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sábado, 16 de abril de 2016

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Em lugar de uma fé aceite em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento directo e pessoal, numa experiência religiosa ou mística apreendida em primeira mão. Esta experiência chamava-se “gnosis”»

jdact

A Cruzada Albigense
«(…) Os hereges em questão pertenciam a uma multidão de seitas diversas, muitas sob a direcção de um líder independente, cujo nome os seus seguidores assumiam. E, embora estas seitas pudessem ter certos princípios comuns, divergiam radicalmente nos detalhes. Além do mais, muita da informação provêm de que dispomos sobre os hereges deriva de fontes eclesiásticas, tais como documentos da Inquisição (maldita). Criar um quadro a partir de tais fontes é como tentar compreender a Resistência Francesa a partir dos registos da SS e da Gestapo. Assim, é virtualmente impossível apresentar um resumo coerente e definitivo do que realmente constituiu o pensamento cátaro. Em geral, os cátaros acreditavam numa doutrina de reencarnação e no reconhecimento de um princípio feminino de religião. Na verdade, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como parfaits perfeitos, eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, rejeitavam a Igreja Católica ortodoxa e negavam a validade das hierarquias clericais, ou de intercessores oficiais e ordenados entre Deus e o Homem. No centro desta posição, reside um princípio importante: o repúdio da fé, pelo menos da forma como a insistia nela.
Em lugar de uma fé aceite em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento directo e pessoal, numa experiência religiosa ou mística apreendida em primeira mão. Esta experiência chamava-se gnosis, termo grego para conhecimento, e para os cátaros, tinha precedência sobre todos os credos e dogmas. Uma vez que era colocada uma ênfase tão grande no contato pessoal e directo com Deus, os padres, bispos e outras autoridades eclesiásticas tornavam-se supérfluas. Os cátaros eram também dualistas. Todo o pensamento cristão podia, certamente, ser visto como dualista, pois insistia no conflito entre dois princípios oponentes: bem e mal, espírito e carne, alto e baixo. Mas os cátaros levavam a dicotomia muito além do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para aceitar. Para os cátaros, os homens eram as espadas com as quais os espíritos lutavam, sem que ninguém visse as suas mãos. Para eles, estava a ser travada uma guerra perpétua, ao longo de toda a criação, entre dois princípios irreconciliáveis, luz e escuridão, espírito e matéria, bem e mal. O catolicismo posicionava um Deus supremo cujo adversário, o diabo, é em última análise inferior a Ele. Os cátaros, contudo, proclamavam a existência, não de um Deus, mas de dois, com um estatuto mais ou menos comparáveis. Um destes deuses, o bom, era inteiramente desencarnado, um ser ou princípio de puro espírito, não maculado pela matéria. Era o deus do amor. Mas o amor era considerado completamente incompatível com o poder; e a criação material era uma manifestação de poder. Assim, para os cátaros, a criação material, o mundo em si próprio, era intrinsecamente perversa. Toda a matéria era intrinsecamente perversa. O universo, em suma, era obra de um deus usurpador, o deus do mal, ou, como os cátaros o chamavam, Rex Mundi, Rei do Mundo.
O catolicismo repousava no que podia ser chamado um dualismo ético. O mal, embora saído talvez do diabo, manifesta-se primariamente através do homem e de suas acções. Em contraste, os cátaros viam a realidade totalmente impregnada de uma forma de dualismo cosmológico. Esta era, para eles, uma premissa básica, mas a resposta variava de seita para seita. Segundo alguns cátaros, a finalidade da vida do homem na Terra era o de transcender a matéria, renunciar para sempre a qualquer coisa relacionada com o princípio do poder, conseguindo assim uma união com o princípio do amor. Segundo outros, o propósito do homem era reclamar e recuperar a matéria, espiritualizá-la e transformá-la. É importante notar a ausência de qualquer dogma, doutrina ou teologia fixas. Tal como na maioria dos desvios à ortodoxia estabelecida, há apenas algumas certas atitudes definidas de maneira vaga, e as obrigações morais subordinadas a estas atitudes estavam sujeitas a uma interpretação individual». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, tradução de Elsa Vieira, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-382-651-8.

Cortesia L Brasil/JDACT

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «… exaltava-se a poesia e o amor palaciano; estudava-se entusiasticamente o grego, o árabe e o hebreu; e, em Lunel e Narbonne, prosperavam escolas devotadas à cabala, a antiga tradição esotérica do judaísmo»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cruzada Albigense
«(…) No início do século XIII, a área hoje conhecida como Languedoc não fazia oficialmente parte de França. Era um principado independente, cuja língua, cultura e instituições políticas tinham menos em comum com o Norte do que tinham com Espanha, com os reinos de Leão, Aragão e Castela. O principado era governado por uma mão-cheia de famílias nobres, sendo as mais importantes entre elas a dos condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel. E, dentro dos limites deste principado, florescia uma cultura que, na época, era a mais avançada e sofisticada da Cristandade, com a possível excepção de Bizâncio. O Languedoc tinha muito em comum com Bizâncio. A instrução, por exemplo, era tida em elevada consideração, como não acontecia na Europa do Norte. Floresciam a filosofia e outras actividades intelectuais; exaltava-se a poesia e o amor palaciano; estudava-se entusiasticamente o grego, o árabe e o hebreu; e, em Lunel e Narbonne, prosperavam escolas devotadas à cabala, a antiga tradição esotérica do judaísmo. Até a nobreza era letrada e literária, numa época em que a maioria dos nobres do Norte nem sabiam assinar o próprio nome.
Também como Bizâncio, o Languedoc praticava uma tolerância religiosa civilizada e indolente, em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. o pensamento islâmico ou judaico, por exemplo, era importado através dos centros comerciais marítimos como Marselha, ou atravessava os Pirenéus, vindo de França. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não gozavade grande estima; os clérigos romanos no Languedoc, em virtude da sua corrupção notória, conseguiam acima de tudo alienar a população. Havia igrejas, por exemplo, onde não se diziam missas há mais de trinta anos. Muitos padres ignoravam os seus paroquianos e dedicavam-se aos negócios ou a gerir grandes propriedades. Um arcebispo de Narbonne nunca visitou sequer a sua diocese.
lndependentemente da corrupção da Igreja, o Languedoc tinha atingido um pico de cultura que não voltaria a ser visto na Europa até à Renascença. Mas, tal como em Bizâncio, havia elementos de complacência, decadência e uma fraqueza trágica, que deixavam a região desprevenida para a investida posteriormente lançada sobre ela. Há já algum tempo que, tanto a nobreza do Norte da Europa como a Igreja Romana estavam conscientes da sua vulnerabilidade, e ansiosos por a explorar. A nobreza do Norte há muitos anos que cobiçava a riqueza e luxos do Languedoc. E a Igreja estava interessada por razões próprias. Em primeiro lugar, a sua autoridade na região era frouxa. E, enquanto a cultura florescia no Languedoc, outra coisa florescia também, a maior heresia da Cristandade medieval. Nas palavras das autoridades da Igreja, o Languedoc estava infectado pela heresia albigense, a lepra imunda do Sul. E, embora os aderentes a esta heresia fossem essencialmente não-violentos, constituíam uma severa ameaça à autoridade de Roma, a mais severa ameaça, na verdade, que Roma sentiria até os ensinamentos de Martinho Lutero darem início à Reforma, três séculos mais tarde. Em 1200 havia uma possibilidade muito real de esta heresia vir a substituir o Catolicismo Romano como forma dominante da Cristandade no Languedoc. E, o que era ainda mais ameaçador aos olhos da lgreja, isto já estava a estender-se a outras partes da Europa, especialmente a centros urbanos naAlemanha, Flandres e Champagne. Os hereges eram conhecidos por uma grande variedade de nomes. Em 1165 tinham sido condenados por um conselho eclesiástico na cidade de Albi, no Languedoc. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um de seus centros, eles eram chamados com frequência de albigenses; noutras ocasiões eram cátaros; na Itália, patarines. Não raro, eram também estigmatizados com nomes de heresias anteriores, como arianos, marcionistas e maniqueístas. Albigense e cátaro eram nomes genéricos. Não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com teologia e doutrina fixas, codificadas, definitivas». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia LBrasil/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Em 1209, um exército de cerca de trinta mil cavaleiros e soldados a pé, da Europa do Norte, desceu como um furacão sobre o Languedoc, na zona que é hoje o Sul de França»

jdact

Os cátaros e a grande heresia
«(…) Em primeiro lugar, os hereges medievais tinham estado presentes em grande número na aldeia e nos seus arredores,zona que sofreu brutalmente durante a Cruzada Albigense. Na verdade, toda a história da região está empapada de sangue cátaro, e os resíduos desse sangue, juntamente com muita amargura, persistem até aos dias de hoje. Muitos dos camponeses actuais da zona, sem inquisidores que possam cair sobre eles, afirmam abertamente a sua simpatia pelos cátaros. Há mesmo uma igreja cátara e um chamado papa cátaro que, até à sua morte em 1978,vivia na aldeia de Arques. Sabíamos que Saunière se tinha envolvido na história e folclore da sua terra natal, pelo que nunca poderia ter evitado o contacto com o pensamento e tradições cátaras. Não podia ignorar que Rennes-le-Château fora uma cidade importante nos séculos XII e XIII, e uma espécie de bastião cátaro. Saunière devia estar também familiarizado com as inúmeras lendas relacionadas com os cátaros. Devia conhecer os rumores que os relacionavam com esse objecto fabuloso, o Santo Graal. E se Richard Wagner, em busca de algo relacionado com o Graal, visitou realmente Rennes-le-Château, Saunière também não podia ignorar esse facto.
Além disso, em 1890, um homem chamado Jules Doinel tornou-se bibliotecário em Carcassonne e fundou uma igreja neo-cátara. O próprio Doinel escreveu abundantemente sobre a ideologia cátara e, em 1896, tornou-se um membro proeminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Artes e Ciências de Carcassonne. Em 1898 foieleito secretário desta organização. Desta sociedade faziam parte vários dos conhecimentos de Saunière, incluindo o seu melhor amigo, o abade Henri Boudet. E o círculo pessoal de Doinel incluía Emma Calvé. É portanto muito provável que Doinele Saunière se conhecessem. Há uma outra razáo, ainda mais excitante, para relacionar os cátaros com o mistério de Rennes-le-Château. Num dos pergaminhos encontrados por Saunière, o texto está polvilhado com uma mão-cheia de letras pequenas, oito, para sermos mais precisos, deliberadamente diferentes de todas as outras. Três destas letras estão na parte de cima da página, as outras cinco mais para baixo. Estas oito letras só têm de ser lidas em sequência para soletrar duas palavras, Rex Mundi. Este é inconfundivelmente um termo cátaro, imediatamente identificável por qualquer pessoa familiarizada com o pensamento dos cátaros. Dados estes factores, parecia razoável começar a nossa investigação pelos cátaros. Começámos portanto a efectuar uma pesquisa detalhada sobre eles, as suas crenças e tradições, a sua história e meio social. A nossa investigação abriu novas dimensões do mistério e gerou várias perguntas intrigantes.

A Cruzada Albigense
Em 1209, um exército de cerca de trinta mil cavaleiros e soldados a pé, da Europa do Norte, desceu como um furacão sobre o Languedoc, a zona montanhosa no sopé nordeste dos Pirenéus, na zona que é hoje o Sul de França. Na guerra que se seguiu, todo o território foi devastado, colheitas destruídas, aldeias e cidades arrasadas, uma população inteira passada a fio de espada. Este extermínio ocorreu numa escala tão vasta e terrívelque pode muito bem constituir o primeiro caso de genocídio da história europeia moderna. Só na cidade de Béziers, por exemplo, foram chacinados pelo menos quinze mil homens, mulheres e crianças, muitos deles no santuário da própria igreja. Quando um oficial perguntou ao representante do papa como podia distinguir os hereges dos verdadeiros crentes, a resposta foi: matai-os a todos. Deus reconhecerá os seus. Esta citação, embora extensamente repetida, pode ser fictícia ou apócrifa. Ainda assim, tipifica o zelo fanático e a sede de sangue com que as atrocidades foram perpetradas. O mesmo representante papal, escrevendo a Inocêncio III em Roma, anunciou orgulhosamente que ninguém foi poupado, nem por idade, nem por sexo, nem por estatuto. Depois de Béziers, o exército invasor varreu toda a região do Languedoc. Perpignan caiu, Narbonne caiu, Carcassonne caiu, Toulouse caiu. E, por onde os conquistadores passavam, deixavam um rasto de sangue, morte e carnificina.
Esta guerra, que durou quase quarenta anos, é agora conhecida como a Cruzada Albigense. Foi uma cruzada no verdadeiro sentido da palavra. Fora convocada pelo próprio papa.Os seus participantes usavam uma cruz nas túnicas, como os cruzados na Palestina. E as recompensas eram as mesmas que se fossem cruzados na Terra Santa, remissão de todos os pecados, expiação das penitências, um lugar garantido no Paraíso e tudo o que conseguissem pilhar. Além do mais, nesta cruzada, nem sequer era preciso cruzar os mares. E, de acordo com a lei feudal, ninguém era obrigado a combater mais de quarenta dias, presumindo, claro, que o combatente não tinha qualquer interesse no saque. Quando a Cruzada acabou, o Languedoc tinha sido completamente transformado, mergulhado na barbárie que caracterizava o resto da Europa. Porquê? Por que razão tinha ocorrido toda esta carnificina, brutalidade e devastaçãoIn Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia LBrasil/JDACT

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «… no princípio da década de 1970, foi localizado um túmulo verdadeiro, idêntico ao retratado no quadro de Poussin, idêntico em posição, dimensões, proporções, forma, vegetação circundante, até mesmo no afloramento rochoso circular…»


