ah-hotep não lhes tivesse assegurado casa e comida para que elas transmitissem o seu saber. Ah-hotep sentou-se com elas junto de uma acácia de temíveis espinhos. A vida e a morte estão nela revelou a Superiora. É Osíris que lhe dá a sua verdura, e é no interior da colina de Osíris que o sarcófago se transforma numa barca capaz de vogar no universo. Se a acácia morrer, a vida abandona os vivos até que o pai ressuscite no filho. Isís cria um novo Faraó, cura os ferimentos infligidos por Set e a acácia cobre-se de folhas. A profecia era clara: Kamés tornar-se-ia Rei. Mas Ah-hotep exigia mais. Possa o meu espírito permanecer eternamente ligado ao de Seken para além da morte. Visto que a morte nasceu respondeu a Superiora morrerá. Mas o que era antes da criação não é afectado pela morte. Nos paraísos celestes, não existe medo nem violência. Justos e antepassados comunicam com os deuses.
Como posso entrar em contacto com Seken? Faz chegar até ele uma mensagem de acordo com o teu coração. E se ele não me responder? Que o deus do destino vele pela Rainha do Egipto. Era o único objecto de grande valor que Ah-hotep possuía: um porta-pincéis de madeira dourada, incrustado de pedras semipreciosas. Tinha a forma de uma coluna e nele estava inscrito: a Rainha é amada por Tot, o senhor das palavras divinas. Num papiro novo, Ah-hotep escreveu em belos hieróglifos uma carta de amor ao seu defunto marido, suplicando-lhe que afastasse os maus espíritos e agisse em favor da libertação do Egipto. Implorava que lhe respondesse a fim de lhe provar que estava realmente ressuscitado. Ah-hotep prendeu a missiva a um ramo da acácia. Depois, com argila, modelou uma estatueta de Osíris estendido no seu leito de morte que depositou ao pé da árvore. Por fim, cantou acompanhando-se com a harpa portátil a fim de que as ressonâncias garantissem à alma de Seken uma viagem harmoniosa no Além. Mas responder-lhe-ia o homem que ela amava?
Embora o almirante Jannas estivesse sempre ocupado com os piratas nas Cíclades e a revolta dos tebanos ainda não controlada, a entrega dos tributos realizava-se em Auaris, de acordo com o cerimonial habitual. Apopis apreciava aquele momento em que os embaixadores, vindos de todas as províncias do Império, se inclinavam profundamente diante dele e lhe ofereciam uma impressionante quantidade de riquezas. Ao contrário dos antigos Faraós, guardava para si a maior parte em vez de a colocar de novo no circuito comercial. Braço direito implacável do Imperador, Khamudi não se esquecia de se servir largamente, com a bênção do seu senhor, cuja segurança garantia. Cabelos muito negros colados ao crânio redondo, olhos ligeiramente rasgados, mãos e pés gorduchos, ossatura pesada, Khamudi engordava cada vez mais desde que fora nomeado grande tesoureiro. Aquele que os seus escravos chamavam Agarra-tudo ou Sua Suficiência recebia uma percentagem de todas as operações comerciais importantes, depois de ter tomado o controlo sobre a exploração dos papiros no Delta.
A sua única distracção consistia em entregar-se às piores perversidade sexuais com o contributo de Yima, a sua loira e exuberante esposa, de origem cananeia. Também aí, Apopis, que pretendia no entanto ser austero e moralista, fechava os olhos. E fechá-los-ia durante todo o tempo em que Khamudi se mantivesse no seu lugar, o de segundo. Como todos os anos, os armazéns de Auaris enchiam-se de ouro, pedras preciosas, bronze, cobre, diversas essências de madeira, tecidos, jarros de óleo e de vinho, unguentos e muitas outras riquezas que asseguravam à capital do Império a sua inegável prosperidade. Quando o embaixador de Creta, envergando uma túnica decorada com losangos vermelhos, avançou para o Imperador, Khamudi tocou no punho da sua adaga e fez um sinal aos seus archeiros. Ao mínimo gesto suspeito do diplomata, tinham ordem para o abater». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

