Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema»

jdact

O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) A provedoria de Aires Almeyda Sousa foi longa, pois, em 1616, vinte anos depois da nomeação, era ainda provedor, como se lê no frontispício da Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens, que Pires Sylva dedica a Duarte d'Almeida Sousa, filho primogénito de Aires Almeyda. Nos Almeydas da Cavalaria continuou a administração, terminando com Gonçalo Almeyda Sousa Sá, a quem João V concedeu a mercê, em 1713. Passou a administração para os corregedores, como provedores ou contadores da Fazenda. O Corregedor era o inspector do Hospital e o Juiz do Couto era o sub-inspector.

Com a extinção do concelho de Lafões, o Banho foi integrado no então criado concelho de S. Pedro do Sul e a administração das Caldas passa para a Câmara deste concelho, por portaria de 12 de Novembro de 1839. Mais tarde, a propriedade do Estabelecimento das Caldas foi confirmada por Carta de Lei de 21 de Maio de 1878 e, novamente, por Alvará de 17 de Fevereiro de 1910. Com os dados de que dispomos, vejamos as características e modo de funcionamento do Hospital Real das Caldas de Lafões. Tinha características próprias que lhe advinham do facto de ser um hospital termal. De algum modo, Manuel I, ao criar este hospital, seguiu o exemplo da irmã, a rainha viúva dona Leonor, fundadora do Hospital das Caldas da Rainha, guardadas as devidas diferenças de proporção entre os dois hospitais. Sabe-se que vários hospitais do reino vieram a ter Regimentos inspirados no das Caldas da Rainha. É bem possível que, entre eles, se encontre o de Lafões, com maioria de razão por ser um hospital termal.
Já vimos que a carta de nomeação do primeiro provedor (1502), pelas obrigações que nela estavam consignadas, pode considerar-se o primeiro regimento para a administração do Hospital. No manuscrito da Biblioteca da Ajuda, o Desembargo do Paço, em 1592, limita-se a repetir as mesmas obrigações. Só um século depois, em 1696, com a publicação da … Chronographia Medicinal das Caldas de Alafoens…, temos notícia detalha da da orgânica do Hospital. O autor, médico das Caldas, descreve, até ao pormenor, o seu modo de funcionamento. Começa com a descrição da piscina onde o rei se banhou, pelo que ficou conhecida por .Piscina dom Afonso Henriques, . Dela fez a planta, que tem sido reproduzida por quantos têm abordado este tema.
E nós a reproduzimos também, acrescentando-lhe os pontos cardeais e confrontações, para melhor clarificação.
No lado poente da planta, assinala o ..Camarote de […], mas, não obstante os pormenores a que desce, não diz quem era este dom Fernando. E nenhum dos autores que têm escrito sobre as Termas levanta este problema. Não se trata do rei Fernando I. Não se conhece qualquer notícia de que lá tenha estado. Se tal tivesse acontecido, Pires Sylva não deixaria de o tratar por rei. Também não cremos que se trate de Fernando Pedro, aquele senhor de Lafões referido no foral de 1152. Se tal fosse, o autor da ...Chronographia…, não omitiria Pedro, já que, no texto, sempre o trata por Fernando Pedro, que, de resto, como vimos, já era morto quando veio o Rei. A designação de Camarote de dom Fernando, deve ser mais tardia. Poderia, talvez, referir-se ao 2.º duque de Viseu. É apenas uma hipótese. O próprio Sylva escreveu: por morte de dom Henrique, que succedeo aos 1460. Foi seruido o Senhor Affonso V dar o senhorio do Concelho, & Caldas de Alafoens a seu irmão o Serhor dom Fernartdo, Infante, e Condestavel de Portugal, e Mestre das Ordens de Christo, I Santiago.
A planta não assinala o antigo banho das mulheres, mas Sylva descreve-o. Seria, quasi subterraneo e a ele se passaria por uma porta, nas costas do banho dos homens e se desceria por uma escada de pedra. Janelas de grades que descobriam um e outro banho, ao tempo transformadas em portas, mostrão (?) que ouve nas casas, junto ao banho das mulheres, alguma casa particular, donde alguma Pessoa Real, por evitar a prolixidade das continencias, & cortesias uia, sem ser vista, o modo de tomar banhos…» In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Termas de S. Pedro do Sul. A. Nazaré Oliveira. «... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster…»

