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sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Empresa das Índias. Erik Orsenna. «A notícia correra célere. Ninguém queria faltar à prédica. Alguns acabavam de se apear do cavalo. Aspergiam-se com água da fonte para não entrarem na casa de Deus demasiado cobertos de pó»

jdact

Ilha de Hispañola. Natal de 1511
«(…) Sem lhe dar tempo a responder, Diego apresentou-me: Bartolomeu, o meu tio, irmão do Almirante e primeiro governador desta ilha nos anos entre 1496 a 1500. Montesinos teve um sobressalto. Olhou-me a direito nos olhos e pronunciou uma só palavra: porquê? Já o Vice-Rei o empurrava para a saída. Conto convosco, frei António. Aqui, os equilíbrios são frágeis. Todos devem manter-se no seu lugar. Como Montesinos abrisse a boca para responder, foi mandado sair. E na alta sociedade espanhola todos compareceram à missa no domingo seguinte confiantes, persuadidos de que o incidente estava encerrado.
Durante toda a semana, aquele porquê não me largou. De cada vez que o expulsava da cabeça, de cada vez ele voltava, como uma vespa assanhada, de cada vez precedida pela mesma visão: os dois olhos profundos do pregador. E de noite, por trás dos barulhos familiares do porto, ouvia um som que não conhecia, como uma roda a pisar a estrada ou uma mó a girar. Acudiu-me a convicção de que esse Montesinos, maldito seja, tinha reposto o Tempo em movimento. Ia perder o meu refúgio. Os tormentos da memória, que tanto temia, já não tardariam. No domingo seguinte, muito antes do início da missa, a ilha inteira, quero dizer tudo o que a ilha conta de espanhóis, estava reunida diante da entrada do convento. Muitos tinham vindo de longe, dos cantos mais remotos, da província de Vega, das montanhas e mesmo da costa norte, da península de Samaná.
A notícia correra célere. Ninguém queria faltar à prédica. Alguns acabavam de se apear do cavalo. Aspergiam-se com água da fonte para não entrarem na casa de Deus demasiado cobertos de pó. Não se viam há lustros. Julgavam-se já falecidos. Soltavam exclamações. Abraçavam-se. Dir-se-ia uma festa de família. Trocavam-se as últimas más notícias, os óbitos, os nascimentos, a severidade do clima, a decepção das colheitas, a pobreza das minas. Após duas, três frases, chegavam aos Índios. À preguiça, à bestialidade, à depravação, à imbecilidade, à crueldade dos Índios. Depois engatavam no padre louco, transformado em alguns dias na pessoa mais célebre da ilha. Conhece-lo, tu, esse... Montesinos? Que serpente o picou? Parece que o Vice-Rei o recebeu. E chamou-o à razão. Senão, terá com quem se haver. Os semblantes mostravam-se severos. Tinham vindo armados.
Os dominicanos não sabiam para onde haviam de se virar. A não ser que se apartassem as paredes, na igreja não podia caber mais ninguém. Já três boas centenas de fiéis tinham sido repelidas, para sua fúria. E continuavam a chegar mais. Ainda antes que António Montesinos tivesse pronunciado uma palavra sequer, já a atmosfera estava tumultuosa. Por fim, entre murmurações, começou a missa. Parece-me, mas não dispunha de um instrumento para medir o ritmo, que a primeira parte foi acelerada. E de súbito, uma voz forte retiniu por cima das nossas cabeças. Aí estava Montesinos, chegado ao seu púlpito não se sabe como. Talvez os seus amigos índios lhe tivessem transmitido a capacidade de se mover sem ser visto? O púlpito assentava numa grossa serpente de madeira esculpida. Alguns, na assistência, murmuraram que o maldito pregador firmara um pacto com o animal para estar protegido da multidão.

Porque mantendes os Índios em tão cruel servidão? Porque fazeis tão detestáveis guerras a estes povos pacíficos? Porque os matais exigindo deles um trabalho a que nenhum de vós sobreviveria? Porque não os vedes como homens, eles, que Deus dotou de uma alma igual à vossa?...

Longe de intimidarem Montesinos, as recomendações do Vice-Rei tinham-no estimulado. A autoridade da sua palavra consolidara-se. No domingo anterior, as suas palavras tremiam, não de medo, mas de indignação. Desta vez trespassavam o ar tão duras e precisas como projécteis. A assistência reagiu sem demora. Ergueram-se vozes, cada vez mais fortes». In Erik Orsenna, 2010, A Empresa das Índias, Teorema, 2011, ISBN 978-972.

Cortesia de Teorema/JDACT

A Empresa das Índias. Erik Orsenna. «Quem vos autoriza a fazer tão detestáveis guerras a estes povos que vivem pacificamente na sua terra, onde perecem em quantidade infinita?»

jdact

Ilha de Hispañola. Natal de 1511
«(…) Ousarei confessar que nesta espécie de presente permanente vivo em paz como nunca? Liberto do cansaço de sonhar, uma vez que Cristóvão se foi deste mundo, mas também isento dos remorsos que a multidão dos meus pecados haveria de engendrar. Naquele domingo, o primeiro do Advento de 1511, acordámos juntos, a cidade e eu. Gosto deste palácio pelas suas pedras de coral que deixam passar os sons. Ouço primeiro as aves que saúdam o regresso da luz, depois os homens a tossir e a escarrar; os cavalos a resfolegar; a chiadeira das carroças; os primeiros rangidos das serras. Chega uma caravela. Reconheço de ouvido qual a vela que recolhem, em que parte do porto vai atracar. Os cães ladram. Continuarão a ladrar cada vez mais alto até serem alimentados. Já mexe um novo dia, pesadamente, como um barco que se afasta do cais. A cada um destes novos dias digo da minha gratidão por ele me aceitar a bordo. E, sem prever os ataques que iriam dentro em pouco devastar a minha alma e arrasar a minha serenidade, parti para a igreja. Começou a missa.
Difícil rezar na minha situação: sentado na primeira fila, entre o Vice-Rei Diego e a sua mulher, Maria Toledo, tinha todos os olhares virados para mim. Deus me perdoe. Em vez de me dirigir a Ele e só a Ele, não parava de responder aos cumprimentos. De súbito, sobressaltei-me. Um dominicano tinha subido para o púlpito e começava a sua homilia:

Eu sou a voz de Cristo que clama no deserto desta ilha... Eu sou a voz de Cristo que clama no deserto desta ilha [...] esta voz diz que estais todos em estado de pecado mortal por causa da crueldade e da tirania de que usais para com este povo inocente.

De frase em frase, a voz ia ganhando força e distinguiam-se melhor as palavras. Dir-se-ia que se transformavam noutras tantas pedras lançadas aos nossos rostos.

Dizei-me, por via de que direito e de que justiça mantendes estes Índios em tão cruel e horrenda servidão? Quem vos autoriza a fazer tão detestáveis guerras a estes povos que vivem pacificamente na sua terra, onde perecem em quantidade infinita? [...] Porque os mantendes em tal estado de opressão e de esgotamento, sem lhes dar de comer nem os cuidar na doença de que sofrem e morrem por causa do trabalho excessivo que deles exigis, matando-os tão-só para dia após dia extrairdes ouro? Estes Índios, não são eles homens? Não têm razão, não têm alma? Não devíeis amá-los como a vós mesmos? [...] Porque mergulhastes num tão profundo sono letárgico? Tende por certo que no estado em que vos encontrais tereis tanta salvação como os Mouros e os Turcos que recusam a fé de Jesus Cristo.

Tal foi o sermão desse dia de frei António Montesinos. Perante todas as autoridades de Hispañola e todos os encomenderos, aqueles espanhóis a quem tinham sido dadas as terras dos Índios juntamente com índios para as cultivar. A estupefacção da assistência depressa deu lugar à cólera. Os olhares iam e vinham entre o pregador que ia encadeando estas palavras terríveis e o vice-rei que tentava conservar um semblante de impassibilidade. Foi necessário toda a autoridade do padre oficiante para que a missa terminasse sem revolta dos fiéis.
Mal regressou ao nosso palácio, o Vice-Rei convocou esse dominicano de quem ninguém até então tinha ouvido falar e dirigiu-se-lhe nesta linguagem paternal: qualquer um de nós, se estiver mal informado, pode ver-se levado a proferir contraverdades. Não iremos acusar aquele que mergulhou no erro por causa de uma informação imperfeita. No caso vertente, a informação em falta era que o trabalho dos Índios era necessário à boa exploração da ilha, logo, à glória de Espanha. Por conseguinte, o pregador, cujo talento, aliás, todos admiravam, cuja comoção compreendiam, não poderia, no domingo seguinte, agora que já estava completamente informado, deixar de pronunciar um sermão de natureza inteiramente diferente do anterior e que devolveria à população uma paz a que Sua Majestade o Rei tinha em particular apreço...» In Erik Orsenna, 2010, A Empresa das Índias, Teorema, 2011, ISBN 978-972.

Cortesia de Teorema/JDACT

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A Empresa das Índias Erik Orsenna. «Faltam-me sábios. Ter-me-iam explicado este fenómeno. Talvez um arrastar das horas ligado à distância a que estamos, à nossa localização nas fronteiras do poente»

jdact

Ilha de Hispañola. Cidade de S. Domingos. Palácio do vice-rei das Índias. Natal de 1511
«Não estava previsto eu contar. Na nossa família, é o irmão mais velho quem sonha. E este sonho é sagrado. A bem ou à força, Cristóvão recrutou-nos a todos. A cada um de nós atribuiu um papel. O meu era ajudá-lo, noite e dia. E calar a boca. Nunca tive a ideia de protestar. De que serve rejeitar a lei quando a lei é o nosso íntimo? Desta aquiescência houve benefícios: foi assim que o sonho se realizou.
Na recentíssima cidade de S. Domingos, o pa1ácio do Alcázar gostaria de evocar Sevilha. Mas não passa de um grosso bloco de pedra cinzenta pousado na margem do estreito rio Ozama. Entrai sem temor, a porta está aberta. Não há perigo de os guardas vos importunarem: passam quase todo o tempo a dormir e os seus roncos provam que se entregam sem reservas à nobre actividade do sono. Virai à esquerda e atravessai duas capelas, uma grande, outra pequena. Ainda à esquerda. Empurrai uma porta. Julgareis penetrar num túmulo, tão vazio está o lugar, tão desprovido de luz. São os aposentos dignos e sinistros que o vice-rei reservou para mim. O vice-rei é Diego, meu sobrinho: único filho legítimo de Cristóvão.
Muitas vezes me perguntavam: que força incompreensível vos, obriga, a vós, Bartolomeu, a ir ficando, ficando nesta ilha? Porquê escolher Hispañola para último poiso em vez de outros lugares da Terra, dotados de atractivos mais seguros, de confortos mais evidentes e sem dúvida de melhores médicos? Porque não ter preferido Lisboa, a sua querida Lisboa, ou o vale do francês Loire, incomparável de tranquilidade? Conforme os dias, escolho uma das inúmeras razões que me levam a tanto amar esta ilha: a variedade das aves, as nove cores do mar, a proximidade da montanha, a violência das tempestades, o cheiro forte das mulheres, a audácia, tanto das meninas como das flores, para se imiscuírem por toda a parte e assumirem as mais impudicas posições... Calo o principal.
Contrariando as nossas ambições de juventude, Cristóvão e eu não descobrimos, como  esta ilha, o verdadeiro Paraíso, o da Bíblia Sagrada. Mas aproximámo-nos o mais possível dele. Resta-me lucidez suficiente para saber que a escolha de Hispañola para morar não me protegerá da morte, que bem sinto aproximar-se a passos largos. Sei somente que aqui como em nenhum outro lugar poderei resistir às outras maldições da idade: a sensação de frio perpétuo apesar do calor; estas dores cruéis nas articulações, e os tormentos da memória. Em Hispañola, dir-se-ia que cada noite apaga a recordação do dia que acaba de se extinguir: cada aurora que se levanta sobre o mar ainda calmo é nova, pura, leve. Não pesa sobre ela qualquer passado, queria dizer qualquer pecado. Tal como a Terra tem os seus abismos, onde a vida não obedece às mesmas leis que à superfície, o Tempo tem os seus buracos. Faltam-me sábios. Ter-me-iam explicado este fenómeno. Talvez um arrastar das horas ligado à distância a que estamos, à nossa localização nas fronteiras do poente». In Erik Orsenna, 2010, A Empresa das Índias, tradução de Telma Costa, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-957-1.

Cortesia de Teorema/JDACT