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sábado, 19 de outubro de 2019

A Lição do Hibisco ou a Espiritualidade do Poeta. José d’Encarnação. «Borboleta verde, aqui não há flores. Procuras nas pedras jardins interiores?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não acredito! No chão jazes agora, com as cinco pétalas murchas enroladas sobre si mesmas, como que suavemente amortalhadas, a esconder o orgulhoso filete de cinco resplandecentes anteras amarelas que ainda ontem se mostrava ufano no seu esplendor, numa sedução de mui gulosos insectos, dir-se-ia. Saudei-te ontem, quando, no meio do verde vistoso das folhagens, desabrochavas essas pétalas, também elas a ostentar um amarelo-torrado bem vistoso. Efémera foi, pois, a tua existência, flor! E, agora reparo, já em teu lugar, num caule ao lado, outro botão surgiu, numa esperança de amanhã ser ele a deliciar-nos a vista!
E dei comigo a reflectir na lição: resplandeceu, deu o que tinha a dar e, passado o seu tempo, serenamente, caiu no mármore do jardim, à espera que a recolhessem e lhe dessem o destino habitual, o regresso à terra, no desejo de a fertilizar. Assim o Poeta. Como o pintor, o fotógrafo, o músico... Na captação do momento significativo e significante do dia-a-dia, que o caminho se faz por entre a vida, escreve António Salvado.
Não, não sou poeta! Gosto, porém, de saborear as palavras bem escritas! Por dever de ofício, dado que a Associação Cultural de Cascais a que pertenço se dedicou a divulgar poetas ditos populares, leio e releio poemas e até ouso escrever prefácios e fazer apresentações. Ousadia pura, já sei! Designadamente a partir do dia em que, já muitas rimas me haviam passado pela mão, propus a um colega que, se lhe aprouvesse, diligenciasse no sentido de se publicar num jornal singela nota de leitura acerca de um livro de poemas seu. Não lhe aprouve, porque, esclareceu-me, para eu compreender a sua poesia, teria de a ler e meditar toda, todos os livros que publicara!...
Reduzi-me, pois, à minha insignificância, garanti-lhe que doravante não mais quereria fazer o papel do sapateiro que pretende ir além da sua chinela. De novo me surgiu o dilema agora, quando me foi comunicado este honroso convite! Que vou eu dizer? Nada sei de terminologias técnicas, daquelas frases plenas de teoria e de mui elaborados conceitos, eu que, mais do que nas Universidades oficiais, venho diariamente aprendendo naquilo que amiúde se exara no facebook: formado na Universidade da Vida! E, por outro lado (o que é ainda mais grave!...), que li eu do vastíssimo reportório de António Salvado? Nada, praticamente nada! Rematada é a ousadia, por conseguinte, que só enorme complacência se arriscará a perdoar!
Que me seduz nos Poetas? Essa sua enorme capacidade de captarem o instante. Leio amiúde Poesia – III, de José Gomes Ferreira. Encanta-me, por exemplo, a canção daquela borboleta verde que vi, há momentos, aturdida num passeio de Campolide:

Borboleta verde,
aqui não há flores.
procuras nas pedras
jardins interiores?

E pergunta-lhe, ainda, se procura perfumes dormidos ou flores geladas para, no fim, lhe declarar:

Borboleta verde,
chama quase morta.
Também eu, também,
aos tombos nas pedras,
não encontro a Porta.

De insignificante pormenor se faz meditação, se tiram lições, se buscam sentidos… O hibisco há pouco, a borboleta agora! Ao andar, nos encontramos connosco e com os outros. E também com o Outro, Deus, na Sua dimensão imprescindível, queira-se ou não. Encontro que António Salvado fortemente consciencializa em Na Sua Mão Direita, um livro deveras especial, impregnado de ressonâncias bíblicas: a evocação dos
apóstolos Paulo, Pedro e Judas numa procura de perdão; a água niveal de Siloé, símbolo da purificação por que se anseia; a via-sacra da vida, noite amarga em busca de um som de claridade que anime e revigore…» In José d’Encarnação, A Lição do Hibisco ou a Espiritualidade do Poeta, António Salvado, O Caminho se Faz por Entre a Vida, Colóquio, RVJ Editores, 2017, ISBN 978-989-828-984-1.

Cortesia de RVJEditores/JDACT

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Guardador de Segredos. Davi Arrigucci Jr. «Um caminho atravessado por dificuldades. Se compararmos com Manuel Bandeira, de imediato se notará a diferença…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Poesia e Segredo
Drummond meditativo
«Para todos nós, Carlos Drummond de Andrade é a figura emblemática da poesia moderna no Brasil. Não creio que Manuel Bandeira seja, como muitos creem, um poeta menor e inferior a Drummond, mas Bandeira é o grande poeta da passagem para a modernidade, enquanto Drummond é o poeta central da experiência moderna brasileira. Ao considerar este facto, dei com o seguinte ponto que me pareceu fundamental: tudo na obra desse poeta não acontece senão por conflito. Realmente, tudo é conflito em Drummond. E conflito desde o começo da sua carreira. Ele experimentou contradições e dificuldades desde o início para forjar o denso lirismo meditativo que o caracteriza. Quando consideramos os seus grandes poemas, logo, nos damos conta do atrito dos elementos contraditórios e da densidade reflexiva de sua lírica. Até a figura humana do poeta, a sua atitude característica, parece estar associada a essa densidade da reflexão: o ser e o dizer ensimesmado. É raro que uma foto sua escape ao ar pensativo com que nos habituamos a vê-lo.
E desde o princípio estamos diante desse traço decisivo do estilo ou do modo de ser da obra: a exigência de uma mediação reflexiva para se chegar à poesia. Um caminho atravessado por dificuldades. Se compararmos com Manuel Bandeira, de imediato se notará a diferença: Bandeira dá a impressão da mais fluente naturalidade. O próprio Drummond chamou a nossa atenção, porém, para a fábrica altamente engenhosa de Bandeira, como está dito em seus Passeios na ilha, percebendo com precisão o quanto havia de cuidadosa construção naquela aparente espontaneidade. A primeira impressão que nos dá Bandeira é a do poeta ingénuo, na acepção que Friedrich Schiller empregou o termo no seu ensaio de fins do século XVIII: Poesia ingênua e sentimental. Ingénuo seria o poeta que procede instintivamente, conforme a natureza, enquanto sentimental, este seria o caso de Drummond, seria o poeta reflexivo, ou antes, o poeta que tendo se perdido da natureza busca, por meio da reflexão, restabelecer a sensibilidade ingénua.
Com efeito, para Drummond a naturalidade parece constituir um problema, e a poesia, o objecto de uma procura dificultosa. Assim, a questão fundamental é essa poesia travada pela dificuldade que parece ser a sina drummondiana. Procura da poesia é não apenas um dos melhores poemas de A rosa do povo, mas o traçado do esforço que caracteriza a sua aproximação ao poético. E basta lembrar outros poemas na mesma direção, como Consideração do poema, Oficina irritada ou O lutador, para sentir o peso dessa dificuldade e quanto a mediação do esforço reflexivo é uma exigência íntima para o poeta. Se dermos alguma folga aos conceitos de Schiller, Drummond será o nosso poeta moderno e sentimental.
No caso de Bandeira, a criação poética mostra-se como natureza prolongada, e a crença na inspiração, na súbita manifestação do poético que constitui para ele o alumbramento, confirma o modo de ser ingénuo. No entanto, sabemos que o alumbramento bandeiriano, essa linda palavra parece trazer consigo, pela trama dos sons, ecos simbolistas, entremeando luz à sombra e levando a iluminação a confundir-se com o mistério, é uma noção complexa. Exige do poeta uma atitude de apaixonada escuta e só se dá quando ela, poesia, quer, mas também não basta para concretizar em palavras a inspiração, uma vez que esta depende também dos pequeninos nadas da linguagem, que podem estropiar um verso ou uma imagem. Um poema pode ser, então, o resultado de um esforço construtivo de anos a fio: Bandeira gostava de lembrar a história de sua sofrida estatuazinha de gesso, renitente ao lacre verbal com que buscava encerrá-la num verso. E assim o Itinerário de Pasárgada é o caminho difícil da aproximação à poesia e a história da aprendizagem do ofício de poeta enquanto artista da palavra. Bandeira, que acreditava na importância da inspiração até para atravessar uma rua, não tinha, porém, nada de ingénuo.
O caso de Drummond, no entanto, é mais complicado. A sua concepção do poético exige a reflexão como mediação necessária para o encontro da poesia. Ora, essa modalidade de pensamento que é a reflexão tem uma origem romântica. Os pré-românticos alemães é que desenvolveram esse tipo de pensamento reflexivo, que nasce como uma fantasia do Eu sobre o Eu, como uma forma de pensar sobre o pensar. É um pensar sem fim que lembra o sonho, mediante o qual fundaram as suas principais concepções». In Davi Arrigucci Jr., O Guardador de Segredos, 2010, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978 853-591-655-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 18 de agosto de 2018

