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domingo, 9 de junho de 2019

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente»

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«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos dos seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui. Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.
Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registos históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor. Procure voltar antes da tempestade, disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando os meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte junto à porta. Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá-lo. No começo, tudo correra muito bem na nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu mostrara-me recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida, tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido.
Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto directo com a minha mão quando o segurei. Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi a minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank olhar-me enfurecido por cima dos pãezinhos.
Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando a minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha quase dois anos. Receio que minha mulher acabou usando algumas, hã, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros, Frank sugeriu com um sorriso nervoso. É verdade, disse, cerrando os dentes enquanto envolvia a minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corruptela recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook... Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando o seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante, disse, toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, e, disse, pegando cuidadosamente num cubo de açúcar com a pinça». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                                                                  
Cortesia das CdasLetras/JDACT

domingo, 4 de novembro de 2018

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais…»

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«(…) Ergui-me sobre um dos cotovelos, fitando-o. Havíamos deixado uma vela acesa e eu podia vê-lo bastante bem. Virara a cabeça e olhava distraidamente para a cromolitografia do príncipe Carlos Eduardo com a qual a sra. Baird achara apropriado decorar a nossa parede. Agarrei o seu queixo e virei o seu rosto para mim. Ele arregalou os olhos, simulando surpresa. Está querendo dizer, indaguei, que o homem que viu lá fora era alguma espécie de, de..., hesitei, em busca da palavra certa. Ligação?, sugeriu, solícito. Amorosa de minha parte?, concluí. Não, não, claro que não, afirmou de maneira pouco convincente. Retirou as minhas mãos de seu rosto e tentou beijar-me, mas agora foi a minha vez de virar o rosto. Contentou-se em puxar-me de volta para deitar a seu lado na cama. É que..., começou. Bem, sabe, Claire, foram seis anos. E nos vimos apenas três vezes e apenas por um dia na última vez. Não seria extraordinário se..., quero dizer, todos sabem que médicos e enfermeiras ficam sob um terrível stress durante as emergências e..., bem, eu..., é apenas que..., bem, eu compreenderia, sabe, se alguma coisa, de natureza espontânea... Interrompi aquela lengalenga desvencilhando-me do seu abraço e saltando para fora da cama. Acha que fui infiel consigo?, indaguei. Acha? Porque se acha, pode sair deste quarto agora mesmo. Ir embora desta casa! Como ousa insinuar tal coisa? Eu estava furiosa e Frank, sentando-se na cama, estendeu os braços tentando me acalmar. Não toque em mim! Apenas me diga: acha, diante do facto de um estranho estar olhando para a minha janela, que eu tenha tido algum caso amoroso com um dos meus pacientes? Frank levantou-se da cama e envolveu-me nos seus braços. Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando meus cabelos e esfregando os meus ombros da maneira que sabia que eu gostava. Não, eu não acho nada disso, disse-me com firmeza. Puxou-me para mais junto dele e eu relaxei um pouco, embora não o suficiente para abraçá-lo. Após um longo tempo, murmurou nos meus cabelos: Não, eu sei que nunca faria tal coisa. Só quis dizer que ainda que tivesse feito... Claire, não faria nenhuma diferença para mim. Eu amo-a. Nada do que você tenha feito jamais vai impedir-me de amá- la. Tomou o meu rosto nas mãos, apenas dez centímetros mais alto do que eu, ele podia olhar directamente dentro dos meus olhos sem dificuldade, e disse brandamente: perdoa-me? Senti seu hálito quente, ligeiramente perfumado com o travo do Glenfiddich, no meu rosto e os seus lábios, cheios e convidativos, ficaram perturbadoramente próximos.
Outro relâmpago do lado de fora anunciou o súbito arrombamento da tempestade e uma chuva estrondosa começou a açoitar o telhado. Devagar, passei os braços em torno da sua cintura.
O verdadeiro perdão não é forçado, disse, mas cai como o suave sereno do céu... Frank riu e olhou para cima; as diversas manchas no tecto eram um mau agouro para as perspectivas de podermos dormir secos a noite toda. Se esta é uma amostra do seu perdão, disse, detestaria ver a sua vingança. A tempestade ecoou como um ataque de morteiros, como se respondesse às suas palavras, e nós dois rimos, descontraídos outra vez. Somente mais tarde, ouvindo a sua respiração regular ao meu lado foi que comecei a pensar. Como eu disse, não havia nenhuma prova que implicasse em infidelidade da minha parte. Da minha parte. Mas seis anos, como ele dissera, era um longo tempo.

Monumento de Pedras
O sr. Crook veio-me buscar, como combinado, pontualmente às sete horas da manhã seguinte. Assim poderemos pegar o sereno nos botões-de-ouro, não é, menina?, disse, piscando os olhos como um velho galanteador. Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais de sua enorme máquina, como pára-choques de um rebocador. Foi uma lenta excursão pelo campo tranquilo, ainda mais sossegado em contraste com o ronco estrondoso da moto do sr. Crook, repentinamente silenciada. Descobri que o velho senhor realmente possuía um grande conhecimento das plantas locais. Não só onde elas podiam ser encontradas, mas as suas propriedades medicinais e a maneira de prepará-las. Lamentei não ter levado um bloco de anotações para registar tudo, mas ouvi atentamente a voz entrecortada e procurei gravar as informações na memória, enquanto guardava as nossas espécimes nas pesadas prensas. Parámos para fazer um lanche no sopé de uma curiosa colina de topo plano. Verde como a maioria das suas vizinhas, com as mesmas saliências e escarpas rochosas, tinha algo diferente: um caminho bem usado que subia por um dos flancos e desaparecia bruscamente atrás de um afloramento de granito. O que há lá em cima?, perguntei, apontando com um sanduíche de presunto. Parece um local difícil para um piquenique». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

sábado, 3 de novembro de 2018

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Fica difícil ler na cama, disse, o coração começando a acelerar. Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama, murmurou. Pode mesmo?»

