Mostrar mensagens com a etiqueta Enigma. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Enigma. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de novembro de 2019

O Segredo de Versálio. Jordi LLobregat. «Pai..., o que içámos para a barca? Tão certo como Cristo ser Deus, não faço a mais pequena ideia. De repente, o corpo da criatura foi iluminado…»

jdact

1888. Barcelona. Port Vell. Perto do cais de Lazareto
«(…) O rapaz correu pela coberta e puxou o pano que tapava a lanterna. A luz mostrou uma criatura que flutuava junto à caixa, agarrada às cordas para se manter à superfície. O rosto, onde dois buracos negros ocupavam o lugar dos olhos, contorceu-se numa careta grotesca quando tentou falar mas, em vez de palavras, da boca saiu um balbucio ininteligível, seguido por um gemido. Não parecia capaz de aguentar muito mais tempo o embate das ondas. Ao cabo de um instante de hesitação, o velho ordenou ao filho: mantém a caixa quieta. O rapaz não se mexeu. Lívido, não conseguia desviar os olhos do monstro. Nesse instante, uma nova onda voltou a afastá-los. Raios, filho! Pai, tem..., tem a certeza? A caixa começava a afundar-se. Vinga!
O rapaz tornou a pegar no croque e, cravando o gancho na madeira da caixa, segurou-a contra o costado da barca. Entretanto o pai, firmando as pernas debaixo do banco, agarrou com ambas as mãos o braço que a criatura lhe estendia. O contacto era frio e escorregadio. O velho fechou os olhos, encheu o peito de ar e puxou com força. A criatura rolou pela coberta até ficar deitada de costas. Em vez de uma cauda de peixe, como o velho esperava, tinha pernas. Estava nua, não tinha pêlos e a pele era tão branca que parecia transparente. No ventre destacavam-se os bordos enegrecidos de uma ferida terrível. Fez lembrar ao rapaz os peixes escamados no mercado. O velho aproximou-se com cuidado, inclinou-se e tacteou aquele torso, a tentar encontrar algum sinal de vida. Estremeceu ao reparar nas outras feridas que se cruzavam no peito. Pressionou ao de leve e a sua mão enterrou-se na carne como em manteiga. Um cheiro nauseabundo emanou do interior. O velho afastou-se aos tropeções até cair contra as caixas de tabaco, mal conseguindo controlar o horror. O filho apressou-se a ajudá-lo e, agarrados um ao outro, observaram a maltratada figura imóvel.
Pai..., o que içámos para a barca? Tão certo como Cristo ser Deus, não faço a mais pequena ideia. De repente, o corpo da criatura foi iluminado por um clarão que traçou por baixo da pele um desenho semelhante aos ramos de uma árvore. Depois de piscar por um instante, a luz desapareceu tal como tinha aparecido. Pai e filho benzeram-se ao mesmo tempo.

Regresso
É tudo, meus senhores.
O barulho dos bancos arrastados quebrou o silêncio da sala. Na tribuna, o jovem professor juntou os seus papéis e guardou-os na pasta enquanto observava o desfile dos estudantes a caminho da porta. Bem queria manter a seriedade, mas o sorriso traía-o. Acabava de concluir a sua segunda semana de aulas na universidade, a mesma onde se formara poucos meses antes. Aproximou-se de uma das grandes janelas. Lá fora, nuvens escuras cobriam o céu mas, ao contrário de outros dias, aquele manto cinzento não diminuiu a felicidade que sentia. Percorrera um longo e tortuoso caminho para chegar àquele púlpito e, por todos os deuses, merecera-o! Passou o olhar pelos edifícios do campus. Preparava-se para deixar escapar um suspiro de satisfação quando ouviu uma voz chamá-lo: professor Amat! Voltou-se. Um estudante esperava, à porta da sala. Sim? Desculpe, professor, sir Edward mandou-me chamá-lo. Vou já. Que bem soava. Professor. Professor e membro do Magdalene College, um dos mais prestigiados colégios da Universidade de Oxford.
A substituir o doutor Brown, infelizmente achacado pela gota, mas isso em nada diminuía a importância do facto. Não tardaria a conseguir o seu lugar. A oportunidade já se apresentara e não tencionava deixá-la escapar. Recolheu as suas coisas e saiu da sala onde passaria o trimestre a dar aulas de grego. No corredor, notou os olhares que o seguiam. Os alunos ainda o olhavam com curiosidade. Quando saiu do edifício ajustou a toga. A chuva, acompanhada por um vento gelado, varria o campus. Apesar de Abril chegar ao fim, os dias continuavam frios. Seguiu o caminho de terra com passos rápidos, consciente do rumor que vinha do interior das salas de aula e se espalhava por todo o college. O ano lectivo estava no seu apogeu. Deixou à direita a capela onde o coro ensaiava e passou pelo pórtico que dava acesso a um pátio rodeado por edifícios cobertos de hera. Sem hesitar virou para o caminho de saibro que atravessava o canteiro em diagonal. Estava a ficar encharcado, mas não se importou. Sentia-se tão bem que só tinha vontade de saltar.
Walter abriu-lhe a porta ao vê-lo aproximar-se. O velho era uma autêntica instituição no colégio. Os estudantes diziam que desempenhava as funções de porteiro desde a fundação da universidade, o que era muito improvável tendo em conta que isso acontecera quatrocentos anos antes. No entanto, aquele corpo engelhado como uma passa e o rosto deformado por inúmeras e fundas rugas faziam-no por vezes perguntar-se se o rumor não teria um fundo de verdade. O velho era bem conhecido pelas suas traficâncias; conseguia arranjar tabaco, bebidas ou fosse o que fosse, pelo preço adequado. Claro que o colégio proibia estas transacções, pelo que o negócio de Walter prosperava. Senhor Amat... Oh, perdão. O seu meio sorriso traiu-o. Profesor Amat... Daniel inclinou a cabeça e cumprimentou-o por sua vez. Sabia que apesar de o considerar um maldito estrangeiro, como lhe chamara da primeira vez que o vira, o velho gostava dele. Senhor Walter, como está esta manhã?» In Jordi LLobregat, O Segredo de Versálio, 2014/2015, Planeta Manuscrito, 2016, ISBN 978-989-657-874-9.

Cortesia de PlanetaManuscrito/JDACT

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O Segredo de Versálio. Jordi LLobregat. «Deixaram Montjuic a bombordo e a cidade, até então invisível, foi surgindo pouco a pouco de entre a neblina. O velho conduziu a embarcação para perto do cais do Lazareto»

jdact

1888. Barcelona. Port Vell. Perto do cais de Lazareto
«Depois de esquadrinhar as sombras pela terceira vez, o velho praguejou entredentes. O silêncio rodeava-o, um silêncio que só era perturbado pelo chapinhar da água contra o casco. A chuva, açoitada pelo vento, caía em grandes bátegas sobre a barca e encharcava a tolda e as caixas de tabaco armazenadas por baixo. Aquela hora, quando a manhã começava a insinuar-se, a bruma envolvia Port Vell e o cais, e as embarcações fundeadas e os edifícios dos arsenais eram apenas borrões; mal se distinguia a linha da costa e cabotar tão perto dos paredões do porto era muito arriscado. Mas ele já o fizera centenas de vezes, e voltaria sem dúvida a fazê-lo outras tantas. Não era isso que o preocupava. O que o fazia sentir-se como se tivesse lastro no estômago era a certeza de que naquela noite alguma coisa ia correr muito mal. Levantou-se vento e o mar encrespou. Os olhos do velho, rodeados por uma infinidade de rugas, perscrutaram a embarcação desde a proa, onde o filho dormia, até à vela de algodão, bem presa ao mastro, que começou a drapejar. O velho puxou o cabo com a perícia que a experiência dava e depois de verificar, satisfeito, que o pano voltava a enfunar, amarrou-o à abita de madeira. Cerrou as mãos e os dedos protegidos por luvas de lã protestaram como cordas velhas. A humidade entranhava-se-lhe nos ossos, tornando inúteis as pesadas roupas que vestia. Suspirou. Aquele trabalho tornava-se-lhe cada vez mais pesado, em breve deixaria de poder manobrar a barca. Na verdade, adivinhava que não chegaria a ver o fim do século, nem as maravilhas que todos anunciavam, ainda que, quem queria saber daquelas malditas máquinas? Que louco podia acreditar que aqueles artefactos barulhentos eram melhores do que os braços de um homem? Cuspiu para a água e virou o leme uma quarta.
Deixaram Montjuic a bombordo e a cidade, até então invisível, foi surgindo pouco a pouco de entre a neblina. O velho conduziu a embarcação para perto do cais do Lazareto, onde o esperavam para descarregar, escondidos das vistas do castelo e dos vapores que àquela hora começavam a cruzar o porto. A corrente empurrou-os para as rochas. Agarrava a cana do leme para corrigir o rumo quando um movimento à superfície lhe captou a atenção. Perto da doca a névoa era menos densa e conseguiu distinguir o quebra-mar, salpicado de espuma A poucos metros, entre madeiras e restos de aparelhos, flutuava um volume de grandes dimensões. No instante seguinte, o mar cobriu-o e não voltou a emergir. O velho deu um estalo com a língua e esperou. Não seria a primeira vez que um navio mercante perdia parte da carga. Um golpe de sorte para os que a encontravam. O tempo passou e, de má vontade, o velho começou a pensar que a imaginação lhe pregara uma partida. Preparava-se para tirar a barca da corrente quando ouviu um chapinhar. O volume reapareceu, dessa vez várias braças mais perto, a balouçar na ondulação. O velho rasgou mais o sorriso, a mostrar os dentes enegrecidos, e rodou o leme. Ao aproximar-se, verificou que se tratava de uma caixa de carvalho do tamanho de uma barrica de vinho. Pelos selos gravados na madeira, deduziu que era francês. As grossas cordas que a amarravam continuavam bem atadas, o que significava que se mantinha estanque, um ponto muito importante: a mercadoria que continha não estaria estragada pela água. Os franciús costumavam transportar porcelanas, tecidos de qualidade e bebidas. Qualquer destas mercadorias proporcionaria um bom lucro. Fixou o leme e olhou para o filho. Apa, levanta-te e pega no croque.
O rapaz olhou para ele sem compreender até que avistou a grande caixa a boiar ao lado da barca. Levantou-se aos tombos e procurou debaixo do banco. Depois de afastar a rede de pesca e algumas cordas, pegou numa comprida vara que terminava numa ponta de ferro com gancho. Seguindo as instruções do pai, estendeu o croque até conseguir apanhar uma das cordas que amarravam a caixa. O velho, munido de um croque mais pequeno, ajudava do outro lado. Pouco a pouco, arrimaram a caixa ao costado e prepararam-se para içá-la para bordo. Vá. Com cuidado... Santo Deus! Uma garra antropomórfica de dedos afilados agarrou o braço do velho, que ficou a olhar, paralisado pela incredulidade, enquanto aquilo o puxava para a água escura. Antes que pudesse reagir, uma onda fez balouçar a barca e a fantasmagórica aparição desvaneceu-se diante dos seus olhos como se nunca tivesse existido». In Jordi LLobregat, O Segredo de Versálio, 2014/2015, Planeta Manuscrito, 2016, ISBN 978-989-657-874-9.

Cortesia de PlanetaManuscrito/JDACT

sábado, 7 de setembro de 2019

A Regra de Quatro. Ian Caldwell e Dustin Thomason. «Trabalhámos juntos no livro durante alguns meses no Inverno, e progredimos bem como equipe. Só então compreendi algo que minha mãe costumava dizer: que os homens na minha família têm uma tendência para apaixonar-se por certos livro…»

jdact

«(…) Sentado no chão ele é quase tão alto quanto eu no divã. Quando estamos perto um do outro ele parece um Otelo que tomou esteroides, um negro de 100 quilos que raspa no umbral da porta com os seus 2 metros. Por contraste eu tenho 1,70 metro, de sapatos. Charlie gosta de nos chamar de Gigante Vermelho e Pigmeu Branco, porque um gigante vermelho é uma estrela extraordinariamente grande e brilhante, enquanto um pigmeu branco é pequeno, compacto e embotado. Tenho de lembrá-lo que Napoleão tinha somente 1,57 metro, mesmo se Paul estiver certo ao dizer que, se convertermos a medida de pés ingleses para pés franceses, o imperador seria, na verdade, mais alto. Paul é o único que não está no quarto agora. Ele desapareceu logo cedo e não foi visto desde então. As coisas entre nós estiveram meio complicadas no mês que passou, e com toda a pressão académica nos últimos tempos, Paul optou por estudar durante a maior parte do tempo em Ivy, o clube-restaurante do qual ele e Gil são membros. Ele está a trabalhar na sua tese de último ano, que todo o estudante de Princeton deve apresentar para se formar. Charlie, Gil e eu teríamos de fazer o mesmo, salvo que a data-limite do nosso departamento já havia passado. Charlie identificou uma nova interação de proteína em certos neurónios que sinalizam caminhos; Gil conseguiu algo no ramo tributário. Eu terminei o meu trabalho no último minuto entre requerimentos e entrevistas, e estou certo de que as bolsas de estudo da Fundação Frankenstein continuarão sempre as mesmas. A tese académica de grau é uma instituição que quase todos desprezam. Ex-alunos falam sobre as suas teses saudosamente, como se não pudessem lembrar de nada mais divertido do que escrever trabalhos de pesquisa de cem páginas enquanto assistem a aulas e escolhem o seu futuro profissional. Na verdade, uma tese académica de grau é uma coisa miserável, um verdadeiro sufoco para escrever. É uma introdução para a vida adulta, disse um dia um professor de sociologia para mim e Charlie, daquele jeito chato que professores têm de fazer prelecção depois que a aula expositiva terminou: é sobre assumir algo tão grande que não se consegue esquivar. Chama-se responsabilidade, ele disse. Experimente para ver se lhe serve. Não importa se a única coisa que ele estava experimentando, para ver lhe servia, era uma bela estudante que estava orientando chamada Kim Silverman. Tudo era sobre responsabilidade. Tenho que concordar com o que Charlie disse na época. Se Kim Silverman é o tipo de coisa da qual os adultos não podem se esquivar, então eu topo. Caso contrário, arriscarei permanecer criança para sempre. Paul foi o último a terminar a sua tese, e não há dúvida de que a sua será a melhor do grupo. De facto, provavelmente a melhor de toda a nossa classe de formandos no departamento de história ou qualquer outro. A magia da inteligência de Paul reside em que ele é mais paciente do que qualquer outra pessoa que conheci e simplesmente vence os problemas.
Contar cem milhões de estrelas, disse-me ele uma vez, à velocidade de uma por segundo, parece um trabalho que ninguém é capaz de completar durante uma vida. Na verdade, levaria só três anos. A chave é concentração, uma disposição para não se distrair. E esse é o talento de Paul: uma intuição de quanto exactamente uma pessoa pode fazer lentamente. É talvez por isso que todos têm tantas expectativas sobre a sua tese, eles sabem quantas estrelas Paul poderia contar em três anos, embora esteja trabalhando na sua tese já há quase quatro. Enquanto o estudante médio pensa num tema, para a sua tese, no outono do ano de graduação e trabalha nele na primavera seguinte, Paul vem lutando com o seu tema desde o tempo de caloiro. Faltando somente poucos meses para o nosso primeiro semestre de Outono, ele decidiu-se centrar num raro texto da Renascença intitulado Hypnerotomachia Poliphili, um nome labiríntico que consigo pronunciar apenas porque o meu pai gastou muito tempo da sua carreira, como historiador da Renascença, estudando-o. Três anos e meio mais tarde, e só vinte e quatro horas antes de seu último prazo, Paul tem suficiente material para deixar babando até mesmo o programa de graduação mais crítico. O problema é que, segundo ele, eu deveria estar também desfrutando das honras.
Trabalhámos juntos no livro durante alguns meses no Inverno, e progredimos bem como equipe. Só então compreendi algo que minha mãe costumava dizer: que os homens na minha família têm uma tendência para apaixonar-se por certos livros quase tão fortemente quanto se apaixonam por uma mulher. O Hypnerotomachia pode não ter muito encanto visível, mas ele tem a astúcia da mulher feia, a lenta e crescente atracção pelo mistério interior que vicia. Quando me peguei resvalando no mesmo caminho de meu pai, consegui desvencilhar-me e admitir derrota antes que pudesse arruinar a minha relação com uma namorada que merecia algo melhor. Desde então as coisas entre mim e Paul não foram mais as mesmas». In Ian Caldwell, Dustin Thomason, A Regra de Quatro, Hypnerotomachia Poliphili, Grandes Narrativas, Editorial Presença, 2004, ISBN 978-972-233-263-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A Regra de Quatro. Ian Caldwell e Dustin Thomason. «À minha frente, sobre a mesa do café, duas cartas, cada uma trazendo na sua proposta a perspectiva do que eu poderia vir a fazer no ano seguinte»

jdact

«(…) À primeira vista este parece ser um destino vulgar, ser usado como meio de pregar uma peça em mulheres idosas. Mas imagino que Rodrigo e Donato ficaram muito mais famosos morrendo dessa maneira do que se tivessem permanecido vivos. Porque as viúvas, em todas as civilizações, são as donas da memória, e as que encontraram as cabeças no forno do padeiro certamente nunca esquecerão o acontecido. Mesmo quando o padeiro confessou o que havia feito, as viúvas devem ter continuado a contar a história da sua descoberta para as crianças de Roma, as quais, durante toda uma geração, se recordaram do conto das cabeças milagrosas tão vividamente quanto do monstro expelido pelas enchentes do Tibre. E, embora a história dos dois mensageiros fosse eventualmente esquecida, uma única coisa era certa. O maçom executou o seu trabalho a contento. O segredo do seu senhor, qualquer que fosse, jamais deixou San Lorenzo. Na manhã seguinte ao assassinato de Rodrigo e Donato, quando o lixeiro juntou lixo e vísceras no seu carrinho de mão, pouco se soube sobre a morte de dois homens. O lento ciclo que avança da beleza para o declínio e de novo para a beleza prosseguiu e, como os dentes da serpente que Cadmus semeou, o sangue do mal regou a terra romana e provocou o Renascimento. Quinhentos anos decorreram antes que alguém descobrisse a verdade. Quando os cinco séculos se passaram, e a morte encontrou um novo par de mensageiros, eu estava terminando o meu último ano na universidade de Princeton.

Que estranho, o tempo. Ele pesa mais sobre os que menos o têm. Nada é mais leve do que ser jovem com o mundo sobre os ombros; isso nos dá um sentimento de possibilidade muito sedutor, nos tornamos conscientes de que deve haver algo mais importante que poderíamos estar fazendo do que estudar para exames académicos. Posso ver agora a mim mesmo, na noite em que tudo começou. Estou deitado no velho sofá vermelho no nosso dormitório, lutando com Pavlov e os seus cães no meu livro de introdução à psicologia, procurando entender por que nunca preenchi o meu requerimento de conhecimento teórico e prático quando caloiro, como os demais colegas. À minha frente, sobre a mesa do café, duas cartas, cada uma trazendo na sua proposta a perspectiva do que eu poderia vir a fazer no ano seguinte. Sob o frio de Abril que fazia em Princeton, New Jersey, a noite de Sexta-Feira da Paixão havia chegado, e, a apenas um mês de terminarem as aulas não sou diferente de qualquer outro da classe de 1999: é difícil não pensar no futuro. Charlie está sentado no chão perto do frigorífico, jogando com o Shakespeare Magnético que alguém esqueceu no nosso quarto na semana anterior. A novela de Fitzgerald que ele deveria estar lendo para o seu trabalho final no curso de inglês está aberta no chão, a lombada dobrada como uma borboleta que tivessem pisado, e ele está formando e reformulando sentenças com os ímãs das palavras shakespearianas. Se lhe perguntarem porque não está lendo Fitzgerald, ele resmungará e dirá que não há interesse. Para ele, a literatura é como um jogo de apostas do homem culto, um jogo de trapaça de três cartas para a turma de universitários, no qual o que se vê nunca é o que se obtém. Para um rapaz com propensão científica como Charlie, isso é o cúmulo da perversidade. Ele vai para a escola de medicina no Outono, mas todos nós ainda estamos ouvindo a respeito da nota apenas suficiente que ele alcançou no seu teste de inglês em Março, no meio do semestre. Gil relanceia o olhar sobre nós e sorri. Finge estar estudando para um exame de economia, mas na TV estão passando a Bonequinha de Luxo e Gil tem uma queda por filmes antigos, especialmente aqueles com Audrey Hepburn. O seu conselho para Charlie foi directo: se você não quer ler o livro, então alugue o filme. Eles nunca saberão. Provavelmente, ele está certo, mas Charlie vê nisso algo de desonesto, e de todo o modo isso o impediria de queixar-se sobre a fraude que é a literatura; assim em lugar de Daisy Buchanan estamos assistindo a Holly Golightly, mais uma vez. Resolvo reagrupar algumas das palavras de Charlie até que a sentença no alto do frigorífico mostre fracassar ou não fracassar: eis a questão. Charlie levanta a cabeça e lança-me um olhar desaprovador». In Ian Caldwell, Dustin Thomason, A Regra de Quatro, Hypnerotomachia Poliphili, Grandes Narrativas, Editorial Presença, 2004, ISBN 978-972-233-263-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 27 de março de 2016

A Regra de Quatro. Ian Caldwell e Dustin Thomason. «… se uma rã cair num poço de cinquenta pés de profundidade e tiver de trepar para sair, avançando três pés por dia e recuando dois por noite, quantos dias precisa para sair do poço?»

jdact

«Distinto leitor, ouve Poliphilo contar os seus sonhos, sonhos enviados pelos mais altos céus. Não perderás o teu tempo, nem ao ouvir te aborrecerás, porque este trabalho maravilhoso é em coisas fértil. Se, austero e severo, desprezas histórias de amor, acredita, peço-te, que aqui as coisas respeitam a sua ordem. Recusas? Mas ao menos o estilo, com a sua linguagem romanceada, discurso austero e sabedoria, é digno de atenção. Se também isto recusares, atende à geometria, às muitas coisas antigas aqui desenhadas em símbolos nilóticos... Aqui verás os palácios perfeitos que pertenceram a reis, a veneração de ninfas, fontes e ricos banquetes. Os guardas dançam, em trajos de variegadas cores, e o todo da vida humana exprime-se em labirintos sombrios». In Elegia Anónima ao Leitor, Hypnerotomachia Poliphili

«O meu pai, suponho que como muitos de nós, passou a maior parte da vida a juntar as peças de uma história que nunca iria compreender. Essa história começou quase cinco séculos antes de eu ter entrado para a faculdade e veio a terminar muito depois da morte do meu pai. Numa noite de Novembro de 1497, dois mensageiros cavalgavam, deixando para trás as sombras do Vaticano para se dirigirem a uma igreja chamada San Lorenzo, fora das muralhas de Roma. O que aconteceu nessa noite mudou os seus destinos e o meu pai acreditava que podia também mudar o seu. Eu nunca dei muita importância a essas convicções. Um filho é a promessa que o tempo faz a um homem, a garantia que cada pai recebe de que seja o que for a que ele tenha especial apego será um dia considerado uma loucura e que a pessoa que ele mais ama no mundo nunca o irá compreender. Mas o meu pai, um humanista do Renascimento, nunca pôs em causa a possibilidade de renascer. Ele contou tantas vezes a história dos dois mensageiros que, mesmo que eu quisesse, nunca a poderia esquecer. Compreendo agora que ele sentia que ela continha uma lição, uma verdade que haveria finalmente de estabelecer uma ligação entre nós. Os mensageiros tinham sido enviados a San Lorenzo para entregar a carta de um nobre, carta essa que não deveriam abrir, sob pena de isso lhes custar a vida. A carta fora selada quatro vezes com lacre preto e parecia conter um segredo que mais tarde o meu pai iria passar três décadas a tentar descobrir. Mas nesses tempos as trevas tinham-se abatido sobre Roma; o sentido da honra tinha-a abandonado e não regressara. No tecto da Capela Sistina estava ainda pintado um céu estrelado e as chuvas apocalípticas tinham feito transbordar o rio Tibre, em cujas margens aparecera, pelo menos assim afirmavam as velhas viúvas, um monstro com corpo de mulher e cabeça de burro. Os dois cavaleiros ambiciosos, Rodrigo e Donato, não haviam dado atenção aos avisos do seu senhor. Derreteram os selos de lacre com uma vela e abriram a carta para conhecerem o seu conteúdo. Antes de partirem para San Lorenzo, voltaram a selar a carta com toda a perfeição, reproduzindo o selo do nobre com tanto rigor que era impossível descobrir a falsificação. Se o seu senhor não fosse um homem tão avisado, os dois correios teriam certamente sobrevivido. Porque não eram os selos que iriam deitar a perder Rodrigo e Donato. Era o lacre forte e negro em que tinham sido gravados. Quando chegaram a San Lorenzo, veio ao encontro dos mensageiros um artesão que sabia o que o lacre continha: um extracto de uma erva venenosa chamada erva-moira, que, quando aplicado nos olhos, dilata as pupilas. Actualmente o composto é usado em medicina, mas nesses tempos era utilizado pelas mulheres italianas como cosmético porque as pupilas grandes eram consideradas sinal de beleza. Foi essa prática que deu à planta o outro nome por que é conhecida: «mulher bela», ou beladona. Quando Rodrigo e Donato desfizeram e voltaram a fazer os selos, ficaram expostos ao efeito do fumo do lacre derretido. Quando chegaram a San Lorenzo, o artesão levou-os até ao pé de um candelabro, junto do altar. Quando viu que as suas pupilas não se contraíam, soube o que é que eles tinham feito. E, apesar de os dois homens se esforçarem por reconhecer o artesão através da sua visão desfocada, este fez o que lhe tinha sido ordenado: pegou na espada e decapitou-os. Era um teste de confiança, dissera o senhor, e os mensageiros tinham reprovado.
O que acontecera a Rodrigo e Donato, soube-o o meu pai pela leitura de um documento que descobriu pouco tempo antes de morrer. O artesão cobriu os corpos dos homens e arrastou-os para fora da igreja, enxugando o sangue com panos e farrapos. Colocou as cabeças em dois alforges, um de cada lado da sua montada; quanto aos corpos, atravessou-os em cima dos próprios cavalos de Donato e Rodrigo, que atrelou ao seu. Encontrou a carta no bolso de Donato e queimou-a porque se tratava de um documento forjado e não existia na verdade qualquer destinatário. Depois, antes de partir, ajoelhou-se em penitência em frente da igreja, horrorizado pelo crime que cometera em nome do seu senhor. Aos seus olhos, as seis colunas de San Lorenzo, separadas pelas aberturas entre elas, surgiam como dentes negros e aquele simples artesão admitiu que tremia perante esta visão porque, em criança, sentado no colo das viúvas, tinha ouvido contar que Dante vira o inferno e que o castigo dos maiores pecadores era ser triturado para a eternidade nas mandíbulas de lo ’mperador del doloroso regno. Talvez o velho São Lourenço tivesse finalmente olhado do seu túmulo e, ao ver as mãos do pobre homem cobertas de sangue, lhe tivesse perdoado. Ou talvez não houvesse perdão possível e, tal como os santos e mártires dos nossos dias, Lourenço mantivesse um silêncio impenetrável. Mais tarde, na noite desse mesmo dia, o artesão, seguindo as ordens do seu senhor, levou os corpos de Rodrigo e Donato a um carniceiro. Provavelmente será melhor nem tentar adivinhar qual foi o destino que tiveram… Contudo, para as cabeças dos dois homens, o carniceiro reservava outro destino. Um padeiro da cidade, homem dominado pelo demónio, comprou-as e nessa noite, antes de fechar a loja, meteu-as no forno. Era hábito nesses tempos as viúvas utilizarem os fornos dos padeiros, depois de escurecer, enquanto as cinzas se mantinham ainda quentes do dia; e foi assim que as mulheres, quando chegaram, fizeram uma enorme gritaria e quase desmaiaram perante o que encontraram». In Ian Caldwell e Dustin Thomason, A Regra de Quatro, Hypnerotomachia Poliphili, Grandes Narrativas, Editorial Presença, 2004, ISBN 978-972-233-263-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Enigma dos Manuscritos do Mar Morto. Qumrân. Eliette Abécassis. «Ou então os que ali estavam não o disseram. Ou então, a noite do seu enterro foi simplesmente como o dia: o céu não estava nem mais claro nem mais escuro; nenhuma luz o iluminava, como um sinal prodigioso»

jdact

«(…) O aeroporto de Ben-Gu-ri-on estava repleto de hassidim de todos os países que tinham tomado o avião precipitadamente, de Nova lorque, Paris ou Londres. Quando os discípulos saíram da casa, foram assaltados pelos que queriam aproximar-se do rabi uma última vez. Iniciaram a procissão em direcção ao cemitério, seguidos por uma multidão negra e recolhida, como uma gigantesca viúva de cabeça coberta e véu, percorrida de soluços. Em seguida o cortejo iniciou a ascensão para o cemitério de Jerusalém, empoleirado no monte das Oliveiras. Lentamente, silenciosamente, transportaram-no até à pedra que indicava o lugar onde desde há trezentos anos repousavam os anteriores rabinos da mesma linhagem. Aí enterraram o seu corpo nu, envolto num sudário. Os três secretários do rabi pronunciaram o Kadish. Todos recitaram as orações da praxe. Depois, o discípulo favorito do rabi, aquele que ele amava entre todos, tomou a palavra e exprimiu-se assim: irmãos e irmãs!, disse ele. Jerusalém, a porta dos povos, foi destruída hoje, as suas muralhas foram derrubadas e as torres demolidas, o pó raspado: e eis que se assemelha a uma pedra seca. O rabi, nosso mestre, já não está connosco como dantes. Somos órfãos nesta terra, as nossas moradas estão desoladas, a nossa alma abatida, as lágrimas são o nosso pão, consomem-se-nos os olhos e secam-se-nos as gargantas. Mas o povo que avança nas trevas em breve verá uma grande luz, Olhem à vossa volta! A cavalaria de Deus conta-se aos vinte mil, às dezenas de milhar. Por todo o lado, as pessoas preparam-se; cada um segundo o seu ritmo e as suas crenças, mas todos se armam e unem nas grandes colmeias dos novos tempos. À nossa volta, o mundo desintegra-se no caos. Os nossos bairros são armaduras que nos protegem contra as torpezas sem conta das cidades tentaculares, Sodoma e Gomorra de rostos de aço e Plexiglas. Fechamos os olhos à depravação, ao estupro e à luxúria, às dinastias malditas de homens destroçados, animais descarnados que uivam ao luar, vagueiam pelas ruas desertas e, de olho exorbitado e cabelo comprido, colado à nuca mole, matam sem razão a presa fácil, a criança indefesa e a mulher só. Fora das nossas casas, a doença propaga-se e invade todos os continentes. Como uma nova lepra, isola os homens uns dos outros e fecha os doentes nos hospitais, últimos templos mortuários onde, mais do que a cura, contra a Redenção, longe da Ressurreição, se oficia a espera do fim, profética, irrevogavelmente anunciada pelos padres de bata branca. Em volta, a terra maldita, lixeira nauseabunda, devastada pela técnica e os seus resíduos, ressequida, queimada pelo sol, invadida pelo deserto, desertada pelas águas, a terra vomita e cospe, em convulsões doentias, os ossos enterrados à toa e o sangue ainda fresco da última guerra, massacre ou genocídio. Não vêem? O fumo sobe, a flor cai, a erva seca. Em breve, esta terra será o reino do mocho e do ouriço, da coruja e do corvo, Meus irmãos, estamos num tempo outro, estamos no fim do tempo.
O dia fala ao outro dia, a noite murmura à madrugada, as gotas de orvalho fremem ao vento novo e trazem a notícia: eis o rabi, eis o Messias que acorda do seu sono secular e se levanta, e ressuscita os mortos para salvar o mundo, E já se prepara para afinar e purificar a prata. E já se aproxima de nós para nos julgar. Eis que chega o dia, ardente como uma fornalha, e todos os orgulhosos e todos os que praticam o mal serão como o restolho, e esse dia que chega incendiá-los-á com o seu fogo inextinguível. E sobre aqueles que temem o seu nome, levantar-se-á o sol da justiça, e os seus olhos vê-lo-ão e dirão: o Eterno foi glorificado. E os que não vêem serão demolidos pela imensa vingança do Eterno, e assim o seu nome será glorificado. Então os parentes do rabi saíram do cemitério a fim de darem lugar as miríades de fiéis que esperavam à porta e que aí se sucederam até, muito tarde na noite sem sombra, nessa noite escura como todas as outras noites. Talvez ele tivesse que escapulir-se da sepultura para subir aos céus, mas ninguém viu tal. Ou então os que ali estavam não o disseram. Ou então, a noite do seu enterro foi simplesmente como o dia: o céu não estava nem mais claro nem mais escuro; nenhuma luz o iluminava, como um sinal prodigioso. A lua, escondida por um nevoeiro espesso, não estava cheia nem vermelha. Umas nuvens acinzentadas, ligeiramente mais brancas pelo fundo negro, anunciavam uma chuva fina ou de pedra, que nunca chegou a vir refrescar a paisagem abafada e terrosa. Os céus não se desvaneceram como o fumo nem se enrolaram como um documento. A terra não se estilhaçou, não vacilou como um homem ébrio, nem abanou como uma cabana. O mar não estava agitado, e as ondas calmas não atiraram lodo nem espuma. As montanhas não desabaram nem fundiram sob o fogo. O Saron não era um deserto como a Arava, Basan e o Carmelo não estavam pelados. Nem novos céus, nem terra nova, reino algum: a terra aqui em baixo, nada. Quem se fechara, cativo nas grutas, quem se escondera aí durante quarenta dias para ler o documento selado? A jarra do oleiro não se quebrara em mil cacos, e os fragmentos não serviam para trazer o lume da lareira ou tirar água do charco. A jarra do oleiro estava cheia. Continha mil tesouros divinos e as escavações abundavam em cacos». In Eliette Abécassis, Qumrân, O Enigma dos Manuscritos do Mar Morto, 1996, tradução de Lúcia Muccznik, Edições Sicidea, colecção Enigmas da História, Espanha, 2006, ISBN 978-84-611-4996-4.

Cortesia de Sicidea/JDACT

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Enigmas de Baker Street. Tom Bullimore. «Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente»

Ilustração de IanAnderson 
jdact

Charadas de Sherlock Holmes
«Dê uma vista nisto, Watson, disse Holmes, ao passar uma mensagem codificada para o seu colega. A mensagem dizia:
  • PARA SHERLOCK HOLMES, 2M2NH236R56B2R342SJ542SD2C5R52.3ST3S3R2M36M245RTR 46NF5. MORIARTY.
O que significa isso, Holmes? Para descobrir, Watson, precisamos decifrar o código. Os números obviamente representam letras. Mas ele não usa os números 1 e 0, Holmes. Simplesmente porque eles poderiam ser confundidos com as letras I e O, Watson, disse Holmes, enquanto começava a decifrar o código. Consegue desvendar a mensagem?

Sherlock Holmes e Watson tinham capturado três homens suspeitos do roubo ao banco de Clapham. Os três, Fish, Giles e Hill, foram parar à Scotland Yard, onde foram interrogados pelo inspector Lestrade. Enquanto anotava as idades de cada um dos homens, Lestrade percebeu que, se revertesse os dígitos de suas idades, os três ainda teriam a mesma idade. Lestrade também notou que Fish tinha apenas um terço da idade de Giles, que por sua vez tinha o dobro da idade de Hill. As idades dos três homens somadas resultavam em 121 anos. Qual a idade de cada homem?

Vestindo um de seus famosos disfarces, Sherlock Holmes seguia um suspeito pelas ruas movimentadas de Londres. O suspeito entrou em duas lojas. Para disfarçar, Holmes comprou uma coisa em cada uma das lojas. Na primeira, Holmes gastou 1/4 de todo o seu dinheiro, e na segunda loja ele gastou 1/4 do que havia sobrado. Se Holmes gastou £21 no total, quanto dinheiro ele tinha no começo?

Aston Avenue era uma rua particular com apenas cinco casas numeradas: 1, 2, 3,4 e 5. Os donos dessas casas eram os senhores Jones, White, Smith, Green e Brown. Todas as casas tinham sido roubadas recentemente, e Sherlock Holmes foi chamado para falar com cada um dos donos. Infelizmente, nenhum deles estava em casa. Holmes falou com uma pessoa que passava e registrou os seguintes factos:
  • Jones vivia duas portas à esquerda de Smith; 
  • Brown tinha Green vivendo à sua direita; 
  • White e Brown viviam em casas de número par.
Com as informações acima, consegue determinar em que casa vivia o sr. Green?

Sherlock Holmes tinha recebido dois telegramas do infame professor Moriarty num espaço de três horas. O primeiro era uma ameaça à vida do famoso detective, enquanto o segundo dizia que ele, o professor, havia preparado um presente para Holmes. O final do segundo telegrama continha a seguinte charada:
  • Aquele que faz, faz para vender, Aquele que compra, não usa, Aquele que usa, não sabe.
Watson leu os telegramas. Não faz sentido para mim, Holmes, disse. Primeiro ele ameaça a sua vida e depois ele prepara um presente para vós. Resolva a charada, Watson. Então verá que faz sentido. O que Moriarty pretendia enviar a Holmes?

Sherlock Holmes sentou-se perto da lareira, estudando as informações contidas num bilhete. O que está lendo, Holmes?, perguntou Watson ao entrar. É uma lista de casas, na rua Fitzroy, que foram roubadas nos últimos seis dias pelo professor Moriarty. Watson deu uma olhada na lista, na qual se lia:
  • Segunda-feira,  n.º 4; 
  • Terça-feira, n.º 6; 
  • Quarta-feira, n.º 12; 
  • Quinta-feira, n.º 3; 
  • Sexta-feira, n.º 7; 
  • Sábado, n.º 28.
Céus!, exclamou Watson. E hoje é Domingo. Ele provavelmente vai atacar de novo. Ele vai, Watson. Mas desta vez eu estarei esperando por ele dentro da casa. Qual a próxima casa da rua Fitzroy que Moriarty irá roubar?

In Tom Bullimore, Enigmas de Baker Street, Charadas de Sherlock Holmes, Ilustração de Ian Anderson, Editora Melhoramentos, 2002, ISBN 850-603-635-6.

Cortesia de EMelhoramento/JDACT

sábado, 14 de junho de 2014

O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas Canal da História. «… pilotos suficientemente inteligentes, hábeis e treinados, conseguiam evitar a ameaça do gelo em quase 99 por cento. Terá Jonz tentado demonstrar que possuía todas estas qualidades?»

Cortesia de wikipedia

Fenómenos Inexplicáveis. Coincidências Estranhas
«(…) Nem sequer foi possível encontrar nenhuma testemunha do grupo de resgate, já que os nomes dos participantes foram eliminados de todos os documentos. Não obstante, o material encontrado no FBI descreve com bastante precisão o possível local do acidente, um dos maiores campos de gelo do Alasca, a meio caminho entre Anchorage e Juneau: o glaciar Malaspina, que foi baptizado com o nome do navegador espanhol que em finais do século XVIII explorou as costas do Alasca.

A Atracção do Gelo
Existe outro artigo jornalístico com data de 1972, que pode trazer alguma luz sobre o acidente do Cessna, escrito pelo piloto Don Jonz para a revista Flying Magazine. Por uma macabra coincidência foi publicado no número de Outubro, mesmo ao lado das notícias sobre o avião desaparecido que ele próprio pilotava. No seu artigo, Jonz levantava algumas dúvidas sobre o papel do gelo como factor de risco para a aviação e chegava a afirmar que pilotos suficientemente inteligentes, hábeis e treinados, conseguiam evitar a ameaça do gelo em quase 99 por cento. Terá Jonz tentado demonstrar que possuía todas estas qualidades? Mike O'Neill, outro piloto acostumado às duras condições climáticas do Alasca, percorreu uma rota paralela à do aparelho de Jonz no próprio dia do seu acidente, em 1972. O'Neill recorda que teve de subir acima dos 3600 metros de altitude para evitar as descargas de gelo que podem desestabilizar o focinho dos aviões mais pequenos. É uma hipótese a considerar para o que aconteceu a Jonz, assegura. Para a maioria dos seus companheiros, o artigo que Jonz publicou em Flying Magazine era uma demonstração arrogante de superioridade, enquanto para outros, não passava de um reflexo do seu sarcástico sentido de humor. Mas terá arriscado tanto que acabou por ser o culpado do que aconteceu com o Cessna 310?
Não obstante, e embora a atitude do piloto possa ter em parte provocado o acidente, o facto é que continua sem se saber onde estão os restos da aeronave. E mais importante ainda, por que razão, passados mais de trinta anos, eles ainda não apareceram. Os nativos cliquot têm uma resposta para esta pergunta: é obra dos kushtakas, espíritos malignos, meio homens meio lontras. Os kushtakas aparecem aos viajantes perdidos nos bosques e nas águas sob aparências diversas, por exemplo, a de um familiar morto há algum tempo e, desta forma, conseguem levar as pessoas para o seu reino. Menos mágica e sobrenatural do que esta explicação inspirada nas lendas ancestrais da zona, é a teoria de que os inúmeros glaciares do Alasca terão sido, muito provavelmente, os responsáveis pelos inúmeros desaparecimentos que aconteceram neste estado e não os espíritos kushtakas. Os glaciares não são propriamente blocos de gelo sólido, pois o seu interior está cheio de câmaras vazias e de enormes gretas que por vezes alcançam o tamanho de um bloco de escritórios capazes de tragar um avião que caia na neve. Mais de trinta anos depois, o movimento do glaciar Malaspina, onde se pensa que o voo de Boggs e Begich terá caído, pode ter arrastado os corpos para vários quilómetros de distância do local do impacto. Ou então, os restos podem estar sepultados sob toneladas e toneladas de gelo e permanecerem ali até que, dentro de vários séculos, o glaciar os expulse das suas entranhas juntamente com os icebergues que todos os anos lança no mar. E até que isso aconteça, ninguém saberá exactamente porque é que, naquela manhã de 16 de Outubro de 1972, um avião com dois políticos de  Washington a bordo terá desaparecido sem deixar rasto». FIM. In Canal da História, O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas, Os Grandes Mistérios da História, 2008, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia CAutor/JDACT

O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas Canal da História. «O desaparecimento de Nick Begich, o companheiro de viagem de Boggs, também está envolta em dúvidas, de acordo com a opinião do seu filho Nick, suspeitas baseadas na forma habitual de actuação do director do FBI Hoover…»

Cortesia de wikipedia

Fenómenos Inexplicáveis. Coincidências Estranhas
«(…) Nesta altura de total incerteza começaram a surgir pistas incríveis por todo o território dos Estados Unidos: desde pessoas com sonhos e premonições, passando por operadores de rádio que gravavam vozes estanhas ou até um vivente do longínquo Quénia que assegurava ter tido urna visão de um aeroplano intacto coberto de folhagem algures no Alasca. Mas no final, depois de trinta e nove dias de uma luta infrutífera contra a geografia e o clima, a busca foi suspensa a 24 de Novembro de 1972. Uma alta patente das Forças Aéreas chegou a confessar o que muitos temiam: que o Cessna 310 e os seus quatro ocupantes possivelmente nunca viriam a ser encontrados.

Conspiração ou Acidente?
Por que razão, apesar dos meios empregues, nunca se terá encontrado nem o avião nem os corpos dos desaparecidos? Algumas pessoas podem ser levadas a pensar que, à semelhança do Triângulo das Bermudas, tal se terá devido a alguma força paranormal que actua na zona. No entanto, as provas históricas apontam noutra direcção menos esotérica. Quando ocorreu o acidente de Boggs e Begich, estava prestes a eclodir, nos Estados Unidos, um dos maiores escândalos políticos do século XX, o Watergate, embora o famoso caso, que custou a Nixon a presidência, só tenha estalado realmente em Janeiro de 1973. Thomas Hales Boggs suspeitava que a Casa Branca encobria qualquer coisa. Segundo declarações do seu filho, Thomas Hale Boggs Jr., o pai costumava comentar, por esses dias, que o fim de Nixon estava próximo, ao ponto de, mais de trinta anos depois, se ter chegado a questionar se o desaparecimento do aeroplano se teria devido realmente apenas a um acidente. É claro que, como líder da maioria da Câmara Baixa, o pai tinha inimigos nas altas esferas da Administração. E mais: nas gravações que propiciaram a queda do presidente Nixon, este não mencionava Boggs em termos propriamente amistosos. Edgar Hoover, o director do FBI, tinha-o ainda em menos conta desde que, em 5 de Abril de 1972, Boggs o acusou de utilizar métodos de vigilância mais próprios da polícia política de Hitler ou de Estaline do que de uma democracia moderna, tendo pedido a sua demissão.
Por acaso, o FBI foi a única agência de segurança estatal que não acompanhou a operação de busca e resgate do avião acidentado no Alasca. No entanto, durante mais de duas décadas, ninguém foi capaz de demonstrar qualquer ligação entre este infeliz acidente e o FBI. Em 1992, as coisas mudaram em virtude da Lei sobre a Liberdade de Acesso à Informação, quando se acedeu à informação do FBI para um artigo sobre os vinte anos do desaparecimento de Boggs e Begich. O artigo foi publicado na revista Roll Call de Washington. Graças a esta investigação jornalística, apareceram vários telexes e cartas do FBI que nunca antes se tinham visto. O primeiro deles relatava que um grupo de voluntários civis apetrechados com equipamentos electrónicos haviam encontrado o que podiam ser vestígios de um acidente e que os seus detectores de calor indicavam que poderia haver dois sobreviventes. Só que, inexplicavelmente, ninguém seguiu esta linha de investigação apesar de as autoridades estarem desesperadas por encontrar o menor rasto dos desaparecidos. Entretanto, o FBI seguiu as pistas mais estrambóticas e duvidosas que parapsicólogos e videntes forneciam. Embora, mais interessante do que o encontrado seja talvez precisamente o que falta dos arquivos do FBI sobre ao acidente de 1972. Desapareceram as fotografias de pormenor que o avião espião 5R71 fez em toda a zona.
O desaparecimento de Nick Begich, o companheiro de viagem de Boggs, também está envolta em dúvidas, de acordo com a opinião do seu filho Nick, suspeitas baseadas na forma habitual de actuação do director do FBI Hoover, afirma estar convencido de que esta agência de investigação ocultou os telexes recebidos. Também o seu filho explica como desapareceram as fotografias de uma das maiores operações de busca e resgate na história dos Estados Unidos. Infelizmente, sem essas imagens, salienta, não se pode comprovar se houve alguma possibilidade de encontrar alguém com vida, como apontava a informação descoberta». In Canal da História, O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas, Os Grandes Mistérios da História, 2008, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia CAutor/JDACT

O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas Canal da História. «Aos enormes recursos oficiais juntaram-se, também, grande quantidade de voluntários civis que procuraram, a pé ou nos seus aviões particulares, qualquer sinal. Mas nem um sinal do aeroplano, sequer»

Cortesia de wikipedia

Fenómenos Inexplicáveis. Coincidências Estranhas
«(…) Vinte anos antes outro acidente excepcional ocorrera na zona, precisamente no mesmo corredor de voo que os irmãos Roth haviam utilizado em Maio de 1992; o chamado Victor 379, que percorre o triângulo do Alasca dividindo-o em dois. Naquela ocasião, 16 de Outubro de 1972, foram dois políticos que desapareceram; um era o líder da maioria na Câmara dos Representantes, Thomas Hale Boggs, a quarta pessoa com mais poder no governo dos Estados Unidos a seguir ao presidente, e o outro, um promissor congressista Nick Begich, de 40 anos de idade. Boggs não nascera no Alasca nem sequer residia neste estado, mas sempre mantivera uma relação especial com a zona desde que apoiou o projecto de lei da concessão do estatuto de estado da União para o Alasca. Como era líder da maioria na Câmara dos Representantes, naquele 16 de Outubro, Boggs acompanhava o congressista Begich na sua campanha de reeleição como representante do Alasca no Senado dos Estados Unidos. Ao contrário do veterano Boggs, que contava já, quinze legislaturas e era na altura, membro da Comissão Warren que em 1964 se encarregara da investigação do assassinato do presidente John F. Kenedy, Nick Begich era um novato que estava a tentar levar por diante o que possivelmente terá sido o projecto de lei mais importante na história do Alasca: a Lei de Arbitragem das Reclamações dos Indígenas do Alasca; o acordo de maior envergadura que alguma vez fora assinado nos Estados Unidos com os nativos norte-americanos. Compreendia 178 000 quilómetros quadrados de terra e um orçamento de cerca de mil milhões de dólares.
Às nove da manhã, Begich e Boggs, juntamente com o assistente Russell Brown, sobrevoaram Anchorage a bordo de um bimotor Cessna pilotado por Don Jonz, um conhecido piloto local de 38 anos e muita experiência nas duras condições do Árctico, mais famoso também na sua profissão, pela sua arrogância e paixão pelo risco. Doze minutos depois de iniciar o voo, Jonz forneceu o plano de voo à torre de controlo com todos os pormenores e confirmou que o avião contava com os dispositivos de emergência necessários. Foi a primeira e a última comunicação que se estabeleceu com o aparelho. Ao meio-dia e meio o aeroporto de destino na cidade de Juneau anunciou o atraso do voo. Ninguém se preocupou, na altura, pois que os atrasos deste tipo são comuns em aviões pequenos e porque, além disso, os ocupantes do aeroplano estavam nas mãos de um mestre em aterragens de emergência como Jonz. Ao cair da noite, ainda não se sabia nada dos quatro homens, pelo que foram dados como desaparecidos. As respectivas famílias foram avisadas e, face à importância dos políticos, a notícia apareceu em todos os noticiários vespertinos do país. Foi então montada a maior operação de busca alguma vez levada a cabo nos anos setenta nos Estados Unidos.
Apesar do mau tempo, do gelo e da neve, um Hercules HC130 das Forças Aéreas saiu em busca dos desaparecidos, rastreando toda a zona através das nuvens e em plena noite com os seus sistemas de infravermelhos. Entretanto, na estreita passagem de Portage, ao sul de Anchorage, de onde se ouvira a última mensagem de Jonz e que é tristemente conhecida dos seus habitantes pela grande quantidade de aviões ali acidentados, uma unidade de infantaria com onze homens explorou a zona a pé. E mais, admitindo a hipótese de o Cessna desaparecido ter cruzado a baía de Prince William, barcos da guarda costeira patrulharam as frias águas semeadas de icebergues, embora a probabilidade de sobrevivência em águas com temperaturas abaixo dos 2ºC seja apenas de quinze minutos, segundo as estimativas. Utilizaram-se câmaras e sensores de tecnologia avançada que na época ainda estavam em fase experimental e a Patrulha Aérea Civil do Alasca chegou, inclusivamente, a empregar pela primeira vez, numa operação de busca e resgate, um avião espião secreto, o SR 71, capaz de fotografar a face de uma moeda a 9000 metros de altitude. Não se pouparam nem os meios humanos nem a tecnologia mais avançada numa grande operação, ordenada a partir das mais altas instâncias do governo dos Estados Unidos, devido aos importantes cargos públicos dos desaparecidos. Aos enormes recursos oficiais juntaram-se, também, grande quantidade de voluntários civis que procuraram, a pé ou nos seus aviões particulares, qualquer sinal. Mas nem um sinal do aeroplano, sequer». In Canal da História, O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas, Os Grandes Mistérios da História, 2008, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia CAutor/JDACT

O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas Canal da História. «… organizaram uma viagem na qual participaram os quatro irmãos Roth e três amigos. A única diferença foi que nesse ano Scott prometera à mulher que viajaria num voo comercial, enquanto os irmãos e amigos voariam em dois aeroplanos»

Cortesia de wikipedia

Fenómenos Inexplicáveis
«Bem longe das cálidas águas das Bermudas, existe um outro lugar tristemente célebre pelo perigo que a sua travessia de avião representa, uma rota obrigatória para todos quantos ali vivem. A região tem uma forma ligeiramente triangular e está situada a sueste do estado do Alasca, na zona que se estende entre a costa do Pacífico e o Canadá. Um desaparecimento por mês, como média aproximada, valeu-lhe a designação, entre os habitantes do Alasca, de Triângulo das Bermudas do Norte. Não são apenas os norte-americanos instalados na zona que falam destes desaparecimentos; há séculos que os próprios esquimós inupak se referem a estes estranhos acontecimentos com toda a naturalidade. Neste vasto território, são comuns, entre os seus habitantes, as histórias e lendas de vizinhos, familiares e amigos que um dia embarcaram numa pequena aeronave e que nunca mas voltaram às suas casas...
Foi o que aconteceu com Kent, Jeff e Scott Roth, os três irmãos de Jason Roth. Acostumados à vida em plena natureza, entre as tundras, as montanhas, os bosques e os rios do imenso Alasca, os Roth adoravam caçar, pescar, fazer esqui e todas as actividades ao ar livre. Os irmãos Roth tinham uma espécie de ritual que cumpriam todos os anos. Na Primavera, época que coincidia com a temporada da pesca às trutas arco-íris, eles voavam da sua casa em Anchorage até Yakutat, em busca dos melhores rios, bosques e lagos. Na primeira semana de Maio de 1992, um outro motivo os levava a repetir este ritual. Scott Roth perdera um olho no ano anterior e tanto os irmãos como os amigos, querendo apoiá-lo, tudo faziam para manter a mesma vida que haviam levado até então. Assim, organizaram uma viagem na qual participaram os quatro irmãos Roth e três amigos. A única diferença foi que nesse ano Scott prometera à mulher que viajaria num voo comercial, enquanto os irmãos e amigos voariam em dois aeroplanos.
A viagem de ida não apresentou qualquer problema, mas a 2 de Maio o tempo começou a piorar pelo que Jason Roth e um dos amigos da família decidiram regressar a casa numa das avionetas, menos bem preparada para o mau tempo do que o bimotor Cessna 340 que Jeff Roth, experiente em todo o tipo de situações climáticas no Alasca, pilotaria na viagem de regresso. O resto do grupo, composto por Jeff, Scott, Kent e outros dois amigos, ficou e aproveitou para mais urna manhã de pesca. Às seis da tarde decidiram regressar a Anchorage na avioneta Cessna 340. Tratava-se de uma viagem de duas horas e levavam combustível para voar durante três horas. Passados vinte minutos do início do voo, Jeff contactou a torre de Yakutat para transmitir uma mensagem de rotina, só que não voltou a ouvir-se.

Coincidências Estranhas
Ao anoitecer, as autoridades da Administração Federal de Aviação (FAA) notificaram a família Roth do atraso do aeroplano e informaram que nele viajavam cinco pessoas e não quatro, como se pensava. Todos intuíram, desde o primeiro momento, que esse quinto passageiro era Scott Roth que teria mudado os seus planos de regresso numa linha aérea regular como prometera. Na manhã seguinte, o dispositivo de busca foi activado. A Guarda Costeira inspeccionou a baía de Prince William, as Forças Aéreas fizeram a rota do avião desaparecido e a Patrulha Aérea Civil encarregou-se de rastrear montanhas e glaciares. Durante cinco semanas rastrearam-se 155 000 quilómetros quadrados e, quando a busca oficial foi dada por concluída, vários voluntários continuaram ainda a patrulhar os céus à procura de qualquer pista dos cinco desaparecidos. Apesar de ter sido uma das operações de resgate mais longas e difíceis dos últimos tempos no Alasca, não se encontrou nada. Ainda hoje não há qualquer rasto do acidente». In Canal da História, O Alasca e o seu Triângulo das Bermudas, Os Grandes Mistérios da História, 2008, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia CAutor/JDACT

sexta-feira, 14 de março de 2014

Enigma dos Manuscritos do Mar Morto. Qumrân. Eliette Abécassis. «’Mais tarde’ tinha acabado, mais tarde tinha ficado muito longe. Era ele, aqui e agora: era ele que eles esperavam para mais tarde, há tanto tempo. O funeral foi adiado para o dia seguinte ao da sua morte, para dar tempo a todos de chegarem»

jdact

«Aquele que algum dia ousou especular sobre estas quatro coisas: o que há em cima? O que há em baixo? O que havia antes do mundo? O que haverá depois? Mais valia não ter nascido». In Talmude da Babilónia, Haguigah

«No dia em que o Messias entregou a alma, o céu não estava nem mais nem menos escuro do que nos outros dias; nenhuma luz o iluminava, como um sinal prodigioso. O sol escondia-se atrás de um nevoeiro espesso, mas os raios conseguiam romper através do seu tecto opaco. As nuvens anunciavam uma chuva fina ou de pedra, que nunca chegou a vir refrescar a paisagem terrosa. As trevas sobre a terra não eram profundas, e o céu dava ainda uma luz ténue. Era, em suma, um dia como outro qualquer, nem triste nem alegre, nem escuro nem claro, nem extraordinário nem sequer inteiramente banal. Mas essa normalidade era talvez um presságio daquela ausência de presságio, não sei. A sua agonia foi lenta, difícil. A respiração eternizou-se num queixume prolongado, imenso de desespero. Os cabelos e a barba sem cor deixaram de exprimir o ardor da sabedoria, dispensada à sua volta como um bálsamo, como uma cura. O olhar esvaziou-se da chama que o abrasava sempre que, com paixão, levava a todos as suas boas palavras e profecias, sempre que proclamava o advento do mundo novo. O corpo, torcido como a roupa, devastado, era só sofrimento, contusão e chaga aberta. Os ossos sobressaíam sob a carne, sulcos macabros. A pele enrugada, como um fato retalhado, esfarrapado, um sudário repartido, era um rolo desdobrado e profanado, um pergaminho vetusto cujas letras de sangue se perdiam em torno das linhas escarificadas, por entre rasuras e remorsos, uns gatafunhos. Os membros estirados, trespassados por agulhas, maculados de manchas violáceas pareceram cair. Das mãos esburacadas, curvadas sob a dor, escorreu o sangue; uma lava morna brotada do coração, subindo até à boca ressequida, árida das palavras de amor que ele tanto gostava de pronunciar, prostrada numa expressão muda de medo e de surpresa, a última, mesmo antes do ataque. O peito, um cordeiro apanhado pelo lobo, saltou, como se o coração fosse sair tal qual estava, nu, despedaçado, sacrificado. Depois ficou paralisado, embriagado pelo próprio sangue como pelo vinho jorrando do lagar. O horror e qualquer outra expressão abandonaram os traços fatigados do seu rosto lívido, onde decerto se espelhava, olhos esgazeados e boca entreaberta, a inocência. Iria ao encontro do Espírito? Mas o Espírito abandonava-o precisamente quando ele, na derradeira esperança, parecia invocá-lo e chamá-lo pelo nome. Não houve sinal algum para ele, o rabi, o mestre dos milagres, o redentor o consolador dos pobres, o que cura os doentes, os alienados e os paralíticos. Ninguém o podia salvar, ninguém, nem mesmo ele. Deram-lhe um pouco de água, Estancaram-lhe as dores. Uns disseram que um raio traçara no horizonte um risco luminoso, outros pensaram tê-lo ouvido chamar o pai com uma voz forte que ressoou durante muito tempo, como se descesse dos céus, inevitavelmente, sucumbiu.
Já tinha uma idade avançada e no entanto não estava doente. Os membros da comunidade pensavam que ele talvez fosse imortal e dividiam-se entre a espera de um acontecimento, a morte, o reaparecimento, a ressurreição, e a do não acontecimento que a sua longevidade implicava, a eternidade. Assim, quer morresse, quer continua-se vivo, seria sempre um milagre. Era uma tarde de Abril. De acordo com os numerosos médicos que o acompanhavam, o coma que o acometera no dia anterior fora provocado por insuficiência cardíaca. Entre as três e as três e meia da tarde, interromperam as transfusões. O corpo foi transportado de ambulância do hospital, lugar da sua agonia, para o domicílio. Aí, puseram-no no chão e cobriram-no com um lençol, de acordo com a tradição. Em seguida abriram o gabinete onde o rabi fazia as suas orações, estudava e lia, e os fiéis recitaram os textos sagrados. Os que o amavam, em grande número, vieram prestar a última homenagem ao mestre. Contava milhares de discípulos em todo o mundo que tinham fé nele, que acreditavam que ele era o Rei-Messias, o apóstolo dos tempos novos, precursor de um reino outro pelo qual esperavam há tanto tempo, desde a noite dos tempos. As visitas prolongaram-se até à noite. Depois colocaram o corpo num caixão fabricado com o lenho do labor e da oração, o da grande secretária em carvalho à qual o rabi passara tantas horas a estudar. Nas imediações da casa mortuária, um dispositivo policial conseguia dificilmente conter a multidão. Na cidade, a circulação estava bloqueada; os carros não conseguiam abrir caminho por entre aquela massa compacta de homens de negro, de mulheres em pranto e de crianças que, às centenas de milhar, se tinham reunido para chorar o rabi. Alguns agarravam a cabeça entre as mãos, abatidos. Outros gritavam a sua dor pelas ruas. Outros ainda, aqui e além, dançavam ao som de melodias hassídicas nostálgicas ou alegres e cantavam canções conhecidas: o nosso mestre viverá, o nosso rabi, o Rei-Messias. Não iam a um enterro; estavam à espera da Ressurreição, do fim do Êxodo, e do começo da era da libertação. Então poderiam admitir que estavam n terra de Israel e chamar a esse país o seu. Não o tinha ele dito, por parábolas e alusões? Tinham-no entendido. Tanto sofrimento e tanta dispersão. Tantas humilhações e tantas mortes. Mais tarde tinha acabado, mais tarde tinha ficado muito longe. Era ele, aqui e agora: era ele que eles esperavam para mais tarde, há tanto tempo.
O funeral foi adiado para o dia seguinte ao da sua morte, para dar tempo a todos de chegarem». In Eliette Abécassis, Qumrân, O Enigma dos Manuscritos do Mar Morto, 1996, Edições Sicidea, Espanha, 2006, ISBN 978-84-611-4996-4.

Cortesia de Sicidea/JDACT