jdact e wikipedia

Os Possíveis Tesouros
«(…) Lilley, que morreu em 1940, tinha publicado vários trabalhos e não era um desconhecido. Durante grande parte da sua vida mantivera contactos com o Movimento Modernista Católico, que tem a sua base principal no Saint Sulpice, em Paris. Na juventude, Lilley trabalhara em Paris e conhecera Émile Hoffet. As pistas formavam um círculo. Existindo uma ligação entre Lilley e Hoffet, as afirmações do padre, por mais absurdas que parecessem, não podiam ser sumariamente postas de lado. Quando começámos a investigar a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII cujo nome aparecia várias vezes na história de Saunière, surgiram provas semelhantes da existência de um segredo monumental. Em 1656, Poussin, que na altura vivia em Roma, recebera uma visita do abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, superintendente das Finanças de Luís XIV de França. De Roma, o abade despachou uma carta para o irmão, descrevendo o seu encontro com Poussin. Vale a pena citar parte da carta:
  • Ele e eu discutimos certas coisas, que em breve poderei explicar-vos em detalhe, coisas que vos darão, através do senhor Poussin, vantagens que até mesmo reis teriam grande dificuldade em obter dele e que, segundo ele, é possível que ninguém volte a descobrir nos próximos séculos. E mais, estas coisas são tão difíceis de descobrir que nada ao cimo da terra se revelará de melhor fortuna ou as igualará.
Nem os historiadores, nem os biógrafos de Poussin ou Fouquet, conseguiram algum a vez explicar de forma satisfatória esta carta, que alude claramente a algum assunto misterioso de enorme importância. Pouco depois de a receber, Nicolas Fouquet foi detido e colocado na prisão, onde permaneceu o resto da sua vida. Segundo certos relatos, era mantido estritamente incomunicável e alguns historiadores encaram-no como um provável candidato a ter sido o Homem da Máscara de Ferro. Entretanto, toda a sua correspondência foi confiscada por Luís XlV, que a inspeccionou pessoalmente. Nos anos que se seguiram, o rei esforçou-se determinadamente para obter o original do quadro de Poussin, Les Bergers d’Arcadie. Quando por fim o conseguiu, o quadro foi sequestrado para os seus aposentos privados em Versalhes. lndependentemente da sua grandeza artística, o quadro parece bastante inocente. Em primeiro plano, três pastores e uma pastora estão reunidos em volta de um grande túmulo antigo, contemplando a inscrição na pedra comida pelo tempo: et in arcadia ego. Ao fundo ergue-se uma paisagem acidentada e montanhosa, do tipo que geralmente se associa com Poussin. Segundo Anthony Blunt, bem como outros especialistas em Poussin, esta paisagem era inteiramente mítica, um produto da imaginação do pintor. No entanto, no princípio da década de 1970, foi localizado um túmulo verdadeiro, idêntico ao retratado no quadro idêntico em posição, dimensões, proporções, forma, vegetação circundante, até mesmo no afloramento rochoso circular onde um dos pastores de Poussin pousa o pé. Este túmulo existe nos arredores de uma aldeia chamada Arques, aproximadamente a dez qui lómetros de Rennes-le-Château, e a cinco quilómetros do Château de Blanchefort. Se uma pessoa se colocar em frente do sepulcro, a paisagem é praticamente indistinguível da do quadro. E então torna-se evidente que um dos picos em segundo plano no quadro é Rennes-le-Château.
Não há indicação da idade do túmulo. Pode, claro, ter sido erigido bastante recentemente, mas como é que os seus construtores conseguiriam encontrar uma localização que coincide de forma tão perfeita com a do quadro? Na verdade, parece já ter existido no tempo de Poussin, e Les Bergers d'Arcadie parece ser uma reprodução fiel do local. Segundo os camponeses da zona, o túmulo está lá há tanto tempo quanto eles, os seus pais e os seus avós se recordam. E diz-se que há uma menção específica a ele numa mémoire datada de 1709. Segundo os registos da aldeia de Arques, a terra onde o túmulo se encontra pertenceu, até à sua morte na década de 1950, a um americano, um tal Louis Lawrence, de Boston, Massachusetts. Na década de 1920, Mr. Lawrence abriu o sepulcro e descobriu que estava vazio. A sua mulher e sogra foram mais tarde enterradas nele.
Quando preparávamos o primeiro dos nossos filmes para a BBC em Rennes-le-Château, passámos uma manhã a efectuar filmagens do túmulo. lnterrompemos o nosso trabalho para almoçar e regressámos cerca de três horas depois. Durante a nossa ausência, tinha sido feita uma tentativa violenta e rude de arrombar o sepulcro. Se algumavez existiu uma inscrição no túmulo verdadeiro, o tempo há muito que a apagara. Quanto à inscrição no túmulo do quadro de Poussin, parece ser convencionalmente elegíaca, a Morte a anunciar a sua presença sombria, mesmo em Arcádia, o idílico paraíso pastoral dos mitos clássicos. E contudo a inscrição é curiosa porque lhe lalta um verbo. Literalmente traduzida, diz:
  • E EM ARCADIA EU...
Porque faltará o verbo? Talvez por uma razãofilosófica, para excluir qualquer tempo, qualquer indicação de passado, presente ou futuro, implicando assim algo eterno? Ou talvez por uma razão de natureza mais prática. Os códigos dos pergaminhos encontrados por Saunière apoiavam-se fortemente em anagramas, na transposição e redistribuição de letras. Poderia et in arcadia ego" ser, talvez, também um anagrama? Poderia o verbo ter sido omitido de forma a que a inscrição pudesse consistir apenas de certas letras precisas? Um dos nossos espectadores, ao escrever-nos, sugeriu que podia ser este o caso, e depois redistribuiu as letras de maneira a formar uma frase coerente em latim. O resultado foi:
  • I TEGO ARCANA DEI (ide! Eu escondo os segredos de Deus)
Ficámos satisfeitos e intrigados com este exercício engenhoso. Não nos apercebemos na altura de quão extraordinariamente apropriada era a advertência dele resultante.

Os cátaros e a grande heresia
Começámos nossa investigação num ponto que já nos era razoavelmente familiar: a heresia cátara, ou albigense, e a Cruzada provocada por ela no século XIII. Já sabíamos que os cátaros figuravam de alguma maneira no mistério que circundava Saunière e Rennes-le-Château». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.



Cortesia L Brasil/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Esta afirmação parecia escandalosamente absurda. O que poderia, mesmo para um ateu convicto, constituir prova irrefutável de que Jesus sobrevivera à Crucificação? Não conseguíamos imaginar nada que não pudesse ser desacreditado ou repudiado»

jdact e wikipedia

Os Possíveis Tesouros
«(…) Até aqui a nossa história parecia ser essencialmente a história de um tesouro. E a história de um tesouro, mesmo que envolva o tesouro do Templo de Jerusalém tem, em última análise, uma relevância e um significado limitados. As pessoas estão constantemente a descobrir tesouros de um ou de outro tipo. Estas descobertas são muitas vezes excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam uma importante luz sobre o passado. No entanto, poucas delas exercem qualquer influência directa, política ou outra, sobre o presente, a menos, claro, que o tesouro em questão inclua um segredo qualquer e, possivelmente, um segredo explosivo. Não pusemos de lado a possibilidade de Saunière ter descoberto um tesouro. Mas ao mesmo tempo parecia-nos claro que, independentemente do que mais tivesse encontrado, ele descobrira também um segredo, um segredo histórico de imensa importância na sua época e talvez também na nossa. Mero dinheiro, ouro ou jóias não explicam, por si só, várias facetas da história. Não justificam a sua introdução no círculo de Hoffet, por exemplo, a sua associação com Debussy e a sua ligação com Emma Calvé. Não explicam o intenso interesse da Igreja na questão, a impunidade com que Saunière desafiou o seu bispo ou a sua subsequente exoneração pelo Vaticano, que parece ela própria ter demonstrado uma preocupação premente. Não explicam a recusa de um padre em administrar a Extrema-Unção a um moribundo, ou a visita de um arquiduque dos Habsburgos a uma remota aldeiazinha nos Pirenéus. O arquiduque dos Habsburgos em questão revelou-se entretanto ser Johann Salvator von Habsburg, conhecido pelo pseudónimo de Jean Orth. Renunciou a todos os seus direitos e títulos em 1889 e, dois meses depois, tinha sido banido de todos os territórios do lmperio. Foi pouco depois que apareceu pela primeira vez em Rennes-le-Château. Oficialmente disse-se que morreu em 1890, mas na verdade morreu naArgentina em 1910 ou 1911. Da mesma forma, dinheiro, ouro ou jóias não explicam a poderosa aura de mistificação que rodeia toda a história, desde as elaboradas cifras codificadas à história de Marie Denarnaud a queimar a sua herança de notas de banco. E a própria Marie tinha prometido divulgar um segredo que conferia não apenas riqueza, mas igualmente poder. Por estes motivos, cada vez estávamos mais convencidos de que a história de Saunière envolvia mais do que riqueza, e que implicava um segredo qualquer, um segredo que seria quase certamente controverso. Por outras palavras, parecia-nos que o mistério não estaria confinado a uma aldeia remota e a um padre do século XIX. O que quer que fosse, parecia estender-se para fora de Rennes-le-Château e causar ondas, talvez mesmo um potencial maremoto  no mundo para além da aldeia. Seria possível que a riqueza de Saunière não tivesse origem em nada de valor financeiro intrínseco, mas em algum tipo de conhecimento? Se assim fosse, poderia este conhecimento ter sido transformado em dinheiro? Poderia ter sido utilizado para chantagear alguém, por exemplo? Poderia a riqueza de Saunière ser o pagamento pelo seu silêncio? Sabíamos que ele tinha recebido dinheiro de Johann von Habsburg. Ao mesmo tempo, contudo, o segredo do padre, qualquer que fosse, parecia ser de natureza mais religiosa do que política. Mais ainda, as suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todos os testemunhos, eram particularmente cordiais. Por outro lado, havia uma instituição que, ao longo da fase finalda carreira de Saunière, parece tê-lo receado distintamente, tratando-o com luvas de pelica, o Vaticano. Poderia Saunière estar a fazer chantagem com o Vaticano? É certo que uma chantagem desse tipo seria um empreendimento presunçoso e perigoso para um só homem, por mais exaustivas que fossem as suas precauções. Mas, e se ele estivesse a ser auxiliado e apoiado neste empreendimento por outros, outros cuja eminência os tornasse invioláveis perante a Igreja, como o secretário de Estado da Cultura francês ou os Habsburgos? E se o arquiduque Johann fosse apenas um intermediário, e o dinheiro que entregou a Saunière viesse na realidade dos cofres de Roma?

A Intriga
Em Fevereiro de 1972 foi transmitido O Tesouro Perdido de Jerusalém?, o primeiro dos nossos três filmes sobre Saunière e o mistério de Rennes-le-Château. O filme não fazia quaisquer reivindicações controversas, simplesmente contava a história básica tal como foi relatada nas páginas anteriores. Nem se fazia qualquer especulação sobre um segredo explosivo ou chantagem ao mais alto nível. Vale também a pena mencionar que o filme não citava o nome de Émile Holfet, o jovem estudioso eclesiástico de Paris a quem Saunière confiou os pergaminhos. Recebemos uma autêntica inundação de correio, o que talvez não tenha sido muito surpreendente. Algumas das cartas ofereciam sugestões especulativas intrigantes. Outras eram lisonjeiras. Outras eram idiotas. De todas estas cartas, uma, que o escritor não quis que publicitássemos, parecia merecer uma atenção especial. Vinha de um padre anglicano aposentado e aparentava ser uma falácia curiosa e provocante. O nosso correspondente escrevia com certeza e autoridade categóricas. Fazia as suas reivindicações seca e definitivamente, sem floreados, e com aparente indiferença quanto ao facto de nós acreditarmos nele ou não. O tesouro, declarava ele terminantemente, não envolvia ouro nem pedras preciosas. Pelo contrário, consistia de prova irrefutável de que a Crucificação fora uma fraude e Jesus vivera até ao ano 45 d. C.
Esta afirmação parecia escandalosamente absurda. O que poderia, mesmo para um ateu convicto, constituir prova irrefutável de que Jesus sobrevivera à Crucificação? Não conseguíamos imaginar nada que não pudesse ser desacreditado ou repudiado, algo que constituísse não apenas prova, mas prova verdadeiramente irrefutável. Ao mesmo tempo, a mera extravagância desta afirmação exigia clarificação e desenvolvimento. O escritor da carta indicava uma morada de remetente. Assim que tivemos oportunidade, fomos visitá-lo e tentámos entrevistá-lo. Em pessoa ele foi bastante mais reticente do que fora na carta, e pareceu estar já arrependido de nos ter escrito. Recusou desenvolver a sua referência à prova irrefutável e ofereceu apenas mais um fragmento de informação. Esta prova, disse-nos, ou pelo menos a sua existência, fora-lhe revelada por outro clérigo anglicano, o cónego Alfred Leslie Lilley». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, The Holly Blood and The Holy Grail, 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia L Brasil/JDACT

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Alarico partiu com os tesouros de Salomão, o reidos Hebreus, uma visão digna de se ver, pois estavam adornados na sua maioria com esmeraldas e em tempos antigos tinham sido tirados de Jerusalém pelos Romanos»

Cortesia de joaochichorro, jdact

Os Possíveis Tesouros
«(…) Durante mais quinhentos anos, a cidade continuou a ser assento de um importante condado, ou comté, o Condado de Razès. Depois, no princípio do século XIII, um exército de cavaleiros do Norte desceu sobre o Languedoc para esmagar a heresia cátara ou albigense e reclamar para si próprios os ricos despojos da região. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Château foi capturada como feudo e transferida de mão em mão. Cento e vinte e cinco anos mais tarde, na década de 1360, a população local Íoi dizimada pela peste; e Rennes-le-Château foi destruída pouco tempo depois por bandos nómadas catalães. Há histórias de tesouros fantásticos que se entrecruzam com muitas destas vicissitudes históricas. Constava que os hereges cátaros, por exemplo, possuíam algo de valor fabuloso e até mesmo sagrado, que, segundo várias lendas, era o próprio Santo Graal. Diz-se que estas lendas impeliram Richard Wagner a fazer uma peregrinação a Rennes-le-Château antes de compor a sua última ópera, Parsifal e durante a ocupação, entre 1940 e 1945, diz-se que as tropas alemãs, seguindo o rasto de Wagner, empreenderam várias escavações infrutíferas na região. Há também o tesouro desaparecido dos templários, cujo Grão-Mestre, Bertrand de Blanchefort, ordenou certas escavações misteriosas na área. Segundo todos os relatos, estas escavações foram de natureza nitidamente clandestina, efectuadas por um contingente especialmente importado de mineiros alemães. Se havia realmente algum tesouro templário escondido na zona de Rennes-le-Château, isto pode explicar a referência ao Sião nos pergaminhos descobertos por Saunière.
Havia também outros possíveis tesouros. Entre os séculos V e VIII, grande parte da França actual era governada pela dinastia merovíngia, que incluiu o rei Dagoberto II. Rennes-le-Château, no tempo de Dagoberto, era um bastião visigótico, e o próprio Dagoberto era casado com uma princesa dos Visigodos. A cidade pode ter acumulado uma espécie de tesouro real; e há documentos que falam de grandes riquezas amealhadas por Dagoberto para aplicar na conquista militar, escondidas nos arredores de Rennes-le-Château. Se Saunière descobriu um depósito deste género, isso explicaria a referência nos códigos a Dagoberto. Os cátaros. Os templários. Dagoberto II. E havia ainda outro possível tesouro, o vasto saque acumulado pelos Visigodos durante o seu avanço tempestuoso através da Europa. Este pode ter incluído algo mais do que um saque convencional, possivelmente artigos de imensa relevância, tanto simbólica como literal, para a tradição religiosa ocidental. Podia, em suma, ter incluído o lendário tesouro do Templo de Jerusalém, que, ainda mais do que os templários, justificaria a referência ao Sião. No ano de 66 d. C., a Palestina ergueu-se em revolta contra o jugo romano. Quatro anos mais tarde, em 70 d. C., Jerusalém foi arrasada pelas legiões do imperador, sob o comando do seu filho, Tito. O próprio Templo foi saqueado e o conteúdo do Lugar Santíssimo transportado de volta para Roma. Tal como está retratado no arco triunfal de Tito, este conteúdo incluía o imenso candelabro de ouro com sete braços tão sagrado para o judaísmo e, possivelmente, até mesmo a Arca da Aliança.
Três séculos e meio mais tarde, em 410 d. C., Roma foi por sua vez saqueada pelos invasores visigóticos, sob o comando de Alarico, o Grande, que pilhou virtualmente toda a riqueza da Cidade Eterna. Como nos diz o historiador Procópio, Alarico partiu com os tesouros de Salomão, o reidos Hebreus, uma visão digna de se ver, pois estavam adornados na sua maioria com esmeraldas e em tempos antigos tinham sido tirados de Jerusalém pelos Romanos. Um tesouro, então, pode muito bem ter sido a fonte da inexplicável riqueza de Saunière. O padre pode ter descoberto qualquer um de vários tesouros, ou pode ter descoberto um único tesouro que tenha mudado de mãos repetidamente através dos séculos, passando talvez do Templo de Jerusalém para os Romanos, destes para os Visigodos, eventualmente para os cátaros e/ou os templários. Se assim foi, isto explicaria por que razão o tesouro em questão pertencia tanto a Dagoberto II como ao Sião». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia L. do Brasil/JDACT

domingo, 1 de setembro de 2013

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Em 22 de Janeiro de 1917 Saunière morreu sem o perdão da confissão. Na manhã seguinte o seu corpo foi colocado verticalmente numa poltrona no terraço da Torre Magdala, envolto numa indumentária enfeitadas de pingentes com franjas escarlate»

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O Mistério. Cidade de Mistério
«(…) No dia 17 de Janeiro de 1917, Saunière, então com 65 anos, sofreu um derrame cerebral. A data de 17 de Janeiro talvez seja suspeita, pois também aparecia na tumba da marquesa de Hautpoul de Blanchefort, a tumba que Saunière havia erradicado. E 17 de Janeiro é também a festa de Saint Sulpice, que reapareceria através de toda a nossa história. Foi no seminário de Saint Sulpice que ele confiou seus pergaminhos ao abade Bieil e a Emile Hoffet. O que torna o derrame de Saunière em 17 de Janeiro mais suspeito é o facto de, cinco dias antes, em 12 de Janeiro, seus paroquianos terem declarado que ele parecia estar gozando de uma saúde invejável para um homem de sua idade. Entretanto, em 12 de Janeiro, segundo um recibo que está connosco, Marie Denarnaud encomendou um caixão para seu mestre.
Quando Saunière estava em seu leito de morte, o padre de uma paróquia vizinha foi chamado para ouvir sua última confissão e administrar a extrema-unção. O padre chegou e confinou-se no quarto do doente. De acordo com testemunhas oculares, ele saiu logo depois, visivelmente chocado. Nas palavras de algumas testemunhas, nunca mais sorriu. Nas palavras de outras, caiu em uma depressão profunda que durou vários meses. Se são afirmações exageradas não sabemos, mas o padre, presumivelmente com base na confissão de Saunière, recusou-se a administrar-lhe o último sacramento.
Em 22 de Janeiro Saunière morreu sem o perdão da confissão. Na manhã seguinte seu corpo foi colocado verticalmente numa poltrona no terraço da Torre Magdala, envolto em uma indumentária enfeitadas de pingentes com franjas escarlate. Certas pessoas compadecidas e não identificadas desfilaram, uma a uma, muitas delas arrancando franjas dos pingentes como lembrança do morto. Nunca houve qualquer explicação para tal cerimónia. Confrontados com ela, residentes actuais de Rennes-Ie-Château ficam tão aturdidos como qualquer outra pessoa.
A leitura do testamento de Saunière foi esperada com grande ansiedade. Para surpresa geral, contudo, ela revelou que não tinha nenhum tostão. Algum tempo antes de sua morte, aparentemente, transferira sua fortuna para Marie Denarnaud, que compartilhara de sua vida e de seus segredos por 32 anos. Ou talvez a maior parte daquela fortuna tenha estado em seu nome desde o início. Depois da morte de seu mestre, Marie continuou a viver confortavelmente em Villa Bethania até 1946. Depois da II Guerra Mundial, entretanto, o governo francês recém-instalado estabeleceu uma nova moeda. Como meio de apreender sonegadores de impostos, colaboradores e especuladores do tempo da guerra, os cidadãos franceses eram obrigados a declarar seus rendimentos quando trocavam francos velhos por novos. Confrontada com a perspectiva de ser obrigada a dar explicações, Marie escolheu a pobreza. Foi vista no jardim da mansão, queimando maços de notas de francos velhos.
Durante os sete anos seguintes, Marie viveu de forma austera, mantendo-se com o dinheiro obtido da venda de Villa Bethania. Prometeu confiar ao comprador, Noel Corbu, antes de morrer, um segredo que o faria não só rico mas também poderoso. Em 29 de Janeiro de 1953, entretanto, Marie, como seu mestre antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame cerebral que a deixou prostrada em seu leito, incapaz de falar. Para grande frustração do senhor Corbu, ela morreu logo depois, carregando consigo o segredo.

Os Possíveis Tesouros
Em linhas gerais, esta é a história na forma em que foi publicada na França nos anos 60. Foi a forma sob a qual a descobrimos. E foi para as perguntas levantadas por ela que dirigimos nossa pesquisa, do mesmo modo que outros pesquisadores o fizeram. A primeira pergunta é bastante óbvia. Qual era a fonte do dinheiro de Saunière? De onde poderia vir tão súbita e enorme fortuna? Haveria uma explicação banal? Ou envolveria alguma coisa mais excitante? Esta segunda possibilidade deixava entrever um aspecto fascinante do mistério, e nós não podíamos resistir ao impulso de brincar de detectives.
Começamos por considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo vários deles, Saunière tinha encontrado, na realidade, alguma espécie de tesouro. Uma conclusão plausível, pois a história da cidade e de seus arredores incluía muitas possíveis fontes de ouro e de jóias escondidos. Nos tempos pré-históricos, por exemplo, a área em redor de Rennes-le-Château era considerada sítio sagrado pelas tribos celtas que viviam por perto. A cidade em si, antes chamada Rhédae, deriva seu nome de uma dessas tribos. Nos tempos modernos, uma comunidade grande e promissora ocupara a área, importante por suas minas e fontes termais terapêuticas. Os romanos também consideravam sagrado o local. Mais tarde, pesquisadores ali encontraram traços de templos pagãos. Durante o século VI, o pequeno vilarejo pendurado no topo da montanha possuía presumivelmente 30 mil habitantes. Ele parece ter sido, em determinada época, a capital nortista do império dos visigodos, o povo teutónico que varreu a Europa de centro a oeste, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu seu próprio domínio cavalgando sobre os Pirinéus». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Enquanto realizava adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, coleccionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica…»

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O Mistério. Cidade de Mistério
«(…) Ao voltar a Rennes-le-Château, Saunière completou a restauração da igreja. Teria exumado então um bloco de pedra, curiosamente esculpido, datado do século VII ou VIII, que estaria cobrindo uma câmara funerária na qual esqueletos teriam sido encontrados. Saunière embarcou também em projectos mais singulares. No jardim da igreja, por exemplo, havia o sepulcro de Marie, marquesa de Hautpoul de Blanchefort, desenhado e construído pelo abade Antoine Bigou, predecessor de Saunière, um século antes, aparentemente autor de dois dos misteriosos pergaminhos. A inscrição na pedra sepulcral, que incluía vários erros deliberados de soletracção e de espaço, era um anagrama perfeito para a mensagem contida nos pergaminhos referindo-se a Poussin e Teniers. Quando as letras eram rearranjadas, formavam a asserção críptica que já reproduzimos. Os erros pareciam ter sido planejados precisamente com este fim.
Sem saber que as inscrições na tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Saunière as obliterou, e essa profanação não foi o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado de sua fiel governanta, começou a fazer longas caminhadas pelo campo, coletando pedras sem nenhum valor ou interesse aparentes. Também embarcou numa troca volumosa de cartas com correspondentes desconhecidos em toda a França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Começou a coleccionar pilhas de selos sem valor e efectuou transacções suspeitas com vários bancos. Um deles até enviou um representante, que viajou de Paris a Rennes-le-Château com o único objectivo de tratar de negócios com Saunière.
Só com despesas de correio Saunière estava gastando mais do que seu salário poderia cobrir. E em 1896 ele começou a gastar verdadeiramente, numa escala surpreendente e sem precedentes. Ao final de sua vida, em 1917, suas despesas haviam atingido o equivalente a vários milhões de dólares. Uma parte dessa inexplicada riqueza foi empregada em excelentes obras públicas, a construção de uma estrada moderna até à cidade, por exemplo, e a introdução de facilidades para água corrente. Outras despesas foram mais quixotescas. Uma torre foi levantada, a Torre Magdala, com vista para a montanha. Uma opulenta casa de campo foi construída, chamada Villa Bethania, que Saunière pessoalmente nunca ocupou. E a igreja não só foi decorada de novo, como o foi de um modo muito bizarro. No pórtico, acima da entrada, a seguinte inscrição foi gravada: Terribills est Locus Iste (Este local é terrível).
No interior, logo na entrada, foi erigida uma estátua horrenda, uma representação do demónio Asmodeus, detentor de segredos, guardião de tesouros escondidos e, segundo antiga lenda judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas ostensivamente pintadas representavam as estações da Via Sacra. Cada uma delas era caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe inexplicável, algum desvio, flagrante ou subtil, da narrativa oficial das Escrituras. Na estação VIII, por exemplo, havia uma criança envolta numa capa escocesa. Na estação XIV, que retrata o corpo de Jesus sendo levado à tumba, aparecia um fundo de céu nocturno, escuro, dominado por uma lua cheia. Como se Saunière estivesse tentando dizer algo. Mas o quê? Que o enterro de Jesus ocorreu após o início da noite, várias horas depois do que diz a Bíblia? Ou que o corpo estaria sendo levado para fora da tumba e não para dentro dela?
Enquanto realizava esses adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, coleccionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica. Pouco antes de sua morte ele estava, supostamente, projectando a construção de uma torre como a de BabeI, forrada de livros, de onde pretendia pregar. Seus paroquianos tampouco foram negligenciados. Saunière lhes presenteava com banquetes sumptuosos e outras generosidades, mantendo assim o estilo de vida de um potentado. Em seu remoto e ao mesmo tempo próximo e inacessível ninho de águia, recebia inúmeros hóspedes ilustres. Um deles, é claro, era Emma Calvé.
Outro era o ministro da Cultura do governo francês. Talvez o mais augusto visitante do desconhecido padre provinciano tenha sido o arquiduque Johann Von Habsburgo, um primo de Franz Josef, imperador da Áustria. Extractos bancários revelaram depois que Saunière e o arquiduque haviam aberto contas no mesmo dia, e que este último havia transferido para a conta do primeiro uma soma substancial. As autoridades eclesiásticas fizeram, no início, olhos de mercador sobre o assunto. Contudo, quando o superior de Saunière morreu, em Carcassonne, o novo bispo tentou chamar o padre à ordem. Saunière respondeu com uma desobediência inesperada e insolente. Recusou-se a explicar sua riqueza e a aceitar a transferência que o bispo ordenava. Na falta de uma acusação mais substancial, o bispo acusou-o de vender missas ilicitamente, e um tribunal local suspendeu-o. Saunière apelou para o Vaticano, que o exonerou e depois o reinvestiu». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «… sua complexidade, outras eram patentemente, mesmo flagrantemente,óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras levantadas, quando tomadas em sequência, formavam uma mensagem coerente»

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O Mistério. Cidade de Mistério
«(…) Encorajado por seu amigo Boudet, Saunière iniciou em 1891 uma restauração modesta, utilizando uma pequena soma emprestada dos fundos municipais. Durante os trabalhos, removeu o altar-mor, uma pedra que repousava sobre duas antigas colunas visigóticas. Uma dessas colunas revelou-se oca. Dentro dela havia quatro pergaminhos guardados em tubos de madeira selados. Dois desses pergaminhos continham genealogias, uma datada de 1244 e outra de 1644. Os dois documentos restantes haviam sido compostos, aparentemente, nos idos de 1780, por Antoine Bigou, um dos predecessores de Saunière em Rennes-le-Château.
Bigou havia sido também capelão pessoal da família nobre Blanchefort, que no início da Revolução Francesa ainda era uma das mais importantes donas de terras da região. Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Em um deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente, sem espaço entre elas. Várias letras supérfluas haviam sido inscritas. No segundo pergaminho as linhas eram truncadas de forma indiscriminada e irregular, algumas no meio de uma palavra, enquanto certas letras estavam evidentemente levantadas acima das outras. Na realidade, os pergaminhos continham uma sequência de códigos e cifras, alguns deles fantasticamente complexos e imprevisíveis. Sem a chave certa, eram indecifráveis. A seguinte decodificação surgiu em trabalhos franceses dedicados a Rennes-le-Château, e em dois de nossos filmes sobre o assunto, realizados para a BBC.
  • Bergere pas de tentation. Que Poussin, Teniers gardent la clef. Pax DCLXXXI. Par la croix et ce cheval de Dieu j'acheve ce daemon de gardien a midi. Pommes bleues. [Pastor, nenhuma tentação. Que Poussin, Teniers possuem a chave. Paz DCLXXXI (681). Pela cruz e seu cavalo de Deus, eu completo (ou destruo) este demónio do guardião ao meio-dia. Maçãs azuis].
Se algumas dessas cifras eram desencorajadoras em sua complexidade, outras eram patentemente, mesmo flagrantemente,óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras levantadas, quando tomadas em sequência, formavam uma mensagem coerente.
  • A Dagobert roi et a sion est ce tresor et il est la mort. [A Dagobert rei e a Sion pertencem este tesouro e ele está aqui morto].
Embora esta mensagem deva ter sido compreensível para Saunière, é de se duvidar que ele possa ter decifrado os códigos mais intricados. Entretanto, ele percebeu que havia tropeçado em algo importante. Com o consentimento do prefeito da cidade, levou sua descoberta até seu superior, o bispo de Carcassonne. Não se sabe o quanto o bispo entendeu, mas Saunière foi imediatamente enviado a Paris, despesas pagas pelo bispo, instruído a se apresentar a algumas autoridades eclesiásticas com os pergaminhos. Entre elas estavam o abade Biel, director-geral do Seminário Saint Sulpice, e seu sobrinho Emile Hoffet, que naquele tempo estava aspirando à vida religiosa. Embora ainda estivesse nos seus vinte anos, ele já havia estabelecido uma reputação intelectual impressionante, especialmente em lingüística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era sabidamente envolvido com o pensamento esotérico e mantinha relações cordiais com os vários grupos orientados para o oculto, além de seitas e sociedades secretas que proliferavam na capital francesa.
Estes contactos introduziram Saunière em um círculo cultural ilustre, que incluía figuras literárias como Stéphane Mallarmé e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conheceu Emma Calvé que recentemente havia retornado de apresentações triunfantes em Londres e Windsor. Emma Calvé era como uma diva, a Maria Callas da época. Ao mesmo tempo, era uma grande pitonisa da sub-cultura esotérica parisiense, mantendo relações amorosas com vários ocultistas influentes.
Após apresentar-se a Bieil e Hoffet, Saunière passou três semanas em Paris. O resultado de suas reuniões com os eclesiásticos é um mistério. O que se sabe é que o padre provinciano foi pronta e calorosamente recebido no distinto círculo de Hoffet. Afirma-se mesmo que ele se tornou amante de Emma Calvé, que, segundo um conhecido seu, ficou obcecada pelo padre. De qualquer modo, não há dúvida de que eles gozaram de uma estreita e longa amizade. Nos anos que se seguiram, ela o visitou frequentemente nas vizinhanças de Rennes-le-Château, onde, até recentemente, podiam-se encontrar corações românticos gravados com suas iniciais nas rochas das montanhas.
Durante a permanência em Paris, Saunière passou também algum tempo no Louvre, o que pode explicar o facto de, antes de sua partida, haver adquirido reproduções de três pinturas. Uma delas teria sido um retrato, pintado por um artista não identificado, do papa Celestino V, que reinou brevemente no final do século XIII. Outra teria sido o trabalho de David Teniers, não se sabe se o pai ou o filho. O terceiro seria um quadro, talvez o mais famoso, de Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie [Os pastores da Arcádia]».

In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

sábado, 22 de junho de 2013

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «A ambição de Saunière sem dúvida sofreu um golpe. Entretanto, houve compensações. Saunière era originário da região, nascera e crescera perto dali, na cidade de Montagels. Apesar de tudo, Rennes-le-Château deve ter-lhe proporcionado o conforto da familiaridade…»

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O Mistério. Cidade de Mistério
«(…) No princípio de nossa pesquisa não sabíamos exactamente o que estávamos procurando ou, naquele contexto, o que estávamos vendo. Não tínhamos teorias ou hipóteses. Começamos sem a intenção de provar coisa alguma. Pelo contrário, estávamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um pequeno e curioso enigma do século XIX. As conclusões a que posteriormente chegamos não foram previamente postuladas. Fomos conduzidos a elas, etapa por etapa, como se as evidências que havíamos acumulado possuíssem vida própria, como se elas nos estivessem dirigindo de acordo com seus próprios desígnios. No início acreditamos que se tratasse de um mistério local intrigante, sem dúvida, mas de significado essencialmente confinado a uma cidadezinha do interior da França. Um mistério de interesse puramente académico, embora envolvesse factos históricos fascinantes. Pensávamos que nossa investigação pudesse iluminar certos aspectos da história do Ocidente, mas de forma alguma imaginávamos que ela implicaria reescrevê-la.
Imaginávamos ainda menos que qualquer descoberta que fizéssemos pudesse ter relevância para o mundo contemporâneo, e de forma explosiva. Nossa busca, porque era realmente uma busca, começou com um enredo mais ou menos banal, à primeira vista não muito diferente de inúmeras outras histórias de tesouros ou mistérios não desvendados, que abundam na história e no folclore de quase todas as regiões rurais. Uma versão dela havia sido publicada na França, onde atraíra um interesse considerável, mas, até onde pudemos saber, nenhuma consequência maior lhe fora atribuída. Mais tarde soubemos que essa versão continha uma série de erros. Para começar, entretanto, devemos recontar a fábula tal qual ela foi publicada nos anos 60, com as informações de que dispúnhamos então.

Rennes-le-Château e Berenger Saunière
Uma minúscula cidadezinha francesa, Rennes-le-Château, recebeu no dia primeiro de Julho de 1885 um novo pároco: Berenger Saunière, um homem de 33 anos, robusto, atraente, energético e brilhante. No seminário, parecia estar destinado a uma carreira eclesiástica promissora. Certamente, almejava algo mais importante que uma cidadezinha remota no topo de uma colina ao leste dos Pirineus, mas em algum momento ele deve ter caído no desagrado de seus superiores. Se fez alguma coisa para merecer isso não sabemos, mas o facto é que perdeu todas as chances de promoção. Talvez para se livrarem dele, o enviaram a Rennes-le-Château. Naquele tempo Rennes-le-Château abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequeno povoado pendurado no topo da serra a 40km de Carcassonne. O lugar teria significado o exílio para um outro homem, uma condenação perpétua a viver em um fim-de-mundo, longe das amenidades urbanas da época, longe de qualquer estímulo para uma mentalidade vigorosa e questionadora.
A ambição de Saunière sem dúvida sofreu um golpe. Entretanto, houve compensações. Saunière era originário da região, pois nascera e crescera perto dali, na cidade de Montagels. Apesar de tudo, Rennes-le-Château deve ter-lhe proporcionado o conforto da familiaridade, do sentimento de estar em casa. O salário de Saunière, entre 1885 e 1891, foi, em francos, o equivalente a seis libras esterlinas por ano, longe de significar opulência, mas muito mais do que se esperaria para um pároco rural na França do final do século XIX. Somado às gratuidades oferecidas pelos habitantes da paróquia, tais rendimentos seriam suficientes para viver bem, sem extravagâncias. Saunière levou uma vida agradável e plácida durante seis anos, caçando e pescando nas montanhas e rios de sua infância. Leu vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego e embarcou no estudo do hebraico. Uma camponesa de dezoito anos chamada Marie Denarnaud, sua servente e governanta, foi para ele companhia e confidente durante toda a vida. Ele visitava com frequência seu amigo Henry Boudet, pároco da vizinha cidade de Rennes-le-Bains, sob a tutela do qual mergulhou na turbulenta história da região, uma história cujos resíduos se apresentavam constantemente ao seu redor.
A poucos quilómetros a sudoeste de Rennes-le-Château surgia outro pico, chamado Bézu, coberto pelas ruínas de uma fortaleza medieval, antiga morada de templários. Sobre um terceiro pico, a cerca de 2km de Rennes-le-Château, se erguiam as ruínas do castelo de Blanchefort, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos templários, que presidiu a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-le-Château se situava numa antiga rota de peregrinação que ia do nordeste da Europa até Santiago de Compostela, na Espanha. A região era mergulhada em lendas evocativas, em ecos de um passado dramático, frequentemente embebido em sangue.
Saunière vinha querendo havia já algum tempo restaurar a igreja local. O edifício, consagrado a Madalena em 1059, repousava sobre fundações de uma estrutura visigótica ainda mais velha, datada do século VI. Não se admira então que estivesse em péssimo estado de conservação».

In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.


Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Após anos de trabalho solitário, o ímpeto trazido ao projecto por dois cérebros novos foi muito estimulante. O primeiro resultado palpável de nossa colaboração foi o terceiro filme Crónica sobre Rennes-le-Château, ‘A Sombra dos Templários’»

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Introdução
«Em 1969, quando estava de férias em Cévennes, comprei o livro de bolso Le Trésor maudit, de Gérard de Sede. Era uma história de mistério, uma mistura leve e interessante de factos históricos, mistérios genuínos e conjecturas. Depois das férias ele teria sido esquecido, como todas as leituras desse tipo, se eu não tivesse tropeçado em uma omissão evidente e curiosa em suas páginas. O tesouro amaldiçoado do título havia sido aparentemente encontrado nos idos de 1890 por um padre de vilarejo que decifrara alguns documentos enigmáticos desenterrados em sua igreja. Os supostos textos de dois desses documentos foram reproduzidos, mas não as mensagens secretas que estariam codificadas dentro dele. A inferência era que as mensagens decifradas haviam sido novamente perdidas. Entretanto, conforme descobri, um estudo superficial dos documentos reproduzidos no livro revelava pelo menos uma mensagem oculta. O autor certamente a percebera. Ao trabalhar em seu livro, dera aos documentos mais do que uma atenção passageira.
Era claro que ele encontrara o que eu havia encontrado. Além disso, a mensagem era um excitante fragmento de prova, do tipo que ajuda a vender um livro popular. Por que o senhor de Sède não a publicara? A peculiaridade da história e a possibilidade de outras descobertas voltaram à minha mente de tempos em tempos nos meses seguintes. Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède. Na medida em que ia descobrindo novos e intrigantes lampejos de significados no texto dos documentos, comecei a querer dedicar mais do que momentos de folga ao mistério de Rennes-le-Château. No final do Outono de 1970, apresentei a história como um possível documentário para Paul Johnstone, então produtor executivo da série Crónica, sobre história e arqueologia, da BBC.
Paul achou o projecto viável. Fui então enviado à França para falar com De Sède e explorar as perspectivas de um filme. Encontrei De Sède em Paris na semana do Natal de 1970. Naquela primeira reunião, fiz a pergunta que me intrigara por mais de um ano: Por que você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos? Sua resposta me surpreendeu. Qual mensagem? Parecia-me inconcebível que ele desconhecesse aquela mensagem elementar. Por que estaria duelando comigo? Subitamente eu me vi, relutante, a revelar o que havia encontrado. Continuamos um elíptico jogo de esgrima verbal durante alguns minutos. Então se tornou claro que ambos conhecíamos a mensagem. Repeti minha pergunta: Por que você não a publicou? Desta vez a resposta de De Sède foi calculada: Porque nós pensamos que alguém como você se interessaria em descobrir por si mesmo.
Essa resposta, tão enigmática quanto os misteriosos documentos do padre, era o primeiro indício claro de que o mistério de Rennes-le-Chatêau deveria ser muito mais do que uma simples fábula de tesouro perdido. Comecei a preparar, juntamente com meu diretor, Andrew Maxwell-Hyslop, um filme Crónica na Primavera de 1971. O projecto era realizar um bloco de vinte minutos para um programa. Mas, na medida em que íamos trabalhando, De Sède nos alimentava com outros fragmentos de informação. Primeiro surgiu o texto integral de uma importante mensagem cifrada, que falava dos pintores Poussin e Teniers. Era fascinante. O código era incrivelmente complexo. Fomos informados de que ele havia sido decifrado por especialistas do departamento de códigos do exército francês, através de computadores. Estudando as circunvoluções do código, convenci-me de que a explicação obtida era no mínimo suspeita. Investiguei junto a especialistas em códigos do serviço de inteligência da Grã-Bretanha e eles concordaram comigo: O código não configura um problema válido para um computador. Ou seja, era indecifrável. Mas alguém, em algum lugar, devia ter a chave.
Então De Sède entregou sua segunda bomba. Urna tumba semelhante àquela do famoso quadro Les Bergers d'Arcadie, de Poussin, havia sido encontrada. Ele enviaria detalhes assim que os obtivesse. Alguns dias mais tarde chegaram fotografias. Ficou claro que nosso filme sobre um pequeno mistério local começava a assumir proporções inesperadas. Paul decidiu abandoná-lo e nos engajou em um longa-metragem. Agora haveria mais tempo para pesquisar e mais tempo de cena para explorar a história. A transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. O Tesouro Perdido de Jerusalém saiu em Fevereiro de 1972 e provocou uma reacção muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto interessante para o grande público. Uma pesquisa posterior não significaria, portanto, auto-indulgência. Em algum momento teria que haver um segundo filme. Em 1974 eu já possuía grande quantidade de material. Paul contratou Roy Davies para produzir meu segundo filme Crónica, chamado O Padre, o Pintor e o Demônio. Mais uma vez, a reacção do público mostrou quão fortemente a história havia impressionado a imaginação popular. Mas então ela havia se tornado muito complexa, e muito extensa em suas ramificações.
A pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo a capacidade de uma única pessoa. Havia muitos caminhos diferentes a percorrer. Quanto mais eu prosseguia em uma linha de investigação, mais consciente me tornava da quantidade de material que estava sendo negligenciado. Nesse ponto crucial, o destino, que de início havia colocado a história casualmente em minhas mãos, agora assegurou que o trabalho não estagnaria. Em 1975, tive a grande sorte de encontrar Richard Leigh, durante um curso de verão em que ambos dávamos aulas de literatura. Richard é um romancista e escritor de contos, com pós-graduação em literatura comparada e um conhecimento profundo em história, filosofia, psicologia e esoterismo. Havia trabalhado durante vários anos como professor universitário nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha.
Durante os intervalos de nossas aulas, passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Eu mencionei os templários, que desempenhavam um papel importante no pano de fundo do mistério de Rennes-le-Château. Para minha satisfação, vi que essa sombria ordem medieval de monges combatentes já havia despertado o interesse de Richard, que desenvolvera pesquisas consideráveis sobre sua história. Subitamente, meses de trabalho que eu via se prolongarem à minha frente se tornaram desnecessários. Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado. O mais importante é que meu projecto de pesquisa também o fascinava. Percebendo o significado do projecto, ele se ofereceu para ajudar-me nos aspectos que envolviam os templários. E trouxe Michael Baigent, um psicólogo que recém-abandonara uma bem-sucedida carreira em foto-jornalismo para se dedicar ao estudo dos templários, visando ao projecto de um filme.
Se eu tivesse procurado, não teria encontrado dois parceiros mais bem qualificados e mais compatíveis para formar um time. Após anos de trabalho solitário, o ímpeto trazido ao projecto por dois cérebros novos foi muito estimulante. O primeiro resultado palpável de nossa colaboração foi o terceiro filme Crónica sobre Rennes-le-Château, A Sombra dos Templários, produzido por Roy Davies em 1979. O trabalho realizado para aquele filme finalmente nos colocou face a face com as fundações sobre as quais todo o mistério de Rennes-le-Château havia sido construído. Mas, no filme, o que estávamos começando a discernir só podia ser insinuado. Sob a superfície havia algo mais chocante, mais importante e mais imediatamente relevante do que podíamos imaginar quando começamos nosso trabalho sobre o pequeno e intrigante mistério que um padre francês provavelmente encontrara em um vilarejo montanhoso. Em 1972, eu terminara meu primeiro filme com as seguintes palavras: Algo extraordinário está esperando ser encontrado... e o será, em um futuro não muito distante. Este livro explica o que é este algo e quão extraordinária foi sua descoberta». Henry Lincoln.

In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nos Bastidores da Revolução. Os Homens do 5 de Outubro: «Entrevistas com a História» de António Ventura.

Cortesia de casacomumdastertulias

A Conferência-lançamento do livro «Os Homens do 5 de Outubro, Nos Bastidores da Revolução» da autoria de António Ventura, teve lugar na Livraria Cebuchholz/Leya, antiga Livraria Buchholz, (ao Marquês de Pombal), no pp dia 29 de Setembro, às 19h30.
A apresentação da obra esteve a cargo de António Reis. Seguiu-se uma conferência de António Ventura com base no evento e no âmbito das Comemorações do Centenário da República.

«Entrevistas com a História», conta com o apoio institucional da CNCCR, Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.

Cortesia de commonswikimedia

Os Homens do 5 de Outubro. Nos Bastidores da República
«O presente livro é um livro de entrevistas, mas de entrevistas ocorridas há exactamente 100 anos, com protagonistas há muito desaparecidos do mundo dos vivos. Todas elas estão relacionadas com a proclamação da República e dizem respeito a personalidades muito diversas: dirigentes e membros do Directório do Partido Republicano envolvidos nos preparativos revolucionários, outros destacados militantes com ampla experiência conspirativa mas que não tiveram um papel activo, ou porque estavam no exílio ou porque se encontravam detidos, militares que dirigiriam a revolução e outros que nela tiveram um papel secundário ou mesmo lateral, revolucionários civis, carbonários, membros da Maçonaria, nomeadamente da sua Comissão de Resistência, simples republicanos desconhecidos e meros espectadores. No seu conjunto, estas entrevistas são valiosas e esclarecedoras pelas visões multifacetadas e até pelo pitoresco de algumas delas». In António Ventura, Introdução Entrevistas com a História.

Cortesia de youesalvide

Cortesia de Ésquilo Edições e Multimédia.
Com amizade.
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