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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Barco da Carreira dos Tolos. 1850. Obra Crítica, moral e Divertida. José Daniel Rodrigues da Costa. «O outro dia foi huma Saloia alli de Camarate procurar me, dizendo-me que se casava, e que se queria refazer de algum fatinho mais aceado, e sem escrúpulo»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original!

Carreira dos Tolos. Modistas
«(…) Aqui o Arrais compadecido da pobre Velha, e achándo-lhe alguma razão, mandou que entrasse para o Barco-, e com demora de cinco minutos chegou huma Adela, perguntou pelo Arrais, e dando com elle, lhe fallou deste modo: senhor Arrais, aqui venho para fazer viagem na sua Carreira, porque não há huma mulher mais tola do que eu : tenho passado a minha vida na occupação de Adela, tenho ganho muito dinheiro, e vejo-me pobre, como Job. Para eu ver se a sua tolice está no seu auge, lhe respondeo o Arrais, quero saber porque motivo ganhou esse dinheiro, o porque motivo se vê sem elle? Eu, senhor Arrais, lhe replicou a Adela , darei conta de todos os estratagemas, que por mim tem passado nisto de vender fatos alheios, alborcar fatos, e comprar fatos.

O anno passado vendi trinta e dois vestidos de Senhoras, de veludo preto, aos armadores para armações de Igreja, que he hoje só a applicação, que lhes dão, vendidos a doze vinténs o covado: isto então huma fazenda, que custou certamente a meia moeda. Eis-ahi, lhe disse o Arrais, huma desordem causada pelas modas, que abandonão sempre as cousas de valor, para abraçarem trezentas canquilharias. A semana passada, continuou a Adela, vendi oito mantos de huma bella seda em bom uso; e soube que suas donas com o dinheiro delles forão logo comprar chapelinhos do Sol de sete mezinhos, a medalhas para se mostrarem pelas ruas de Lisboa. Tive em minha casa dois caixões cheios de saias de grodetú, que ninguém olhava para ellas: tinha quatro dúzias de aventaes lizos , e bordados, finos, e grossos, que não sabia o fim, que lhes havia de dar: tinha vinte capas de panno fino, tudo dentro do mesmo caixão. Eis senão quando; hum genro que tenho, levado do demo, pilhou-me fora, e roubou-me; e ainda cahi na tolice de o metter outra vez em casa.

O outro dia foi huma Saloia alli de Camarate procurar me, dizendo-me que se casava, e que se queria refazer de algum fatinho mais aceado, e sem escrúpulo. Dei logo parabéns á minha fortuna, assentando comigo que sáias, capas, aventaes, e roupinhas terião alli alguma sahida. Vou ao caixão, e foi então quando não achei, nem hum fio, porque o maroto de meu genro tudo tinha abafado. Ainda mostrei algum fatinho á saloia, que tinha em outro sitio, e cómmodos nos preços; porém ella a tudo cuspio, e a tudo fez focinho, e descarta-se me, dizendo: V. m. julga-me alguma bruta? vá lá para o meu lugar, e verá o que por lá acha! Eu quero fato da moda; se me lá vissem com isto, corrião-me á pedrada: eu quero algum vestido branco bordado, franzido, quasi sem cintura, e sem mangas; quero hum chalé, que tenha ao menos duas varas de largo, e de comprido; quero huma barretina com véó. E finalmente entra a boa da Saloia a fazer-me huma pintura como lá dizem, de tremer». In José Daniel Rodrigues da Costa, Barco da Carreira dos Tolos, Obra Crítica, Moral e Divertida, RB196984, University of Toronto, Typographia de Elias José Costa Sanches, Lisboa, 1850.

Cortesia de T. Sanches/JDACT

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Cratino. A Sombra de um Grande Poeta. Maria de Fátima Silva. «… definidas as duas linhas mestras do perfil artístico de Cratino, em harmoniosa concertação: é pelo vigor do ataque nominal, a que se soma a consciência progressivamente mais lúcida da definição da natureza e exigências da arte…»