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«(…) Minha janela? Que extraordinário! Não pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde para isso. Frank seguiu-me, ainda falando. Sim, eu mesmo pude vê- la lá debaixo. Escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados. Nesse caso, o sujeito provavelmente estava-se divertindo, disse, asperamente. Frank sacudiu a cabeça, embora sorrisse e alisasse os meus cabelos. Não, ele não estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. Não que eu tenha podido ver bem o seu rosto; foi alguma coisa na maneira como estava ali parado. Eu vim por trás dele e, quando ele não se moveu, perguntei educadamente se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu como se não me tivesse ouvido, e eu achei que talvez não tivesse mesmo, com o barulho do vento, então repeti o que dissera e estendi a mão para tocar seu ombro, chamar sua atenção, sabe. Mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e começou a descer a rua. Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma,observei, esvaziando meu copo. Como ele era? Um sujeito grandalhão, Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. É escocês, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de pêlos usada pelos escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xaile xadrez. Quis perguntar- lhe onde o tinha conseguido, mas afastou-se antes que eu tivesse a oportunidade.
Dirigi-me à escrivaninha e servi outra dose de uísque. Bem, não é uma aparência muito estranha para essa região, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila. Nããão... Frank parecia duvidar. Não, não eram as suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas não o fez. Fiquei tão intrigado que me virei para observá-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas quase ao chegar à esquina, ele..., desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha. Talvez a sua atenção tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. Há muitas árvores no fim da rua. Posso jurar que não tirei os olhos dele nem por um segundo, murmurou Frank. Ergueu os olhos subitamente.
Já sei! Lembro-me agora porque o achei tão estranho, embora não tivesse percebido isso na hora. O quê? Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questões mais interessantes, como a cama. Estava vento forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xaile quadriculados, elas simplesmente não se mexiam, excepto com o movimento de seus passos. Fitámo-nos. Bem, disse finalmente, isso é um pouco arrepiante. Frank deu de ombros e sorriu de repente, descartando o assunto. Ao menos, terei alguma coisa para contar ao vigário da próxima vez que o encontrar. Talvez seja um famoso fantasma local e ele poderá contar a sua história sangrenta. Olhou para o seu relógio. Mas agora, eu diria que são horas de irmos para a cama. É, sim - murmurei.
Observei-o pelo espelho, enquanto tirava a camisa e procurava um cabide. De repente, parou enquanto desabotoava a camisa. Teve muitos escoceses sob os seus cuidados, Claire?, perguntou bruscamente. No hospital de campanha ou em Pembroke? Claro, respondi, um pouco intrigada. Havia muitos Seaforth e Cameron na base militar em Amiens e, um pouco mais tarde, depois de Caen, tivemos muitos Gordon. Bons sujeitos, na maioria. Muito estóicos a respeito de tudo de um modo geral, mas terrivelmente covardes quando se tratava de injecções. Sorri, lembrando-me particularmente de um deles. Tivemos um, na verdade um sujeito muito rabugento, um gaiteiro dos Seaforth, que não suportava injecção, especialmente nas nádegas. Passava horas no mais terrível desconforto antes de deixar que alguém se aproximasse dele com uma seringa e, mesmo assim, tentava fazer-nos dar- lhe a injecção no braço, embora fosse intramuscular. Ri diante da lembrança do cabo Chisholm. Ele disse-me: se vou ficar deitado de barriga para baixo, com minha bunda de fora, quero que a garota fique em baixo de mim, não atrás de mim com uma agulha!
Frank sorriu, mas pareceu um pouco apreensivo, como sempre acontecia com as minhas histórias de guerra menos delicadas. Não se preocupe, assegurei-lhe, percebendo a sua expressão, não vou contar essa na hora do chá na sala dos professores. O sorriso arrefeceu e ele aproximou-se, parando atrás de mim, sentada à penteadeira. Beijou o topo de minha cabeça. Não se preocupe, disse. Os professores vão adorá-la, quaisquer que sejam as histórias que contar. Hum. Os seus cabelos estão com um perfume delicioso. Gosta? Em resposta, suas mãos deslizaram para a frente por cima dos meus ombros, segurando meus seios na camisola fina. Eu podia ver seu rosto acima do meu no espelho, o queixo descansando sobre a minha cabeça. Gosto de tudo em si, disse com a voz rouca. Fica linda à luz de velas. Seus olhos são como xerez no cristal e a sua pele brilha como marfim. Uma feiticeira à luz de velas, é o que você é. Talvez eu devesse desligar as lâmpadas permanentemente.
Fica difícil ler na cama, disse, o coração começando a acelerar. Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama, murmurou. Pode mesmo?, disse, levantando-me e virando-me para passar os braços em volta de seu pescoço. Como o quê, por exemplo?
Algum tempo depois, aconchegados por trás das persianas trancadas, ergui minha cabeça dos seus ombros e disse: porque me perguntou aquilo? Se eu tive contacto com escoceses, quero dizer, deve saber que tive, há todo o tipo de homens nesses hospitais. Ele mexeu-se e deslizou a mão pelas minhas costas. Hum! Ah, por nada, na verdade. É que, quando vi aquele sujeito lá fora, ocorreu-me que pudesse ser, hesitou, apertando-me mais um pouco nos seus braços. Hã! Sabe, que pudesse ser alguém de quem cuidou, talvez..., talvez tivesse ouvido falar que estava aqui e veio ver..., algo assim. Nesse caso, eu disse, de modo prático, por que ele não entraria e pediria para me ver? Bem, a voz de Frank pareceu muito descontraída, talvez ele não quisesse dar de cara comigo». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente»



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«(…) Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo. O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de electricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as actuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás. Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para o seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei no frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A humidade dissipara a electricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era a sua colónia favorita.
De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tactear dentro das gavetas. Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a queda da energia eléctrica era uma ocorrência tão frequente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes. As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias, velas brancas comuns, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele. Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno.
As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta se abriu e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas. A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para lhe perguntar se gostaria de uma bebida que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado. O que foi? Viu um fantasma? Bem, sabe, ele disse devagar, não tenho certeza se não vi. -Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar os seus cabelos. Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu as suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso. Olhei pela janela, onde os olmos se agitavam de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar. Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma, disse. Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios? Frank riu um pouco timidamente.
Bem, provavelmente foram apenas as histórias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais. Agora eu estava curiosa. O que viu exactamente?, perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de uísque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente foi servir duas bebidas. Bem, na verdade, apenas um homem… Parado na rua lá fora. O quê? Do lado de fora desta casa?, perguntei com uma risada. Então, deve ter sido um fantasma; não posso imaginar ninguém parado por aí em uma noite como essa. Frank inclinou o jarro de água sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando não saiu nenhuma água. Não olhe para mim, disse. Usou toda a água. Mas eu prefiro o uísque puro mesmo. Tomei um gole para demonstrar. Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatório para pegar água, mas abandonou a ideia e continuou a sua história, tomando pequenos goles cautelosamente, como se o seu copo contivesse ácido sulfúrico ao invés do melhor uísque Glenfiddich de puro malte. Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto à cerca. Eu pensei, hesitou, olhando dentro do copo, achei que ele estava a olhar para a sua janela». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro…»