jdact

O Hospital Real das Caldas de Lafões
«(…) Manuel d'Azevedo Almeyda era filho de Sebastião Rodrigues Azevedo e Isabel d'Almeyda, da Casa da Cavalaria, pelo que, com ele, a provedoria voltou à família dos Almeydas, após a breve interrupção, no tempo do Cardeal-Rei. Em 14 de Outubro de 1592, o Desembargo do Paço repete todas as obrigações dos administradores das Caldas, nomeadamente das quatro camas para os pobres; de sustentar à sua custa um Banheiro que tinha o cuidado de temperar as águas aos enfermos; de cada um dos 24 homens repartidos pelos 24 casais ter disponível uma cama, ao preço de dois reais por noite, para quem viesse aos banhos; um clérigo para dizer missa e todos os ornamentos necessários ao culto; pagar a lâmpada acesa onde estavam os enfermos; reparar o Hospital de todas as ruínas e danificações.
Aqui se fala em 24 casais, o que não condiz com os 22 do Tombo de João V. Como vimos, é na carta de mercê a Fernão Lopes d'Almeyda que se estipula aquela obrigação dos 24 homens privilegiados, ainda que não se refira o número de casais. Mas tudo parece indicar que os 24 homens correspondiam aos 24 casais que constituiriam o Reguengo do Hospital. A ser assim, há lacuna no Tombo de João V. Teriam escapado dois casais a quem o organizou. Posteriormente, Filipe II deu a administração ao Real Colégio de S. Paulo em Coimbra, o que levou a Câmara de Lafões a levantar embargo, com base no facto de a haver possuído no tempo do Cardeal-Rei. O Colégio venceu o litígio, em 1611. Mas, pouco tempo depois, renunciou, devido aos cuidados de tal administração, não compensados por lucro tão reduzido. Pires Sylva refere-o, nos seguintes termos: ... como a administraçaõ das Caldas he sem lucro algum, & ocupação grave, que divertia os Collegiaes do seu estudo, pediraõ a ElRey lhes désse em seu lugar a Capella de Álmoster, o que ElRey lhes concedeo liberalmente (…) ficou a administração devoluta aos Juizes de fóra do dito Concelho [de Lafões] , como Ouvidores da Villa, & Caldas do Banho, atè ao tempo em que o Senbor Rey Pedro II, fez mercè, & doaçaõ della a Ayres Almeyda Sousa, senhor da mesma casa da Cavallaria, & descendente dos possuidores do mesmo couto, & Villa do Banho.
Foi a mercê concedida por alvará de 4 de Janeiro de 1676, seguida de carta de doação de 28 de Fevereiro do mesmo ano. Nesta data, Pedro era ainda Príncipe Regente e não Rei, como afirmam Pires Sylva e todos quantos o repetem. De resto, como pode ler-se na carta, Pedro intitula-se Príncipe, ainda que como rei actuasse: … D. Pedro (…) Faço saber (...) que por parte de Áires Almeida Sousa Sá, Fidalgo da Minha Casa Me Foi apresentado um Alvará por mim assinado (...) Eu o Principe (...) Hei por bem fazer-lhe mercê (...) da Villa e Coito dos Banhos (...) sendo seu provedor como fazia até agora o Juiz de Fora do Concelbo de Lafões, como Ouvidor da dita Villa e Coito, e como foram os antepassados do Suplicante.
Sabe-se por uma escritura datada de 26 de Fevereiro de 1684 que, durante esta provedoria, foi o Hospital sujeito a obras de ampliação: … em a Quinta da Cavalaria, junto à vila de Vouzela, do concelho de Lafões, nas casas da dita Quinta, onde eu Tabelião fui, estando aí presentes Aires Almeida Sousa, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, Senhor da Vila e Couto dos Banhos e Provedor do Hospital das Caldas e Vila dos ditos Banhos, (...) e bem assim Manuel Ferreira (...) e António Lourenço Novo, moradores no lugar de S. Miguel do Outeiro, do termo da cidade de Viseu (…) e logo por eles foi dito (…) que ele dito Aires Almeida Sousa mandara pôr a pregão as quatro casas que se vão a fazer no Hospital dos Banhos na forma dos apontamentos que estão nos autos de arrematação da dita obra, (...) ele dito Manuel Ferreira se obriga a fazer a dita obra (...) e dá-la feita e acabada até ao fim de Setembro o primeiro que vem deste presente ano (...) e em preço e quantia de Noventa e cinco mil réis que tanto consta do auto de arrematação em que foi arrematada esta obra de pedraria». In António Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul, Antigas Caldas de Lafões, Palimage Editores, Viseu, 2002, ISBN 972-857-538-6.

Cortesia de PalimageE/JDACT

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A construção da monumental Fonte das Bicas
«(…) A 12 de Junho de l781, reuniram-se os vereadores da Câmara com o Doutor José Matos Pereira Godinho, juiz de fora de Sousel, que na altura servia como ouvidor da comarca de Vila Viçosa, para resolver a situação da nova fonte do Rossio:

por elle (ouvidor) foi apresentada huma ordem passada pello tribunal da Junta da Sereníssima Casa de Bargança expedida em exclusão do que Sua Magestade tomou na comsulta que se lhe avia feito sobre as comtrovécias que tem avido do estado em que se axão as águas da Fonte dos Finados no Rexio de Baxo desta villa, mamdando que se registace com a cópia do Alvará de mil setecentos e oito que e por cópia vem junto à mesma ordem para que assim se pudesse dar a sua execução tudo o que a mesma ordem detremina.

Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, autor do projecto da Fonte das Bicas. A sua função aqui era dar um parecer técnico sobre a melhor decisão a recair na obra da nova fonte:

E llogo pellos Vereadores actuais com asistência dos Procuradores do povo que para este fìm se avião comvocado; como também sendo mais prezente o Sargento Mor Emgenheiro José Álvares Barros chamado para dar o seu parecer sobre o plano que se devia seguir na execussão da referida obra.

Decidiram os representantes do povo que, tendo em conta a decisão do rei de conceder livre uso das águas, se devia construir uma nova fonte no Rossio de Baixo, já que a antiga era desproporcionada e tecnicamente defeituosa, havendo a necessidade de rebaixar a canalização para permitir um melhor escoamento:

Por huns e outros foi dito ao dito Menistro gue, vista a determinação de Sua Magestade e feculdade que nella se lhe dá para o livre uso das águas da dita fonte, avião acentado que, em utilidade do bem público, se devia por em prática a obra seguinte: primeiramente que, como a arca que prezentemente existe hé disforme na grandeza e na fundura com o grande peso de sete palmos de água, que se fazia necessário rebaxar o cano da antgua saída na altura de três palmos que hé o que premite o declívio do terreno aonde se ade formar a nova fonte, xafaris e logo comtemplado na ordem que dista da arca antígua duzentos e vinte palmos, em cujo sítio se pos huma baliza na prezença do dito Ministro e dos oficiais da Câmara e procuradores do Povo que todos, na manham do prezente dia se instruirão e capacitarão do terreno e plano que devião seguir na asistência do dito sargento-mor Engenheiro que praticando sobre o mesmo terreno o calcusso e medição nescessária se acentou no referido rebaxo dos três palmos da água para fazer o declívio no sítio da Baliza, em que se ade fazer a fonte, xafaris.

Contudo, segundo o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, a obra de rebaixamento das canalizações não era possível de se executar na antiga fonte:

E logo, regulada esta obra pello risco que o dito sargento-mor fica pondo em limpo em beneplácito e aprovação dos ditos oficiais a Câmara e procuradores do Povo, e por acentar segundo lhe menistrava a sua arte não se poder executar no referido cítio a mencionada obra com utilidade do público sem o rebate ao menos dos ditos três palmos.

Assim, fechou-se a antiga fonte e fez-se um chafariz provisório que servisse a população. Pelo que nos revelam os documentos, a antiga fonte era perigosa, tendo ocorrido aí imfelicidades, muito provavelmente afogamentos, devido à profundidade do tanque. A água que brotava da fonte também não vinha nas melhores condições, tendo-se feito uma nova canalização:

E para se dar providência imterina ao uso da água da dita fonte em benefício do Público, se detreminou se abrice o alicerce por onde se deve formar o cano em direitura no cítio da baliza na A, digo, da baliza e se puzece água a correr na altura em que ade ficar para que pendurada por huma bica se possa utilizar a Povo, tapando-ce a arca antígua afim de se evitarem os perigos e imfelicidades que tem acomtecido e se utilize o Público da dita água durante a obra pella grande nescessidade que della tem pura e não com a immundice com que se axa, e que as sobras se regalarão, comcluída a dita obra.

Assim, com a construção de uma nova fonte, convenientemente projectada, evitar-se-ia a falta de água, melhorar-se-ia a sua qualidade e inovar-se-ia a canalização, de modo a conciliar os interesses da população com os interesses de Maria Vitória Moraes Monis Melo, que tinha do seu lado a provisão régia e a decisão do tribunal da Casa de Bragança que lhe dava o direito a usufruir dos restos da água da Fonte dos Finados. A Fonte das Bicas surgia, assim, como uma obra de engenharia que necessitaria de um esforço acrescido por parte do município. Desta forma, na vereação de 4 de Julho de 1781, decidiu a Câmara Municipal vender os direitos sobre os pastos dos olivais, águas, vertentes para a serra não só este anno, mas também o vindouro para com o produto melhor se poder fazer a obra que se pertend e fazer». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Como a canalização feita por Francisco Morais Barreto levava toda a água para o Rossio, tornando inútil a Fonte dos Finados, construiu-se aí a nova fonte. Contudo, o referido Diogo Melo foi intimado a pagar as despesas da obra, sob pena de lhe serem confiscados os bens em Borba, facto que muito provavelmente acabou por acontecer. A nova fonte, construída no local onde hoje se encontra a Fonte das Bicas, foi construída por Bartolomeu Lopes Cordeiro, pela quantia de 24 800 réis.
A questão em volta da nova fonte, que continuava a chamar-se de Fonte dos Finados, apesar de se ter afastado da igreja Matriz, deve ter suscitado alguma polémica, já que, a l9 de Junho de 1754, a Câmara de Borba recebeu uma ordem do rei para se juntar em assembleia a nobreza e povo do concelho para estes se pronunciarem se a fonte era realmente útil ou não. A resposta seguiu para Lisboa, a 7 de Setembro de 1754, apesar de não sabermos qual o seu conteúdo. Da nova Fonte dos Finados só encontramos notícias em 1772, quando, na vereação de 13 de Maio desse ano, se determinou reparar grande parte das fontes do concelho. No caso desta fonte, decidiu-se acrescentar a sua bacia:

Nesta (vereação) detreminarão se (...) acresentace três quartos (?) na Bacia das Bicas da fonte da igreja.

Foram estes os factos que antecederam a construção da actual Fonte das Bicas. A sua referência torna-se importante porque estes condicionaram a concepção da obra de arte que hoje se admira em Borba. A sua configuração funcional e a sua localização resultaram de todo este conturbado processo, que se arrastou ao longo dos anos, onde os interesses de particulares se sobrepunham aos interesses da Câmara e do povo. Será precisamente esta questão que está subjacente à reedificação monumental da Fonte do Rossio, conhecida como Fonte das Bicas, já que é um símbolo do poder da Câmara Municipal, enquanto defensora do bem comum e dos interesses do povo.

A construção da monumental Fonte das Bicas
O primeiro passo para a edificação da actual Fonte das Bicas foi um pedido da Câmara da vila de Borba ao rei, pedindo a autorização para construir o monumento. Na época, reinava ainda o monarca José I, que mandou, como era tradição, que a Câmara reunisse em assembleia a nobreza e povo de Borba para estes se pronunciarem sobre a real necessidade de se construir a referida fonte. Esta reunião teve lugar a 6 de Agosto de 1775 e:

por todos uniformememte foi dito que esta obra hé munto util pella decencia em que se axão as fontes desta villa e que a sua despeza não duvidão se fassa pellas sobras das Ruas do País e asignarão.

Contudo, o dinheiro destinado às Ruas do País não era suficiente e, a 4 de Janeiro de 1778, em nova assembleia municipal com a nobreza e povo de Borba, decidiu-se vender parte dos bens da Câmara:

Nesta, a voz do porteiro foi chamada a Nobreza e Povo para responderem se convinhão na obra que se pertende fazer da fonte do Rexio desta villa e se consentem que a sua despeza se fassa pellos sobejos dos Bens de Raís visto a pobreza do concelho.

Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes Monis Melo em que solicitava que as sobras da fonte lhe fossem restituídas, comprometendo-se a reconstruir a fonte do Rossio. A referida senhora conseguira uma provisão expedida pelo Tribunal da Sereníssima Casa de Bragança que lhe dava razão:

Nesta foi aprezentada huma petição de Donna Maria Vitória Moraes Mello pella qual pertende que em vertude das provizois expedidas pello tribunal do Sereníssimo Estado de Bargança se lhe mamde restituir as sobras da água da Fonte dos Finados obrigando-ce a perparar a fonte como antes hera.

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Catarina Matilde, a obra feita para restituir a água aos populares:

e assim com o procuradro deste povo e atendendo ao bem comum e a se tre faltado as condisois do dito alvará que em todo se devia cumprir requeria que mandasem notificra Catherina Matilde veuva do mesmo pera que em tremo de trinta dias mande fazre o chafaris e tanque na froma disposto em o dito alvará com cominassão de que não o fazendo de se mandra demolri a dita fonte como justa, digo, fonte pondo-se esta no mesmo estado que de antes estava seu chafaris.

Três anos passaram e Catarina Matilde nada fez para restituir a água ao povo e construir a fonte a que seu marido se havia obrigado. A Câmara fez uma nova notificação, a l2 de Agosto de 1744, tendo esta sido entregue em mão pelo escrivão do município, Diogo Sande Vasconcellos Corte Real. Contudo, a referida senhora não deve ter reagido bem à nova notificação da Câmara, já que se registou nas actas que se lhe tirará o dito ógoa yisto a rebeldia. A obra feita por Francisco Morais Barreto foi demolida para se restituir a água ao povo e entregou-se as contas à referida Catarina Matilde. Quem ficou encarregue de fazer a cobrança da dívida foi o juiz de fora, mais uma vez devido à rebeldia da senhora. Em 1753, a questão da fonte que Francisco Morais Barreto deveria ter construído volta a aparecer nas sessões da Câmara. A consequência de todo o processo foi que o chafariz construído pelo defunto fora demolido e a Fonte dos Finados continuava seca, continuando o povo sem ter a água a que tinha direito, possivelmente por se não ter remodelado as canalizações subterrâneas que levavam a água para as hortas:

consta que o sobredito tenha feito hum xafaris próximo do lagar de Diogo Francisco desta villa (...) o qual de prezente se acha demolido e com a fonte daonde lhe corria a ágoa para o mesmo totalmente seca.