Cortesia de wikipedia

«(…) A imagem estabelece desde logo a proporção entre os dois intervenientes, o vigor do poeta e a qualidade majestosa das vítimas, que fizeram da invectiva um terreno de lutas sem quartel; delas podia a assistência colher uma mensagem instrutiva, fundada na experiência quotidiana da comunidade ateniense. A aspereza característica dos ataques de Cratino é mais tarde confirmada por Platónio, que a considera uma herança de Arquíloco: Cratino (...), como é normal em imitadores de Arquíloco, é um poeta áspero nos ataques que dirige.
Ε logo o mesmo comentador estabelece um curioso paralelo com Aristófanes, que, também ele entusiasta da invectiva pessoal, conseguiu no entanto conferir-lhe elegância e finura, que a purificaram de uma vulgaridade a que Cratino não soube escapar: Não faz, como Aristófanes, sobressair a graça nas suas piadas. Acrescentemos a informação de alguém, que, ao reflectir sobre o passado da comédia, acrescenta à imagem de Cratino outros méritos: o empenho na definição estrutural do género, mesmo que com um sucesso parcial, a ser mais tarde aperfeiçoado por Aristófanes, bem como o estabelecimento de um objectivo agora mais nítido: Cratino elevou α três as personagens da comédia, assim consolidando uma estrutura ainda inconsistente, e à graça adicionou a utilidade, pelo ataque contra os malvados, servindo-se da comédia como de uma espécie de chicote público.
Dos dois testemunhos ressalta a noção de uma linha de continuidade a unir Cratino e Aristófanes: ambos empenhados em finalidades idênticas, de valorização artística e justificação de um objectivo para a arte cómica, distingue-os apenas a meta atingida, Cratino detentor do mérito de quem rasga com ousadia um caminho novo, e Aristófanes de quem prossegue e leva ao sucesso pleno o projecto de que é herdeiro. Deixemos, por fim, falar o próprio Cratino que, em palavras breves, nos deixa repetidos manifestos de uma consciência já clara das dificuldades da arte e do desafio que se coloca ao comediógrafo, perante um público de humor oscilante e imprevisível nas suas reacções. Mais do que à defesa da qualidade estética ou do espírito criativo, Cratino está atento à missão didáctica da comédia, como factor primordial na avaliação do génio de um poeta. Ora é um coro que afirma o prazer que tem em vir, de livre vontade, para o convívio de um público requintado; logo a confissão de um arrojo que lhe dita todas as ousadias: Não há nada que este coro não leve por diante, nada a que se não atreva.
Depois o orgulho pela obra produzida, que o ergue sobre altaneiro pedestal, inacessível a rivais mais modestos: Esta comédia (Quírones) representa para mim dois anos de trabalho intenso, a que acrescentava, segundo Aristides: Α outros poetas não basta toda uma vida para obterem uma reles imitação.
Por fim, o reconhecimento de que, mais do que a qualidade da forma, é o poder da mensagem que impõe o verdadeiro génio. Numa peça sugestivamente intitulada Dionisos, Cratino suspirava: Que vença aquele que melhor falar à cidade! E, em anos próximos, nos Quírones, repetia, agora numa referência inequívoca à comédia: Eis α razão por que nós, os Quírones, aqui estamos: para vos darmos os nossos conselhos. Por vezes, mesmo que sem palavras a aboná-lo, um simples título pode comportar a evidência de um conteúdo; Representações teatrais é o exemplo claro de uma promessa de tratamento alargado de questões ligadas à produção teatral. Ou a notícia indirecta, colhida no argumento de alguma peça perdida, da utilização do coro como transmissor do sentir do poeta sobre a arte que cultiva. Estão, assim, definidas as duas linhas mestras do perfil artístico de Cratino, em harmoniosa concertação: é pelo vigor do ataque nominal, a que se soma a consciência progressivamente mais lúcida da definição da natureza e exigências da arte, que o velho poeta orienta a comédia num caminho ascendente». In Maria de Fátima Silva, Cratino, A Sombra de um Grande Poeta, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Barco da Carreira dos Tolos. 1850. Obra Crítica, moral e Divertida. José Daniel Rodrigues da Costa. «Ora como os dentes me nascêrão com esta modéstia, não posso levar á paciência, que hoje até muitas da minha idade cortem os seus cabellos, para se fazerem Marias do Monte»

Cortesia de wikipedia

De acordo com o original!

Carreira dos Tolos. Modistas
«(…) Fui crescendo, e por casa nunca passei de trajar huma comprida saia de primavera muito aceada: hum bajú de folhos brancos, hum avental de escorcia, ou caça de riscas, tudo muito limpinho; humas roupinhas de cabaia, ou nobreza, hum lenço de folhos muito pregado, e muito concertado, que cobria com modestia o que tanto hoje se descobre. Punha no pescoço huma gargantilha de vedrilhos pretos, ou velorios; outras vezes huma colleira de folhos franzidos, que compunha muito a garganta. Ornava o peito com as viçosas flores, que Deos cria, e tinha no meu quintal, meia duzia de cravos, duas rosas, quatro jasmins de Italia, humas chagas, e alguns martyrios, guarnecido tudo de manjerona, e alecrim: flores estas, que pouco, e pouco se lhes vai perdendo a semente; e se se achão ainda, he só em alguma cêrca de Freiras, porque hoje o que se vê pelas janellas de Lisboa são hervas botanicas, chorões balsiminas, tomates de França, e poracaso hum craveiro: que tanto póde a mudança do gosto, e dos usos!
Algum dia nunca o meu toucado passou de huma grande trança de cabello, cahida pelas costas abaixo, com três, ou quatro laços de fita; o cabello de diante levantado acima, fazendo hum capote bicudo, que desafrontava toda a testa; e este topete cheio de travessinhas de tartaruga, tendo á ilharga da parte direita huma assembléa, que vinha a ser hum palmito de flores, ou de fofos de fita. A mesma cabeça se aceava com espirito de vergamota, com banha de flor, ou com óleo de jasmins, e outras pomadas de cheiros, a que os pós amarellos vinhão fazer matiz. Nas orelhas trazia huns brincos de ouro, e não ouro mascarado, com suas lasquinhas de diamantes, que vinha a ser laço, e pingente. Deste modo apparecia na sala das visitas ás minhas amigas, com o maior recato, e comedimento, que hoje raras vezes se vê.
Ora como os dentes me nascêrão com esta modéstia, não posso levar á paciência, que hoje até muitas da minha idade cortem os seus cabellos, para se fazerem Marias do Monte. Chegámos ao tempo das mulheres botarem os cotovellos de fóra era todo o sentido; e como esta não foi a minha creação, e hoje tudo o que vejo, para mim he Grego, ando pelas ruas da Cidade, como vendida, feita huma tôla: e por isso me resolvo a ir para essa terra, aonde a gente se esquece do passado, para viver sem tanta inquietação; porque quando vejo huma mulher na rua, revolvo-me toda, toda me arrepío, e até me dão engulho de vomitar». In José Daniel Rodrigues da Costa, Barco da Carreira dos Tolos, Obra Crítica, Moral e Divertida, RB196984, University of Toronto, Typographia de Elias José Costa Sanches, Lisboa, 1850.

Cortesia de T.Sanches/JDACT

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Barco da Carreira dos Tolos. 1850. Obra Crítica, moral e Divertida. José Daniel Rodrigues da Costa. «Porém como tirava, e não punha, diminuião-se os cartuxos, e fiquei fallando só, vendendo hoje huma cousa, á manhã outra; e vejo-me na maior miséria, levando safanões de todos…»

Cortesia de wikipedia

De acordo com o original!

Carreira dos Tolos. Modistas
«(…) Eis-aqui Minha Mãi consternada pela falta de seu marido, expirou d'alli a ires mezes tomei, eu como legitimo herdeiro, conta de tudo, e insensivelmente de tudo dei conta; mas fartei me de ser o chefe de todas as Modas e de tudo o que me parecia bom; a creação, que tive tão esfaimada, he que foi a causa de me querer sacar de quanto para mim era novo. Fui a primeira vez á ópera, gostei, tive sempre camarote effectivo: aluguei a primeira sege, puz logo sege, que emprestava a todos os meus amigos, de sorte que muitas vezes a quiz, e tive de a alugar; porque a minha andava por mãos alheias. Moça formosa era logo por mim brindada, para crear fama de pródigo; dei prendas de annos; jantares, e cêas em casa, e fora de casa a meio mundo sem tom, nem som, parecendo-me que a riqueza; nunca se me acabava. Em Modas não falemos!, fui o inventor de toda a affectação; ninguém teve abotoadura como eu, ninguém se penteou mais á moda; eu fui a causa de se largarem os pescocinhos, e trazer-se bum lenço com almofada; eu fui o primeiro, que trouxe por Lisboa capote de riscas de lã, e seda dentro da seje , mas não pegou esta moda: eu fui Juiz em dezesete Círios, só para me fartar de contradançar nas hospedarias do arraial com ranchos de Senhoras, que eu só dominava. Já por fim vendi as duas quintas para jogar nas partida com desafogo, cada dia levava a ellas hum vestido.
Porém como tirava, e não punha, diminuião-se os cartuxos, e fiquei fallando só, vendendo hoje huma cousa, á manhã outra; e vejo-me na maior miséria, levando safanões de todos, e daquelles mesmos, que me ajudarão a estragar tudo. Nestes termos, se hei de, á vista de quem me conhece, ir morrer a hum hospital , desejo aproveitar-me do beneficio, que V. m. faz aos da minha qualidade, para acabar os meus dias com prazer. A isto respondeo o Arrais: Tem todo o merecimento para vir nesta Carreira; a isso he que eu chamarei ser mestre dos Tolos, ainda que V. m. mostra agora que tem algum juizo na ausencia, que quer fazer; mas chegou lhe muito tarde: e se V. m. na primeira asneira, que fez por alma do Senhor seu Pai, cahe em si, como cahio agora, campava: ora entre, que o seu lugar no meu Barco ninguém lho tira.
Saltou este para dentro; eis-que chega huma velha, a quem o Arrais perguntou a causa de querer mudar de Paiz, visto achar-se já naquella idade? Ao que ella respondeo; Eu, meu Senhor, toda a minha vida tive juizo; porém agora entro no numero dos Tolos, porque me tem feito tôla as modas, que vejo no tempo presente: que eu, meu Senhor, vim ao mundo em hum tempo muito comedido; e de idade de sete annos foi a primeira vez que minha Mãi me pôz hum mantinho, com que sahi á rua muito airosa, e muito séria, de sorte que o povo, que me via, se não fartava de me beijar, e de me pegar ao collo». In José Daniel Rodrigues da Costa, Barco da Carreira dos Tolos, Obra Crítica, Moral e Divertida, RB196984, University of Toronto, Typographia de Elias José Costa Sanches, Lisboa, 1850.

Cortesia de T.Sanches/JDACT

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Cratino. A Sombra de um Grande Poeta. Maria de Fátima Silva. «De gracejos esporádicos, os ataques ampliaram-se à totalidade da intriga, as vítimas ganharam a consistência de verdadeiras personagens dramáticas, dentro de um contexto que permitiu à comédia…»

Cortesia de wikipedia

«Do muito que sossobrou da produção cómica ateniense na sua primeira fase, não mais nos resta do que uma pálida sombra, que recuperamos, cheia de obscuridades e interrogações, de testemunhos antigos de épocas várias. São primeiro os contemporâneos, aqueles que apreciaram de perto o fenómeno, sobretudo por nele serem também intervenientes, e que, motivados pela consciência profissional que leva a uma reflexão sobre a arte, ou pelos amargores de uma concorrência que o sistema concurso fomentava, teceram comentários sobre o género e sobre os rivais activos na disputa pelos favores da Musa. Neste número avulta o nome de Aristófanes, para além de comediógrafo de grande sucesso, um teórico feito de uma longa experiência na cena de Dioniso, atento ao fluir imparável da comédia e seu permanente crítico e comentador; guiados pelo seu testemunho, somos estimulados a um percurso que se inicia nos tempos longínquos de uma popularidade feita de improviso e de espontaneidade burlesca, até aos dias mais promissores em que se abria à comédia um caminho de progresso e aperfeiçoamento, através da presença, oficialmente reconhecida, nos festivais dramáticos da polis. Um outro tipo de informação, de natureza diversa mas de significado também relevante, é a que provém dos textos burocráticos, que acompanharam a gestão da festa de Dioniso em Atenas, registos de nomes de poetas, títulos de peças, vencedores nos concursos, datas das produções; por eles somos orientados para uma análise mais quantitativa do fenómeno, que documenta a expansão alcançada, embora alguns aspectos de sucesso ou preferência, por temas ou por poetas, se tornem também patentes. Mais tarde, quando a comédia se situava já entre as glórias passadas da cidade de Palas, foi outra a motivação para toda uma série de comentários e citações dos velhos comediógrafos. Em primeiro lugar, um sentido de clarificação motivou a redacção de escólios, notas informativas acrescentadas às cópias dos textos, a procurarem esclarecer um leitor menos sensibilizado, a séculos de distância, para pormenores ou referências então já incompreensíveis. Dentro do mesmo espírito, elaboraram-se sumários breves, a conduzirem a leitura para os tópicos essenciais de cada peça, que vieram a servir de magro substituto do próprio texto, quando entretanto desaparecido. Não menos interessante é o papel dos diversos biógrafos, críticos literários e autores de vocabulários e léxicos, que, nos textos antigos ainda ao seu dispor, buscaram matéria para estudos e registos. Dessa actividade resultaram tratados expressamente dedicados à produção literária do passado, listagens vocabulares voltadas para a tradição linguística do grego, ou simples abonações, nos mais diversos contextos, através do testemunho de citações dos antigos. Complementares umas das outras, inestimáveis como informação única de um passado que demandamos, estas vozes não satisfazem a nossa curiosidade e muito mal preenchem o espaço deixado vazio pela acção devastadora do tempo. A mão do acaso, sobreposta a todos os propósitos e objectivos, seleccionou para nós um material, de relevância e dimensão variadas, que, mais do que dar respostas, suscita novas interrogações e dúvidas desesperadamente insolúveis. Apesar de todas as dificuldades, um percurso por esse campo de ruínas continua uma tentação, sobretudo se, mesmo que escassos, os fragmentos que nos restam, articulados com as informações disponíveis, podem devolver a imagem, embora ténue, de uma celebridade perdida. É esse o convite que um nome sonante, como o de Cratino, propõe ainda ao estudioso moderno. De uma geração nascida na primeira metade do séculos V a. C., Cratino suscitou em torno de si um coro de vozes que associam a sua actividade à definição de um progresso decisivo na história da comédia. Ε foi como cultor da agressividade no ataque nominal, à maneira dos poetas iâmbicos e em particular de Arquíloco, que Cratino imprimiu, na simplicidade do komos, um vigor e objectivo inteiramente novos.
Tal proeza encontra já o merecido reconhecimento na parábase de Cavaleiros de Aristófanes, onde o autor, a pretexto de exemplificar a caducidade do êxito literário, cataloga e caracteriza os precursores, a quem coube determinar o ritmo de evolução no passado do género. A invectiva não era um dado novo na produção cómica, antes fazia parte de uma tradição quase lendária, onde o gracejo nominal aparecia como uma manifestação episódica e destacada de um contexto preciso. O seu objectivo não teria então qualquer outro alcance para além de divertir uma assistência ainda pouco exigente. Assim, a intervenção de Cratino neste processo teria vindo redimensionar e justificar, em termos inovadores, a velha tradição. De gracejos esporádicos, os ataques ampliaram-se à totalidade da intriga, as vítimas ganharam a consistência de verdadeiras personagens dramáticas, dentro de um contexto que permitiu à comédia ocupar-se, numa perspectiva de intervenção didáctica, de questões políticas e sociais. São significativos os termos em que Aristófanes descreve a atitude literária de Cratino, identificando-o com caudal poderoso que, numa marcha sem barreiras, arrastasse, arrancadas pela raiz, árvores de grande porte, plátanos e carvalhos». In Maria de Fátima Silva, Cratino.´, A Sombra de um Grande Poeta, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pedro Calderón de la Barca: Durante os últimos anos da sua vida só compõe autos e comédias para estrear na corte. Autor de uma obra vasta que marca decisivamente a história do teatro em língua castelhana. Entre as suas peças há autos sacramentais, zarzuelas, entremeses, comédias religiosas e de amor, ciúme e filosóficas

(1600-1681)
Madrid
Cortesia de umaseoutras

Pedro Calderón de la Barca foi um dramatugo e poeta espanhol.
Estuda no Colégio Imperial dos Jesuítas, onde cursa Humanidades e se familiariza com os clássicos. Em 1620 abandona a carreira eclesiástica e «ruma» a Madrid e vive na corte uma vida livre e não isenta de atribulações. Por esta altura começa a apresentar-se em certames poéticos.