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«(…) Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era? Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C., aproximadamente, Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui. Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas. Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registros históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor. Procure voltar antes da tempestade, disse a Frank, dando- lhe um beijo de despedida. E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge. Humm, sim. Sim, claro. Cuidadosamente evitando os meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando num guarda-chuva do suporte junto à porta.
Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, reflectindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge se iria unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá- lo. No começo, tudo correra muito bem na nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida, tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido. Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva da panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contacto directo com a minha mão quando o segurei.
Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reacção perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi a minha exclamação Pu… que pariu!, em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank olhar-me enfurecido por cima dos pãezinhos. Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando a minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira num hospital de campanha por quase dois anos. Receio que a minha mulher acabou usando algum calão, há, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros, Frank sugeriu com um sorriso nervoso. É verdade, disse, cerrando os dentes enquanto envolvia a minha mão com um guardanapo embebido em água. Os homens tendem a ser muito pitorescos quando se está tirando estilhaços do corpo deles. Com muito tacto, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia Gorblimey, por exemplo, uma corrupção recente da imprecação God blind me. Sim, é claro, disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a Gadzooks? A parte Gad é perfeitamente clara, naturalmente vem de God, mas zook...
Bem, sabe, interpôs o tabelião, às vezes eu acho que possa ser uma corrupção de uma antiga palavra escocesa, na verdade, yeuk. Significa tentação, ânsia, desejo. Faria sentido, não? Frank concordou, balançando a cabeça e deixando o seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente. Interessante. Toda a evolução do sacrilégio. Sim, e continua a acontecer, disse, pegando cuidadosamente num cubo de açúcar com a pinça. É mesmo?, disse o sr. Bainbridge. A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua experiência na guerra? Ah, sim, disse. A minha favorita aprendi-a com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia todas as vezes  que mudava o curativo. E qual era? Jesus H. Roosevelt Cristo, disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, Casa das Letras, Leya, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Hum. Diante dessa sugestão, o rosto sulcado do sr. Crook pareceu estar admitindo uma duvidosa possibilidade. Bem, se tiverem alguma utilidade para a senhora, pode ficar com as prensas, de bom grado»

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«(…) As festividades dos povos antigos da região, ele explicou, ainda perdido nas suas anotações mentais. Hogmanay, ou seja, o Ano Novo, o Midsummer Day, que é o solstício de Verão, o Beltane, festival da Primavera, e o Ali Hallows, que corresponde ao nosso Halloween. Os druidas, os beakers da Idade da Pedra e os antigos pictos, todos celebravam as festas dos fogos e as festas do sol, pelo que sabemos. De qualquer modo, os fantasmas estão à solta nos dias sagrados e podem ficar vagando por aí como quiserem, fazer o bem ou o mal, de acordo com sua vontade. Esfregou o queixo pensativamente. Estamos nos aproximando do Beltane, perto do equinócio da Primavera. É melhor ficar de olho da próxima vez que passar pelo pátio da igreja. Ele pestanejou e eu percebi que saíra do transe. Dei uma risada. Então, há muitos fantasmas locais famosos? Deu de ombros. Não sei. Vamos perguntar ao vigário da próxima vez que o virmos? De facto, encontramos o vigário pouco tempo depois. Estava no pub, juntamente com os demais habitantes do vilarejo, tomando uma cerveja leve e clara em comemoração à nova santificação das casas. Pareceu um pouco envergonhado ao ser descoberto acobertando actos de paganismo, por assim dizer, mas minimizou o facto como sendo apenas um costume local com conotação histórica.
Na verdade, é bem fascinante, sabe, confidenciou e reconheci, com um suspiro, o canto de um estudioso, um som tão característico quanto o trinado de um melro. Atendendo ao chamado de um espírito iluminado, Frank imediatamente entrou na dança de pares da academia e logo estavam mergulhados até ao pescoço em arquétipos e comparações entre superstições antigas e religiões modernas. Encolhi os ombros e abri o meu próprio caminho pela multidão até ao bar e de volta, com um brandy-and-splash em cada mão. Sabendo por experiência o quanto era difícil desviar a atenção de Frank desse tipo de discussão, simplesmente peguei a sua mão, envolvi os seus dedos em torno da haste da taça e deixei-o entregue aos seus próprios interesses. Encontrei a sra. Baird num banco fundo junto à janela, compartilhando uma amigável jarra de cerveja preta com um senhor idoso que ela me apresentou como o sr. Crook. É o senhor de quem lhe falei, sra. Randall, disse ela, os olhos brilhantes com o estímulo do álcool e da companhia. O que conhece plantas de todas as espécies. A sra. Randall interessa-se muito por plantas, confidenciou ao seu acompanhante, que inclinou a cabeça numa mistura de educação e surdez. Prensa-as nos livros e tudo o mais. É mesmo?, perguntou o sr. Crook, o tufo branco de sobrancelha erguido em sinal de interesse. Tenho algumas prensas, as verdadeiras, veja bem, para ervas e similares. Ganhei-as do meu sobrinho, quando veio da universidade passar as férias. Ele as trouxe para mim e não tive coragem de dizer-lhe que nunca uso coisas desse tipo. Deixá-las penduradas é o melhor para as ervas, sabe, ou talvez secá-las num estrado, dentro de um saco de gaze ou num pote, mas por que iria querer esmagar as plantinhas até ficarem achatadas eu não faço a menor idéia. - Bem, para olhá-las, talvez, a sra. Baird intercedeu afavelmente. A sra. Randall fez lindos arranjos com botões de malva e violetas, que se pode emoldurar e pendurar na parede.
Hum. Diante dessa sugestão, o rosto sulcado do sr. Crook pareceu estar admitindo uma duvidosa possibilidade. Bem, se tiverem alguma utilidade para a senhora, pode ficar com as prensas, de bom grado. Eu não queria jogá-las fora, mas confesso que não tenho nenhuma utilidade para elas. Assegurei ao sr. Crook que eu ficaria encantada em usar prensas de plantas e mais encantada ainda se ele me mostrasse onde algumas das plantas mais raras da região poderiam ser encontradas. Fitou-me incisivamente por um instante, a cabeça inclinada para o lado como um velho falcão, mas finalmente pareceu decidir que meu interesse era genuíno. Combinámos que eu deveria encontrá-lo pela manhã para uma excursão aos arbustos locais. Frank, eu sabia, pretendia passar o dia em Inverness para consultar uns registos na biblioteca de lá e eu fiquei satisfeita de ter uma desculpa para não acompanhá-lo. Para mim, os registos eram todos iguais.
Pouco depois, Frank conseguiu desgrudar-se do vigário e caminhamos de volta para casa na companhia da sra. Baird. Eu mesma hesitei em mencionar o sangue de galo na soleira da porta, mas Frank não sofria de tal acanhamento e interrogou-a avidamente sobre as origens do costume. Suponho, então, que seja muito antigo, não?, perguntou, agitando uma vara pelos arbustos ao longo da calçada. O quenopódio e a cinco-em-rama já estavam florescendo e eu podia ver os botões das giestas-das-vassouras avolumando-se; mais uma semana e estariam floridos. Ah, sim. Gingando, a sra. Baird acompanhava-nos a passos rápidos. Mais velho, do que podemos imaginar, sr. Randall. Anterior à época dos gigantes. Gigantes?, perguntei. Sim. Fionn e Feinn. Contos folclóricos gaélicos, Frank observou com interesse. Heróis, sabe. Provavelmente de origem nórdica. Há muita influência nórdica por aqui e ao longo de toda a costa oeste. Alguns nomes dos locais são escandinavos, e não gaélicos». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                                                                  
Cortesia das CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «Agora, assombra o porão onde foi assassinado, excepto na data de aniversário da sua morte e nos quatro Dias Antigos. Dias Antigos?»

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«(…) Atravessamos juntos o portão, rindo, e Frank parou para que eu subisse os estreitos degraus da entrada à sua frente. De repente, agarrou-me pelo braço. Cuidado! Não pise nisso aí! Parei com o pé cuidadosamente erguido acima de uma grande mancha vermelho-amarronzada no degrau superior. Que estranho, disse. A sra. Baird esfrega os degraus todas as manhãs; eu já vi. O que acha que pode ser isso? Frank inclinou-se sobre o degrau, delicadamente procurando sentir o cheiro. Assim de improviso, eu diria que se trata de sangue. Sangue! Recuei um passo. De quem? Olhei nervosamente para a casa. Acha que a sra. Baird sofreu algum tipo de acidente? Não podia imaginar a nossa imaculada senhoria deixando manchas de sangue secando na soleira da porta, a não ser que uma enorme catástrofe tivesse ocorrido. Imaginei por um instante se a sala de visitas não estaria abrigando um assassino ensandecido, preparando-se naquele mesmo instante para saltar sobre nós com um grito arrepiante. Frank sacudiu a cabeça. Ficou na ponta dos pés para espreitar o jardim do vizinho por cima da cerca viva. Acho que não. Há uma mancha igual a essa na entrada da casa dos Collins também. É mesmo? Cheguei mais perto de Frank, tanto para olhar por cima da cerca quanto em busca de apoio moral. As Highlands dificilmente pareceriam um lugar provável para um assassinato em massa, por outro lado eu duvidava que essas pessoas usassem qualquer tipo de critério lógico ao escolher o local do crime. Isso é um tanto..., desagradável, observei. Não havia nenhum sinal de vida na casa ao lado. O que acha que aconteceu? Frank franziu a testa, pensando, depois bateu a mão rapidamente na perna da calça, como se tivesse uma súbita inspiração. Acho que sei! Espere um instante. Partiu em direcção ao portão e começou a descer a rua quase correndo, deixando-me desamparada na entrada da casa. Voltou logo depois, radiante com a confirmação. Sim, isso mesmo, tem que ser. Todas as casas deste lado tiveram isso. Isso o quê? A visita de um maníaco homicida?, perguntei um pouco rispidamente, ainda nervosa por ter sido bruscamente abandonada sozinha, na companhia apenas de uma grande mancha de sangue. Frank riu.
Não, um sacrifício ritual. Fascinante! Estava de quatro na relva, examinando atentamente a poça de sangue. Aquilo não me parecia nada melhor do que um maníaco homicida. Agachei-me ao lado dele, contorcendo o nariz diante do cheiro. Ainda era cedo para moscas, mas dois mosquitos das Highlands, grandes e lentos, giravam em torno da mancha. O que quer dizer com sacrifício ritual?, indaguei. A sra. Baird frequenta a igreja, assim como todos os seus vizinhos. Isso aqui não é o Monte dos Druidas ou nada semelhante, não é? Levantou-se, limpando os pedacinhos de relva das calças. Não há nenhum lugar na Terra com mais magia e superstições antigas influenciando o quotidiano das pessoas do que as Highlands. Com ou sem igreja, a sra. Baird acredita nas lendas dos povos antigos, assim como todos os seus vizinhos. -Apontou para a mancha com o bico do sapato perfeitamente engraxado. O sangue é de um galo preto, explicou, satisfeito. As casas são novas, sabe. Pré-fabricadas. Olhei-o friamente. Se acha que isso explica tudo, pense melhor. Que diferença faz a idade das casas? E afinal, onde está o universo?
No pub, eu acho. Vamos até lá verificar? Tomando-me pelo braço, conduziu-me pelo portão e começamos a descer a Gereside Road. Antigamente, ele explicou conforme andávamos, e não faz tanto tempo assim, quando uma casa era construída, era costume matar alguém e enterrá-lo nos alicerces, como uma oferenda aos espíritos da terra. Sabe, ali ele lançará os alicerces ao seu primogénito e no seu filho mais novo erguerá os portões. Antigo como os montes. Estremeci diante da citação. Nesse caso, suponho que seja bem mais moderno e compreensível que estejam usando galinhas. Quer dizer, já que as casas são relativamente novas, nada foi enterrado sob elas e os moradores agora estão tentando remediar a omissão. Exactamente. Frank parecia satisfeito com meu progresso e deu uns tapinhas nas minhas costas. Segundo o vigário, muitos dos habitantes locais acham que a guerra foi em parte causada pelo facto de as pessoas estarem abandonando as suas raízes e deixando de tomar as devidas precauções, como enterrar uma oferenda sob os alicerces das casas ou queimar espinhas de peixes na lareira. Excepto hadoques, é claro. Sabia? Ou nunca mais pescará um. Ao invés disso, sempre enterre as espinhas de um hadoque.
Vou-me lembrar disso, prometi. Diga-me o que se deve fazer para nunca mais ver um arenque e eu o farei imediatamente. Ele sacudiu a cabeça, absorto num de seus acessos de lembrança, aqueles breves períodos de êxtase erudito quando ele perdia o contacto com o mundo à sua volta, completamente empenhado em evocar conhecimentos de todas as fontes. Não sei nada sobre arenques, disse, distraído. Mas para ratos, penduram-se ramos de choupo tremedor por toda parte. Choupo treme-dor na casa, e nunca verá um rato, como se diz. Quanto a corpos nos alicerces..., é daí que vêm muitos dos fantasmas locais. Conhece Mountgerald, a casa grande no final da High Street? Há um fantasma lá, um operário que trabalhava na construção da casa e foi assassinado em sacrifício para os alicerces. Em algum momento do século XVIII; isso, na verdade, é bastante recente, acrescentou, pensativamente. Diz-se que, por ordem do dono da casa, uma parede foi construída primeiro, depois um bloco de pedra foi empurrado de cima da parede sobre um dos operários. Provavelmente algum sujeito de que ninguém gostava foi escolhido para o sacrifício. Então, ele foi enterrado no porão e o resto da casa foi construído sobre ele. Agora, assombra o porão onde foi assassinado, excepto na data de aniversário da sua morte e nos quatro Dias Antigos. Dias Antigos?» In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.

