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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?»

Cortesia de wikipedia

O reverendo padre Lefèvre
«(….) Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboreando uma expressão de severa majestade, que incutia respeito. Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerimónia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido… como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Noutra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua onisciência, que a condessa já de nada se espantava. Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?
Sim, meu padre, disse Diana. Preciso de encontrar nas palavras e nos conselhos de Vossa Paternidade um conforto às dúvidas, que me amarguram a vida. Supliquei-vos que fosseis o meu director espiritual, porque a vossa fama de piedade, de saber, de austeridade… Obrigado, minha filha. A Companhia de Jesus foi instituída há poucos anos, mas o Senhor abençoou os nossos esforços, e hoje já dirigimos a consciência dos mais ilustres personagens católicos. De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu, e o frade inclinou-se com orgulhosa modéstia, não é difícil tarefa manter-vos sempre no caminho da salvação. Diana parecia hesitar.
Meu padre, disse ela afinal, tenho de fazer-vos confissão de algumas faltas mais graves; mas primeiro desejava saber…, se é certo…, como se diz... Eu concluo a vossa frase, filha. Desejais saber se é certo, como se diz, que os padres da Companhia de Jesus têm para com os pecadores uma indulgência muito superior à que costumam ter os outros confessores; se é verdade que eles têm os meios de diminuir aos olhos dos pecadores a gravidade das suas faltas, e de reconciliar com Deus, sem sacrifícios. É isto que desejais saber minha filha? É, meu padre..., ou pelo menos alguma coisa parecida. Pois bem, ficai então sabendo que esta nossa indulgência que os descrentes nos censuram como uma culpa gravíssima, é verdadeira. Diana fez um gesto de espanto. Oh! entendamo-nos!, disse com o seu frio sorriso o padre Lefèvre, nós somos tão severos como os outros, quando trata de culpas cometidas com pura maldade e só com a intenção de fazer mal; mas, quando julgamos os pecados, sabemos distinguir o elemento mau da intenção, das circunstâncias e dos impulsos exteriores; e quanto mais fortes são estes, tanto mais benévolos nós somos em perdoar a queda.
Não vos compreendo bem, meu padre, disse a jovem viúva, tornando-se pensativa. Eu vos apresento um exemplo, disse o jesuíta, envolvendo num olhar perscrutador toda a pessoa da condessa. Suponhamos que uma jovem, vendo passar um príncipe belo, valoroso galante, lhe corre ao encontro e se lhe lança aos pés, oferecendo-se o corpo; essa tal seria uma mulher perdida, uma cortesã dissoluta, uma condenada às penas eternas, que sofrem os que pecam por luxúria. E então?..., perguntou Diana em grande ânsia. Mas suponhamos agora que aquele príncipe, tanto mais pronto a irar-se, quanto mais poderoso, tinha resolvido fazer morrer o pai daquela jovem. Suponhamos que ela resgatou, à custa da própria honra, a vida de seu pai, e nesse caso converteu-se ela numa Judite, transformou-se numa heroína.
Padre! Padre!, que dizeis!, exclamou a condessa. Porventura conheceríeis vós alguma jovem, alguma mulher que se achasse nestas circunstâncias?, perguntou com absoluta tranquilidade o padre Lefèvre. Diana, completamente abatida, deixou pender os braços. Eles sabem tudo; murmurou, sabem tudo, e eu, como louca, quero competir com eles… Com estes aliados serei tudo, sem eles não serei nada… Oh! É preciso que eu me decida! E resolutamente, voltando-se para o jesuíta, disse-lhe: meu padre, tende a bondade de me ouvir de confissão. Estou pronto, minha filha, respondeu o jesuíta, disfarçando um sorriso de triunfo, que lhe despontava nos lábios». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O Papa Negro no 31. Ernesto Mezzabota. «De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O reverendo padre Lefèvre
«(….) Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboiardo uma expressão de severa majestade, que incutia respeito. Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerim+onia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido. . . como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Em outra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua omnisciência, que a condessa já de nada se espantava.
Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso… Viestes para vos confessardes? Sim, meu padre, disse Diana. Preciso de encontrar nas palavras e nos conselhos de Vossa Paternidade um conforto às dúvidas, que me amarguram a vida. Supliquei-vos que fósseis o meu director espiritual, porque a vossa fama de piedade, de saber, de austeridade… Obrigado, minha filha. A Companhia de Jesus foi instituída há poucos anos, mas o Senhor abençoou os nossos esforços, e hoje já dirigimos a consciência dos mais ilustres personagens católicos. De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu, e o frade inclinou-se com orgulhosa modéstia, não é difícil tarefa manter-vos sempre no caminho da salvação. Diana parecia hesitar.
Meu padre, disse ela afinal, tenho de fazer-vos confissão de algumas faltas mais graves; mas primeiro desejava saber…, se é certo…, como se diz... Eu concluo a vossa frase, filha. Desejais saber se é certo, como se diz, que os padres da Companhia de Jesus têm para com os pecadores uma indulgência muito superior à que costumam ter os outros confessores; se é verdade que eles têm os meios de diminuir aos olhos dos pecadores a gravidade das suas faltas, e de reconciliar com Deus, sem sacrifícios…. É isto que desejais saber minha filha? É, meu padre..., ou pelo menos alguma cousa parecida. Pois bem, ficai então sabendo que esta nossa indulgência que os descrentes nos censuram como uma culpa gravíssima, é verdadeira. Diana fez um gesto de espanto. Oh! Entendamo-nos!, disse com o seu frio sorriso o padre Lefèvre, nós somos tão severos como os outros, quando trata de culpas cometidas com pura maldade e só com a intenção de fazer mal; mas, quando julgamos os pecados, sabemos distinguir o elemento mau da intenção, das circunstâncias e dos impulsos exteriores; e quanto mais fortes são estes, tanto mais benévolos somos em perdoar a queda.
Não vos compreendo bem, meu padre, disse a jovem viúva, tornando-se pensativa. Eu vos apresento um exemplo, disse o jesuíta, envolvendo num olhar perscrutador toda a pessoa da condessa. Suponhamos que uma jovem, vendo passar um príncipe belo, valoroso galante, lhe corre ao encontro e se lhe lança aos pés, oferecendo-se o corpo; essa tal seria uma mulher perdida, uma cortesã dissoluta, uma condenada às penas eternas, que sofrem os que pecam por luxúria. E então ?..., perguntou Diana em grande ânsia. Mas suponhamos agora que aquele príncipe, tanto mais pronto a irar-se, quanto mais poderoso, tinha resolvido fazer morrer o pai daquela jovem. Suponhamos que ela resgatou, à custa da própria honra, a vida de seu pai, e nesse caso converteu-se ela numa Judite, transformou-se numa heroína. Padre! Padre! Que dizeis!, exclamou a condessa. Porventura conheceríeis vós alguma jovem, alguma mulher que se achasse nestas circunstâncias?, perguntou com absoluta tranquilidade o padre Lefèvre. Diana, completamente abatida, deixou pender os braços. Eles sabem tudo; murmurou, sabem tudo, e eu, como louca, quero competir com eles… Com estes aliados serei tudo, sem eles não serei nada… Oh! É preciso que eu me decida! E resolutamente, voltando-se para o jesuíta, disse-lhe: meu padre, tende a bondade de me ouvir de confissão. Estou pronto, minha filha, respondeu o jesuíta, disfarçando um sorriso de triunfo, que lhe despontava nos lábios. Diana sentou-se num escabelo forrado de veludo, e o sacerdote numa cadeira. Meu padre, já sabeis que sou filha do conde de Saint-Vallier, o nobre fidalgo, que auxiliou a fuga do duque de Bourbon, e que por tal facto foi condenado à morte pelo rei Francisco I. Nem os rogos dos amigos, nem as súplicas dos parentes, conseguiram obter para o condenado a clemência do rei. Então, eu, enchendo-me de coragem, corri à corte e lancei-me aos pés do soberano. Foi uma imprudência da minha parte, não é assim, meu padre? Era esse o vosso dever de filha, respondeu o jesuíta, impassível. Continuai. O rei recebeu-me afectuosamente, e quase com respeito: ordenou que se suspendesse por um dia a execução, que estava marcada para o dia seguinte. Quando eu me erguia do chão, onde me tinha prostrado para lhe fazer aquele pedido, o rei murmurou-me ao ouvido: esta noite…, conceder-te-ei completamente..., o perdão de teu pai. Eu quis protestar, quis resistir, mas o soberano disse-me com altiva frieza: dize que não, e a cabeça do conde de Saint-Vallier rolará do patíbulo na praça de Greve». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