No ano de 1625 inicia a sua carreira dramática, transformando-se no dramaturgo oficial da corte e em  1651 é ordenado sacerdote.

Cortesia de escenicascarandewordpress
Em 1663 é nomeado capelão de honra do rei e fixa-se novamente na corte, dirigindo a representação de autos sacramentais e outras peças teatrais. Durante os últimos anos da sua vida só compõe autos e comédias para estrear na corte.
Autor de uma obra vasta que marca decisivamente a história do teatro em língua castelhana. Entre as suas peças, autos sacramentais, zarzuelas, entremeses, comédias religiosas, de costumes, de amor e ciúme e filosóficas, salientam-se:
  • El dragoncillo;
  • El laurel de Apolo;
  • El mágico prodigioso;
  • La dama duende;
  • El alcalde de Zalamea;
  • La vida es sueño; 
  • El gran teatro del mundo.

Cortesia de higuerasarte
Utilizava frequentemente peças menores que reformulava, eliminando cenas inúteis. Diminuía o número de personagens e reduzia a riqueza polimétrica do teatro lopesco. Igualmente, sistematizou a exuberância criativa de seu modelo, e construiu a obra em torno de um protagonista único.
De certa maneira, limpou o teatro lopesco de seus elementos mais líricos, e buscou sempre os mais teatrais. Ángel Valbuena Briones tem verificado que no seu estilo cabe distinguir dois registros:
  • Num primeiro grupo, reordena, condensa, e reelabora o que em Lope de Vega aparece de maneira difusa e mais caótica, estilizando seu realismo tradicionalista, e voltando-se mais ao cortesão. Nelas aparece uma rica galeria de personagens representativos de seu tempo e sua condição social, todos os quais têm em comum os três temas do teatro barroco espanhol: o amor, a religião, e a honra;
  • Num segundo grupo, o dramaturgo inventa, mais além do repertório cavaleiresco, uma forma poética-simbólica ainda desconhecida, e configura um teatro essencialmente lírico, cujas personagens se elevam acima do simbólico e espiritual.
No panorama dos dramas filosóficos, a obra mestra é La vida es sueño e ainda El médico de su honra, e El alcalde de Zalamea entre os dramas que abordam a honra.
Casa de Pedro Calderón de la Barca
Cortesia de flickriver
Cortesia de wikipédia/Vidas Lusófonas/JDACT

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

André Brun: A obra literária reparte-se entre o teatro e a crónica, centralizando-se nos aspectos comezinhos da pequena burguesia da vida lisboeta, demonstrando reconhecido sentido de humor

(1881-1926)
Lisboa
Cortesia de prof2000

André Francisco Brun foi um humorista e escritor português de ascendência francesa.

André Brun seguiu a carreira militar alcançando a patente de major por distinção após a Primeira Guerra Mundial. Foi ainda agraciado com a Medalha da Cruz de Guerra. Foi um dos sócios fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores, em 22 de Maio de 1925.

Cortesia de cronicasportuguesas
A sua obra literária reparte-se entre o teatro e a crónica, centralizando-se nos aspectos comezinhos da pequena burguesia da vida lisboeta, demonstrando reconhecido sentido de humor. Foi autor de um grande número de peças teatrais, especialmente comédias e números de teatro de revista.

Uma das suas obras mais conhecidas, A Vizinha do Lado, foi adaptada ao cinema por António Lopes Ribeiro que também realizou esta película de 1945. O mesmo aconteceu com a obra A Maluquinha de Arroios, adaptada ao cinema por Alice Ogando para o filme homónimo realizado por Henrique Campos em 1970. Outras adaptações desta obra para a televisão foram efectuadas em 1977 e 1997.

Cortesia de cronicasportuguesas
Algumas Obras publicadas:
Contos e Crónicas
  • Sem Pés nem Cabeça;
  • Os Meus Domingos;
  • 1913 - Sumário de Várias Crónicas;
  • 1918 - A Maldade das Trincheiras;
  • 1927 - A Sogra do Barba Azul.
Livros
  • A Malta das Trincheiras;
  • Praxedes - Mulher e Filhos;
  • A Baixa às 4 da Tarde.
Teatro
  • 1913 - A Vizinha do Lado;
  • 1916 - A Maluquinha de Arroios.
http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2010/05/andre-brun-iii-o-epilogo.html

Cortesia de cronicasportuguesas

Cortesia de aeiouvisao

Cortesia de wikipédia/Infopédia/Crónicas Portuguesas/JDACT 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Romeu Correia: Destacou-se como ficcionista e dramaturgo. As suas obras são marcadas por uma forte ligação às fontes da literatura oral popular, decorrem frequentemente em ambientes como os do circo, das feiras, do teatro de fantoches ou outros grupos marginais à sociedade

(1917-1996)
Cacilhas
Cortesia de portugalweb
Romeu Henrique Correia foi escritor e dramaturgo autodidacta, colaborou em várias publicações, de que se destacam o Suplemento Cultural de O Comércio do Porto, Vértice e Sílex. Recebeu, entre outros, o Prémio 25 de Abril atribuído pela Associação de Críticos Teatrais em 1984.

