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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Início da Expansão
«(…) De uma forma geral é aceite que a expansão portuguesa se divide em cinco grandes grupos geograficamente distintos: o norte de África, as ilhas atlânticas, a costa africana, o Oriente e o Brasil. No norte de África o domínio português, que se iniciou no princípio do século XV, é marcado em termos urbanos sobretudo pela construção de fortalezas. A actuação nesta altura é marcada, não por uma acção planificada no sentido de uma política urbanizadora, mas sim por um sentido defensivo cujo interesse passava por razões estratégicas. Contemporânea à ocupação do Norte de África é a ocupação das ilhas atlânticas. Com o objectivo de futuros empreendimentos ligados ao interesse de chegar à Índia, a criação de uma rede urbana ligada pela navegação originou o interesse e a colonização das ilhas. Estas, em oposição aos estabelecimentos do Norte de África, reflectem uma forma de urbanização, claramente com um sentido colonizador, idêntica ao que se praticava no continente. A ocupação dos arquipélagos atlânticos iniciou-se na Madeira em 1422, seguindo-se as Canárias 1424, os Açores em 1439, depois Cabo Verde em 1462 e finalmente São Tomé em 1485. Com base na agricultura destinada à exportação, introduziu-se o açúcar, o vinho, as plantas tintureiras e o trigo, sendo estas culturas introduzidas durante a primeira fase de ocupação. As cidades que mais se desenvolveram nestes arquipélagos durante os séculos XV e XVI foram, na Madeira, a cidade do Funchal; no arquipélago dos Açores, as cidades de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada; no arquipélago de Cabo Verde, a cidade da Ribeira Grande (embora, só até ao século XVII, tendo-se verificado o seu declínio a partir dessa altura); e no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a cidade de São Tomé e Santo António.

As cidades das Ilhas Atlânticas de Origem Portuguesa. Funchal, Angra do Heroísmo e Ribeira Grande.
Como já foi referido é comummente aceite que a prática que se processava no continente foi de certa forma exportada para as cidades da expansão. Certamente que a tradição e prática que se processava no continente na época (século XV), e em épocas anteriores (séculos XIII e XIV) e posteriores (século XVI), foi o modelo que lhes serviu de base. Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente. Através da análise da evolução do traçado urbano e de alguns elementos da morfologia do tecido urbano (estrutura de quarteirões, ruas e largos, implantação de edifícios de grande significado e pontos defensivos), apreendeu-se um conjunto de traços comuns às três cidades.

Evolução da Estrutura Urbana
Nas três cidades estudadas a malha urbana nasce a partir de uma rua principal que une dois núcleos urbanos, constituindo esta o elemento gerador e estruturador da referida malha urbana. Para a cidade do Funchal sabemos que a cidade teve origem em dois núcleos urbanos: no núcleo primitivo de Santa Maria do Calhau (onde se ergue a igreja de Santa Maria) e em Santa Catarina onde o capitão mandou erguer a sua casa. O núcleo de Santa Maria do Calhau definiu-se a partir de uma igreja e de um largo que lhe estava associado e de uma rua paralela ao mar, a Rua de Santa Maria. Esta rua, paralela ao mar, existia entre o largo da igreja (junto à Ribeira de Santa Luzia) e a zona onde existe o forte de S. Tiago. Para o lado poente da Ribeira de Santa Luzia e no seguimento da Rua de Santa Maria desenha-se, nesta fase de desenvolvimento, a Rua de Santa Catarina (posteriormente designada Rua dos Mercadores e depois Rua da Alfândega) ligando os dois pólos primitivos, de Santa Maria do Calhau e de Santa Catarina. A este tipo de desenvolvimento corresponde uma estrutura alongada no sentido da costa, percorrendo toda a zona junto ao mar.
Também para a cidade de Angra se reconhece um crescimento deste tipo. Assim temos que o primeiro núcleo urbano se desenvolveu no alto de uma colina no lugar onde se ergueu a primeira fortaleza. Paralelamente a este núcleo desenvolve-se um outro (S. Pedro) do lado oposto da baía de Angra para o lado poente. A ligar estes dois núcleos desenvolve-se uma rua, a actual rua da Sé que liga o núcleo do castelo a S. Pedro. Com o desenvolvimento do porto na zona baixa da cidade houve necessidade de ligar o castelo e o cais. É então que se assiste a um novo crescimento linear através da Rua de Santo Espírito, mas este ao contrário do que acabamos de ver para o Funchal é um crescimento linear, neste caso, perpendicular à costa». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista»