No 31. O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(….) Henrique pareceu-lhe ver tremer uma lágrima nos olhos da condessa, tão cruelmente e indirectamente ofendida, e louco, alucinado, caiu-lhe aos pés. Oh! Perdoai-me, Diana!..., exclamou ele extremamente agitado, perdoai-me, porque o meu amor é tamanho que decerto me perturba a razão! Mas ao ver-vos tão bela e encantadora, parece-me impossível que haja alguém que se não apaixone por vós, e que não empregue todos os meios para que vós aceiteis o seu amor… Não me desprezeis, Diana, porque senão, à fé de Valois!..., cometo uma loucura!... E o mancebo, em cujo cérebro se debatiam as mais delicadas fantasias cavalheirescas com os grosseiros costumes das caçadas e dos quartéis, prostrou-se de novo aos pés da condessa. Esta, como que absorvida num pensamento mais relevante, não reparava no mancebo, e deixava que este lhe apertasse a mão com apaixonado ardor. E contudo, murmurou a condessa, ao cabo de um breve silêncio, e contudo, seria todo o meu sonho ser a inspiradora de um jovem, valente, poderoso…, guiá-lo no caminho da glória…, fazer dele um grande príncipe, um herói…
Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerar-vos-ei como a salvadora da casa de França. Silêncio! Erguei-vos!, respondeu a condessa, que viu que era tempo de pôr termo àquela cena. Vem aí algum dos meus criados. Com efeito, naquele momento batiam à porta do salão e uma aia, tendo pedido licença, entrou e inclinou-se, dizendo à condessa: senhora, o reverendo padre Lefèvre chegou agora para a conferência espiritual do costume. Que o reverendo padre tenha a bondade de passar ao oratório… Monsenhor, perdoai-me se vos deixo; vou falar com o senhor de todos os tronos, vou confessar-me a um ministro de Deus. Sois uma santa!, exclamou o príncipe, depondo na bela mão da gentil dama um beijo apaixonado. A condessa deu-lhe em troca um sorriso cheio de amor e de tristeza; depois, tendo acompanhado o príncipe até à porta, como competia à hierarquia do seu real adorador, dirigiu-se para o oratório, onde a esperava o reverendo padre Lefèvre. Se Henrique a tivesse visto naquele momento, é provável que a sua paixão se convertesse em horror. A fisionomia daquela mulher brilhava de uma alegria tão malévola, nos seus lábios pairava um ar de desprezo tão profundo, que a beleza ideal da inconsolável viúva desaparecia, dando-lhe ao rosto uma expressão sinistra em que se reflectiam as mais tristes paixões. Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!
                   
O reverendo padre Lefèvre
Ao passar da sala onde recebera o príncipe para o oratório onde a esperava o jesuíta, Diana lançara sobre os ombros uma capa, que cobria todas as cândidas belezas, cuja vista acendera tamanho fogo de desejos no coração do príncipe Henrique. A sereia bem compreendia que os meios de influir sobre um mancebo inexperiente e inflamável deviam ser diferentes dos que precisava empregar para ser bem-vista por um sombrio e austero frade. Por isso, quando entrou no oratório, Diana levava um vestido muito simples, e apresentou-se de fronte serena, com o olhar franco e tranquilo de quem não tem nada que se lhe lance em rosto. O padre Lefèvre pouco tinha mudado desde aquele dia em que o vimos entre os cavaleiros templários tomar o partido de Inácio de Loiola, e inscrever-se com os outros cinco companheiros na nova instituição, proclamada por Inácio sob o nome de Companhia de Jesus. Era sempre o mesmo tipo de montanhês, de elevada estatura, de porte austero, magro, de feições e formas angulosas. Conservava-se ordinariamente de olhos baixos, mas era fácil perceber, quando erguia o olhar, que a humildade monástica não tinha apagado neles o lampejo de orgulho». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerá-la-ei como a salvadora da casa de França»

jdact e wikipedia

«(…) A Henrique pareceu-lhe ver tremer uma lágrima nos olhos da condessa, tão cruelmente e indirectamente ofendida, e louco, alucinado, caiu-lhe aos pés. Oh!, perdoai-me, Diana!..., exclamou ele extremamente agitado, perdoai-me, porque o meu amor é tamanho que decerto me perturba a razão! Mas ao ver-vos tão bela e encantadora, parece-me impossível que haja alguém que se não apaixone por vós, e que não empregue todos os meios para que vós aceiteis o seu amor… Não me desprezeis, Diana, porque senão, à fé de Valois!... cometo uma loucura!... E o mancebo, em cujo cérebro se debatiam as mais delicadas fantasias cavalheirescas com os grosseiros costumes das caçadas e dos quartéis, prostrou-se de novo aos pés da condessa. Esta, como que absorvida num pensamento mais alevantado, não reparava no mancebo, e deixava que este lhe apertasse a mão com apaixonado ardor. E contudo, murmurou a condessa, ao cabo de um breve silêncio, e contudo, seria todo o meu sonho ser a inspiradora de um jovem, valente, poderoso…, guiá-lo no caminho da glória…, fazer dele um grande príncipe, um herói… Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerá-la-ei como a salvadora da casa de França. Silêncio! erguei-vos!, respondeu a condessa, que viu que era tempo de pôr termo àquela cena. Vem aí algum dos meus criados. Com efeito, naquele momento batiam à porta do salão e uma aia, tendo pedido licença, entrou e inclinou-se, dizendo à condessa: senhora, o reverendo padre Lefèvre chegou agora para a conferência espiritual do costume. Que o reverendo padre tenha a bondade de passar ao oratório…, Monsenhor, perdoai-me se vos deixo; vou falar com o senhor de todos os tronos, vou confessar-me a um ministro de Deus. Sois uma santa!, exclamou o príncipe, depondo na bela mão da gentil dama um beijo apaixonado. A condessa deu-lhe em troca um sorriso cheio de amor e de tristeza; depois, tendo acompanhado o príncipe até à porta, como competia à hierarquia do seu real adorador, dirigiu-se para o oratório, onde a esperava o reverendo padre Lefèvre. Se Henrique a tivesse visto naquele momento, é provável que a sua paixão se convertesse em horror. A fisionomia daquela mulher brilhava de uma alegria tão malévola, nos seus lábios pairava um ar de desprezo tão profundo, que a beleza ideal da inconsolável viúva desaparecia, dando-lhe ao rosto uma expressão sinistra em que se reflectiam as mais tristes paixões. Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!

O reverendo padre Lefèvre
Ao passar da sala onde recebera o príncipe para o oratório onde a esperava o jesuíta, Diana lançara sobre os ombros uma capa, que cobria todas as cândidas belezas, cuja vista acendera tamanho foge de desejos no coração do príncipe Henrique. A sereia bem compreendia que os meios de influir sobre um mancebo inexperiente e inflamável deviam ser diferentes dos que precisava empregar para ser bem vista por um sombrio e austero frade. Por isso, quando entrou no oratório, Diana levava um vestido muito simples, e apresentou-se de fronte serena, com o olhar franco e tranquilo de quem não tem nada que se lhe lance em rosto. O padre Lefèvre pouco tinha mudado desde aquele dia em que o vimos entre os cavaleiros templários tomar o partido de Inácio de Loiola, e inscrever-se com os outros cinco companheiros na nova instituição, proclamada por Inácio sob o nome de Companhia de Jesus. Era sempre o mesmo tipo de montanhês, de elevada estatura, de porte austero, magro, de feições e formas angulosas. Conservava-se ordinariamente de olhos baixos, mas era fácil perceber, quando erguia o olhar, que a humildade monástica não tinha apagado neles o lampejo de orgulho. Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboreando uma expressão de severa majestade, que incutia respeito.
Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerimónia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido…, como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Em outra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua onisciência, que a condessa já de nada se espantava. Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalhe inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso… Viestes para vos confessardes?» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha…»

Cortesia de wikipedia

«(….) Nos olhos de Diana brilhou fulgurante e fulgás um lampejo de orgulho. Havia muitos dias que ela esperava ouvir aquelas palavras, que não eram uma promessa vã, pois que aquele que diante de Diana se expandia com ardor tão apaixonado era o segundo personagem do reino, era Henrique de França, filho e herdeiro presuntivo do rei Francisco I, e que depois reinou com o nome de Henrique II. O príncipe tinha então dezoito anos. Era um mancebo de altiva e nobre figura, muito mais desenvolvido do que a idade parecia permitir. Em lugar dos traços delicados e moles da juventude adolescente, havia nele o desenvolvimento de formas e a robustez de um homem de trinta anos. A caça e a guerra, os seus dois passatempos predilectos, tinham contribuído para dar àquele filho dos Valois a aparência rude e semi-selvática de um soldado aventureiro. Como seu pai, também Henrique era de uma estatura de gigante; mas, principalmente diante de uma mulher, o seu olhar era tímido e doce, e nos seus movimentos havia tal ou qual embaraço. Enfim, era o mais belo Hércules, que jamais se deixara prender nos laços de uma Ônfale moderna. Mas, por outro lado, que admirável domadora era aquela, que tinha feito curvar a cabeça deste leão!... Todos os poetas daquela época nos deixariam o retrato da deusa, que por tantos anos brilhou no céu da corte de França. Pintores, escultores, cinzeladores, como o Primaticcio, como Jean Goujon, como Benevenuto Cellini, idealizaram as formas admiráveis da bela sereia. Ela era realmente a grande cortesã, a mulher que podia desafiar o tempo, e receber, passados os cinquenta anos, as entusiásticas homenagens com que tinha sido saudada na sua primeira mocidade! Diana de Poitiers, condessa de Brezé, orçava então pelos trinta e cinco anos. Nenhum colorido de artista, a não ser o que saía dos pincéis mágicos do Ticiano, poderia reproduzir a cor de pérola daquela carnação, onde todavia ondeavam os reflexos dourados de um sangue quente e vivo. Tinha os cabelos castanhos escuros, tão finos e macios, que comparada com eles a seda pareceria áspera lã. Os olhos negros, grandes, aveludados, profundos, ora pareciam perdidos numa espécie de êxtase, ora relampagueavam clarões de voluptuosidade, capazes de entregar nos braços de Satanás o mais austero anacoreta da ordem de S. Francisco. A condessa trazia um vestido muito simples, todo preto, de luto. Um decote em quadrado sobre o peito deixava entrever a brancura deslumbrante do colo e do seio, que arfava. Das mangas curtas, segundo a moda da época, saíam dois braços admiráveis, que pareceriam de mármore, se não fosse o azulado das veias, que se desenhavam sob aquela finíssima pele. Nenhuma jóia nos braços, nem no colo. Na mão direita só um anel, um só, o anel nupcial do defunto senhor de Brezé. Monsenhor!, disse a condessa, depois de uma pausa habilmente calculada, o que acabais de prometer-me bastaria para tornar feliz a maior princesa do mundo, quanto mais uma pobre viúva como eu. Diana!... Deixai-me continuar. Hoje sois príncipe, monsenhor; hoje não dependeis senão de el-rei, vosso pai; amanhã sereis o senhor absoluto. Mas tereis de ouvir os conselhos da política, que vos dirá que o chefe de um grande povo não pode aparentar-se senão com famílias de soberanos. Nasci bastante próxima do trono, monsenhor, para compreender quanto é perigoso para alguém, mesmo sem o querer, aproximar-se da coroa. As jóias dela queimam a mão profana que as toca. Se o rei Francisco nosso senhor tivesse ouvido as imprudentes palavras, que há pouco pronunciastes, a prisão ou exílio seriam o meu destino. O rosto de Henrique coloriu-se e os olhos injectaram-se-lhe de sangue.
Se tal ousasse!..., exclamou ele, levando a mão aos copos da espada. Diana deteve-o com um olhar. Vós resistiríeis, monsenhor!..., e eu teria o infinito remorso de ter indisposto um filho com seu próprio pai, de ter amargurado a vida de um rei, que foi tão bondoso para com a pobre Diana de Saint-Vallier e que concedeu às súplicas da filha o perdão de seu pai... E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha, e desde então para cá têm-se operado grandes mudanças na corte. Mas desejo que o saibais: meu pai, o conde de Saint-Vallier, implicado na fuga do condestável de Bourbon, foi condenado à morte. O rei estava tão indignado contra os cúmplices e protectores de Bourbon, que ousaram pegar em armas contra o seu rei, que só alguns amigos é que ousaram implorar o perdão de meu pai; mas tudo foi inútil, a condenação era irrevogável. Tive então uma ideia, que decerto me foi inspirada por Deus. Penetrei no Louvre, e na ocasião em que o rei ia passar, lancei-me aos pés dele. Vós!, exclamou o delfim com indizível expressão de ciúme, bem justificada para quem conhecia a galanteria do rei cavaleiro. E ele..., recebeu-vos… Como se recebe uma filha, que implora o perdão para seu pai, respondeu Diana com tal acento de nobreza misturada de melancolia, que era do mesmo passo a censura e a destruição das suspeitas de Henrique. Fez-me erguer e interrogou-me com afabilidade; e como o terror, o respeito, a comoção me tinham alquebrado as forças, recomendou-me benignamente a sua mãe, Luísa de Sabóia, e, um momento depois, meu pai livre dos seus ferros, tornava a abraçar sua filha… E depois disso não tornastes a ter outras conversações…, com o rei meu pai?... Não, monsenhor; disse Diana com altiva dignidade, poucas semanas depois desposava eu o conde de Brezé, grande senescal da Normandia. Conservei sempre sem mácula o meu nome de esposa…, como hei-de conservar o de viúva…» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Diana soube quem foi que dissera aquelas palavras e não se deu por ofendida; mas naquele coração, que era friamente vingativo e cruel»

Cortesia de wikipedia

«(….) Inácio sentiu um calafrio penetrá-lo até à medula dos ossos mas o rosto não manifestou senão um profundo desprezo. Um momento depois, pela escarpada encosta de Mont-Serrat caminhavam os sete homens que, conduzidos pelo génio de Inácio Loiola, viam constituir a famosa Companhia de Jesus, cujos actos e tenebrosas tiranias haviam de causar o assombro e o terror do mundo.

A confissão de Diana
O palácio de Brezé, um dos mais antigos edifícios feudais da parte mais velha de Paris, perdera havia já muito tempo o esplendor das festas e alegrias, que por um momento o haviam animado. Quando João Brezé, grande senescal da Normandia, oferecera a mão de esposo à filha do conde Saint-Vallier, no palácio ressoara o bulício e a animação das antigas festas; naquelas sala desertas ressurgira uma nova vida, acordando os ecos adormecido dos festins, por influência duma mulher nova, bela e sociável. Uma tradição, de que adiante falaremos, circundava a formosíssima Diana de uma espécie de auréola de grandeza, que tornava mais brilhantes as festas e as reuniões em que Diana era a rainha. Os senhores mais grados da corte reuniam-se nas salas do grande senescal, e se Brezé fosse ciumento, defeito que por fortuna dele não tinha, decerto teria pensado seriamente nas homenagens que a flor dos cavaleiros franceses tributava à sua jovem esposa. É certo também que Diana, aceitando aquela corte e comprazendo-se com aquele tributo de admiração, não dava à maledicência o mais pequeno motivo para falarem dela. Pelo contrário, mostrava ter pelo marido um afecto tanto mais para admirar e louvai quanto os cabelos grisalhos do senescal eram mais próprios para inspirar o respeito filial do que o amor das mulheres. A corte, de sua natureza maledicente, procurava explicar aquela virtude, que a ninguém parecia natural; e alguns dos cortesãos mais maledicentes do que os outros, diziam que, se a formosa Diana fazia tanto alarde do seu amor ao marido, era para vender mais cara a sua complacência para com outro.
Diana soube quem foi que dissera aquelas palavras e não se deu por ofendida; mas naquele coração, que era friamente vingativo e cruel, o nome do homem que a insultara ficou gravado em caracteres indeléveis, e Diana jurou a si mesma que, cedo ou tarde, o insolente havia de pagar-lhe a ofensa. João Brezé morreu pouco tempo depois de ter casado. A esposa mostrou a sua dor em públicas manifestações de luto, renunciou aos bailes, às festas e a tudo, e transformou o palácio numa espécie de convento, onde não tinham entrada senão pessoas sérias, graves e tementes a Deus. Daí a pouco, Paris inteira fazia os maiores elogios à gentil senhora, que aliava à piedade e à fé da viuvez a mais liberal beneficência. Sempre vestida de luto, Diana constituía um exemplo para as senhoras da corte, mais dispostas a enganar os maridos vivos do que a conservarem-se fiéis à memória dos mortos. No palácio, em que agora vamos encontrar Diana, reinava absoluto sossego. A gentil viúva não recebia senão raríssimas vezes e, na ocasião em que vamos entrar nas suas salas, estava ela conversando com um mancebo, que devia pertencer à mais alta classe social, a avaliar pelo respeito com que o tratava a altiva condessa. Ah! monsenhor, dizia ela, pois não reparais neste luto, que me cobre? Isto mostra que renunciei à vida e às suas pompas; com a minha idade quase que poderia ser vossa mãe… Ah! monsenhor, aos vossos pés curvam-se hoje todas as belezas de Paris; renunciai a despertar um pobre coração, que só deseja consagrar-se à sua salvação eterna. E Diana ergueu os olhos para o céu com uma expressão tão encantadora, que o mancebo a quem ela se dirigia sentiu-se ainda mais apaixonado. Mas vós não quereis compreender-me, Diana!, insistia o jovem com uma espécie de impaciência febril. Eu desejo o vosso amor, não para o ocultar ou envergonhar-me dele, mas para dele fazer a maior glória da minha vida! Concedei-me o vosso amor, Diana, e na corte de que hei de ser rei vós sereis a rainha!» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Os cavaleiros presentes ergueram a mão. Adeus, irmãos; disse Loiola, com uma voz a que não pôde, por mais que fizesse, tirar um certo tom de tristeza»

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«(….) Esta interrupção produziu um sussurro, o qual, graças à presença de Beaumanoir, não degenerou em tumulto. A maior parte de templários pôs-se do lado de Burlamacchi; alguns, poucos, mas decididos partidários, rodearam Inácio Loiola. Irmãos, bradou Francisco Burlamacchi, acabais de ou vir a proposta que vos foi feita: a escravidão da humanidade e nós convertidos em guardas desses escravos, e todos de joelhos diante de um chefe supremo, de um chefe misterioso, que do fundo de uma cela monacal, imporia as suas vontades. E é para isto que a Ordem há de levantar-se? E é para isso que nós havemos de vencer os potentados da terra? E foi para isto que destruímos nos nossos espíritos as superstições e a ignorância? Só nós, de toda a infinita multidão dos nossos irmãos espalhados pelo mundo, só nós é que fomos iniciados nos terceiros mistérios; só nós que conhecemos a verdade de tudo isso, que o mundo adora e teme; graças à ciência que adquirimos, graças às misteriosas tradições, confiados à guarda dos sete senhores, graças aos imensos tesouros que possuímos, somos os únicos d’entre os nossos irmãos, os únicos d’entre os mortais, que não estamos sujeitos a nenhuma lei, a não ser à da morte. E havemos de ter-nos assim elevado tanto, como miraculosa força, acima do comum dos homens, para afinal ficarmos reduzidos a obedecer como cadáveres ao sinal de um só de nós?... Um murmúrio de aprovação acolheu as animadas e quentes palavras do nobre Burlamacchi. Na verdade era intolerável a pretensão de Loiola!... Eia, pois; prosseguiu Burlamacchi, levantemo-nos, sim, mas para despedaçar os nossos grilhões, e os de todo o mundo! Temos em nossas mãos uma força incalculável; aproveitemo-la e façamos uso dela contra os tiranos de toda a espécie. Os povos nos darão por tal serviço bem melhor recompensa do que o sombrio silêncio e a tenebrosa humildade do túmulo! Nós constituiremos na Europa a grande, a verdadeira aristocracia, a do bem-fazer. Será d’entre nós que as cidades liberais e as nações ressuscitadas hão de eleger os seus regentes; nós reinaremos, não com as forças efémeras do embrutecimento e da ignorância, mas com as do reconhecimento e do afecto. Irmãos! Em nome da fé que depositaste em nós, elegendo-nos para este supremo cargo, convido-vos a rejeitar as propostas de Inácio Loiola, e a proclamar aqui, nesta nossa santa assembleia, que a ordem do Templo se transforma na sociedade secreta dos Pedreiros Livres!
Viva a Maçonaria!, gritou o príncipe de Conde, saudando com este nome francês, tradução da denominação proposta por Burlamacchi, a origem de uma sociedade, que depois havia de ter tanta influência sobre os destinos do mundo. Quase todos os presentes repetiram o grito de Conde e saudaram e aclamaram Burlamacchi. Beaumanoir usou então da palavra. Não nos esqueçamos, irmãos, de que neste concilio todos somos livres. Ninguém é obrigado a aceitar qualquer mudança, que não seja aprovada pelo seu pensar e pela sua consciência. Que respondes a isto, irmão Inácio Loiola? Respondo, disse com altivez o peregrino, que estas cisões não me dizem respeito. Fui irmão da ordem do Templo, observei fielmente os seus estatutos: agora, que o Templo acabe retiro-me da instituição que lhe sucede, e em face da Maçonaria, que acabais de proclamar, declaro instituída a Companhia de Jesus! Este nome, que mais tarde devia tornar-se tão terrível, repercutiu sonoramente sob aquelas abóbadas; tão forte e solene fora voz com que Loiola o pronunciara! Ninguém, disse Beaumanoir, ninguém quer acompanhar o nosso irmão no caminho a que ele quer aventurar-se sozinho? Seis cavaleiros se levantaram, e foram colocar-se ao lado de Inácio Loiola, que os olhou com um ar triunfante. Somos sete!, disse ele com um ar inspirado. Pois bem, convosco, primeiros irmãos, que acreditastes em mim, reparto eu o império do mundo. Somos bastantes para vencer, e teríamos a certeza da vitória, se não tivéssemos de lutar contra os nossos antigos companheiros. Irmãos, o beijo de paz! Entretanto, a voz de Beaumanoir pronunciava friamente os nomes dos que se tinham declarado prontos a aceitar a proposta i Loiola. Pedro Lefèvre, de Villaret, na Sabóia. Francisco Saverio, cavaleiro de Navarra. Jacopo Laynez, de Almazar. Afonso Salmeron, de Toledo. Nicolau Afonso, de Bobadila. Simão Rodrigues, de Avedo.
Na medida que iam sendo pronunciados os nomes daqueles poucos, Inácio ia-os inscrevendo num pequenino livro, que tinha na mão. E agora, disse Beaumanoir, agora, que os dissidentes nos abandonaram, repitamos, irmãos, o juramento de há pouco, e declaremos que a ordem do Templo se transformou na associação dos Pedreiros Livres. Os cavaleiros presentes ergueram a mão. Adeus, irmãos; disse Loiola, com uma voz a que não pôde, por mais que fizesse, tirar um certo tom de tristeza, por muito tempo estivemos unidos e concordes e agora estamos divididos em dois campos, que pugnarão com ferocidade sem par um contra o outro. Pois bem! eu ainda tenho esperança, e peço a Deus que reconheçais finalmente o vosso erro e vos acolhais todos sob a nossa bandeira, sob a bandeira de Jesus. Terás que esperar!, resmungou Burlamacchi, o mais indignado, ao que se via, pela traição de Loiola. Inácio dispunha-se para partir com os seus companheiros, quando o presidente lhe fez sinal para que esperasse. Monge, disse ele, deixaste de pertencer ao Templo, mas os juramentos que prestaste à nossa Ordem têm sempre vigor. Ai de ti, se o segredo que juraste guardar fosse violado. Inácio voltou-se cheio de desdém, estremecendo como um cavalo, ao qual o chicote fustiga. Beaumanoir, murmurou ele num tom de voz que a raiva fazia tremer, em má hora me lembraste, a mim, que não pensava em violá-los, os juramentos que prestei à Ordem. Esqueceste talvez de que para nós, filiados nos terceiros mistérios, para nós, que somos os Sete Senhores, não existe lei moral nem positiva? Esqueceste de que a nossa elevação ao supremo grau nos libertou de todos os deveres? Pois então, disse ameaçadoramente o ancião, lembra-te de que, se o juramento te não fizer calar, nós te faremos calar doutra maneira. Temos irmãos por toda a parte, Loiola, e a ponta dos punhais do Templo ainda se não embotou». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «… se consentirdes em transformar a nossa Ordem no sentido que vos peço, dentro de vinte anos, não é preciso mais, nós seremos os senhores do mundo! E teus escravos, não é assim?»

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A assembleia dos templários
«(…) Pois bem, prosseguiu o peregrino, fazendo um grande forço, foi aí que me apareceram os anjos do Senhor e que ensinaram a maneira de guiar os homens e de os conduzir à fé obediência, ao caminho do céu. Os preceitos que eles me ensinaram, meus irmãos, escrevi-os, e tenho-os aqui, e Loiola mostrou folhas que tinha ao lado. Com estes Exercícios espirituais, escrevi enquanto os anjos mos ditavam, encontrei o modo de reduzir à submissão as almas mais rebeldes, e de fazer com que elas sejam nas mãos do seu director espiritual como um cadáver nas mãos do cirurgião. Estas palavras resumiam em si a terrível doutrina da Companhia de Jesus, que Inácio de Loiola devia fundar. Perinde ac cadáver, como um cadáver, tal é a forma de obediência imposta aos jesuítas. A atenção geral, que despertara a narrativa de Loiola, fizera com que todos se calassem; contudo, Francisco Burlamacchi, que havia já um pedaço se agitava com impaciência, levantou-se para interromper a piedosa narrativa de Inácio. Irmão, disse ele, essas tuas visões serão talvez enviadas pelo céu, tanto mais que muitas vezes tem permitido que anjos do inferno venham tentar os homens, especialmente os que mais presumem da própria santidade; mas eu só te peço que me diga que conclusões te inspirou essa tua devota solidão, com a qual há tanto tempo estás entretendo a ordem dos Templários. A palavra audaz e franca do jovem italiano parece que quebrou o encanto que fazia com que todos os presentes estivessem suspensos dos lábios de Loiola. Muitos dos que assistiam à reunião repetiram as palavras de Burlamacchi, observando que a ordem do Templo não fora convocada com tanta solenidade para ouvir os devaneios de um visionário. Inácio dirigiu a Burlamacchi um olhar carregado de indignação. Aquele homem, que dizia ter-se despojado, mediante o ascetismo, de todas as fraquezas humanas, conservava ainda duas paixões invencíveis, e que não são decerto o apanágio das almas fortes, a vaidade e o espírito de vingança.
Depressa chego à conclusão, irmãos, disse Loiola, depois de um curto silêncio. Sim; eu vim aqui com um propósito formado; é verdade que também eu desejo a transformação da nossa ordem, mas num sentido muito diverso do que propõe o nosso querido irmão Beaumanoir! Também eu, meus irmãos, tenho notado o tumulto de ideias e o espírito de rebelião, que agitam a Europa, e especialmente a Alemanha e a Itália, e vim aqui precisamente para vos dizer: Este espírito de rebelião devemos nós abatê-lo, em vez de o favorecer! A ordem dos Templários, exclamou Loiola, deve transformar-se, não na associação dos Pedreiros Livres, mas na Companhia de Jesus! Estas palavras produziram um tumulto espantoso. A maior parte dos cavaleiros, indignados com aquela proposta, vociferavam contra Inácio, levando a mão ao punho das espadas; outros, pelo contrário, e esses em menor número e quase todos espanhóis, sustentavam que se devia escutar o orador e discutir as suas propostas, porque nada continham por que assim devessem ser repelidas brutalmente. Parecia próximo o momento em que as duas facções viriam às mãos; mas naquele ponto ressoou sobranceira a todos os clamores a voz potente de Beaumanoir. Irmãos, bradou ele, Inácio de Loiola tem o direito de falar, como vós tendes o direito de combater as suas propostas. Silêncio!, e tu, Loiola, fala, com certeza de que ninguém se atreverá a interromper-te!...
O silêncio restabeleceu-se como por encanto, tal era a influência de veneração e respeito que sobre todos exercia o nome de Beaumanoir. Loiola vira desencadear-se e em seguida serenar o tumulto, se que nas suas faces pálidas e cor de terra se notasse a mais pequena alteração; apenas um pálido sorriso lhe errava nos delgados lábios. Dizia eu, pois, prosseguiu ele como se nada tivesse notado, dizia eu que considero como um dever opôrmo-nos ao desenvolvimento da heresia. Irmãos, qual é o fim da nossa Ordem, o restabelecimento do seu antigo poder, o seu domínio em todo o mundo. Ora, esse domínio será impossível, se quisermos exercê-lo entre os povos do norte, que se revoltam contra toda a autoridade. Se quisermos fundar um imenso poder oculto, devemos operar entre as nações católicas, e conservar nelas aquela fé invencível à que basta dizer: crê e obedece, para que desapareça toda a oposição. Unir-nos-emos em volta do sólido pontifício, como os pretorianos do antigo império, e defenderemos, alargaremos o poder do papa, que depois será o nosso poder, porque o chefe da Igreja ser sem dar por isso, o nosso prisioneiro. Ensinaremos aos povos que eles devem obedecer com submissão e medo aos seus soberanos, e prestaremos aos reis este apoio obrigando-os a governar segundo a vontade e os fins da nossa Companhia. Por meio dos colégios dominaremos a mocidade, por meio dos confessionários dominaremos as consciências; os penitentes, aterrados pelo rigor fanático dos Dominicanos e dos Franciscanos, acorrerão ao nosso tribunal de penitência, onde a moral será suave, perdão fácil, e o juiz indulgente. Irmãos, escutai-me: por este modo, se consentirdes em transformar a nossa Ordem no sentido que vos peço, dentro de vinte anos, não é preciso mais, nós seremos os senhores do mundo! E teus escravos, não é assim?, perguntou em tom desdenhoso Burlamacchi». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Paris, Madrid, Roma, queimavam os protestantes; Londres e Genebra perseguiam e destruíam os católicos»

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A assembleia dos templários
«(…) Tomada a cidade pelas forças superiores dos inimigos, fechei-me na cidadela da fortaleza, decidido a resistir até ao fim, e assim o fiz; mas quando de espada em punho defendia a brecha, fui ferido por uma pedrada numa perna. Caí sem sentidos, e quando os recuperei a fortaleza e eu tínhamos caído em poder dos franceses. Fui tratado com singular cortesia por aqueles guerreiros, acostumados a apreciar a valentia dos inimigos. Curei-me, e por ordem do senhor de Foix fui transportado para o meu palácio paterno, na Biscaia. Ali tive de permanecer longo tempo, porque o meu ferimento tinha sido tão mal curado, que foi necessário tornarem-me a desmanchar a perna para a arranjar de novo. Perdoai-me, meus irmãos, se vos roubo o tempo, falando-vos destes miseráveis tormentos que sofri, mas preciso dizer-vos tudo para vos poder explicar a maneira miraculosa por que se efetuou a mudança da minha alma. Eu tinha, como vós bem sabeis, todos os predicados para ser um cavaleiro belo e elegante. Imaginai por isso como eu ficaria quando soube que aquele ferimento me condenava a ficar coxo para toda a vida!... Adeus esplendor do vestuário, pompas daí pedrarias, amor das damas!.. Adeus, volteios rápidos da dança e todas as alegrias que o prestígio da beleza proporciona aos homens! Podeis crer, meus irmãos, que nenhum suplício humano se poderia equiparar ao que eu sofri quando me falaram daquela desgraça, que agora considero como uma bênção do céu. Pareceu-me que a causa do mal era um osso da perna que se me tinha deslocado, e por isso quis que mo tirassem, e apesar das dores atrozes que isso me causou, consenti que os médicos mo serrassem. Pois vendo que apesar de tudo uma perna me ficara mais curta do que a outra, submeti-me a outro tormento ainda mais horrível: apliquei à perna mais curta um aparelho que a cada instante lhe imprimia um esticamento, que me causava dores atrozes. Os ossos estalavam, as dores faziam-me emperlar um suor frio à raiz dos cabelos, mas tudo foi inútil: fiquei coxo.
Durante a minha doença, quis o Senhor que me viesse o desejo de ler, e pedi que me trouxessem romances de cavalaria. A Providência determinou que em vez desses livros me viessem às mãos a Vida de Jesus Cristo e Fios Sanctorum. Li-os, ao princípio com repugnância, depois com prazer e afinal com entusiasmo. Quando a minha perna estava curada, bem outro era também o estado do meu espírito: eu já não era um galanteador vaidoso, um soldado sanguinário. Era um cristão. Aquela narrativa, que hoje em dia enfastiaria soberanamente qualquer auditório, por menos ilustrado que fosse, era, pelo contrário, escutada por aquela assembleia com uma atenção sincera e quase febril. Com efeito, naquele tempo ninguém olhava com indiferença as coisas da religião. O grande movimento, que se produzira na Alemanha, suprimira os indiferentes e dividira-os todos em duas classes bem distintas: uma, que era constituída pelos que respeitavam e obedeciam à Igreja romana, confessando-se seus campeões; outra, que era formada pelos que se apresentavam para abalar as bases do edifício do pontificado, fazendo ruir com ele todas as velhas instituições que tinham o apoio e consagração da Igreja.
Ser indiferente naqueles tempos aos assuntos religiosos seria tão impossível como nos ditosos dias de 1848 conservar-se estranho aos movimentos políticos. Era preciso tomar-se parte naqueles ou nestes; ser por Lutero ou por Clemente, pela autoridade eclesiástica, ou pela liberdade do pensamento. De uma e outra parte, a fé estava de tal modo sobre-excitada, que nenhuma força humana poderia impedir que as discussões fossem tempestuosas, violentas e irreprimíveis. Como acontecera nos primeiros tempos do Cristianismo, o apostolado fazia-se à custa do martírio. Paris, Madrid, Roma, queimavam os protestantes; Londres e Genebra perseguiam e destruíam os católicos. E por isso aquela narrativa ascética de Loiola correspondia tão exactamente às preocupações da ocasião, às agonias daquelas mudanças constantes, que todos seguiam a manifestação daquele sentimento religioso com o mesmo interesse que hoje despertaria o mais comovente drama de ambições ou de amor. Continua! Continua!, gritaram de todos os lados. Inácio de Loiola sentia que todos os olhares o fitavam com viva atenção; e a única paixão que o dominava, a de se impôr aos outros, quer fosse pela admiração quer pelo medo, achava-se assim completamente satisfeita nele. Aquele convertido não tinha mudado nada quanto ao fundo do coração. Era sempre o arcanjo fulminado, que levantava orgulhosamente a fronte para o céu, vencido mas não abatido pelo raio de Deus: a sua ambição, assim tão duramente desviada dos esplendores mundanos, tinha mudado de direcção, mas nem por isso tinha diminuído.
Quando eu senti que a graça divina despertava em mim os sentimentos adormecidos, prosseguiu com voz mais segura o peregrino, voltei-me para a Virgem, e diante do altar dela fiz voto de castidade. Depois resolvi fazer a vigília de armas, que tem de fazer todo o cavaleiro, antes que possa cingir o sagrado cinto da ordem. Uma noite inteira passei diante do altar, orando, chorando, consagrando-me todo à milícia de Cristo. No dia seguinte pendurei a minha espada num pilar da igreja, dei a um pobre os meus trajes de cavaleiro, cingi o corpo com uma corda, vesti-me de burel, e dirigi-me a pé para Manresa. Que mais vos direi, meus irmãos? Amparado por uma fé sobre-humana, castiguei o corpo com mil penas e tormentos; infligi-me as mais cruéis privações, sem que nada pudesse alterar a minha saúde de ferro. Cingi os rins de cilícios; dormi na terra fria, mendiguei de porta em porta, e julgava-me feliz quando recebia mau tratos ou injúrias, que vinham aumentar o valor da minha expiação. Finalmente, a seiscentos passos de Manresa encontrei uma gruta oculta a todos os olhares. Foi essa que eu escolhi para minha habitação; aí recebi os tormentos e as privações como um favor do céu; aí experimentei as doçuras do êxtase divino e o langor da morte aparente. Enfim, meus irmãos, foi aí que... Neste ponto Inácio fez uma pausa, como quem se assustava que ia dizer. Fala, fala!, gritaram de todos os lados». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «… somos os pedreiros da humanidade. Temos, pois, deliberado chamar-nos Pedreiros Livres. Apoiado!, gritou quase unânime a assembleia, na qual a voz do príncipe de conde»

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A assembleia dos templários
«(…) Sem dúvida, respondeu com certa altivez o presidente, e parece-me que todos os poderão aceitar, desde que não tem dúvida em o fazer o senhor de Beaumanoir, que é tão nobre como o rei de França! Oh!, não foi como censura ou queixa que eu disse isto, apressou-se a declarar o holandês. O que eu queria fazer sentir era que o nome da nossa antiga ordem, o sagrado nome do Templo, soaria mal aos ouvidos de um povo, que nos esqueceu, ou que só se lembra de nós pelas vis calúnias que os inimigos do Templo espalham contra nós. Por isso, entendo que na nova organização do Templo é necessário que mudemos de nome. Irmão, disse afectuosamente o senhor de Beaumanoir, o que propões já foi pensado pelos Sete Senhores, que acharam que isso era razoável e sensato. O antigo Templo desmoronou-se; mas nós trabalharemos para edificar outro, e sem dúvida o havemos de conseguir. A obra, que empreendemos, é uma obra de reedificação; somos os pedreiros da humanidade. Temos, pois, deliberado chamar-nos Pedreiros Livres. Apoiado!, gritou quase unânime a assembleia, na qual a voz do príncipe de conde ressoava não menos entusiástica do que a dos outros filiados. Então, disse Beaumanoir, erguendo-se, a assembleia aprova as deliberações dos Sete Senhores? Então sois unânimes em aprovar esta transformação, que deve por a nossa ordem a par dos maiores potentados da terra? Sim! Sim, gritaram muitíssimas vozes. Mas uma voz potente dominou aquele tumulto e proferiu estas palavras: oponho-me eu! Quem?, perguntaram ameaçadoramente alguns associados, mais excitados do que os outros. Eu, trovejou o peregrino, levantando-se majestoso impotente, apesar da miséria dos seus andrajos. Eu, um dos Sete Senhores! Eu, Inácio de Loiola! Um longo frémito de surpresa percorreu toda aquela multidão. Oito ou dez fidalgos, quase todos espanhóis, aproximaram-se de Loiola, prontos a defenderem-no fazendo dos seus corpos um escudo, se as disposições hostis da assembleia aumentassem. Mas Beaumanoir com um gesto restabeleceu o silêncio na sala. Depois, voltando-se para Inácio de Loiola, perguntou com brandura: irmão, então tu és partidário da consagração do estado actual? E és precisamente tu, o mais audaz e empreendedor de todos nós, aqueles que nós teríamos escolhido para chefe supremo se os nossos estatutos nos consentissem ter um chefe…, és tu precisamente que te opões aos nossos planos de reforma e sustenta as antigas ordens? Pelo contrário, disse Inácio de Loiola, eu desejo uma transformação muito mais vasta e completa do que a vossa; mas quero que ela se faça com outra inteligência, e segundo um plano já preparado e escrito por mim. E porque é que, segundo os nossos usos, não falaste dessas tuas intenções no Conselho dos Sete Senhores? Ter-te-íamos escutado com afecto de irmãos, e teríamos procurado satisfazer os teus justos desejos. Tinha a certeza de que havíeis de fazer-me oposição, e por isso resolvi dirigir-me directamente à assembleia. Estou no meu direito; pelo nosso estatuto os Sete Senhores são todos iguais entre si, e a preeminência concedida ao mais velho é de honra, mas não de autoridade.
Fala, então, disse Beaumanoir. Conhecemos os teus direitos e respeitá-lo-emos; mas lembra-te também dos teus deveres, Inácio de Loiola, porque senão… O peregrino respondeu com um gesto altivo àquelas ameaçadoras palavras. Fez-se um grande silêncio na assembleia; os espanhóis amigos de Loiola chegaram-se ainda mais para os Senhores para ouvirem e defenderem o seu amigo. Inácio de Loiola tirou de sob o hábito algumas cartas manuscritas, pôs-se em pé e começou: Irmãos! Bem sabeis qual a razão que me obrigou a abandonar o capítulo do Templo. Meu primo, António Manriquez, duque de Najare e grande de Espanha, tinha-me chamado para ir servir sob a sua bandeira. Os meus sete irmãos já me tinham precedido na carreira das armas, e eu, tinha completado os meus vinte anos, considerar-me-ia vil e desonrado se hesitasse um momento; por isso, corri a alistar-me no número dos defensores de Pamplona. Segundo as condições do tratado de Noyon, aquela fortaleza devia ser restituída à França; mas o nosso glorioso rei Carlos V, por ofensas que tinha recebido do rei de França, resolveu puni-lo conservando aquela praça. Foi-me confiado o comando da praça, quando em 1521 André Foix a atacou à frente das tropas francesas». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «O presidente terminara a leitura. Os senhores que o rodeavam, e que, à excepção de Loiola, tinham tomado parte na redacção daquele programa, conservavam-se impassíveis»

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A assembleia dos templários
«(…) O incêndio lavra por toda a parte. A Suíça, a Inglaterra, a França, a Itália, escutam com avidez os apóstolos das novas ideias. O poder pontifício está por toda a parte cercado de homens que, às ocultas o minam, o atacam, e que hão de com certeza destruí-lo. Irmãos, nós, que somos os Senhores do Templo; nós, que temos amigos e partidários por toda a parte; nós, que possuímos os tesouros arrancados pelos nossos antepassados à cúbica de Filipe o Belo e multiplicados até o infinito no decurso de séculos, unamo-nos todos, e, auxiliando a grande obra de Martim Lutero, destruamos a Igreja e das suas ruínas façamos ressurgir a ordem dos Templários! Apoiado!... Apoiado!, gritaram de todos os lados. Um dos irmãos levantou-se: tens tu, disse ele, tens tu, venerável príncipe, um plano pronto para a execução da empresa? Tenho um plano, não meu, mas estudado e pensado conjuntamente com os meus colegas, respondeu o presidente. Não esqueçais, irmãos, que depois da desgraça de Jacques Molay, a nossa ordem não admitiu mais nenhum mestre; delegou todos os poderes no conselho dos sete Senhores, o mais velho dos quais será o presidente, e, pelo triste privilégio da idade, é a mim que presentemente cabe esse lugar. Mas eu e os meus companheiros de grau, excepto o irmão Inácio de Loiola, que estava ausente, tínhamos combinado alguns capítulos, que vos vão ser lidos. O ancião tirou do seio algumas folhas de pergaminho: fez-se um profundo silêncio, pois que todos os Templários tinham a mais profunda veneração pelo senhor de Beaumanoir, e além disso tinham jurado a obediência mais absoluta ao conselho dos sete senhores.
Beaumanoir leu: a assembleia constituída por cavaleiros, padres, vassalos, plebeus e escravos, para libertar a humanidade das cadeias dos padres e dos soberanos, compõe-se de três classes. A primeira classe compreende os que se associam a esta obra com pureza de coração, e têm intenção de se instruir nos mistérios da ordem. Estes deverão durante três anos estudar os meios de se realizar o fim externo da associação, e dividir-se-á em dois ramos, aprendizes e mestres. A segunda classe compreenderá os irmãos que do estado de ensino tiverem chegado ao estado de operar. Estes terão a seu cargo executar no mundo dos profanos o que tiver sido deliberado ou resolvido pelo supremo conselho; terão sob as suas ordens os aprendizes e mestres, e serão iniciados nos segundos mistérios da ordem, que dizem ao fim político e às reformas a obter. A terceira classe, finalmente, compor-se-á de um número limitadíssimo de pessoas, que serão iniciadas nos terceiros mistérios. Estes iniciados supremos conhecerão as forças da ordem o seu fim principal, os tesouros de que pode dispôr; serão de: ligados de todos os laços, excepto dos que dizem respeito à ordem e, conjuntamente com o Grão Mestre, governarão a terceira classe de associados. Nenhum poderá ser promovido à classe superior sem ter completado pelo menos três anos na classe inferior. O Grão-Mestre será eleito entre os dignitários da classe suprema. A ordem, aliada a todos os apóstolos da razão, sustentar uma luta de morte contra a Igreja e os tiranos, e não considerar cumprido o seu fim senão quando a liberdade do homem e de consciência forem absolutamente reconhecidas.
O presidente terminara a leitura. Os senhores que o rodeavam, e que, à excepção de Loiola, tinham tomado parte na redacção daquele programa, conservavam-se impassíveis. Não acontecia o mesmo com os outros associados, que, salvo raras excepções, mostravam verdadeiro entusiasmo. Na verdade, aquelas normas claras, simples, com um fim determinado, eram já de per si um poderoso meio de propaganda. A divisão em classes permitia utilizar as faculdades de cada um, segundo os melhores interesses da ordem; ao passo que a possibilidade de passagem de um grau para outro abria um vasto horizonte à mais nobres das ambições, e destruía a disposição aristocrática, tão prejudicial a qualquer corporação instituída para governar os homens. Todavia, houve um dos irmãos que se levantou: era este um nobre holandês, que vinha procurar, no meio dos Templários aliados para o seu país, que se preparava para se insurgir contra a Espanha. Devemos então procurar por toda a parte filiados para a nossa ordem?, disse ele. Devemos abrir as fileiras da nossa instituição, até agora tão zelosamente recusadas, a todos aqueles que nos parecerem aptos para nos auxiliarem na empresa?» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Sim, irmãos, prosseguiu o ancião com irresistível autoridade, as duas potências, que oprimiam a nossa ordem, o papado e a monarquia, estão em vésperas da sua queda»

Cortesia de wikipedia

A assembleia dos templários
«(…) O nomeador, espécie de secretário que tinha os registos, principiou a chamada: barão de Beaumanoir! Presente!..., respondeu o ancião, que presidia à assembleia, erguendo-se. O nome de Beaumanoir, ilustre entre todos na história dos Templários e na da França, era altiva e nobremente usado pelo célebre guerreiro, cuja reputação era imensa nos exércitos franceses. Percy de Sussex!..., prosseguiu o nomeador. O conde britânico levantou-se, e todos admiraram a sua estatura gigantesca e a altivez da sua fisionomia leal. Pedro Calderon!... Francisco Burlamacchi! Ulrico Zuinglio! Guarniero de Hatzing! Todos respondiam à chamada, à medida que iam sendo pronunciados os nomes. Aqueles representantes das diversas nações da Europa apresentavam nas fisionomias a diferença que havia nas suas origens. Assim, a barba farta e áspera de Calderon, o seu rosto anguloso e ossudo, contrastavam com o rosto quase infantil e cheio de indizível doçura de Francisco Burlamacchi; e Zuinglio, o reformador suíço, que mais tarde devia sucumbir na batalha contra os católicos, homem de aspecto severo, pálido, de poucas palavras estava em absoluta oposição com o barão de Hatzing, cujas face rosadas e cabelos louros davam imediatamente a conhecer um saxão, ainda ao observador menos perspicaz. Inácio de Loiola!..., chamou, por último, o nomeador. Presente!, respondeu com voz solene o peregrino, que fora o último a chegar.
Os seis chefes voltaram então o olhar para o lado daquele seu companheiro, e parece que só então repararam que ele era o único que se apresentava com as vestes andrajosas no meio daquela fúlgida reunião, em que todos estavam com as suas brilhantes armaduras. Irmão, disse Beaumanoir, com acento de afectuosa deferência, irmão, o teu disfarce, agora que estás connosco, já de nada serve. Desde o dia em que nos deixaste, faz agora três anos, que nós conservamos com reverente afecto a esplêndida armadura, que para ti foi cinzelada pelo melhor artista de Toledo. Irmãos escudeiros, trazei a armadura, e vesti-a ao senhor de Loiola. Dois dos irmãos levantaram-se e iam a encaminhar-se para uma das portas da sala, quando Inácio os deteve com um gesto, dizendo: é inútil. Estes andrajos, que trago vestidos, já não são indícios de pobreza; mas um voto, que fiz, me obriga a trazê-los. Apesar disso, irmão Loiola… Apesar disso, irmão Beaumanoir, os estatutos da nossa ordem conferem a qualquer irmão o direito de se vincular por qualquer voto, contanto que este não seja contrário ao fim supremo da associação. O tom em que Loiola pronunciara aquelas palavras era tal que não se podia insistir, a menos que não se quisesse entrar em questão com o estranho Templário; por isso, Beaumanoir fez um sinal e o nomeador continuou a chamada.
Debaixo daquelas abóbodas ressoaram então os nomes mais ilustres da Europa, já pela nobreza de sangue, já pelo alto valor nas artes, nas ciências, nas armas e no governo. Estava ali um senado capaz de reger o mundo inteiro sem custo algum! Um senado do qual um dos chefes era Inácio de Loiola, o génio mais potente de organização, que aparecera no mundo antes de Bonaparte. Terminada aquela operação preliminar da chamada, Beaumanoir levantou-se outra vez. Irmãos, disse ele, mais de duzentas vezes nos temos aqui encontrado juntos, nesta reunião anual, desde que os dois malditos, o papa Clemente Sexto e o rei Filipe o Belo, dispersaram os nossos irmãos e tentaram destruir a nossa ordem. Eu, pela minha parte, já umas quarenta vezes tomei lugar nestas reuniões, porque há quarenta anos que pertenço a esta associação, para a qual entrei por morte de meu pai. Todos os que tomavam parte no conselho, no dia em que recebi a medalha de simples cavaleiro, já hoje são mortos; só eu ainda vivo, e sou o mais velho desta assembleia, da qual então era o mais novo.
Senhores, todos vós sois valorosos e fortes; mas aqueles que ao meu lado se sentaram no banco dos chefes, aqueles que partilharam comigo as esperanças e as agonias de quarenta ano: de luta, eram igualmente valorosos e grandes, e o trabalho dele: não foi infrutífero para a nossa ordem. Havia entre eles muito ilustres! E o ancião deixou descair a cabeça para o peito, oprimido por uma recordação dolorosa. Bem depressa, porém, a ergueu, percorrendo com um olhar cintilante de vigor e energia toda a assembleia. Irmãos!, disse Beaumanoir com uma voz potente que se repercutiu por sob as abóbadas do antigo mosteiro, irmãos! Se os prognósticos não mentem, se as promessas dos antigos e os preceitos da experiência não são vãs, está próximo o grande dia da vitória. Irmãos, a ordem do Templo vai ressurgir. Um murmúrio de alegria percorreu toda a assembleia: só Inácio de Loiola é que desfranziu os lábios num sorriso duma expressão indubitavelmente sarcástica; mas aquela nota discordante passou despercebida em meio do entusiasmo geral.
Sim, irmãos, prosseguiu o ancião com irresistível autoridade, as duas potências, que oprimiam a nossa ordem, o papado e a monarquia, estão em vésperas da sua queda. Desta vez a luz veio do Norte: enquanto a Espanha indómita e a sapiente Itália jaziam na opressão, um tedesco ergueu a voz, e a Igreja de Roma e o trono dos reis estremeceram nos seus alicerces... Irmãos, posso assegurar-vos a queda dos ímpios está próxima; o reinado dos eleitos de Deus aproxima-se!... E tens disso indícios certos?, perguntou altivamente um dos assistentes. Indícios certíssimos, príncipe de conde; e tu bem o sabes, tu, que no íntimo da tua alma saúdas a nova religião, e que já te terias declarado francamente luterano, se não to impedisse o receio que tens de perder a tua posição de príncipe e os teus imensos bens. Conde corou, e o presidente continuou assim: a Alemanha está em chamas; o corajoso Lutero ensinou aos povos o desprezo por todas as autoridades injustas, quer elas tenham na cabeça uma mitra, quer um elmo». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «O núcleo das nossas forças revigorou-se! Entretanto, um dos sete, o que estava no meio e que parecia por essa razão ter a presidência, levantou-se. Viu-se então um homem de nobre e majestosa estatura»

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O peregrino
«(…) Em volta da ampla sala, e ao longo das paredes, estavam sentados uns cinquenta frades. Na frente daquele semicírculo elevava-se um estrado, onde estavam marcados os lugares correspondentes a sete cadeiras. Seis delas estavam ocupadas, sétima estava devoluta. Ao entrarem na sala o peregrino e o seu guia, todos se voltaram para a porta. Grande foi o espanto de todos ao verem que o desconhecido em vez de esperar humildemente à porta que lhe fosse concedido o ingresso, dirigiu-se directamente, e sem a mínima hesitação, para a bancada dos senhores, evidentemente destinada para os chefes da reunião. Fora!..., fora!..., gritavam de muitos lados. Alguns daqueles mascarados levantaram-se e chegaram a levar a mão ao copo das espadas, que se desenhavam rigidamente sob as túnicas negras; mas o peregrino, impávido como se todos aqueles protestos não fossem com ele, prosseguia no seu caminho, chegou ao estrado onde estavam sentados os chefes. Estes ergueram-se, movidos por um impulso unânime, como para embargarem o passo ao recém-vindo. O peregrino parou; tirou do peito uma medalha e mostrou-a os seis. Um grito de espanto e alegria saiu daqueles seis peitos; depois com demonstrações inequívocas de respeito e afeição, conduziram o peregrino ao sétimo lugar, que estava vago. A personagem ocupou modestamente aquele lugar preeminente, como pessoa acostumada às honras, e não pareceu comovido pelo triunfo, como não se mostrara impressionado pelas ameaças com que o tinham recebido. Pela multidão corriam vozes de surpresa e espanto. O sétimo chefe! Aquele que nós julgávamos morto! O mais audaz, o mais forte de todos! Agora os templários caminharão avante! O núcleo das nossas forças revigorou-se! Entretanto, um dos sete, o que estava no meio e que parecia por essa razão ter a presidência, levantou-se. Viu-se então um homem de nobre e majestosa estatura: uma comprida barba branca escapava-se-lhe por baixo do capuz, que o presidente levantara um pouco para falar. Irmãos, disse ele, as portas estão bem guardadas?... Um anjo do extermínio vela a cada uma delas?... Sim, responderam das quatro portas da sala quatro homens, que, de espada na mão, guardavam as entradas. Somos nós todos irmãos?... Há entre nós algum desconhecido, algum de quem o sagrado nomeador não saiba o nome? Poderemos nós ter receio de sermos traídos?... Um dos frades levantou-se e caminhou até meio da sala. A todos conheço e afianço, disse ele, excepto ao desconhecido, que está sentado ao teu lado. O velho ergueu a mão, como para dizer que sabia do que tratava, e prosseguiu assim: se entre nós há algum tímido ou medroso; se há aqui alguém, que não tenha a coragem de assistir aos terríveis mistérios da nossa ordem, esse que jure guardar silêncio e que retire. Mais tarde não lhe seria isso permitido, e a cobardia e a traição seriam punidas com a morte. Ninguém se moveu. Todos os indivíduos ali reunidos eram homens de rija têmpera e de fé inquebrantável, que já cem vezes tinham ouvido aquela advertência, sem que lhes estremecesse os corações de bronze. Agora, que estamos aqui todos experimentados e invencíveis na nossa fé, concluiu ele, é tempo de descobrirmos os rostos e do nos vermos abertamente. Senhores, está aberta a sessão dos Cavaleiros Templários!

A assembleia dos templários
A um sinal do ancião os capuzes e as túnicas desapareceram como por encanto. Viram-se então naquela sala homens de várias idades, de fisionomias diversas, mas todos uniformemente cobertos de reluzente aço. Vestiam todos a armadura completa dos cavaleiros da Idade Média, tendo sôbre-vestida uma túnica. Na couraça de cada um brilhava a cruz de ouro, distintivo da ordem do Templo. Eram aqueles, com efeito, os únicos da poderosa associação, que fizera tremer a Europa, e que, na opinião do vulgo, fora destruída havia dois séculos. O que era, porém, verdade era que, com aquela força invencível, que provém do segredo e das riquezas, os Templários se tinham perpetuado obscuramente através dos séculos, vencendo perigos inauditos, conservando e guardando o segredo no meio dos tormentos, com os olhos sempre postos num futuro, que, por muito distante, teria feito desanimar qualquer outro, mas que não conseguia desanimar aqueles homens de ferro. Reunidos, estavam sem máscara; conheciam-se todos e sabiam quais eram as qualidades e o poder de cada um. Quase todos usavam na sociedade um nome aclamado e respeitado; muitos deles, quer pelo talento, quer pela espada, ocupavam nas cortes dos reis da Europa posições distintíssimas. E por isso as forças daqueles trabalhadores da sombra iam-se estendendo cada vez mais, e os chefes aguardavam com um frémito de esperança o momento em que a sua ordem, convertida em soberana, poderia retomar à face da Europa e do mundo o lugar que lhe competia». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

História da Europa Medieval. Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Ter-me-ão os ferimentos perturbado a memória? Terão os meus irmãos dispersos abandonado a abadia, ou deixar-se-iam adormecer na antiga inquietação? E um suor frio inundou a fronte do desconhecido…»

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O Peregrino
«(…) No modo como ele olhava para todos aqueles enfermos de corpo e da alma era fácil descobrir a atroz tranquilidade de um inquisidor, cujo máximo prazer seria meter nos horrendos cárceres, ou deitar às fogueiras, um povo inteiro, repetindo as horríveis palavras dirigidas pelo abade de Citeaux a Lavaur: Matai, matai tudo: Deus saberá distinguir os que lhe são fiéis! Ao chegar perto do mosteiro, o desconhecido parou e pareceu orientar-se. Decerto o muro que ficava à esquerda da grande porta sofrerá alguma alteração, pois que passou e tornou a passar três ou quatro vezes naquele sítio, como se não pudesse acreditar que estava vendo. A porta pequena era aqui, lembro-me bem, murmurava o peregrino. Ter-me-ão os ferimentos perturbado a memória? Terão os meus irmãos dispersos abandonado a abadia, ou deixar-se-iam adormecer na antiga inquietação? E um suor frio inundou a fronte do desconhecido ao vir-lhe aquele pensamento, que evidentemente significaria para ele uma grande desgraça; mas, de repente, soltou um grito de alegria, descobrira, a poucos passos do lugar costumado, aquilo que procurava. Uma grande estrela de madeira dourada erguia-se sobre a arquitrave da pequena porta, que na verdade não parecia merecer tão belo ornamento. Aquela portinha, que teria escapado à observação de quem se colocasse diante da porta principal, tão bem oculta estava pelos ornamentos e florões maciços da fachada tinha toda a aparência de já não servir havia muito tempo. Uma espessa camada te pó cobria a porta, que em tempo fora pintada de verde. Aos cantos pendiam teias de aranha carregadas de pó, indício seguro de que aquela porta para ali estava esquecida e abandonada, sem servir havia muito. E contudo, se observasse com alguma atenção, era fácil reconhecer que ali devia haver algum mistério; primeiro, porque toda aquela ostentação de abandono tinha em si mesma a prova da sua pouca sinceridade, e depois, porque, apesar de todas as precauções, as dobradiças estavam bem untadas e brilhavam ao sol. O peregrino esperou que o sol se tivesse escondido de todo e que na esplanada do mosteiro não houvesse ninguém; depois aproximou-se da pequena porta, e, ajoelhando no limiar, disse em verso: Procurei a luz, encontrei as trevas. Bati e a porta estava fechada. Piedade para mim! A pequena porta girou sem ruído nos gonzos e deixou ver a entrada de um escuro corredor.
O peregrino, sem mostrar a mínima surpresa por aquele facto, que decerto deixaria cheia de espanto outra qualquer pessoa, escoou-se pelo corredor, e a porta fechou-se-lhe imediatamente nas costas. O misterioso personagem deu dois ou três passos incertos, como quem não sabia o terreno que pisava, porque a mudança, que observara na porta, indicava que o lugar misterioso, que procurava, tinha sido mudado para outra parte do mosteiro. Mas pouco tempo durou a incerteza do viajante. Sentiu apoiar-se-lhe com força nos ombros mão estranha, uma voz murmurar-lhe ao ouvido: Sabes que o caminho que segues pode conduzir-te à morte. Sou um chefe, respondeu o desconhecido com um aceno de plena tranquilidade. Um chefe?!... E que prova me apresentas tu para provar que o és? Posso mostrar-te a imagem d’Aquele que foi, circunda pelas imagens dos homens. A grande medalha!, exclamou a voz, em que se reconhecia um misto de espanto e respeito. A grande medalha, a dos sete luminares da ordem!, replicou severamente o peregrino. Vamos, irmão, este caminhar nas trevas deve durar ainda muito tempo? Isso acabou, mestre, respondeu a voz do desconhecido. Estes mistérios não se fizeram para quem conhece os outro: Brilhou então uma luz viva na extremidade do corredor, o peregrino caminhou com passo firme adiante do seu novo companheiro, que era uma espécie de monge, de cabeça coberta por um capuz, que apenas lhe deixava ver os olhos. Seguindo aquele corredor, os dois homens chegaram, por uma rampa quase insensível, ao centro de um subterrâneo, que correspondia ao altar-mor da igreja de Mont-Serrat. As numerosas grutas que havia na montanha, tinham facilitado aos frades o meio de tornarem impenetráveis os seus esconderijos». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, História da Europa Medieval e seus costumes, tempo da narrativa; entre 1500 -70 d. C, 1848, corrigido por Milton Barros Carvalho, Brasil, 2009.

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