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sábado, 30 de novembro de 2019

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «A cerimónia deveria ser por volta do meio-dia e já passava da uma hora da tarde. Teria acontecido alguma coisa? Maria.Jácome, assim se chamava a noiva de dezanove anos, de boa cara…»

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«(…) Nesse dia, Rodrigo Figueira entrou na igreja, trajando o seu melhor fato. O excelente veludo de seda da sua capa brilhava, mesmo com a luz fosca das velas que iluminavam o templo. Vislumbrou ao fundo o padre Bartolomeu. O sacerdote, de estatura baixa e rosto muito redondo e avermelhado, abria os braços, como que a recebê-lo. Bom dia! Como está vossa mercê? De boa disposição?, e acompanhava as perguntas com gestos um tanto teatrais. O cumprimento foi retribuído pelo fidalgo como uma obrigação de cortesia, sem convicção. Oh, sim, sim..., de mui boa disposição, disse sem grande entusiasmo, quase distraído, mais concentrado no passo que ia dar nesse dia, nessa cerimónia. Tomai assento, pois que uma noiva nunca, e insistiu, mas nunca, chega no tempo marcado. Sabeis como são complicados os toucados e os fatos, e sabe Deus que mais!..., afirmou, imitando os gestos femininos com meneios das mãos, fingindo ter sobre a sua careca um elaborado penteado.
Rodrigo Figueira sorriu e aceitou a sugestão, aguardando serenamente a chegada da noiva. Os seus sapatos, de um negro impecavelmente brilhante, revirados na ponta, começavam a incomodar as frieiras que tinha desde que os primeiros ventos haviam trazido o frio do Norte. Estava-se em Fevereiro e o sol espreitava, destemido e transparente, de um céu azul-turquesa. Um bom dia para o seu casamento! Entretanto, celebravam-se alguns ofícios de defuntos nas capelas laterais. As suas ladainhas ouviam-se, ininterruptas e constantes, como zumbidos de abelhas em volta das flores na Primavera. Fazia-se tarde. Rodrigo tentava distrair-se com o povo que entrava na igreja, gente que se benzia, baixava e levantava a cabeça em largos gestos repetidos, bichanava orações frente às imagens de sua devoção, percorria o perímetro da nave da igreja e saía do mesmo modo, mas já com a certeza de que os santos a quem pedira teriam ouvido as suas preces.
A cerimónia deveria ser por volta do meio-dia e já passava da uma hora da tarde. Teria acontecido alguma coisa? Maria.Jácome, assim se chamava a noiva de dezanove anos, de boa cara, um pouco sofrida e pesada para a sua idade, tinha um sorriso simpático e era bastante calada, segundo Rodrigo se apercebera nas poucas vezes que estivera com ela. Mas, além de alguns sinais salientes que marcavam a maçã do rosto do lado direito, não havia na sua aparência nada que a tornasse verdadeiramente feia, embora nada a fizesse especialmente bonita. Era aquele tipo de mulher que geralmente passava despercebido. Todavia, debaixo de uma aparente bonomia, Maria tinha os seus quereres. Devia ser o seu sangue herdado de Inês Sousa, sua mãe, um sangue alentejano, moldado por planuras sem fim, crestadas pelo calor abrasador e seco ou vergastadas pelo vento gélido e solitário. O pai da noiva, Pedro Jácome, era fidalgo estimado da casa do infante Fernando, pai do futuro rei Manuel I, homem da sua guarda pessoal.
Quanto a Rodrigo Figueira, o noivo expectante, era filho de Brites Alves, herdeira da enorme fortuna de seu pai, consubstanciada numa vastidão de terras ao redor da cidade de Santarém, e de Henrique Figueira, escrivão da Fazenda de Afonso V e muito seu privado. Brites falecera havia alguns anos, deixando os filhos ricos o bastante. Os irmãos de Rodrigo, Aires e João Lourenço, aguardavam calmamente no adro da igreja onde uma chusma de curiosos começava a ajuntar-se. Talvez por causa do hábito da Ordem Militar de Malta, branco e negro com a cruz de oito pontas que Aires envergava... Os olhares desviavam-se quando ele passava e uma aura de respeito e admiração rodeava-o desde que chegara a Lisboa. Aires viera do mosteiro Flor da Rosa. onde professara. Pedira licença ao mestre para ir para um local onde pudesse ter mais acção como cavaleiro militar sendo então designado para ir para Rodes, onde ficava a sede da Ordem. Estava. Pois, prestes a partir para esta ilha onde eram necessários cavaleiros dispostos ao sacrifício, uma vez que era constantemente atacada pelo Turco. Ainda no ano anterior, Maomé II, imperador otomano, a havia assediado, tendo sido então rechaçado. A derrota foi tão afrontosa para aquele imperador que, quando morreu. mandou que se escrevesse na sua sepultura o seguinte epitáfio: desejo conquistar Rodes e a Itália. Sonhos vãos, os dos defuntos! Quanto a Aires, levaria com ele a coragem dos cavaleiros portugueses e contribuiria para a salvação da cristandade!» In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Quando Teresa começou a botar corpo, crescendo e desenvolvendo-se, mandava-a para a Quinta do Lagar, no termo da cidade, para que fugisse do ar pestilento…»

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«(…) Apesar de tudo, o filho mais novo de dona Beatriz, Manuel, recebeu a notícia com naturalidade. Fora também com naturalidade que deixara de se deslocar a Odivelas. Isabel escrevera-lhe mil cartas, mandou recados e mensagens, recordando-lhe os encontros apaixonados, as palavras trocadas, os momentos de puro êxtase. Porque não vinha ele? Porque não lhe respondia? Porque desaparecera da sua vida assim, tão de repente e tão absolutamente? Mas apenas obteve o silêncio. Tentou sair do convento disfarçada de criada, para encontrar o pai do seu filho, para lhe suplicar que a acolhesse, que não a abandonasse, mas não pôde sequer passar a porta da clausura porque a abadessa a tinha tão vigiada como presa de milhafre antes de ser caçada. Finalmente, Isabel, desperta perante a dura realidade de um amor perdido, do abandono e da sua prenhez, chorava convulsivamente, pedindo a Deus que a levasse na hora de parir, como fazia a tantas mulheres. Fosse Ele servido fazê-lo, que ela Lho agradeceria para todo o sempre. Assim nasceria Teresa.
E depressa, antes que a mãe pudesse ver o rosto do rechonchudo bebé, um criado levando na albarda de um burro uma alcofa tapada, o entregou nas casas de morada do infante Manuel. Abandonada e separada de uma filha que lhe nascera de tão grande amor, Isabel fechou-se no seu desgosto. Nunca a esqueceu, nunca abandonou as recordações do seu grande amor e nunca transpôs os muros do convento, como tinha prometido à abadessa. Para criar esta criança, o infante Manuel entregou-a, com a medalha de São Dinis presa numa fita verde, a um seu criado, Brás Correia, desembargador e seu muito leal servidor. Brás Correia, sem filhos que dessem continuidade ao seu sengue, a tomou e dela fez o seu bem mais precioso, a sua jóia, o seu arrebatamento. Afinal, era a filha de seu senhor. Imediatamente mandou vir duas amas do Bombarral, não faltasse o leite àquela criança abençoada que o retiraria da solidão em que sempre vivera. E para que crescesse em saúde e em graça, fez visitas ao boticário, mandou preparar xaropes para que nenhuma tosse a consumisse, mandou que a untassem de pomadas e que lhe fizessem abluções constantes, apesar das ligaduras que a enfaixavam. Encheu o seu peito de bentinhos e orações escritas em panos de linho fino. Quando Teresa começou a botar corpo, crescendo e desenvolvendo-se, mandava-a para a Quinta do Lagar, no termo da cidade, para que fugisse do ar pestilento que invadia Lisboa no estio, para que bebesse a água fresca das nascentes, para que comesse a fruta mais madura, a alface mais tenra, a galinha mais gorda. A criança medrava, de facto, e respondia ao amor de Brás Correia com enorme ternura. Enchia a casa com o seu riso e a sua tagarelice (chegada a idade da comoção, Brás Correia não recordaria estes tempos sem que uma lágrima lhe caísse e sem que a voz se lhe embargasse), encantava todos com a sua alegria. Cresceu saudável e bela como uma maçã orvalhada.
Quanto aos seus olhos azuis, estes faziam as pessoas embasbacarem a olhar para ela... E ao tomar formas de mulher, Teresa começou a perguntar-se sobre a vida. E quando uma pessoa se pergunta pela vida, quer respostas. E Brás Correia, sem ter a certeza do que dizia, não pôde evitar dizer-lhe mentiras: sua mãe morrera quando ainda era pequena. E como se chamava ela? Isabel». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca…»