A Câmara entendeu que se devia intimar os actuais proprietários da horta que recebia as águas da Fonte dos Finados a construir o chafariz definido na provisão régia:

hum xafaris com três bicas e hum tanque grande para beberem as bestas e seo lavadouro.

O actual proprietário era Diogo Melo, morador na cidade de Évora, que recebeu uma carta do município intimando-o a construir a fonte, sob pena de lhe serem tiradas as águas que lhe abasteciam a horta. Como, provavelmente, Diogo Melo nunca tinha ouvido falar nesta obrigação, nem respondeu à carta da Câmara de Borba. Os vereadores, perante a falta de água, decidiram aproveitar as canalizações feitas por Francisco Morais Barreto, transferindo a Fonte dos Finados para o Rossio de Baixo, construindo-lhe as três bicas, o tanque e o lavadouro, como estava estipulado pelo alvará régio:

Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo, como hé obrigado, acordaram os sobreditos vereadores que na forma da dita provizam e à vista do referido se devia por emposo a obra seguinte: mudouce o dito xafaris que se acha sem água para lugar mais conviniente que pudece receber as ágoas da dita Fonte dos Finados, fazendo-o no mesmo três bicas e juntamente hum tanque e no fim deste outro tanque que posa servir de lavadouro e que deste deve entam ser feito o cano que posa receber as sobras destas ágoas para dellas se utilizar o sobredito para a sua orta.

A Câmara não cortou o abastecimento de água à horta de Diogo Melo, apenas fez cumprir a disposição já antiga que obrigava à construção de uma fonte com mais capacidade e infra-estruturas». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

No 31. As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XII. «Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII»

jdact

«(...)
Campo Maior
A forca de Campo Maior situava-se no cerro denominado actualmente por Cabeça Gorda, onde se levanta um marco geodésico. A curta distância para Su1 do marco, observa-se uma irregular plataforma de terra que teria servido de patíbulo, local onde se teria erguido a forca de Campo Maior. Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII.
O loca1 onde se situava a forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0666682; Y - 4321137.


Localização da forca de Campo Maior

Planta de Campo Maior, assinalando-se com o nº 33 o Sítio da Forca

Marco geodésico da Cabeça Gorda, junto do qual se localizava a forca

Cano
A forca do Cano situava-se na Tapada da Forca, a norte do núcleo mais antigo da vila, no prolongamento da Travessa dos Nocturnos, a cerca de 300 metros do actual limite da povoação. Da forca, hoje já nada subsiste. A Tapada da Forca é uma parcela de terra agrícola aplanada, numa cota levemente elevada à vila.
A Tapada da Forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS:
X - 0607590; Y - 4314113.


Localização da forca do Cano

Tapada da Forca

Castelo de Vide
A forca de Castelo de Vide situava-se no Outeiro da Forca, na linha de cumeada que se situa a SE da vila e que acompanha a estrada que liga esta vila a Marvão. No local da forca, existe ainda hoje uma rua denominada Outeiro da Forca. Por informação oral, a forca de madeira estaria levantada em frente ao velho moinho que ainda hoje aí se conserva. Contudo, esta informação parece-nos algo estranha, considerando que a idade do moinho o faria contemporâneo da utilização da forca e não nos parece que fossem consentâneas as duas coexistências em espaço tão reduzido.
Provavelmente, a forca situar-se-ia algumas dezenas de metros para SE do moinho, para os lados da Matosa.
O local provável da forca de Castelo de Vide possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0633656; Y - 4363855».


Localização da forca de Castelo de Vide

Moinho no Outeiro da Forca

Rua do Outeiro da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XI. «Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca»

jdact

Cabeço de Vide
«A forca de Cabeço de Vide é a que se encontra em melhor estado de conservação, de todas as conhecidas no distrito de Portalegre. A sua não destruição intencional terá ficado a dever-se à extinção do concelho de Cabeço de Vide, no século XIX, e à prolongada indefinição da jurisdição municipal deste território, que era disputado entre Alter do Chão e Fronteira. Pensamos que a principal causa da destruição da maioria das forcas se ficou a dever a deliberações camarárias, logo após a abolição da pena de morte, em 1867.
A forca de Cabeço de Vide é formada por dois pilares em alvenaria. O do lado sul, que se encontra completo, é encimado por uma pirâmide que se sobrepõe a um paralelepípedo. A altura, desde o actual solo ao vértice da pirâmide, é de 333 centímetros, e a largura média dos pilares é de 77 centímetros. O afastamento entre os dois pilares é de 222 centímetros. Na face poente dos dois pilares, a cerca de 130 centímetros do solo, abrem-se dois orifícios simétricos, de secção quadrangular, com cerca de 15 cm de lado e uma profundidade que quase atinge a face oposta dos pilares. Estes orifícios destinar-se-iam a montar uma qualquer estrutura, provavelmente de madeira, com o objectivo de apoiar o condenado antes de ser suspenso pelo pescoço. Nas faces internas dos dois pilares, na base das pirâmides, identificam-se dois orifícios quadrangulares com cerca de 20 cm de lado, destinados a apoiar a trave de madeira que suportaria os enforcados.
Os dois pilares, obtidos em pedra e argamassa, terão sido, na origem, totalmente rebocados e, atendendo a alguns leves sinais ainda visíveis, terão sido, igualmente, caiados. No solo, junto à face nascente da forca, parece existirem sinais de um murete que avançaria dos pilares e limitaria um curto espaço de terreno. Eventualmente, este murete destinar-se-ia a resguardar os corpos dos condenados, quando em morte perpétua, dos animais necrófagos. Atendendo ao aterro que se verifica junto aos pilares da forca, uma eventual escavação arqueológica viria a possibilitar a compreensão desta estrutura.
A forca de Cabeço de Vide, como todas as outras, implanta-se na face nascente de uma colina sobranceira à vila e nas imediações da estrada principal, não muito distante do antigo Rossio. A forca de Cabeço de Vide assinala-se na Carta Militar de Portugal e encontra-se envolta em lendas que os mais idosos da vila constantemente repetem. Possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0621196;Y - 4332920.


Localização da forca de Cabeço de Vide


Forca de Cabeço de Vide


Cacheiro
Houve a informação que, nas imediações de S. Matias do Cacheiro, povoação situada a curta distância de Nisa, existia um local denominado Cabeço da Forca. Na pequeníssima povoação de Cacheiro, que nunca foi sede de concelho, imediatamente nos indicaram onde se situava o lugar da forca. A cerca de 1500 metros para nascente da povoação, num suave outeiro, ali se teria erguido, quando era preciso, uma forca. Segundo informação recolhida entre os idosos que à soalheira de uma tarde de Primavera se sentavam à porta da igreja de S. Matias, soubemos que noutros tempos, quando o juiz por ali passava e havia criminosos presos, enforcavam-nos no alto do cabeço para que todos vissem. Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca. Contudo, com a  presença do topónimo e as afirmações peremptórias dos mais idosos da povoação, deslocámo-nos ao sítio da forca, onde nada foi possível observar que se relacionasse com o monumento.
Pelas informações locais, esta forca seria de madeira. O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0611184;Y - 4379709.


Localização da forca de Cabeço da Forca do Cacheiro


Cabeço da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte X. «Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular…»

jdact

Barbacena
«A forca de Barbacena situava-se na margem esquerda da Ribeirinha, a nascente do castelo. O local é hoje um amplo largo junto a oficinas de mecânica. Por informação oral, sabemos que a forca era de madeira. Dela hoje já nada resta.
O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0648232; Y – 4314182.


Localização da forca de Barbacena


Local onde se implantava a forca


Belver
A forca de Belver situava-se no topo de um cerro sobranceiro à vila, a norte da ermida da Sra do Pilar. O local foi profundamente afectado pela instalação de uma antena de telefones móveis. Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular, que poderia ter pertencido ao patíbulo onde se levantaria a forca. Atendendo à quantidade de pedras com argamassas que aí ainda se conservam, é provável que esta forca fosse de pedra e cal.
A forca de Belver possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0589804; Y – 4372601.


Localização da forca de Belver


Vista de Belver e topo do Outeiro da Forca, vendo-se a estrutura destruída


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados»

Bordalo Pinheiro e jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) E, como assim acontecesse, a Soller começou a ser a senhora Josepha Soller Assis. Este Assis, António Maria Assis, era um soffrivel actor de alta-comedia, e nascera dotado de quasi todas as condições que constituem o galã de theatro. Era alto, elegante, extremamente sympathico de phisionomia, e com bons olhos. Havia-se estrelado em theatros particulares, e só em 1844 se arriscou a theatros públicos no drama em cinco actos, O infanticidio ou a ponte de S. Cloud. Tinha vinte e dois annos então. No theatro normal, o seu reportório foi sempre o mais escolhido e o mais litterario, e, de ordinário, capricho do acaso ou iniciativa dos auctores, teve este artista papeis em que fazia a cada passo declarações de amor..., a sua mulher! Garrett gostou muito d'elle no seu fr. Luiz de Sousa, e este é decerto o maior louvor para a memoria do artista.
Comquanto a natureza fosse cruel para com a Soller, baixinha, sem voz, sem olhar, sem elegância, o trabalho, que é um segundo talento, valleu-lhe e elevou-a. Chegou a ser notável, grande. Mas, a estrella da felicidade foi-se apagando para ella a pouco e pouco; vieram as guerras e misérias dos bastidores; a melancholia de se encontrar preterida, o despeito de ver que lhe roubavam as flores da sua coroa, não poderia deixar de ter influencia no seu destino; deshabituada do palco pelos longos intervallos em que se encontrou afastada d'elle, sempre que reaparecia em scena, ia como que receiosa, indecisa, timida, hesitante, tremula! Tinha ainda altitudes, gestos, meneios de cabeça, admiráveis; quando representava com Emilia das Neves, ainda erguia a fronte soberbamente, como sacudindo o peso da oppressão que nos últimos tempos lha curvava! Havia thesouros de vingança a trahirem-se nas suas mãos que se encrespavam, nos seus nervos que tremiam sob a immobilidade fria de uma resolução implacável!
Disse adeus difinitivo ás glorias de acordar o enthusiasmo; o publico insaciável e inconstante nos seus prazeres, não se preoccupou sequer um instante com a desgraça d’esse antigo idolo. Sentia e impressionava-se quando declamava! Não era uma vaidosa recitação mais ou menos modulada pelos lábios; era a voz que se quebra, as fibras que palpitam, um anno de vida gasto em dez minutos! Era o ódio, o furor, a revolta, a aspiração á liberdade, as mais devoradoras paixões humanas concentradas n’um frágil corpo de mulher! Se os auctores attendessem ao melhor género do seu talento, se o theatro não a desconsiderasse afastando-a da scena, o publico haveria tido mais occasiões de applaudir senão a esbelta e alegre Ciganinha, ao menos a pallida e melancholica Luiza do Casal das giestas!
Onde havemos de collocar o nosso Rosa, João Anastácio, que apparece hoje tão raras vezes no tablado, e ora n‘um theatro, ora n’outro, sem se perceber bem se elle ainda é do teatro de D. Maria, se é de qualquer theatro de Lisboa ou Porto, ou se não é já de theatro algum? Rosa tem sido um artista importante, mexendo um pouco em tudo, e dotado de uma quantidade de prendas, só comparável á da menina do conto que o pae queria casar: isto canta, isto toca, isto dança, isto borda, isto faz doce!...
Assim, Rosa actor! Chega a parecer a ladainha: Rosa mystica! Rosa ebúrnea! Rosa pulcra! D’essa variedade de talentos tirou por muitas vezes os melhores segredos para a composição do seu personagem. Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados, das combinações engenhosas de caracterisação.
Depois, como sabia sempre com perfeição os seus papeis, tornava-se completamente senhor da acção e verdadeiramente attingia por vezes as proporções de artista de primeira ordem. A doença e a rabuge principiaram a querer moel-o. Elle tem-as moido a ellas. Ainda eu era pequeno já elle voltava dos Pyreneos onde fora tratar-se. Desde então, lá tem tido artes de entreter seus males e por ahi o vemos, com grande alegria nossa, ir passeando a sua enfermidade e o seu mau humor. Não há affectação n’aquelle estado. Soffre effectivamente com as alternativas do tempo, e duas ou três nuvens paradas no azul do ceu prejudicam-o mais do que se pode calcular». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.


Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «O papel de amante era effectivo ao Assis. A parte de “adorado bem” competia sempre á Soller»

Bordalo Pinheiro e jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) Pois que! Esta mulher que se abraçava aos pés de Terpsichore, olha um dia para a face austera de Thalia, e a deusa sorri-lhe e abraça-a, e as almas dâo-lhe lagrimas, o publico dá-lhe flores, a imprensa dá-lhe applausos, e ella acorda actriz! Actriz inesperadamente! Actriz repentinamente! Fizera-se bailarina, mas fora actriz que nascera! Pode dizer-se que ninguém lhe ensinou a arte senão depois de ella se mostrar artista; e mostrou-se artista desde o primeiro dia! Como aprendeu, pois? Como adivinhou, então?
Vi-a eu estrear-se, eu que tinha onze annos. Ainda me recordo de a ver apparecer na montanha com o seu chapeusinho de cigana levemente inclinado sobre a orelha, no famoso theatro do Salitre, toda a brilhar como se ainda estivesse nos divertissements, saia curta, botinha de cano, n'uma peça que foi fallada n'esta Lisboa.

A Ciganinha!
Que noite, que noite! Os ratos, únicos frequentadores hoje d'esse theatro, ainda estremecem do que seus avós lhe contaram de tal caso. A rapaziada effectiva de S. Carlos affluiu ao Salitre n'essa recita, ao que me contam. Nas frisas e na superior, viam-se os terriveis da platéa do theatro lyrico, curiosos de vêr brilhar o talento d’esta singular creatura que o encontrara primeiro nos pés, e o procurava agora na cabeça! O que provava ao menos não estar no caso do rifão, visto que tinha ambas as coisas! Ia descobrindo a todo o instante horizontes novos, auxiliada por grande força de vontade e pela attenção continua com que estudava. N’isto appareceu-lhe o Assis.
A historia anecdotica do theatro, tem mostrado mil vezes a importância do galan para os destinos do amor. Eu creio verdadeiramente que se não existissem galans, as mulheres teriam amado muito menos! Na peça de Psiché o comediante Baron, da companhia de Molière, representava o papel do Amor, e dizem as noticias da época, que elle arrebatava todos os corações dos espectadores, conseguindo depois ser em particular tão bom actor com as senhoras, como com as damas de theatro. Era uma perfeita guerra de mulheres, a qual havia de o alcançar primeiro. La Bruyère conta-o bem claro: Roscius não pode ser vosso, Leha; tem dono e, mesmo que assim não fosse, está já pedido, Claudia espera para o ter, que elle se farte de Messalina!
A amante de Molière, acabou por tomar a serio as phrases que Baron lhe dizia no palco, aprendidas de cór, mas recitadas com o encanto e o calor da arte, que tantas vezes se confundem com a inspiração verdadeira, natural, e espontânea da alma! E a amante de Molière, apaixonou-se por Baron. Cincoenta annos depois, pouco mais ou menos, Adrianna Lecouvreur, que passou a vida em amores, e fez papelotes dos madrigaes de Voltaire, olhou um dia para lord Peterborug, que era grande personagem, e para o galan Legrand, que não passava de um actor mediocre; ambos elles a requestavam, e ella resolveu gostar de ambos, mas de um primeiro que do outro, porque, são as memorias que o dizem, a grande actriz era inconstante, mas não era falsa. E como era preciso principiar por um d'elles, Adrianna Lecouvreur principiou por Legrand!
No theatro do Salitre representava-se no tempo a que nos temos referido, um grande numero de peças sentimentaes. O pranto tinha todas as noites que pagar foro ás desventuras de um amante infeliz, a quem a barbaridade paterna separava do seu adorado bem. O papel de amante era effectivo ao Assis. A parte de adorado bem competia sempre á Soller. Uma vez, o amor, que é um traquina, metteu-se deveras n'isto, e a Sller, querendo que a sua felicidade fosse tão auctorisada no mundo como no palco, resolveu, de accordo com o Assis, principiarem por onde os dramas acabam, pelo casamento!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Política. História. Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa N. Travessa «… promoção de uma cultura mais abrangente do povo português, por meios diversos e tendo por suporte uma intenção de intervenção cívica e cultural dos intelectuais»

jdact

O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) Esta última carta foi escrita durante a polémica que o opôs a Cortesão nas páginas de A vida Portuguesa. Ela confirma a ruptura de Sérgio com a Renascença evidenciando, como principal motivo, a divergência em relação ao credo da Saudade que Pascoaes pretendia impor como doutrina do movimento. Sérgio explica mais tarde os fundamentos do seu afastamento da Renascença considerando que no seu interior existiam dois ramos divergentes que alimentavam dois sectores socialmente antagónicos, a saber: o ramo anti-intelectualista e o ramo intelectualista. Sérgio filiava-se no segundo, radicando a sua divergência na oposição à tendência saudosista que Pascoaes apresentou como sendo a doutrina de toda a Renascença: resolvi declarar o meu desacordo com todos os anti-intelectuais e saudosismos, e seguir sozinho o meu rumo próprio aproveitando as facilidades de carácter editorial que a Renascença Portuguesa me proporcionava. Tendência que determina também o afastamento e a dissidência do grupo de Lisboa, explicada por Proença com alguns dos argumentos utilizados por Sérgio. Não existiu pois uma ruptura total com a Renascença e as suas iniciativas. Embora discordando da tendência saudosista que Pascoaes lhe imprimiu, continuam a vincular-se aos objectivos mais gerais dos Estatutos da Sociedade, que propugnavam pela promoção de uma cultura mais abrangente do povo português, por meios diversos e tendo por suporte uma intenção de intervenção cívica e cultural dos intelectuais: em suma, passam da dissidência a uma colaboração distanciada, pontual e crítica.
Retomemos, entretanto, o rumo de Cortesão que seguia entusiasticamente a sua obra no seio da Renascença, sobretudo com o lançamento de A Vida Portuguesa. cujo primeiro número seria publicado em 31 de Outubro de 1912. Para além das iniciativas pedagógicas, Cortesão publica na 2ª série de A Águia artigos de reflexão e alguns poemas. Interessa-nos destacar um desses artigos porque nele se determina com maior precisão a sua posição face às tendências que se formaram na Renascença. Constitui, no dizer de António Reis, uma resposta às críticas de Proença e Sérgio relativamente às orientações da revista e do movimento, embora sem nenhuma referência directa aos dois amigos. Neste artigo, reconhece que um dos grandes males dos portugueses seja a fraqueza, o pessimismo, o abandono fatalista que se projecta numa hesitação da vontade, impulsiva e brusco de carácter efémero e pouco consistente. Havia então que acordar uma vontade adormecida e o único meio de o conseguir seria despertando os impulsos afectivos, educando a vontade, alicerçando-se nas teorias da psicologia experimental de Ribot e Payot.
Um desvanecimento da consciência nacional que teria de ser reafirmada pela valorização dos sentimentos, da consciência histórica e da fisionomia espiritual do povo português. As causas desse mal, dessa pantanosa inércia do povo português, identifica-a Cortesão, na senda de Antero e Herculano e também de Pascoaes, com a educação jesuítica, que desde o meado do século XVI até hoje ainda nos não abandonou e que determinou a falta de consciência nacional, que o nosso povo perdeu ao findar daquele século e que só agora entra palidamente a afirmar-se. Encontramos então uma valorização da vontade, na linha de Antero e do movimento do espiritualismo ou idealismo protagonizado por Fouillées, na formação e educação dos cidadãos no contexto social que integram: sem o alicerce da vontade não há carácter, e o que se afirma do indivíduo pode igualmente afirmar-se da colectividade, que, sem os nobres e persistentes caracteres, não realizará obra de fôlego, qual seja a do ressurgimento da nacionalidade. A ideia de que são os sentimentos que governam o mundo, na esteira de Spencer, e, citando Michelet na sua obra Les femmes de la Révolution diz: o advento duma ideia não é tanto a primeira aparição da sua fórmula, como a sua definitiva incubação, quando, depois de ter sido aquecida pelo amor, desabrocha, fecunda pela força do coração, só os impulsos afectivos e vitalistas, os sentimentos originais, poderiam despertar a vontade». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral»  

jdact

Maçonaria, Rosacrucianismo e Templarismo
«(…) Para Pessoa, embora sejam vias distintas, existe uma perfeita articulação de complementaridade entre o Rosacrucianismo, o Templarismo e a Maçonaria: a Ordem Templária  da Escócia havia criado a M. (Maçonaria) como Ordem Mística. Os Rosicrúcios recrearam-na como ordem Mágica. À Ordem de Cristo competiu o fazer que houvesse nela uma Ordem Alquímica. Podemos dizer, na mesma linguagem maçónica, que a Maçonaria foi entrada pela Ordem do Templo, passada pelos rosicrúcios, erguida pela Ordem de Cristo. Desde que cumpriu a sua missão o emissário português, ficaram na Ordem Maçónica os elementos espirituais e transmutação. Quem quiser e souber buscá-los, os encontrará. A M. (doravante, Maçonaria) continuou, na sua aparência secreta, sempre a mesma; mas um novo espírito havia penetrado nela desde que Ramsay falara; um espírito ainda mais alto se despertara nela desde que ela falou o emissário do Ocidente. Está claro que esta afirmação é mais do que uma constatação histórica (pois a Ordem de Cristo existiu como sucessora da Ordem do Templo, é um verdadeiro programa iniciático no qual Pessoa parece estar empenhado e determinado a contribuir para o seu êxito. Neste sentido vale a pena referir o resto deste fragmento do espólio do Poeta: doravante referir-me-ei no termo Ordem do Templo à Ordem Templária da Escócia, para que não confunda com a ordem maçónica que tem este último nome; no termo Ordem de Cristo à Ordem Templária de Portugal, que é a parte interior da outra, hoje extinta. Fernando Pessoa refere-se aqui à tradição do templarismo esotérico, segundo a qual a Ordem do Templo teria um núcleo central, secreto, detentor de uma doutrina espiritual oculta, de natureza gnóstica. Parece ter a ver com isso a frase do Poeta; ... veio a formar-se, com certos fins místicos e secretos, dentro do seio visível da Igreja de Roma, uma Ordem que foi designada por Ordem Militar do Templo de Salomão. Os seus servos, iniciados ou não, são os que designamos pela abreviação de Templários. A esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica (...) possuidora das chaves dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrúcios, a Igreja Mística.
É interessante constatar duas notas que Pessoa dá sobre a Ordem de Cristo e ambas referentes ao século XIX: uma, do começo do século, que podemos encontrar em Miguel António Dias (1853), Anais e Código da Franco-maçonaria em Portugal, sobre um tal Nunes, português, ao que parece pouco recomendável, que foi a França vender o sonho de uma Ordem de Cristo ressurgida numa perspectiva iniciática (Nunes quis fundar uma O.C. dentro da M.. Isso estava de antemão condenado...; a outra, bastante enigmática e que levanta algumas dúvidas sobre a sua autenticidade, as provas da O.C. sob elas ficou esmagado Antero de Quental, que nunca passou de escudeiro. (A sua associação com elementos maçónicos e semelhantes, em parte contribuiu para sua derrota astral). Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral, conde de Tomar, que comprou parte do Convento de Cristo para sua residência (e não sabemos se para outros fins...); testemunhos indirectos dessa corrente vêm pela mão dos seus críticos, como por exemplo, Borges Grainha (in História da Franco-Maçonaria em Portugal).

Rosacrucianismo
Vejamos, entretanto, a definição que Pessoa dá de Rosacruciano: podemos dizer Rosicruciano um indivíduo pertencente à chamada Fraternidade da Rósea Cruz (não da Rosa-Cuz) (...) alguém que pertença à Ordem Rosicruciana, ou, até, a qualquer das Ordens dela derivadas, o que tal pretendam, a G:, D:, A:, A:, e outras (...). A Ordem Rosicruciana, a Ordem-mãe, apareceu (ao que parece) no século XVII), não se sabe bem onde nem como, desenvolveu-se quantitativa e ritualmente, no século XVIII, em que se tornou maçónica, isto é, pôs como condição de admissão o ser-se Mestre Maçon, sob qualquer obediência regular, e subsiste hoje, com certas rectificações, e de novo (outra vez) sem a condição maçónica. Na sua primeira fase criou ou transformou a M., a Ordem Externa como estes Rosicrucianos lhe chamam». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 13 de março de 2016

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «… após a morte do rei-cardeal Henrique, são ambos leais apoiantes, a ponto de Filipe I nunca os ter perdoado, da subida ao trono de António, Prior do Crato, 18º rei de Portugal, sobrinho dilecto da Infanta»

jdact

A Sereníssima Infanta Dona Maria. A sua casa e fortuna
«(…) É muito provável que o palácio do Campo de Santa Clara tenha uma construção muito tardia, certamente da década de 60, correspondendo ao pedido de desanexação de uma parte da freguesia de Santo Estevão de Alfama. O programa arquitectónico que a Infanta lidera junto do mosteiro das Clarissas, construindo um palácio ao lado do secular mosteiro e uma igreja paroquial, projecta um ambicioso propósito político, que tem correspondência no desenvolvimento urbanístico que proporciona. O palácio de Santos-o-Novo fará, talvez, parte deste desenvolvimento, estabelecendo uma ancestral continuidade entre as três mais significativas casas religiosas a oriente da cidade de Lisboa: os mosteiros das Clarissas do Campo de Santa Clara e de Xabregas e o convento agostinho, que herdara a memória e simbólica do ancestral templo de vestais de Lisboa. Em Santa Clara, a Infanta afirmava o seu poder precursor e, ao mesmo tempo, o distanciamento da política da Ribeira; em Xabregas (não podemos esquecer que no testamento dona Maria pediu para que o seu corpo fosse depositado aqui, enquanto aguardava a conclusão da capela-mausoléu da Luz), tinha a presença da venerada e tutelar imagem da tia Leonor; e em Santos-o-Novo, sob a influência directa de Chelas e da mitológica fundação da cidade por Ulisses, que ao ver-se perseguido pelo desfavor dos deuses procura abrigo num templo de vestais, que a historiografia cristã apropria virtuosamente (a reedificação e melhorias seiscentistas do convento é feita sobre o patrocínio, talvez não inocente, do arcebispo Miguel Castro, responsável pela gestão da fortuna da Infanta e pelo busto-relicário de Santa Engrácia),dona Maria reforçava a imagem do seu virginal sacrifício pela continuidade dinástica e política dos Avis.
Tão vasta fortuna e palácios proporcionavam à Infanta uma casa rica na qual tinham lugar alguns dos membros das melhores famílias do Portugal de Quinhentos. Em 1567, o cronista oficial da corte dava notícia deste facto: traz tam honrrada casa de criados, damas, e outros familiares, que pera se dizer que he igual a todalas Rainhas Deuropa, lhe nam falta mais que o nome de huma dellas.  A lista dos moradores da casa da Infanta não se encontra completa. A documentação disponível tem inúmeras lacunas e acaba, misteriosamente, no início dos anos 40. Nela constam alguns nomes que fazem parte da galeria de personagens célebres do século XVI: Paula Vicente e o seu irmão João, as filhas de Joana de Blasfer e de Francisco Gusmão, Constança, Maria e Luísa (Constança Gusmão e Maria Gusmão ou, segundo alguns autores, de Blasfet, aparecem nos róis de moradias de dona Maria, ainda que a moradia da primeira venha, normalmente, sob o nome da irmã, repetido, tratando-se de um óbvio engano; o nome de Luísa não aparece, talvez, por ser a mais nova das três e ter entrada ao serviço da Infanta em data posterior a 1543, pois não nos parece que Luísa Gusmão estivesse ao serviço de qualquer outra senhora. Luísa Gusmão casou com o 2.º conde de Vimioso, Afonso Portugal, que acompanha a Infanta à raia alentejana no ano de 1558 quando vai ao encontro da mãe e recebe, por isso, particulares mercês, e após a morte do rei-cardeal Henrique, são ambos leais apoiantes, a ponto de Filipe I nunca os ter perdoado, da subida ao trono de António, Prior do Crato, 18º rei de Portugal, sobrinho dilecto da Infanta. Constança será a mais velha das três, uma vez que se torna camareira-mor da Infanta à morte da mãe, Joana Blasfet; casou com Pedro Menezes, que morreu em 1553, em Ceuta, onde era capitão; deste casamento nasceu António Menezes que mais tarde casou com dona Joana Lencastre, filha de Jerónimo Castro, e cujo filho Pedro vem mencionado em vários róis de tenças; maria casou com Francisco Coutinho, 3.º conde do Redondo, e teve três filhas: a célebre Guiomar Blasfet, a quem Camões dedicou inúmeros versos apaixonados, que casou com Simão Menezes, senhor do Louriçal; Joana Gusmão, que casou com o l.º conde de Vila Franca, Rui Gonçalves Câmara; e, por fim, Isabel Henriques, que casou com Afonso Lençastre), ou ainda o ourives real Baltasar Cornejo (consta num rol datado de 1529, quando a Infanta contava 8 anos, tratando-se, portanto, de um pagamento extraordinário por qualquer serviço executado por intervenção da rainha e não de um criado da sua casa). Contudo, os róis são omissos em nomes como os das irmãs Sigeia, Luísa e Ângela, Hortênsia Castro ou Francisco Gusmão, cuja certeza enquanto membros da casa da Infanta se confirma pela documentação oficial (é a própria Luísa que anos mais tarde afirmava ter sido alumna, ou seja, alimentada, beneficiada da Infanta; Hortênsia consta no rol de tenças a serem atribuídas à morte da Infanta, como dama da câmara; lembramos que Carlos V recorre a Francisco Gusmão para obter informações da Infanta mais de uma vez; a documentação do rei João III também o atesta, num alvará de 1554, o rei concede a Luís Gusmão, filho de Joana Blasfet e Francisco Gusmão, uma tença de 50 mil réis pelos serviços dos pais à infanta dona Maria)». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da FOriente/JDACT