Cortesia de wikipedia e jdact

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
«(…) De resto, mau grado a precocidade da referência à paróquia de Marvila, em 1186, é indiscutível que nos decénios seguintes se observava ainda nas proximidades deste templo uma malha cadastral frequentemente interpolada por espaços vazios, denunciados pelo topónimo Pedreira ou pela doação de um ferragial em 1251, localizado a Este da igreja paroquial. Estes dados não permitem perspectivar a elevada densidade construtiva que seria espectável numa antiga medina. Pelo contrário, levam-nos a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista. O registo arqueológico também não sustenta uma intensa ocupação do espaço nos séculos XI e XII. Resumindo-se praticamente à identificação de silos, que no momento em que a sua funcionalidade primária se esgotou foram colmatados com sedimentos que embalaram materiais de cronologia islâmica, a sua presença deve ser também encarada com precaução. Se em 2002 se verificava que no planalto de Marvila (…) nunca foram encontradas quaisquer estruturas de carácter habitacional ou outro, para além das fossas escavadas na rocha, a que habitualmente se chamam silos, as publicações posteriores sobre escavações na cidade não alteraram esse panorama (um artigo inserto na colectânea Santarém e o Magreb refere uma cisterna islâmica na Praça Sá da Bandeira sem no entanto apresentar qualquer comprovação material ou estratigráfica da cronologia proposta).
A permanente glosada aptidão cerealífera das planícies aluviais ribatejana e a sua posição, no cruzamento de importantes vias terrestres e fluviais dinamizariam em muito a propensão comercial da cidade, especialmente potenciada durante os primeiros séculos de domínio islâmico, período em que a linha de costa sofreu vários raides marítimos de que são exemplos as incursões normandas, enquanto a relativa interioridade de Santarém a tornou menos exposta a esta conjuntura de instabilidade militar (situação entretanto normalizada pela organização das defesas marítimas pelos califas omíadas nos finais do século X). Nesta perspectiva a frequência de covas de pão poderá significar não uma ocupação residencial generalizada mas antes a adscrição de amplas áreas ao armazenamento de produtos agrícolas.
A julgar pelos contextos arqueológicos estudados e já publicados, verifica-se de facto que nas duas centúrias que antecederam a conquista de Afonso Henriques, muitos silos foram abandonados, o que poderá denunciar um decrescimento dos excedentes agrícolas armazenados na vila. Uma explicação razoável para este processo seria a afirmação crescente da função comercial de Lisboa que passaria a redistribuir as produções do termo de Shantarin, embarcadas directamente na Ribeira. Muito embora a verificação desta tese só possa ser realizada com um estudo comparativo, que se afasta do propósito deste artigo, enquadra-se perfeitamente na imagem transmitida pelas fontes geográficas islâmicas coevas, que ilustra um processo de hierarquização dos pólos urbanos do Vale do Tejo, com vantagem para a cidade do estuário durante os séculos XI e XII.
Em conclusão, no actual patamar da investigação, cremos que o povoamento durante época islâmica estaria concentrado entre a Alcáçova e a necrópole agora identificada, enquanto a ocupação no planalto de Marvila, a existir, seria certamente muito incipiente. Os quatro a seis hectares ocupados pela cidade alcandorada, permitem perspectivar uma urbe de reduzidas dimensões (foi já sugerida uma área de 30 hectares, dos quais dois terços corresponderiam ao planalto de Marvila) quando comparada com as suas congéneres plenamente mediterrânicas como Sevilha ou Huelva, mas perfeitamente condizente com o seu posicionamento na periferia geográfica e política da rede urbana do Garb Al-Andaluz. E seriam ainda complementados pela área ocupada pela Ribeira. Muito embora seja necessário sistematizar as informações relativas ao arrabalde portuário, a sua importância para a dinâmica da urbe é revelada pela construção de uma muralha em época islâmica, sendo verosímil que a contabilização da sua malha cadastral faça triplicar o valor global (na Baixa Idade Média estendia-se por 10 há).
Como bem realçou Mário Viana é nesta dicotomia fortaleza/porto que a feição urbana da cidade deve ser entendida, afirmando-se como centro de consumo e plataforma de redistribuição comercial dos proventos da exploração agrícola, numa área cujas potencialidades de rendimento dinamizavam a estruturação de uma densa malha de pequenos núcleos de povoamento, glosada pelas fontes árabes e sugerida pela toponímia e que a arqueologia começa, ainda que timidamente, a comprovar (recentemente foi identificado um núcleo de povoamento rural islâmico junto a Muge, que se terá estruturado no século X). Este esquema de povoamento, com forte humanização dos campos no hinterland da cidade, poderia mesmo explicar a tardia urbanização de Marvila, só possível com um crescimento demográfico pós-reconquista, alimentado por uma eventual concentração populacional no centro urbano (a apropriação por parte dos monarcas da primeira dinastia de grandes parcelas de terreno junto ao Tejo poderia dinamizar o abandono de pequenos povoados estruturados em torno da sua exploração. Sobre as quezílias em torno das lezírias ribatejanas) e pela documentada chegada de colonos setentrionais, certamente atraídos pela produtividade das aluviões do Tejo mas também pela proximidade com as urbes meridionais que ainda hasteavam a bandeira do Crescente, repletas de recursos ao alcance de uma cavalgada estival». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Assim, as tropas muçulmanas terão acampado no planalto de Marvila, en la montaña que domina a Santaren y esta contigua a ella, destruindo algumas construções no exterior das muralhas e preparando a partir daí o assédio às fortificações da cidade. Depois atacaram o complexo de Alpran, que transpuseram sem grande dificuldade, sendo que os seus defensores se salvaram in extremis, recolhendo ao interior da muralla de la alcazaba. A memória cronística portuguesa de Quatrocentos, muito embora apresente um versão diferente dos sucessos militares, também não nos afasta dessa interpretação registando que no contexto desse ataque o rei Sancho se fortificara não dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques, e estancias, que com madeiras somente afortalezou. Consideramos que os primeiros muros mencionados por Rui de Pina correspondem a Alporão, sendo claro que a Alcáçova é um espaço militar individualizado materialmente, mas que não teria castelo. Já os palanques mencionados poderão significar uma reactivação da barbacã de terra batida almorávida, reforçada por estruturas em materiais perecíveis.
Verifica-se portanto que constituem informações absolutamente coincidentes com o sistema defensivo construído entre 1111 e 1147 descrito na DES. Registe-se também que ambas as descrições da ofensiva almóada relatam algumas estruturas habitacionais no planalto de Marvila, embora sejam unânimes em considerá-lo como arrabalde. Os desenvolvimentos posteriores à incursão almóada de 1184 são concordantes com a imagem esquemática do espaço urbano e peri-urbano fornecida pelas fontes já citadas. Muito embora a cidade tenha resistido, as fragilidades reveladas pelo sistema defensivo terão compelido o monarca Sancho I a reestruturá-lo (a fonte árabe afirma que transpuseram a linha de Alpram, enquanto as fontes cristãs oferecem a versão de que D. Sancho aguentara no palanque até à chegada de reforços. Da síntese destes dois testemunhos, a fragilidade da linha de Alporão sai relevada: o monarca português sentiu necessidade de reforçar a defesa no seu exterior). Nesse sentido se deverá entender a implantação topográfica do conjunto claustral de S. João de Alporão, junto das portas homónimas, reforçando portanto a sua protecção com um contingente de Hospitalários que na década de 80 do século XII eram presença cada vez mais frequente e eficaz nas campanhas militares portuguesas.
No entanto, a premissa fundamental seria obstaculizar a penetração de comitivas inimigas no planalto de Marvila, pelo que se iniciara a edificação de uma terceira linha de muralhas como demonstram as referências ao muro de Marvila em 1191 e às portas de Atamarma em 1218 e de Manços em 1232, sucessão cronológica que parece comprovar que este novo projecto construtivo se constituiu como uma reacção à aparente facilidade com que os almóadas assediaram a linha de Alporão e ameaçaram a Alcáçova.