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«(…) O meu João está na oficina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João saiu. E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo... Diriam dela as vizinhas, a que está com o João na oficina, uma ruiva. Via-se aos domingos no passeio da Estrela com ele, em roda de coreto, fazendo volutas por entre os soldados de Caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçado atrás, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E dali a um ano, quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que tinham de ser o diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas, cuecas amareladas, de rastos, fazendo galos nas testas. Deixá-los! Também as outras se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito, Deus não me mate sem um loiro. Às vezes, ao acordar, na moleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando: ai! Um loiro...
E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguíneo da epiderme, pequeninas espirais de cabelinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delírio, na incoerência, prolongava nitidamente essas linhas, harmonizando-as, moldando-as, curvas suaves e veludíneas, cheias de saúde, aqueles brancos braços hercúleos e sem um pêlo, que lhe via na oficina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculturais, direitas. E diante dela surgia aquele corpo lutador, de atleta, grandes traços magistrais e simples, de um pureza de academia. E penetrava-se da cor da pele, fresca e clara, sob que se sentiam correr ímpetos de sangue rico, jovem, virginal, fremente. Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca, sorvendo o seu hálito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma dele.
Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento das noites de Inverno, como grandes coroas que se rezam, deixariam cair as horas no silêncio. No turbilhão dos seus devaneios sucediam-se rápidas as cenas, vibrantes como kolpodes que tumultuam na fermentação. Quereria a vida das vizinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou quimera. Via saias de goma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados característicos. As caras angulosas com manchas vinolentas sorriam para ela, deitando línguas negras de fora. E sem explicar porquê, como um ritmo original, ouvia as pancadas de uma enxada na terra do cemitério. Gelava-se. Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e flutuante numa grande incoerência. Agitada como estava, o sono fugia-lhe, e as ideias, desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemitério, o amor medonho dos cadáveres, em cuja gélida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrível, cheia de afinidades com a hiena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infâmia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semideus. Era feliz então, sentindo na alma aquela irisação de paz que a perfumava toda como num banho voluptuoso. Ser amada por aquele forte, apertada e vencida nos seus braços esculturais, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma coisa como um sonho febril. Dar-se-ia plenamente e sem reservas, com uma abundância louca de contactos, frenética e possuída de um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe, colorizada numa recordação deliciosa, sem compreender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura iluminada pela vela de sebo tinha uma curva nítida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miúdos, de gatazinha branca. E dilatou-se num vasto contentamento interior: era bela, de uma compleição tenuíssima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve, sobre a cara, uns cabelinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e apetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer!»

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«(…) E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como saco vazio de roupa velha. E o seu crânio pequenino de estúpida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota de uma cabaça oca. Quando ficaram sós, a senhora Marcelina, abaixando um pouco a voz, disse à filha do coveiro: tenho uma coisita para lhe dizer, seu interesse. Sim?, fez Carolina. Não é coisa nenhuma má, não senhor. O seu ao seu dono! O que é então? Não se zanga, não? Por que havia de zangar-me? Mas diga. Há aí um rapazola que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão! Carolina teve um sobressalto. O coeficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se num sorriso. Está a gozar, disse. Palavrinha, é coisa séria. Ele falou-me nisso. Para quê?, disse ela, trémula, penetrada. Ora! Namoricos; não sabe como as coisas são? Rapaziadas. Todos nós temos disso. Enfim, falar não ofende. Carolina estava pálida, sentia-se vagamente num deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcelina, de olhos no chão, mordia o lábio inferior, como quem reflecte. Com que então, disse Marcelina, gosta? Hi!... E, passado um momento: um rapaz com umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hem? Sua sonsinha... Hem? E, insinuando-se, velha toupeira: tendo juízo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cair antes de tempo, percebes? Carolina estava rubra, com palpitações doidas.
E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer! Aqui, em frente do beco, há uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos. Ah!, fez Carolina. Já sei. Há um oficial, o João, bonitote, muito claro. É esse. É esse então? Pois senhores... Um belo moço! É vê-lo além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hem! Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura. E depois?, disse ela. E ele pediu-me que arranjasse a coisa, que lhe falasse; tinha vergonha de vir ele mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo. E o meu pai? Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar. Nem sei, nem sei... Isso, o resto arranja-se. Amanhã há festa nos Prazeres, percebes? Ele vai por ali. Tu vais comigo. Entendam-se lá como quiserem. Gostas dele? Sei lá, sei lá! Não é feio... Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito. Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde. Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois. Adeusinho, adeusinho. Desceu a escada. No portal gritou para cima: e obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.
Não dormiu toda a noite. Uma turbulência de ideias desencontradas agitava-a. Havia dentro dela alguma coisa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cérebro e do seu coração. Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, enquanto, na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azuis, de merino, ricos lenços de seda com ramos, uma sombrinha e anéis, alguma coisa como uma opulência. A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes, com botas de biqueira. E mirava-se no espelho, embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surpreendia-se a murmurar baixinho. O meu João». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Essa conquista, até a morte de Afonso em 1458, deve-se, em muitos aspectos, ao facto de que esse monarca gozava de elevada autoridade pessoal, além de dispor de órgãos centrais…»