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro…»

jdact

A Velha Senhora dos Canários
«(…) Se fosse uma pessoa, diria dele que não dá confiança. Tão sensível ao medo como o companheiro, exprime-o lutando a frio. E se o agarro, sacode-se sem parar, inconformado. Logo que se apanha a salvo, atira um grito de cólera enquanto espaneja as penas desalinhadas. Não vai mais longe a minha relação com estas aves. Uma ou duas vezes por semana dou-lhes meia dúzia dos meus segundos, distraidamente. Sei que não me estimam nem respeitam, sobretudo desde o dia em que vi a dona dos canários tratar deles, com gestos tão firmes e serenos, que as aves não esvoaçavam: limitaram-se a mudar de lugar, também serenamente, permitindo que a mão rugosa e sábia retirasse o comedouro e o bebedouro de faiança branca e os repusesse frescos e cheios, com os mesmos gestos sossegados. E a porta das gaiolas fechou-se com um pequeno estalido de mola protectora. Por isto que vi, posso imaginar certas horas na casa silenciosa. A dona dos canários vive sozinha. É já muito velha, mas firme como os seus gestos, e anda sem ruído, calma, eficiente. Tem quase sempre um fito, um pequeno trabalho que a ocupa, mas, com tanta idade, tem também horas de pausa, que seriam repouso se não fossem antes contemplação de um passado que se amplia constantemente, abrangendo, além da vida própria, também as múltiplas vidas que por muito ou pouco tempo interferiram na sua.
Então, a senhora dos canários vai sentar-se numa cadeira da marquise, com as mãos abandonadas no regaço, meio abertas e voltadas para cima como cascas de amêndoa, como barcas encalhadas. Fica muito direita, enquanto as recordações começam a afluir em vagas mansas que a submergem e escorrem por ela, pelos olhos brandos, pelas faces ainda lisas entre os sulcos fundos das rugas, até caírem nas mãos que são como taças de um jardim fechado. A casa, nestes momentos, parece cobrir-se de musgo. Um dos canários lança um trinado tímido. O outro responde. E como na casa nada se mexe e a senhora olha fixamente não se sabe o quê, as aves arremetem um canto interminável, rio sonoro que alastrasse em mil braços numa planície de silêncio. A senhora não se move. Talvez não ouça os pássaros, mas eles cantam, cantam, cantam.

E Agora, José?
Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas, ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: e agora? Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. E agora, José? Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.
Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço. Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: e agora, José?
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente. E agora, José?» In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «… ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises…»

jdact

De Quando Morri Virado ao Mar
«(…) Foram muitos quilómetros assim. Por várias vezes parei e decidi não dar mais um passo. Mas logo a ardência me obrigava a levantar-me. Dos lados das arribas, nem uma sombra. O sol queimava-as de frente agora, e continuava a verrumar-me a nuca. Perdi a consciência. Andava como um autómato, já sem suor, com a pele sequíssima, excepto as grossas gotas que se formavam nas fontes e corriam devagar, viscosas, pelo rosto abaixo. Toda a tarde se passou assim. O sol principiava a baixar quando atingi a povoação que devia ser a minha primeira etapa. Ali podia alimentar-me, matar a sede, descansar numa sombra. Mas nada disto fiz. Calcei-me como num sonho, gemendo com dores nos pés queimados, e meti-me à estrada, que, em curvas dobradas, subia as arribas. Parei uma vez ainda, meio perdido, olhando do alto o mar que se mudava numa cor escura. Continuei a subir, e achei-me fora da estrada, sem saber como, a meter por entre pedras até à beira da altíssima arriba a pique. O chão inclinava-se perigosamente, antes de se furtar na vertical.
Foi ali que decidi passar a noite. Deitei-me com os pés para o lado do mar e do desastre, enrolei-me na manta e, a arder da febre do sol, fechei os olhos. Adormeci e sonhei. Quando tornei a abrir os olhos, o sol roçava já o horizonte. Que faço eu aqui?, perguntei em voz alta. E foi em movimentos de pavor que reuni as coisas e voltei à estrada, fugindo. Enquanto andava, ia pensando que ali eu não era eu, que o meu corpo ficara morto virado ao mar, no alto da arriba, e que o mundo estava todo cheio de sombras e confusão. A noite apanhou-me na margem do rio, com uma cidade diante que eu não reconhecia, como as torres ameaçadoras dos pesadelos. Ainda hoje, tantos anos passados, me pergunto que vulto de mim terá ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que não há resposta.

A Velha Senhora dos Canários
Se não fosse o ancestral respeito que nos tolhe familiaridades diante dos grandes deste mundo, chamaríamos marquesas àquelas varandas cobertas e envidraçadas que geralmente os arquitectos instalam nas traseiras dos prédios, concluindo assim o perímetro isolador das casas e facilitando, quantas vezes, a resolução dos problemas de dormida da criada ou de um parente que veio da província. Mas as marquesas, agora poucas e de pouca influência para fora dos círculos intangíveis da sociedade, ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises, que significa o mesmo, mas disfarçado de francês. Realmente não seria correcto dizer, em casa de marquesa, que a marquesa estava mal arrumada ou a precisar de espanador: põe-se no lugar da marquesa a marquise, e é logo como quem fala doutra coisa. As palavras têm destas habilidades.
Mal me viria, porém, e mal empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas, se vivem, vivem nas salas da frente, sem nada terem que ver com estes canários que, na marquise, começam justamente agora a dar sinal da sua presença. Um deles tem a asa esquerda ligeiramente descaída, pesa-lhe, e inclina a cabeça de modo a ver-me melhor. Olho-me miniaturizado no círculo brilhante que de vez em quando se cobre, de baixo para cima, com uma rápida pálpebra acinzentada. Meto um dedo entre os arames da gaiola e suporto as bicadas débeis com que a ave recebe a invasão. Irá esvoaçar assustada quando a mão inteira pairar lá dentro, como um dragão. Então o coração agita-se aterrorizado e as asas atiram pancadas contra os arames. E se a mão se transforma em ninho e envolve a ave como um casulo, o contacto dá-lhe calma, embora interrompida por sobressaltos pouco convictos. O outro canário é mais novo. Prefere o poleiro alto, ou o baloiço, e ali, de cabeça erguida, fazendo oscilar bruscamente as penas longas da cauda, tem a vida toda à sua frente, e sabe-o. Se repito a manobra de introduzir os dedos pelos arames, dispara uma bicada única, violenta, e afasta-se ao longo do poleiro, com o ar de ter ganho a batalha logo na primeira escaramuça». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Passei-a para o ombro direito e, tropegamente, a camisa caiu na areia escaldante. Fiquei a olhá-la, como se nunca a tivesse visto, enquanto as correias me vincavam o ombro»