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
Na sequência das informações documentais e arqueológicas que fomos tratando parece-nos prematuro defender que Marvila se tenha afirmado como centro cívico, religioso e comercial durante o domínio muçulmano. Em primeiro lugar pela conhecida aversão a vizinhar com áreas de necrópole que se encontrava, durante o século XI senão em utilização, certamente visível a cerca de 120 metros. Depois porque nos parece inverosímil que o poder almorávida deixasse sem protecção a zona mais nobre da cidade. Por último, as crónicas cristãs e árabes são consensuais em afirmar que os combates de 1184 decorreram num espaço de arrabalde, realçando a sua exterioridade face ao núcleo mais urbanizado». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Recuperada pelos Almorávidas em 1111, a estratégia de Afonso Henriques durante os decénios seguintes, nomeadamente a fortificação de Leiria em 1135, anunciava um ataque eminente a Shantarin (de acordo com a Crónica de Afonso VII, a fortificação teria como objectivo  combater tanto Santarém como Lisboa e Sintra e outros castelos dos Sarracenos que estão na região. Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra, mas podiam também assediar facilmente a linha do Tejo).
O relato da tomada de Santarém undecentista (De expugnatione Scallabis, doravante DES), regista indubitavelmente a reacção a essa conjuntura por parte do poder almorávida que criara em Alporão em data anterior a 1147, uma linha protectora composta por muralhas, torres e um baluarte, possivelmente antecedido por uma barbacã em terra batida (o governador almorávida ordenara o aterro dos fossos antigos até acima, à laia de um monte, com terra trazida às costas dos cativos), edificada com o entulhamento de um complexo defensivo anterior composto por fossos ou estruturas positivas (as leituras do documento latino não são consensuais, sendo que alguns autores referem entulhamento de fossos e outros de muros. Embora não dominemos o latim, parece-nos mais provável o transporte de terra para o interior de uma estrutura negativa, do que para cobrir uma muralha anterior. Adicionalmente, o acompanhamento arqueológico das ruas João Afonso\ 1º de Dezembro, registou duas estruturas negativas de grandes dimensões, escavadas no sentido Este-Oeste, colmatadas em período tardo-islâmico, uma delas junto da igreja de Marvila. Muito embora afastadas de Alporão, podem ser vestígios de um primitivo sistema defensivo que dificultava a progressão pelo planalto. Agradecemos a informação a Helena Santos que também coordenou esta intervenção). Este complexo defensivo foi portanto erigido poucos metros a oriente da área da intervenção arqueológica e poderá relacionar-se directamente com o terminus das inumações nesse espaço, que passaram a estar localizadas no interior do perímetro amuralhado. No entanto, reafirmamos que não foram registados indícios de urbanização anteriores à conquista cristã, o que sugere uma inexistência ou uma reduzida densidade construtiva na área, pelo que esta segunda linha de muralhas, mais do que defender contingentes populacionais significativos, teria como objectivo imediato criar um primeiro impedimento à progressão de beligerantes nas cotas mais elevadas da urbe.
Da mesma maneira que o campo cristão não esquecera que Afonso VI só conseguira tomar a cidade pela fome, o governador almorávida consideraria fundamental impedir que um eventual exército cristão levantasse cerco junto dos muros das Alcáçova. De facto, se os sitiados se circunscrevessem aos 4 hectares da alcáçova, para além de mais facilmente serem atingidos por projécteis arremessados do exterior, o acesso a recursos alimentares seria dificultado: o relevo envolvente dificultaria sortidas esporádicas e o espaço disponível para o armazenamento de víveres num momento prévio ao cerco seria bastante reduzido (nos finais da década de 80 foram escavados 26 silos islâmicos na alcáçova em apenas 36 metros quadrados, o que demonstra a concentração destas estruturas de armazenamento. Pelo menos neste ponto da Alcáçova estavam esgotadas as capacidades de armazenamento, não sendo possível abrir novas estruturas sem interceptar as existentes).
Os dados disponíveis parecem confirmar esta linha de interpretação e permitem perspectivar que em 1147 existiriam duas linhas defensivas autónomas. É certo que a DES regista que Afonso Henriques, investindo pela direita em direcção às portas de Alporão acabou por entrar pela porta da cidade, com muito maior segurança, o que sugere a existência de uma só cintura defensiva, sem separação material entre aquela entrada e a Alcáçova, tomada assim pela ardilosa penetração de uns poucos guerreiros. No entanto, cremos bastante plausível que o panegírico de um monarca que escorava o seu prestígio na proficiência militar, tendesse a abreviar os factos que conduziram à captura da cidade, concentrando-se exclusivamente na acção bélica mais espectacular, olvidando uma eventual entrega pacífica da Alcáçova (de acordo com José Mattoso, a rapidez da conquista, a sobrevivência de muitos habitantes, que rumaram posteriormente a Lisboa e o fraccionamento interno da sociedade local, indiciam que poderá ter havido conivência da parte de alguém da cidade, facilitando a entrada de Afonso Henriques), que se encontrava indiscutivelmente cercada por muros (as derrocadas do esporão, que reduziram sucessivamente a sua área, impedem a identificação rigorosa de um traçado romano, mas certamente estaria já cercada em período baixo-imperial), como nos demonstra a descrição da ofensiva almóada de 1184». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Dada a implantação tipificada para as necrópoles islâmicas, invariavelmente no exterior da cidade dos vivos (as excepções admitidas estavam reservadas a personagens de elevado estatuto social, como elementos da família real ou em situações de assédio militar à cidade), é seguro que a zona a este de Alporão se manteve vazia de construções durante os primeiros séculos após a integração da cidade nos domínios muçulmanos uma vez que as inumações continuaram, interceptando frequentemente os contextos funerários anteriores. Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito, no interior de simples fossas escavadas na rocha, não se detectando qualquer espólio votivo associado.
No entanto, se bem que todos os enterramentos identificados partilhassem as características mencionadas, verifica-se que alguns deles, restritos à secção Norte da área intervencionada, têm uma orientação ligeiramente desfasada da posição canónica, estando orientados Norte/Sul, com a face virada a Nascente. Já no quadrante sul e sueste da área intervencionada, todos as sepulturas estão dispostas na direcção NE/SW que no Al-Andaluz garantia um correcto alinhamento com a quibla (a sua direcção astronómica encontra-se em torno dos 100 graus, mas era considerado válido qualquer ponto no quadrante SE). Obviamente que os períodos de transição tendem a originar situações de heterodoxia, quer pela natural vigência de soluções de continuidade, quer pela reduzida intensidade dos novos comportamentos e opções culturais. O incremento da actividade arqueológica das últimas décadas tem-se revelado fundamental para revelar, ainda que timidamente, o conspecto material dessas alterações. A mesma hesitação na orientação dos enterramentos de período islâmico tem sido referenciada em assentamento rurais, estruturalmente menos permeáveis às mudanças culturais, como no sítio do Vale do Bouto, Loulé, onde algumas inumações em decúbito lateral continuaram a ser orientadas E-W, mas também em povoações marcadamente urbanas como Mértola, onde 13% dos esqueletos do Rossio do Carmo estão, à semelhança dos identificados em Santarém, depositados no sentido Norte-Sul.
Em ambiente urbano, o desajustamento da orientação nos primeiros momentos da presença islâmica pode ser explicado pela conversão de templos anteriores em mesquitas, o que implicava um desajustamento da quibla face à sua direcção astronómica e cartográfica. É certo que frequentemente o mirab era colocado na parede Sul por una aversion a orar hasta Este (a imitar a los cristianos), mas possivelmente, em especial nas cidades mais afastadas dos centros políticos e religiosos do Al-Andaluz e/ou junto de comunidades recentemente islamizadas, as igrejas poderão ter sido utilizadas sem alteração, o que explicaria a orientação N/S de algumas das sepulturas de Santarém e também de Mértola. Só a construção ex-novo de templos permitiria orientá-los perfeitamente para Meca pelo que a construção da mesquita aljama de Santarém pelo califa Hisam II, no século X, poderá ter contribuído para normalizar o ritual funerário, difundido definitivamente a solução canónica por todos os necrotérios da cidade.
Este espaço de necrópole foi abandonado ainda durante o domínio islâmico, uma vez que vários enterramentos foram interceptados por estruturas negativas, correspondendo certamente a silos, posteriormente reconvertidos em lixeiras e entulhados com despejos domésticos. Muito embora seja necessário sistematizar o estudo de todos os materiais arqueológicos recuperados no seu interior, a datação contextual da última utilização de algumas estruturas aponta para um período entre a segunda metade do século XI e a centúria seguinte.