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De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgia
«(…) Contudo, o pontifex maximus em exercício, Eugénio IV, não estava disposto a reconhecer, sem delongas, as novas relações de poder. Um rei tão forte como Afonso, cujo domínio abarcava a região ocidental e central do Mar Mediterrâneo, chegava agora ao trono de Nápoles. Essa proximidade despertava velhos temores de serem cercados e, com isso, vinham à tona más recordações da luta sangrenta dos papas contra a dinastia dos Staufer, no século XIII. A Itália não seria muito pequena para um principado desse porte? Será que ele não buscava, inevitavelmente, uma hegemonia que pudesse destruir o equilíbrio, sempre problemático, entre as cinco grandes potências, Veneza, Milão, Florença, Roma e Nápoles, bem como entre alguns centros menores, como Ferrara, Mântua e muitos outros pequenos territórios? Mesmo os grandes barões de Nápoles e Sicília viam o futuro com preocupação. Será que o monarca aragonês colocaria novamente em causa a ampla autonomia que tinham conquistado como o fiel da balança nas lutas pelo trono realizadas nos últimos dois séculos? Tantas perguntas sem respostas, e um vasto campo de acção para Alonso Borja. Em 1439, ele negociou uma trégua entre Roma e Nápoles. Essa trégua correspondia, na prática, a uma neutralidade por parte de Eugénio IV e permitia a Afonso conduzir com êxito as negociações com as principais famílias da nobreza de seu novo reino, sem ser importunado por interferências papais. Nesse pacto entre a monarquia e a aristocracia, estavam as mãos também do inteligente advogado de Xátiva, fundamentalmente envolvido como executor e intérprete da vontade real. A Coroa e os barões negociaram, afinal, um modus vivendi em que o clã principal garantia não apenas o domínio de facto nos seus enormes territórios feudais, mas também coroava esse domínio com a atribuição formal da mais alta jurisdição. Por outro lado, o monarca reservou-se o direito de supervisionar o exercício do poder da nobreza por meio de agentes próprios e, havendo necessidade, assumindo as devidas competências. A lealdade, ou seja, o bom comportamento e a disponibilidade de servir ao rei, passaria, futuramente, a ter poder de decisão acima da categoria dentro da orgulhosa elite de nascimento.
Essa foi uma questão ambiciosa e até ousada. Essa conquista, até a morte de Afonso em 1458, deve-se, em muitos aspectos, ao facto de que esse monarca gozava de elevada autoridade pessoal, além de dispor de órgãos centrais competentes para a administração e a jurisprudência. Além disso, ele soube tirar proveito com grande habilidade dos meios de propaganda da época: impressionantes construções em estilo antigo e, seguindo a mesma linha, textos escritos por famosos humanistas. Pode-se partir do princípio de que por detrás da maioria dessas manobras inteligentes estava a orientação de Alonso Borja. Após a entrada triunfal de Afonso na sua nova capital, em 1443, foi ele quem esteve ao lado do rei durante as negociações com o papa.
Essas tiveram lugar em Terracina, a meio caminho entre Roma e Nápoles, representando um esforço mútuo em que ambas as partes tiveram de igualmente dar a sua parcela. Eugénio IV reconheceu a legitimidade do novo poder e Afonso retirou o apoio ao Concilio de Basileia, que representava a oposição dentro da Igreja contra o papa». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o Papa Sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9

Cortesia EEuropa/JDACT

sábado, 16 de novembro de 2019

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Afonso V não via com bons olhos suspender o apoio a Bento XIII, que ignorou soberanamente a deposição pelo concilio, bem como seu sucessor Clemente VIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgia
«(…) Afonso V reinava não apenas sobre a metade setentrional da Península Ibérica, mas também sobre as Ilhas Baleares, a Córsega e a Sardenha. Mas o jovem monarca não estava ainda nem um pouco satisfeito com isso. Seus olhos estavam voltados com cobiça para a Itália. Para os seus planos ambiciosos, precisava de advogados competentes como Alonso Borja. Havia quase quatro décadas, Borja tinha colocado os seus notáveis conhecimentos jurídicos inteiramente ao serviço do rei. Era uma ferramenta perfeita nas mãos do monarca e chegou a actuar também nas difíceis disputas entre a Coroa de Aragão e o papado. Afonso V não via com bons olhos suspender o apoio a Bento XIII, que ignorou soberanamente a deposição pelo concilio, bem como seu sucessor Clemente VIII, sem obter amplas concessões de Roma. Nas negociações mantidas com os embaixadores enviados por Martinho V, Alonso Borja, por meio da sua experiência, ganhou o reconhecimento também pelo lado romano. De qualquer forma, por parte do rei, o reconhecimento era inconteste. No entanto, o amplo apoio que o homem de Xátiva passou a receber, a partir desse momento, não tinha nada de desinteressado. O facto de ter colocado o seu vice-chanceler em posições de liderança dentro da Igreja assegurava ao monarca acesso a uma grande parte dos seus recursos financeiros. Essa divisão de tarefas deu excelentes resultados ainda durante a administração da diocese de Maiorca por Alonso. E essa disponibilidade de dar ao rei aquilo que ele exigia qualificou-o a posições ainda mais altas. Em 1429, Alonso passou a ser bispo de Valência, ofuscando, dessa maneira, todo o sucesso que fora anteriormente alcançado pelas mais nobres ramificações da sua linhagem. Naturalmente, foi fundamental para isso a recomendação do seu senhor. Apesar dos doze anos de dedicados serviços, a sua nomeação, que fora aprovada por Martinho V, teve o seu preço. Favor significa o privilégio de poder comprar, por toda parte, as regras invioláveis da clientela. Alexandre VI, posteriormente, dominará essa arte com maestria absoluta. Seu tio, no entanto, teve de pagar uma fortuna ao seu rei pelo bispado de Valência. O facto de Martinho V ter dado sua aprovação reflecte uma mudança na política da Igreja. Do ponto de vista do rei, o antipapa, que se encontrava entrincheirado na península rochosa Peníscola, tinha cumprido a sua missão. E quando Alonso Borja comunicou-lhe a suspensão do apoio da casa real, Clemente VIII agiu da forma mais razoável possível: desistiu. Anos mais tarde, tornou-se lenda que a arte de persuasão do enviado teria contribuído para que o teimoso antipapa tomasse essa decisão. Fora de questão, no entanto, é o facto de que Alonso, como portador de uma mensagem sem margem a negociações, contribuiu, com a sua competência jurídica, para que esse acto transcorresse de forma rápida e indolor. E isso também agradou a Roma.
Os comprovados interesses da união mantiveram-se, mesmo depois de 1429. Como pastor de uma das mais ricas dioceses da Espanha, Alonso Borja não recusou os pedidos de subsídios da câmara de finanças real. O seu papel como conselheiro real também prevaleceu sobre as suas novas funções como bispo; o grande jurista era indispensável no tribunal e aumentou o número já grande de não residentes, ou seja, clérigos que não estavam em exercício das suas funções na sua diocese. Como prelado político por excelência, Alonso Borja imbuiu rigor exemplar ao seu estilo de vida. Repudiava os pecados capitais da gula e da luxúria, nisso estiveram de acordo até mesmo os seus inimigos. Afonso de Aragão também abriu as portas que levariam o seu favorecido à Itália. Nas intrincadas contendas pela coroa de Nápoles (à qual pertencia também a Sicília), que gozava de extremo prestígio, após muitos contratempos e prestes a atingir os seus objectivos, o rei promoveu a sucessão do seu conselheiro quase sexagenário em 1437. E com boas razões. Após longos conflitos, Afonso tinha conseguido prevalecer sobre seus rivais da Casa de Anjou, porém havia ainda uma última e difícil batalha pela frente. Essa seria com o papa, que ocupou a suserania sobre o reino fundado brilhantemente pelos normandos em 1130». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o Papa Sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9

Cortesia EEuropa/JDACT

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie»

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«(…) Mais tarde quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra pago escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva..., são estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: Justine poderia rer pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas descobri a verdade. Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie. E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os árabes. Da vida pública de Nessim, essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas, não quero ocupar-me.
Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa, para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu protestava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estádio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: não passas de uma judia histérica e pretensiosa!
O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá que todas as manhãs, eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces. Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitações de pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados por pavios indecisos de petróleo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie de botija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dos beliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás, de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolando em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorróida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tarde de domingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para me mostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por demais exíguo para as duas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida: sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa. No edifício sinistro do hospital civil, idêntico a uma pensão de província moribunda de paredes empoladas por furúnculos de humidade, os doentes de paludismo estremeciam de febre nos degraus da entrada, no corredor, na sala de consulta, no cubículo destinado às injeções, à espera das ampolas de quinino na tranquilidade imemorial dos negros, para quem o tempo, a distância e a vida possuem uma profundeza e um significado impossíveis de explicar a quem nasceu entre túmulos de infantas e despertadores de folha, aguilhoado por datas de batalhas, mosteiros e relógios de ponto. Diante da secretária, espessa como um bunker, à qual instalava a minha ciência de manual, a miséria e a fome desfilavam manhã fora na serenidade monótona da chuva de Setembro, e a única resposta que a minha impotência me permitia eram as pastilhas de vitamina da tropa adoçadas por um sorriso de desculpa e de vergonha.
Impedidos de pescar e de caçar, sem lavras, prisioneiros do arame farpado e das esmolas de peixe seco da administração, espiados pela PIDE, tiranizados pelos cipaios, os luchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invisível, se escondia, obrigando-nos a uma alucinante guerra de fantasmas. A cada ferido de emboscada ou de mina a mesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da Mocidade Portuguesa, das Novidades e do Debate, sobrinho de catequistas e íntimo da Sagrada Família que nos visitava a domicílio numa redoma de vidro, empurrado para aquele espanto de pólvora numa imensa surpresa: sãos os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o car… da pu… que os pariu combinados para no fod… os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia, a jogar às damas com o capitão idoso saído de sargento que cheirava a menopausa de escriturário resignado e sofria do azedume crónico da colite, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam de um mundo que a lonjura tornou estrangeiro e irreal, os calendários que risco de cruzes a contar os dias que me separam do regresso e apenas achando à minha frente um túnel infindável de meses, um escuro túnel de meses onde me precipito mugindo, boi ferido que não entende, que não entende, que não logra entender e acaba por enterrar o triste focinho molhado nos ossos de frango com esparguete do rancho, do mesmo modo, percebe, que aqui, na sua companhia, me sinto cavalo de narinas enfiadas na alcofa de vodka, mastigando o feno azedo do limão.
A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitações de pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados por pavios indecisos de petróleo que coloriam as paredes de barro de uma ilusão de capelas. Chegava-se de bisnaga antivenérea no bolso e aplicava-se a pomada através da braguilha aberta à maneira de uma vulva de pano, sob o olhar indiferente de mulheres de dentes serrados em triângulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de certos retratos de Picasso, em cuja curva dos lábios flutuam Guernicas desdenhosas. No mesmo colchão dormiam, em regra, os filhos, as galinhas e algum antepassado decrépito perdido em pesadelos de múmia, rosnando os hieróglifos dos seus sonhos. O tenente fornicava de pala do boné para trás e pistola à cinta, com o impedido de espingarda em riste a vigiar as redondezas, o oficial de operações mandou vir uma máquina de costura do Luso e cozia bainhas de calça de madrugada ao lado de uma negra esplêndida, de enérgicos seios pendentes como os da loba de Roma, e o capitão das damas, instalado ao volante, pedia à raparigas impúberes que o masturbassem, oferecendo em troca cartuchinhos de rebuçados de hortelã-pimenta: o branco chegou com um chicote, cantava o milícia na viola, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Gago Coutinho, a trezentos quilómetros ao sul do Luso e junto à fronteira com a Zâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, um quartel…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame. Inclusive o estar aqui consigo talvez não passe de um expediente de arame que me salve da maré baixa de desespero que me ameaça, desespero de que não conheço a causa, percebe, e que à noite me enrola no visco do seu lodo, me afoga de aflição e de receio, me molha o beiço de cima de um bigode de suor, me faz tremer os joelhos um contra o outro em castanholas de dentadura postiça de porteiro adormecido. Não, a sério, o crepúsculo chega e o coração acelera-se, palpo-o no pulso, as vísceras comprimem-se, a vesícula dói-me, os ouvidos zumbem, qualquer coisa de indefinível e prestes a romper-se palpita, tenso, no meu peito: um dia destes, o porteiro dá comigo estendido nu no chão da casa de banho, um fio de pasta de dentes e de sangue ao canto da boca, as pupilas subitamente enorme contemplando nada, a cheirar mal, sem cor, inchado de gases. Você lê no jornal, não acredita, volta a ler, verifica o nome, a profissão, a idade, e passadas duas horas esqueceu-se e virá aqui, como de costume, ancorar o seu silêncio numa enseada de copos, tilintar em cada mínimo gesto as pulseiras indianas que recordam uma Londres mítica perdida no nevoeiro do passado, na época em que Bod Dylan falava e as pernas das vendedoras do Selfridges eram quase tão atraentes como os sorrisos dos polícias.
Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Lacusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e íamos morrer, íamos morrer e chovia, chovia, sentado na cabina da camioneta, ao lado do condutor, de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão, iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia.

Gago Coutinho, a trezentos quilómetros ao sul do Luso e junto à fronteira com a Zâmbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres, um quartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Português obrigava a fantasias carnavalescas de estrelas e fitas ridículas, o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos; uma vez por semana eu sacudia o badalo do sino de capela pendurado no meio de um círculo de cubatas aparentemente desertas, no silêncio carregado de ruído que África tem quando se cala, e dezenas de larvas informes principiavam a surgir, manquejando, arrastando-se, trotando, dos arbustos, das árvores das palhotas, dos contornos indecisos das sombras, larvas de Bosch de todas as idades em cujos ombros se agitavam, como penas, franjas de farrapos, avançando para mim à maneira dos sapos monstruosos dos pesadelos das crianças, a estenderem os cotos ulcerados para os frascos de remédio. O senhor Jonatão, o enfermeiro negro da delegação de saúde nominal, que corria constantemente como os chineses do Tim-Tim, distribuía as pastilhas na majestade macabra de um ritual eucarístico para desenterrados vivos, alguns dos quais, já cegos, voltavam para ninguém as órbitas desabitadas, reduzidas a uma névoa azul-húmida de muco repugnante. Miúdos sem dedos, afligidos de moscas, agrupavam-se numa pinha muda de espanto, mulheres de feições de gárgula segredavam-se diálogos que os céus da boca em ruína tornavam numa pasta de gemidos, e eu pensava na ressurreição da carne do catecismo, como pedaços de tripas e erguerem-se dos buracos dos cemitérios num despertar vagaroso de ofídeos. Um pouco, percebe, como se toda esta gente pálida que cochicha curvada em atitudes de feto, enrolando-se mutuamente em torno das nucas os tentáculos sem ossos dos braços, saísse de roldão a porta do bar, não para a noite domesticada e cúmplice da Lapa, feita do ressonar conjunto de bassets e de condessas, mas para um dia excessivo iluminado pelo sol vertical das salas de operação dos ringues de boxe, que revelasse sem piedade as olheiras, as rugas, as pregas de cansaço, a murchidão dos seios, as expressões vazias que nenhum cognac mobila. O senhor Jonatão, regiamente instalado numa cadeira desconjuntada, absolvia de tintura de iodo as feridas que lhe ofereciam pincelando-as de extremas-unções expeditivas, inúteis esconjuros contra a presença da morte, e eu circulava ao acaso de quimbo em quimbo assustando velhas esqueléticas acocoradas à entrada das palhotas, e de que as saias, demasiado largas para as suas ancas de ícones, se assemelhavam às mangas de papel que embrulham as palhinhas de refresco. E havia o cheiro de decomposição de mandioca a secar nas esteiras, a humidade, que se farejava no ar, da chuva que crescia, excrementos secos como os cagal… de cartão do Entrudo, ratos obesos remexendo o lixo, a chana horizontal ao longe atravessada por um rio sinuoso e estreito como uma veia da mão, e os morcegos a aguardarem o crepúsculo nos vestígios de templo de Diana de uma casa de colono, afogada no capim sem cor do esquecimento». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Tinha direito a cobrar uma parte dos bens do servo se este morresse sem testamento, ou quando um filho herdava; se fosse estéril; se a sua mulher cometesse adultério»