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E Também aqueles Dias
«(…) Começámos a subir para Santarém quando o sol nascia. Estivemos na feira toda a manhã e parte da tarde. Não vendemos os bácoros todos. Por isso tivemos de regressar também a pé, e foi aí que aconteceu aquilo que não tornou mais a acontecer. Por cima de nós formou-se um anel de nuvens que quase ao sol-pôr enegreceram e começaram a largar chuva, e então por muito tempo andámos sem que uma gota nos apanhasse, enquanto à nossa volta, circularmente, uma cortina de água nos fechava o horizonte. Por fim as nuvens desapareceram. A noite vinha devagar entre as oliveiras. Os animais faziam aqueles ruídos que parecem uma interminável conversa. Meu tio, à frente, assobiava devagarinho. Por causa de tudo isto me veio uma grande vontade de chorar. Ninguém me via, e eu via o mundo todo. Foi então que jurei a mim mesmo não morrer nunca.

De Quando Morri Virado ao Mar
Deixei a lagoa pelo meio da manhã, quando o sol limpara já todo o céu. Sobre a água, que as rápidas aragens mal agitavam, não tinham ficado vestígios da neblina cerrada que, no amanhecer, cobrira toda a superfície. Valera a pena acordar cedo e ver o nevoeiro rolar sobre a lagoa em flocos soltos, como se cuidadosamente o sol os varresse até nada mais ficar entre a água e o céu azul. Arrumei os petrechos, atirei-os para as costas, e, descalço, comecei a longuíssima caminhada pela praia fora, entre o bater das ondas e a panorâmica vagarosa das arribas vermelhas.
A maré enchia, mas havia ainda extensas toalhas de areia molhada e dura, por onde era fácil caminhar. O sol estava quente. De cabeça descoberta, o corpo um pouco inclinado para compensar o peso da mochila, marchava em passo certo, como era meu hábito, procurando esquecer-me de que as pernas me pertenciam, deixando-as viver da sua vida própria, do seu movimento mecânico. Foi assim que sempre gostei de caminhar, vinte ou trinta quilómetros sem um descanso, apenas o rápido sorvo na bica de uma fonte, e ala. Também não parei para almoçar: faltava-me o apetite por tanto sol que apanhara nos dias anteriores, faltava-me sobretudo a paciência para cozinhar na praia. Limitei-me a comer duas laranjas que se desfaziam em doçura. Trincava as cascas ao mesmo tempo que a polpa e cuspia para longe os caroços, como um garoto feliz. Quando as correias da mochila deram em cortar-me a pele queimada, tirei a camisa, fiz dela uma rodilha, que acomodei no ombro esquerdo, e ali assentei o peso. Segui para diante, aliviado das dores.
O sol ardia com mais fogo. Sentia-o nas costas como a palma de uma mão esbraseada, ao passo que começava a nascer e a irradiar uma espécie de adormecimento na nuca. O suor arrepiava a pele naquele sítio. Aproximei-me da rebentação e esfreguei a cara, os ombros, a nuca. Atirei chapadas de água para as costas. A mochila aumentara de peso. Passei-a para o ombro direito e, tropegamente, a camisa caiu na areia escaldante. Fiquei a olhá-la, como se nunca a tivesse visto, enquanto as correias me vincavam o ombro. Cheguei mesmo a dar alguns passos, e foi preciso um grande esforço para compreender que devia voltar para trás e levantá-la do chão. Senti-me esquisito, pairando no ar, e esta sensação não me deixou, nem mesmo quando me sentei e deixei cair de costas. Havia dentro de mim uma náusea um pouco embaladora que me obrigou a rolar para um lado. O sol estivera a dar-me nas pálpebras fechadas: entre os meus olhos e o céu havia uma cortina rósea, a cor delgada do sangue que me corria confusamente dentro do corpo. Passou-me o rápido pensamento de que estava a sentir os primeiros efeitos de uma insolação. Inquieto, levantei-me de golpe, sacudi-me como um cão, e recomecei a caminhada. Entretanto, a maré empurrara-me para a areia seca, que vibrava sob o calor. Das arribas vinha o zumbido de milhares de insectos que o sol endoidecia. Nas pausas da rebentação, a zoada, áspera como um rangido de serra circular, atordoava-me e acentuava a sensação de náusea que não me deixara». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Fomos buscar os porcos e descemos ao vale, cautelosamente, porque havia silvas e barrocos, e os animais estranhavam a matinada e perdiam-se facilmente»

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E Também aqueles Dias
«(…) E houve também aqueles dois gloriosos dias em que fui ajuda de pastor, e a noite de permeio, tão gloriosa como os dias. Perdoe-se a quem nasceu no campo, e dele foi levado cedo, esta insistente chamada que vem de longe e traz no seu silencioso apelo uma aura, uma coroa de sons, de luzes, de cheiros miraculosamente conservados intactos. O mito do paraíso perdido é o da infância, não há outro. O mais são realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcançável. E sem elas não sei o que faríamos hoje. Eu não o sei. Meus avós tinham decidido, porque a venda dos bácoros havia sido fraca, que o resto das ninhadas seria vendido na feira de Santarém, por melhor preço e sem mais gasto de dinheiro. Porque o caminho seria andado a pé, quatro léguas de campo, a passo de porco pequeno, para que os animais chegassem à feira com sorte de comprador. Perguntaram-me se eu queria ir de ajuda com o tio mais novo, e eu disse que sim, nem que fosse de rastos. Ensebei as botas para a caminhada e escolhi no alpendre o pau que mais jeito dava aos meus doze anos esgalgados. Sempre foram caladas as minhas alegrias, e por isso não soltei os gritos que me estavam no peito, que até hoje não pude deixar sair.
Começámos a jornada a meio da tarde, meu tio atrás, com o cuidado de não deixar perder nenhum bácoro, eu à frente, levando a marrã nos calcanhares. Imaginava-me como uma figura de proa avançando pelas estradas e caminhos como sabia que faziam nos mares os barcos de piratas de que falavam os meus livros de aventuras. Uma vez por outra, meu tio revezava-me e eu tinha de comer o pó que as patinhas miúdas dos animais levantavam do caminho. No meio deles, mãe verdadeira de alguns e emprestada de todos os outros, a marrã conservava-os unidos. Era quase noite fechada quando chegámos à quinta onde ficaríamos para o dia seguinte. Metemos os animais num barracão e comemos o farnel leve, perto de uma janela iluminada, porque não tínhamos querido entrar (ou não nos deixaram?). Enquanto comíamos, veio um criado dizer-nos que poderíamos dormir na cavalariça. Deu-nos duas mantas lobeiras e foi-se embora. Soltaram-se os cães, e nós não tivemos mais remédio que ir dormir. A porta da cavalariça ficaria aberta toda a noite, e assim nos convinha, pois teríamos de sair pela madrugada, muito antes de nascer o sol, para chegarmos a Santarém no principiar da feira.
A nossa cama era um extremo da manjedoura que acompanhava toda a parede do fundo. Os cavalos resfolgavam e davam patadas no chão empedrado, coberto de palha. Deitei -me como num berço, enrolado na manta, respirando o cheiro forte dos cavalos, toda a noite inquietos, ou assim me pareciam nos intervalos do sono. Sentia-me cansado, com os pés moídos. A escuridão era quente e espessa, os cavalos sacudiam as cabeças com força, e o meu tio dormia. Os ruídos da noite passavam por sobre o telhado. Adormeci como um santo: assim minha avó diria se ali estivesse. Acordei quando meu tio me chamou, madrugada alta. Sentei-me na manjedoura e olhei para a porta, com os olhos piscos de sono e deslumbrados por uma luz inesperada. Saltei para o chão e vim ao pátio: na minha frente estava uma lua redonda e enorme, branca, entornando leite sobre a noite e a paisagem. Era tudo branco refulgente onde a lua dava e negro espesso nas sombras. E eu que só tinha doze anos, como já ficou dito, adivinhei que nunca mais veria outra lua assim. Por isso é que hoje me comovem pouco os luares: tenho um dentro de mim que nada pode vencer.
Fomos buscar os porcos e descemos ao vale, cautelosamente, porque havia silvas e barrocos, e os animais estranhavam a matinada e perdiam-se facilmente. Depois tudo se tornou simples. Seguimos ao longo de vinhas maduras, por um caminho coberto de pó que a frescura da noite mantinha rasteiro, e eu saltei ao meio das cepas e colhi dois grandes cachos que meti na blusa enquanto corria os olhos em redor, a ver se o guarda aparecia. Voltei ao caminho e dei um cacho ao meu tio. Fomos andando e comendo os bagos frios e doces, que pareciam cristalizados, de tão duros». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