terça-feira, 16 de julho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ao crepúsculo, pareceu-lhe distinguir o seu mensageiro ao longe. O avanço era hesitante, o voo mais pesado do que o habitual. No entanto, era realmente ele! Larápio poisou no ombro de Ah-hotep. Com o flanco direito coberto de sangue, estendeu orgulhosamente a pata direita à qual estava preso um pequeno papiro selado. A Rainha felicitou-o acariciando-o docemente, retirou a missiva e confiou o corajoso mensageiro a Teti, a Pequena. Deve ter sido ferido por uma flecha. Trata dele com cuidado. É superficial considerou a Rainha-Mãe, depois de ter examinado a ferida. Daqui a alguns dias o Larápio estará de perfeita saúde. Segundo o curto texto de um resistente da região de Assiut, a cidade fora quase completamente destruída, com excepção dos túmulos antigos. Tinha apenas uma pequena guarnição hicsa, que recebia as mercadorias provenientes dos oásis de Khargeh e Dakhla. A caminho decidiu Ah-hotep.
De madrugada, o navio acostou ao porto de Assiut. Viajar de noite era perigoso, porque havia o risco de encalhar num banco de areia ou incomodar hipopótamos, cuja cólera era arrasadora. Mas, de dia, o Nilo não era seguro. Os hicsos rondavam por todos os lados. Outrora muito activo, aquele porto estava ao abandono. Velhos navios e uma barcaça esventrada apodreciam. Nem Risonho nem Vento do Norte detectaram qualquer presença inquietante. O molosso desembarcou primeiro, seguido pelo burro, a Rainha, o Afegão, o Bigodes e uma dezena de jovens archeiros bem alerta. Aliada de Ah-hotep, a Lua iluminava a paisagem. A cidade estendia-se ao abrigo de uma falésia na qual tinham sido escavados os túmulos, entre os quais o de um Sumo Sacerdote de Up-uaut, o Abridor dos caminhos, detentor da enxó indispensável para ressuscitar a múmia. Se eu fosse o comandante hicso considerou o Afegão seria exactamente neste lugar que colocaria as minhas sentinelas. Não há melhor ponto de observação. Vamos verificar isso declarou o Bigodes. Se tiveres razão, sempre serão alguns hicsos a menos. O Bigodes era um egípcio do Delta, arrastado quase involuntariamente para a resistência, que se tornara a sua razão de viver.
Espoliado pelos invasores, o Afegão apenas sonhava restabelecer o comércio de lápis-lazúli com um Egipto novamente respeitador das leis comerciais. Os dois homens tinham corrido juntos muitos perigos. Admiradores incondicionais da Rainha Ah-hotep, a mulher mais bela e mais inteligente que tinham conhecido, bater-se-iam ao lado dela até ao fim, fosse ele qual fosse. O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso. Quatro sentinelas definitivamente adormecidas disse o Bigodes. O caminho está livre.
Como Ah-hotep seguia o mesmo treino dos soldados, não teve qualquer dificuldade em subir a encosta. Vários túmulos tinham sido profanados e o do Sumo Sacerdote Up-uaut fazia infelizmente parte deles. Os hicsos armazenavam nela armas e mantimentos. Com a raiva no coração, a Rainha explorou os destroços à luz de uma tocha. Atingiu a pequena sala situada próximo do fundo do túmulo, onde o ritualista tinha o costume de depositar os objectos mais preciosos. Jaziam no chão fragmentos de cofres e de estátuas. A Rainha revistou aquele caos. E, por baixo de um cesto contendo alimentos mumificados, encontrou a enxó de ferro celeste utilizada durante os rituais de ressurreição. A porta do túmulo de Seken fechou-se e foi o seu filho mais velho, auxiliado pelo intendente Qaris, que colocou o selo da necrópole. Depois de Ah-hotep ter aberto os olhos, a boca e as orelhas da múmia, a alma do Faraó deixou de estar presa à terra. Temos de falar da situação, Majestade sugeriu Qaris. Mais tarde. Deveis interromper o mais rapidamente possível a vossa estratégia». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «Quatro bois puxavam o sarcófago colocado sobre um trenó de madeira. A intervalos regulares, ritualistas derramavam leite na pista para facilitar o deslizamento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O Sumo Sacerdote curvou-se diante da que os soldados tinham denominado a Rainha Liberdade. Kamés mantinha-se erecto, o pequeno Ahmés chorava e apertava com força a mão da mãe. Estais preparada, Majestade, para manter o fogo conquistador de Tebas? Estou. Kamés, olha bem pelo teu irmão. Ahmés agarrou-se à mãe. Quero ficar contigo... E quero o meu pai! Ah-hotep beijou ternamente o rapazinho. O teu pai está no céu, com os outros Faraós e nós devemos obedecer-lhe terminando a sua obra. Para isso, preciso de todos e, sobretudo, dos nossos dois filhos. Compreendes? Engolindo as lágrimas, Ahmés colocou-se diante do irmão mais velho, que o segurou pelos ombros. O Sumo Sacerdote conduziu Ah-hotep até à capela da deusa Mut, cujo nome significava ao mesmo tempo a Mãe e a Morte. Fora ela que dera à adolescente a força de travar um combate impossível. E era ela que ia transformar a modesta cidade tebana em capital da reconquista. Ao diadema de ouro da mãe que Ah-hotep trazia, o Sumo Sacerdote prendeu um uraeus do mesmo metal. Depois, entregou-lhe um arco e flechas. Majestade, comprometeis-vos a combater as trevas? Comprometo. Nesse caso, que as vossas flechas atinjam os Quatro Orientes.
Ah-hotep visou o Oriente, depois o Norte, o Sul e por fim o Ocidente. A nobreza da sua atitude impressionara todos os ritualistas. Visto que o cosmos vos é favorável, Majestade, eis a vida que devereis preservar e a magia que devereis espalhar. O Sumo Sacerdote apresentou ao rosto da Rainha uma cruz egípcia e um ceptro, cuja cabeça era a do animal de Set. Poderosas vibrações atravessaram o corpo de Ah-hotep. Nela, a partir de agora, incarnava a esperança de todo um povo. Depois dos soldados da base secreta terem prestado uma última homenagem ao Faraó defunto, o cortejo fúnebre tomou o caminho da necrópole. Quatro bois puxavam o sarcófago colocado sobre um trenó de madeira. A intervalos regulares, ritualistas derramavam leite na pista para facilitar o deslizamento. Neste período de guerra, o artesanato tradicional estava reduzido à expressão mais simples; assim, o mobiliário funerário de Seken apenas comportava objectos modestos, indignos de uma sepultura real: uma paleta de escriba, um arco, sandálias, um saiote de cerimónia e um diadema. Já não havia em Tebas um único grande escultor. Os do atelier real de Mênfis tinham sido executados há muito tempo pelos hicsos.
Ah-hotep era acompanhada pelos dois filhos, a mãe, o intendente Qaris e o Superintendente dos Celeiros Herai, responsável pela segurança em Tebas e grande caçador de colaboradores com o inimigo. O governador da cidade de Edfu, Emheb, tivera de regressar a Cusae afim da manter o moral das tropas que consolidavam a frente. Diante da entrada do pequeno túmulo, tão irrisório em relação às pirâmides da Idade de Ouro, Qaris e Herai ergueram o sarcófago. Antes de o confiarem à deusa do Ocidente, que absorveria Seken no seu seio onde o faria renascer, era necessário abrir-lhe a boca, os olhos e as orelhas. O sarcófago de Sekenenré está conservado no Museu do Cairo. O sacerdote funerário estendeu à Rainha uma enxó de madeira. Logo que Ah-hotep lhe tocou, quebrou-se. Não temos outra, lamentou o ritualista. Era a última que tinha sido consagrada quando o Faraó reinava sobre o Egipto. O sarcófago do Rei não pode permanecer inerte! Então, Majestade, será necessário utilizar a enxó do Abridor dos Caminhos. Mas está em Assiut objectou Qaris e a cidade não é segura! Vamos lá imediatamente decidiu a Rainha. Majestade, suplico-vos... Não tendes o direito de correr semelhante risco! O primeiro dos meus deveres consiste em tornar tranquila a viagem do Faraó para os paraísos do outro mundo. Não o fazer conduzir-nos-ia ao fracasso.
Trezentos quilómetros a norte de Tebas, em território inimigo, a cidade de Assiut, a antiga cidade do chacal divino, o Abridor dos caminhos, estava agonizante. O Afegão e o Bigodes, dois calejados resistentes promovidos a oficiais no exército de libertação, possuíam numerosos contactos na região. Tinham portanto confiado uma mensagem a Larápio, o chefe dos pombos-correio, capaz de percorrer mais de mil quilómetros num só voo à velocidade de oitenta quilómetros por hora. A missão era arriscada. Se Larápio não regressasse, Ah-hotep perderia um dos seus melhores soldados. Aliás, ela não lhe ocultara o grande risco que ia correr. Muito atento, com a cabeça bem direita, o olhar brilhante, o pombo branco e castanho considerara-se apto a vencer. Mas dois dias tinham decorrido e a Rainha perscrutava o céu em vão». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

sábado, 22 de junho de 2019

Néfer. O Silencioso. A Pedra da Luz. Christian Jacq. «Quem és tu? Chamo-me Ardente e quero bater à porta da confraria do Lugar de Verdade. Tens um salvo-conduto? Não. Quem te recomenda? Ninguém»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) És incapaz de me compreender, pai. É inútil continuar esta conversa. O agricultor atirou a cebola para longe. Agora basta. És meu filho e deves-me obediência. Adeus. Ardente voltou as costas ao pai, que agarrou num cabo de ferramenta de madeira e lhe bateu nas costas. O rapaz voltou-se lentamente. O que o camponês viu nos olhos do jovem colosso aterrorizou-o e recuou até à parede. Uma mulherzinha enrugada saiu da arrecadação onde se tinha escondido e agarrou-se ao braço direito do filho. Não agridas o teu pai, suplico-te! Ardente beijou-a na testa. Tu também não, mãe, tu também não me compreendes, mas não te quero mal por isso. Descansa, vou-me embora e nunca mais voltarei. Se saíres desta casa, preveniu-o o pai, deserdo-te! Estás no teu direito. Vais acabar na miséria! O que me importa? Quando franqueou o limiar da casa familiar, Ardente soube que nunca mais ali voltaria. Metendo pelo caminho que seguia ao lado de um campo de trigo, o rapaz respirou fundo. Um mundo novo abria-se à sua frente.