Cortesia das CdasLetras/JDACT

Nas Asas do Tempo. Diana Gabaldon. «… depois finalmente encolheu os ombros e disse a sua sensata decisão pela janela, juntamente com o meu recém-adquirido chapéu de palha»

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«(…) Na realidade, não havia ninguém perambulando de kilt pela praça central ou pelas lojas que a rodeavam. No entanto, havia várias outras pessoas por lá, a maioria donas de casa do tipo da sra. Baird, fazendo as compras diárias. Eram tagarelas e alcoviteiras, e as suas presenças sólidas, de vestido estampado, enchiam as lojas de um calor aconchegante; um esteio contra a névoa fria da manhã no lado de fora. Ainda sem a minha própria casa para manter, havia pouca coisa que precisasse comprar, mas gostava de dar uma olhada nas prateleiras recém-abastecidas, pelo simples prazer de ver muitos artigos novamente à venda. Fora um longo período de racionamento, de ter que se abster de coisas simples como sabão e ovos, e mais longo ainda sem os pequenos luxos da vida, como a água-de-colónia L’Heure Bleu. Os meus olhos demoraram-se numa vitrine repleta de utensílios domésticos, toalhas de chá e anjinhos para cobrir bules bordados, jarras e copos, uma pilha de fôrmas de lata para tortas caseiras e um conjunto de três vasos de plantas.  Jamais tive um vaso de planta em minha vida. Durante os anos de guerra, vivi, é claro, nos alojamentos de enfermeiras, primeiro no Pembroke Hospital, depois numa base militar na França. No entanto, mesmo antes disso, nunca morámos tempo suficiente em num só lugar para justificar a compra de um artigo como esse. Se eu tivesse tal peça, reflecti, tio Lamb a teria enchido de cacos de louças muito antes que eu pudesse chegar perto dela com um buquê de margaridas.
Quentin Lambert Beauchamp. Q para os seus alunos de arqueologia e para os amigos. Dr. Beauchamp nos círculos académicos em que ele transitava, leccionava e ganhava a vida. Mas sempre tio Lamb para mim. O único irmão de meu pai e meu único parente vivo, na época, vira-se de repente às voltas comigo, uma menina com cinco anos de idade, quando os meus pais morreram num acidente de carro. Às vésperas de uma viagem para o Médio Oriente, na época, interrompeu os seus preparativos o tempo suficiente para providenciar o funeral, desfazer-se dos bens de meus pais e matricular-me num internato para meninas. Para o qual me recusei terminantemente a ir. Diante da necessidade de arrancar meus dedos gorduchos da maçaneta do carro e me arrastar pelos calcanhares pelas escadas da escola, tio Lamb, que detestava conflitos pessoais de qualquer natureza, suspirou exasperado, depois finalmente encolheu os ombros e disse a sua sensata decisão pela janela, juntamente com o meu recém-adquirido chapéu de palha.
Maldito chapéu, resmungou, olhando pelo espelho retrovisor e vendo-o rolar alegremente para longe, enquanto o carro continuava descendo o caminho, roncando em alta velocidade. Sempre detestei chapéus femininos, de qualquer modo. Fixou em mim um olhar feroz. Uma coisa, disse, em tom ameaçador. Não pode brincar de boneca com as minhas estatuetas de túmulos persas. Qualquer coisa, menos isso. Entendeu? Balancei a cabeça, feliz. E fui com ele para o Médio Oriente, para a América do Sul, para dezenas de sítios arqueológicos em todo o mundo. Aprendi a ler e escrever com os rascunhos dos artigos científicos, a cavar latrinas e ferver água e a fazer um sem-número de outras coisas inadequadas para uma jovem bem-nascida, até encontrar o historiador atraente, de cabelos escuros, que veio consultar tio Lamb a respeito de uma questão da filosofia francesa relacionada à prática religiosa egípcia.
Mesmo depois do nosso casamento, Frank e eu levamos a vida nómada de um jovem professor universitário, dividido entre congressos pela Europa e apartamentos temporários, até que a deflagração da guerra o enviou para o Treinamento de Oficiais na Unidade de Inteligência do MI-6 e a mim para o treinamento de enfermeiras. Embora estivéssemos casados há quase oito anos, a nova casa em Oxford seria o nosso primeiro lar verdadeiro. Enfiando a bolsa firmemente debaixo do braço, entrei com passos firmes na loja e comprei os vasos. Encontrei-me com Frank no cruzamento da High Street com a Gereside Road e começamos a subir por esta última. Ele ergueu as sobrancelhas diante das minhas compras. Vasos? Sorriu. Óptimo. Talvez agora pare de colocar flores nos meus livros. Não são flores, são espécimes. E foi quem sugeriu que eu me interessasse por botânica. Para ocupar a minha mente, agora que não sou mais enfermeira, lembrei a ele. É verdade. Balançou a cabeça com bom humor. Mas eu não sabia que teria galhinhos e folhas caindo no meu colo todas as vezes que abrisse uma obra de referência. O que era aquela coisa horrível, marrom e esfarelada, que colocou no meu livro do Banks? Sabugueiro. Boa para hemorróidas. Preparando-se para a minha iminente velhice, não é? Hum, muito gentil de sua parte, Claire». In Diana Gabaldon, Nas Asas do Tempo, 1991, Casa das Letras, LeYa, 2010, 2016, ISBN 978-972-461-974-3.
                                                    