jdact

Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Primeiro, foram as nossas terras, as da Catalunha velha, e depois a nossa liberdade, a nossa própria vida..., a nossa honra. Foram os teus avós, contava-lhe com voz trémula, sem deixar de olhar para as terras, quem perdeu a liberdade. Foi-lhes proibido abandonar os campos, foram transformados em servos, em homens amarrados aos seus senhores, a quem também permaneceriam amarrados os seus filhos, como eu, e os seus netos, como tu. A nossa vida..., a tua vida está nas mãos do senhor, que faz justiça e tem direito a maltratar-nos e a ofender a nossa honra. Nem sequer nos podemos defender! Se alguém te maltratar, deverás pedir socorro ao teu senhor, para que ele exija reparação e, se a conseguir, ficará com metade dessa reparação.
Depois, invariavelmente, recitava-lhe os múltiplos direitos do senhor, direitos que tinham acabado por ficar gravados na memória de Bernat, pois nunca se atrevera a interromper o monólogo exaltado do pai. O senhor podia exigir juramento a um servo a qualquer momento. Tinha direito a cobrar uma parte dos bens do servo se este morresse sem testamento, ou quando um filho herdava; se fosse estéril; se a sua mulher cometesse adultério; se a casa se incendiasse; se a hipotecasse; se casasse com um vassalo de outro senhor e, evidentemente, se quisesse abandoná-la. O senhor podia deitar-se com a noiva na sua primeira noite; podia reclamar as mulheres para amamentarem os seus filhos, ou as filhas destas para servirem como criadas no seu castelo. Os servos estavam obrigados a trabalhar gratuitamente as terras do senhor; a contribuir para a defesa do castelo; a pagar parte dos frutos das suas culturas; a dar guarida ao senhor ou aos seus convidados nas suas casas e alimentá-los durante essa estada; a pagar por utilizar os bosques ou as terras de pasto; a utilizar, pagando antecipadamente, a forja, o forno ou o moinho do senhor, e a enviar-lhe prendas pelo Natal e outras festividades. E que dizer da Igreja?
Quando o pai de Bernat fazia essa pergunta, a voz enfurecia-se-lhe ainda mais. Monges, frades, sacerdotes, diáconos, arcediagos, cónegos, abades, bispos, recitava, qualquer deles é igual aos senhores feudais que nos oprimem! Proibiram até que nós, camponeses, tomássemos hábitos, para que não pudéssemos fugir das terras e, assim, perpetuássemos a nossa servidão! Bernat, advertia-o solenemente nas vezes em que a Igreja se tornava o alvo da sua ira, nunca confies nos que dizem servir a Deus. Falar-te-ão com serenidade e boas palavras, tão cultas que nem conseguirás entendê-las. Tentarão convencer-te com argumentos que só eles sabem urdir, até se apoderarem da tua razão e da tua consciência. Apresentar-se-ão como homens bondosos, que dirão querer salvar-nos do mal e da tentação, mas na realidade a sua opinião sobre nós está escrita e todos eles, como soldados de Cristo que se proclamam, seguem com fidelidade aquilo que está nos livros. As palavras deles são meras justificações e as suas razões são idênticas às que poderias apresentar a um idiota.
Pai, recordou-se Bernat de lhe ter perguntado numa dessas ocasiões, que dizem os livros deles acerca de nós, camponeses? O pai olhou os campos, até onde se confundiam com o céu, e aí parou, porque não queria olhar para o lugar em cujo nome falavam hábitos e sotainas. Dizem que somos animais, brutos, e que não somos capazes de entender o que é a cortesia. Dizem que somos horríveis, vis e abomináveis, desavergonhados e ignorantes. Dizem que somos cruéis e toscos, que não merecemos nenhuma honra porque não sabemos apreciá-la, e que só somos capazes de entender as coisas à força. Dizem que... Pai... E somos isso tudo? Filho, pelo menos é em tudo isso que querem tornar-nos. Mas o pai reza todos os dias, e quando a mãe morreu... À Virgem, filho, à Virgem. Nossa Senhora nada tem que ver com frades e sacerdotes. Podemos continuar a acreditar nela.
Bernat Estany ol teria gostado de poder voltar a debruçar-se, de manhã, no parapeito da janela, e de falar com a sua jovem mulher; contar-lhe o que o pai lhe tinha contado a ele e olhar com ela para os campos. No que restava de Setembro e durante todo o mês de Outubro, Bernat aparelhou os bois e arou os campos, rompendo e revolvendo a dura crosta que os cobria para que o sol, o ar e o estrume renovassem a terra. Depois, com a ajuda de Francesca, semeou o cereal; ela, com um cesto, lançava as sementes, e ele, com a junta de bois, primeiro arava e depois aplanava a terra, já semeada, com uma pesada prancha de ferro. Trabalhavam em silêncio, um silêncio que só era interrompido pelos gritos que Bernat lançava aos bois e que ressoavam por todo o vale. Bernat acreditava que trabalharem juntos os aproximaria um pouco. Mas não. Francesca continuava indiferente: pegava no cesto e lançava as sementes sem sequer olhar para ele». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Nenhum dos presentes ousara mexer um dedo, nessa ocasião, e também assim era agora. Bernat começou a arrastar-se e ergueu o olhar em direcção ao seu senhor…»

jdact

Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Sacudido por convulsões, Bernat vomitou sobre os cereais armazenados até as tripas quase lhe saírem pela garganta. Francesca continuava sem se mexer. Bernat saiu a correr daquele lugar. Quando chegou lá abaixo, pálido, a sua cabeça era um turbilhão de sensações, cada uma mais repugnante que a anterior. Cego, caiu de bruços contra o imenso Llorenç, que estava de pé ao fim das escadas. Não me parece que o novo marido tenha consumado o matrimónio, disse Llorenç de Bellera para os companheiros. Bernat teve de levantar a cabeça, para enfrentar o senhor de Navarcles. Não... Não fui capaz, senhor, balbuciou. Llorenç de Bellera guardou silêncio durante uns instantes. Pois então, se tu não foste capaz, estou certo de que algum dos meus amigos..., ou dos meus soldados..., o será. Já te disse que não quero mais bastardos. Não tem o direito! Os camponeses que observavam a cena sentiram calafrios ao imaginar as consequências de tal insolência. O senhor de Navarcles agarrou Bernat pelo pescoço, com uma só mão, e apertou com força enquanto Bernat abria a boca, tentando respirar. Como te atreves? Por acaso pretendes aproveitar-te do legítimo direito do teu senhor de se deitar com a noiva para depois vires reclamar com um bastardo debaixo do braço?, Llorenç sacudiu Bernat antes de o deixar cair para o chão. É isso que pretendes? Os direitos de vassalagem sou eu que os determino; eu e só eu, entendes? Esqueces que te posso castigar quando e como queira? Llorenç de Bellera esbofeteou Bernat com força, atirando-o ao chão. O meu chicote!, gritou, encolerizado.
O chicote! Bernat ainda era apenas um rapazinho quando, como tantos outros, fora obrigado a presenciar, com os pais, o castigo público infligido pelo senhor de Bellera a um pobre desgraçado cuja falta nunca ninguém chegou a saber com certeza qual fora. A recordação do estalar do couro sobre as costas desse homem soou-lhe nos ouvidos, como nesse dia, e como noite após noite durante uma boa parte da sua infância. Nenhum dos presentes ousara mexer um dedo, nessa ocasião, e também assim era agora. Bernat começou a arrastar-se e ergueu o olhar em direcção ao seu senhor; este estava de pé, como uma ingente massa de pedra, com a mão estendida, esperando que um servo lhe colocasse lá o chicote. Recordou-se das costas em carne viva daquele desgraçado: uma grande massa sanguinolenta de onde nem mesmo todo o ódio do senhor conseguiria arrancar um pedaço mais. Bernat arrastou-se, de gatas, para a escada, com os olhos revirados e tremendo, tal como lhe acontecia desde pequeno, quando era assaltado por pesadelos. Ninguém se mexia. Ninguém falava. E o Sol continuava a rebrilhar. Lamento, Francesca, balbuciou quando chegou perto dela, depois de subir penosamente a escada, seguido por um soldado.
Desapertou as calças e ajoelhou-se ao lado da esposa. A rapariga não se tinha ainda mexido. Bernat observou o seu pénis flácido e perguntou-se como poderia cumprir as ordens do seu senhor. Com apenas um dedo, acariciou suavemente as costas nuas de Francesca. Francesca não respondeu. Tenho... Temos de fazer isto, instou Bernat, agarrando-lhe um pulso, para a voltar para si. Não me toques!, gritou-lhe Francesca, abandonando o seu alheamento. Vai custar-me! Bernat virou com violência a sua mulher, descobrindo o corpo nu dela. Deixa-me! Lutaram, até que Bernat conseguiu agarrá-la por ambos os pulsos e prendê-la. Mesmo assim, Francesca resistia. Virá outro!, sussurrou-lhe. Se não for eu, será outro a..., forçar-te! Os olhos da rapariga ganharam vida e abriram-se de novo, acusadores. Lamento muito, lamento muito..., desculpou-se.
Francesca não parou de se debater, mas Bernat deitou-se sobre ela com violência. As lágrimas da rapariga não foram suficientes para arrefecer o desejo que nascera nele, ao contacto com o corpo da jovem, e penetrou-a enquanto Francesca gritava contra o Universo inteiro. Esses gritos satisfizeram o soldado que seguira Bernat e que, sem qualquer pudor, contemplava a cena, com metade do corpo surgindo por entre as tábuas do chão, na abertura da escada. Ainda Bernat não tinha terminado de forçá-la, quando Francesca parou de se opor. Pouco a pouco, os gritos dela tornaram-se soluços. Foi o choro da sua mulher que fez companhia a Bernat quando alcançou o clímax. Llorenç de Bellera ouvira os gritos desesperados que procediam da janela do segundo andar e, quando o seu espião lhe confirmou que o casamento estava consumado pediu os cavalos e abandonou o local com a sua sinistra comitiva. A maioria dos convidados, abatidos, imitou-o.
A quietude abateu-se sobre a casa. Bernat, em cima da sua mulher, não sabia o que fazer. Só então se deu conta de que a mantinha fortemente agarrada pelos ombros; largou-a, para apoiar as mãos no colchão, junto à cabeça dela, mas depois o corpo caiu sobre o dela, inerte. Instintivamente, recuperou, esticando os braços para neles se apoiar, e deu com os olhos de Francesca, que o olhavam sem o ver. Nessa posição, qualquer movimento fazia que roçasse de novo pelo corpo da sua mulher. Bernat desejava evitar essas sensações, mas não sabia como fazer isso sem continuar a magoar a rapariga. Desejou poder levitar para se poder separar de Francesca sem lhe tocar. Por fim, depois de uns instantes infindáveis de indecisão, afastou-se da rapariga e ajoelhou-se junto dela; também agora não sabia o que havia de fazer: levantar-se, deitar-se ao lado dela, sair dali ou tentar justificar-se... Desviou o olhar do corpo de Francesca, caída de barriga para cima, exposta de forma soez. Procurou o rosto dela, que estava a menos de dois palmos do dele, mas não foi capaz de o encontrar. Baixou o olhar, e a visão do seu membro nu, de repente, envergonhou-o. Lamento... Um inesperado movimento de Francesca surpreendeu-o. A rapariga virara o rosto para ele». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Nenhum dos presentes ousara mexer um dedo, nessa ocasião, e também assim era agora. Bernat começou a arrastar-se e ergueu o olhar em direcção ao seu senhor…»

jdact

Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Sacudido por convulsões, Bernat vomitou sobre os cereais armazenados até as tripas quase lhe saírem pela garganta. Francesca continuava sem se mexer. Bernat saiu a correr daquele lugar. Quando chegou lá abaixo, pálido, a sua cabeça era um turbilhão de sensações, cada uma mais repugnante que a anterior. Cego, caiu de bruços contra o imenso Llorenç, que estava de pé ao fim das escadas. Não me parece que o novo marido tenha consumado o matrimónio, disse Llorenç de Bellera para os companheiros. Bernat teve de levantar a cabeça, para enfrentar o senhor de Navarcles. Não... Não fui capaz, senhor, balbuciou. Llorenç de Bellera guardou silêncio durante uns instantes. Pois então, se tu não foste capaz, estou certo de que algum dos meus amigos..., ou dos meus soldados..., o será. Já te disse que não quero mais bastardos. Não tem o direito! Os camponeses que observavam a cena sentiram calafrios ao imaginar as consequências de tal insolência. O senhor de Navarcles agarrou Bernat pelo pescoço, com uma só mão, e apertou com força enquanto Bernat abria a boca, tentando respirar. Como te atreves? Por acaso pretendes aproveitar-te do legítimo direito do teu senhor de se deitar com a noiva para depois vires reclamar com um bastardo debaixo do braço?, Llorenç sacudiu Bernat antes de o deixar cair para o chão. É isso que pretendes? Os direitos de vassalagem sou eu que os determino; eu e só eu, entendes? Esqueces que te posso castigar quando e como queira? Llorenç de Bellera esbofeteou Bernat com força, atirando-o ao chão. O meu chicote!, gritou, encolerizado.
O chicote! Bernat ainda era apenas um rapazinho quando, como tantos outros, fora obrigado a presenciar, com os pais, o castigo público infligido pelo senhor de Bellera a um pobre desgraçado cuja falta nunca ninguém chegou a saber com certeza qual fora. A recordação do estalar do couro sobre as costas desse homem soou-lhe nos ouvidos, como nesse dia, e como noite após noite durante uma boa parte da sua infância. Nenhum dos presentes ousara mexer um dedo, nessa ocasião, e também assim era agora. Bernat começou a arrastar-se e ergueu o olhar em direcção ao seu senhor; este estava de pé, como uma ingente massa de pedra, com a mão estendida, esperando que um servo lhe colocasse lá o chicote. Recordou-se das costas em carne viva daquele desgraçado: uma grande massa sanguinolenta de onde nem mesmo todo o ódio do senhor conseguiria arrancar um pedaço mais. Bernat arrastou-se, de gatas, para a escada, com os olhos revirados e tremendo, tal como lhe acontecia desde pequeno, quando era assaltado por pesadelos. Ninguém se mexia. Ninguém falava. E o Sol continuava a rebrilhar. Lamento, Francesca, balbuciou quando chegou perto dela, depois de subir penosamente a escada, seguido por um soldado.
Desapertou as calças e ajoelhou-se ao lado da esposa. A rapariga não se tinha ainda mexido. Bernat observou o seu pénis flácido e perguntou-se como poderia cumprir as ordens do seu senhor. Com apenas um dedo, acariciou suavemente as costas nuas de Francesca. Francesca não respondeu. Tenho... Temos de fazer isto, instou Bernat, agarrando-lhe um pulso, para a voltar para si. Não me toques!, gritou-lhe Francesca, abandonando o seu alheamento. Vai custar-me! Bernat virou com violência a sua mulher, descobrindo o corpo nu dela. Deixa-me! Lutaram, até que Bernat conseguiu agarrá-la por ambos os pulsos e prendê-la. Mesmo assim, Francesca resistia. Virá outro!, sussurrou-lhe. Se não for eu, será outro a..., forçar-te! Os olhos da rapariga ganharam vida e abriram-se de novo, acusadores. Lamento muito, lamento muito..., desculpou-se.
Francesca não parou de se debater, mas Bernat deitou-se sobre ela com violência. As lágrimas da rapariga não foram suficientes para arrefecer o desejo que nascera nele, ao contacto com o corpo da jovem, e penetrou-a enquanto Francesca gritava contra o Universo inteiro. Esses gritos satisfizeram o soldado que seguira Bernat e que, sem qualquer pudor, contemplava a cena, com metade do corpo surgindo por entre as tábuas do chão, na abertura da escada. Ainda Bernat não tinha terminado de forçá-la, quando Francesca parou de se opor. Pouco a pouco, os gritos dela tornaram-se soluços. Foi o choro da sua mulher que fez companhia a Bernat quando alcançou o clímax. Llorenç de Bellera ouvira os gritos desesperados que procediam da janela do segundo andar e, quando o seu espião lhe confirmou que o casamento estava consumado pediu os cavalos e abandonou o local com a sua sinistra comitiva. A maioria dos convidados, abatidos, imitou-o.
A quietude abateu-se sobre a casa. Bernat, em cima da sua mulher, não sabia o que fazer. Só então se deu conta de que a mantinha fortemente agarrada pelos ombros; largou-a, para apoiar as mãos no colchão, junto à cabeça dela, mas depois o corpo caiu sobre o dela, inerte. Instintivamente, recuperou, esticando os braços para neles se apoiar, e deu com os olhos de Francesca, que o olhavam sem o ver. Nessa posição, qualquer movimento fazia que roçasse de novo pelo corpo da sua mulher. Bernat desejava evitar essas sensações, mas não sabia como fazer isso sem continuar a magoar a rapariga. Desejou poder levitar para se poder separar de Francesca sem lhe tocar. Por fim, depois de uns instantes infindáveis de indecisão, afastou-se da rapariga e ajoelhou-se junto dela; também agora não sabia o que havia de fazer: levantar-se, deitar-se ao lado dela, sair dali ou tentar justificar-se... Desviou o olhar do corpo de Francesca, caída de barriga para cima, exposta de forma soez. Procurou o rosto dela, que estava a menos de dois palmos do dele, mas não foi capaz de o encontrar. Baixou o olhar, e a visão do seu membro nu, de repente, envergonhou-o. Lamento... Um inesperado movimento de Francesca surpreendeu-o. A rapariga virara o rosto para ele». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) Isso é vida de freira. Uma luz forte entrava através das gelosias por onde se avistavam mastros de navios e o trapiche, roupas de cores vivas penduradas ao sol, sacadas e rótulas de treliças. Ouviam-se cavalos passando, gente gritando, crianças. Mariana animou-se com os ruídos da rua e as luzes que invadiam aquele aposento com cheiro de mofo. Sobre uma almofada, viu o caixote com letras douradas. Chegou na frota, não? Fernando abriu a caixa e retirou o pano, exibindo o retrato com veneração. Nosso rei! Mariana flexionou os joelhos, em cumprimento. Majestade. O rei!, em efígie. É como se estivesse presente entre nós. Mariana curvou-se de novo, agora com muito mais reverência. Os olhos do governador brilhavam. Sabeis o que significa a presença do rei no Rio de Janeiro?, disse Fernando, sem desviar a sua atenção do retrato. A graça real. O poder divino e humano, senhor da vida e da morte dos homens. Os únicos limites do rei são o próprio rei. Ele tem mesmo as sobrancelhas arqueadas. Dona Maria Clara o viu pessoalmente. Significa tenças, empregos, privilégios, benefícios, honra. Poder. Ele é tão jovem, disse Mariana.
Fernando cobriu o retrato. Sobre a mesa do governador havia papéis, tinteiro, areeiro e pena, lacre, um rolo de fita de veludo, relíquias, uma pequena escultura dourada de nereidas nuas entre serpentes marinhas. Quereis tomar algo? Porto? Não, disse Mariana. O governador fez sinal para que o mordomo se retirasse. Ficaram a sós. Como vai vossa mulher? Como sempre, ocupada com costuras ou bilros. E os mancebinhos? Estão todos bem. E vós? Tenho andado bastantemente cansado. É muito mais difícil governar o Rio de Janeiro que Pernambuco. Aqui há problemas imensos, serão mais dois anos de lutas sem tréguas. Fernando tinha que governar as armas e presidir às juntas da Justiça e da Fazenda, com inspecção sobre o estado político, conforme regimentos aprovados pelo rei. Mas como fazer isso se os provedores, ouvidores, tesoureiros, procuradores, escrivães se engalfinhavam?
Além das questões internas o governador devia enfrentar piratas que atacavam em Cabo Frio, franceses rondando e planeando assaltos pelo mar, espiões europeus, soldados que desertavam, o descaminho do ouro, rusgas, desinteligências, antagonismos, paixões, devassidão. Cruzei com o bispo no corredor. Fingiu não me ver. Não creio, prima. Devia estar mesmo cego. Depara-se com problemas terríveis, no momento. Está sem catedral. Espera esmolas do povo a fim de construir a nova Sé, pois o rei não lhe enviou o dinheiro de que precisa. Não podeis dar uns dez mil cruzados de esmola? Vou mandar o senhor Tenório verificar.
Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense. Uma dama, dizia sua mãe, não devia revelar nem a si mesma as suas fraquezas. Dona Mariana, soube que andastes vendendo propriedades. Estais com problemas de fazenda? Ah, Deus, não tendes nada que investigar a minha vida. Não vou dar a ninguém o prazer de saber-me arruinada. Uma chusma começou a berrar na rua. Um cortejo fúnebre, ao passar diante do Carmo, estava sendo dissolvido pelos padres que brandiam paus no ar, golpeando os acompanhantes do enterro que vingavam com murros, pontapés, pedradas. Os carmelitas não se conformam com o privilégio da Misericórdia de realizar funerais, disse Fernando. Sabeis quanto se lucra com um enterro? Porque estais sempre contra os padres?» In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Bala Santa. Luís Miguel Rocha. «Quando estava prestes a desistir e tentar outra porta, ouviu passos pesados, provindos do interior da casa, a aproximarem-se da entrada. O ranger dos gonzos…»

