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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

No 31. Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Quantas coisas digo que não faço quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um dia, Ibn al-Arabi entrou em sua casa perturbado com o espectáculo das gentes, empenhadas em contradizer a lei de Deus. Al-Uryani disse-lhe: preocupa-te com Deus. Al-Arabi seguiu depois para casa de outro mestre, Abu Imran de Mértola que lhe disse: preocupa-te contigo mesmo! Perplexo, Al-Arabi respondeu: Al-Uryani quer que eu me preocupe com Deus e tu dizes para me preocupar comigo mesmo. O Mertolense replicou: o que disse Al-Uryani é a verdade. O que sucede é que cada um de nós te indica o que o seu próprio estado místico exige. Al-Arabi voltou a casa do Louletano e contou-lhe o sucedido. Abu Imran disse bem porque ele te indicou o caminho da perfeição enquanto que eu te indiquei qual é o companheiro da viagem.
Al-Mertuli, Abu Ymran Musa. Poeta e sufi. Antes da batalha de Alarcos, o califa almóada Yacub visitou-o em sua casa. Mais tarde enviou-lhe um mensageiro com uma certa quantia: o teu senhor tem mais necessidade desse dinheiro do que eu. Toma cem dinares de proveniência lícita. Diz-lhe que, para a sua manutenção pessoal, gaste só deste dinheiro e obterá a vitória. É dele o poema:

Quantas coisas digo que não faço
Quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé
em terra.
Critico os meus olhos e não se convencem
aconselho minha alma não aceita
os meus conselhos.
Ai quantas coisas se desculpam dizem
talvez mais tarde. Quantas se demoram.

Outros sufis de nomeada, no século XII, foram Abu Abd Allah b. al-As al-Bayy, alfaqui de Beja, e Abu Abd Allah b. Zayd al Yeburi, de Évora. Este último explicou o Corão e ensinou gramática na mesquita al-Udays de Sevilha. Uma noite, lia uma obra em que se refutava al-Gazalli e cegou de repente. De joelhos, jurou que não voltaria a ler o contestário de al-Gazalli. Então Deus devolveu-lhe a vista. Ibn al-Sid (Silves 1052-Valencia 1127). Ficou conhecido como o de Badajoz mas al-Makkari dá-o como natural de Silves. Amigo de Umar al-Mutawakkil, senhor de Évora e depois último rei berbere de Badajoz. Viveu em Albarracin, Toledo, Saragoça e Valência. Polemizou com Ibn Bayya.
Matemático e poeta, escreveu livros de temas filológicos, de crítica literária, de gramática. De Aristóteles conhece a Lógica, a Metafísica e também o Timeu de Platão. Introduz Al-Farabí no Andaluz. Fala em Tales e Zenão.
Obras principais:

Livro do Aviso Equânime acerca das Causas
que engendram as Discrepâncias de Opinião no Islão (Kitab alinsaf…),
o Livro das Questões (Kitab al-Masail) e principalmente o Livro dos Círculos (Kitab al hadaiq).

In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Acaso te deixarás conduzir pela tristeza até à morte quando o alaúde e o vinho fresco estão aí à tua espera?»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense Ibn Sahib Al-Sala aborda a história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os saraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega. Almutamide (+1095), natural de Beja, governador de Silves e rei de Sevilha entre 1069 e 1091, rodeou-se de literatos, historiadores, poetas como o seu amigo Ibn Amar, a sua mulher Itimad Romaiquia (ex-escrava de Romaiq) e seu filho Arradi ibn al-Mutamid, governador de Mértola.
A vida do rei poeta originou toda uma epopeia. Na batalha de Zalaca foi ferido seis vezes e não arredou pé até à vitória. Pouco depois, os seus aliados almorávidas, com o favor dos alfaquis de Sevilha, conquistaram a cidade e degolaram-lhe dois filhos à sua vista. A nora Zaida tornou-se concubina de Afonso VI de Leão e de Castela enquanto o filho Arradi era morto à traição pelos almorávidas em Mértola. Almutamide morre cativo em Agmat, no Atlas sobranceiro a Marraquexe. A caminho do desterro escreveu o poema:

Saíram para pedir a chuva e disse-lhes:
Pudessem
as minhas lágrimas substituir a chuva
que reclamais.
Responderam-me: é verdade, nas tuas lágrimas
encontraríamos
o bastante. Mas de que nos serviriam elas
se estão misturadas com sangue?

Noutro dos seus poemas, propõe uma ética dos prazeres, que certamente haveria de chocar os alfaquis, ao mesmo tempo que esclarecia a sua ideia do sábio:

Acaso te deixarás conduzir pela tristeza
até à morte
quando o alaúde e o vinho fresco
estão aí à tua espera?
Que as preocupações não se tornem
senhoras de ti
enquanto a taça for uma espada cintilante
na tua mão.
Conduzir-se como sage é deixar-se assaltar
pelas preocupações até ao mais fundo
de si mesmo:
Ser sage para mim é não ser sage.

Ibn Mucana Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. « Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Teremos de esperar pela época dos Descobrimentos e Conquistas para que o Oriente penetre de novo e intensamente na nossa cultura. Mas, nesse mesmo tempo, os expoentes de referência do conhecimento científico, continuarão a ser o médico al-Razí, o médico hispânico Avenzoar, o uzbeque Avicena e o cordovês Averróis, como poderemos verificar, por exemplo, no Colóquio dos Simples e das Drogas de Garcia da Orta. A Reconquista não suprimiu as marcas da civilização islâmica que perduraram na língua e em muitas técnicas agrícolas e artesanais até ao século XX. Os cristãos medievais herdaram a estrutura das cidades islâmicas, usaram os seus alarifes e alvanéis, os meus mouros de Afonso Henriques, na construção de catedrais e fortalezas. Um deles deixou escrito no transepto da sé de Coimbra: escrevo isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia mas a grandeza ficará. O hospitalário Afonso Peres Farinha, cavaleiro de uma lança e futuro prior da ordem do Hospital em Portugal, exemplifica a recepção contraditória dessa influência que teve o seu ponto alto, no ponto de vista da cultura literária, no trabalho dos tradutores muçulmanos e cristãos das cortes de Afonso X o Sábio e do seu neto o nosso rei Dinis. Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa, fazendo muita guerra e muito mal aos mouros e tomando-lhes Arouche e Aracena.
Atravessou três vezes o mar e lá viveu longo tempo. Residiu em muitos locais estrangeiros. Viu muitas e grandes coisas e muitos homens bons daquele tempo, tanto cristãos como mouros. Os muitos vêm carregados de espanto. No campo das ciências e da cultura, não faltaram, em território português, gramáticos de língua árabe, jurisconsultos, sufis, escreventes de história, de crítica literária e principalmente poetas. Abu al-Hayaye al-Halam de Santarém escreveu um comentário sobre a obra do poeta oriental Mutanabi. Por sua vez, Ibn Abdun Silves analisou o longo poema sobre o fim trágico dos abádidas e aftácidas, escrito pelo poeta eborense Ibn Abdun.
Entre os jurisconsultos, destaque para o bejense Abu al-Walid al-Baji (1012-1081) que peregrinou pelo Oriente e polemizou com Ibn Hazm. A história e a biografia contaram com vultos de importância capital. O primeiro foi Ibn Mozain, da família dos reis que dominaram a cidade de Silves nos princípios do século XI. Só nos chegaram fragmentos conservados por outros historiadores mas a ele devemos notícias preciosas sobre a distribuição das terras quando os muçulmanos se apossaram de Hespanha. Ibn al-Imam al-Shilbi (+c. 1156) escreveu as biografias de muitos dos seus contemporâneos na obra Simt aldjuman, infelizmente perdida. No entanto, restaram trinta e cinco passagens conservadas por Ibn Said no Mugrib, passagens que constituem um quarto deste livro.
Para a história e a história da cultura do Islão Ocidental a Dakira (Tesouro) do santareno Ibn Bassam, de seu nome Abu al-Hassam ibn Bassam al-Santarini (+c.1147) é fundamental. A obra reúne, em quatro volumes, uma antologia dos poetas peninsulares, recheada de preciosas notícias de natureza social e político-militar». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT