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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. «Ao cabo de três dias, andando para o meio-dia, o homem encontra-se em Anastásia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por grandes papagaios de papel. Eu deveria agora enumerar as mercadorias que aqui se compram com lucro…»

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As cidades e os mortos. 3.
«(…) É claro que são os vivos que pedem para depois de mortos um destino diferente do que lhes calhou: a necrópole está cheia de caçadores de leões, meios-sopranos, banqueiros, violinistas, duquesas, cortesãs, generais, mais dos que contou a cidade viva. A incumbência de levar lá, para baixo os mortos e colocá-los no lugar desejado está outorgada a uma confraria de encapuçados. Mais ninguém tem acesso à Eusápia dos mortos e tudo o que se sabe lá de baixo sabe-se por eles. Diz-se que a própria confraria existe entre os mortos e que não deixa de lhes dar uma ajuda; os encapuçados depois de mortos prosseguirão também o mesmo ofício na outra Eusápia; fazem crer que alguns deles já estão mortos e continuam a andar para cima e para baixo. É evidente que é muito ampla a autoridade desta congregação sobre a Eusápia dos vivos.
Dizem que sempre que descem encontram qualquer coisa mudada na Eusápia de baixo; os mortos trazem inovações à sua cidade; não muitas, mas certamente fruto de reflexão ponderada, e não de caprichos passageiros. De um ano para o outro, dizem, a Eusápia dos mortos não se reconhece. E os vivos, para não lhes ficaram atrás, querem fazer também tudo o que os encapuçados contam das novidades dos mortos. Assim a Eusápia dos vivos pôs-se a copiar a sua cópia subterrânea. Dizem que isto não é só agora que acontece: na realidade teriam sido os mortos a construir a Eusápia de cima à semelhança da sua cidade. Dizem que nas duas cidades gémeas já não há maneira de saber quais são os vivos e quais os mortos.

As cidades e a memória. 3
Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever-te a cidade de Zaira de altos bastiões. Poderia dizer-te de quantos degraus são as ruas em escadinhas, como são as aberturas dos arcos dos pórticos, de quantas lâminas de zinco são cobertos os telhados; mas já sei que seria o mesmo que não te dizer nada. Não e disto que é feita a cidade, mas sim das relações entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do seu passado: a distância a que está do solo um lampião e os pés a balançar de um usurpador enforcado; o fio estendido do lampião à varanda da frente e os arcos que enfeitam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela varanda e o salto do adúltero que a galgava de madrugada; a inclinação de uma goteira e o pulo de um gato que entra pela janela; a linha de tiro do navio bombardeiro que apareceu de repente por detrás do cabo e a bomba que destrói a goteira; os puxões das redes dos pescadores e os três velhos que sentados no cais a remendar as redes contam uns aos outros pela centésima vez a história do navio bombardeiro do usurpador, de quem se diz que era filho ilegítimo da rainha, abandonado à nascença ali no cais. E desta onda que reflui das recordações que a cidade se embebe como uma esponja e se dilata. Uma descrição de Zaita tal como e hoje deveria conter todo o passado de Zaira. Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes.

As cidades e o desejo. 2
Ao cabo de três dias, andando para o meio-dia, o homem encontra-se em Anastásia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por grandes papagaios de papel. Eu deveria agora enumerar as mercadorias que aqui se compram com lucro: ágata ónix crisoprásio e outras variedades de calcedónia; gabar a carne do faisão dourado que se cozinha no fogo de lenha de cerejeira seca e se barra com muito oregão; falar das mulheres que vi tomar banho na piscina de um jardim e que às vezes convidam, conta-se, o transeunte a despir-se e a correr atrás delas na água. Mas com estas notícias não te diria a verdadeira essência da cidade: porque enquanto a descrição de Anastásia se limita a despertar os desejos um de cada vez para te obrigar a sufocá-los, a quem se encontra uma manhã no meio de Anastásia os desejos despertam todos ao mesmo tempo a assediar-nos». In Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1990, Editorial Teorema, Lisboa, 2003, ISBN 972-695-374-X.

Cortesia de ETeorema/JDACT

quarta-feira, 29 de abril de 2015

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. «Outras deteriorações e outros vigores se seguiram em Clarice. As populações e os costumes mudaram muitas vezes mais; restam o nome, a localização, e os objectos mais difíceis de quebrar»

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As cidades e o nome. X
«(…) Aos tempos de indigência sucediam-se épocas mais alegres: uma Clarice borboleta sumptuosa nascia da Clarice crisálida miserável; a nova abundância fazia a cidade transbordar de materiais edifícios objectos novos; afluía nova gente vinda de fora; já nada nem ninguém tinha alguma coisa a ver com a Clarice ou as Clarices de antes; e quanto mais a nova cidade se instalava triunfalmente no lugar e no nome da primeira Clarice, mais se dava conta de se afastar daquela, de destruí-la não menos rapidamente do que os ratos e o bolor: apesar do orgulho do novo fausto, no fundo do coração sentia-se estranha, incongruente, usurpadora. E então os resquícios do primeiro esplendor que se tinham salvado adaptando-se a necessidades mais obscuras eram novamente deslocados, guardados sob campânulas de vidro, encenados em vitrinas, colocados em almofadões de veludo, e já não porque podiam ainda servir para qualquer coisa, mas porque através deles se desejava recompor uma cidade de que já ninguém sabia nada. Outras deteriorações e outros vigores se seguiram em Clarice. As populações e os costumes mudaram muitas vezes mais; restam o nome, a localização, e os objectos mais difíceis de quebrar. Cada nova Clarice, compacta como um corpo vivo com os seus odores e a sua respiração, ostenta como uma jóia o que resta das antigas Clarices fragmentárias e já mortas. Não se sabe quando estiveram os capitéis coríntios no alto das suas colunas: só se recorda de um deles que por muitos anos numa capoeira manteve a cesta onde as galinhas punham os ovos, e dali passou para o Museu dos Capitéis, em fila com os outros exemplares da colecção. Já se perdeu a ordem da sucessão das várias eras; que houve uma primeira Clarice é crença bem difundida, mas não há provas que o demonstrem; os capitéis poderiam ter estado nas capoeiras antes de irem parar aos templos, as urnas de mármore poderiam ter sido semeadas com manjerico antes de o serem com ossos de defuntos. De certeza só se sabe uma coisa: um certo número de objectos desloca-se num certo espaço, ora submerso por uma quantidade de objectos novos, ora consumando-se sem serem substituídos; a regra é misturarem-se todas as vezes e experimentar juntá-los de novo. Talvez Clarice haja sempre sido apenas uma barafunda de bugigangas partidas, mal combinadas, fora de uso.

As cidades e os mortos. 3.
Não há cidade mais propensa que Eusápia a gozar a vida e a fugir às ansiedades. E para que o salto da vida para a morte seja menos brusco, os habitantes construíram debaixo de terra uma cópia idêntica da sua cidade. Os cadáveres, secos de maneira que fique o esqueleto revestido de pele amarela, são levados lá para baixo para continuarem as ocupações de antes. Destas, são os momentos despreocupados que têm a preferência: a maior parte deles, colocam-nos sentados à volta de mesas postas, ou em posição de dança ou no gesto de tocar trompas. Mas também todos os comércios e ofícios da Eusápia dos vivos continuam ao trabalho debaixo de terra, ou pelo menos aqueles que os vivos realizaram com mais satisfação que enfado: o relojoeiro, no meio de todos os relógios parados da sua oficina, encosta uma orelha ressequida a um relógio de pêndulo sem corda; um barbeiro ensaboa com o pincel seco o osso das bochechas de um actor enquanto este estuda o papel fixando o guião com as órbitas vazias; uma rapariga de caveira sorridente ordenha uma carcaça de bezerra». In Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1990, Editorial Teorema, Lisboa, 2003, ISBN 972-695-374-X.

Cortesia de ETeorema/JDACT

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. «Ai rosa clara algum dia Rosa clara te deixei ai rosa clara algum dia te amarei. Ai amor amores tenho mais de um cento bonecas primores cabeças de vento cabeças de vento não as quero não ai amor amores do meu coração»

jdact e cortesia de sofiaborges

As cidades e os olhos. Y
«(…) Passando o rio a vau, atravessando a passagem, o homem encontra-se de repente diante da cidade de Moriana, com as portas de alabastro transparentes à luz do sol, as colunas de coral que sustêm os frontões incrustados em serpentina, os palácios todos de vidro como aquários onde nadam as sombras das bailarinas de escamas prateadas sob os candelabros em forma de medusa. Se não for a sua primeira viagem o homem sabe já que as cidades como esta têm um reverso: basta percorrer um semicírculo e ter-se-á à vista a face oculta de Moriana, uma extensão de chapa enferrujada, sarapilheira, tábuas cheias de pregos, canos negros de fuligem, montões de latas, muros cobertos com escritas meio apagadas, fundos de cadeira desempalhadas, cordas que só servem para alguém se enforcar numa trave apodrecida. De uma parte à outra a cidade parece que continua em perspectiva multiplicando o seu repertório de imagens: afinal não tem espessura, consiste apenas num direito e num avesso, como uma folha de papel, com uma figura de cá e outra de lá, que não se podem arrancar nem guardar.

