Mostrar mensagens com a etiqueta Colecção Sequeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Colecção Sequeira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Colecção Sequeira. Do armazém à reserva. Laura Portugal Romão. «... forma juntou mais de seis mil peças de arte sacra, em variadíssimos materiais, de várias dimensões e com exemplares do século XIV ao XX, essencialmente esculturas, predominando as imagens de Cristo»




jdact e cortesia da fr

[…]
«Comecei de imediato a imaginar a colecção, a idealizar metodologias, a tentar programar as minhas acções. Quando passados alguns dias me desloquei finalmente a Portalegre e vi pela primeira vez a Colecção Sequeira, o choque foi brutal e devo confessar que, apesar de ter visto algumas fotografias, nem nos meus mais arrojados pensamentos cheguei perto daquilo que encontrei. Fui invadida por uma sensação de desassossego e durante vários dias as imagens retidas pelo meu primeiro olhar surgiam-me a cada instante, e o sono foi pouco tranquilo durante várias noites. O desafio era bem maior do que supunha.
Mobiliário litúrgico, milhares de Cristos amontoados de uma forma quase sinistra, num entrelaçar de braços, pernas e cruzes, literalmente ao monte, de tal forma que se tornava difícil caminhar entre eles e passar de umas salas para as outras. Inúmeras peças estavam cobertas de lixo, desperdícios e envoltas em sacos de plástico, tecidos e caixas de cartão, sem qualquer tipo de ordem, não sendo possível sequer definir o que tínhamos pela frente.
O portalegrense Rui Sequeira, homem devoto e de crenças, dedicou grande parte da sua vida à religiosidade católica. Devido ao seu gosto pessoal pelas artes e pelo coleccionismo e à proximidade com a vida religiosa local, apreciava a arte sacra e apercebeu-se desde cedo que muitas peças eram substituídas, devido ao seu processo natural de envelhecimento ou às alterações de modas e gostos, e consequentemente abandonadas ou mesmo destruídas. Este facto indignava-o e levou-o a assumir o papel de fiel depositário destas peças "indesejadas" ou em fim de vida.
Desta forma juntou mais de seis mil peças de arte sacra, em variadíssimos materiais, de várias dimensões e com exemplares do século XIV ao XX, essencialmente esculturas, predominando as imagens de Cristo, não só por ser uma representação de quem era particularmente devoto, mas também por existirem em número muito significativo nesta região do país, por ser tradição fazerem parte dos objectos essenciais no enxoval de qualquer noiva.
Tendo consciência das suas motivações torna-se mais fácil perceber este conjunto e a forma como estava arrecadado. Provavelmente Rui Sequeira foi "engolido" pela sua colecção, deixando de ter capacidade de resposta para o tão grande número de peças que lhe chegaram às mãos. No total as peças estavam distribuídas por seis salas, sendo as mais marcantes as três onde se encontravam os crucifixos. Tornou-se evidente que de início houve algum critério no armazenamento, os crucifixos foram colocados sobre bancadas improvisadas, encostados à parede, em filas sucessivas e sempre com as imagens de Jesus Cristo voltadas para fora, e as figuras que não tinham cruz foram guardadas em caixas e cestas.
[…]

Este conjunto tem uma tal dimensão que mesmo que muitas peças isoladamente não tenham qualquer valor estético, histórico ou material, formam um todo que vale por si, como Colecção que deve ser preservada.
Em forma de conclusão devo acrescentar que esta experiência me marcou para a vida, não só em termos profissionais, mas também, e principalmente, em termos pessoais. Apesar de encarar as peças apenas como representações escultóricas sem afectação religiosa, levei algumas semanas a conseguir estar no espaço e conviver com a colecção de uma forma tranquila. A quantidade e o "peso" das próprias imagens, a falta de luz eléctrica, o frio do Inverno, o vento a entrar pelas inúmeras frinchas, o isolamento em que se encontra a casa, não tornaram a tarefa fácil mas permitiram-me muitos momentosde reflexão.
Por mais que filmada, fotografada e descrita, nunca será possível transmitir a quem não esteve no local a sensação de tamanha experiência. Captaram-se momentos, espaços isolados, mas nunca o todo, nunca a sensação de estar rodeada de milhares de imagens de Cristo Crucificado. Não há forma de descrever o todo e simultaneamente os pormenores que estavam em cada canto, os cheiros, os ruídos, as sombras, a luz e a falta dela..In Laura Portugal Romão, A Colecção Sequeira - Do armazém à reserva, Fundação Robinson, 2008, Seminários Rede Cultural, Promoção e valorização de património natural, arquitectónico e arqueológico-industrial, Portalegre, Espaço Robinson, Junho 2012.