sábado, 14 de julho de 2018

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Aparentemente desqualificado pelo seu esoterismo ou pelo seu misticismo abrupto, a imagem de um Portugal-Super-Man, portador secreto de uma mensagem ou possuidor virtual»

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«(…) Marginal por definição, era uma tal pressão capaz de alterar a fundo a imagem interior do que éramos e podíamos ser? Não é mera hipnose de intelectual imaginar-lhe poderes de subversão que uma vez mais não traduziam senão o eco atrasado de uma revolução já acabada algures e sem impacte visível sobre a inamovível boa consciência nacional, aliás em fase de apopléctico e delirante narcisismo? Apesar do condicionalismo tão particular da época, com a sua censura mais ou menos ubuesca, apesar do fenómeno sociologicamente minoritário das suas expressões oficiais, a sensibilidade quenas atitudes e gestos surrealistas se encarnou trouxe às uperfície um Portugal outro, anómalo, eficaz justamente até por não propor desta vez reforma ideológica, cultural ou ética de nacional recorte ou aplicação, mas apenas por tornar inactual, arcaico, fóssil, um mundo de formas que era a forma mesma do inteiro viver nacional. Mas só o triunfo da sociedadede consumo dos anos 60 lhe dará um dia emprego histórico.Talvez não por acaso, a mesma época ou imediatamente contígua conheceu a apoteose cultural mais nacionalista de que há memória nos nossos anais. Confundida com uma expressão da ideologia oficial mais exorbitada, em pleno reino não só de uma genérica hegemonia cultural da esquerda, mas sobretudo do império sempre omnipresente do nacionalismo ou do mero bom senso, o fenómeno da chamada filosofia portuguesa não mereceu a atenção devida. Ou mereceu-a, quer dos seus profetas e seguidores quer dos seus irónicos impugnadores, em termos que não corresponderam à importância sociológica e mesmo mítica de tão singular aventura. Sem expressão literária eminente (no plano do romance ou da poesia) o movimento da filosofia portuguesa, apesar das suas conotações ideológicas, do estilo provocatório e intimidativo que por vezes assumiu (Jornal; ficou demasiado confinado aos limites de uma seita, à apologia sem nuances de um guru (Álvaro Ribeiro) e passou aos olhos de muitos como a ideologia cultural de um fascismo lusitano que em Portugal até aos anos 50 não fora capaz de ter os seus Gentil e ou os seus Rosenberg. Na realidade e pese ao estilo peremptório de muitos dos seus iluminados seguidores (a começar pelo iniciador Álvaro Ribeiro), o movimento da filosofia portuguesa interessa precisamente por representar talvez a primeira tentativa de uma contra-imagem cultural da realidade portuguesa para inverter toda a mitologia cultural de tradição liberal e iluminista e em particular aquela que, confessada ou inconfessadamente, tentou refazer nessa linha a imagem nacional, quer dizer, a da Geração de 70. Amalgamando, por vezes em termos de duvidosa exegese, contribuições anticonformistas de variada ordem e alcance (Sampaio Bruno, Cunha Seixas, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa no plano nacional e Aristóteles e Hegel no plano universal) a filosofia portuguesa oferece de nós mesmos a mais articulada contra imagem cultural de tipo místico-nacionalistaque se conhece. Essa contra-imagem só oferece uma organicidade potente sob a pluma exotérica e brumosa de Álvaro Ribeiro. Noutros representantes do movimento como Orlando Vitorino e António Quadros (sobretudo neste último, sensível aos movimentos do século) essa imagem é mais fluida, mas não tanto que não tenha de comum com a do mestre esse apologetismo intrínseco da excelência ímpar do ser português, não apenas na sua configuração ético-ontológica, mas cultural. Jamais o velho (mas histórico e situável) complexo cultural lusitano foi impugnado com mais veemência e mais cópia de argumentação que sob as plumas dos representantes desse movimento. Aparentemente desqualificado pelo seu esoterismo ou pelo seu misticismo abrupto, a imagem de um Portugal-Super-Man, portador secreto de uma mensagem ou possuidor virtual de um Graal futuro, encontra em cada um de nós ecos por de mais equívocos, para poder ser considerado e atirado para o simples rol das aberrações projectivas da nossa esquizofrénica vida nacional». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
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O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «A imagem de Portugal não é subvertida pelo neo-realismo mas readaptada à sua função reestruturante e futuramente harmoniosa de um país que um dia se libertará de males e taras passageiros»

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«(…) Ideologia da fracção militante da classe operária, mas mais ainda ideologia dominante de uma fracção cada vez mais vasta da pequena e média burguesia intelectual, o marxismo, na sua aparência imediata, no seu vocabulário, nos seus mitos mais actuantes, não deixava grande margem para uma identificação sentimental com o nacionalismo sob nenhuma das suas formas. O triunfo nacionalista, de Franco, o lusitanismo agressivo dos ideólogos mais activos do regime de Salazar, soubera mutilizar com inegável habilidade o recurso à mitologia patriótico-clerical mais estafada mas não de todo exausta ,opondo ao internacionalismo marxista uma resistência de todos os instantes. Mas, pouco a pouco, esse internacionalismo marxista que era na prática militante cultural sobretudo um reflexo quase automático de alinhamento ou exaltação das conquistas da revolução soviética na sua versão mais apologética, nacionaliza-se por seu turno, transforma-se em populismo graças a obras (romances ou poemas) em que uma imagem mais convincente do povo português cumpre uma assimilação discutida mas inegável dos poderes desse patriotismo vigente apenas sob a máscara e mitos de uma visão burguesa particularmente vulnerável e já em causa desde o tempo de Eça de Queirós. Tal foi o papel histórico considerável do movimento neo-realista, cuja história cultural e ideológica, na sua complexidade, está por fazer, mas sem o qual a nossa futura e actual relação de portugueses com Portugal é simplesmente incompreensível. É sob o seu império ou na sua movência que se cria em relação à clássica imagem de Portugal como país cristão, harmonioso, paternal e salazarista, suave, guarda-avançada da civilização ocidental antimarxista, uma outra-imagem que não é exactamente uma contra-imagem, mas uma complexa distorção desse protótipo que nalguns aspectos se apresenta como o pólo oposto dela (sobretudo pela ocultação do carácter repressivo de índole cristã). Na realidade, a oposição ideológico-cultural ao antigo regime não se apresentou nunca (salvo no estilo plano de uma luta de expressão clandestina) como obviamente marxista nem assim apareceu aos olhos públicos, salvo aos de algum argus mais vigilante no campo dos diversos meios de comunicação de massa. É o carácter obscurantista, a prepotência de classe ou a glosa romanesca da multiforme miséria do povo português que servem de alvo ou justificam uma lenta mas implacável erosão do espírito burguês provincial do salazarismo, sem aliás lhe alterar nem a boa consciência cultural nem política. Pode mesmo dizer-se que à medida que triunfa, a visão neo-realista se integra no horizonte global da existência portuguesa e os seus representantes nem são reconhecidos pelo regime, sem que (ao menos os mais consequentes) o reconheçam ou integrem, mesmo objectivamente. Paradoxalmente, esta erosão inegável de um certo conformismo ideológico e político operado graças a essa espécie de hegemonia espiritual que foi a do neo-realismo durante quase trinta anos, não subverteu tanto como se podia imaginar a imagem idealizante de Portugal. De algum modo até contribuiu para a reforçar, não só como necessária para através dela reinventar no futuro um outro Portugal, livre, igualitário, fraternal, mas até no próprio presente (e no passado), reformulando no sujeito povo praticamente todos os clichés que até então haviam funcionado em relação ao português em geral e a Portugal. Claro, não com a candura e o patriotismo incandescentes do antigo republicanismo mas por uma idealização evidentedos humilhados e ofendidos a quem não foi difícil atribuir um suplemento de consciencialização ideológica ou um heroísmo militante que relevam mais da tradição romântica que de um implacável e justo olhar sobre a nossa realidade humana. Na reformulação ou metamorfose da imagem íntima de Portugal e dos portugueses, o neo-realismo foi, em geral, bem pouco revollucionário. Mas se o tivesse sido mais nãoteria conhecido o inegável sucesso sociológico que conheceu. O neo-realismo não teve, nem podia ter, o sentido do trágico histórico, mesmo naqueles autores que por íntima disposição mais predispostos estariam para o transcrever. O sentimento da tragédia é relativo e relativizado, excepto num Vergílio Ferreira que escapará das suas malhas e fará dele, talvez por obsessiva auto punição do optimismo inicial,o núcleo de toda a sua obra. A imagem de Portugal não é subvertida pelo neo-realismo mas readaptada à sua função reestruturante e futuramente harmoniosa de um país que um dia se libertará de males e taras passageiros.
É à margem, mas paralelamente, ao vasto movimentoneo-realista e consciente ou inconscientemente em reacção contra ele que se forjam as autênticas contra-imagens de Portugal, umas de máxima positividade, outras de total e dinamitadora subversão, tanto quanto em nós cabe. Continuamos a referir-nos às imagens culturais, à nossa (da maioria letrada e ledora do país) e não à subversão, da sua própria realidade que a esta só o movimento concreto da história que no cultural se investe (ou inverte) a realizará (se realizar), não apenas as que se opõem àquelas que do século XIX continuavam a escoar-se e a ecoar no subconsciente racional,mas às clericais-fascistas, aos arquétipos líricos do eterno Portugal meu berço (de) inocente que a pedagogia do regime destilava como mel obrigatório desde o banco da escola primária à Universidade. O surrealismo, com os caracteres bem próprios que foram os seus entre nós, redimensionava a imagemda nossa relação com a realidade portuguesa segundo cânones, modelos, inspirações que procediam de uma das mais radicais metamorfoses da cultura do século XX e retomava, agora sob um modo burlesco, a lógico, provocador, a tentativa ganha e perdida pela aventura sem herdeiro do primeiro Álvaro de Campos. Ideologicamente, o surrealismo, apesar de uma aparente indiferença às clivagens maniqueístas próprias do mundo político, batia-se sobre duas frentes: uma, a do conformismo secular reformulado pelo fascismo em termos de pesadelo azul, quer dizer, contra a ordem moral de salazarístico perfil; outra, a do conformismo marxista, não só ideológico, como cultural, totalmente alheio às potencialidades subversivas da linguagem em prise directa com as pulsões do inconsciente ou da simples vocação humanística à Lewis Carrol ou Edward Lear. O que o surrealismo, mesmo tendo em conta o seu carácter de fenómeno citadino e de seita,contribuiu para extirpar foi a omnipotência da percepção realista, nas letras e na cultura, abrindo assim a larga estrada por onde passará em seguida a pé enxuto a grande enxurrada de um imaginário lusíada submerso e que encontrará em obras não directamente ligadas ao surrealismo, como as de Agustina Bessa-Luís e Ruben A., a sua expressão pública mais torrencial. Ao mesmo tempo, o impacte surrealizante trabalha e metamorfose ia do interior o próprio projecto neo-realista (em particular no campo poético), metamorfose de que os começosdos anos 50 e as seguintes décadas acentuarão cada vez com mais revulsiva eficácia até dissolver nela o impulso original,e a figura mesmo do neo-realismo. Foi a esta vaga de fundo que em tempos aplicámos o epíteto de  literatura desenvolta mas ao qual mais conviria o de cultura desenvolta, pois a pressão libertária que o surrealismo exprimiu ou canalizou em primeiro lugar (a par de outras expressões que sem serem surrealistas modularam ao mesmo tempo uma exigência de libertação cultural paralela) não se ficou apenas no campo clássico da literatura, mas irradiou e reestruturou toda a experiência formal dos seus contemporâneos». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
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sexta-feira, 13 de julho de 2018

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Não vivíamos num país real, mas numa Disneylandia qualquer, sem escândalos, nem suicídios, nem verdadeiros problemas»

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«(…) O nacionalismo orgânico do antigo regime favoreceu a objectiva desnacionalização de milhares de portugueses. Em compensação, teria contribuído para colmatar, melhor que a ideologia patriótica do liberalismo, o abismo persistente entre a nossa autêntica realidade e a imagem hipertrofiada com que sempre temos vivido a nossa vida imaginária? Houve no salazarismo concreto (e na sua ideologia expressa nos Discursos do universitário assaz racionalista que foi Salazar, uma tentativa para adaptar o país à sua natural e evidente modéstia. Todavia a glosa do relativo sucesso dessa tentativa é que não foi nada modesta e breve redundou na fabricação sistemática e cara de uma lusitanidade exemplar,cobrindo o presente e o passado escolhido em função da sua mitologia arcaica e reaccionária que aos poucos substituiu a imagem mais ou menos adaptada ao País real dos começos do Estado Novo por uma ficção ideológica, sociológica e cultural mais irrealista ainda que a proposta pela ideologia republicana, por ser ficção oficial, imagem sem controlo nemcontradição possível de um país sem problemas, oásis da paz, exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade. Esse optimismo de encomenda teve nas famigeradas notas do dia o seu evangelho radiofónico. Não vivíamos num país real, mas numa Disneylandia qualquer, sem escândalos, nem suicídios, nem verdadeiros problemas. O sistema chegou a uma tal perfeição na matéria que não parecia possível contrapor uma outra imagem de nós mesmos àquela que o regime tão impune mas tão habilmente propunha semque essa imagem-curta (não apenas ideológica, mas cultural) aparecesse como uma sacrílega contestação da verdade portuguesa por ele restituída à sua essência e esplendor. Não se percebeu nada do espírito do antigo regime e do seu êxito histórico quando não se vê até que ponto ele foi a mais grandiosa e sistemática exploração do fervor nacionalista de um povo que precisa dele como de pão para a boca em virtude da distância objectiva que separa a sua mitologia da antiga nação gloriosa da sua diminuida realidade presente. O Estado Novo voltou contra o sistema democrático um patriotismo que nãos oubera traduzir nos factos nenhuma das promessas que o haviam justificado nos finais do século XIX. Sob tão sólida peanha o Estado Novo, mesmo cada dia mais envelhecido, podia durar indefinidamente. A mentira orgânica que a sua impossível consubstanciação orgânica com a Nação, por mais formal que realmente orgânica, representava junto da parte mais politizada do povo português, poder-se-ia ter prolongado, menos pela sua própria capacidade do que pelo vazio quase absoluto da ideologia liberal sobrevivente. E na verdade em face desse obstáculo, balizado com o nome ainda mágico da Democracia, o antigo regime foi capaz durante mais de trinta anos de resistir vitoriosamente. Essa resistência foi-lhe tanto mais fácil quanto era certo que o ferro de lança da Democracia, que na sombra, ou de quatro em quatro anos à luz de um arremedo de dia eleitoral a defendia, era um partido que não possuía desse ideal nem da prática democráticas tradicionais, nenhuma lembrança fervorosa ou projecto digno de crédito. Os fins dos anos 30, começos dos anos 40, veriam em Portugal uma mutação que por confinado ou claro destino deslocou, como até então ideologia alguma o conseguira, o eixo sobre o qual repousaram até aí todas as figuras da relação entre os portugueses e Portugal. Pela primeira vez o sentimento patriótico característico da política moderna sob o signo português era desmascarado, na teoria e na prática, e subordinado a uma concepção revolucionária da História que transfere para a luta de classes o segredo do seu dinamismo, fiando da sua abolição o ajustamento efectivo do indivíduo ao povo a que pertence enquanto sociedade revolucionária pela supressão vitoriosa da classe dominante que até então confundira como seus os interesses colectivos». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
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terça-feira, 10 de julho de 2018

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Desse processo e como coroamento dele, constituirá a emigração em massa dos nossos aldeões asimbólica e dura expressão final»

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«(…) Passado o momento da aflição patriótica, percorrido até ao absurdo o labirinto sem saída da nossa impotência, voltámos à costumada e agora voluntária e irrealística pose de nos considerarmos, por provincianice incurável ou despeito infantil, uma espécie de nação idílica sem igual. O fim do século XIX, por reacção ao criticismo devastador e impotente da década de Setenta, mas também como resposta à agressão do monstro civilizado (Inglaterra) verá eclodir a mais nefasta flor do amor pátrio, a do misticismo nacionalista, fuga estelar a um encontro com a nossa autêntica realidade, mas, ao mesmo tempo, expressão profunda sob a sua forma invertida, de uma carência absoluta que é necessário compensar desse modo. O Saudosismo será, mais tarde, a tradução poético-ideológica desse nacionalismo místico, tradução genial que representa a mais profunda e sublime metamorfose da nossa realidade vivida e concebida como irreal. Mas nesse final de século a própria ideologia republicana se alimentou do ultranacionalismo da impotência gerado pelo Ultimatum. A república, conjunto de proposições políticas de subversivo teor ideológico mas de reduzido âmbito social, aparece então como a forma de apropriação de um destino colectivo confiscado, como então se escrevia, pela casa de Bragança, a monarquia liberal onde se enxertara também a pouco dinâmica burguesia nacional (e internacional). Poucos períodos da nossa História foram tão patrióticos como aquele que a República inaugurou. O patriotismo fora a sua arma ideológica antes do triunfo, seria a sua justificação permanente após 1910, como se pela segunda vez (a primeira fora em 1820) os Portugueses tivessem uma Pátria, aquela mesma que em música e palavras se definira na Portuguesa, como heróis do mar, nobre povo, nação valente. O famoso idealismo da República foi sobretudo patriotismo, este patriotismo como voluntária exaltação da entidade nacional regenerada pela supressão dos seus maus pastores e restituída ao povo, que Guerra Junqueiro, à sombra do último Oliveira Martins, converteu em criança heróica, penhor da ressurreição colectiva. Escusado será dizer que uma vez mais este patriotismo mascarava, com muito mais intensidade, a consciência sempre viva de uma desvalia nacional que o espectáculo político do parlamentarismo demagógico só podia confirmar. A cobertura ideológica de vanguarda escondia mal o mesmo país cauda da Europa, escoando-se nas suas obras vivas para Brasis, Argentinas, e Áfricas e incapaz de remediar em casa males de fundo que nenhum demagogismo liberal podia concertar.E assim tocámos o que o regime posterior chamaria o fundo do abismo, para justificar os processos com que, de intenção confessada, quis libertar-nos dele. Processos drásticos, regresso maciço da antiga e indiscutível autoridade majestática do Estado, mas sob a forma violenta do totalitarismo, pois sem ele não era possível recusar em bloco a herança de cento e poucos anos de tradição liberal. Era esse o preço a pagar para reajustar o País a si mesmo? Esse foi o desígnio e a pretensão do Estado Novo, curiosa mistura, em seus começos, de inegável sucesso, de arcaísmo e vanguardismo. O patriotismo jacobino volve-se nacionalismo, forma de exaltação da realidade nacional, não ao serviço do suspeito povo de tradição rousseanista, mas de a Nação como totalidade orgânica, pessoa histórica, dotada de direitos e deveres enquanto tal. A modernidade da reformulação é inegável, como inegável é a sua sintonia com uma metamorfose do capitalismo ocidental que está então após 1914 em vias de ultrapassar a sua fase ascendente e selvagem, em termos de puro liberalismo, para aquela que a crise de 1929 tornará imperativa. O papel impossível que em países de capitalismo subalterno como o nosso as grandes empresas não podem assumir sós, será assumida por a Nação, quer dizer, o Estado salazarista como elemento protector, e em parte dinâmico, da nossa incipiente indústria.A resposta de Salazar, resposta ideológica e técnica a um liberalismo incapaz de fazer funcionar o próprio sistema,continha elementos próprios para lhe assegurar longa vida. Não era, não foi a resposta, mas colocou o acento dela no campo onde devia e tinha de ser dada:o campo social. Por mais escandalosa que a fórmula pareça, o corporativismo foi já uma forma Socializante, mas de um socialismo envergonhado e contraditório cuja coerência histórica orgânica inegável funcionava para tornar viável o inviável capitalismo caseiro. Concretamente, o salazarismo foi o preço forte que uma nação agrária desfasada do sistema ocidental a que pertence teve de pagar para ascender ao nível de nação em vias de industrialização. Desse processo e como coroamento dele, constituirá a emigração em massa dos nossos aldeões asimbólica e dura expressão final». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Os começos do século XIX, momento em que o raio da História nos caiu em casa, na sossegada e sonambúlica casa portuguesa, farão desse processo uma estrutura que se manifesta sem falhas há cento e oitenta anos»