Destacou-se como ficcionista e dramaturgo, inserindo-se inicialmente na corrente Neo-realista. As suas obras, marcadas por uma forte ligação às fontes da literatura oral popular, decorrem frequentemente em ambientes como os do circo, das feiras, do teatro de fantoches ou outros grupos marginais à sociedade. A estas características aliam-se, porém, técnicas dramáticas do teatro de vanguarda. Foi, nos últimos anos da sua vida, o dramaturgo mais representado por grupos amadores de teatro em Portugal.
Paralelamente à carreira de escritor, Romeu Correia foi Atleta de alta competição em Atletismo e Campeão Nacional de Boxe amador.


Cortesia de bibliotecaimaginaria
Romeu Correia não se deixou apanhar pela ignorância e também não consente que ela, impunemente, abafe os outros. Tem o verbo fácil, é um dinamizador. Intervém, mobiliza e começa a liderar o movimento associativo de Almada. Ainda durante a II Guerra Mundial, em 1943, com um grupo de jovens antifascistas funda a Biblioteca Popular da Academia Almadense e reorganiza a da Incrível Almadense. Numa e noutra colectividade promove recitais e conferências. Em 1947 publica o seu primeiro livro Sábado sem Sol, contos. Encaminha o lucro das vendas, não para o seu bolso, mas para as tesourarias da Academia e da Incrível.
 
Cortesia de odivelas-lisboa
«Generosidade, preocupação com o próximo, intervenção social, a luta contra a exploração e a tirania... O reflexo literário dessa atitude será sempre o neo-realismo! Será sempre? Os dogmáticos garantem que sim. Mas em 1962, com a peça O Vagabundo das Mãos de Oiro, Romeu Correia ousa mostrar que diferente pode ser o reflexo...
Lufada varre o palco, sopra a ingenuidade e o encanto dos «romances de cordel». Na feira, Mestre Albino arma a barraca. É ele o vagabundo criador dos fantoches de trapos e serradura. O seu boneco mais conseguido é Hortense. E não é que, só para seduzir e perturbar os humanos, de repente Hortense acorda, anima-se e toma vida própria?
Romeu acaba de entrar na antecâmara de um “realismo fantástico à portuguesa”. Pena que não tenha tempo, ou apetência, para esquadrinhar todas as possibilidades do reino cuja porta acabou de abrir...». In Fernando Correia da Silva
 
Cortesia de frenesilivros
A sua biografia pode ser encontrada nos mais completos e importantes dicionários de autores do Mundo como:
  • The International Authors and Writers Who's Who (Cambridge-Inglaterra);
  • Who's who in the World (Chicago- Estados Unidos da América);
  • Who's Who in Europe (Amesterdão - Holanda);
  • Dictionary of International Biography (Cambridge - Inglaterra).
De entre as suas Obras
  • Sábado sem Sol (contos, 1947);
  • Trapo Azul (romance, 1948);
  • Calamento (romance, 1950);
  • Gandaia (romance, 1952);
  • Casaco de Fogo (teatro, 1953);
  • Desporto-Rei (romance, 1955);
  • Céu da minha rua (Isaura) (teatro, 1955);
  • (::::)
  • Cravo Espanhol (1970);
  • Roberta (1971);
  • Francisco Stromp (biografia, 1973);
  • José Bento Pessoa (biografia, 1974);
  • (::::)
  • O Tritão (romance, 1982);
  • Grito no Outono (teatro, 1982);
  • O Andarilho das 7 Partidas (teatro, 1983);
  • O 23 de Julho (narrativa, 1986);
  • Portugueses na V Olimpíada (ensaio, 1988);
  • Cais do Ginjal (novela, 1989);
  • Palmatória (1995).
Cortesia de romeuj.wordpress

Cortesia de wikipédia/Fernando C. Silva/JDACT

sábado, 19 de junho de 2010

Beatriz Costa: A «Menina da Franja». Uma actriz de teatro e de cinema, sendo um «ícone da cultura popular lusa»

(1907-1996)
Charneca do Milharado, Mafra
Cortesia de citi
Beatriz Costa, pseudónimo de Beatriz da Conceição foi uma actriz de teatro e de cinema, sendo um ícone da cultura popular lusa.
Estreou-se no teatro de revista aos quinze anos, como corista em Chá e Torradas (1923), no Éden Teatro. No ano seguinte, em 1924, actua pela primeira vez no Teatro Maria Vitória (Parque Mayer) na revista Rés Vés, após o que ingressa na companhia do Teatro Avenida estreando-se, no mesmo ano, no Rio de Janeiro onde é felicitada pela imprensa e pelos espectadores, nomeadamente nas revistas Fado Corrido e Tiro ao Alvo.
De regresso a Lisboa (1925) ocupa um lugar de destaque ao lado de Nascimento Fernandes em Ditosa Pátria, no Teatro da Trindade. Em Agosto do mesmo ano a Companhia do Trindade segue para o Porto apresentando-se no Sá da Bandeira e Beatriz faz a sua primeira ida como artista à cidade Invicta.
Em Outubro de 1925 integra uma Companhia de operetas sediada no Teatro São Luiz. De regresso à revista, passa pelos teatros Éden e Maria Vitória nas revistas Fox Trot, Malmequer, Olarila, Revista de Lisboa e Sete e Meio.
Em 1927, traduzindo uma moda cinéfila, aparece pela primeira vez de franja e estreia-se no cinema em papéis episódicos de filmes de Rino Lupo - O Diabo em Lisboa - e, ainda no mesmo ano, havia dançado um tango em Fátima Milagrosa (do mesmo realizador) ao lado de Manoel de Oliveira.
Passou pelo Teatro Apolo, transferindo-se depois com a Companhia de Eva Stachino para o Trindade. Aí se fez Pó de Maio , onde conheceu o maior êxito de popularidade com o celebrado número D. Chica e Sr. Pires ao lado de Álvaro Pereira.
Cortesia de tertuliadogarcia
Na sua segunda digressão ao Brasil (1929), com a Companhia de Eva Stachino, ao Rio de Janeiro, foi recebida sobre as mais efusivas manifestações e relembrada a sua revelação como actriz nos grandes órgãos de imprensa da América do Sul. Após breve incursão aos palcos de São Paulo, Beatriz é convidada por Procópio Ferreira, comediante de relevo no teatro brasileiro, para ficar a trabalhar no Rio de Janeiro integrando o elenco da sua Companhia de comédias; mas a proposta seria recusada.
De volta ao Continente, e ainda neste ano, Beatriz Costa aparece no documentário Memória de uma Actriz (com base nos artigos que já escrevia para O Século a contar episódios da sua carreira). Em 1930 participa no filme Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. Em Dezembro de 1930, durante a visita de Ressano Garcia, gerente da Paramount em Lisboa, recebe um convite de Blumenthal e San Martin para um contrato muito vantajoso para o papel da protagonista de A Minha Noite de Núpcias (da versão original Her Wedding Night de Frank Tuttle e que na versão portuguesa foi dirigida por Alberto Cavalcanti), o terceiro fonofilme em português, a realizar-se em França.
Recebendo sempre provas de apreço desde o pessoal dos estúdios à mais considerada vedeta destaca das suas colegas estrangeiras Olga Tsehekova e Camila Horn.
Deixa a Companhia e é contratada por Corina Freire para participar nos êxitos de revistas como A Bola, Pato Marreco, O Mexilhão ou Pirilau. Em 1937 Beatriz ganha, ao lado de Vasco Santana, os votos de preferência dos cinéfilos portugueses e são eleitos «príncipes do cinema português». Dois anos depois, em 1939, protagoniza A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia, aquele que seria o seu último filme. É a partir da década de 1960 que começa a viajar por todo o mundo, assistindo a festivais de teatro, de Ocidente a Oriente. Conheceu personalidades como Salvador Dali, Pablo Picasso, Sophia Loren, Greta Garbo, Edith Piaf ou o Rei Hassan II de Marrocos.
Cortesia de citti
Depois da Revolução dos Cravos - quando já vivia no Hotel Tivoli, onde viveu até morrer - começou a publicar livros sobre a sua espantosa vida, aconselhada e incentivada por Tomás Ribeiro Colaço. Ela que aprendera a ler aos 13 anos de idade e sozinha, seguindo a sua ambição de saber, começou a sua alfabetização à mesa do Café A Brasileira, rodeada por figuras como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, entre outros.
Após o seu reaparecimento num espectáculo da Casa da Imprensa que decorreu no Coliseu dos Recreios foi sistematicamente solicitada pelos órgãos de comunicação social e espantou-se com as óptimas reacções do público leitor em relação a essa outra faceta da sua vida - escrever.


Cortesia de artesetima
«Recorde-se que a irreverente «menina da franja», como é conhecida, nasceu na localidade de Charneca do Milharado, Concelho de Mafra, onde passou os primeiros anos da sua infância. Contudo, a artista nunca renegou as suas humildes origens rurais, tanto mais que as suas ligações afectivas ao Concelho de Mafra foram constantemente reafirmadas. A 24 de Setembro de 1934, inaugurou o Cine-Teatro Beatriz Costa na Malveira, facto de que muito se orgulhava. Por volta de 1950, contribuiu para a construção da escola primária da Charneca do Milharado, sua terra natal. As suas visitas ao concelho eram regulares; durante anos consecutivos assistiu à volta em bicicleta “As Cinco Voltas a Mafra”; foi convidada de honra em vários cortejos dos Bombeiros de Mafra, a que presidia na qualidade de madrinha; visitou frequente e entusiasmadamente a Aldeia-Museu do mestre barrista José Franco, bem como as oficinas de outros oleiros, assim como foi convidada para madrinha do Rancho Folclórico do Milharado; em 1993, inaugurou o Auditório Municipal Beatriz Costa. A existência de um museu no Concelho com o seu nome, albergando artefactos alusivos à sua pessoa, é um testemunho do seu amor pelos seus conterrâneos. O espólio aí exibido foi doado pela actriz, ainda em vida, ao povo da Malveira, integrando o Museu Popular Beatriz Costa que, actualmente, está sedeado na Casa de Cultura da Malveira e cuja tutela pertence à Câmara Municipal». In CMMafra.