Cortesia da F. Robinson/JDACT

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Fundação Robinson: Colecção Sequeira. Igreja de São Francisco, Portalegre




Foto de Ocrimira
Cortesia de Fundação Robinson
«No espaço cultural que hoje é a Igreja de São Francisco, peças isoladas da Colecção Sequeira ganham dimensão porque são inseridas num conjunto pensado e desenhado para as valorizar. Antes, existe um trabalho moroso e delicado de estudo, inventariação, recuperação, conservação e restauro do existente». In José Mata Cáceres, Descobrir a Colecção Sequeira, Publicação 9 (Setembro de 2008) da Fundação Robinson.

Com a devida vénia a Joaquim Carvalho e a Rui Lourenço, arqueólogos, Ocrimira, publico o texto Levantamento arqueológico tridimensional da Colecção Sequeira, Publicações da Fundação Robinson 9, 2008, pág. 18-21, ISSN 1646-7116.

Foto de J. Murteira, Cristos, sala 2
Cortesia de Fundação Robinson
«Quando chegámos pela primeira vez junto da Colecção Sequeira, na Serra, em Portalegre, sabíamos de antemão que este não seria apenas mais um trabalho de arqueologia. Normalmente, os trabalhos de arqueologia implicam a escavação arqueológica de um determinado local onde se tem conhecimento da existência de vestígios da ocupação humana. Tal facto, aqui não se verificaria, pois não iríamos colocar a descoberto testemunhos ancestrais, registar estruturas ou peças arqueológicas há muito escondias dos nossos olhares. Com a Colecção Sequeira seria totalmente diferente, pois o que se pretendia aqui aplicar, eram os mais rigorosos métodos de registo arqueológico a uma enorme colecção de arte sacra. Esta colecção, que inicialmente se pensava ter cerca de quatro mil peças chegou ao fim com cerca de seis mil e poucas. O processo de registo foi extremamente moroso, dado que todas as peças foram desenhadas individualmente e à escala, de forma a proceder-se ao registo tridimensional de todos os elementos da colecção, tal como havia sido depositada pelo coleccionador ao longo dos vários anos.
Imagens de São João Evangelista na disposição original, etiquetadas com atribuição de Número de Inventário
Cortesia de Fundação Robinson
Este registo tridimensional permitirá futuramente, a localização de todas as peças e aferir as relações individuais de cada uma no conjunto da colecção, visto que, à primeira vista, foram criados diversos núcleos de depósito que poderão indicar uma tentativa de classificação primária destes objectos de culto após a sua aquisição e inclusão na colecção. Por outro lado este registo permitirá visualizar todo o acervo após o levantamento de cada uma das salas que constituíam o «armazém sagrado», num total de seis grandes núcleos dispersos por vários espaços na Serra. Não bastava aplicar os métodos e as técnicas aprendidos e já executados vezes sem conta ao longo de vários anos. Aqui era preciso inovar, desenvolver métodos e adaptar técnicas. Na verdade, muitas foram as dúvidas pois neste caso não tínhamos livros ou profissionais específicos a quem recorrer, pois nunca um registo desta complexidade tinha sido efectuado pelos métodos tradicionais da arqueologia.
Cristos, sala 3
Cortesia de Fundação Robinson
Nunca como equipa tínhamos ficado, por momentos que fosse, sem saber por onde começar um trabalho, tal a grandeza e complexidade do que se nos exigia. Questões como: «será exequível» ou «seremos capazes de respeitar o calendário» perseguiram-nos até ao final do levantamento. Cada vez que terminávamos uma sala ou compartimento, outro mais complexo se nos deparava, não deixando nunca de se colocarem novos desafios. As dificuldades eram muitas e por vezes de ordem física, na sala dos Cristos por exemplo, para além de não podermos tocar nas peças, para que não se perdesse a sua posição original, tiveram que ser criadas estruturas para que fosse possível progredir e colocar os desenhadores num plano superior ao das peças, pois só assim se consegue uma representação gráfica rigorosa. Para além de todo o trabalho que nos mereceu, não devemos deixar de referir o «peso religioso» que as peças e as salas exerciam sobre cada um de nós.

Levantamento gráfico, documento de trabalho, Ocrimira
Cortesia de Fundação Robinson
Na primeira vez que vimos a colecção sentimo-nos pequenos e com arrepios na espinha, tamanha era a quantidade de Cristos e outras imagens de santos que olhavam para nós sem perceberem muito bem o que estávamos a fazer. Depois, à noite, quando nos deitávamos, só víamos Cristos nas mais variadas posições, uns partidos, outros desmembrados mas sempre numa posição de sofrimento. Certo dia, um dos técnicos que procedia ao registo das peças teve um susto de morte, pois de repente pareceu-lhe que alguém respirava ofegantemente e deu um salto. Mas ele não via ninguém, até que lhe apareceram vagarosamente dois dos cães que tantas vezes terão feito a guarda à colecção. Provavelmente também estes se questionavam sobre o que é que aqueles homens ali andavam a fazer».
Levantamento gráfico de uma das salas, Ocrimira
Cortesia de Fundação Robinson
Fundação Robinson/Ocrimira/JDACT