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quarta-feira, 22 de março de 2017

A Rosa Rebelde. Janet Paisley. «Ele nem precisou dizer duas vezes. Ela girou a muleta de madeira e bateu-a, também, na canela do homem. Ele gritou mais uma vez, afastando-se um passo dela»

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«(…) Apoiada no cano do mosquete, ela tocou com a mão a mancha de sangue. Ainda estava húmida. Os lobos normalmente não a teriam incomodado. Eles tinham medo de gente, mas a fome mudara as pessoas e os animais. Por isso ela estava nas colinas, quando deveria estar em casa, e por isso abandonara a segurança da árvore. Sem pensar, havia ido atrás de MacGillivray para proteger a sua caça, mas, nesse meio tempo, ele já poderia ter chegado a Invercauld e ter voltado para buscá-la. Em vez disso, os lobos poderiam encontrá-la enquanto seguiam o rasto de sangue e o cheiro da corça. Com o coração batendo forte, Anne segurou com força o cano do mosquete, virou-se e jogou o corpo para frente, tentando caminhar mais rapidamente. Em vez disso, bateu em algo duro. Sem fôlego e desorientada diante da presença repentina, ela precisou de alguns segundos para perceber que batera num homem. A sua cabeça escura ostentava um cabelo comprido e preto na altura dos ombros; era mais velho, talvez até tivesse uns trinta anos, e desconhecido. Sem falar nada, ele tentou alcançá-la e, embora ela se tenha abaixado, conseguiu colocar a mão no topo da cabeça da rapariga e limpar a marca de sangue da sua testa com o polegar. Seadh, a-nis, falou ele. Então encontrei uma guerreira. Anne estava certa de que o tom da sua voz traíra um sorriso do qual ela não via nem rasto no seu rosto. O ritmo alegre da sua voz confirmou que ele não era daquele vale. Sois um MacDonald?  Ele pareceu achar a pergunta ainda mais engraçada que o sinal de caça que ela trazia na testa, e se abaixou, aproximando os olhos dos dela. E se eu fosse? Usando todo o comprimento e a força do braço, Anne virou o mosquete com força para golpeá-lo. O cano bateu na canela do homem. Ele deixou escapar um grito e se curvou instintivamente para a frente. Mas a força do golpe a fez perder o equilíbrio. Ela soltou o mosquete e cambaleou, quase caindo. O homem segurou-a pelos ombros e a apoiou novamente na muleta improvisada. Uma guerreira deveria saber, falou ele dessa vez sem nenhum sinal de sorriso na voz. Se a sua perna estiver magoada, deve atacar com o braço oposto.
Ele nem precisou dizer duas vezes. Ela girou a muleta de madeira e bateu-a, também, na canela do homem. Ele gritou mais uma vez, afastando-se um passo dela. Ela balançou, mas, como estava pronta dessa vez, equilibrou-se e manteve-se de pé. O homem recuperou rapidamente. Ele franziu as sobrancelhas escuras sobre os olhos raivosos. Furioso, agarrou a muleta, tirou-a dela, quebrou-a em duas partes no joelho, como se fossem gravetos, e jogou-a longe, no bosque. Então pegou o mosquete que caíra da mão de Anne e o apontou na sua direcção; como ela o encarara com olhar desafiador, oscilando sem apoio, ele atirou. Um ganido alto veio detrás dela. Logo abaixo, na trilha, o lobo líder girou quando a bala atingiu o seu ombro. Ele choramingou e saiu de fininho, mancando. Os outros dois ficaram parados e começaram a recuar. Anne olhou para o homem, com a boca aberta, impressionada com a sua rapidez e pontaria. A sua admiração chegou tarde demais. Ele olhou para trás, para ela. Agora és tu, avisou ele.
Em Invercauld, as flautas e tambores soavam lenta e constantemente. Tochas tremeluziam como pirilampos nas colinas. Em todo o lugar em volta da casa de pedra baixa e larga do chefe, pequenas fogueiras utilizadas para cozinhar queimavam no escuro. O ar estava pesado com a tristeza esperada e carregado de murmúrios. Ao lado da porta da casa, a roseira branca de Junho florescia, reflectindo o luar nas suas flores fantasmagóricas e perfumadas. Jean Forbes ficou na soleira da porta assistindo ao retorno daqueles que tinham ido à procura na colina, segurando tochas. Ela estava nervosa, na verdade mais irritada que preocupada. A garotinha que se agarrara a ela percebera o humor da mãe e parecia tentar esconder-se entre as dobras da sua saia. MacGillivray correu até elas. Ela foi embora, explicou ele, respirando com dificuldade. Percorremos a área toda, pelo caminho mais curto. Mas ela não estava lá. Och! Então, onde? MacGillivray estendeu as mãos intrigado. Aquilo era da sua responsabilidade, e, naquele momento, uma responsabilidade enorme. Alguns homens seguiram outros caminhos para casa. Vimos que ela cortou uma muleta e um pisteiro encontrou a sua trilha, mas isso vai demorar. Jean, lady Farquharson, era muito mais jovem que o seu marido moribundo, era a sua quarta esposa, e não era mãe de Anne. A menina nunca poderia ter feito o que lhe contaram, e aquela não era uma noite em que a atenção do clã podia ser dispensada com uma menina rebelde e tola. Meu marido não vai aguentar muito mais tempo, falou raivosa com MacGillivray. Ela tem que ser encontrada!
MacGillivary não tinha como responder à sua ira, mas tentou dar uma resposta. Quando a primeira palavra de desculpa estava pronta para deixar a sua boca, um tiro de mosquete soou atrás dele e o silenciou. Alarmadas, as pessoas viraram-se em direcção ao estampido. No murmúrio que se seguiu, foram pronunciados nomes como McIntosh e Aeneas , nomes ditos com deferência e respeito ao reconhecerem a figura que chegava à luz. Aeneas McIntosh passou pela entrada da porta, com o mosquete na mão ainda soltando fumaça e Anne montada nos seus ombros. Aliviados, os parentes de Anne a cercaram. Lady Farquharson viu a menina primeiro, mas foi a presença do homem que a carregava que lhe trouxe um imenso prazer. Aeneas! Fàilte. Lady Farquharson, respondeu Aeneas. Meu tio sente muito. Com a sua saúde debilitada, passar pela montanha seria impossível. A mulher concordou com a cabeça. O McIntosh era o chefe eleito do clã Chattan, o clã do gato, uma federação a que todos os presentes pertenciam. A morte de Farquharson seria desonrada sem sua presença. Mas ela e Aeneas tinham praticamente a mesma idade e talvez houvesse outros benefícios na sua ausência, portanto ela escondeu a sua decepção diante da notícia. É uma honra estarmos em seus pensamentos, concluiu ela. O senhor vai ocupar o lugar dele junto aos outros chefes Chattan? Aeneas era sobrinho de um chefe, não um deles. Ele viera para prestar seu respeito a um guerreiro merecedor porque assim quisera, não apenas para trazer as desculpas de McIntosh, e estava sendo aguardado com outros membros da família do lado de fora. Mas ele consentiu, aceitando a honra, e tirou Anne, que se revirava, dos seus ombros e a colocou no chão. Lady Farquharson olhou com desdém para a garota suja e manchada de sangue. O seu pai a espera, falou ela, e então se virou, pegou a menina que se agarrava à sua saia e sumiu dentro da casa. Anne encarou MacGillivray, furiosa, os dedos agarrados à cintura. Você não voltou para me buscar! Nós não a achamos. Anne pulou diante dele, e seu ataque foi tão feroz que eles caíram sobre a roseira. Procurámos em todos os lugares, protestou ele, lutando para agarrar os pulsos da menina que o golpeavam». In Janet Paisley, A Rosa Rebelde, Editor Bizâncio, colecção Ilhas Encantadas, 2009, ISBN 978-972-530-421-1.

Cortesia de EBizâncio/JDACT

segunda-feira, 20 de março de 2017

A Rosa Rebelde. Janet Paisley. «Quando a lua indicou no céu que já eram onze horas, os lobos encontraram a poça de sangue congelado. Eles também sentiram o cheiro azedo de seres humanos»

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«A batida do tambor e a música baixa e lenta da gaita soavam ao longe. Era um chamado dos clãs para anunciar que o chefe estava a morrer. Nessas horas até inimigos implacáveis se esqueciam dos ressentimentos, deixavam as espadas de lado e iam honrar o chamado. Sem se dar conta da batida distante, uma corça pastava à luz do crepúsculo que se esvaía entre as urzes e as rochas da colina no sopé das Cairngorms. Ouviu-se o estampido de um tiro, depois outro, intercalados apenas pelo som de um batimento cardíaco. O cervo cambaleou e caiu. Trobhad! Vamos lá! Gritando em gaélico, uma jovem garota, de talvez doze ou treze anos, saiu correndo do emaranhado de árvores próximas com o rosto sujo alerta e contente enquanto corria descalça em direcção ao animal ferido, o mosquete nas mãos ainda soltando fumaça. O seu cabelo comprido e preto estava todo bagunçado, mas o vestido, embora típico das Terras Altas, era de veludo e renda. Anne, fuirich! Espere! Um rapaz mais velho, com boina de chefe e kilt xadrez, saiu detrás da menina, com a segunda arma na mão, o brilho do cabelo loiro avermelhado ainda visível na escuridão cada vez mais intensa. Anne não prestou atenção nele, nem hesitou. Derrubou o mosquete enquanto corria, retirou uma adaga do cinto preso na cintura e, para evitar os cascos do animal ferido, pulou sobre ele, a espada curta em punho. Quando a menina pulou, o animal, assustado, debateu-se, tentando levantar-se. Os cascos bateram na canela da menina. Anne ganiu, tropeçando em direcção às urzes. O jovem, dois passos atrás dela, jogou a arma no chão, tirou o punhal, ajoelhou-se e levantou a cabeça do animal para terminar o serviço. Anne pulou para frente, no peito do animal, para enfiar o punhal na garganta da corça primeiro. Apanhei-o, disse ela. Havia um tom de desafio na sua voz. Do outro lado da carcaça que ainda estremecia, o jovem olhou para ela, enquanto o cheiro grosseiro de sangue dominava o ambiente. Tudo bem, MacGillivray, admitiu ela. Nós dois o apanhámos. Então ela enfiou os dedos no corte do pescoço do animal e, com o dedo do meio, desenhou uma linha sanguinolenta no meio da testa. Mas matei-o. Satisfeita por ter o direito assegurado, ela deu um pulo e ficou de pé. A dor percorreu o seu corpo. Soltou um urro antes mesmo que pudesse contê-lo. Anne cambaleou, e o jovem MacGillivray segurou-a. Ela levantou a saia de veludo comprida e olhou para baixo. O seu tornozelo direito havia começado a inchar. Então tentou novamente depositar o peso do corpo sobre o pé, mordendo os lábios para não urrar de dor outra vez. Eu levo-te, ofereceu MacGillivray. E a corça? Vai ter de esperar. Gu dearbh, fhèin, chan fhuirich! Certamente não terá! Ela não ia perder a caça. Havia poucas corças nas colinas, e eles tinham tido sorte de encontrar aquela. Os nativos famintos não eram os únicos possíveis caçadores ali. Os lobos vão pegá-la antes de percorrermos metade do caminho até casa. Eu vou colocá-la em cima de uma árvore. Vou levá-la de volta para Invercauld. Eles vão levar comida, se puderem. Foi um ano escasso para todos nós. Mas ele vai comer. A garganta de Anne fechou-se. E vai recuperar as forças. A sua voz tremeu. Talvez então todos possam ir para casa também. MacGillivray olhou para ela. Aos dezanove anos, ele era uma cabeça mais alto que ela. Poderia lembrar a ela que o chefe não conseguia comer havia dias. Em vez disso, pegou-a pela cintura, levantou-a e a colocou sobre o ombro. Aonde está indo? Ela lutou. Colocá-la na árvore, explicou ele enquanto caminhava de volta para o bosque. Enquanto ela deslizava o traseiro no galho da árvore em que ele a colocara, MacGillivray preparou e carregou o mosquete de Anne antes de a entregar. Mas ainda acho que a corça deveria ficar aí. Vai embora, Alexander? Ele cruzou o seu mosquete no peito e pendurou a carcaça nos ombros. Não estava feliz diante da perspectiva de voltar sem ela. Eles não faziam parte do seu clã. Aquelas não eram as suas terras. MacGillivray chamou-a enquanto ele se distanciava. Ele se virou, ainda pronto para colocar a corça na árvore e tirar Anne de lá. Por ali, mostrou ela. Siga o som do tambor. MacGillivray expirou, virou-se e andou na direcção que ela indicara. A cabeça da corça batia nas suas costas a cada passo, e o sangue do animal pingava. Diga que eu a matei, gritou ela enquanto ele sumia de vista. Agora estava sozinha. Entre as rochas, dois gatos selvagens andavam em círculos, cortejando-se e miando. Uma coruja caçadora piou. A lua crescia por detrás das colinas. O luar fazia a poça de sangue da corça brilhar no escuro. Além do vale, um lobo uivou. Anne mudou de posição na árvore. Se a alcateia viesse naquela direcção, sentiria o cheiro do sangue e iria atrás da corça. MacGillivray havia pendurado o mosquete no ombro; para carregá-lo, teria de soltar a corça. Os lobos se lançariam em cima dele, vorazes. Ele daria um tiro e teria tempo para carregar a arma e atirar de novo enquanto os animais arrastassem a corça, mas, com apenas um punhal, se fossem mais de dois lobos, MacGillivray perderia a caça. Anne olhou ao redor da árvore, pendurou o mosquete num pequeno galho e tirou o punhal do cinto. Quando a lua indicou no céu que já eram onze horas, os lobos encontraram a poça de sangue congelado. Eles também sentiram o cheiro azedo de seres humanos, mas a fome deixa a todos menos reticentes, e era possível ver as costelas dos três animais por baixo da pele magra. Um deles farejou a poça. Outro levantou a cabeça e uivou. O terceiro encontrou o trilho que, para eles, era o caminho que a presa ferida tomara; os demais correram atrás, seguindo-o. O galho onde antes Anne estava sentada agora se encontrava vazio. Perto dele, a madeira branca de um galho indicava um corte recente. Gotas de sangue da corça brilharam no trilho irregular que MacGillivray abrira. Respirando e caminhando com dificuldade por entre as rochas e o bosque, Anne segurava debaixo do braço esquerdo uma muleta improvisada com o galho cortado da árvore, o cano do mosquete em baixo do direito, e trazia o tornozelo inchado enfaixado sem cuidado com um pedaço de pano rasgado da saia. Ela havia ido em direcção a Invercauld, mas ainda estava longe. Atrás dela, bem longe no trilho, um lobo uivava. Ela parou, virou um pouco o tronco e escutou, tentando medir a distância e a velocidade do animal. A luz alta da lua iluminava o chão coberto de urze e as pequenas árvores, formando sombras escuras. A parte da frente do vestido de Anne brilhou de modo ameaçador no luar». In Janet Paisley A Rosa Rebelde, Editor Bizâncio, colecção Ilhas Encantadas, 2009, ISBN 978-972-530-421-1.
Cortesia de EBizâncio/JDACT

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Muralha de Adriano: «A muralha foi erguida sobre a terra, em aparelho maciço de pedra e turfa, com 4,5 metros de altura por 2,5 metros de largura. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, com o fim de facilitar as comunicações e os transportes»


Muralha de Adriano perto de Greenhead Lough, Escócia
 
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«A Muralha de AdrianoVallum Aelium, é uma fortificação construída em pedra e madeira, situada  no norte da Inglaterra, na altura aproximada da actual fronteira com a Escócia. É assim denominada em homenagem ao imperador romano Públio Élio Trajano Adriano.
O Império Romano encontrava-se em expansão militar no século II. Porém, o imperador Adriano compreendeu que a manutenção dessa expansão em todas as direcções do Império era inviável. Conhecendo a ameaça naquela fronteira, optou por manter o que já havia sido conquistado. Determinou assim iniciar uma muralha, estrutura defensiva com a função de prevenir as surtidas militares das tribos que habitavam a Escócia, os Pictos e os Escotos, denominados de Caledónios pelos romanos, e que assinalava o limite ocidental dos domínios do Império, sob o reinado daquele imperador.



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Concluída em 126, constitui-se na mais extensa estrutura deste tipo construída na história do Império Romano. Originalmente estendia-se por cerca de 80 milhas romanas, equivalentes a 73,5 milhas, cerca de 118 quilómetros, desde o rio Tyne até ao Oeste da Cúmbria. Para a construção foi «utilizada a mão-de-obra dos próprios soldados das legiões romanas». Cada «centúria» era obrigada a levantar a sua parte da muralha. A muralha foi erguida sobre a terra, em aparelho maciço de pedra e turfa, com 4,5 metros de altura por 2,5 metros de largura. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, com o fim de facilitar as comunicações e os transportes. A cada distância determinada havia uma torre de observação, e a cada distância maior existiam quartéis para as tropas de guarnição.

As ruínas ainda podem ser vistas por vários quilómetros, como o troço na altura de Greenhead, ainda que largas secções tenham sido desmanteladas ao longo dos séculos para aproveitamento da pedra em várias edificações vizinhas ao seu percurso, como a da Igreja de Carlisle.



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