A reorganização funcional nos séculos XI-XII
Consideramos que amortização da função funerária neste espaço não estará relacionada com um processo de expansão do tecido urbano, mas antes com os equilíbrios geoestratégicos observados no extremo ocidental da Península e que colocaram Santarém, precisamente nessa cronologia, na linha da frente dos confrontos entre as unidades políticas que se digladiavam pela sua administração. O sinal de alerta definitivo para o campo muçulmano terá sido a integração durante 18 anos da cidade nos domínios leoneses». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões»

Cortesia de purl

«[…]
Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, neste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.

Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veio a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo Rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao Rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o Rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto.
Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o Rei, porem, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo:

Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Alem disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.

O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões. Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame:

Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há-de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.

E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer.

Quanto ás coudelarias militares ou antes potrís eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.

No tocante à questão das subsistências, o Rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros…»

Cortesia de purl

«(…) Além do exame de latinidade, D. Pedro fez, com brilhante êxito, o de retórica e história, de inglês, ficando satisfeito o seu professor Graveley, aquele mesmo que acreditava todos os boatos que lhe encaixavam nos cascos e que os espalhava no Paço quando foi a revolta do marechal Saldanha. Durante o ano de 1851 estudou o príncipe a matemática com o dr. Filipe Folque, sem abandonar os outros estudos, fazendo os exames do costume em 22 de Dezembro. Assim se procedeu também no ano seguinte, dando o príncipe conta dos seus trabalhos no exame de 23 de Dezembro, que foi o último a que o sujeitaram. A mãe falecia-lhe em 15 de Novembro de 1853, e desde então D. Pedro, entregue a si próprio, numa quási libertação do poder paternal, entregara-se ao estudo de todos os assuntos com um afinco verdadeiramente sobrenatural. A mãe fora uma grande educadora. A consideração e favor que dedicava aos mestres; a atenção que dispensava à maneira como corriam os estudos; a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros; todo o conjunto de cuidados, que sempre lhe pareciam poucos, com que se desvelava para que tivessem uma educação exemplar sob todos os aspectos, conferiam justamente a esta grande mulher o título da melhor das mães.
A lenda levava até o último recanto do país as repreensões que ela lhes dava em público, quando praticavam algum acto que o rigor da mãe julgava repreensível. Agora obrigava a creança a beijar o filho do povo que ela afastara de si, logo aplicava-lhe o vulgar puxão de orelhas para que o povo visse bem como ela o sabia corrigir. E assim, a Rainha, a figura mais nobre que teve o país constitucional, a vítima dos ódios recíprocos dos estadistas do seu tempo, ensinava às senhoras portuguesas com os exemplos vindos do trono, como o amor das mães se compadece com a austeridade empregada na educação dos filhos. Ainda obedecendo ao plano que a Rainha traçara para a educação do presuntivo herdeiro, percorrera D. Pedro, em duas viagens, quási todas as nações da Europa, estudando, apreciando e criticando sucessivamente tudo quanto vira, em dois Diários que, sem embargo dos descuidos de redacção em alguns pontos, devidos à pressa com que lançava no papel os seus apontamentos, revelam bem o alto critério e a grande ilustração do príncipe. Com esta preparação, e sendo certamente o talento mais precoce do seu tempo, e em todos os tempos raríssimo, compreende-se que pretendesse conhecer todos os negócios e quizesse impôr-se a toda a gente.
Era este temperamento, em parte natural e em parte proveniente da educação recebida, compatível com o sistema constitucional, em que os ministros nunca podem ser meros instrumentos em mãos alheias, por mais competentes que sejam, visto que são os únicos responsáveis pelos actos do governo? Certamente, não. E daí promanaram todos os desgostos do' Rei e, consequentemente, todos os ódios e rancores que o açulavam contra os homens que, conscientes do seu valor e dos seus direitos, resistiam às ordens do soberano, por vezes impertinentes.
Nos primeiros meses do reinado nenhum acontecimento extraordinário ocorreu. O novo Rei herdara três questões internacionais de extrema gravidade e delas faremos a história na ocasião oportuna e quando estiverem apuradas em todos os seus incidentes. Estas questões eram a da concordata com a Santa-Sé, a do Ambriz e ainda a da convenção com a Holanda a respeito de Timor e Solor. Todas preocuparam grandemente o ânimo do Rei. Entretanto, os factos corriam com certa aparência de serenidade. D. Pedro abria cuidadosamente as duas Caixas, e nenhum dos requerentes deixava de ter a desejada resposta no fim da semana.
Em 18 de Outubro assinou D. Pedro um decreto, demitindo do lugar de amanuense da Junta de Crédito Público Eduardo Mesquita Cabral Almeida, em vista da consulta da mesma Junta de 16, que participava haver conhecido que este empregado com inteiro esquecimento dos seus deveres duplicara uma porção de coupons que negociara e fora apresentada a pagamento. O decreto mandava também que a Junta remetesse à secretaria de estado todos os documentos comprovativos de tão desagradável ocorrência para se formar o competente processo afim de o delinquente ser punido com todo o rigor da lei. Chegados os documentos, pareceu que era caso para ouvir o conselho de Estado. O Rei estuda a questão e escreve a Rodrigo Fonseca (24 de Novembro):

Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas. No entretanto de cada um se aproveita o que for bom, e o Governo fará aquilo que em consciência entender. A questão divide-se em três pontos: o primeiro constitue a acusação á Junta pela sua pouca vigilância, e desleixo em proceder contra o delinquente; o segundo: devem ou não pagar-se os coupons falsos ou para falar com mais propriedade, duplicados; 3.° quais os meios a empregar para evitar a repetição de um caso semelhante? Sobre todos estes pontos discorreu-se largamente.
A opinião de duas corporações muito respeitáveis, o banco e a associação comercial é, como sabe, que se paguem as obrigações dos coupons sem distinção de qualidade, para evitar o abalo do crédito que em tal caso, apesar das asserções em contrário, não pode deixar de se produzir.
[…]
In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 19 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida»

Cortesia de purl

«(…) Mal podia sonhar o mestre que o discípulo se ria das suas lucubraçoes alfarrábicas e tabacais. E verdade que para o consolar, o discípulo o presenteara com um capote finíssimo de pano azul ferrete, gola de veludo, e forrado de orleans, com seus cordões mui compridos, e borlas de retrós preto e tudo na maior perfeição. Também lhe adoçara a boca com uma condeça de doces muito finos e primorosos, uma pouca de anona muricata, duas excelentes maçãs e seis penas de escrever. E assim fazendo progressos na língua latina, chegou D. Pedro ao fim de 1847. Emquanto estudava o latim, dedicava-se também à música, à pintura e à história natural, colecionando conchas e insectos afim de organisar um museu. Esta tendência para a coleccionação acompanha-o ainda nos anos seguintes. Em 4 de Junho de 1851 escreve de Sintra a Sarmento:

Consagrei a tarde a uma excursão conchiliológica com o visconde, a qual me deu oito espécies que o mano Luiz lhe mostrará.

E em 1855, já depois de Rei, pede a Rodrigo da Fonseca que tenham cuidado com uns pássaros que vem do Chile para ele a bordo do patacho Indústria. Foi chamado para organisar o museu Francisco Tomás Silveira Franco, lente de medicina no Hospital de S. José. No dia 3 de Abril de 1848 dava D. Pedro a primeira prova pública do seu adiantamento nos estudos. Fazia exame de latim perante a corte. Mas antes quiz ir à capela, onde naquele dia havia lausperenne, para implorar o auxílio do Senhor, esclarecendo-lhe o entendimento afim de fazer bom exame. E fê-lo bom na verdade, porque traduziu, com desembaraço, um capítulo de Eutropio e uma fábula de Phedro. Tinha então onze anos de idade e apenas seis meses de tradução latina. O resultado do exame foi sujeito à votação dos presentes. Todos votaram, muito bem, ou muitíssimo bem, só a mãe, sempre grave e austera, lhe concedeu simplesmente um Bem. Esta nota, que a muitos parecerá indiferente, revela, contudo, fielmente o carácter da Rainha. Altamente satisfeita com o exame do filho, gosta de que todos o elogiem, mas para não o lisongear excitando-lhe a vaidade, e para se não mostrar parcial, é quem lhe dá o voto menos laudatório. Bem; e nada mais. O professor extasia-se perante os conhecimentos do discípulo e não se cança de lhe festejar o talento e a aplicação:

A tal ponto chegava o amor que Sua Magestade tinha aos livros latinos que achando-se doente de uma angina na primavera de 1848, queria que lhe trouxessem os seus livros para a cama, e até os guardava debaixo do travesseiro, onde eu mesmo os encontrava, e pedia a Sua Magestade que tomasse descanço, porque não faltava tempo em que pudesse estudar. Que hei de fazer?, disse Sua Magestade, hei de perder os meus estudos, deixando-me atrasar? Esta mesma resposta dava a todos.

O velho professor tinha às vezes adoráveis ingenuidades. Quando a Rainha, em 1848, deu à luz o príncipe Leopoldo, Martins Bastos escrevia nas suas Memórias:

Sua Magestade El-rei, pela sua edade e mais ainda pela sua inocência, nada disto empreendia, e somente pensava que um menino, seu primo, estava chegando ou havia chegado da Alemanha.

Neste tempo, quando o primo chegava da Alemanha, já D. Pedro se ocupava das aventesmas que povoavam o Paço. No princípio de 1849 D. Pedro traduzia as epístolas de Cícero, e escrevia cartas em latim ao seu mestre, datadas de Sintra, uma do segundo dia antes das Calendas de Agosto, de 1849, outra do quarto dia antes dos idos de Julho, de 1850. Já conhecia Salustio, Tito Livio e Virgílio, e era preciso dar-lhe mestre de grego, retórica, filosofia racional e moral e princípios de direito natural. Veio continuar a educação do príncipe António José Viale, conhecido humanista e perito nos estudos clássicos. No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca. Em 1850 D. Pedro já conhecia, além dos autores citados, Ovídio, Horácio e Tácito, e em 23 de Dezembro fez o terceiro exame, assim descrito por Martins Bastos:

Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida; e uma ode inteira de Horácio, aberto tudo à sorte por El-rei, como fica dito. Não é possível traduzir com mais propriedade e elegância, do que o fez Sua Magestade, no que me enchi da maior glória, por ser aquele o último exame daquela disciplina que Sua Magestade fez».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta…»

Cortesia de purl

«(…) No governo, confirmado pelo novo Monarca, achavam-se o duque de Saldanha na Presidência do conselho e na pasta da Guerra; no Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães; na Justiça Frederico Guilherme; na Fazenda Fontes Pereira de Melo; na Marinha visconde de Athoguia. Fontes tinha também a pasta das Obras Públicas, e Athoguia a dos Estrangeiros. Eram ainda os representantes da revolução, ou antes da revolta de 1851. E era com eles que o Rei tinha de governar, emquanto os factos não lhe aconselhassem ou impuzessem uma mudança de ministério. O primeiro acto, praticado por D. Pedro, foi a instituição da Caixa Verde. Dois dias depois da aclamação, aparecia na folha oficial este anúncio na última página do periódico:

O Camarista de Semana previne o Público que do dia 20 do corrente mês em diante, Sua Magestade El-Rei não receberá requerimentos, nem papéis alguns na rua, e que para este fim se mandarão no Real Paço das Necessidades, junto á portaria do antigo convento, colocar duas caixas para os receber; uma, pintada de azul, destinada aos requerimentos que tendam a obter socorros ou esmolas; outra, pintada de verde, para as súplicas dirigidas a outros fins. Igualmente se previne que todos os sábados as pessoas interessadas ali poderão ir receber o despacho das suas súplicas do meio dia ás duas horas da tarde. Paço das Necessidades, 18 de Setembro de 1855, conde de Linhares, Camarista de Semana.

Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o Rei havia de ter por muito tempo, emquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O Rei não despachava sem ler primeiro os decretos, demorando, por vezes, alguns para os estudar, pedindo informações que o habilitassem a dar uma referenda concienciosa. Dez dias depois de ter principiado o seu governo escrevia D. Pedro a Rodrigo da Fonseca:

Como ontem ao despacho não houvesse o tempo para lê-lo (um regulamento) e como eu não quero poder acusar-me de ter assinado um papel sem o ter lido, fiquei com ele até esta manhã; que só agora achei o tempo para lê-lo.

E a Saldanha dizia:

Eu não desejo autorisar medida alguma que eu não tenha estudado. Desejo sempre estar seguro e em plena consciência do que faço.

A Caixa Verde funcionava sem novidade. Em 25 de Setembro dizia D. Pedro a Rodrigo:

Entre os papéis que hoje recebi da Caixa achei uma representação sobre a gerência administrativa da Santa Casa da Nazaré. Se os factos são verdadeiros merecem algum remédio, sobretudo o corte de pinhais de que nela é acusada a Administração.

Faria Rodrigo obra pelas denúncias anónimas lançadas na Caixa Verde? Não é de crer. A maior parte dos decretos vinham glosados pelo Rei. Os dois de 28 de Novembro, um aprovando os novos estatutos dos sócios do Montepio das Secretarias do Estado e outro a Caixa de Socorros Mútuos voltavam acompanhados de comentários feitos por seu punho. Esta interferência activa do Rei nos negócios públicos, o desejo de os estudar, provinham principalmente da educação que recebera. O Rei, era na sua principal feição, um escolar, trabalhando no seu gabinete e tendo prazer no esforço da sua inteligência. Aos dezoito anos sabia tudo, porque muito lhe tinham ensinado e muito também tinha aprendido nos livros, nas viagens e no trato com os homens eminentes do seu país.
Deixando a mestra dona Maria Carolina Mishisch, fora em 5 de Agosto de 1847, aos 10 anos, entregue aos cuidados de Martins Bastos que lhe ensinou latinidade. Dirigiu-lhe toda a educação o visconde da Carreira, como seu aio, e cujos serviços D. Pedro retribuiu com a maior dedicação. Entregue ao compêndio de gramática latina do padre António Pereira, deu logo a primeira lição, sabida na ponta da língua, no dia 11 de Agosto. Já no meiado de Outubro, decorridos apenas dois meses de gramática, D. Pedro estava a braços com o Eutropio e com o Phedro. O professor extasia-se perante a inteligência do aluno e escreve:

… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de edade madura do que um menino de nove anos e dez meses».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 31 de dezembro de 2017

No 31. Isabel d’Aragão e Rainha Santa. Anonymous. «Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo de Coimbra…»

Cortesia de wikipedia

De acordo com o original.

Morte da Rainha Santa
(…) A seguir recita com visivel comoção algumas orações; os olhos fecham-se lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, solta do seu venerável corpo, subia aos céus a receber o premio das suas virtudes, descançando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gosará a bemaventurança com que Deus premeia os seus eleitos. É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está recebendo o premio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dôres humanas, e que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa devoção.

Trasladações
Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fosse trasladado para a Sé de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de Elrei procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dandose logo ordens para se pôr em pratica o desejo ali expresso. Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de El-rei. O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo dum sol abrazador.
As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente da decomposição do cadaver. Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação da sua omnipotencia. Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se então scenas comovedoras e lancinantes entre a população citadina. Todos á porfia queriam beijar o ataúde onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora, ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade!» In Anonymous, Isabel d’Aragão e Rainha Santa, 2011, ISO 8859-1, Project Gutenberg Ebook, produzido por Pedro Saborano, Coimbra, Gráfica Conimbricense, Lda, 1921.


Cortesia de PGutenberg/Gráfica Conimbricense/JDACT

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Isabel d’Aragão e Rainha Santa. Anonymous. «Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades…»

Cortesia de wikipedia

De acordo com o original.

Actos de Caridade
«(…) Se durante a vida de El-rei D. Dinís a acção da Rainha Santa foi um constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua viuvês, a sua acção tornou-se verdadeiramente exemplar. O numero de factos que desde então assinalam tão gloriosa existencia na terra, mais e mais fazem arreigar na alma do povo a convicção dos designios de Deus por Ela tão santamente interpretados. Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira Clarista e volvendo os olhos piedosos para um mais largo horisonte, consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando hospicios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua protecção, muitas infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcançaram na terra a felicidade que só sabem gosar as almas puras e simples. Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da viuvês, foi trocar os faustos das glorias terrenas pela humildade da clausura a que, como já dissemos, livremente se sujeitou.
Junto dos seus Paços riais corriam vagarosamente as obras para a fundação do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se por demandas entre os frades Cruzios e D. Maior Dias, fundadora daquele convento, e que certamente ficariam incompletas se não fosse o auxilio e protecção que a Rainha Santa dispensou para a sua rápida conclusão. Uma vez concluido, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste convento um asilo para órfãos e para a pobresa envergonhada, chamando para junto de si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem as crianças desvalidas! A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuido por forma a satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante empregava-o no ministerio da caridade visitando os asilados, a quem não só consolava com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira curando as chagas que lhes corroiam o corpo.
Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação dispendia a Rainha Santa quasi toda a sua fortuna. Com o auxilio de Deus, a quem firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para se desempenhar da sua nobre missão. Os proventos de que dispunha parece que tinham o condão de se multiplicar e, se algumas vezes houve em que o seu socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, então eram as Rosas que, adquirindo a forma de oiro reluzente, premiavam os seus actos de caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o pão aos famintos! Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.ª o sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro Vasconcelos, erudito professor da Universidade de Coimbra, constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais altos beneficios em favor dos desprotegidos.

Morte da Rainha Santa
Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos monarcas. Quando a Rainha Santa soube de tal resolução imediatamente se resolveu a partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho acompanhado de toda a Côrte. Êste propósito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inuteis rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha Santa, despresando esses bons conselhos e animada sómente em restabelecer a paz entre os reis desavindos, filho e neto, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas cheia de animo para cumprir a sua carinhosa missão. Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saude exigia.
Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma pústula que rapidamente lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o seu estado e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria receber os últimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua ultima hora, e erguendo o pensamento até ao Ceu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiastico:

Mãe de graças e Misericordia
Maria piedosa e forte:
Livra a minha alma, recebe-a
Na hora da minha morte».
In Anonymous, Isabel d’Aragão e Rainha Santa, 2011, ISO 8859-1, Project Gutenberg Ebook, produzido por Pedro Saborano, Coimbra, Gráfica Conimbricense, Lda, 1921.

Cortesia de PGutenberg/Gráfica Conimbricense/JDACT

Isabel d’Aragão e Rainha Santa. Anonymous. «De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria á sua passagem»

Cortesia de wikipedia

De acordo com o original.

«Muito se tem escrito ácerca da vida da excelsa e virtuosissima D. Isabel d'Aragão, Esposa d'el-rei D. Dinís; mas impunha-se ha muito a publicação dum folheto, como este, que sendo conciso na sua descrição não deixasse de relatar os factos que mais  distinguiram Aquela que a cidade de Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protectora. O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fieis, com grande economia de preço, um livrinho de leitura facil e corrente, ao alcance de todos, onde a historia sagrada da Rainha Santa possa deixar bem arreigada no espirito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente maravilhosa, que lhe concedeu logar na côrte celestial. As notas que colhemos foram, principalmente, extraídas do monumental trabalho de investigação historica do Ex.o Sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro Vasconcelos, na sua tão apreciada obra D. Isabel d' Aragão. A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal e por muitas terras de Hespanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em parte alguma do nosso país se realizam festas tão pomposas em honra dum santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50:000 pessoas por essa ocasião. É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, principalmente, recorrem á protecção da Rainha Santa na sua fervorosa suplica, e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é já poderoso linitivo para a sua dôr a lembrança de que Ela nunca desamparou os infelizes com a sua divina graça. Isabel d'Aragão tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu tambem uma prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento que o seu corpo sagrado repousasse no mosteiro de Santa Clara desta cidade, onde Ela esteve clausurada e donde foi trasladado o seu corpo para o novo mosteiro do mesmo nome. É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memoria sagrada da Sua excelsa Padroeira.

Nascimento da Rainha Santa. Da côrte de Aragão ao Trono de Portugal
A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada Protectora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), no ano de 1271. Filha do Principe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que seu avô, El-rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discordia com D. Pedro de Aragão, imediatamente se congraçou com este, passando ambos a viver na mais doce harmonia. Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a harmonia e a concordia entre os desavindos, facto que mais tarde, quando Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenças entre seu esposo El-rei D. Dinís e seu filho D. Afonso IV.
A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs á consideração de todas as côrtes da Europa, facto que despertou em bastantes principes o desejo de possuirem como esposa tão excelsa senhora. Foi á côrte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinís a gloria de ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.
O casamento de D. Dinís com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro de 1282 e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Êste auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regosijo para todos os portugueses, antevendo estes os enormes beneficios deste casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o país com demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação. A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas, custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel deixava em todos os corações que muito a estremeciam.
De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria á sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bençãos nupciais. Em Coimbra, onde a esse tempo residia a côrte juntamente com a principal nobresa do reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos régios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que, mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro, o sagrado corpo que todos hoje veneramos, e que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção. As manifestações de regosijo com que a cidade recebeu os régios consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuida por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da nação portuguesa, e de que Coimbra comparticipou em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.
Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros por ela prestados á indigencia, aos órfãos, ás viúvas e ás donzelas abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua coroa de gloria; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificencia sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem duvida, a fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero dos eleitos do Senhor». In Anonymous, Isabel d’Aragão e Rainha Santa, 2011, ISO 8859-1, Project Gutenberg Ebook, produzido por Pedro Saborano, Coimbra, Gráfica Conimbricense, Lda, 1921.


Cortesia de PGutenberg/Gráfica Conimbricense/JDACT

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Capa negra de saudade no 31. Alexandre Rezende. «Ai como é belo à luz da lua ouvir-se um fado em plena rua o cantador apaixonado trinando as cordas a cantar o fado»

jdact

À meia noite ao luar
Alexandre Rezende
«À meia noite ao luar
vai pelas ruas a cantar
o boémio sonhador
e a recata donzela
de mansinho, abre a janela
à doce canção de amor.

Ai como é belo à luz da lua
ouvir-se um fado em plena rua
o cantador apaixonado
trinando as cordas a cantar o fado.

Dão-se as doze badaladas
ao ouvir-se as guitarradas
surge o luar que é de prata
e a recatada donzela
de mansinho abre a janela
vem ouvir a serenata».

Adeus à Sé velha
«Sentes que um tempo acabou
Primavera de flor adormecida
qualquer coisa que não volta, que voou
que foi um rio, um ar na tua vida
E levas em ti guardado
o choro de uma balada
recordações do passado
o bater da velha cabra

Capa negra de saudade
no momento da partida
segredos desta cidade
levo comigo p' ra vida

Sabes que o desenho do adeus
é fogo que nos queima devagar
e no lento cerrar dos olhos teus
fica a esperança de um dia aqui voltar
E levas em ti guardado
o choro de uma balada
recordações do passado
o bater da velha cabra

Capa negra de saudade
no momento da partida
segredos desta cidade
levo comigo p' ra vida».

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