Ardente saiu da zona cultivada para se dirigir ao Lugar de Verdade. Nem as queimaduras do sol nem a aridez do deserto o assustavam. E o rapaz queria tentar o que fosse possível: talvez bater à porta da aldeia fizesse com que ela se abrisse. Naquele fim de manhã não havia ninguém na via pisada pelos cascos dos burros que, todos os dias, traziam à confraria água, alimentos e tudo aquilo de que ela tinha necessidade para trabalhar longe dos olhos e dos ouvidos. Ardente amava o deserto. Gostava da sua força implacável, sentia-lhe a alma vibrar em uníssono com a sua e caminhava dias inteiros sem se cansar, saboreando o contacto dos pés nus com a areia ardente. Mas desta vez o rapaz não foi longe. O primeiro dos cinco fortins que garantiam a protecção do Lugar de Verdade barrou-lhe o caminho. Como Ardente tinha notado os vigias que não tiravam os olhos dele, foi direito ao obstáculo. Mais valia enfrentar os guardas e saber o que podia esperar. Dois archeiros saíram do fortim. Ardente continuou a avançar, com os braços ao longo do corpo para mostrar bem que não estava armado. Alto! O rapaz imobilizou-se. O mais velho dos dois archeiros, um núbio, dirigiu-se para ele. O outro colocou-se de lado, esticou o arco e visou-o. Quem és tu? Chamo-me Ardente e quero bater à porta da confraria do Lugar de Verdade. Tens um salvo-conduto? Não. Quem te recomenda? Ninguém. Estás a fazer troça de mim, meu rapaz? Sei desenhar e quero trabalhar no Lugar de Verdade. Esta zona é interdita, devias saber. Quero encontrar-me com um mestre artesão e provar-lhe as minhas qualidades. Eu tenho ordens. Se não te fores embora imediatamente, prendo-te por ofensa à força pública.
Não tenho más intenções... Deixem-me tentar a sorte! Desaparece! Ardente lançou um olhar às colinas circundantes. Não tenhas esperança de te esgueirares por ali, avisou o archeiro núbio. Serias abatido. Ardente teria podido atacar o polícia com um murro, atirar-se ao chão para evitar a flecha do colega e depois tentar forçar a passagem. Mas quantos archeiros teria que afastar do seu caminho antes de chegar à porta da aldeia? Desapontado, voltou para trás. Logo que ficou fora da vista dos vigias, sentou-se numa rocha, decidido a observar o que se passava naquele caminho. Havia de encontrar uma ideia para conseguir. A mãe de Ardente chorava há horas sem que as filhas a conseguissem consolar. O pai tinha sido obrigado a contratar três camponeses para substituírem o jovem colosso. Furioso, sem deixar de se sentir encolerizado contra o filho indigno, fora ao escrivão público para ditar uma carta dirigida ao gabinete do vizir. Anunciando a sua decisão em termos implacáveis e definitivos, o agricultor decretava, como lhe permitia a lei, que deserdava Ardente e que a totalidade dos seus bens seriam para a esposa que deles faria uso como entendesse. Se ela morresse antes dele, as três filhas herdariam em partes iguais». In Christian Jacq, A Pedra da Luz, Néfer, O Silencioso, Bertrand Editora, 2000, ISBN-978-972-251-135-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Pedra da Luz. A Mulher Sábia. Christian Jacq. «Nomeado pelo vizir com a aprovação do Faraó, o escriba do Túmulo estava sobrecarregado de trabalho. Competia-lhe velar pela prosperidade da aldeia»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Era por isso que o escriba do Túmulo esperava todas as manhãs, não sem impaciência, a chegada dos transportadores de água cujos pesados potes permitiam encher as enormes ânforas de barro rosado, cozido de forma homogénea e recoberto com um vidrado amarelo-pálido ou vermelho-escuro, dispostas nas ruelas da aldeia. ao abrigo de proteções a fim de que a frescura do precioso líquido fosse preservada. Algumas dessas ânforas tinham inscritos os nomes de Amenhotep I, de Tutmés III ou da Rainha-Faraó Hatchepsut e serviam para recordar que os soberanos se preocupavam com o bem-estar dos habitantes do Lugar de Verdade. O regulamento era rigoroso: os carregadores despejavam a água pura, várias vezes por dia, em dois reservatórios, um a norte da aldeia e o outro a sul. Os aldeões vinham buscá-la com jarros para encherem as ânforas do interior cujo conteúdo utilizavam para beber, se lavarem ou cozinhar. Não havia penúria desde a criação da confraria mas, pelo contrário, uma abundância muito apreciada pela pequena comunidade que vivia numa zona desértica.
Nomeado pelo vizir com a aprovação do Faraó, o escriba do Túmulo estava sobrecarregado de trabalho. Competia-lhe velar pela prosperidade da aldeia, preservar um bom entendimento entre os dois chefes de equipa, pagar ao pessoal, manter o Diário do Túmulo, no qual anotava cuidadosamente as ausências e os respectivos motivos, receber o material necessário aos trabalhos e distribuí-lo e continuar a Grande Obra iniciada pelos seus predecessores. Um trabalho assustador que não impedia Kenhir de se entregar à sua distracção favorita: a escrita. Filho adoptivo do ilustre Ramosé elevado à dignidade raríssima de escriba de Maet antes de morrer, Kenhir herdara a sua bela casa, o seu gabinete e, sobretudo, a sua rica biblioteca onde figuravam todos os grandes autores cujas obras copiara com a sua escrita desajeitada e quase ilegível. Amador da poesia épica, compusera uma nova versão de A Batalha de Kadesch que testemunhara a vitória de Ramsés sobre os hititas e da luz sobre as trevas e entregara-se depois a uma reconstituição romanesca da prestigiosa XVIII dinastia. Logo que se reformasse, Kenhir consagrar-se-ia à redacção definitiva de uma Chave dos sonhos, fruto de pesquisas de longo fôlego.
Um artesão procura-vos, avisou Niut a Vigorosa. Não vês que estou ocupado? Quando poderei estar tranquilo nesta aldeia! Quereis vê-lo ou não? Que entre, rosnou Kenhir. Ipui o Examinador, um escultor da equipa da direita, era franzino e nervoso mas de notável habilidade. Sabia domesticar a rocha mais renitente e nunca fazia má cara a um problema difícil. Algum aborrecimento? Um sonho mau, confessou Ipui. Preciso de vos consultar. Conte. Em primeiro lugar, o deus carneiro Khnum apareceu-me e disse: os meus braços protegem-te, confio-te as pedras nascidas do ventre das montanhas para construir templos. Era bastante assustador... Enganas-te, é um excelente presságio. Eincarna em Khnum a energia da criação que constrói os homens e dá aos artesãos a capacidade de dominarem a sua força. E depois! Depois... É mais delicado. Não tenho tempo a perder, Ipu. Ou falas ou vais-te embora. O artesão parecia muito pouco à vontade. Sonhei que fazia amor com uma mulher..., que não era a minha mulher. Muito mau! Uma única solução: mergulha na água fresca de um canal, de madrugada, e ficarás de novo em paz. Mas, diz-me... Porque permaneceste na aldeia em vez de ires trabalhar no Vale dos Reis com o resto da equipa? Levei oferendas ao túmulo do meu pai e a minha mulher está doente.
Kenhir anotou os dois motivos, considerados como válidos, no Diário do Túmulo. Ipui não merecia a terrível designação de preguiçoso que teria arrastado graves sanções. O escriba do Túmulo não deixaria no entanto de verificar as suas palavras, pois já não tinha confiança em ninguém desde que um artesão dera como razão para a sua ausência a morte da tia..., morta pela segunda vez. Logo que o escultor saiu da sala de colunas que servia de gabinete a Kenhir, entrou Didia o Carpinteiro, um homem de elevada estatura e gestos lentos. O chefe de equipa confiou-me um trabalho na oficina, explicou, e pediu-me para vos recordar que os salários deviam ser pagos amanhã de manhã.
O pagamento dos salários... Verificava-se de vinte e oito em vinte e oito dias, inexoravelmente! O escriba do Túmulo e os dois chefes de equipa recebiam cada um cinco sacos de espelta e dois sacos de cevada, enquanto que cada artesão tinha direito a quatro sacos de espelta e um de cevada. A isso juntava-se carne, vestuário e sandálias. De dez em dez dias, Kenhir velava pela distribuição de óleo, unguentos e perfumes; e quotidianamente cada aldeão era gratificado com cinco quilos de pão e de bolos, trezentos gramas de peixe, várias espécies de legumes e frutos, leite e cerveja. Os excedentes permitiam-lhes fazer trocas no mercado». In Christian Jacq, A Pedra da Luz, A Mulher Sábia, 1995(?), Bertrand Brasil, ISBN 978-852-860-772-7.