As cidades e o nome. X
Clarice, cidade gloriosa, tem uma história atribulada. Várias vezes decaiu e refloresceu, tendo sempre a primeira Clarice como modelo inigualável de todo o esplendor, em comparação com o qual o estado presente da cidade não deixa de suscitar novos suspiros a cada volver das estrelas. Nos séculos de degradação, a cidade, esvaziada das pestilências, baixando de estatura devido aos desmoronamentos de travejamentos e cornijas e aos aluimentos de terras, enferrujada e entupida por incúria ou falta dos responsáveis pela manutenção, repovoava-se lentamente ao reemergirem das caves e tocas hordas de sobreviventes que como ratos pululavam movidos pela ânsia de vasculhar e roer, e até de rebuscar e remendar, como pássaros que fazem ninho. Agarravam-se a tudo o que se pudesse retirar donde estava e pôr noutro lugar para servir para outro uso: os cortinados de brocado acabavam a fazer de lençóis; nas urnas cinerárias de mármore plantavam manjericos; as grelhas de ferro forjado arrancadas das janelas dos gineceus serviam para grelhar carne de gato sobre fogueiras de lenha talhada. Montada com as peças da Clarice imprestável, tomava forma uma Clarice da sobrevivência, toda tugúrios e pardieiros, esgotos infectos, coelheiras. No entanto, do antigo esplendor de Clarice não se perdera quase nada, estava tudo ali, simplesmente disposto numa ordem diferente mas não menos apropriada do que outrora às exigências dos habitantes». In Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1990, Editorial Teorema, Lisboa, 2003, ISBN 972-695-374-X.


Cortesia de ETeorema/JDACT

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. «… chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira»

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As cidades e a memória. 1
«Partindo-se dali e andando três dias para Levante o homem encontra-se em Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas pavimentadas a estanho, um teatro de cristal e um galo de ouro que canta no alto de uma torre todas as manhãs. Todas estas belezas o viajante já as conhece por tê-las visto também noutras cidades. Mas a propriedade desta é que quem lá chegar numa noite de Setembro, quando os dias já diminuem e as lâmpadas multicores se acendem todas ao mesmo tempo por cima das portas das lojas de peixe frito, e de um terraço uma voz de mulher grita: uh!, lhe apetece invejar os que agora pensam que já viveram uma noite igual a esta e que então foram felizes.

As cidades e a memória. 2
O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

As cidades e o desejo. 1
Da cidade de Doroteia pode-se falar de duas maneiras: dizer que se elevam das suas muralhas quatro torres de alumínio ladeando sete portas de ponte levadiça sobre o fosso cuja água alimenta quatro verdes canais que atravessam a cidade e a dividem em nove bairros, cada um deles com trezentas casas e setecentas chaminés; e tendo em conta que as raparigas solteiras de cada bairro se casam com jovens de outros bairros e que as suas famílias trocam os bens que cada uma tem: bergamotas, ovos de esturjão, astrolábios e ametistas, fazer cálculos com base nestes dados até saber tudo o que se deseja da cidade no passado no presente e no futuro; ou dizer como o condutor de camelos que me leva até lá: Cheguei ali muito jovem, uma manhã, muita gente a correr pelas ruas a caminho do mercado, as mulheres tinham belos dentes e olhavam-nos bem nos olhos, três soldados em cima de um palco tocavam cornetim, por toda a parte giravam rodas e ondulavam letreiros coloridos. Até então eu só tinha conhecido o deserto e as pistas das caravanas. Nessa manhã em Doroteia senti que não havia nenhum bem na vida a que eu não pudesse aspirar. Com o passar dos anos os meus olhos voltaram a contemplar as imensidões do deserto e as pistas das caravanas; mas agora sei que este é só um dos muitos caminhos que se abriam à minha frente nessa manhã em Doroteia». In Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1990, Editorial Teorema, Lisboa, 2003, ISBN 972-695-374-X.

Cortesia de ETeorema/JDACT

sábado, 27 de outubro de 2012

Gente do Metro. Júlio Conrado. «Olha que menino, o Governo e a sua corte de bisbilhoteiras amestradas a negligenciar pecados tão transparentes como os meus. Apostámos, admito, na mesma jogada. Fazer sair Nora de Lisboa…»

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O Adido Cultural
«Devo a Josette largos minutos de bem-estar: talvez pudesse prolongá-los. Prefiro, contudo, retirar-me enquanto dorme. Está notoriamente exausta. Fui, decerto, esta noite, o último dos seus clientes. Que devem ser bastantes, a avaliar pelas estatísticas do que ganha; forneceu-mas enquanto trabalhava.
Repousa de borco, o rosto sobre o lado esquerdo, as narinas flectindo a um leve ressonar. Rosto jovem, testa alta, cabelo preto e denso. Ao corpo, tapa-o parcialmente o lençol branco sujo, deixando de fora um dos belos joelhos, trigueiro, dobrado, a exaltar o redondo. De arregalar o olho a qualquer amador de poses.
Gostaria de abandonar o hotel-bordel sem que ela desse por isso. Prendo algumas notas sob a base do candeeiro, cuja lâmpada não chegou a ser apagada. Visto-me e calço-me precipitadamente, tolhe-me um nervosismo idiota. Que adido cultural não se sentiria um homenzinho verdadeiramente menor, ao ser caçado pela brigada mundana numa das mal-afamadas hospedarias parisienses? Só de admitir a hipótese cai-me o sapato, desalinho os botões da camisa, ao metê-los nas casas, e os da braguilha nem se fala.
Pergunto-me por que estou aqui, por que vim aqui. Nora bateu em retirada sem dizer água vai? E depois? Nunca ignorei que trocava correspondência regular com o seu antigo amante de Lisboa. Mas daí a partir… Na verdade, não estou em mim. Recorri ao álcool e a Josette, que substituem o psiquiatra com vantagem e por um preço relativamente módico. Josette disse-me em francês da província: nenhuma mulher vale uma lágrima. Na altura, achei bonito. Depois pensei que a deveria ter aconselhado a adornar com poucas palavras o seu comércio. Que melhor faria se aperfeiçoasse as magias do corpo. As palavras só encrencam.
O casaco, de xadrez, os sapatos de polimento, a camisa, a gravata com o nó a esconder-se, debaixo do colarinho, chegada ao lado direito, ah, o chapéu e os óculos escuros, estão mais ou menos, finalmente, em su sitio. Vejo, no espelho, um tipo envelhecido, acabado. Vejo, por cima do ombro, o rabo de Josette. Vejo Nora, sempre.
Passo, pé ante pé, em frente da gaiola de vidro onde o concierge afunda a cabeça num jornal desportivo. Le Regent se chama o hotel, cuja porta principal acabo de transpor. Um quartier latin sonâmbulo espera-me às duas da madrugada.
Cai a paciente geada de Outubro. Subo a gola do casaco, ajeito os óculos. Sou o adido cultural a abater ao efectivo. O Governo não gosta de mal-casados à testa de lugares de responsabilidade. Que dirão o embaixador e sua mulher?
É. O Governo estava tão ansioso por nomear para o cargo um homem de Letras que, ao primeiro poeta disponível que lhe apareceu, chamou-lhe um figo. Terá fechado os olhos a coisas decerto do seu conhecimento. Olha que menino, o Governo (e a sua corte de bisbilhoteiras amestradas) a negligenciar pecados tão transparentes como os meus. Apostámos, admito, na mesma jogada: fazer sair Nora de Lisboa. Foi projecto comum, meu e do Governo, levá-la a preencher o tempo todo com as recepções, os contactos, os espectáculos, abrindo-lhe os salões da diplomacia cultural snob e ajudando-a a esquecer aquele que, contrariando da forma mais grosseira elementares orientações bíblicas, fruía, à descarada, os favores da mulher do próximo. Do ponto de vista do Governo, era preciso a todo o custo colocar um poeta em Paris, mas o único livre tinha uma vida conjugal desgraçada, longe da imagem moralona do país missionário. Enfim, pesados os prós e os contras, o Governo resolvera arriscar. Que melhor cidade para julgar com indulgência vidas com defeito?
Nora, porém, iludiu as expectativas postas na mudança. Entrou a definhar, a consumir-se, até ficar pele e osso. As saudades de certa cama de Lisboa atormentavam-na acima do que podia suportar, penso eu. Raramente me acompanhava e a senhora embaixatriz não perdia a mínima oportunidade para fazer reparos um pouco vexatórios a respeito de razões de estado e inerentes obrigações protocolares. Borrifo-me no protocolo. Mas estou à rasca. Amo Nora, caraças. E agora?» In Júlio Conrado, Gente do Metro, Vega, Lisboa, Colecção O Chão da Palavra, ficção, Prémio literário cidade do Montijo, 1988.

Cortesia de Vega/JDACT

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Cidade Antiga. Estudo sobre o Culto, o Direito da Grécia e de Roma. «Não era mesmo necessário ter sido homem virtuoso: tanto era deus o mau como o homem de bem; somente o mau continuaria na sua segunda existência com todas as suas más inclinações já reveladas durante a sua primeira vida»



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O Culto dos Mortos
«Desde os mais recuados tempos, deram estas crenças lugar a normas de conduta. Como, entre os antigos, o morto necessitasse de alimento e de bebida, concebeu-se ser dever dos vivos satisfazer-lhe esta sua necessidade. O cuidado de levar aos mortos os alimentos não esteve a cargo do capricho ou dos sentimentos variáveis dos homens; foi obrigatório. Assim se estabeleceu toda esta religião da morte, cujos dogmas cedo desapareceram, durando, no entanto, os seus ritos até ao triunfo do cristianismo.
Os mortos eram tidos como entes sagrados. Os antigos davam-lhes os epítetos mais respeitosos que podiam encontrar no seu vocabulário; chamavam-lhes bons, santos, bem-aventurados.
Tinham por eles quanta veneração o homem pode ter pela divindade que ama ou teme. Para o seu pensamento cada morto era um deus. Esta espécie de apoteose não era somente apanágio dos grandes homens; entre os mortos não havia distinção de pessoa. Cícero diz-nos:
  • ‘Os nossos antepassados quiseram que os homens que tivessem deixado esta vida fossem contados no número dos deuses’.
Não era mesmo necessário ter sido homem virtuoso: tanto era deus o mau como o homem de bem; somente o mau continuaria na sua segunda existência com todas as suas más inclinações já reveladas durante a sua primeira vida.
Os gregos davam de bom grado aos mortos o nome de deuses subterrâneos. Em Ésquilo, o filho invoca seu falecido pai por estas palavras: ‘Oh tu que és um deus sob a terra’. Eurípides, falando de Alceste, acrescenta: ‘Junto do teu túmulo o viandante parará e dirá: Aqui vive agora a divindade bem-aventurada’. Os romanos davam aos mortos o nome de deuses manes. ‘Prestai aos deuses manes quanto lhes é devido, diz Cícero, são homens que abandonaram esta vida terrena; considerai-os como seres divinos’.
Os túmulos eram os templos destas divindades. Por isso tinham a inscrição sacramental “Dis Maníbus”. O deus vivia enterrado no seu túmulo, “Manesque sepulti”, no dizer de Virgílio. Diante do túmulo havia um altar para os sacrifícios igual ao que há em frente dos templos dos deuses.
Achamos este culto dos mortos entre os helenos, os latinos, os sabinos e entre os etruscos; encontramo-lo também entre os árias da Índia. Os hinos do Rig-Veda referem-se-lhe. O livro das leis de Manu fala deste culto para no-lo apresentar como o mais antigo culto professado pelos homens. Viu-se já neste livro como a ideia da metempsicose passou por cima desta velha crença; e, apesar de a religião de Brama já anteriormente estar estabelecida, contudo, sob o culto desta religião ou sob a doutrina da metempsicose, subsiste ainda viva e indestrutível a religião das almas dos antepassados, a obrigar o redactor das leis de Manu a tomá-la em consideração e a admitir ainda as suas prescrições no livro sagrado. Não é singularidade menor deste livro tão excêntrico conservar as regras relativas às antiga crenças, sendo evidentemente redigido em época em que já predominam crenças inteiramente opostas. Isto nos prova que, se é preciso muito tempo para as crenças humanas evolucionarem, ainda muito mais tempo se torna necessário para as práticas exteriores e as leis se modificarem. Ainda em nossos dias, depois de tantos séculos passados e de tantas revoluções, os hindus continuam fazendo as suas oferendas aos antepassados. Estas ideias e estes ritos são o que de mais antigo encontramos na raça indo-europeia, sendo também o que ali tiveram de mais persistente.
O culto na Índia era o mesmo que na Grécia e na Itália. O hindu devia oferecer aos manes a refeição chamada “sraddha”. Que o chefe da casa faça o “sraddha” com arroz, leite, raízes e frutos, para conseguir a benevolência dos manes. O hindu acreditava que, quando oferecia o repasto fúnebre, os manes dos antepassados vinham sentar-se junto dele e aqui tomavam o alimento que lhes era oferecido. Acreditava ainda que esta refeição prestava aos mortos grata alegria». In A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1981.

Cortesia de LC Editora/JDACT

terça-feira, 23 de março de 2010

Cafés: Um«cimbalino» ou uma «bica» e dois dedos de conversa

Espaços de tertúlias artísticas e literárias, pontos de encontro de artistas e revolucionários, os cafés do Porto, Braga, Coimbra, Évora, Faro ou de Lisboa são a memória viva da história e da cultura das cidades.


À mesa de um café trocam-se ideias, escrevem-se obras imortais, se criam e alimentam amizades para toda a vida e, quiçá, se projectam e planeam revoluções. Estes são os momentos do quotidiano, acompanhados por um «cimbalino» um «pingado» um «cheirinho» um «garoto» uma «bica», um feito de forma tradicional, que mantém viva a tradição dos cafés espalhados pelo nosso belo país, do litoral para o interior, do norte para o sul. É um modo de renovação da arte de bem servir, ou melhor, uma arte de saber viver.



É o ponto de encontro, um lugar para falar do «jogo de futebol do clube do coração», ler as notícias do jornal diário ou semanário, acompanhar o vai-vém da multidão que passeia para lá da vidraça. Um «ponto» ideal para dois dedos de conversa e acompanhar o quotidiano com sabor a vida.
JDACT

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ary dos Santos: A casa da Rua da Saudade

(1936-1984)
José Carlos Ary dos Santos, Poeta português, natural de Lisboa. Saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades como meio de subsistência. Ficou sobretudo conhecido como autor de poemas para canções do Concurso da Canção da RTP. Os seus temas «Desfolhada» e «Tourada» saíram ambos vencedores. Personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletário, anticonvencional, contribuindo decisivamente para a abertura de novas possibilidades para a música popular portuguesa. Deixou cerca de 600 textos destinados a canções.


Soneto de Inês
Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.
José Carlos Ary dos Santos
«Da tua campa rasa no cemitério do Alto de São João e da tua Rua da Saudade, morada de comunhões e solidões, contínuas a «pegar o mundo/pelos cornos da desgraça», e um dos teus e dos nossos desígnios é contrariar o apagamento dos factos e das memórias, das razões e das convicções, do direito de resposta à liberalização da infeliCidade e à globalização da rapaCidade. Recordar a tua voz, é um acto de gratidão colectiva e de decência intelectual»
(arestasdevento.blogs.sapo.pt).
JDACT

domingo, 14 de março de 2010

Cesário Verde: Nas nossas ruas ao anoitecer...

Cesário Verde (1855-1886) foi um poeta português. Em 1877 começou a dar sinais a tuberculose, doença que já lhe tirara o irmão e a irmã. Estas mortes servem de inspiração a um de seus principais poemas, Nós (1884). Tenta curar-se da tuberculose, mas sem sucesso; vem a falecer no dia 19 de Julho. No ano seguinte Silva Pinto, seu amigo de sempre, organiza O Livro de Cesário Verde que é uma compilação da sua poesia.
De poesia delicada, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade (escura, podre, repleta de perigos e doenças, onde se sente mais inseguro e fragilizado) e o Campo(onde se sente vivo, pleno e saudável), que são os seus cenários predilectos. Evitou o lirismo tradicional, expressando da forma mais natural possível.
Pouco aceite no seu tempo, a poesia de Cesário Verde caracteriza-se pela oposição ao lirismo tradicional.
Eu e Ela
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...
Cesário Verde, in «O Livro de Cesário Verde»

Através de processos impressionistas, de grande sugestividade, condensando e combinando sensações físicas e morais num só elemento, levou a cabo uma renovação ímpar, no século XIX, da estilística poética portuguesa, abrindo caminho ao modernismo e influenciando decisivamente poetas posteriores.
JDACT