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Jerusalém
«(…) Prosseguiu no trilho histórico, pejado de casas e lojas, deixando a multidão dos crentes seguir o resto da História lá para trás, na Via Dolorosa, passando, sem deitar um segundo olhar, à primeira estação da Cruz, no Mosteiro da Flagelação, onde o Cristo foi condenado e barbaramente torturado pelos legionários a soldo de Pôncio Pilatos. Um pouco mais adiante, o homem cortou à esquerda, na Qadisieh, repleta de casas baixas e portas fechadas. Bateu na terceira, do lado esquerdo. Ali teria de perguntar pela direcção. Quem abriu foi uma mulher de tez escura, não lhe escapou a cor, apesar do pouco que as vestes deixavam entrever. Assim manda a tradição muçulmana, que as mulheres nada mostrem, pois o homem não pode ser tentado pela carne da fêmea e, se o for, a culpa é, naturalmente, dela. Perdoe-me a intromissão, escusou-se. Terá a gentileza de me informar onde fica a casa de Abu Rashid? A reacção da mulher foi um intempestivo bater com a porta, deixando-o especado a olhar a madeira lascada pelos anos. Das duas, uma, ou é esta a casa de Abu Rashid ou não.
Quando estava prestes a desistir e tentar outra porta, ouviu passos pesados, provindos do interior da casa, a aproximarem-se da entrada. O ranger dos gonzos revelou um homem robusto com barba e bigode grisalhos, túnica da cor do vinho tinto a cair-lhe sobre o corpo, marcas da sempre honrosa tradição. Boa tarde, cumprimentou o estrangeiro. Saberá dizer-me onde fica a casa de… Sim, sim…, resmungou o velho barbudo, impaciente, inundando o ar com perdigotos. Fitou o estrangeiro de fato negro, avaliou a meia-idade e virou costas, deixando a porta aberta. Deixa os sapatos à entrada. Não levou muito tempo a acatar as ordens do proprietário e descalçou-se. Sentia-se um pouco suado e a precisar de um banho, mas não ia virar costas ao trabalho só por se sentir desconfortável. O seu bem-estar estava muito abaixo na lista de prioridades. Entrou na casa de forma respeitosa, desde muito cedo aprendera que reverenciar os outros traz benefícios a curto, médio e longo prazo. A luz penetrava livremente pelo topo da casa que, à excepção da porta que voltava a estar fechada, deixava o ar entrar e arejar o corredor e as divisões. Sentiu vários olhares femininos sobre a sua nuca, apesar de não os conseguir ver. Perscrutou alguns risinhos tímidos por detrás das cortinas.
Quedou-se a meio do corredor. Não queria ser indelicado e entrar onde não devia. Aguardou um sinal do velho, que chegou em forma de convite. Shai?, ouviu perguntar de uma antecâmara mais ao fundo do iluminado espaço. Encaminhou-se nessa direcção e deu com ele sentado num cadeirão de baloiço, a fumar um cigarro. Uma mulher descoberta abana um leque ao seu lado, afugentando o calor repentino do final da tarde e secando com um lenço de tecido as gotículas de exsudação que teimam em formar-se na testa dele. Porventura, a sua esposa ou uma delas. Sim, aceito, respondeu o estrangeiro. Obrigado. Um leve gesto para a jovem mulher, e esta saiu esbaforida para cumprir o mandado, deixando a canícula apoderar-se do seu lindo marido.
E cobre essa cabeça, gritou o homem na entoação certa para que a ordem fosse ouvida. Temos visitas. O estrangeiro fitou-o durante alguns segundos, com a preocupação de não se mostrar inconveniente, contudo, o velho muçulmano rodeava-se de uma aura de mistério tão cativante que dificultava qualquer movimento». In Luís Miguel Rocha, Bala Santa, Cavalo de Ferro Editores, Paralelo 40, Lisboa, 2007, ISBN 978-989-813-400-4.

Cortesia de CFerro/JDACT

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Na messe de oficiais do Luso, espécie de Bairro da Madre de Deus de ruas geométricas e casas económicas plantado no planalto dos Bundas, no espírito Portugal dos Pequeninos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De tempos a tempos, no entanto, Portugal reaparecia sob a forma de pequenas povoações à beira da estrada, nas quais raros brancos translúcidos de paludismo tentavam desesperadamente recriar Moscavides perdidas, colando andorinhas de loiça nos intervalos das janelas ou pendurando lanternas de ferro forjado nos alpendres das portas: quem levou séculos a semear igrejas acaba inevitavelmente, por reflexo, a colocar jarras de flores de plástico no tampo dos frigoríficos, do mesmo modo que Tolstoi, agonizante, movia os dedos cegos no lençol repetindo o acto de escrever, com a diferença de as nossas frases se resumirem a boas-vindas de azulejo e a palavras de acolhimento desbotado no capacho da entrada. Até que ao fim da tarde, um fim de tarde sem crepúsculo, com a noite a suceder-se abruptamente ao dia, chegamos a Nova Lisboa, cidade ferroviária no planalto, de que guardo uma confusa lembrança de cafés provincianos e de montras poeirentas, e do restaurante onde jantamos, de espingarda entre os joelhos, obsevados por mulatos de óculos escuros parados diante de cervejas imemoriais, cujas feições imóveis possuíam a consistência opaca das cicatrizes; durante todo o bife senti-me como que no prefácio do massacre de S. Valentim, prestes a tiroteios de Lei Seca, e levava o garfo à boca no aborrecimento mole de Al Capone, compondo nos espelhos sorrisos de crueldade manifesta; ainda hoje, sabe, saio do cinema a acender o cigarro à maneira de Humphrey Bogart, até que a visão da minha imagem num vidro me desiluda: em vez de caminhar para os braços de Lauren Bacall dirijo-me de facto para a Picheleira, e a ilusão desaba no fragor lancinante de um mito desfeito. Meto a chave à porta (Humphrey Bogart ou eu?), hesito, entro, olho a gravura do vestíbulo (já definitivamente eu a olhá-la) e afundo-me no sofá no suspiro de pneu que se esvazia de uma Gata Borralheira ao contrário. Como quando sair daqui, percebe, ao ter acabado de lhe contar esta história esquisita e de ter bebido, em vagares de camelo, todas as garrafas visíveis, e me achar lá fora, ao frio, longe do seu silêncio e do seu sorriso, sozinho como um órfão, de mãos nos bolsos, a assistir ao nascer da manhã numa angústia cremosa que a lividez das árvores macabramente sublinha. As madrugadas, de resto, são o meu tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas de amargura e de rancor. Nada vive ainda e, todavia, uma ameaça indefinível ganha corpo, aproxima-se, persegue-nos, incha-nos no peito, impede-nos de respirar livremente, as pregas do travesseiro petrificam-se, os móveis, agudos, hostilizam-nos. As plantas dos vasos avançam para nós tentáculos sequiosos, do outro lado dos espelhos objectos canhotos recusam-se aos dedos que lhes damos, os chinelos sumiram-se, o roupão não existe, e no interior de nós, teimoso, insistente, dolorosamente lento, caminha este comboio que atravessa Angola, de Nova Lisboa ao Luso, a transbordar de homens fardados que cabeceiam contra as janelas à procura de um sono impossível.
Conhece o general Machado? Não, não se franza, não procure, ninguém conhece o general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do general Machado, o planeta gira apesar desta ignorância do general Machado, e eu pessoalmente odeio-o. Era o pai da minha avó materna, a qual, aos domingos, antes do almoço, me apontava com orgulho a fotografia de uma espécie de bombeiro antipático de bigodes, dono de numerosas medalhas que tronavam no armário de vidro da sala juntamente com outros troféus guerreiros igualmente inúteis, mas a que a família parecia prestar uma veneração de relíquias. Pois fique sabendo que durante anos, aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados pela voz emocionada da avó, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunstância a cumes de epopeia: o general Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzindo na carne o mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me enjoava. E foi precisamente esta criatura nefasta, de que as órbitas globulosas de prefeito ou de cura me reprovaram da parede, recusando-me mesmo a absolvição dúbia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que construiu, ou dirigiu a construção, ou concebeu a construção, ou concebeu e dirigiu a construção do caminho de ferro em que seguíamos, de rebenta-minas na dianteira, chocalhando numa planície sem princípio nem termo, mastigando as conservas da ração de combate num desapetite em que morava já o medo pânico da morte, que durante vinte e sete meses cresceu na humidade das minhas tripas os seus cogumelos esverdeados. Na messe de oficiais do Luso, espécie de Bairro da Madre de Deus de ruas geométricas e casas económicas plantado no planalto dos Bundas, no espírito Portugal dos Pequeninos corporativo que fez do Estado Novo uma constante aberração por defeito ou por excesso, vi, pela primeira vez em muito tempo, cortinas, cálices, mulheres brancas e tapetes: a pouco e pouco aquilo a que durante tantos anos me habituara afastava-se de mim, família, conforto, sossego, o próprio prazer das maçadas sem perigo, das melancolias mansas tão agradáveis quando nada nos falta, do tédio à António Nobre nascido da crença convicta de uma superioridade ilusória. Por exemplo, a tristeza depois do jantar substituía as palavras cruzadas do jornal, e entretinha-me a preencher os quadradinhos em branco de trabalhosas elucubrações oscilando entre o idiota chapado e o vulgar profundo, limites aliás entre os quais o pensamento lusitano se condensa, equivalentes metafísicos dos versos dos cravos de papel». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT