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sábado, 30 de agosto de 2014

A Vida Crucis do Corpo. Contos. Clarice Lispector. «Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, ‘a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha?’ (…) antes de ir embora deixou na mesa-de-cabeceira uma libra inteira! Bem que estava necessitada de dinheiro»

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«(…) Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na relva quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia. Mas pensou: será que vou ter que pagar um preço muito caro pela minha felicidade? Não se incomodava. Pagaria tudo o que tivesse de pagar. Sempre pagara e sempre fora infeliz. E agora acabara-se a infelicidade. Ixtlan! Volte logo! Não posso mais esperar! Venha! Venha! Venha! Pensou: será que ele gostara de mim porque sou um pouco estrábica? Na próxima lua cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida: forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o que você quiser que eu faça, eu faço. Só que morria de saudade. Volte, my love. Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha? Foi o seguinte: não aguentando mais, encaminhou-se para o Picadilly Circle e achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar. Mas ele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa-de-cabeceira uma libra inteira! Bem que estava necessitada de dinheiro. Ficou furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história. Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue. Ele riu-se dela.
Na segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais trabalhar como datilógrafa, tinha outros dons. Mr. Clairson que se danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens para o quarto. Como era boa de cama, pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho italiano todos os dias. Tinha vontade de comprar um vestido bem vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo. Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo. Antes compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E falaria assim com o chefe: Chega de datilografia! O Sr. que não me venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa?, deite-se comigo na cama, seu desgraçado!, e tem mais: pague-me um salário alto por mês, seu sovina!
Tinha certeza de que ele aceitaria. Era casado com uma mulher pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anémica, a Lucy. Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela. E quando chegasse a lua cheia, tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan.

O Corpo
Xavier era um homem truculento e sanguíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado. Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres. Cada noite era uma. Às vezes duas vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha ciúme da outra. Beatriz comia que não era vida: era gorda e enxundiosa. Já Carmem era alta e magra. A noite do último tango em Paris foi memorável para os três. De madrugada estavam exaustos. Mas Carmem levantou-se de manhã, preparou um lautíssimo desjejum, com gordas colheres de grosso creme de leite, e levou-o para Beatriz e Xavier. Estava estremunhada. Precisou tomar um banho de chuveiro gelado para se pôr em forma de novo. Nesse dia, domingo, almoçaram às três horas da tarde. Quem cozinhou foi Beatriz, a gorda. Xavier bebeu vinho francês. E comeu sozinho um frango inteiro. As duas comeram o outro frango. Os frangos eram recheados de passas e ameixas, tudo húmido e bom. Às seis horas da tarde foram os três para a igreja. Pareciam um bolero. O bolero de Ravel. E de noite ficaram em casa vendo televisão e comendo. Nessa noite não aconteceu nada: os três estavam muito cansados. E assim era, dia após dia. Xavier trabalhava muito para sustentar as duas e a si mesmo, as grandes comidas. E às vezes enganava a ambas com uma prostituta óptima. Mas nada contava em casa pois não era doido. Passavam-se dias, meses, anos. Ninguém morria. Xavier tinha quarenta e sete anos. Carmem tinha trinta e nove. E Beatriz já completara os cinquenta. A vida lhes era boa. Às vezes Carmem e Beatriz saíam a fim de comprar camisolas cheias de sexo. E comprar perfume. Carmem era mais elegante. Beatriz, com suas banhas, escolhia biquini e um soutien mínimo para os enormes seios que tinha. Um dia, Xavier só chegou de noite bem tarde: as duas desesperadas. Mal sabiam que ele estava com a sua prostituta. Os três na verdade eram quatro, como os três mosqueteiros. Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanhe. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevideu, para um hotel de luxo. Foi uma tal azáfama a preparação das três malas. Carmem levou toda a sua complicada maquilagem. Beatriz saiu e comprou uma mini-saia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas». In Clarice Lispector, A Via Crucis do Corpo, Rocco, Rio de Janeiro, 1998, ISBN 85-325-0950-9.

Cortesia de Rocco/JDACT

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Vida Crucis do Corpo. Contos. Clarice Lispector. «Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais. Era mulher realizada. Tinha marido»

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«(…) Leu um pouco o jornal da manhã e fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite de lua cheia. Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.
Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor. Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.
Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora. Foi então que aconteceu. Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve medo. Falou bem alto: - Quem é? E a resposta veio em forma de vento: - Eu sou um eu. - Quem é você? perguntou trêmula. - Vim de Saturno para amar você. - Mas eu não estou vendo ninguém! gritou. - O que importa é que você está me sentindo. E sentia-o mesmo. Teve um frisson eletrónico. - Como é que você se chama? perguntou com medo. - Pouco importa. - Mas quero chamar seu nome! - Chame-me de Ixtlan.
Eles se entendiam em sanscrito. Seu contacto era frio como o de uma lagartixa, dava-lhe calafrios. Ixtlan tinha sobre a cabeça uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa, era ouro mau e púrpura coagulada.  Ele disse: - Tire a roupa. Ela tirou a camisola. A lua estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno. Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou as mãos pelos seus seios. Rosas negras. Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era bom demais. Tinha medo que acabasse. Era como se um aleijado jogasse no ar o seu cajado.
Começou a suspirar e disse para Ixtlan: - Eu te amo, meu amor! meu grande amor! E - é, sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu Deus. Tinha vontade de mais, mais e mais. Ela pensava: aceitai-me! Ou então: Eu me vos oferto. Era o domínio do aqui e agora.  Perguntou-lhe: quando é que você volta? - Ixtlan respondeu: - Na próxima lua cheia. - Mas eu não posso esperar tanto! - É o jeito, disse ele até friamente. - Vou ficar esperando bebê? - Não. - Mas vou morrer de saudade de você! Como é que eu faço? - Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela. Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A prova de que tudo isso acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue. Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse nela. Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros passarinhos começavam a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço. Deus iluminava seu corpo. Mas, como uma baronesa Von Blich, nostalgicamente recostada no dossel de cetim de seu leito, fingiu tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente, forte, forte. Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais. E não foi à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido. Então, no domingo, na hora do almoço, comeu filet mignon com puré de batata. A carne sangrenta era óptima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno. Tinha-lhe perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser ruiva e virgem. Sentia-se bestial.
Não tinha mais nojo de bichos. Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se sentiam. Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e restringindo a língua. Era agora imprópria para menores de dezoito anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso. Como era domingo, foi ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim: Aleluia! Aleluia! Aleluia!» In Clarice Lispector, A Via Crucis do Corpo, Rocco, Rio de Janeiro, 1998, ISBN 85-325-0950-9.

Cortesia de Rocco/JDACT

domingo, 19 de maio de 2013

A Vida Crucis do Corpo. Contos. Clarice Lispector. «… estava morrendo de cansaço, porque estou trabalhando ininterruptamente desde as cinco da manhã. Sempre fiz a última cópia dos meus livros anteriores porque “cada vez que copio vou modificando, acrescentando, mexendo neles, enfim”»

Cortesia de wikipedia

Nota Prévia
«Todo texto com tradição, tomada a palavra no sentido que a Crítica Textual lhe empresta, tende a apresentar, nas reproduções que dele são feitas, um maior ou menor número de alterações que vão, desde os erros cometidos por distração de digitadores até as correções bem intencionadas de revisores ou copidesques. Por isso, é necessário que se proceda ao estabelecimento desse texto, procurando, no confronto com as edições publicadas em vida do autor, restituir-lhe sua fidedignidade e genuinidade. Clarice Lispector escrevia e reescrevia seus textos, mas não se preocupava em guardar manuscritos e originais, como se pode verificar no arquivo que se encontra na Fundação Casa de Rui Barbosa, cujo inventário foi organizado por Eliane Vasconcellos, e publicado em 1994. De toda sua obra ficcional, só restou um original datilografado: o de Água viva, a propósito do qual fala em carta a Olga Borelli, mostrando como trabalhava exaustivamente o texto:
  • … Não pude te esperar: estava morrendo de cansaço, porque estou trabalhando ininterruptamente desde as cinco da manhã. Infelizmente eu é que tenho que fazer a cópia de Atrás do Pensamento, sempre fiz a última cópia dos meus livros anteriores porque cada vez que copio vou modificando, acrescentando, mexendo neles, enfim.
No entanto, depois de encaminhar o texto à editora, Clarice não se interessava mais por ele, conforme declara em entrevista concedida a Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do Som, em 20 de outubro de 1976:
  • Affonso - Você tem os seus textos escritos na cabeça. E uma vez você me disse uma coisa impressionante: você nunca relê um texto seu. 
  • Clarice - Não. Enjoo. Quando é publicado, é como livro morto. Não quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho, acho ruim. Aí não leio, ora! 
Olga Borelli, grande amiga e companheira de Clarice Lispector, com quem conversamos recentemente, nos assegurou que, de facto, Clarice não revia seus textos depois que encaminhava os originais à editora. Assim, não é possível trabalhar com textos de Clarice Lispector, ignorando-se o facto de que não os revia e, portanto, não fazia mudanças de uma edição para outra. A via crucis do corpo teve somente uma edição em vida da autora: a de 1974. Nas edições que se seguiram, incorporaram-se incorreções que procuramos corrigir nesta edição, cuidadosamente confrontada com a primeira. In Marlene Gomes Mendes

Miss Algrave
Ela era sujeita a julgamento. Por isso não contou nada a ninguém. Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas ela, que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos escuros, sabia da verdade. Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era. Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado. Quando passava pelo Picadilly Circle e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente. Foi depois do almoço ao trabalho: era dactilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e tratava-a felizmente com respeito, chamando-a de Miss Algrave. Seu primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava os cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também eram ruivos. Era uma mulher bonita. Orgulhava-se muito de seu físico: cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus seios.
Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o cheiro de álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela humanidade. Cultivava gerânios vermelhos que eram uma glória na Primavera. Seu pai fora pastor protestante e a mãe ainda morava em Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira cadela chamada Tootzi. De vez em quando Miss Algrave escrevia uma carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto o seu nome: sincerely Ruth Algrave.
Tomava banho só uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as calcinhas nem o sutiã. No dia em que aconteceu era sábado e não tinha portanto trabalho. Acordou muito cedo e tomou chá de jasmim. Depois rezou. Depois saiu para tomar ar. Perto do Savoy Hotel quase foi atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível porque nada lhe aconteceria de noite. Foi ao ensaio do canto coral. Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada. Depois foi almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até parecia pecado. Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama. Levara uma Bíblia para ler. Mas, que Deus a perdoasse, o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada, ficou só sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha.
Depois foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs. Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora… Bem, embora. Às sete horas voltou para casa. Nada tinha a fazer. Então tricotou uma suéter para o Inverno. De cor esplendorosa: amarela como o sol.  Antes de dormir tomou mais chá de jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara. Era Maio. As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular. Singular por quê? Não sabia». In Clarice Lispector, A Via Crucis do Corpo, Rocco, Rio de Janeiro, 1998, ISBN 85-325-0950-9.

Cortesia de Rocco/JDACT

Clarice Lispector e Vergílio Ferreira. A existência problematizada. Evely Vânia Libanori. «O tempo cronológico pelo qual o indivíduo coordena as actividades diárias, em ambos os romances, dá vez às sensações subjectivas (…). É na própria acção que o homem constrói um perfil e se expõe às pessoas. É necessário partir das coisas para entender o ser»

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Introdução
«A obra da escritora brasileira Clarice Lispector (1925-1977) e a produção literária do escritor português Vergílio Ferreira (1916-1996), iniciada a partir da publicação do romance Mudança, em 1969, apresentam semelhanças no que diz respeito tanto à exposição dos temas quanto ao processo de construção textual. As obras desses escritores são marcadas pela análise introspectiva, por isso prevalecem a constatação sobre a vida em curso, o sentimento de solidão existencial e o questionamento sobre a morte. O presente artigo consiste na exposição da trajetória existencial de Lóri em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Lispector, e Alberto Soares em Aparição, de Vergílio Ferreira. Para tanto, nosso suporte teórico principal será o tratado filosófico Ser e tempo, de Martin Heidegger. Segundo Heidegger, só é possível entender a natureza humana em seu incessante movimento de interacção consigo mesma, com outras pessoas e com os objectos ao seu redor. Assim sendo, é necessário delinear a identidade do homem que rompe as vinculações fáticas com os objectos e seres ao redor e se vê como o fundador de si e do mundo.
Tal exposição permitirá a investigação da própria natureza do ser em suas relações consigo e com o outro, com o espaço à sua volta e com a morte. Nesses romances, as personagens principais são indivíduos que se vêm na difícil condição de construtores de si mesmos. Trata-se de personagens que transcendem as circunstâncias mundanais fora de si e olham para suas próprias possibilidades ontológicas; por isso, encontram-se eminentemente vigilantes e presentes ao mundo. Para essas personagens, a realidade imediata interessa à medida que provoca reflexões na consciência individual, pois só importam os seres e objectos relacionados com o destino humano. Assim, os cenários externos não se constituem apenas o lugar das acções humanas, mas o ambiente que reflecte a agitação interna do homem que se sente existencialmente perdido e não vê, no mundo ao redor, um espaço onde possa aplacar o tormento. O tempo cronológico pelo qual o indivíduo coordena suas actividades diárias, em ambos os romances, dá vez às sensações subjectivas que não coincidem com os padrões de medição cronológica. Uma vez que a marcação temporal do processo fabular não pode mais ser imposta sobre o amorfo da vida, é necessário delinear a identidade do homem que rompe as vinculações fáticas com os objectos e seres ao redor e se vê como o fundador de si e do mundo.
É na própria acção que o homem constrói um perfil e se expõe às pessoas. Portanto, é necessário partir das coisas como se apresentam para entender o ser. Na verdade, o ser não é passível de definição e também não se deixa determinar em seu sentido por outra coisa, nem como outra coisa. A sucessão temporal significa o incessante devenir em que o ser se encontra e, por isso, não se deixa apanhar em um estado definitivo. A definição do ser revela-se fugidia também porque o ser dos entes não pode constituir-se por outro ente.
No entanto, Heidegger esclarece que a impossibilidade de se definir o ser não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige. A impossibilidade de definição do ser implica o movimento contínuo de dar forma e sentido às coisas e impõe a necessidade de flagrar o ser como acto e não como coisa formada. As personagens principais de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Lispector, e Aparição, de Ferreira, rompem a crosta daquilo que, em sentido lato, pode-se denominar hábitos sociais, ou seja, um conjunto de formas habituais de comportamento e de compreensão da existência. De facto, em grande medida, o homem recebe a vida feita, pois o eu social é um princípio anónimo e objectivo, uma estrutura à qual o indivíduo deve se adequar para inserção em determinado grupo. A consciência de existir é rara.
A massa dos homens comuns concentra-se nos objectos externos e posições sociais para, assim, condicionar sua felicidade. Na vida quotidiana, as pessoas esquivam-se de reflectir acerca da própria condição de ser-no-mundo, a fim de se concentrar na existência das coisas, o que implica a cristalização do ser num contorno existencial definido. No entanto, num sentido ontológico, o homem é a proposição de suas escolhas e tudo quanto ofusque o sentido dessa lei fundamental resulta no falseamento e na ocultação do ser. Uma vez que a liberdade é parte constituinte da existência humana, o homem não pode ter um ser fixo e terminado, pois, como afirma Heidegger, o ser não pode ser determinado, acrescentando-lhe um ente.. Não existe um modelo de homem, pois o ser é um projecto sempre incompleto de suas possibilidades.
Independentemente de suas acções e de sua idade, o homem morrerá inacabado porque jamais poderá transformar-se num ente; somente transcendendo em direção às suas próprias possibilidades é que o homem desperta para aquilo que o rodeia e transforma a sua circunstância em matéria de seu destino. O envolvimento amoroso presente nos dois romances constitui uma leve trama de acção romanesca que é secundária como interesse. A experiência amorosa de Lóri e Ulisses, no romance de Lispector, bem como os desentendimentos afectivos entre Alberto e Sofia, no romance de Ferreira, serve como fio condutor das reflexões das personagens acerca de si, do outro, da dificuldade de comunicação. Os autores levam a língua portuguesa a domínios pouco explorados. A minúcia na descrição de múltiplas experiências psíquicas é expressa por meio de comparações inusitadas, sinestesias, paradoxos». Wikipédia. In Evely Vânia Libanori, Clarice Lispector e Vergílio Ferreira, A existência problematizada, Acta Scientiarum. Language and Culture, volume 32, Universidade Estadual de Maringá, 2010.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 18 de maio de 2013

A Hora da Estrela. Clarice Lispector. «Ao afirmar que ‘Tudo no mundo começou com um sim’, o narrador revela que sabe que as coisas se criam por um acto de vontade e de afirmação. Sabe, portanto, do modo pelo qual algo passa a existir. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou»

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«(…) Pela perspectiva filosófica a os limites e alcances do conhecimento o mundo mediante à palavra e a consciência, através das quais o ser humano se distingue dos outros seres pela perspectiva social, investiga os impasses criados pela separação dos indivíduos em diferentes grupos, dando destaque à inserção do escritor e do nordestino na sociedade brasileira; pela perspectiva estética, sonda o gesto criador e o trabalho na busca da expressão que inaugure uma apreensão original do real. Os três aspectos, é claro, apresentam-se de forma imbricada no livro. Pelo ângulo filosófico, a evidência de que as origens do ser se perdem no tempo e de que é impossível voltar à época em que as coisas acontecem antes de acontecer, leva o indivíduo a um estado de perplexidade. Ao afirmar que Tudo no mundo começou com um sim, o narrador revela que sabe que as coisas se criam por um acto de vontade e de afirmação.
Sabe, portanto, do modo pelo qual algo passa a existir. A compreensão deste algo, no entanto, esbarra naquilo que o antecedeu e que possibilitou a expressão de uma vontade, possibilitou haver o não e o sim, para que, então, a escolha se fizesse. Mais importante do que o modo pelo qual algo que não existia ganha existência, há o problema fundamental da origem, do começo de tudo, que se situa em uma ordem temporal inapreensível pelo homem: Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Assim, a pessoa se faz intermináveis perguntas e vive uma série de faltas. A única verdade indiscutível são as existências individuais. Intui, por certo, a identificação de todos em uma unidade Todos nós somos um, mas a unificação se mostra principalmente pela carência e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro, existe a quem falte o delicado essencial. Fica apenas a constatação de que cada ser é um fragmento ou parte de algo. Daí projectar-se, como sentido último da realidade, a realidade que sempre está faltando.
Mais dolorosamente ainda, existe a consciência de cada um, advertindo sobre este vazio, e o empenho em transpô-lo. A consciência aflora como atributo humano paradoxal: dá instrumentos para se tentar responder a essas indagações, possibilita que se busque o sentido da vida e também desponta como fonte de dúvidas, assinalando a ruptura de cada ser individual com um modo de existência originário, em que tudo era um todo cheio de harmonia. A consciência é condição de liberdade e, simultaneamente, aprisionamento. Esta nostalgia de uma integração total com o Cosmos confere uma certa tragicidade ao projecto do narrador. Pois ao mesmo tempo em que sabe que é um ser independente e gosta de sê-lo, anseia por uma identificação completa com o outro, por uma comunicação directa, sem obstáculos, o que acabaria anulando a sua individualidade, a sua autonomia.
A vivência de culpa, como se houvesse um erro fundamental a ser sanado, desponta desde o primeiro subtítulo do livro A culpa é minha e sempre retorna. É ela um dos sintomas deste desgarramento do homem no mundo que, vendo cerradas as portas de acesso à unidade originária, vai investigar, solitário, a dinâmica de sua existência individual. A escolha de Macabéa, anónima, incompetente para a vida, integra essa determinação, que inclui a busca de regressão ao inumano Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira e a expiação de uma possível culpa.
O narrador, perpassado por toda sorte de indagações sobre o ser e o existir, atormentado pela incompletude e pela dualidade da natureza humana para as quais as respostas são precárias, converte a busca em sua única certeza. Daí decorrem pelo menos dois movimentos centrais da narrativa. Primeiro, como toda busca e toda pergunta são busca de algo e pergunta para alguém, o narrador, para saber, tem de desdobrar-se, tem de dialogar. Aquilo que, em uma situação comunicativa banal, passa despercebido projecta-se para o narrador como condição essencial do ser: apreender a si mesmo inclui o confronto com o outro. Ao mesmo tempo, essa projecção traz implícito o retorno para si mesmo, quando se tenta unificar em um único sujeito individual os elementos que estão presentes nos outros seres do Universo». In Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Editora Francisco Alves, correção de Doralice, CDD - 869.93, CDU 869.0(81)-3.

Cortesia de Editora F. Alves/JDACT

domingo, 7 de abril de 2013

Palavras que Queimam. As Imagens de Clarice Lispector em Água Viva. Joyce Alves. «A noção de movimento que se verifica na obra, uma vez que os artistas plásticos, como pintores e escultores, também desejaram transmitir a ideia de movimento por intermédio de suas obras»

Clarice Lispector, fotografada por uma amiga em Paris 
no final da década de 40.
Cortesia de wikipedia e jdact

Resumo
Este trabalho aponta as relações interartísticas entre o livro Água Viva (1973) de Clarice Lispector e as artes plásticas. Podemos dizer que essa obra é composta por fragmentos que dialogam com a música e, em especial, com a pintura. Inicialmente foi realizado um estudo sobre a vida e a obra de Clarice Lispector e, para tanto utilizamos dois estudos biográficos, o primeiro de Nádia Battella Gotlib (1995) e o segundo de Benjamim Moser (2009), além de alguns comentários de Benedito Nunes e Berta Waldman. Para que pudéssemos estabelecer o contraponto entre essa narrativa e as artes plásticas foram realizadas algumas leituras em torno dos estudos comparados, apoiando-nos em textos de Henry Levin, Tânia Franco Carvalhal e outros. Teóricos foram lidos para compreender como se dá o intercâmbio entre as artes. Percebemos que procedimentos empregados no impressionismo, no expressionismo, no cubismo e, de um modo geral, na pintura moderna podem ser evidenciados na composição de Água Viva. Num movimento que vai da expressão poética à expressão plástica, Clarice se entrega à pintura por meio da palavra. A partir de uma leitura atenta da obra foram seleccionados trechos que se correspondem com a pintura.
Notamos que além de transitar por diferentes estéticas, Clarice faz, nesse livro, referências às telas que produziu entre 60 e 70, período que culmina com a composição de Água Viva, o que amplia as possibilidades de correlacção entre o processo de criação artística do escritor e do pintor.

Os pintores e os poetas sempre gozaram da mesma forma do poder de ousarem o que quisessem. In Horácio

Introdução
A literatura comparada é a disciplina base deste trabalho e, diante do desequilíbrio existente entre a teoria e a prática dessa disciplina, é preciso lembrar o pensamento de Harry Levin, 1994, justamente por consistir numa forma de conscientização em torno da crise da literatura comparada:
  • Debatemos interminavelmente sobre problemas puramente esquemáticos. [...] Resumindo, a substância de nossa busca comum é comprometida por um excesso de ênfase na organização e na metodologia. 
Acreditamos que o exercício comparativo propriamente dito, de contrapor escritores e obras literárias ou uma arte e outra, consiste em exercício muito mais edificante do que as discussões puramente teóricas, que se arrisca a uma leitura de Água Viva (1973), de Clarice Lispector em seu diálogo com a pintura. Muitos estudos críticos aproximam o livro Água Viva com outras formas de manifestação artística, mas não são extensos os trabalhos que de facto se propõem a comparação. Portanto, temos como principal objectivo o exercício comparativo de trechos do livro Água Viva com diferentes telas plásticas e estéticas. Pretende-se evidenciar essa correspondência interartística em Água Viva sob a consciência de que outras obras de Clarice também possuem uma linguagem plástica e permitem tal diálogo.
Ao compor essa narrativa, a escritora emprega técnicas que são próprias da pintura impressionista, cubista, surrealista, entre outras. Além disso, é possível estabelecermos uma relação entre essa obra e as telas da própria escritora, pintadas entre as décadas de 60 e 70, período em que a mesma escreveu o livro. Benjamim Moser com pertinência afirma que Água Viva pode ser aberto em qualquer página, assim como uma pintura pode ser observada de qualquer ângulo, e pulsa com uma sensualidade que lhe dá um apelo emocional directo e inigualado. Clarice comparou a obra com as imagens de um caleidoscópio. Essa comparação nos faz pensar no diálogo entre palavra, imagem e movimento que perpassa a obra. Além disso, o próprio título, Água Viva, exprime esse movimento presente no livro. Essa noção de movimento que se verifica na obra nos chama atenção, uma vez que os artistas plásticos, como pintores e escultores, também desejaram transmitir a ideia de movimento por intermédio de suas obras.
Esse livro de Clarice, apesar de pouco lido, é muito particular, pois possui uma estrutura diferenciada das demais obras da escritora, sendo rica em poeticidade e plasticidade o que o torna tão importante quanto os seus romances mais conhecidos como A hora da Estrela (1977), ou os mais bem estruturados, como A maçã no Escuro (1961). A maior fonte da riqueza de Água Viva são exactamente os atributos poéticos e plásticos utilizados por Clarice ao compor essa narrativa». In Joyce Alves, Palavras que Queimam, As Imagens de Clarice Lispector em Água Viva, Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, UEMS, Orientação de Maria Helena Queiroz, A479p, Dourados-ms, CDD 20.ed. 800, 2010.

Cortesia da UEMS/JDACT

FCG. Exposição. Clarice Lispector. A hora da Estrela. «A galeria de exposições temporárias do Museu receberá a mostra tal como foi vista no Brasil, dividida em seis núcleos, e onde se pretendem recriar ambientes dos seus livros ou passos da sua existência»

Cortesia da fcg

«Três décadas e meia após a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A hora da Estrela, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Divulgar a obra de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira é um dos objectivos desta exposição, que ocupará a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian até ao pf dia 23 de Junho de 2013. Aproximar as gerações mais novas da sua obra é um dos objectivos da exposição, que tem a coordenação e curadoria de Júlia Peregrino, a mesma coordenadora de Fernando Pessoa, Plural como o Universo, mas também do escritor Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010. A exposição já foi apresentada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e em Bogotá, tendo sido visitada por mais de 700 mil pessoas.
A galeria de exposições temporárias do Museu receberá a mostra tal como foi vista no Brasil, dividida em seis núcleos, e onde se pretendem recriar ambientes dos seus livros ou passos da sua existência. Textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais são mostrados nesta exposição, que também recria ambientes e cenários que inspiravam a escritora. Cartas de Erico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes e muitos outros, ajudam a conhecer melhor a personalidade de Clarice.
Nascida na Ucrânia, em 1920, Clarice Lispector chegou ao Brasil com menos de dois anos de idade. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1937, viveu em Alagoas e em Pernambuco. Passou muitos anos fora, acompanhando o marido diplomata, mas nunca se desligou do Brasil, onde morreu em 1977. Perto do coração selvagem foi o primeiro dos seus 26 livros, hoje publicados em mais de 20 línguas». In Fundação C. Gulbenkian, Exposições.

Cortesia da FCG/JDACT

A Hora da Estrela. Clarice Lispector. «Ela se afastou dos escritores que por opção e engajamento defendem valores morais, políticos e sociais, outros cuja literatura é dirigida ou planificada a fim de exaltar valores, geralmente impostos por poderes políticos, religiosos etc., muitas vezes alheios ao escritor»


Cortesia de wikipedia

Apresentação
Escrever estrelas (ora, direis)
«Clarice Lispector deixou vários depoimentos sobre a sua produção literária. Em alguns, parecia se defender do estranhamento que causava em leitores e críticos. Ela tinha consciência de sua diferença. Desde pequena, ao ver recusadas as histórias que mandava para um jornal de Recife, pressentia que era porque nenhuma contava os factos necessários a uma história, nenhuma relatava um acontecimento. Sabia também, já adulta, que poderia tornar mais atraente o seu texto se usasse, por exemplo, algumas das coisas que emolduram uma vida ou uma coisa ou romance ou um personagem. Entretanto, mesmo arriscando-se ao rótulo de escritora difícil, mesmo admitindo ter um público mais reduzido, ela não conseguiria abrir mão de seu traçado:
  • Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro.
Ela se afastou dos escritores que por opção e engajamento defendem valores morais, políticos e sociais, outros cuja literatura é dirigida ou planificada a fim de exaltar valores, geralmente impostos por poderes políticos, religiosos etc., muitas vezes alheios ao escritor, em nome de uma outra forma de questionar a realidade e nela intervir, através da literatura. Talvez sem o saber, Clarice estava optando por um tipo de escrita característica do escritor moderno, para quem, no dizer do crítico francês Roland Barthes, escrever é fazer-se o centro do processo de palavra, é efectuar a escritura afectando- se a si próprio, é fazer coincidir a acção e a afeição (...). Por esta via, formula-se uma outra qualidade de experiência envolvida na escrita, uma nova perspectiva pela qual a linguagem é concebida: mais importante do que relatar um facto, será praticar o autoconhecimento e o alargamento do conhecimento do mundo através do exercício da linguagem.
A hora da estrela leva esta proposta às últimas consequências e por isso a sua leitura torna-se tão instigante. É certo que aqui reencontramos a agudeza na investigação da natureza e psicologia humanas e o gosto pela minúcia, patente no trato dado à palavra, tão peculiares a Clarice Lispector. Mas se lermos o livro como hora e vez, inserindo-o no conjunto de sua obra, constataremos que existe algo de novo para além do insólito prefácio, em forma de dedicatória, da frouxidão do enredo, da mescla de linguagem subtil com um tom desnudo e cru ou, ainda, da intimidade com que o choque social é apresentado. É que aqui a Autora aborda de frente o embate entre o escritor moderno, ou melhor, do escritor brasileiro moderno, e a condição indigente da população brasileira. Isto sem deixar de lado, afinal de contas, traz a assinatura de Clarice Lispector, a reflexão sobre a mulher.
A discussão se arma a partir de estórias que se entrecruzam, como num acorde musical:
  • a da vida de Macabéa, imigrante nordestina que vive desajustada no Rio de Janeiro;
  • a do Autor do livro que, embora sem rosto definido, se dá a conhecer nos comentários que faz;
  • e ainda a estória do próprio acto de escrever.
Em verdade, esta última estória promove o grande elo entre todas. Escrever o livro, escrever Macabéa e, sobretudo, escrever a si mesmo, eis o grande desafio. Dessa proposta cria a dramaticidade da narrativa, pois a escrita envolve múltiplas e complexas relações: entre escritor e seu texto, entre escritor e seu público, entre escritor e esta personagem tão distante de seu universo. A linguagem, moeda de comunicação entre os homens, ganha foros de personagem. E personagem em crise. Emergem indagações:
  • a palavra que se usa expressa o que se é verdadeiramente? É a linguagem que funda a realidade? A palavra distancia ou aproxima pessoas? Dispor da palavra é um dom ou uma maldição? Que palavra cabe ao artista contemporâneo? Que palavra se adequa ao escritor terceiro-mundista para falar de um Brasil miserável? Que papel se espera do artista?
Assim posto, o enredo, fugaz em aparência, revela algumas de suas linhas de sustentação. Está em jogo a linguagem, seu poder de conhecimento, de comunicação e de convencimento, e, com ela, debatem-se a existência humana e os laços sociais. O patente isolamento das pessoas parece conduzir a uma reflexão sobre a condição do ser humano, agravada por um tipo de organização social que segrega os indivíduos entre si. E o artista constata este exílio do homem na própria terra, mas não tem respostas prontas que o justifiquem. Esta inquietação o move, faz com que escreva e tente descobrir na escrita a sua própria identidade e a sua própria humanidade, cara a cara com as de uma outra qualquer pessoa. Em A hora da estrela este empreendimento assume uma ousadia e uma profundidade inusitadas. O escritor solta as amarras e vai até o fundo do poço: as origens do ser e as contradições da sociedade em que vive. Para tal, tomando por base a linguagem, ele se dispõe a três tipos de abordagem: filosófica, social e estética». In Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Editora Francisco Alves, correção de Doralice, CDD - 869.93, CDU 869.0(81)-3.

Cortesia de Editora F. Alves/JDACT

sábado, 6 de abril de 2013

A Fuga. Clarice Lispector. «Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do Lar Elvira?, aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se»

Cortesia de wikipedia

«Começou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam húmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, impermeável, muito apressadas, os rostos cansados. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente. Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha. Estava cansada. Pensava sempre: Mas que é que vai acontecer agora? Se ficasse andando. Não era solução. Voltar para casa? Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de partida.
Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do Lar Elvira?, aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: Você não voltará? Apaziguou-se. Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: Bem, as coisas ainda existem? Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: Primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. O que tinha menos vontade de fazer, porém, era de representar.
Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos. Atravessou o passeio e encostou-se à murada, para olhar o mar. A chuva continuava. Ela tomara o autocarro na Tijuca e saltara na Glória. Já andara para além do Morro da Viúva. O mar revolvia-se forte e, quando as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro de água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?
A história de não encontrar o fundo do mar era antiga, vinha desde pequena. No capítulo da força da gravidade, na escola primária, inventara um homem com uma doença engraçada. Com ele a força da gravidade não pegava... Então ele caía para fora da terra, e ficava caindo sempre, porque ela não sabia lhe dar um destino. Caía onde? Depois resolvia: continuava caindo, caindo e se acostumava, chegava a comer caindo, dormir caindo, viver caindo, até morrer. E continuaria caindo? Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A princípio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.
Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim, isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos comboios, o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com maior rapidez.

Ela ri. Agora pode rir... Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés... Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. Um homem gordo parou a certa distância, olhando-a. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: Meu filho, está chovendo? Não? Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher? Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo. Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje, depois de doze séculos. Saíra do chuveiro frio, vestira uma roupa leve, apanhara um livro. Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos. Fazia calor e ela sufocava. Abriu todas as janelas e as portas. Mas não: o ar ali estava, imóvel, sério, pesado. Nenhuma modificação e o céu baixo, as nuvens escuras, densas. Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. Então um forte estrondo abalou a casa. Quase ao mesmo tempo, caíam grossos pingos d’água, mornos e espaçados.
Ficou imóvel no meio do quarto, ofegante. A chuva aumentava. Ouvia seu tamborilar no zinco do quintal e o grito da criada recolhendo a roupa. Agora era como um dilúvio. Um vento fresco circulava pela casa, alisava seu rosto quente. Ficou mais calma, então. Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora. Agora está com fome. Há doze anos não sente fome. Entrará num restaurante. O pão é fresco, a sopa é quente. Pedirá café, um café cheiroso e forte. Ah, como tudo é lindo e tem encanto. O quarto do hotel tem um ar estrangeiro, o travesseiro é macio, perfumado, a roupa limpa. E quando o escuro dominar o aposento, uma lua enorme surgirá, depois dessa chuva, uma lua fresca e serena. E ela dormirá coberta de luar...
Amanhecerá. Terá a manhã livre para comprar o necessário para a viagem, porque o navio parte às duas horas da tarde. O mar está quieto, quase sem ondas. O céu de um azul violento, gritante. O navio se afasta rapidamente... E em breve o silêncio. As águas cantam no casco, com suavidade, cadência... Em torno, as gaivotas esvoaçam, brancas espumas fugidas do mar. Sim, tudo isso! Mas ela não tem suficiente dinheiro para viajar. As passagens são tão caras. E toda aquela chuva que apanhou, deixou-lhe um frio agudo por dentro. Bem que pode ir a um hotel. Isso é verdade. Mas os hotéis do Rio não são próprios para uma senhora desacompanhada, salvo os de primeira classe. E nestes pode talvez encontrar algum conhecido do marido, o que certamente lhe prejudicará os negócios.
Oh, tudo isso é mentira! Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos. Entra em casa. É tarde e seu marido está lendo na cama. Diz-lhe que Rosinha esteve doente. Não recebeu seu recado avisando que só voltaria de noite? Não, diz ele.
Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Veste um pijama de flanela azul, de pintinhas brancas, muito macio mesmo. Pede ao marido que apague a luz. Ele beija-a no rosto e diz que o acorde às sete horas em ponto. Ela promete e torce o comutador. Dentre as árvores, sobe uma luz grande e pura. Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais».

In Clarice Lispector, A Fuga.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 3 de dezembro de 2011

Clarice Lispector: Escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia. «Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê»

(1920-1977)
Chechelnyk, Ucrânia
Cortesia de dolindo

«Benjamin Moser… Metade da sua vida tem sido dedicada à brasileira nascida na Ucrânia. A verdade é que esse fascínio nunca parou, ficou cada vez mais intenso. ... transformou-o numa espécie de embaixador, em alguém que está a conseguir dar Clarice ao mudo». In Isabel Coutinho e Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon.

Das Vantagens de Ser Bobo
«O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Cortesia de conhecimentovirtual

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um frigorifico de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Cortesia de sempretop

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo». In O Pensador, Clarice Lispector.

Cortesia de Clarice Lispector/O Pensador/JDACT

sábado, 25 de setembro de 2010

Clarice Lispector: Escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia. «Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite».« Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho»

(1920-1977)
Chechelnyk, Ucrânia
Cortesia de macarraocomfeijao

Clarice Lispector, nascida Haia Lispector.  A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1921).  Chegou ao Brasil quando tinha dois anos de idade.
Embora com formação em Direito, Clarice Lispector nunca advogou, sobrevivendo basicamente do jornalismo e, acessoriamente, dos trabalhos de tradução. Em 1940, quando ainda frequentava a faculdade, ela ingressou no Departamento de Imprensa e Propaganda para exercer, em princípio, a função de tradutora, mas findou sendo redactora da Agência Nacional. A sua primeira reportagem, «Onde se ensinará a ser feliz», foi publicada em 19 de janeiro de 1941, no Diário do Povo, de Campinas (SP), relatando a visita da primeira-dama da República, Darcy Vargas, a um orfanato feminino. No ano seguinte, ela começou a trabalhar como redactora de A Noite e obteve a carteira profissional como jornalista, profissão que exerceria até dois meses antes de falecer
Durante os anos 50 e 60, Clarice escreveu, sob os pseudónimos de Teresa Quadros, Helen Palmer e como ghost-writer da actriz e modelo Ilka Soares. Os textos tratavam do universo próprio das mulheres da época, dando dicas de economia doméstica, receitas culinárias, saúde e comportamento. Passada esta fase das colunas femininas de contingência, reunidas nos títulos Correio feminino e para mulheres, organizados por Aparecida Maria Nunes, Clarice Lispector teve papel de destaque no Jornal do Brasil, onde foi colaboradora na mesma época que Carlos Drummond de Andrade, assinando uma crónica semanal.
 
Cortesia do globo
Paralelamente, obteve, a partir de 1968, grande sucesso como entrevistadora. Na revista Manchete, onde assinava a rubrica «Diálogos possíveis com Clarice» e, depois, na revista Fatos & Fotos, também pertencente à Editora Bloch, onde a sua derradeira contribuição saiu em Outubro de 1977, menos de três meses antes de sua morte, ocorrida em Dezembro do mesmo ano.
 
A Obra:
  • Perto do coração selvagem;
  • O lustre; 
  • A cidade sitiada;
  • Laços de família;
  • A maçã no escuro;
  • A legião estrangeira;
  • A paixão segundo G.H;
  • ( ... );
  • Água viva;
  • Onde estivestes de noite;
  • A via crucis do corpo;
  • ( ... )

Cortesia de Clarice Lispector       

«Benjamin Moser acaba de fazer 34 anos. Metade da sua vida foi dedicada à brasileira nascida na Ucrânia. A verdade é que esse fascínio nunca parou, ficou cada vez mais intenso. ... transformou-o numa espécie de embaixador, em alguém que está a conseguir dar Clarice ao mudo». In Isabel Coutinho e Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon.


Cortesia de Clarice Lispector/Ípsilon/JDACT