Cortesia deBertrandB/JDACT

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «Recuso. Tão frágil frente à magnífica jovem morena de fascinante encanto, Teti, a Pequena, não cedeu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Desde que o cadáver do marido fora trazido da frente para o navio-almirante, a jovem Rainha de trinta e dois anos nunca mais o abandonara. Um cadáver martirizado, atingido por vários ferimentos mortais, que a mumificação deixara aparentes por ordem de Ah-hotep. Não queria apagar os vestígios da coragem de Seken, que se batera sozinho contra uma horda de hicsos antes de sucumbir. A sua bravura cerrara as fileiras dos egípcios, aterrorizados pelos carros de guerra puxados por cavalos, uma arma nova e temível. Proveniente de uma família pobre, Seken apaixonara-se perdidamente por Ah-hotep, que admirava aquele ser puro e nobre, ébrio de liberdade e pronto a sacrificar a vida para devolver ao Egipto a sua passada grandeza. De mãos dadas, Seken e Ah-hotep tinham enfrentado múltiplas provas antes de poderem atacar as posições hicsas a norte de Tebas e começar assim a alargar o cerco. Ah-hotep tivera a ideia de criar uma base secreta onde os soldados do exército de libertação seriam preparados para o combate e confiara a Seken a tarefa de concretizar o projecto. Como Rainha do Egipto, fora Ah-hotep a reconhecer Seken como Faraó, uma pesada função da qual ele se mostrara digno até ao último suspiro. Embora o Império das Trevas tivesse feito da existência do par real um caminho de lágrimas e de sangue, Ah-hotep recordava os raros e intensos momentos de felicidade partilhados com Seken.
No seu coração, permaneceriam para sempre a juventude, a força e o amor. Parecendo extremamente frágil, a Rainha-Mãe Teti, a Pequena, desceu ao túmulo onde a filha meditava. Sempre impecavelmente vestida e maquilhada, a idosa dama lutava com obstinação contra a fadiga surda que a obrigava a fazer uma longa sesta e a deitar-se cedo. Abalada pela morte do genro, receava que Ah-hotep já não tivesse a energia necessária para sair do seu sofrimento. Deverias alimentar-te sugeriu-lhe. Como Seken é belo, não é verdade? Temos de esquecer os seus horríveis ferimentos e pensar apenas no rosto orgulhoso e determinado do nosso Rei. Ah-hotep, tu hoje és a soberana do país. Todos esperam as tuas decisões. Fico ao pé do meu marido. Velaste-o de acordo com os nossos rituais, a mumificação terminou. Não, mãe, não...
Sim, Ah-hotep. E compete-me a mim pronunciar as palavras que receias ouvir: chegou a hora de proceder à cerimónia dos funerais e fechar o túmulo. Recuso. Tão frágil frente à magnífica jovem morena de fascinante encanto, Teti, a Pequena, não cedeu. Comportando-te como uma chorona, trais o Faraó e tornas o seu sacrifício inútil. Agora, ele deve viajar para as estrelas e nós continuar a luta. Dirige-te a Karnak onde os sacerdotes farão de ti a incarnação de Tebas a Vitoriosa. O tom imperioso da mãe surpreendeu Ah-hotep e as suas palavras trespassaram-na como outras tantas punhaladas. Mas Teti, a Pequena, tinha razão. Sob poderosa escolta e acompanhada pelos dois filhos, Kamés de catorze anos e Ahmés de quatro, Ah-hotep apresentou-se no templo de Amon de Karnak onde os ritualistas não cessavam de cantar hinos pela imortalidade da alma real. Desde a ocupação hicsa que Karnak não beneficiava de qualquer ampliação. Protegido por uma cerca, o templo era composto por dois santuários principais, um de pilares quadrados e outro de pilares em forma de Osíris que proclamavam a ressurreição do deus assassinado pelo seu irmão Set. De acordo com uma previsão, a capela contendo a estátua de Amon, o Escondido, abrir-se-ia por si mesma se os Egípcios conseguissem vencer os Hicsos». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «O olhar assassino de Apopis dissipou as hesitações do oficial superior, que saltou para o labirinto e caiu sobre os joelhos e as mãos. À primeira vista, o lugar nada tinha de perigoso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O seu armamento é arcaico, mas esses egípcios batem-se como feras! Felizmente, os nossos carros e os nossos cavalos dão-nos uma enorme superioridade. E depois, Majestade, não deveis esquecer que matámos o seu chefe, Seken. Unicamente graças ao espião que gangrena o inimigo, pensou Apopis, cujo olhar torvo permanecia indecifrável. Onde está o cadáver de Seken? Os egípcios conseguiram recuperá-lo, Majestade. É pena. De boa vontade o teria pendurado na grande torre da cidadela. A Rainha Ah-hotep ficou ilesa? Infelizmente, sim, mas é apenas uma mulher. Depois da morte do marido, só pensará em render-se. Os restos do exército egípcio não tardarão a dispersar-se e destruí-los-emos.
Ah, eis a distracção!, exclamou o Imperador. Um enorme touro de combate, olhos furiosos e cascos agressivos, entrou na arena para onde foi lançado um homem nu e sem armas.

O general empalideceu. O infeliz era o seu adjunto directo, que se batera corajosamente em Cusae. O jogo é tão simples como divertido explicou o Imperador. O touro carrega sobre o seu adversário, cuja única hipótese é agarrar nos chifres e realizar um salto perigoso por cima do cachaço do monstro. Segundo o pintor cretense Minos, que decora o nosso palácio, é um desporto muito em voga no seu país. Graças a ele, as minhas pinturas são mais bonitas do que as de Cnossos. Não és da mesma opinião? Oh, sim, Majestade! Repara... Aquele touro é um verdadeiro mastodonte e tem mau carácter. De facto, o monstro não tardou a precipitar-se sobre a sua vítima, que cometeu o erro de tentar fugir voltando-lhe as costas. Os chifres cravaram-se nos rins do oficial hicso. O touro projectou o moribundo no ar, espezinhou-o e espetou-lhe os chifres uma segunda vez antes de soprar. Apopis fez uma careta de desagrado.
Aquele incapaz foi tão decepcionante na arena como no combate afirmou. Um cobarde... Eis o que ele era. Mas a responsabilidade das nossas derrotas não é da responsabilidade do seu superior? O general suava em grossas bagas. Ninguém teria podido fazer melhor, Majestade, garanto-vos, eu... És um imbecil, general. Em primeiro lugar, porque não soubeste prever esse ataque; depois, porque os teus soldados foram vencidos em vários locais do território egípcio e não se comportaram como verdadeiros hicsos; finalmente, porque acreditas que o adversário está vencido. Levanta-te. Tetanizado, o general obedeceu. O Imperador tirou da bainha a adaga com castão de ouro que nunca o abandonava. Desce para o labirinto ou corto-te a goela. É a tua única hipótese de obteres o meu perdão.
O olhar assassino de Apopis dissipou as hesitações do oficial superior, que saltou para o labirinto e caiu sobre os joelhos e as mãos. À primeira vista, o lugar nada tinha de perigoso. Era composto por ziguezagues marcados por paliçadas, por vezes cobertas de verdura. Era impossível perder-se: um único caminho, tortuoso, conduzia à saída. Por altura da primeira paliçada, uma mancha de sangue chamou a atenção do general. Sem reflectir demasiado, decidiu saltar, como se franqueasse um obstáculo invisível. Foi a sua sorte, pois duas lâminas saltaram de cada lado, roçando-lhe as plantas dos pés. O Imperador apreciou a façanha. Desde que melhorara muito os diversos dispositivos do labirinto, poucos candidatos ultrapassavam aquela primeira etapa. O general comportou-se da mesma maneira ao sair do segundo ziguezague e foi esse o seu erro. Quando caiu no chão, este fugiu-lhe debaixo dos pés e precipitou-se num lago onde dormitava um crocodilo esfomeado. Os gritos do hicso não perturbaram nem o animal nem o Imperador, a quem um servidor se apressou a trazer uma taça de bronze para lavar os dedos. Enquanto os maxilares do crocodilo estalavam e tornavam a estalar, Apopis lavava as mãos». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

quinta-feira, 6 de junho de 2019

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «… aumentar ainda mais a dimensão do seu Império, que era já o mais vasto alguma vez conhecido. A Núbia, Canaã, a Síria, o Líbano, a Anatólia, Chipre…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Sentado à esquerda de Apopis, Imperador dos Hicsos, o general de transportes sentia-se pouco à-vontade. Gozava, no entanto, de uma honra muito desejada: assistir, na companhia do soberano mais poderoso do mundo, à prova do touro de que os habitantes de Auaris, capital do Império situada no delta do Egipto, falavam com pavor sem saberem exactamente de que se tratava. Instalados numa plataforma, os dois homens dominavam uma arena e uma construção circular chamada o labirinto, de onde ninguém, segundo se dizia, saía vivo. Pareces muito nervoso observou Apopis, com a sua voz rouca que gelava o sangue. É verdade, Majestade... O vosso convite para aqui, para o palácio... Não sei como vos hei-de agradecer respondeu o oficial superior, gaguejando e sem se atrever a olhar o Imperador, cuja fealdade era impressionante. Grande, de nariz proeminente, faces flácidas, ventre proeminente, pernas grossas, Apopis só se permitia dois adornos: um escaravelho em ametista montado num anel de ouro no dedo mínimo da mão esquerda e, ao pescoço, um amuleto em forma de cruz egípcia, que lhe dava o direito de vida e de morte sobre os seus súbditos. Amado do deus Set, Apopis proclamara-se Faraó do Alto e do Baixo Egipto e tentara fazer inscrever os seus nomes de coroação na árvore sagrada da cidade santa de Heliópolis. Mas as folhas tinham-se mostrado rebeldes, recusando aceitá-lo. Apopis assassinara então o Sumo Sacerdote, ordenara o encerramento do templo e afirmara que o ritual decorrera correctamente. Há algum tempo, o Imperador andava contrariado.
Nas Cíclades, o almirante Jannas, asiático implacável e notável guerreiro, perseguia piratas que ousavam atacar a frota mercante do Império. Na Ásia, diversos pequenos principados manifestavam veleidades de independência que as tropas de elite sufocavam à nascença, massacrando os revoltosos, queimando as aldeias e reunindo rebanhos de escravos. Estes episódios serviam o grande desígnio de Apopis: aumentar ainda mais a dimensão do seu Império, que era já o mais vasto alguma vez conhecido. A Núbia, Canaã, a Síria, o Líbano, a Anatólia, Chipre, as Cíclades, Creta e os mercados da Ásia baixavam a cabeça diante dele e receavam a sua potência militar. Mas era apenas uma etapa e os invasores hicsos, reunindo soldados oriundos de diversas etnias, tencionavam prosseguir a sua conquista do mundo. Um mundo de que o Egipto era o centro.
Esse Egipto dos Faraós que a onda hicsa submergira com uma facilidade surpreendente, pondo fim a longos séculos de civilização baseada em Maet, a justiça, a rectidão e a solidariedade. Fracos combatentes, os egípcios não tinham sabido opor-se à força brutal e às novas armas dos invasores. Faraó, agora, era ele, Apopis. E instalara a sua capital em Auaris, um lugar de culto de Set, o deus do raio e da violência, que o tornava invencível. A povoação tornara-se a principal cidade do Médio Oriente, dominada por uma cidadela inatacável de onde o Imperador gostava de contemplar o porto, cheio de centenas de navios de guerra e de comércio. De acordo com o desejo de Apopis, Auaris apresentava-se como uma gigantesca caserna, um paraíso para os militares servidos por egípcios escravizados. E, no entanto, era no Sul desse Egipto vencido e espezinhado que uma incrível revolta se iniciara! Em Tebas, obscura cidade agonizante, um reizinho chamado Seken e a sua esposa Ah-hotep, tinham ousado pegar em armas contra o Imperador. Como estão exactamente as coisas, general? A situação está controlada, Majestade.
Em que ponto se situa a frente? Em Cusae, Majestade. Cusae... Essa cidade não fica trezentos e cinquenta quilómetros a norte de Tebas? Mais ou menos, Majestade. Isso significa portanto que o ridículo exército de Seken conquistou um vasto território..., vasto demais. Oh, não, Majestade! Os revoltosos tentaram um ataque relâmpago descendo o Nilo a uma velocidade surpreendente, mas não consolidaram o seu domínio sobre as províncias atravessadas. Na realidade, a sua acção foi mais espectacular do que perigosa. Mesmo assim, sofremos vários revezes. Esses insurrectos apanharam alguns destacamentos de surpresa! Mas reagi muito rapidamente e detive o seu avanço. À custa de graves perdas, ao que consta». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O Caso Tutankhamon. Christian Jacq. «As autorizações de estada encontram-se no cimo daquela pilha, à sua esquerda. Gostaria tanto de as assinar e de lhas dar…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Esqueces-te de fazer esboços. Envergonhado, tirou o caderno de desenho para fora e começou a trabalhar. O trabalho, Howard! Só o trabalho conta. Tu, agora, és um cientista, mesmo que ignores tudo. Contenta-te em anotar e analisar; se te deixas envolver pela magia deste país, perderás a alma. Dez raças, cem línguas, mil cores de turbantes, uma multidão compacta de Egípcios, de Sírios, de Arménios, de Persas, de Turcos, de Beduínos, de Judeus e de Europeus, mulheres veladas de negro, burros carregados de luzerna ou de barro, os telhados das casas em mau estado, atafulhados de detritos, dos cheiros de excrementos misturados com o perfume das especiarias, solos lamacentos, pequenas lojas abertas num lanço de parede, o fumo dos fornos ao ar livre, onde se coze a carne e o pão, milhafres rapaces voando em redor do alimento, dentro do cesto que as camponesas traziam à cabeça, um sonho louco, grandioso, inumano: assim lhe apareceu o Cairo, a mãe do mundo. Ficaram num hotel do centro da cidade que se parecia, traço a traço, com um estabelecimento londrino; o professor encomendou sopa e porrídge para o jantar. Esgotado, encantado, Howard adormeceu, escutando as vozes ininterruptas da grande cidade. Às cinco da manhã, Newberry sacudiu-o sem contemplação. A pé, Howard! Temos um encontro. Tão cedo?
O funcionário que temos de seduzir, trabalha, à segunda-feira, das seis às onze; se perdermos a ocasião, perdemos uma semana. Abriam os primeiros cafés; nas ruas, quase desertas, os transeuntes pareciam cheios de frio. O ar vivo varria as nuvens e deixava aparecer um Sol pálido, cujos primeiros raios poisavam sobre os inúmeros minaretes: em frente da grande mesquita de Méhémet Ali, foi rendida a guarda. Percy Newberry meteu por um beco sórdido atafulhado de gaiolas, de restos de aves e amontoado de detritos; as casas, meio abatidas, inclinavam-se umas para as outras, ao ponto que os moucharabiehs se tocavam, permitindo às donas de casa trocarem confidências sem saírem. Atravessaram, a grandes passadas, o bairro miserável, passaram em frente dos mercadores de laranjas e de cana-de-açúcar; atrás de um sicômoro escondia-se a entrada de um palácio degradado, que dois homens de idade guardavam. Cumprimentaram o professor, que se contentou com um aceno de cabeça e se enfiou por uma escada, noutros tempos sumptuosa. Um núbio, com uma vestimenta vermelha, comprida, acompanhou-os à porta de um escritório que um dos seus compatriotas, tão musculoso como ele, vigiava. Sou o professor Newberry. Previna Sua Excelência da minha chegada.
Sua Excelência, um pequeno tirano de bigodes, com o rosto sacudido por tiques, aceitou recebê-los. O seu antro estava cheio de pilhas de cadernos e de notas administrativas, no meio dos quais pontificava como um paxá. Em virtude da exiguidade do local, era impossível introduzir-lhe cadeiras; ficaram, pois, de pé, em frente do funcionário. Encantado por o tornar a ver, professor. Posso ser-lhe útil? Vossa Excelência é detentor da chave da minha salvaguarda. Que Alá nos proteja. Quem é esse rapaz? Howard Carter, o meu novo assistente. Seja bem-vindo ao Egipto. Howard inclinou-se desajeitadamente. Pronunciar as palavras Vossa Excelência estava acima das suas forças; porque seria que um sábio como Newberry perdia o seu tempo com aquele homenzinho sentencioso? A sua família está de boa saúde, Excelência? Muito boa, professor; constato que a sua saúde está também florescente. Menos do que a sua. Lisonjeia-me; conta voltar ao Médio Egipto? Se agradar a Vossa Excelência. Agradava-me, professor, agradava-me! As autorizações de estada encontram-se no cimo daquela pilha, à sua esquerda. Gostaria tanto de as assinar e de lhas dar... Percy Newberry empalideceu. Há perturbações na região? Não, não..., as povoações locais estão calmas. As estradas não estão seguras? Não há nenhum acidente a lamentar. Esclareça-me, Excelência». In Christian Jacq, L’Affaire Toutankhamon, O Caso Tutankhamon, tradução de Maria Carlota Guerra, Bertrand Editora, 1998, ISBN 972-250-750-8.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Caso Tutankhamon. Christian Jacq. «Transportando duas preciosas malas do professor, cheias do seu material científico, não teve sequer vagar de saborear um Oriente colorido e perfumado»


Cortesia de wikipedia

«(…) Isolado num escritório, limitado a um pequeno quarto, não convivia com ninguém. O British Museum e os seus gentlemen afectados intimidavam-no; preferia a companhia dos hieróglifos. Um manto de chuva gelada cobria Londres. O professor Newberry convocou-o; sobre a sua secretária estavam os desenhos de Howard Carter. O seu trabalho satisfaz-me inteiramente. Gostaria de passar a ser o mais jovem membro do Egypt Exploration Fund? Que cargos implica essa distinção? Percy E. Newberry sorriu. Para ser franco, Howard, tem o carácter mais desconfiado e mais independente que o Criador colocou no meu caminho. Defeitos? O destino decidirá. No que diz respeito à fundação científica privada, que ficaria feliz por o acolher, tem por vocação o estudo das artes do Egipto antigo e um melhor conhecimento da sua civilização.
Se bem que Howard Carter tivesse decidido não deixar transparecer qualquer emoção, arrebatou-o uma vaga de entusiasmo. É..., é maravilhoso! Portanto vou continuar aqui a desenhar hieróglifos! Receio que não. Newberry revelou-se-lhe subitamente como um demónio saído do Inferno, a fim de o torturar. Ao alcance da sua mão havia um tinteiro. O professor apercebeu-se da sua intenção. Nada de gestos irreflectidos, Howard; a situação é delicada. Terei cometido um erro? Mandar-me embora porquê? Reage sem saber; esse entusiasmo poderia trazer-lhe bastantes preocupações. Os conselhos ficam para depois; primeiro, a verdade!
Percy Newberry, com as mãos cruzadas atrás das costas, voltou-se para a janela do escritório e observou a chuva a cair. O pato dos hieróglifos é um bicho venenoso, Howard; uma vez que nos mordeu é para toda a vida. Eu aceito desenhar milhares de patos. Aceita também sacrificar tudo a esses voláteis? A posição não o assustou. Quando se tem a felicidade de encontrar verdadeiros amigos, conservam-se. O professor Newberry voltou-se novamente para o adolescente. Pois bem, senhor Carter, ei-lo arqueólogo. Só resta um pormenor a regularizar. Qual? As suas malas. Embarcamos amanhã para o Egipto.

Da Alexandria, Howard Carter não viu nada; o professor Newberry estava com pressa de apanhar o comboio para o Cairo. Logo que deu os primeiros passos no solo do Egipto, o jovem sentiu-se liberto de dezassete anos de Inglaterra e de uma família que desapareceram nas brumas do esquecimento. Só, mas subitamente embriagado pelos milénios de uma civilização imortal, começava a viver.
Transportando duas preciosas malas do professor, cheias do seu material científico, não teve sequer vagar de saborear um Oriente colorido e perfumado. O caminho de ferro, linhas telegráficas, um serviço postal, uma estação barulhenta... Não escondeu o seu espanto. É verdade, Howard, o Egipto moderniza-se. Acaba infelizmente de adoptar o árabe como língua oficial da administração e de autorizar um jornal pregando a independência. Que loucura! Sem nós, o país seria condenado à ruína e à miséria. Essa maldita gazeta recebeu o nome de al-Ahrâm. A Pirâmide. Que profanação..., por felicidade, os extremistas não têm futuro algum. Acabarão na prisão, à fé de Newberry! Abandonando o professor à sua vindicta, contemplou as paisagens do Delta, casamento de água e de terra; as aldeias, construídas sobre colinas, dormiam ao sol. Coortes de pássaros brancos sobrevoavam extensões verdejantes povoadas de canaviais; camelos, pesadamente carregados, avançavam com um passo majestoso pela crista dos diques que dominavam os campos de trigo. Com o nariz colado à janela do comboio, passava de deslumbramento em deslumbramento». In Christian Jacq, L’Affaire Toutankhamon, O Caso Tutankhamon, tradução de Maria Carlota Guerra, Bertrand Editora, 1998, ISBN 972-250-750-8.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O Caso Tutankhamon. Christian Jacq. «Na véspera à noite, tinha-se produzido uma espécie de milagre pela primeira vez, um dos seus quadros quase o satisfazia. O cavalo cabriolava, os seus olhos riam, vivia»

Cortesia de wikipedia

«(…) O homem observava o jovem Howard Carter havia meia hora. Elegante, fino, tinha um rosto severo e um olhar inquisidor. Howard, aproveitando um dia bonito, tinha colocado o cavalete num campo onde uma égua amamentava o seu potro; o Norfolk beneficiava de um fim de Verão excepcional, e oferecia cem temas de quadros. Aos dezassete anos, o jovem seguia o rasto do pai e contava tornar-se como ele, pintor animalista; em vez de o mandar para a escola da terra, tinha-lhe ensinado a ler, a escrever, a desenhar e a pintar; cavalos e cães eram os motivos principais. Embora tivesse irmãos e irmãs, sentia-se filho único, só ele era capaz de receber a mensagem do artista; de lhe perpetuar a descendência e de provar que podia viver da sua arte. Por isso trabalhava com perseverança, encarniçando-se a aperfeiçoar o mínimo pormenor. Embora tivesse nascido em Londres, no bairro de Kensington, a 9 de Maio de 1874, Howard Carter passara a sua infância em Swaffham, uma pequena aldeia cuja calma verdejante amava.
Na véspera à noite, tinha-se produzido uma espécie de milagre pela primeira vez, um dos seus quadros quase o satisfazia. O cavalo cabriolava, os seus olhos riam, vivia; era verdade que faltava finura às suas patas e que a cabeça deveria ser aperfeiçoada. Mas a mão tornava-se firme: a profissão manifestava-se. O homem colheu um cólquico que enfiou na botoeira, e deu alguns passos em direcção ao adolescente que se levantou e o olhou sem baixar os olhos, espezinhando a sua educação. Continuou a sua marcha lenta através da erva, não receando manchar de verde o seu belo fato de aristocrata, e parou em frente da aguarela que examinou estendendo o pescoço como uma ave de rapina. Interessante concluiu. Chama-se, ao que julgo, Howard Carter? O jovem detestava as maneiras dos ricos: entre eles, quantos salamaleques, para se dirigir a palavra. Ao inferior, bastava dar ordens num tom desdenhoso. Não o conheço. Não é da aldeia.
Uma vez que não há ninguém para nos apresentar, à excepção daquela bonita égua ocupada noutras tarefas, fique sabendo que me chamo Percy Newberry, e que temos uma amiga comum. Teria a amabilidade de me desenhar um pato? Ele estendeu uma folha de papel. Mas... Porquê? A nossa amiga comum, lady Amherst, que mora no palácio vizinho, falou-me de si como de um pintor notável. Comprou três telas suas. A sua égua pode considerar-se perfeita, mas um pato, é outra coisa... Furioso, Howard pegou no papel e, em menos de cinco minutos, esboçou um pato de pescoço verde, de grande perfeição. Lady Amherst tinha razão; aceitaria desenhar e colorir, para mim, gatos, cães, gansos e uma quantidade de outros animais?
A desconfiança do artista permanecia intacta. Será, por acaso, coleccionador? Professor de egiptologia na universidade do Cairo, no Egipto. É longe, não é? Muito longe. Londres ainda é mais perto. Porquê Londres? Porque a nossa bela capital alberga o British Museum; gostaria de o levar lá. O maior museu do mundo..., o pai tinha-lhe falado nele muitas vezes. Talvez um dia, algum dos seus quadros lá fosse exposto! Não tenho dinheiro. A viagem, o alojamento... Está combinado. Aceita deixar a sua família e o seu país durante um mês..., três meses? As andorinhas brincavam no céu; na orla da floresta, um picanço depenicava a casca de um carvalho. Abandonar Norfolk, separar-se dos irmãos, despedaçar a infância... Atirou com o cavalete. Quando partimos?
Vários meses de trabalho ininterrupto, debruçado sobre a sua mesa, a reproduzir hieróglifos onde figuravam não só animais mas também seres humanos, objectos, edifícios, sinais geométricos e muitos outros aspectos dessa língua que os Egípcios consideravam como sagrada: como um escriba, Howard Carter aprendia a desenhá-la antes de a compreender; traçar essas palavras de autoridade transformava-lhe a mão e o pensamento. Respeitava escrupulosamente os modelos que o professor Newberry lhe facultava; a pouco e pouco, aprendera a escrever como os antigos tinham escrito». In Christian Jacq, L’Affaire Toutankhamon, O Caso Tutankhamon, tradução de Maria Carlota Guerra, Bertrand Editora, 1998, ISBN 972-250-750-8.

Cortesia de wikipedia e jdact

quarta-feira, 20 de março de 2019

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Do cimo de uma alta duna, o faraó negro contemplava as vastidões desérticas. Estás a ver, Valoroso, nenhum imperador quereria um país como este. Mas é ele que tu e eu amamos porque nunca mente…»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Ela, filha de chefe de clã, esposa secundária, considerada como uma importuna! Furiosa por ter sido alvo de uma tal afronta, tinha decidido vingar-se daquele déspota incapaz de apreciar a sua beleza, revelando ao grande conselho que Piankhi era corrupto e que desviava riquezas em seu proveito. Quando fosse nomeado um novo faraó, não deixaria de reparar nela e de lhe conceder o seu verdadeiro lugar. De momento, experimentava um colar de pérolas azuis, jaspe vermelho e cornalina, separadas por finos discos de ouro. Prende-o ordenou à serva. Este colar é digno de uma rainha... E tu não o és. Irritada, a jovem voltou-se e ficou face a face com Abilé, a esposa principal de Piankhi! Este palácio recebeu-te, minha jovem, e tu traís-te a sua confiança. Pior ainda, caluniaste o Faraó e tentaste tornar-te a alma de uma conspiração. Assustada, a filha do chefe de clã ergueu-se e não conseguiu senão balbuciar um fraco protesto. Semelhante falta é passível de uma longa pena de prisão, mas não passas de uma criança já de coração azedo. Não te lembres mais de sujar o nome de Piankhi, caso contrário a minha indulgência desaparecerá e tornar-me-ei mais feroz do que um tigre. Que ides fazer de mim? Vais voltar para a tua tribo onde as matronas te ensinarão a trabalhar e a cuidar de uma casa Dá-te por muito feliz.
Aos noventa e sete anos, Kapa, o decano do grande conselho, mantinha o olhar vivo e a palavra clara. Muito magro, apenas fazia uma refeição frugal por dia no decurso de toda a sua existência, não bebia álcool de tâmaras e dava um passeio quotidiano Os que o rodeavam receavam o seu carácter rabugento, acentuado pela idade O contraste que formava com Otokou, amador da boa carne, era surpreendente O obeso não sabia como abordar aquele velho rezingão que recusava até uma taça de cerveja fresca A tua saúde Não te preocupas mais com a minha saúde, Otokou, do que eu me preocupo com a tua Onde se esconde o teu amigo, o rei? Foi para longe, a cavalo Os membros do grande conselho comunicaram-me as suas conclusões e eu examinei-as com atenção Constataste então que não passavam de disparates! Atreves-te a criticar o trabalho de personalidades dignas de respeito? As informações que receberam são aberrantes e mentirosas! É evidente que alguns invejosos pretenderam prejudicar Piankhi e é conveniente que sejam castigados como merecem! Segundo ouvi dizer, ocupaste-te pessoalmente de Tranan, o ex-ministro das Finanças Pu-lo a trabalhar Piankhi é por vezes demasiado indulgente Compete aos seus amigos livrá-lo das ovelhas ranhosas Sou o superior do grande conselho e não me deixarei influenciar Quer agrade ou não ao rei, tem de comparecer perante nós o mais depressa possível.
Com cinco anos, em plena força, capaz de lançar sem fadiga os seus quinhentos quilos de músculos em longas corridas, Valoroso era o melhor cavalo que Piankhi já tivera oportunidade de treinar. Entre o homem e o animal, a amizade brotara desde o primeiro olhar e o rei não tivera que fazer quaisquer esforços para se fazer compreender pelo corcel, altivo, mesmo bravio, mas desejoso de satisfazer aquele a quem tinha concedido a sua total confiança. Valoroso era um cavalo baio de crina fulva, brilhante e sedosa, de patas altas, boca risonha, olhar directo e porte altivo. Os cavaleiros do exército de Piankhi olhavam-no com admiração e inveja, evitando aproximar-se muito perto. Todos sabiam que Valoroso apenas obedecia a Piankhi e que se tornava selvagem quando qualquer outro tentava montá-lo. O rei levara-o a descobrir grande quantidade de pistas partindo de Napata e o cavalo tinha-as memorizado de forma surpreendente, sem nunca hesitar. Para regressar à sua cavalariça particular, onde o próprio Piankhi tratava dele, Valoroso seguia sempre pelo caminho mais curto. À força e à resistência, o cavalo aliava uma aguda inteligência.
Do cimo de uma alta duna, o faraó negro contemplava as vastidões desérticas. Estás a ver, Valoroso, nenhum imperador quereria um país como este. Mas é ele que tu e eu amamos porque nunca mente, porque nos obriga a ser implacáveis connosco próprios e a venerar a luz toda-poderosa. O deserto e a terra cultivada são estranhos um ao outro, não se casam e, no entanto, um faz compreender a necessidade do outro. Grous coroados sobrevoaram o cavaleiro e a sua montada. Ao longe, no cimo de outra duna, um oryx de longos cornos observava-os, imóvel. Se Piankhi tivesse tido necessidade de uma nascente de água, bastar-lhe-ia segui-lo. Esperam-me na capital, Valoroso, e os que me desejam ver são-me hostis. Se perder tudo, dois seres seguir-me-ão até ao fundo do abismo: a minha esposa e tu. Não sou o mais feliz dos homens? O cavalo apontou o focinho para Napata e lançou-se num veloz galope. Tal como o seu senhor, não receava a prova». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT