Mostrar mensagens com a etiqueta Erasmo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Erasmo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Elogio da Loucura. Erasmo. «Um beija as verrugas da amiga, outro deleita-se com os pólipos da sua Ana, um pai diz que o filho estrábico tem uns lindos olhos. Que é isto tudo, se não mera estultícia?»

jdact

«(…) Há também homens que desdenham esta espécie de volúpia, preferindo o carinho e o hábito da amizade. A amizade, dizem eles, deve ser anteposta a todas as coisas; é uma coisa tão necessária como o ar, o fogo e a água. O seu encanto é tal que privar os homens dela seria tirar-lhes o sol; e é tão honesta, já que isto é uma recomendação, que os próprios filósofos a veneram como um dos melhores bens da humanidade. Que direis se vos provar que de tal bem eu sou a popa e a proa? Não farei a demonstração com argúcias dialécticas, tais como o silogismo do crocodilo ou o zorite dos corn…; mas com simples bom senso e ao alcance da mão. Dizei-me: conivência, confiança, cegueira, ilusão sobre os vícios por virtudes, não vedes as afinidades que tudo isso tem com a estultícia? Um beija as verrugas da amiga, outro deleita-se com os pólipos da sua Ana, um pai diz que o filho estrábico tem uns lindos olhos. Que é isto tudo, se não mera estultícia?
Chamemos três, quatro vezes que é estultícia, porque só a estultícia junta e conserva juntos todos os amigos. Falo dos mortais, nenhum dos quais nasce sem vício, sendo melhor aquele que menos vícios tiver. Mas entre os sapientes, que se consideram uns deuses, não se estabelece amizade alguma que não seja triste e insípida, e isto acontece com pouquíssimos. Quase todos os homens estão afastados da sabedoria, e não há nenhum que de qualquer modo não delire. Ora só os semelhantes se aproximam uns dos outros. Quando, entre eles aqueles espíritos severos, surge mútua benevolência, ela é certamente instável, e de modo nenhum duradoura; estas pessoas tristes e demasiado clarividentes discernem os vícios dos amigos de maneira tão aguda como a da águia ou da serpente do Epidauro. Mas quanto aos vícios próprios, não vêem o peso que trazem às costas. É próprio da natureza humana que ninguém seja isento de defeitos e de vícios. Assim, com as diferenças de idade e de educação, com os lapsos, os erros, os acidentes perigosos para a vida, como é que entre estes árgus poderiam gozar uma hora de amizade, se não fosse a intervenção do que os gregos chamam euéteia, que poderíamos traduzir por conveniência, tolerância, indulgência mútua. Mas quê? Cupido, autor de todas as ligações necessárias, está privado da visão. Da mesma maneira que o que não é belo, belo lhe parece, assim acontece convosco, julgando belo o que vos pertence, tal como o velho gosta da sua velha e a criança da sua boneca. Tudo isto é corrente e ridículo, mas também são estes ridículos que tornam a vida mais alegre e a sociedade mais firme». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Livros que Mudaram o Mundo, Guimarães Editores, Lisboa, 1987, Oeiras, 2010, ISBN 978-989-682-014-5.

Cortesia de GuimarãesE/JDACT

sábado, 12 de setembro de 2015

Corrector de Erasmo. António Luís. Américo Costa Ramalho. «Verificou-se que a letra parecia de castelhano e foi interrogado o capelão da rainha dona Catarina, licº Rodrigo Sánchez, castelhano, que não confirmou que a letra fosse de alguém nascido em Castela»

Cortesia de wikipedia

«O licenciado António Luís é mal conhecido e faz falta um estudo sobre a sua formação e actividade como professor, investigador, cientista e filósofo. A primeira condição para isso será a tradução da sua obra. Não digo apenas leitura por alto do seu latim, nem sempre fácil, mas a tradução publicada, com o latim em face, para que possa ser apreciada e discutida. Sem esta medida prévia, tudo quanto continuar a ser escrito sobre António Luís, não passará de glosa inútil sobre o que está dito. Alguns flagrantes da sua personalidade e hábitos podem colher-se do Auto q se fez sobre o ldo ant° luys xpão nouo mor a sã giã desta cidade de lixboa pso por ter liuros em hebraico 1539 mdo soltar. Este Auto, cuja leitura foi feita pelo Mário Brandão, foi publicado por iniciativa de Joaquim Carvalho. Recordemos. Foi o caso que nas portas de algumas igrejas de Lisboa, como a Sé e a igreja do convento do Carmo, apareceu uma carta de controvérsia judaica na qual se declarava, entre outras coisas, que o Messias ainda não tinha chegado. Verificou-se que a letra parecia de castelhano e foi interrogado o capelão da rainha dona Catarina, licº Rodrigo Sánchez, castelhano, que não confirmou que a letra fosse de alguém nascido em Castela.
Procurava-se um culpado, quando a senhoria do licº António Luís resolveu denunciá-lo, dizendo q hu ant° lujs filho de mtre lujs fysiquo que viue nas costas da egreia de sã giã... auya perto de dous anos pouco mais ou menos q treladaua certos liuros -s- briuya de [grego] latym ë lingoajë. & certos textos q elle dizia a ella testemunha. O marido da denunciante, proprietária da casa onde vivia António Luís, era iluminador, e a ele recorria o médico para lhe aguçar as penas de que se servia para escrever. Por isso, ela esclarece: & q hos mais dos domingos & dias santos pncipais pella menhã jazendo ella testa  Ajnda na cama e dito seu marjdo trazia o dto antº lujs penas haparar ao dto seu marjdo. & papell a Regrar que lhe durauã pera toda a somana espver.
Toda a denúncia da mulher do iluminador, além de pitoresca, é extremamente elucidativa. Ela submete o licº António Luís a quem dava tratamento de filho, prova indirecta de que era ainda novo, a um interrogatório de beata coscuvilheira e desconfiada. Eis como ela caracteriza o seu inquilino: & q o dto antº lujs se nomeaua p philosopho e grade letrado. & q ella testemunha dissera ao dto Id0 aos domigos & festas quãdo vynha a Regrar o papell & q lhe aparase as penas q fora mtas donde se ueria q cada uez trazia hua dúzia duas dúzias & q ella ta lhe disera como nã vsaua antes da fysica & ë vysitar seus doemtes asy como fezera seu pay & q elle lhe Respondera q nã estimaua ne tynha de fazer cõ yso q estimaua muis sua honrra & seu saber q nã a fysiqua. Esta denúncia é confirmada pelo filho e pelo marido da denunciante.
A via para a Inquisição (maldita) tinha sido um tal mestre Afonso, pregador, ao qual a senhoria de António Luís, acompanhada por um criado que confirmou as suas declarações, viera consultar sobre a conveniência de denunciar o inquilino. Então acrescentara que António Luís espuja e grego & e abrayco. & q era chamado o grande philosopho plos xpãos nouos & q era grade ajutamto delles e sua casa. Como se vê, todas as acusações visavam a fazer de António Luís um cristão-novo judaizante. Até o aparar das penas era feito aos domingos e dias santos principais... O inquisidor João Melo, desta vez, foi benevolente e a sentença saiu ligeira: Visto como as tas se refere aos liuros & escritura que o R. podia ter feito e sua casa os quaes forom achados catholicos & asi vista a èformação q de sua vida & custumes foi tomada, mando q seja o R. Solto & p ter algíis liuros de hebraico ë sua casa de sop.ta  lhe dou e penjtençia o tpo q esteue preso. J° De mello Inquisidor.
Esta sentença é de 21 de Fevereiro de 1539. Creio que o João Melo levou preso António Luís na noite em que com as varas da Justiça, entre as onze horas e meia-noite, lhe examinou em casa livros e papéis. Isto passou-se a 10 de Fevereiro. Portanto, o lic° António Luís deve ter estado preso uns onze dias. Por testemunhos e declarações, insertos no processo, fica-se a saber que António Luís estudou em Salamanca e que, entre os seus amigos de Lisboa, ao tempo que foi preso, se contavam o leitor João de Barros, André de Resende, oquatrim & o padre frey brás. Num parecer em latim, o promotor de Justiça que assina philippus, chama aos amigos de António Luís uiri probatae uitae. O processo mostra que António Luís era em 1539 solteiro, não exercia a Medicina e se entregava a laboriosos trabalhos de investigação. Desse mesmo ano de 1539, é um livro em latim, escrito em louvor de João III e da expansão ultramarina dos portugueses, a Panagyrica Oratio, em nossos dias mais nomeado do que lido. Todavia, está longe de ser a sua obra mais importante. O autor declara solenemente que a Oratio, embora publicada em 1539, fora escrita anos antes, como me fez notar, Jorge Alves Osório. Mas a oportunidade da publicação é óbvia». In Américo Costa Ramalho, António Luís, Corrector de Erasmo, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Elogio da Loucura. Erasmo. «E o que caracteriza a natureza destas coisas é que quanto mais estultícia tiverem, mais alegram a vida dos mortais. Porque a vida, se for triste, nem sequer merece o nome de vida»

jdact

Fala a loucura
«(…) Mas já é tempo, como diria Homero, de deixar as regiões celestes para descer à terra onde não encontramos nem letícia nem felicidade sem a minha ajuda. Vede primeiramente que providência a da Natureza, genitriz e fabricante do género humano, a de deixar em tudo o condimento da loucura. Com efeito, segundo a definição dos estóicos, a sapiência não é mais do que a conduta da razão; pelo contrário, a loucura consiste em deixar-se levar pelas paixões. Para que a vida dos homens não fosse inteiramente triste e tétrica, Júpiter deu-lhes mais paixões do que a razão, na proporção de um grão para meia-onça. Além disso relegou a razão para um canto estreito da cabeça, deixando o resto do corpo entregue às paixões. À razão opôs ainda dois tiranos violentíssimos a ira, que tem a sua sé no peito, com a própria fonte da vida que é o coração, e a concupiscência cujo império se dilata até ao baixo-ventre. Quanto vale a razão contra estas duas forças reunidas é o que a vida comum dos homens satisfatoriamente nos mostra. A razão pode gritar até enrouquecer para fazer cumprir as fórmulas da honestidade; é rainha a que os homens não obedecem, a que os homens replicam com injúrias, até que emudeça ou se declare vencida.
Mas o homem, nascido para administrar as coisas, deveria receber um pouco mais do que uma onça de razão. Júpiter consultou-me a este respeito, e dei-lhe um conselho digno de mim: o de unir a mulher ao varão. A mulher é um animal louco como nenhum, inepto, ridículo e delicioso que no convívio doméstico atenuaria a tristeza do engenho viril com a loucura feminina. E claro que, quando Platão parece hesitar em incluir a mulher entre os animais racionais, nada mais pretende do que indicar a loucura insigne desse sexo. Quando por acaso uma mulher quer passar por sábia, não faz mais do que dizer que é duas vezes louca. Ninguém vai ungir um boi para a palestra, nem Minerva o consentiria. Não procedamos, pois, contra a natureza; o vício fica agravado quando dissimulado de virtude, por maior que seja o engenho. É bem justo o provérbio grego: um macaco é sempre um macaco, ainda que vestido de púrpura. Assim também a mulher é sempre mulher, quero dizer sempre louca, ainda que ponha uma máscara.
As mulheres não me podem levar a mal que lhes atribua a loucura, porque eu também sou, além de mulher, a própria Estultícia. Vendo bem as coisas, devem ser gratas à Estultícia que lhes permite serem muito mais felizes do que os varões. Têm a graça da formosura, mérito que antepõe a todas as coisas, e que lhes serve para tiranizarem os próprios tiranos, O varão tem as formas rudes, a cútis híspida, a barba selvagem, e tudo isto o envelhece embora signifique sabedoria; as mulheres, com as faces sempre macias, a voz sempre doce, a pele sempre lisa, têm a seu favor os atributos da juvência perpétua. Por que optam elas nesta vida, senão por agradar da melhor maneira aos varões? Não é essa a razão de tantos cuidados, enfeites, banhos, perfumes, penteados, cosméticos, cremes, pinturas, de tanta arte no embelezamento do rosto e dos olhos? Não é a Loucura a deusa que lhes entrega da melhor maneira os varões submissos? Que é que eles não prometem às mulheres, e que é que eles não lhes permitem? E tudo isto em troca de quê, se não da voluptuosidade? Quem permite todas estas delícias é a estultícia. Basta reparar na figura que o varão faz, e nas tolices que diz à mulher quando pretende obter a volúpia que ela concede. Sabeis agora qual é o primeiro e o principal prazer da vida, e de que fonte decorre.
Mas há pessoas, especialmente os velhos, que são mais amigos das bebidas do que das mulheres, e que encontram a suma volúpia no molhar da garganta. Se pode haver um lauto convívio sem a presença das mulheres, outros que o digam. O que é certo é que nenhum seria agradável sem o condimento da estultícia. Se aos convivas faltar vera ou simulada estultícia que provoque o riso, procura-se então o bobo mercenário ou o parasita ridículo que gracejando, isto é, dizendo loucuras, expulsará do banquete o silêncio e a tristeza. De que valeria contentar o ventre com manjares, guloseimas, se aos olhos, aos ouvidos, e à alma inteira não forem dados risos, palavras jocosas, frases alegres! Ora sou eu a organizadora desses divertimentos. Todas as cerimónias dos banquetes, deitar as sortes para escolher o rei, fazer brindes, cantar em coro, dançar, pantominar, não foram inventadas pelos sete sofos da Grécia, mas por mim, para a felicidade do género humano. E o que caracteriza a natureza destas coisas é que quanto mais estultícia tiverem, mais alegram a vida dos mortais. Porque a vida, se for triste, nem sequer merece o nome de vida. É preciso fugir da tristeza, e do tédio que é parente dela, por este género de divertimentos». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Elogio da Loucura. Erasmo. «E a severa Diana sempre esquecida do sexo e dedicada à caça, perdida de amores por Damião? Quisera que Momus lhes dissesse as verdades, como outrora acontecia com frequência»

jdact

Fala a loucura
«(…) Mas para que havemos de falar dos mortais? Percorrei o céu todo; consentirei que o meu nome seja um opróbrio a quem encontre um só deus que seja apreciado fora da minha clientela. Porque é que Baco é sempre um efebo de bela cabeleira? Porque anda sempre embriagado, entre festins, danças, santos e jogos, e não tem comércio algum com Pallas? Tão pouco lhe apraz passar por sábio, que só lhe agrada ter por culto as farsas e os ludíbrios. Não se sente ofendido pelo provérbio que lhe atribui um cognome fátuo, o de mais maluco do que Morico. Provém este nome de Morico da estátua colocada à entrada do templo, estátua que os vindimadores costumam manchar com uvas e figos para seu divertimento. Quantos sarcasmos proferiu contra ele a comédia antiga! Dizia-se até: insensato deus, digno de ter nascido de uma coxa. Mas quem não preferiria ser este deus fátuo e insensato, sempre festivo, sempre juvenil, sempre portador de divertimentos e prazeres, a ser o próprio Júpiter, temível e pouco seguro para todos, ou o velho Pan que semeia o terror, ou Vulcano sujo por causa dos trabalhos da sua oficina, ou até mesmo Palas que olha de soslaio e ameaça sempre com a sua Gorgona e com a lança terrível?
Cupido nunca deixa de ser menino? Porquê? Porque é frívolo, não pensa nem faz coisa sensata. Porque é que é sempre bela a forma da Vénus áurea? Porque tem certa afinidade comigo, porque tem no rosto a cor de meu pai, e tal é a causa por que Homero a denominou Afrodite áurea. Além disso, sorri perpetuamente, se acreditarmos nos poetas, ou nos seus émulos, os escultores. Que divindade foi mais consagrada pelos romanos do que Flora, mãe de todas as volúpias? Se lermos, com atenção Homero e os outros poetas, cremos que até os deuses mais sérios caem em situações de loucura. Será necessário rememorar-vos os amores de Jove fulminante? E a severa Diana sempre esquecida do sexo e dedicada à caça, perdida de amores por Damião? Quisera que Momus lhes dissesse as verdades, como outrora acontecia com frequência; mas eles zangaram-se e precipitaram-no sobre a terra com a Discórdia.
Até, porque o que ele sabia importunava a felicidade dos deuses. Mas nenhum mortal se digna dar hospício ao exilado, nem os príncipes o admitem nos seus palácios onde a minha companheira Colácia ou seja, a Lisonja, tem o primeiro lugar; mas esta é tão amiga de Momus como o lobo do cordeiro. Desde que o exilaram, os deuses divertem-se de modo mais licencioso e mais prazenteiro. Libertos do censor, levam uma vida fácil, como diz Homero. Quando os alegra o Príapo de pau de figueira! Quanto os divertem os furtos e os ardis de Mercúrio! Vulcano, convidado pelos deuses é o bobo dos festins: excita-se o riso, ou claudicando ou dizendo coisas ridículas. E Sileno, esse velho lascivo, dança a cordaca com o pesado Polifemo enquanto as Ninfas saltam a gimnopedia. Sátiros semicaprinos representam as farsas atelanas, Pan provoca o riso geral com uma cantilena rústica e insulsa, que eles preferem às canções das Musas, principalmente quando o néctar lhes começa a subir à cabeça. Como hei-de referir-me ao que os deuses fazem depois de terem bebido copiosamente? São coisas tão estultas que eu não posso impedir-me de rir. Mais prudente é calar-me, como Harpocrates não vá algum deus coriqueu ouvir-me narrar coisas que Momus, não pôde dizer impunemente». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Elogio da Loucura. Erasmo. «Um testemunho de peso é o provérbio vulgar que diz “ser a loucura a única coisa que detêm a fugacíssima juventude e que afasta a incómoda senectude”. Nunca sofreriam de incómodos da senectude se não acontecesse, como é frequente, infectarem-se ao contágio dos sapientes»