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«(…) Nós vivemos então um drama digno doHenrique IV de Pirandello. É difícil conceber que a confusão entre o real e o sonho possa ir mais longe do que o foi na cabeça do António Vieira das alegações diante do Santo Ofício (maldito), mistura única de lucidez delirante e delírio divino. Nele se operou como em ninguém mais a conversão da nossa longa ansiedade pelo destino pátrio em exaltada aleluia, a transfiguração do simples cantar de amigo com que nos embalámos no alvorecer inquieto, em cantata sublime ao Quinto Império.Assim liquidámos, no imaginário e em termos magníficos, o segundo traumatismo, numa barroca inversão que vale bem outras futuras, postas na conta larga e humanística de nossa-senhora-da-dialéctica. De cativos, a senhores de sonho do mundo, de humilhados e ofendidos da História, a eleitos, servidos pelos outros, paranóica mas generosa visão, paralela à que o mesmo Vieira prometia no céu aos escravos sem redenção terrestre dos engenhos e fazendas do Brasil, é que Pombal pensou libertar-nos por um europeísmo à Pedro da Rússia, que não convenceu os nossos boiardos locais, analfabetos, glutões e preguiçosos, como William Beckford os virá encontrar. Cada período de força do dinamismo tem sido seguido sempre do que, em linguagem freudiana, se chamaria o regresso do recalcado.
Os começos do século XIX, momento em que o raio da História nos caiu em casa, na sossegada e sonambúlica casa portuguesa, farão desse processo uma estrutura que se manifesta sem falhas há cento e oitenta anos. Em nenhum tempo do seu percurso a existência nacional foi vivida em termos tão esquizofrénicos como no século XIX. No centro desse percurso está simbolicamente o ninguém do frei Luis Sousa e na dramática e quotidiana realidade, um país pela primeira vez posto na balança da Europa que era ao mesmo tempo a dos seus interesses e das suas ideologias, tapete de guerra civil ou monarquia a salvar com invasão de estrangeiros. Aberto com a fuga o Brasil, o século liberal termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira. O século XIX foi o século em que pela primeira vez os portugueses (alguns) puseram em causa, sob todos os planos, a sua imagem de povo com vocação autónoma tanto no ponto de vista político como cultural. Que tivéssemos merecido ser um povo, e povo com lugar no tablado universal, não se discutia. Interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero e de parte da sua geração, para saber se éramos ainda viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência. Curiosamente, o exame de consciência parricida intentado ao ser nacional tinha lugar na altura mesma em que Portugal se religava, com um êxito, a essa Europa, exemplo de civilização, cuja comparação connosco nos mergulhava em transes de melancolia cívica e cultural, tais como a obra de Eça os exemplificará para o nosso sempre. Nem Herculano, nem Garrett haviam sentido assim a decadência que também não lhes fora estranha. Entre a juventude de ambos e a da geração de Antero há a revolução industrial e a não menos prodigiosa revolução cultural do século XIX de que receberemos reflexos ou restos não desprezíveis (o criticismo patriótico da geração de Setenta faz parte deles) e com eles a consciência, por assim dizer física, do que nos separava da maiusculada e então orgiástica Civilização. Começou então a doer-nos não o estado de Portugal, as suas desgraças ou catástrofes políticas, mas a existência portuguesa, pressentida, descrita, glosada , como existência diminuída, arremedo grosseiro da existência civilizada, dinâmica, objecto de sarcasmos e ironias, filhos do amor desiludido que se lhe votava. Para fugir a essa imagem reles de si mesmo (choldra, piolheira) Portugal descobre a África, cobre a sua nudez caseira com uma nova pele que não será apenas imperial mas imperialista, em pleno auge dos imperialismos de outro gabarito. A tentativa de recriar uma alma à século XVI não foi longe: um excesso de lógica nas suas ambições, legítimas mas incómodas, ministraria ao mundo europeu a prova absoluta da nossa absoluta subalternidade. O Ultimatum não foi apenas uma peripécia particularmente escandalosa das contradições do imperialismo europeu, foi o traumatismo-resumo de um século de existência nacional traumatizada. Podia imaginar-se que confrontados com tão dura lição viéssemos a reconsiderar um estado de abatimento e um comportamento de fuga complementar dele». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Destroços. Eduardo Lourenço. «Por demais habituados ao que sem o sabermos é a marca da fábrica da modernidade escapa-nos o alcance fantástico, revolucionário, da ironia como tom natural da Cultura»

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O Gibão de Mestre Gil
«(…) Fica-nos Erasmo a quem, com imperativa decisão alguns acusaram de ter chocado o famigerado ovo de onde Lutero saiu. Erasmo e o erasmismo são temíveis fenómenos culturais para poderem ser abordados sem uma série de cautelas dignas do mesmo Erasmo. Entre outras cautelas, quando se fala de Erasmo, convém distinguir duas coisas: uma, a sua crítica de costumes, que revela da teologia moral; outra, a sua crítica explícita e a mais das vezes implícita, de matéria teológica propriamente dita. Envolvendo estas duas vertentes do seu labor crítico (deixamos de lado a critica filológica que é a ferramenta erasmiana propriamente dita), há a considerar a forma que Erasmo dava à sua crítica. Este último ponto é de importância capital, como é sempre capital a forma sobre a qual tudo se manifesta, ao contrário do que é costume supor-se. A novidade de Erasmo, se exceptuarmos o contributo que hoje chamaríamos científico, isto é, os seus trabalhos de exegese, reside justamente na forma. Isto, supremamente, o distingue dos humanistas que o precedem ou são seus contemporâneos, e dá à sua acção um carácter revolucionário que ultrapassa de longe a letra dos textos que a Europa tem sob os olhos, a inquietam, a divertem, a escandalizam e a interessam.
Antes de Erasmo já começava a tornar-se manifesto que a Cultura não era apanágio da que, além do carisma religioso, era uma classe, a classe eclesiástica. Mas foi em Erasmo e através dele que isso se tornou visível, palpável, irrefutável e sem remédio. Justamente Erasmo soube, como o saberão Lutero no seu domínio, ou um Descartes e um Voltaire mais tarde, encontrar o tom, digamos, o lamiré, que permite pôr fora de moda uma mentalidade, um hábito secular, uma tradição, mesmo veneráveis. É um fenómeno que tem muitas semelhanças com o do aparecimento de uma moda, mas precisamente uma moda é assunto sério. Erasmo representa sob o plano da cultura, especialmente das humanidades, o aparecimento do clerc franc tireur, a liberdade de opinar em tais matérias paralela da liberdade de comerciar sem o cerceamento e a limitação próprias da época feudal. Como a burguesia nascente soube encontrar as vestiduras convenientes para revestir e exaltar uma nobreza de novo género, Erasmo encontrou o inimitável tom livre, desenvolto, superior porque seguro, que por si só reenviava todo um estilo mental, que era um modo de existir, para o sempre desagradável e em parte injusto rol dos esquecidos e caricatos.
Como se só esperassem esse sinal, essa música nova, de toda a parte, mas sobretudo daquelas zonas em que já se sentia também a anquilose e o cansaço da tradicional cultura, surgiu o entusiasmo, a adesão, numa palavra o erasmismo que permitia aos possuidores de técnicas novas sentir-se uma família. A análise exaustiva dessa forma que é a invenção, a marca do génio próprio de Erasmo não cabe no nosso propósito. Para ele basta, entre outros caracteres, assinalar o que se chama, talvez sem as cautelas devidas, a ironia de Erasmo. Por demais habituados ao que sem o sabermos é a marca da fábrica da modernidade escapa-nos o alcance fantástico, revolucionário, da ironia como tom natural da Cultura». In Eduardo Lourenço, Destroços, O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios, Gradiva, Publicações, 2004, ISBN 972-662-945-4.

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Destroços. Eduardo Lourenço. «Por mais que pese a gregos e troianos não é costume da Igreja colocar entre os seus luminares os suspeitos nas obras ou na Fé»

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O Gibão de Mestre Gil
«(…) Crer coisa diversa não é fazer obra de historiador mas de profeta às avessas e submeter arbitrariamente o que foi, e de que nos ficaram testemunhos irrefragáveis, a utopismos respeitáveis na sua ordem, mas inadequados à verdade de que desejariam reclamar-se. No fundo, trata-se sempre de idêntico fenómeno: o de homens que não podem já assumir nem a forma nem o conteúdo da religiosidade medieval, que é, no fundo, a mesma de hoje, mas que a transfiguram para uso próprio, ou por ignorância, ou por estesia ou por secreta necessidade religiosa deles mesmos mal conhecida. O franciscanismo é um fenómeno histórico extremamente complexo, tocado em suas manifestações exteriores pela presença de um espírito realmente hostil à estruturação jurídica e social que a Igreja acabou por assumir. O fogo que consome S. Francisco e o leva nu diante do Bispo não está longe de Montségur. O génio de S. Francisco foi de o tomar nas suas mãos sem o destruir e de o depor aos pés dessa mesma Igreja que precisava dele para ser o que idealmente queria ser e historicamente não era. Estratégia divina ou astúcia da História como diria Hegel, cada qual interprete o fenómeno como puder e souber, mas o facto do franciscanismo, aquilo pelo qual ele pôde ser o que foi, reside nessa conversão, nessa reversão do que ameaçava a visão católica do mundo em seus fundamentos, em perfeita e sublimada ortodoxia. De certo, a Igreja não será daí em diante a mesma mas, falando com propriedade, ela não é jamais a mesma em sentido comum. Mas isso não é razão para atribuir aos gestos que vêm dela, como serão daí em diante a acção e os actos militantes do franciscanismo, o pimento suspeito da heterodoxia ou o mais suspeito ainda de uma contradição suplementar e insolúvel, que seria invisível para a mesma Igreja. Estranha ideia se fazem esses críticos da ortodoxia. Sem ela não se precipitariam com uma alegria não dissimulada sobre o mínimo sintoma, a mínima expressão que por humanamente aceitável, racional, critica, já se lhe afigura um desmentido, um desvio, uma negação dessa ortodoxia a respeito da qual eles se inventaram uma imagem caricatural.
Admoesta Gil Vicente os frades ignaros de Santarém? Audácia heterodoxa, inaudito atrevimento. podiam empilhar-se toneladas de páginas contra a ignorância fradesca, os seus vícios, a sua concussão, todas ou quase todas escritas por outros frades, naturalmente. As audácias de Mestre Gil são uma pálida palinódia para quem tem uma vaga ideia do que podia escrever um Poggio no De Hypocrisia. E Poggio foi secretário apostólico de oito papas! Quanto à concepção do Deus como ordem da Natureza, que mais ortodoxa concepção? De quem teria a Natureza a sua ordem, peso e medida de augustiniana invocação? Que imagem de tirano aberrante ou demiurgo impotente tem A. José Saraiva do Deus segundo Santo Agostinho e mais explicitamente ainda, de São Tomás, um e outro por Mestre Gil citados com a reverência natural devida aos pilares da ortodoxia? A muito sensata, razoável consideração de Mestre Gil acerca do milagre e sua natureza de excepção é o lugar comum da sabedoria cristã. Que ele tenha de o invocar diante de frades só prova que estes, por ignorância crassa ou mais certamente por paixão que nada tem a ver com a boa doutrina, se desentendiam de tão comum sabedoria. Daí até ver em tão inocente e fiel concepção o halo panteísta de uma Natureza como ordem de Deus ou o mesmo Deus sive Natura há um abismo que nem a história, nem o texto, nem o contexto, nem a mais ínfima verosimilhança, podem autorizar.
Também não a a:utotizatra a referência a Raimundo Lúlio. Não sei se a hipótese de um conhecimento ou da influência de Raimundo Lúlio sobre Gil Vicente é original de A. J. Saraiva. A hipótese nada tem de inverosímil e certo vocabulário, embora não seja prova segura, torna aceitável esse conhecimento. Raimundo Lúlio teve uma voga imensa na Península e entre nós. A Biblioteca de Alcobaça, a leitura dos estudos do padre Mário Martins com evidência o atestam. O que é mais difícil de demonstrar, uma vez mais, é a infidelidade do irrequieto e místico franciscano de Maiorca à ortodoxia. É exacto que algumas passagens das suas obras deram lugar a reparos, que foi alvo de um processo que melhor conviria chamar maquinação, mas de tudo isso saiu o mártir de Marrocos ilibado. Sem este exame não teria o lírico do Desconor sido aceite entre o Beatos. Por mais que pese a gregos e troianos não é costume da Igreja colocar entre os seus luminares os suspeitos nas obras ou na Fé». In Eduardo Lourenço, Destroços, O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios, Gradiva, Publicações, 2004, ISBN 972-662-945-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

terça-feira, 26 de junho de 2018

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Nesses sessenta anos o nosso ser profundo mudou de sinal. Como portugueses esperámos do milagre, no sentido mais realista da palavra…»

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«(…) Esta experiência constitui um segundo traumatismo, de consequências mais trágicas que o primeiro. E disto, os nossos historiadores não cuidaram. Só Olíveira Martins, de quem se diz tão mal, mas a quem ninguém substituiu (o que se chama substituir), pois fora da sua não há História de Portugal como remeditação global do destino e devir colectivos, mas meras mantas de retalhos falsamente unidas por falsos fios de opostas ideologias, anteviu qualquer coisa nesse sentido. Os sessenta anos que, absurdamente, perpetuando o velho jogo de avestruz que jogamos com a nossa alma, nós arredámos da consideração séria da História, não são esse vácuo que os falsos patriotas gostavam que tivesse sido, mas também não são a mera continuação do nosso devir nacional. Historiograficamente, esta hipótese tem a seu favor o simples bom-senso e a realidade documental de um viver sem descontinuidade, bem pouco resistente até, como uma idealística visão do nosso passado se apraz em imaginar. O problema da independência nacional não tinha então o perfil que a historiografia romântica e nacionalista lhe atribuirá. Hoje, todos os escritores que nós celebramos dentro desses sessenta anos filipinos seriam, pura e simplesmente, colaboracionistas. A verdade é que não há na sua actividade literária sombra de má consciência. A vinculação política fazia-se em relação ao Estado (a Coroa) que tinha o seu domínio próprio, hierárquico e administrativo, mas não cultural; a vinculação orgânica fazia-se em relação à Pátria que não é ainda Nação,mas terra comum, gente comum que a vicissitude política não altera. Faria Sousa celebra em castelhano as glórias lusitanas, sem ver nisso contradição alguma, e o que é mais importante, sem que os espanhóis com elas se apoquentem. Na classe dirigente há uma oscilação de fundo entre o vínculo natal e os deveres de Estado, cujo estatuto político lhes parece normal. É nas camadas populares ou nos que estão mais próximos delas, que o vínculo imediato ao ser racional resiste, mesmo inconscientemente, à coexistência superficialmente pacífica de espanhóis e portugueses. Elas que têm o largo hábito do desamparo curtem segunda experiência de desamparados de rei próximo e aos poucos forjam uma relação diferente com a totalidade do ser racional. Nesses sessenta anos o nosso ser profundo mudou de sinal. Como portugueses esperámos do milagre, no sentido mais realista da palavra, aquilo que, razoavelmente, não podia ser obtido por força humana.A morte do padre Malagrida, um Vieira sem génio nem sorte, pôs termo (ou interrompeu) esse ciclo de sebastianismo activo que representou, ao mesmo tempo, o máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; e o máximo de coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real. Das duas componentes originais da nossa existência histórica, desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo, aprofundámos então, sobretudo, a nossa dificuldade de ser, como diria Fontenelle, a histórica dificuldade de subsistir com plenitude política. Tornou-se então claro que a consciência nacional (nos que a podiam ter) que a nossa razão de ser, a raiz de toda a esperança, era o termos sido. E dessa ex-vida são Os Lusíadas a prova do fogo.O viver nacional que fora quase sempre viver sobressaltado,inquieto, mas confiado e confiante na sua estrela, fiando a sua teia da força do presente, orienta-se nessa época para um futuro de antemão utópico pela mediação primordial, obsessiva,do passado. Descontentes com o presente, mortos como existência nacional imediata, nós começámos a sonhar simultaneamente o futuro e o passado. Nunca se meditou a sério em actos tão significativos como os da invenção de falsos documentos pelos monges de Alcobaça para provar a nossa existência legal no passado, assim como, já depois da ressurreição, no labor incrível dos nossos juristas para justificar o nosso direito a um lugar ao sol entre os povos livres». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.

Cortesia Gradiva/JDACT