Cortesia da CMMafra
«Actriz carismática, Beatriz Costa foi uma sedutora de plateias. Estreou-se como corista aos 15 anos, mas antes de alcançar o reconhecimento do público tinha sido ajuntadeira e bordadeira. Consolidou a sua imagem em “A Canção de Lisboa” e ganhou, ao lado de Vasco Santana, a preferência dos cinéfilos. Deixou para a posteridade a imagem de pessoa calorosa, maliciosa e irreverente - além do corte de cabelo que a tornou inconfundível. Depois do 25 de Abril começou a publicar livros sobre a espantosa história da sua vida. «Foi o Sol dos anos negros da ditadura», resume a escritora Inês Pedrosa». In RTP.

Os filmes em que participou:
  • A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia (1939);
  • O Trevo de Quatro Folhas, de Chianca de Garcia (1936);
  • A Canção de Lisboa, de José Cotinelli Telmo (1933);
  • Minha Noite de Núpcias, de E. W. Emo (1931);
  • Lisboa, de J. Leitão de Barros (1930);
  • Fátima Milagrosa, de Rino Lupo (1928);
  • O Diabo em Lisboa, de Rino Lupo (1926).
Os seus livros:
  • «Sem Papas na Língua» (1975);
  • «Quando os Vascos Eram Santanas… e Não Só» (1977);
  • «Mulheres Sem Fronteiras» (1981);
  • «Nos Cornos da Vida» (1984).

Cortesia do ranchodomilharado

Cortesia da CMMafra/JDACT

sábado, 20 de março de 2010

Gil Vicente: O «Pai» do teatro português

(1465?-1536?)
Gil Vicente é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta inovador. Há quem o identifique com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano, partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina.
Inicialmente, Gil Vicente, surge como um primitivo e ingénuo autor dramático, o seu teatro segue o ritmo de desenvolvimento de dotes poéticos. A sua formação é gradual a partir do Monólogo do Vaqueiro, breve representação na corte com várias personagens mudas, mas um único actor, até às às peças mais complexas como Auto da Feira, Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela, Comédia dos Agravados e Farsa de Inês Pereira. Os temas do teatro de Gil Vicente, tal como os ambientes, situações e figuras são extremamente variados: poeta da corte, mas bom filho do povo, tudo quanto podia interessar a nobres ou a plebeus foi um tema que sob explorar com mestria. As personagens sucedem-se, quase numa confrontação entre as virtudes e os vícios, o sacerdote digno ou o clérigo mesquinho, o lavrador rico ou o mísero trabalhador da terra, o homem sábio ou o homem rude e ignorante, o ajuizado e o parvo, a mãe dedicada, a mulher intriguista, a riqueza egoísta ou a pobreza sem mercê, de entre outras personagens.
Muitos investigadores têm comparado Gil Vicente com Camões em virtude do génio dos dois poetas. Os maiores do seu século em Portugal, quiçá, da própria Península Ibérica.
No teatro vicentino a inspiração religiosa é o mote principal. O dramaturgo é o herdeiro dos milagres e mistérios medievais em que a santificação das almas coabitam com o sofrer e o próprio riso. Em três peças essenciais culmina o teatro poético religioso de Gil Vicente: a Trilogia das Barcas (do Inferno, do Purgatório e da Glória) o Auto da Alma e o Breve Sumário da História de Deus.
Como ocorre com todos os poetas dramáticos, há no nosso poeta uma íntima harmonia do que se chama fundo e forma.
JDACT/FCG

segunda-feira, 15 de março de 2010

Raul Solnado: O génio do humor português

(1929-2009)
Raul A. A. Solnado nasceu em Lisboa a 19 de Outubro de 1929 e morre nesta cidade a 8 de Agosto de 2009, na sequência da evolução de um quadro clínico cardio-vascular grave. Tinha 79 anos. Foi um humorista, apresentador de televisão, actor português, produtor e roteirista. 
Unanimemente reconhecido como um dos maiores nomes do humor português, começou a fazer teatro amador no Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul (1947) e profissionalizou-se em 1952. Construiu uma carreira como artista de variedades e teatral, não pondo de lado a sua via humorística na rádio e na música. A sua passagem pela televisão ficou marcada pelos programas Zip Zip, A Visita da Cornélia ou ainda O Resto São Cantigas.
Até à sua morte foi director da Casa do Artista, em Lisboa, Carnide, instituição que fundou em 1999 juntamente com Armando Cortez, entre outros actores.



Raul Solnado, foi pioneiro em Portugal de uma original e única forma de fazer humor. O povo sempre apreciou o seu talento, quer no «modo» como foi à guerra de 1908, quer na singularidade como cantou malmequeres. No ar e nas almas, ainda «habita» o som libertador de uma saudável gargalhada.
O espólio artístico privado de Raul Solnado começou ontem a ser mostrado no Palácio do Correio Velho, Lisboa, onde será leiloado na quarta e quinta-feira, (dias 17 e 18, às 21h e 15h, respectivamente). O objectivo deste evento é criar um fundo para a criação de uma Escola de Teatro.

Pintura de Maluda, 1966
JDACT