jdact

Fala a loucura
«Pelo que se pode calcular em quanto superam a própria infância, idade muito feliz e agradável mas que não tem o prazer da tagarelice. Acrescei que os velhos adoram as crianças e que estas se afeiçoam a eles, porque:
  • os deuses comprazem-se em unir os semelhantes.
Mais ou menos rugas, maior ou menor número de anos, tais são as diferenças entre uns e outros. Mas o cabelo branco, a boca desdentada, o corpo débil, o gosto pelo leite, a balbúcie, a garrulice, a inépcia, o olvido, a irreflexão aproximam-nos. Quanto mais os homens acedem à senilidade, tanto mais ganham em semelhança com a puerícia; e, por fim, emigram como crianças, sem o tédio da vida, sem a consciência da morte.
Agora compare quem quiser os meus benefícios com as metamorfoses dos restantes deuses. Já não rememoro sequer as metamorfoses que fazem quando impelidos pela ira, mas só aquelas que promovem para com os seus protegidos: costumam transformá-los ora em árvote, ora em ave, ora, em cigarra e até em serpente: como se assim transformá-los fosse mais do que matá-los. Eu restituo ao próprio homem a época mais feliz da sua vida. Se os mortais decidissem desiludir-se do amor pela Sofia, e preferissem o comércio com Folia, nenhum deles chegaria a velho, todos gozariam a felicidade da juventude perpétua. Não vedes esses rostos tétricos que os estudos filosóficos ou que as dificuldades dos negócios fazem envelhecer antes de tempo, porque a cogitação assídua acaba por azedar p espírito e por exaurir a seiva da vida? Pelo contrário, os meus estultos são pingues e nítidos, têm a cútis bem cuidada, uns verdadeiros porcos de Acarnânia, como se costuma dizer. Nunca sofreriam de incómodos da senectude se não acontecesse, como é frequente, infectarem-se ao contágio dos sapientes. Sofre assim a vida dos homens, porque eles não são perfeitos. Um testemunho de peso é o provérbio vulgar que diz ser a loucura a única coisa que detêm a fugacíssima juventude e que afasta a incómoda senectude.
E como é digno de louvor o povo de Brabante. Enquanto para os outros homens a idade costuma afirmar a prudência, estes quanto mais acedem à senectude tanto mais afirmam a loucura. Não há gente como esta, para levar a vida cada vez mais festivamente, para cada vez menos sentir a tristeza do envelhecimento. Quanto a lugar, costume e modo de vida confinem com eles os meus holandeses. Chamo-lhes meus, porque me prestam tão zeloso culto que lhes valeu um cognome vulgar. E esse apoio em vez de vergonha, lhes dá honra. Ide agora, mortais louquíssimos pedir a Medeia, a Circe, a Vénus, a Aurora e a não sei que outra fonte, que vos restituam a juventude!
Só eu posso conceder tal favor! Possuo o filtro mirífico com que a filha de Memma prolongou a juventude de Titão. Eu sou a Vénus que devolveu a Faonte o atractivo que arrebatou Safo. São minhas as ervas, meus os feitiços, minhas as fontes que não só evocam a mocidade passada, mas também, o que melhor é, a conservam perpetuamente. Se todos vós subscreveis a sentença seguinte, que nada há melhor do que a mocidade nem pior do que a senilidade, vede então quanto me deveis, a mim que retenho tanto de bom como excluo tanto de mau». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «… faço-os beber a água do olvido que dilui pouco a pouco os cuidados e rejuvenesce a alma. Deliram, ficam tontos, dizem tolices? É isso mesmo; readquirem a infantilidade. Não é próprio da puerícia a inconsciência e a inconsequência?»

jdact

Fala a loucura
«À infância, que não fala, segue-se a puerícia que a todos agrada, que encanta pela candura, que todos solicitamente ajudam de mãos estendidas. Donde vem esta graça da juventude? Donde, se não de mim, que afasto essas idades tanto da sabedoria como dos tristes cuidados? Estou a mentir? Vede então:
  • quando crescem, estudam, adquirem o uso das coisas e a disciplina da vida, a alacridade languesce, a alegria arrefece, a vivacidade decai. É a adolescência.
À medida que se afasta de mim, o homem vai vivendo com menos intensidade até que chega à senilidade tão molesta para ela como importuna para os outros, e que seria insuportável se eu não interviesse em socorro de tantas misérias. Tal como, no dizer dos poetas, os deuses protegem com uma metamorfose aqueles que querem salvar da morte, assim eu reconduzo à puerícia os velhos que estão à beira do túmulo.
O vulgo costuma dizer que eles estão na segunda infância. Não ocultarei o modo por que efectivo essa transformação. Conduzo os velhos à fonte da nossa Leté, a que nasce nas ilhas Afortunadas, porque nos Infernos não corre mais que um riacho; faço-os beber a água do olvido que dilui pouco a pouco os cuidados e rejuvenesce a alma. Deliram, ficam tontos, dizem tolices? É isso mesmo; readquirem a infantilidade. Não é próprio da puerícia a inconsciência e a inconsequência? Haverá pessoas tão odiosas como esses meninos portentos, que exibem uma sabedoria viril? Bem diz o adágio vulgar: Odeio a sabedoria precoce da criança...
Quem poderia ter por amigo e companheiro um velho que aliasse à experiência completa da vida o vigor intelectual e o juízo acrimonioso? Mais vale que o velho delire. Este delírio liberta-os dos cuidados e das misérias da vida que atormentam o homem sisudo. Vai bebendo o seu vinho. Não sente o tédio da vida que uma idade mais robusta suporta. Por vezes regressa às três letras A. M. O. como o velho de Plauto, e não é infeliz porque é estulto, agradável aos amigos, e jovial na conversa. Já dizia Homero que da boca de Nestor fluíam palavras mais doces que o mel, enquanto o discurso de Aquiles era amargoso; dizia ainda que os velhos reunidos junto dos muros da cidade proferiam palavras floridas. Pelo que se pode calcular em quanto superam a própria infância, idade muito feliz e agradável mas que não tem o prazer da tagarelice». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «Não é verdade que a vida seria triste, aborrecida, insípida, modesta, se não tivesse o condimento do prazer, da folia e da loucura?»


