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sábado, 26 de abril de 2014

A Bela Poesia. Natália Correia. «Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro, somos vazios despovoados de personagens de assombro. Dão-nos a capa do evangelho e um pacote de tabaco. Dão-nos um pente e um espelho pra pentearmos um macaco»

jdact e claudiamargaridavigario

Bilhete para o Amigo Ausente
Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.


Do Sentimento Trágico da Vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
[…]

Poemas de Natália Correia

JDACT

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Arte na Doçaria. Setúbal. Cláudia Margarida Vigário. «Não há arte intelectual, a não ser, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arte e Sensibilidade
«Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade. A sensibilidade é pessoal e intransmissível. Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros. Este trabalho (da Cláudia Margarida) intelectual tem dois tempos:

Cortesia de claudiamargaridavigario

  • a intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama inspiração, quer dizer, o encontrar por instinto a (as cores, os desenhos, a qualidade dos bolos da Cláudia Margarida) frase e o ritmo que reduza a sensação à frase intelectual, tira da sensação o que pode ser sensível aos outros e ao mesmo tempo, reforça o que lhes pode ser sensível; 
  • a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela inspiração a um processo inteiramente objectivo, construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.

Cortesia de claudiamargaridavigario

Não há arte intelectual, a não ser, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita.
Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo, isto é, uma mulher ou um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de maneira, não de ser, mas de dever ser». In Fernando Pessoa, in 'Carta a Miguel Torga, 1930'

Já viram uma Máquina de Escrever em Bolo? Procurem no facebook da Cláudia Margarida Vigário (Setúbal) e ficarão encantados como eu. Para quem não percebe nada de culinária ou doçaria fiquei deslumbrado.

Cortesia de claudiamargaridavigario

Cortesia de O Citador/JDACT