jdact

Fala a Loucura
«E porque não heide falar abertamente convosco, como é o meu costume? Pergunto: é com a cabeça, com a face, com o peito, com as orelhas, com as partes do corpo denominadas honestas, que os deuses e os homens procriam? Não é.
A propagatriz do género humano é uma parte do corpo tão estulta e tão ridícula, que não pode ser nomeada sem riso. Tal é a fonte sagrada de que flui para todos a vida, muito mais do que do ‘quatérnio’ pictagórico.
Que varão, pergunto eu, curvaria o pescoço perante o jugo do matrimónio se, à maneira dos sapientes, calculasse primeiro os inconvenientes desta vida? E que mulher consentiria em aproximar-se de um homem se meditasse nas dores e nos perigos do parto e nos trabalhos da educação da criança? Se deveis a vida ao conjunto, deveis o conjugato à minha servente Anoia, e reparai agora em quanto me deveis também.
Que mulher já experiente quereria repetir se não estivesse com a Leté, que aqui vedes? Nem a própria Vénus, diga Lucrécio o que quiser, teria um poder tão grande se lhe faltasse o nosso auxílio.
Dos meus divertimentos tontos e ridículos provêm os filósofos muito sérios, a quem sucederam agora aqueles que o vulgo denomina monges; e também os reis cobertos de púrpura, os sacerdotes pios, e os santíssimos pontífices. Mais ainda, a reunião de todas as divindades poéticas, inumeráveis, cuja turba excede a capacidade do Olimpo, que é espaçosíssimo.

Mas de pouco valeria apresentar-me como seminário e fonte da vida se não vos demonstrasse também que me deveis todos os prazeres da existência. Que seria a vida, que poderia dizer-se da vida, se lhe faltasse a voluptuosidade? Aplaudis, meus amigos? Já sabia que nenhum de vós é bastante sábio, ou bastante louco, digamos bastante douto, para ter outra opinião. Nem mesmo os estóicos desprezam a volúpia; e se em público a escarnecem, dissimulam para assim afastarem os outros e gozarem sossegadamente. Mas dizei-me por Jove: Não é verdade que a vida seria triste, aborrecida, insípida, modesta, se não tivesse o condimento do prazer, da folia e da loucura? Posso invocar o testemunho idóneo d'e Sófocles, nunca por demais louvado, que me fez o mais belo elogio:
  • Quanto maior for a sabedoria, menos feliz a vida.
Mas vamos ao fundo da questão...
Quem ignora que a primeira é a mais grata e deliciosa idade da vida humana?
A prudente Natureza concedeu esse dom aos recém-nascidos para eles assim recompensarem os trabalhos e os cuidados dos que os educam. À infância, que não fala, segue-se a puerícia que a todos agrada, que encanta pela candura, que todos solicitamente ajudam de mãos estendidas». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «Escreveu alguém que é próprio da divindade adjuvar os mortais; e se com todo o direito foram admitidos no senado dos deuses aqueles que ensinaram aos mortais o cultivo do vinho do trigo e de outras coisas tão úteis, porque é que não sou considerada a alfa de todos os deuses, eu que a todos tudo facilito?»



jdact

Fala a Loucura
«Aquela que ali vedes, de sobrancelha altiva, é Filáucia. Aquela que ri com os olhos e aplaude com as mãos tem por nome Colácia. Aquela que parece estar a dormir chama-se Leté. Aquela que se apoia nos cotovelos e que entrelaça os dedos diz-se Misoponia. Aquela que está coroada de rosas e ungida de perfumes é Hedoné. Aquela de olhos lúbricos e errantes chama-se Anoia. Aquela de nítida cútis e de corpo sanguíneo tem o nome de Trifé. Vede ainda dois deuses menores entre elas admitidos, um chama-se Coma e o outro Morfeu. Todos são meus fâmulos fiéis que me ajudam a governar tudo quanto me está sujeito, e até mesmo a imperar sobre os imperadores.

Conheceis a minha origem, a minha educação e a minha comitiva. Agora, para não ser acusada de usurpar o título de deusa, vou dizer-vos os benefícios que proporciono aos deuses e aos homens, e a extensão do meu poder.
Escutai com atenção.
Escreveu alguém que é próprio da divindade adjuvar os mortais; e se com todo o direito foram admitidos no senado dos deuses aqueles que ensinaram aos mortais o cultivo do vinho do trigo e de outras coisas tão úteis, porque é que não sou considerada a alfa de todos os deuses, eu que a todos tudo facilito?

Primeiro: que será mais doce e mais precioso do que a própria vida? E quem contribue mais do que eu para dar a vida? Nem a lança de Pallas, filha de pai poderoso, nem a égide de Jove, o que reúne as nuvens, procriam ou propagam o género humano. O próprio pai dos deuses e rei dos homens que com um olhar faz tremer o Olimpo, tem que pôr de lado o raio trífido e o vulto titânico com que aterroriza todos os deuses, tem que usar de máscara, como um pobre comediante, quando lhe apetece… fazer o que faz com frequência… procurar ser pai.

Os estóicos presumem de proximidade com os deuses. Dai-me um que seja três, quatro ou, se quiserdes, mil vezes mais estóico do que todos os estóicos juntos; neste caso, talvez não consiga que ele corte a barba, insígnia da sapiência também comum ao bode; mas terá que alisar as sobrancelhas, desenrugar a fronte, abandonar os dogmas inflexíveis, atrever-se a dizer inépcias e a fazer tolices. Em suma, é a mim, só a mim, que recorrerá o sábio quando quiser ser pai». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «Sem o auxílio dele, todo o povo dos numes poéticos, e digamos com maior audácia, até mesmo os grandes deus, não teria existência, ou pelo menos passariam muito mal de saúde. Aquele que exercitar a ira de Pluto nem sequer com o auxílio de Palas poderá ficar salvo»



jdact e cortesia de wikipedia

 Fala a Loucura
«Já sabeis o meu nome, ó homens... Que epíteto acrescentar? Qual, se não o de muito loucos! A deusa da Folia não pode qualificar mais honestamente os seus mistos. Mas não sabeis muito bem como fui gerada, e é isso que vou tentar expor-vos com a boa ajuda das musas.
Não procedo do Caos, nem do Orco, nem de Saturno, nem de Júpiter, nem de nenhum desses deuses obsoletos e poeirentos. Sou filha de Plutos, gerador único dos homens e dos deuses por muito que custe a Homero, a Hesíodo e ao próprio Jove. De um só gesto, hoje como ontem, ele transtorna todas as coisas sagradas e profanas; é ele que tudo arbitra: guerra, paz, governo, conselhos, tribunais, comícios, conúbios, pactos, alianças, leis, artes, distracções, trabalhos... falta-me já o fôlego!... Numa palavra ,administra os negócios públicos e privados de todos os mortais.
Sem o auxílio dele, todo o povo dos numes poéticos, e digamos com maior audácia, até mesmo os grandes deus, não teria existência, ou pelo menos passariam muito mal de saúde. Aquele que exercitar a ira de Pluto nem sequer com o auxílio de Palas poderá ficar salvo. Pelo contrário, quem tiver a protecção dele, pode atentar contra a sumidade de Jove e dos raios fulminantes. Ta1 é o meu pai, de que me orgulho. Não me extraiu do seu cérebro, como Jove extraiu a tétrica e façanhuda Palas, mas gerou-me no seio da mocidade, que é de todas as ninfas a mais bela e a mais festiva. Não houve entre meus pais a triste ligação conjugal, de que só poderia nascer um ferreiro coxo, como Vulcano, mas, o que é muito mais agradável, puro comércio amoroso no dizer do nosso Homero. Não julgueis que procedo do Plutos, meio cego e decrépito que Aristófanes nos representa, mas do Plutos íntegro e cálido de juventude e, não só de juventude, mas também do néctar abundante e puríssimo que bebera no festim dos deuses.

Se perguntais qual é a minha terra natal, visto que a nobreza depende hoje principalmente do lugar onde a gente profere os primeiros vagidos, dir-vos-ei que não foi a errante Delos, nem nas ondas do mar, nem nas grutas azúreas, mas nas ilhas Afortunadas onde as colheitas não são precedidas de sementeiras e de cultura. Labor, senectude, morbo não existem ali; nos campos não se encontram asfodelo, malva, squilla, lupinum, fava ou plantas inúteis; mas de todos os lados encantam a vista e deliciam o olfacto plantas como moli, panaceia, nefrentes, amaracus, ambrósia, lótus, rosa, violeta, jacinto, enfim, o horto de Adonis. Nascida entre tantas delícias, não comecei a vida a chorar, logo me ri para minha mãe. Não invejo ao poderoso filho de Cronos a cabra nutriz, porque me alimentaram de seus seios duas ninfas encantadoras, a Embriaguez, filha de Baco, a Rusticidade, filha de Pan. Vede-as aqui no grupo das minhas companheiras que vos apresentei, se quiserdes, mas proferindo o nome delas em grego». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «Vedes que estou imitando os retóricos do nosso tempo, que se julgam uns deuses pelo facto de serem bilingues como as sanguessugas, e que julgam preclaro imiscuir no discurso latino algumas palavras gregas, compor um mosaico que nem sempre vem a propósito»



jdact e cortesia de wikipedia

Fala a Loucura
«Não julgueis que estas minhas palavras sejam falsas, como é vulgar entre os oradores. Pois bem sabeis que quando eles proferem um discurso que lhes custou trinta anos de trabalho, e por vezes trabalho alheio, juram tê-lo escrito por prazer, ou até tê-lo ditado, no curto prazo de três dias. Eu, não; sempre me foi grato dizer imediatamente tudo quanto me vem à boca.
Não espereis, pois, que seguindo o uso desses retóricos, faça a divisão do discurso. Não é conveniente limitar ou dividir o império de uma divindade que reina em toda a parte e que recebe o culto unânime de toda a terra. Descrever-me, representar-me, pintar-me, também não vale a pena, porque estou presente e porque me vedes com os vossos olhos. Sou, como estais vendo, a verdadeira dispensatriz da felicidade que os latinos denominam ‘Stultitia’ e os gregos ‘Moria’.
Não preciso de vos dizer. Revelo-me, como dizem, pela fronte e pelos olhos, e se alguém me quisesse tomar por Minerva ou por Sofia, desenganá-lo-ia sem falar, já que o rosto não mente porque é o espelho da alma. Não dissimulo no rosto o que sintro dentro do peito. Sou sempre idêntica a mim própria, e não possodissimular como aquelas pessoas que para si reivindicam os títulos da máxima sabedoria, que passeiam como macacos vestidos fe púrpura ou como asnos cobertos com pele de leão. Disfarcem-se como quiserem, deixamsempre ver as orelhas traiçoeiras de Midas.€
Vedes que estou imitando os retóricos do nosso tempo, que se julgam uns deuses pelo facto de serem bilingues como as sanguessugas, e que julgam preclaro imiscuir no discurso latino algumas palavras gregas, compor um mosaico que nem sempre vem a propósito. À falta de palavras exóticas, vão buscar quatro ou cinco fórmulas arcaicas aos pergaminhos pútridos, ofuscando com trevas os olhos do leitor, para que assim os entendedores mais orgulhosamente se deleitem e para que os ignorantes tanto mais admirem quanto menos compreendam. Pois é bem certo que todos encontram prazer no que lhes é mais alheio e distante. A vaidade está nisso interessada; riem, aplaudem, movem as orelhas somo o asno que quer desse modo mostrar que compreendeu:
  • ‘É assim mesmo, é tal e qual’.
Mas recorro ao meu tema». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sábado, 12 de maio de 2012

Elogio da Loucura. Erasmo. «Aplicava-se o zelo deles a celebrar o encómio de deuses e de heróis. Ouvireis pois, um encómio, não de Hércules nem Sólon, mas de mim própria, da Estultícia. Fui, para vós, uma Primavera. Tal como após o Inverno áspero surge o formoso sol que devolve à terra o rosto dourado»



Cortesia de wikipedia e jdact

Fala a Loucura
«Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscia como os estultíssimos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses. A prova é que, mal me apresentei a este grande auditório, já nos vossos olhos brilha uma insólita alegria. Repentinamente os vossos rostos se dirigiram para mim, e o vosso amável riso me aplaudiu com delícia. Vejo-vos inebriados pelo néctar dos deuses homéricos, misturado com um pouco de nefente que dissolve os cuidados, e ainda há pouco estáveis tão sombrios e tristes que mais parecíeis ter fugido do antro de Trofónius.
Fui, para vós, uma Primavera. Tal como após o Inverno áspero surge o formoso sol que devolve à terra o rosto dourado, e reverdece toda a natura com outra mocidade, assim se transformou, logo que me vou, o vosso vulto triste. Com a minha aparição logo obtive o que os bons oradores não conseguem pelos longos discursos meditativos; expulsar das almas o tédio vil.
A razão porque me revesti hoje de aspecto tão insólito ireis sabê-la se me quiserdes ouvir, não com a atenção que prestais aos sermões piedosos, mas com a que logo se excita na presença dos charlatães, dos bobos, e dos saltimbancos; ou melhor, com as orelhas arrebitadas, como outrora o nosso amigo Midas escutava a música do deus Pan.
Praz-me agir diante de vós como um sofista, não daqueles que inculcam à mocidade bagatelas enfadonhas e que lhe ensinam a discutir de modo mais pertinaz do que o das mulheres; imitarei aqueles antigos que, para evitarem a denominação infame de sábios, escolheram a de sofistas. Aplicava-se o zelo deles a celebrar o encómio de deuses e de heróis. Ouvireis pois, um encómio, não de Hércules nem Sólon, mas de mim própria, da Estultícia.

Não considero sapientes aqueles que julgam estultíssimo o elogio próprio. Se isto é estulto, é o que me convém. Nada quadra tão bem à Moria como soprar na trombeta da fama e auto elogiar-se. Quem é que pode exprimir-se melhor do que eu própria? Creio que demonstro assim maior modéstia do que o poderoso ou o douto que, por perversão do pudor, suborna a lisonja de um orador ou a fantasia de um poeta, e paga para ouvir louvores, ou seja, puras mentiras. Mas o nosso homem vai-se pavoneando, vai levantando a crista, enquanto os aduladores impudicos comparam com os deuses aquela nulidade, apresentam-no, convencidos do contrário, como o modelo perfeito de todas as virtudes, enfeitam uma gralha com penas de pavão, fazendo do preto branco, transformam uma mosca num elefante. Finalmente, seguindo mais uma vez um dito popular, declaro que ‘já que ninguém me gaba, gabo-me eu a mim própria’.
Não sei que mais me espanta nos mortais, se a ingratidão, se a indiferença. Todos me desejam, todos gozam dos meus favores, mas nenhum, no decurso dos séculos testemunhou a sua gratidão com um discurso em louvor da Loucura, quando tantos perderam a paz do sono e o azeite da candeia a escrever louvores a tiranos como Busiris e Falaris, à febre, às moscas, à calvície e outras pestes. O meu encómio, que ides ouvir, é extemporâneo e improvisado, mas por isso mesmo muito mais sincero». In Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, tradução de Álvaro Ribeiro, colecção Filosofia e Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1987.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT