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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «… pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi»

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«(…) O que vos quero dizer, porque o descobri, é que o mundo dos vossos mortos está alterado, estão inquietos e celebram assembleias e todo o tipo de reuniões, mas ignoro ainda por que motivos e com que fim. Há dois meses que venho escutando as tumbas dos vossos antepassados, tanto os sepulcros novos das catedrais como os velhos e vazios do destruído Mosteiro de Santo Mauro e posso assegurar-vos que, na sua inquietação de mortos sérios, se remexem que, através do silêncio e da distância, se falam, há vozes que se ouvem como colóquios remotos e não se pode entender o que dizem, de tão distantes, de tão fundo. As vozes dos mortos pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi.
Sereníssima Alteza, sonhei que a Torre de Menagem caía e recobrava em seguida o seu aprumo e sonhei que um barco se afundava e emergia meia milha mais adiante, sem que parecesse ter-se afogado ninguém da tripulação, sem que os guardas da Torre tenham sofrido qualquer dano. São avisos, senhor, estes sonhos, não sei se do Inferno, isso não está esclarecido. Sereníssima Alteza, isto não é tudo, é só o princípio. O mundo da Verdade dormia. Agora, de repente, desperta e estes são alguns sintomas. Porque será, senhor? Os avisos que meu avô revelou ao vosso precederam a chegada de Napoleão. Que anunciam agora as vozes, as sacudidelas, os alvoroços dos mortos? Espero que, daqui a algum tempo, ambos cheguemos a sabê-lo. Vesti a horrorosa sobrecasaca cor de tabaco para assistir no domingo aos ofícios: de bom grado lhe teria acrescentado um cartaz nas costas no qual, com letras bem visíveis, teria escrito:

Para mim não é segredo, meu amigo.
O que vai acontecer é que o meu primo me vai derrubar do trono, nem mais, nem menos.

Não seria decoroso, ainda que conveniente. Quanto à sobrecasaca, vesti-a, contudo, porque, assim, o misterioso informador ia-me mantendo a par de todos os prodígios que via por sua conta e deixava-me tempo livre para as minhas vulgaridades. Admirável servidor, espelho de súbditos leais e de videntes! Foi pena a sua insistência no anonimato. Foi assim que fiquei a saber, quando ainda era grão-duque, das cavalgadas nocturnas dos meus mortos. Agora que estou destronado, vejo os que regressam do mar. E falarei deles.

Será conveniente que apresente, também, ao comandante dos meus exércitos, o meu amigo Fritz, barão de Cronstadt por concessão do czar Pedro I a um antepassado seu. Não sei qual dos meus avós autorizou a família dele a usar o título no meu país. Em sociedade, chamavam-lhe Cronstadt; no quartel, comandante; no meu palácio, simplesmente, Fritz». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la…»

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«(…) Quando Myriam estava quase a cumprir dezasseis anos, escrevi a sua tia, à condessa Prisciliana, convidando-a a passar uma temporada connosco e, na noite da sua chegada, depois de as princesas se terem retirado, combinei com ela a melhor maneira de comunicar a Myriam quem era o seu pai; não um pobre grão-duque sempre ameaçado pelas baionetas do Águia mas, sim, um homem famoso em toda a Europa que, apesar de ter que se acolher à benevolência dos grandes, sabia que o seu nome era ainda maior, cimentado numa obra imarcescível e não numa biografia discutível. Não pude evitar que a rapariga goste de mim, porque esse foi o desejo de sua mãe mas, como também a eduquei no sentido do dever e na fortaleza de ânimo, julgo que, se não puseres demasiado dramatismo na revelação, a menina receberá o seu presente de aniversário com serenidade e sem derramar uma lágrima, ainda que talvez não com alegria. Podes também dizer-lhe que, se desejar conhecer o pai, eu estou disposto a pagar-lhe uma viagem até Weimar, que é onde Liszt vive agora, e a ti também, se quiseres acompanhá-la. Da têmpera que demonstrou Myriam haveria muito a dizer se fosse coisa que se divulgasse mas convém não esquecer que, de certo modo, apesar de seu pai ser famoso e da sua mãe ser uma princesa reinante, a história da sua origem deveria ser, para todos, um segredo de alcova. No próprio dia do seu aniversário, quando todos se haviam retirado, incluindo a tia Prisciliana, que abusava do café e da palavra e não havia quem a mandasse para a cama, apareceu Myriam, sentou-se ao meu lado, esteve silenciosa uns minutos e disse-me, depois: senhor, quero comunicar-lhe que hoje é o dia mais infeliz da minha vida. E eu respondi-lhe: o facto de saberes o que sabes não muda nada entre nós.
Eu creio que muda, senhor, ainda que, de momento, talvez mude pouco. O meu propósito é renunciar a esta situação falsa de princesa feliz e independentizar-me paulatinamente. Como sei que Vossa Alteza me ama, não deixarei de o consultar acerca das minhas determinações. Mas peço-lhe que compreenda que a minha obrigação é separar-me. Queres conhecer teu Pai? É, provavelmente, a minha obrigação; não creio que seja o meu gosto. É a primeira coisa sobre a qual quero consultar-vos. Vai a Weimar. No regresso da viagem só me comentou: o meu pai, senhor, é um homem admirável, apesar de muito preocupado com a salvação da sua alma porque, ao beijar-me a fronte, me disse que eu era o seu pecado, quando sei que tem pelo menos outros três. A tia Priscilíana desatou a rir e chamou-me hipócrita. Mas o meu pai não se riu e vi-me numa situação tão violenta que, para se notar menos a minha presença, me pus a meter o nariz por aquelas bandas. Meu pai vive numa casinha com um grande salão, com um grande piano e muitas fotografias. São todas de duquesas, de princesas, de imperatrizes e algumas de reis.
O tampo do piano é tão brilhante, senhor, que dá gosto mirarmo-nos nele! Sabe que estava lá a minha irmã Cósima? Não me ligou nenhuma, de modo que pude observá-la: é feia e dura, não gostei dela. Também parece preocupar-se muito com a salvação da alma do meu pai, mas pergunto-me como irá fazê-lo rodeado de tantas mulheres belas e tantas recordações más. A propósito, senhor, o retrato de minha mãe não está naquele harém. Creio que foi na época do regresso de Myriam, ou muito pouco tempo depois, que recebi o primeiro relatório do Incansável Observador do Mistério. Poderia ter averiguado, mas não o fiz, quem era aquele sujeito que durante um certo tempo me enviou, com regularidade, as notícias de tudo o que de extraordinário e maravilhoso acontecia nas terras do grão-ducado mas, principalmente, na sua capital. A sua releitura faz-me, com frequência, feliz e reconheço que, graças a esses papéis, vivi boa parte da minha vida com uma porta aberta para esse mundo no qual pouca gente crê: provavelmente com razão, mas uma das coisas que tenho aprendido é que não são precisas razões para crer. Esse primeiro relatório dizia, textualmente: Sereníssimo Senhor: ouvi contar a meu avô que, durante muitos anos, informou regularmente o avô de Vossa Alteza de tudo o respeitante a alguns factos que passam despercebidos ao comum dos vossos súbditos mas que nem por isso deixam de ter importância para os que governam um país. Poderemos chamar-lhes, se o vocábulo lhe agradar, premonições. Se meu avô interrompeu os seus serviços à Coroa e ao Estado, isso deveu-se a que o sucessor de vosso avô, vosso sereníssimo pai, jamais tenha prestado atenção a esses papéis, nem nunca tenha acreditado neles, mas convém recordar que, em tempo de vosso pai, as coisas deste mundo andavam melhor e os habitantes do outro estavam sossegados. Eu, que recebi de meu avô e de meu pai a capacidade de ver, acho-me na obrigação de reatar aquele antigo costume com a esperança, quase com a certeza, de que essas revelações serão bem recebidas. Mas não esqueço, ao mesmo tempo, que o meu dever de súbdito é não incomodar o soberano. Por semelhante razão, se os termos deste primeiro escrito merecerem a atenção e o interesse de Vossa Alteza, peço-vos que, nos ofícios do domingo, leveis a sobrecasaca cor de tabaco que tão escassamente vos favorece. Vê-la e vislumbrar a pluma será quase o mesmo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

domingo, 19 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido…»

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«(…) Mandou chamar sua tia, a condessa Prisciliana, mulher de grande experiência; fechou-se com ela e, quando quis explicar-me o combinado pedi-lhe que o mantivesse secreto. Durante a gravidez escreveu vinte cartas a Liszt e recebeu três: não li nenhuma delas. Nasceu a menina e Amélia teve umas febres, que ocultou até já não haver remédio. Disse-me: obrigada, Ferdinando, e perdoa-me, e morreu. Esqueceu-se de me avisar de que a criança deveria chamar-se Myriam, mas eu não o havia esquecido. O meu primo, a Águia do Leste, teve um ataque de riso quando soube do nascimento de Myriam e da morte de Amélia. A Myriam, como presente, mandou-lhe um título de condessa, talvez para que não se visse obrigada, quando atingisse a maioridade, a andar pelo mundo com um nome que não fosse seu. Pois, é verdade, foi um pormenor do Águia! Os títulos do seu império andam muito cotados. Escrevi a Franz Liszt uma carta autógrafa na qual lhe dizia:

Meu caro senhor: há já uns meses que passou umas semanas no meu palácio e deleitou com a sua arte a então princesa reinante, minha esposa Amélia. Lamento ter que lhe comunicar a sua morte, assim como o nascimento da princesa Myriam, cujo desvalimento de mãe o meu povo tenta compensar com o seu entusiasmo. Não se esqueça de que fui seu amigo. Ferdinando Luís.

Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido, se o foi, uma carta sublime, dessas que podem completar o retrato de um génio se algum curioso as descobre num arquivo ou num lote de leilão. Quanto a mim, posso dizer que a pequena Myriam me parecia tão indefesa, com a sua grande fronte prematura de músico excepcional, que me propus criá-la como se fosse minha. Rosanna ajudou-me durante muitos anos. Se alguma vez tive ciúmes, foi do amor que mutuamente mostravam, pelo receio de que algum dia me excluíssem dele, quando viessem a saber, inevitavelmente, que o pai delas é tonto. Enganei-me.

Uma vez, a Águia do Leste e eu encontrámo-nos em Marienbad: iam comigo as princesas e desejou conhecê-las. Quando isto sucedeu, se Carlos Frederico Guilherme pensava declarar guerra à França, ainda não o havia manifestado, mesmo que considerasse a guerra ganha. Que maneira ele tinha, num mundo com classe, de conduzir a sua patuda figura de janízaro misto! As minhas filhas saudaram-no com uma reverência impecável e com um desprezo tão discreto que nem ele, constantemente desconfiado, pôde captar, mas que me divertiu. Não assim o que imediatamente me comunicou:

Como Rosanna será tua herdeira, vai-a já preparando para o casamento com o nosso primo Raniero. Raniero pertence à melhor família da Silésia oriental, está na escola militar e, quando a tua filha tiver chegado à idade de casar, Raniero será, pelo menos, comandante. O teu grão-ducado é um dote suficiente, mas também indispensável, de modo que também te conviria ir pensando na abdicação como prenda de casamento.

Viu-se que, mais tarde, mudou de opinião porque não esperou, para nos invadir, pelo casamento de Rosanna e pela minha abdicação, da qual tardiamente veio a saber. Não deixa de ser curioso que Rosanna, muitíssimo parecida com sua mãe, goste de música como gosta e que, pelo contrário, Myriam, que conserva a sua ampla fronte de génio prematuro, mas que é suficientemente bonita, lhe interessem as ciências naturais. Ainda falam de parecenças!» In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava…»

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«(…) Eu também gostava de o ouvir, a esse mago, quando tocava, e também quando falava e nos contava as suas recordações de pessoas famosas de Paris, umas mortas, como Chopin, outras ainda vivas, como a famosa George Sand (de quem, aliás, se ria). Apercebi-me sem grande esforço da simpatia mútua nascente entre Amélia e Franz Liszt. Pensei na minha mulher: esta criatura pode ver a sua beleza fanar-se sem ficar com uma recordação de amor e saí de casa. Pouco depois de ler a carta de Liszt, Amélia veio, uma noite, aos meus aposentos e confessou-me que estava grávida. Há muitas razões, entre outras, a nossa lealdade mútua, pelas quais ponho nas tuas mãos a solução. Aceito, se for legal, o repúdio, porque tens esse direito; também aceito o divórcio; estou disposta, ainda assim, a partir e a ter um filho secreto, mas será um segredo inevitavelmente relativo, porque ser sabido de todas as más línguas de Viena faz parte do costume e do tolerável. Se te ocorrer alguma outra solução, obedecer-te-ei.
Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava, lhe pedia que ficasse no palácio e tivesse o filho como se fosse meu, se não a envergonhasse o facto de a criança usar o meu nome e passar por legítima diante do mundo. Nesse oferecimento vejo a nobreza do teu coração, mas peço-te que me dês algum tempo para pensar. Admitirás, dada a tua magnanimidade, que consulte o pai? Naturalmente, sabes onde está agora? Uma princesa reinante tem sempre um pretexto para passar uns dias em Karlsbad. Avisa-me com antecedência da tua viagem e terei tudo preparado. Foram e vieram cartas entre Amélia e Franz Liszt. Não sei o que ele faria com as que recebia: eu atirei para o fogo as cópias sem as ler porque, não será um direito básico de qualquer pessoa o segredo do seu adultério?
Vou tal dia, disse-me Amélia; e tal dia partiu. Decidimos que o que vier nasça aqui e passe por teu até atingir a maioridade e, então, lhe seja revelado quem é. É esse o teu desejo? Não, respondeu, e começou a chorar; não acho justo dar-te um filho para depois to tirar, e continuou chorando. Por algum gesto involuntário deduzi que a sua entrevista com o génio das melenas escorridas, do estupendo nariz, dos dedos como gaivotas, não tinha sido feliz: Amélia havia-lhe falado da possibilidade de se divorciar, que ele recusou pelo facto de a sua religião não lho permitir. O mais grave, contudo, foi a carta que o meu primo enviou a Amélia. Não te lembras de que eu te proibi de teres mais filhos? A que propósito te passou pela cabeça ficares grávida? Se for menina, sorte vossa, do tonto com quem te casaste e tua; mas, se for varão, negar-lhe-ei, com provas, a legitimidade e não o reconhecerei como herdeiro.
Caramba para a Águia do Leste, como chamava Amélia ao meu primo! Chegou a altura do nascimento de Myriam. Disse-lhe: convém que encarregues alguém da tua inteira confiança de revelar à tua filha quem é, quando chegar o momento, para o caso de qualquer um de nós desaparecer. Pensas morrer?, perguntou-me com susto. Não, mas convém prever tudo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 18 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...»

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«(…) A carta de Franz Liszt à minha esposa Amélia, copiada em duplicado pelos esbirros do meu primo, pagos pelo erário público do meu pais, dizia: meu amor, com que força te ergues à minha frente quando executo o Segundo Concerto! Quão próxima ficas, como sinto a tua pele, quando toco os Sonetos! Graças à minha música, poderei reviver constantemente a nossa história tão breve, fá-la-ei tão duradoura como eu próprio e, se além do limite houver música, e eu creio que sim, nela persistirá o nosso amor inesquecível. Deus, que me deu a harmonia, deu-te a maternidade. O que na tua carta descreves das emoções da tua gravidez, é música feita vida. Perguntas como quero que se chame. Se for menina, Myriam, não sei porquê. Ou, melhor, sei: porque nesse nome vejo reunidas todas as virtudes e belezas de uma mulher. Myriam. Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...
Convém que eu conte a conversa havida entre mim e Amélia no próprio dia do nosso casamento, quando um monte de sorrisos falsos fechou a por… da nossa intimidade. Veio dizer-me que eu lhe era simpático, que entendia a minha situação e que considerava justo que eu conhecesse a sua. Não me amava nem esperava amar-me nunca. Aceitava o casamento a que a haviam obrigado com a mesma inteireza e sentido do dever com que o aceitavam a maioria das princesas, vimos ao mundo para isso, ainda que, diferente de muitas delas, considerasse, mais leal do que calar-se, ter comigo aquela conversa e fazia-o como uma homenagem, porque me sabia capaz de a compreender, não como tantos brutos que apelam à honra, fazem cenas, e acabam levando com os cor… como qualquer outro. Respondi-lhe que concordava, mas que tinha a obrigação de dar um herdeiro à minha minguada coroa e que só podia conseguir isso com a colaboração dela, se possível de bom grado e não forçada. Chegámos a um acordo e nasceu Rosanna. Agradeceu-me porque, apesar de gerada sem amor, era sua filha e amava-a. Se há, ou não, algum motivo para ter outro filho, já o discutirem. E não houve, porque o meu primo me mandou dizer que, para os seus planos, bastava uma princesa e eu que arranjasse uma amante: que pena que não possa sê-lo eu!, disse, rindo, Amélia, quando lhe dei a ler o ultimato do nosso primo; em vez disso sou tua amiga, a tua boa amiga.
E dedicou-se ao cuidado de Rosanna como mãe excelente. O pior foi que eu me apaixonei por ela sem jamais me atrever a dizer-lho: achava-a tão afectuosa, tão sincera, tão bem disposta comigo, que compreendi a dor que lhe causaria, quem sabe até, se a piedade, ao saber que eu a amava. Foi nesta situação que apareceu Franz Liszt, cuja chegada à minha capital não descrevo porque terei que o fazer com outra semelhante, ainda que convenha recordar que a sua passagem pelas ruas causou mais entusiasmo do que a breve passagem do corso, quando lá esteve; mas temos que ver a diferença: Napoleão, pequenote; Franz Liszt, um galarote entre mulheres. Por outro lado, a música do piano, tocada por Franz Liszt, sempre soa melhor do que a dos canhões, mesmo tocada por Napoleão. O imperador da França entrou no meu palácio como em sua casa e sem saber ao certo onde entrava, para além de num lugar para dormir, e a Franz Liszt convidei-o eu, porque Amélia gostava de música». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 29 de dezembro de 2018

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Inocente, não é verdade? Ou melhor, pueril. Mas acontece que turulú é a palavra que chateia, que irrita, que faz perder as estribeiras a Carlos Frederico Guilherme…»

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«(…) Não vejo as pessoas com estes binóculos mínimos. Às vezes pareço adivinhá-las, mas não é impossível que sejam ilusões favorecidas pelo desejo. Isto que vou contar agora não o sabe Carlos Frederico Guilherme, ignora-o Christian: só estão no segredo quatro ou cinco leais sem emprego que, de um momento para o outro, tiveram ocasião de exercer a sua lealdade. Acontece que não tive outro remédio senão pôr em jogo a minha liberdade e, talvez, a vida e entrar na minha cidade como incógnito clandestino. A minha filha Rosanna teve uma filha e, ainda que o pai seja o imbecil mais bem vestido da corte imperial, o mais afectado dos hussardos que ornamentam as tropas do meu primo, a criança era minha neta e apetecia-me dar-lhe um beijo. Circularam correios entre mim e Rosanna. Recorremos às pessoas que referi: numa noite de vento favorável aproximou-se certo bergantim ligeiro da praia mais próxima. A um sinal, entrei num bote e embarquei. A travessia foi boa, as entradas secretas do palácio não haviam sido entaipadas nem sequer encerradas e, assim, pude ver Rosanna e a pequena Carlota, que tinha o nariz de seu pai (o melhor do pai dela é o nariz), mas os olhos de Amélia e isto consolou-me e fez-me amá-la desde o início. Quando o disse a Rosanna, ela perguntou-me: e isso alegra-te? Sussurrei-lhe: tu não sabes que amei muito a tua mãe?
Ficou perplexa e, mais ainda, quando acrescentei: e também gosto de Myriam. É mais parecida com a tua mãe do que tu. Então, Rosanna deu-me um beijo. Foram as palavras e o beijo menos sinceros das nossas relações, porque eu sabia, e ela não sabia que eu sabia que ela sabia. Pois eu passei no meu palácio três dias sem ser reconhecido e, numa daquelas noites, alguns desses leais acompanharam-me a dar uma volta pelas ruas da cidade, pelos bairros marinheiros, pelos jardins. Numa tasca em que entrámos para tomar uns copos de rum, desse rum forte dos navegantes que eu não posso comprar, ouvi alguém que dizia a alguém: aquele com o casaco à inglesa não te parece o destronado Ferdinando? Estás com visões, Alfredo!; e não houve mais. Mas diverti-me naquela noite, enchi os pulmões de um ar esquecido e incomparável (não existe cidade marítima do mundo onde a humidade do ar seja tão fresca como na minha) e fumei um cachimbo com os cotovelos assentes num varandim, por cima da muralha, vendo afastar-se as luzes de presença de um navio de cinco mastros que zarpava para o além. Ainda navegavam os últimos cinco mastros: agora já não os há. O que se perde no horizonte são uns vestígios de fumo.
Naquela mesma noite, reintegrado no palácio e a coberto de indiscrições e suspeitas (uma mulher como Rosanna, casada contra vontade com um imbecil como Raniero, não tem outro remédio senão espevitar a astúcia para continuar vivendo sem que a tentação da alta torre não a ronde mais do que um par de vezes por ano; acontecia isto a Rosanna de cada vez que Raniero aparecia pela cidade e se deitava com ela: como já disse, um par de vezes); naquela noite, digo, escrevi ao meu primo Carlos Frederico Guilherme uma carta anónima nos seguintes termos: Senhor, a sua polícia não sabe que o ex-duque Ferdinando Luís vem com frequência a esta cidade e se reúne com um grupo de conspiradores que tentam repô-lo no trono? Ninguém o informou de que a Inglaterra lhes fornece armas, de que centenas de emigrados se treinam militarmente nos Estados Unidos e de que o sinal da sublevação será a chegada ao porto de um navio carregado de voluntários? Majestade, a sua polícia deixa muito a desejar!
Mas, depois, pensei que acabariam pagando os justos pelos pecadores e que Carlos Frederico Guilherme era capaz de torturar Rosanna até lhe arrancar o segredo da minha visita. Rasguei a carta anónima e escrevi outra, que, essa sim, lhe enviei e que me consta que recebeu:

Majestade: turulú!
Inocente, não é verdade? Ou melhor, pueril. Mas acontece que turulú é a palavra que chateia, que irrita, que faz perder as estribeiras a Carlos Frederico Guilherme e por boas razões, já que, em virtude de certos jogos infantis que não pôde esquecer, turulú!, recorda-lhe a Turquia. Mas só eu é que sei disto, que brinquei com ele em criança. Também ninguém entende porque não lhe passa a irritação até dormir com sua majestade, a imperatriz, que descende de Cados Magno, ela só capaz de enobrecer um rato só com levá-lo para a cama! Nos seus braços, o meu primo sente-se secretamente enobrecido e isso também não o sabe ninguém a não ser eu e, secretamente, por cima de todas as genealogias sem mácula, se é que as há (mas ele tem necessidade de que as haja). Quando a senhora está à mão, tanto melhor; mas quando está a viajar, ocasiões que ela aproveita para enobrecer a quem o necessita, o meu primo é capaz de cometer os maiores disparates. Como a famosa guerra contra a França que se temeu que ele declarasse num desses arrebatamentos, só porque o netinho lhe dissera: turulú!, e a senhora estava a tomar águas». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Cruzam a cidade canais e braços de mar, o mar penetra-a, as casas têm janelas viradas para o mar e varandas erguidas sobre as ondas e, por todos os lugares navegáveis»

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«(…) Ter-se-á rodeado meu tio Aleixo de monges inquisidores, de belas bruxas e de aparelhos de tortura? Desses pormenores nada se sabe. Isso de medieval referente às orgias, será um indício? No rés-do-chão e nas caves conservam-se, ainda, tanto a atmosfera sinistra como a quantidade de corvos e morcegos que os romancistas ingleses costumam considerar suficiente para este tipo de castelos, apesar de os descreverem maiores e mais complicados. Não sei se um aspecto tenebroso tão literário não deverá alguns dos seus pormenores ao arquitecto francês, que também percebia de aperfeiçoar as sombras e que, com bastante segurança, interveio, com os seus remendos, na atmosfera tenebrosa do castelo. Em qualquer caso, aqueles aposentos são tão escuros, tão amplos e lúgubres os patamares, que me metem medo, ainda que na medida estritamente indispensável para não sermos atrevidos. A porta de comunicação entre o meu mundo quotidiano e esse, excepcional, está fechada e firmemente trancada. Não recordo ter descido a esse inferno mais do que uma vez, apesar da sua indubitável fascinação: faz lá muito frio.
Adoptei, pelo contrário, o terraço. Fica por cima do mar, por cima da espuma e dos rochedos; quando sopra o vendaval, o estrondo sobe e ouvem-se as vozes que o vento traz, ora gemidos de moribundos, ou alaridos de triunfo e alvoroços de soldados sem freio. Às vezes, as gaivotas colaboram e, então, o estrépito adquire uma ordem, quase uma forma, que o torna semelhante a um concerto, ainda que bastante inusitado. Mas a brisa traz, com os seus sussurros, mensagens que quase ninguém entende; quando o tempo está calmo, o castelo fica como um fantasma no alto da névoa. Não disse ainda que, precisamente em frente daquela que foi a minha cidade, fica um estreito famoso por causa das batalhas navais que nele se travaram, talvez pela visibilidade do cenário; e como está elevado, refiro-me ao castelo, ao declinar da tarde instalo-me no terraço com os meus binóculos para ver se, com um pouco de sorte, vejo pôr-se o Sol: há poucos dias em que isso aconteça porque o engolem o nevoeiro ou a chuva, mas o que acontece é que o Sol cai sem pressas, lá longe, entre franjas negras de nuvens e franjas vermelhas de céu; sei que, então, o meu coração se comove e salta do mesmo modo que os corações dos que foram meus súbditos. Ainda não disse, mas digo-o agora, que no nosso escudo há um Sol poente e a palavra além: os nossos antepassados foram os primeiros a navegar mais além. O que, contudo, posso contemplar, com maior ou menor nitidez, são os mastros dos veleiros atracados nos molhes exteriores, de perfis imprecisos porque chove. No meu país chove muito; certa vez andou por lá um poeta inglês que disse, da minha cidade, que era de mastros e de chuva. Tinha razão. Cruzam a cidade canais e braços de mar, o mar penetra-a, as casas têm janelas viradas para o mar e varandas erguidas sobre as ondas e, por todos os lugares navegáveis, se metem barcos de todos os calados e de todas as bandeiras, de modo que, ao abrir as vidraças, de manhãzinha, há sempre uma fragata ou um bergantim cujos penóis se aproximam familiarmente, ou passam de largo como gente conhecida: é muito frequente que, da cozinha de um veleiro, um cozinheiro peça um pouco de sal a uma senhora que está varrendo o passeio em frente da porta. Já não vejo tudo isto, mas posso pressenti-lo como se estivesse por detrás de uma cortina, graças à generosidade e à cortesia do meu primo Christian, como já disse. Com uns binóculos mais potentes talvez chegasse a vê-lo, mas estão caros, com tantos avanços que agora têm. Uma vez veio por aqui de visita um capitão da marinha mercante cuja família se manteve sempre fiel à dinastia: pelo menos mil anos de fidelidade, desde os tempos em que um tetravô meu, de cornos no capacete, dava ordens a um timoneiro sobre questões de rumo. Prometeu trazer-me uns binóculos muito mais potentes mas, como me contou que andava apaixonado por uma morenita de Nova Orleães, não deixa de ser possível, ou que tenha ficado por lá de vez, ou que o não tenham deixado voltar por meio de bruxarias: tentadores como são os louros para melhorar a raça! Se não lhe tivesse acontecido nada deste género eu teria os binóculos e veria melhor a chuva e os veleiros. Às vezes, Christian vem, incógnito, almoçamos juntos, tomamos café e ele, depois, regressa. Numa dessas tardes disse-me: vês como, a longo prazo, a guerra de 1783 acabou por te favorecer? Se os teus antepassados tivessem vencido os meus, agora os nossos países seriam ambos de Carlos Frederico Guilherme e não poderias consolar-te do desterro contemplando a tua casa de tão perto. Já não contemplo o meu palácio de móveis inventariados desde que, numa tarde das claras, descobri que a bandeira que ondeava na torre não era a minha!» In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Diz-se que nele celebrava Aleixo as suas orgias medievais, mas este dado histórico, dito assim, nunca consegui entendê-lo»

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«(…) Para além das cartas há, também, alguns documentos dos chamados confidenciais. Rasguei muitos, na sua maioria delacções repugnantes, cartas anónimas contra este ou a favor daquele, quando não contra mim próprio. Pergunto-me como desafogariam certas pessoas a sua alma miserável antes de se popularizar a escrita. Quem terá sido o inventor genial da carta anónima? Fácil como é! Põem-se os insultos uns atrás dos outros e já está. Dá-se saída à inveja e ao ressentimento e já está: ficam rios de lixo. Não sei se falei já da senhora Stolle, mas voltarei a falar dela. Tem um salão frequentado por artistas e por outras pessoas inteligentes. Porque será que eu suspeito que foi desta casa que saiu a maior parte das denúncias contra os liberais, as acusações de deslealdade e de perversidade contra pessoas que considero minhas amigas ou, pelo menos, minhas defensoras? A senhora Stolle denuncia os seus próprios companheiros de tertúlia e imagino-a convencida de que presta um serviço à pátria, quando só favorece a Águia do Leste. Pelo contrário Paulus, o sargento... Tem a seu cargo informar-me do que se passa pela cidade. Dá voltas pelas ruas e fala com este e com aquele. Depois escreve-me.

Do sargento Paulus a S. A. o grão-duque Ferdinando Luís, respeitosamente
Senhor, no meu último relatório falava-vos de que a senhora Sauce iria dar à luz um dia destes: pois já foi mãe de uma formosa menina, à qual pôs o nome de Tarakanova o qual, na minha opinião, vai acabar por ser comprido demais. A menina Rosa, da loja das rendas, zangou-se com o namorado e isto causou grande agitação no bairro do Sul, porque a gente do bairro do Sul é muito solidária com todos os do bairro do Sul, e como o noivo da menina Rosa era do bairro do Leste, não o viam com bons olhos e o abandono de que fez objecto a menina Rosa é considerado como uma ofensa a todo o pessoal. É muito possível que haja brigas entre os rapazes do bairro do Sul e os do bairro do Leste que, segundo parece, também se solidarizaram com o noivo da menina Rosa. A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões, dos quais já vendeu quatro; e é o que diz a menina Verbena, que lhe faz concorrência: ou vende couves ou porcos, mas as duas coisas, não. Com certeza que o filho da senhora Verbena, contra a vontade dos pais que queriam associá-lo ao negócio, se embarcou numa fragata das que vão para Inglaterra, mas com a intenção de passar à América quando estiver mais desembaraçado a trepar aos mastros. Senhor grão-duque, à senhora Zanahoria, que tem uma loja de produtos importados na Rua do Leme Intacto, apareceu-lhe um caroço maligno debaixo de um sovaco e correu o boato de que ainda lhe vão aparecer outros seis: que pelo número lhes chamam andorinhos, não sei porquê: a senhora Zanahoria está  muito abatida e o marido dela dedica-se a correr os barcos estrangeiros em busca de um unguento que lhe cure a mulher, a quem, como está tão dorida, não pode tocar de noite. Por essa coisa de tocar ou não tocar também houve conflito, com bronca das grandes, na Rua do Caderna Esburacada: porque se descobriu que o senhor Saulo, o enfermeiro do Hospital, tinha tido relações com uma das enfermeiras e, por esta razão, a mulher dele não o admite no leito conjugal, e diz-lhe que se vá divertir com a outra: o bairro está dividido, os homens a favor do senhor Saulo e as mulheres a favor da Senhora Stella, que assim se chama a interessada.
O ponto alto do escândalo costuma ser por volta das oito da noite: é um espectáculo divertido e recomendável, no qual se vê como as pessoas se contentam com palavras, sem passar aos actos. Senhor grão-duque, à menina Esmeralda, que vende linhas e aviamentos de costura, tudo isso que elas chamam de capelista, na Rua do Peixe Voador, conforme se entra, o banco quis-lhe fechar a loja, porque não pôde pagar uma letra de vinte moedas que lhe vinha do estrangeiro: pois as pessoas fizeram imediatamente uma colecta, eu contribuí com dez peniques que faltavam e, quando chegaram os executores, pagou-se-lhes a letra e ficaram com uns narizes de palmo, porque o que faz os executores felizes é, precisamente, executar. Ele há gente mesmo má!

A villa que o meu amigo Christian me emprestou para viver é, na realidade, mais do que uma villa e um pouco menos do que um castelo: lindíssimo, se o pai de Christian, o meu tio Aleixo, não se tivesse lembrado de o restaurar: trouxe de França um arquitecto que o fez parecer mais medieval do que era, apesar de novo. Diz-se que nele celebrava Aleixo as suas orgias medievais, mas este dado histórico, dito assim, nunca consegui entendê-lo. Como foram as orgias medievais e em que se distinguiam das contemporâneas?» In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Primeira Mulher de Camilo. Silêncio Injustificado. Alberto Pimentel. «O boticário, que seguia as partes do morgado, lia a satyra á populaça, que ria ás escancaras»

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«Ha relâmpagos de memoria que abrem um vinco na fronte do homem. E a velhice extemporânea de alguns o que é se não recordarem-se?» In Camilo Castelo Branco, A Enjeitada
  
De acordo com o original 

«(…) Feita a admoestação e lidos os poetas, a imagem de Elmena (pseudónimo com que arcadicamente foi designada por Camilo uma sobrinha de certo vigário transmontano) tornou a apparecer a Camillo. Porque o seu espirito começava a precisar de um ideal feminino, que não podia ser a pobre camponeza já possuída como um livro que, depois de lido, nos saciou a curiosidade. Vivi daquella hora em diante, diz elle, mais clandestinamente com Apollo, já versejando por conta de Elmena, já versejando aos passarinhos que cantavam nos soutos e olivaes visinhos da janella do meu pobre quarto (ao anoitecer da vida). Comtudo, as cautelas adoptadas por Camilo não eram tão rigorosas, que o segredo das suas composições métricas fosse apenas conhecido dos passarinhos. Os condiscípulos de latim apreciavam-lhe a facilidade de improvisação, e a fama de poeta espalhava-se desde Friume até á Granja Velha. Foi justamente esta prenda litteraria que levou Camillo a abandonar precipitadamente o concelho de Ribeira de Pena. Elle mesmo se constituiu chronista dessa forçada emigração: n’aquella freguezia andavam ás más dois irmãos de fidalga prosápia, á conta do casamento desigual que um d'elles intentava fazer, contra a vontade do mais velho. Por parte dos sequazes d’este me foram pedidos uns versos, em que a noiva menos fidalga e o apaixonado mancebo fossem chanceados á conta de me não lembra que antecedencias mui ageitadas á galhofa métrica. Deu-me soberbas uma incumbência deste género! Poeta, e de mais a mais requestado para intervir com minha opinião em casamento tão fallado nas vinte aldeias circumpostas! Escrevi uma folha de papel almaço em quadras, que os interessados na publicidade affixaram na porta da egreja, momentos antes da missa das onze horas. O boticário, que seguia as partes do morgado, lia a satyra á populaça, que ria ás escancaras.
E eu de lado a revêr-me na obra, e a saborear-me nas alvares cascalhadas do gentio! Por um cabello que não fui então martyr do génio! A victima crucificada na porta da egreja não era das que dizem: Senhor, perdoai ao poeta, que não sabe as asneiras que diz! Apenas lhe constou que era eu o instrumento da vingança de seu irmão, preferiu quebrar o instrumento, e deixar não só o fidalgo, que também o boticário em paz. Poeta era eu só naquelle quadrado de dez léguas: avisadamente conjecturou o homem que, esganando a musa que o verberara, abafaria aquelle respiraculo da detracção inimiga. O padre mestre avisou-me horas antes da espera e da sepultura. Fugi com o magnum léxicon debaixo do braço, e com os ossos direitos que aquella terra ingrata me queria comer. Abandonando Ribeira de Pena precipitadamente, como quem foge a um perigo certo. Camillo deixou alli memoria de duas creancices: o casamento e a satyra. Que admira, se elle era uma creança de dezeseis anos?
Sob a protecção do sogro, veio para Lisboa, onde tornaria a ver Amélia ou Celestina, a qual se mostraria indifferente á recordação do galanteio infantil que ambos haviam entretido. Lisboa seria a terra escolhida intencionalmente, talvez por conselho de Sebastião Santos, para que fosse maior a distancia interposta ao auctor da satyra e ao seu feroz inimigo de Ribeira de Pena. Mas Camillo não estava habituado á vida da capital, que lhe fazia saudades da vida dos campos e dos passarinhos dos soutos e olivaes. Quando julgou mais acalmada a tempestade que a satyra desencadeara, foi para o Porto a fim de estudar preparatórios, porque o sogro não tinha desistido ainda de formal-o em medicina. De repente, num impeto de mocidade irrequieta, a que a saudade da infância não seria de todo estranha, Camillo emancipou-se da tutella de Sebastião Santos e acoitou-se em Villa Real em casa da tia Rita». In Alberto Pimentel, A Primeira Mulher de Camilo, Silêncio Injustificado, PQ 9261C3Z738, Guimarães & Cª - Editores, Lisboa, 1916.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. Mário de Carvalho. «O que me preocupava na altura, razão da minha convocatória a Airhan, eram os rumores de perturbações e correrias do outro lado do Estreito»

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«(…) A morte inesperada de Trifeno suscitou comentários desencontrados: uns entenderam que era vindicta divina contra os excessos de boa vida que ele ia levando; outros disseram invejá-lo, por um trespasse tão fulminante e isento de dores, nítida intervenção de Apolo. De um modo geral, todos lamentaram o desaparecimento de um magistrado que provinha de boas famílias, era risonho, dado a despesas, amigo do governador e que ninguém odiava particularmente. O decesso ocorreu durante uma leitura pública em casa de um decênviro chamado Ápito. Como era de norma, um dos duúnviros presidia. Habitualmente, calhava-me essa honra, ou, para ser mais sincero, essa mortificação. Naquele dia, porém, eu havia preferido receber um certo Airhan, recém-chegado a Tarcisis, que, muito à puridade, e com apelos de urgência, me mandara pedir alvíssaras por notícias que trazia do Sul. Repoltreou-se então Trifeno, em meu lugar, no cadeirão oficial que, sobre o estrado, era reservado ao duúnviro.
Segundo me contaram, a sessão decorreu com absoluta e morna normalidade. O primeiro orador anunciou que procederia à leitura de uma variação em torno da célebre questão que Demóstenes propusera em Atenas sobre a venda do burro ou da sombra do burro, e que tem sido glosada com minúcia por todos os jurisconsultos. Tudo se acomodou para sofrer a questão do burro, a que se seguiriam um diálogo sobre a munificência dos Césares e um poema heróico sobre a queda de Numância. Muito se bocejou e dormitou naquela audiência e, por isso, ninguém estranhou que a cabeça de Trifeno resvalasse e pendesse bandeada, mal sustida pelo espaldar da cadeira, nem que os seus pés, muito estendidos, tivessem feito derivar o tamborete para longe do assento. Só quando, horas depois, a sessão chegou ao fim e quiseram acordar Trifeno, primeiro com blandícia, após com violência, chegaram à conclusão de que a morte, como diziam, se tinha apiedado dele e o tinha poupado ao dilúvio de palavras e gestos que ali se produzira.
Ainda assim, o último orador, Proserpino, foi acusado, por uma maledicência risonha, de proferir apóstrofes mortais para ouvidos curuis e alguns jovens estroinas inventaram-lhe até uma alcunha formada com um neologismo grego que significava: o do fatídico verbo. Não me dá para sorrir quando relato estes acontecimentos, com a sua forma burlesca, nem pretendo divertir quem quer que seja. Quero apenas acentuar a despreocupação um tanto irreverente, de algum modo tola, e, em absoluto, ímpia, que então campeava em Tarcisis. Os mais notáveis nada tomavam a sério; a plebe não tomava a sério os notáveis. E nesta leviana irresponsabilidade, todos se julgavam protegidos por uma grande redoma, diáfana mas sólida, velada por benévolos deuses guardiões. A ninguém ocorria que a divindade do Imperador apenas fosse válida nos templos, que a autoridade do Senado e do Povo fosse escassamente garantida pelo acampamento da VII Legião Gémina, a novecentas milhas de distância e que, adentro das próprias muralhas, a corrupção da cizânia já lavrasse, depois que por elas entrou um certo homem de fraca aparência, mas de palavras aladas.
Foi Airhan quem me chamou a atenção para ele, de passagem, por forma vaga e como distraída: parece que anda por aí um estrangeiro, que diz ser mercador de nozes... Nome? Mílquion ou Mélquion, não sei bem... Logo mudou de assunto, sem acrescentar mais pormenores. Também não dei grande importância ao peregrino. O que me preocupava na altura, razão da minha convocatória a Airhan, eram os rumores de perturbações e correrias do outro lado do Estreito. Ao que parecia, pelas meias palavras dele, a situação aconselhava cautelas. Este Airhan era meu informador, informador dos meus antecessores, e de mais não sei quem. Nunca gostei dele, situação que lhe convinha perfeitamente, desde que o remunerasse e não caísse em curiosidades minuciosas sobre aquilo a que se pode chamar, simplificando, a sua maneira de estar na vida. Acostumado a que o detestassem, Airhan não esperava outro sentimento dos outros, ainda que fossem relativamente poderosos, como eu era então.
Cheirava asperamente a torpes couros curtidos e a ani-mais de estábulo. Mal ele entrava, a minha estância era logo impregnada daquele fedor que, persistentemente, continuava a contaminar os mais ínfimos e descomprometidos objectos, mesmo após a sua abalada. Durante muito tempo, a própria cera das tabuinhas denunciava o contacto com este homem». In Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, Editorial Caminho, Grande Prémio APE 1995, Prémio Fernando Namora 1996, Prémio Pégaso de Literatura 1996, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0974-X.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Rumor Branco. Almeida Faria. «… dispo-me só em parte, deito-me com frio, no entanto apetece-me escrever até adormecer, até ao esquecimento, descobrir a sintaxe e o som secreto. É urgente começar a construir partindo dos alicerces…»

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III Fragmento
«(…) chamaram o psiquiatra que lhe fez conversas demoradas e deve ter falado com os pais quando tentou assaltar pessoas que passavam tinha ideias destrambelhadas sobretudo se o vigiavam sofria de doenças raras queixava-se das que sabia e doutras inventadas chegaram a doer-lhe as unhas o cabelo e ficava no quarto durante dias a fio passou a ver os mortos e conversou com eles uma noite desejou morrer também e o que é mais estranho morreu mesmo ficou na cama hirto mudo de olhos fechados vieram levantá-lo não deixou não comia pitada e se com tratamentos tentavam convencê-lo de que estava vivo tinha a certeza de ter falecido e o automóvel mais não era que um carro funerário e como não tentei desiludi-lo ficou-me muito grato finalmente topava com alguém compreensivo e depois disso revi-o e o meu melhor amigo não é agora um vivo mas um morto. entorpecidos todos, encostados uns nos outros, olhando, beijando-se sem ânimo como cumprindo um rito, fumando a erva escondida, personagens de romance modernaço-pires. às vezes reúnem-se num quarto jogando stripteasepoquer e à medida que o jogo avança vão-se lentamente despindo mutuamente até ficarem nus. todos bebemos muito, alguém paga. o fumo faz chorar. Growinski pergunta a uma: dormimos hoje juntos? ela levanta-se e saem. saturado logo saio sem lhes dizer água vai. à porta um homem de gabardina com gola levantada mostra-me fotografias pornográficas, volto-lhe as costas, deambulo estonteado pelas ruas do bairro, ando sem rumo mas tenho de ir deitar-me, as pernas não as sinto de cansadas, os olhos fecham-se, o peito não tem ar, perambulo até de madrugada, até as nuvens se tornarem baças, tenho fome, puxo um cigarro a caminho de casa, agora a chuva cai, apresso-me, escorrego, a calçada ecoa aos meus passos, de luzes acesas os mercados trabalham, chegam carroças, furgonetas cheias de vegetais, cheira a relva cortada, chove cada vez mais e quando chego ao hotel vou alagado. dispo-me só em parte, deito-me com frio, no entanto apetece-me escrever até adormecer, até ao esquecimento, descobrir a sintaxe e o som secreto. é urgente começar a construir partindo dos alicerces que já estão abertos. temos de erguer a nossa morada. e quando a hora for chegada, se chegar, se antes disso a não abortar o homem velho, cobarde como é, sedeusquiser havemos de estar vivos, de ter casa habitável se a guerra do homem velho o consentir. havemos de. em planos inclinados o cansaço avança galopante até que pára com um estalar de vidros no ponto exacto do meu sono. aí vivi uma cidade morta, cadáveres pelas praças, lagos verdes de estagnadas águas, a morte ubíqua móvel, vários de nós junto da esquina, alguém arranca da viola violentas vibrações enquanto sinistros homens passam Growinski surge nu branco as costelas contando-se todos sobre ele se lançam e foge como pode sobe uma rua a pique corre em frente sempre mas começa a abrandar vai ser caçado tem um último impulso olha todos os portões procurando refúgio tudo está fechado alguém agarra em pedras outros o imitam atirando pedras Growinski tropeça olhando para trás tenta esquivar-se a um paralelepípedo que vai de encontro ao portal de ferro duma loja um estrondo um susto sem que ninguém surja ele cambaleia perde o equilíbrio quase cai fica amparado ao muro dum quintal ferido na cabeça sobre o lado esquerdo por cima da orelha já, na fonte sente o sangue quente o grupo a aproximar-se endireita-se segue muito a custo caminha arrasta-se não grita não quer dar o prazer de o ouvirem gri;... aí os pensamentos foram-lhe cortados nas costas uma pedrada o peito não dilata um vómito das vísceras até que cai de bruços e a testa bate nas lajes. Anders relata: raramente o raro rato ruivo rói a roupa remendada do rapaz romano que ruidoso rema rindo no rio de Roma, felizmente que o lobo lambeu o lodo e afogou-se no fogo sem que as numerosas maquiavélicas manicuras ameaçassem tratar-lhe da saúde ou tentassem armar-se em puras putas preparando um bom banquete e fazendo um brilharete no nobre palacete. alguns dias depois Kerstin informa-me: Growinski afogou-se ontem no Sena. o meu nome é Daniel João e ignoro quem eu seja. gostava de saber». In Almeida Faria, Rumor Branco, Editorial Caminho, 4ª edição, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0746-1.

Cortesia de Caminho/JDACT

Rumor Branco. Almeida Faria. «… que fazes na vida?: pintura e política. cabelo crescido, bigode à Pancho Villa, alta estatura, olhos castanhos sob sobrancelhas escuras, queixo grosso, nariz duro, lábios muito finos…»

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III Fragmento
«(…) Hora em que prostitutas entram nos cabarés para se despirem e depois se vestirem distantes do que fazem, é a hora em que, neste lugar, eu sei que não sou eu mas ignoro quem eu seja corpo que tudo une dando e recebendo e aumentando o dom de dar pelo próprio dom da doação e sei que qualquer coisa se abre à evidência de que fomos criados para que nos criássemos, que para nos fazermos fomos feitos e que os homens não nascem mas se fazem, a cada instante se fazem e nisso está a liberdade deles, não em fazer o que se quer, mas o que quer o ser, o que cada um é e não sabemos o que é mas sabemos que é e no poema emerge em cada verso, no furioso puro apelo do poeta a quem vazaram olhos para melhor cantar este poder da humanochimpanzaica condição  mais conhecida por pipapalacaquígrafo homo sapiens, descoberta naqueles casos em que a ciência fabiotética atenua as partes melódicas da prognóetica reminiscência aliás bicanforada, perdão minha senhora mas a moeda é falsa. são horas. chego ao quartel-general do grupo, vejo Kerstin logo, olho num relance a cave toda, abafada e funda cheia de gente que desertou do sol e vive nas trevas, atravesso o espaço livre para dançar, paro no meio do grupo mudo. sento-me em cima duma mesa suja e Growinski interroga-me exabrupto: que fazes na vida?: pintura e política. cabelo crescido, bigode à Pancho Villa, alta estatura, olhos castanhos sob sobrancelhas escuras, queixo grosso, nariz duro, lábios muito finos, as mãos grandes e rudes, a camisola comprida. está de pé a falar, os olhos fixos, faz o elogio de Picesso num tom didáctico empolado. a orquestra toca free jazz, Kerstin cola o corpo ao meu quando dançamos, passo-lhe os braços pela cintura, os outros olham-nos alheios, têm um certo desprezo uns pelos outros e também por si mesmos. gosto de Kerstin de berrante blusa e cabelos rebeldes. a canção acabou, regressamos à mesa, há una nuvem de fumo que as luzes inundam de tons azuis, acendo o meu cachimbo, talvez assim não sinta tanto o cheiro a cinza. atmosfera morna, ar pesado, as paredes abafam, da sombra da cave salta o saxofone, indistintas as mãos movem-se, rostos pálidos olhos apagados pares unidos no mesmo medo informe, idêntico o ritmo repete-se idêntico, os mesmos passos, tudo no lodo lento de rastos, a música morre, pares dispersam, a pista de madeira está vazia na sua cor sem brilho. calma construída de secretos ruídos num levedar da massa de instantes sufocados, uma lufada de ar, alguma coisa vai mudar, um grito de trompete acorda o torpor da cave. onda de sons desfeita em nada, corpos de pé apanhados na vaga, agitam-se convulsos, dança possessa de si mesma. Kerstin insiste em sentar-se sobre os meus joelhos, sobre o meu sexo, beija-me a barba, Growinski está contando que se suicida quando conhecer a beleza porque depois desse instante nada pode ser belo, nada há a esperar deste mundo de merda, Anders recita os seus satíricobscenos poemas de momento: na primavera incharam-se os jardins de novas flores e velhos pederastas de novos estupores e velhas madrastas e vieram todos os novos e velhos insectos infectos e não infectos até um novo modelo de barata feito na américa só sucata e outros engraçados bichos habituais como os pardais os cardeais os comensais os generais e ainda mais dois animais para os tanques trutas para os bancos prostitutas e este lugar animado é muito frequentado usado e abusado por sopeiras e magalas e peixeiras e marechalas, outro, cujo nome esqueci, um tipo de olhos vítreos, começa do seu canto cantando: conheci por acaso um gajo no teatro tinha um ar vago muito pálido cabelo louro-palha e à saída vi-o entrar num largo carro negro estofado de negro com motorista negro fardado de negro mas de luvas brancas mais tarde encontrei-o vezes várias no café o mesmo olhar desamparado até que uma tarde veio inesperado sentar-se à minha mesa como se tivesse contas a dar-me começou por dizer que se chamava Krauss e era rico mas apesar disso sempre fora tímido e ao contrário do que se julgava a timidez aumentou com a idade davam-lhe passeios estadas no estrangeiro arranjavam-lhe amigas festas farras tudo em vão a tudo tinha horror tudo lhe era estranho vivia aterrorizado por um peso tremendo e um perigo pendente…» In Almeida Faria, Rumor Branco, Editorial Caminho, 4ª edição, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0746-1.

Cortesia de Caminho/JDACT

domingo, 18 de outubro de 2015

A Primeira Mulher de Camilo. Silêncio Injustificado. Alberto Pimentel. «Em 1847, Joaquina Pereira adoecêra. A 25 de setembro d’aquelle anno (1847) fallecia. No dia 27 era sepultada como pobre. Poucos mezes depois morria a filhinha de Joaquina Pereira. Assim desappareceu rapidamente a primeira família constituida por Camillo»

O sogro de Camilo 
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Ha relâmpagos de memoria que abrem um vinco na fronte do homem. E a velhice extemporânea de alguns o que é se não recordarem-se? In Camilo Castelo Branco, A Enjeitada

Conforme o original

«(…) Camillo voltou ao Porto, como se combinara. Não lhe davam noticias de Friume, da mulher nem da filha, porque Sebastião Santos julgou que desse modo estimularia o amor do genro ao estudo. Desatados novamente todos os laços de família, por imprevidência do sogro, Camillo, feitos no liceu os exames preparatórios, matriculou-se no 1.º Anno da Escola Medica e na aula de chimica da Academia Polytechnica em outubro de 1843. Vivia como estudante pobre num esguio terceiro andar da rua Escura, rua que por este facto e por um romance de António Coelho Lousada ficou duplamente celebre. Na vida bohemia do Porto, colleccionando namoros colhidos nas trapeiras da rua do Souto e outras alfurjas, privado de ver a mulher e a filha por imposição autoritária do sogro, foi uma creança ás soltas, passou por todas as loucuras próprias da sua idade.
Elle mesmo o confessa, dizendo: Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essências das mattas altas, vestidas do rosiclér das auroras, da purpura vespertina dos crepúsculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalara á sargeta da rua Escura… Em 1847, Joaquina Pereira adoecêra de cambras. O pai não avisou Camillo. A pobre rapariga, cuja dedicação, fortalecida pelo amor da filhinha, talvez tivesse sido capaz de conter a mocidade de Camillo se Sebastião Santos os deixasse permanecer juntos, conheceu que morria e pediu os sacramentos. A 25 de setembro d’aquelle anno (1847) fallecia. No dia 27 era sepultada como pobre.
As carpideiras, vizinhas que pranteavam officiosamente, acocoradas numa attitude de ceremonia oriental, ululariam clamores fúnebres em redor do cadáver da mal-casada, até que o abbade José António Rodrigues, de sotaina e sobrepeliz, seguido pelos quatro portadores do esquife parochial e acompanhado pelo mozinho com a caldeira de agua benta, viria encommendar o corpo. A pobreza do acompanhamento teve alguma compensação na missa de corpo presente, que foi cantada. Mas faltaram no funeral aquellas lagrimas, que não são espremidas pela convenção das carpideiras, antes nascem do luto de almas saudosas. Poucos mezes depois morria a filhinha de Joaquina Pereira. Assim desappareceu rapidamente a primeira família constituida por Camillo. Pode dizer-se que elle foi marido e pai sem conhecer os encantos da vida caseira, porque o não souberam conduzir a essa felicidade, talvez a maior da vida humana.
Sebastião Santos sahiu de Friume, passados anos, e, sempre aventuroso na ambição, estabeleceu uma padaria em S. Cosme ou no Porto, não sei bem. Quando Camillo, já ligado a dona Anna Plácido, vivia na rua do Almada, d’aquella cidade, em um prédio fronteiro ao collegio Podestá, uma irmã de Joaquina Pereira, mocetona de lindas cores e guapo talhe, ia algumas vezes visitar o cunhado. Anna Plácido não gostava desta visita; disse-o uma vez a um parente de Camillo. revelando-lhe as suas apprehensões (… informando-me de que seu pae recebia ás vezes uma cunhada de capote e lenço, de cujo nome não me lembro e que ele requestava ou de que não desgostava, mas que vivia no Porto, bem como o sogro, que era padeiro; carta do conselheiro António Azevedo Castello Branco ao visconde de S. Miguel de Seide, que a incluiu no desvairado protesto contra a suposta filha de Camilo, etc., etc…).

A família da noiva
Vão passados dezassete anos desde a publicação dos Amores de Camilo, e as novas investigações agora realizadas, cujo resultado não alterou fundamentalmente a narrativa que deixo transcrita, vieram proporcionar-me óptimo ensejo de completá-la com exactas e seguras informações acerca da família a que dona Joaquina Pereira França pertenceu. Mais ainda: Parentes seus, felizmente ainda vivos e residentes no Porto, permitiram-me conhecer a sua versão sobre o primeiro casamento de Camilo e os factos que se lhe sucederam, versão com que nem sempre concordo, mas que vou reproduzir e comentarei sem malignidade. Facilmente se compreenderá a razão por que me antecipo a dizer que esta família prosperou em condições de vida e fortuna, devidas a casamentos vantajosos. Posto isto. evoquemos genealógicamente os ascendentes da linda Quininha, dona Joaquina Pereira França. Seu pai, Sebastião Martins Santos, era filho legítimo de José Martins Santos e de Helena Vieira. Nasceu em Fânzeres (seis quilómetros a nordeste da cidade do Porto), freguesia do concelho de Gondomar, em 10 de janeiro de 1810. Exercia o ofício de alfaiate quando casou com Maria Pereira França, nascida na freguesia de S. Cosme (oito quilómetros a noroeste da cidade do Porto), daquelle mesmo concelho de Gondomar, no ano de 1806, filha legitima de Manuel Pinto Castro e Maria Pereira França». In Alberto Pimentel, A Primeira Mulher de Camilo, Silêncio Injustificado, PQ 9261C3Z738, Guimarães & Cª - Editores, Lisboa, 1916.

Cortesia de GuimarãesE/JDACT

sábado, 17 de outubro de 2015

A Primeira Mulher de Camilo. Silêncio Injustificado. Alberto Pimentel. «… logo que elle se formasse em medicina, Joaquina Pereira sahiria de casa do pai para a companhia do marido: e que a filhinha seria entretanto educada num Recolhimento portuense»

jdact e wikipedia

Ha relâmpagos de memoria que abrem um vinco na fronte do homem. E a velhice extemporânea de alguns o que é se não recordarem-se? In Camilo Castelo Branco, A Enjeitada

Conforme o original

«(…) Por um cabello que não fui então martyr do génio! A victima crucificada na porta da egreja não era das que dizem: Senhor, perdoai ao poeta, que não sabe as asneiras que diz! Apenas lhe constou que era eu o instrumento da vingança de seu irmão, preferiu quebrar o instrumento, e deixar não só o fidalgo, que também o boticário em paz. Poeta era eu só n’aquelle quadrado de dez léguas: avisadamente conjecturou o homem que, esganando a musa que o verberara, abafaria aquelle respiraculo da detracçâo inimiga. O padre mestre avisou-me horas antes da espera e da sepultura. Fugi com o magnum léxicon debaixo do braço, e com os ossos direitos que aquella terra ingrata me queria comer.  Abandonando Ribeira de Pena precipitadamente, como quem foge a um perigo certo. Camillo deixou alli memoria de duas creancices: o casamento e a satyra. Que admira, se elle era uma creança de dezeseis annos?
Sob a protecção do sogro, veio para Lisboa, onde tornaria a ver Amélia ou Celestina, a qual se mostraria indifferente á recordação do galanteio infantil que ambos haviam entretido. Lisboa seria a terra escolhida intencionalmente, talvez por conselho de Sebastião Santos, para que fosse maior a distancia interposta ao auctor da satyra e ao seu feroz inimigo de Ribeira de Pena. Mas Camillo não estava habituado á vida da capital, que lhe fazia saudades da vida dos campos e dos passarinhos dos soutos e olivaes. Quando julgou mais acalmada a tempestade que a satyra desencadeara, foi para o Porto a fim de estudar preparatórios, porque o sogro não tinha desistido ainda de formal-o em medicina. De repente, num impeto de mocidade irrequieta, a que a saudade da infância não seria de todo estranha, Camillo emancipou-se da tutella de Sebastião Santos e acoitou-se em Villa Real em casa da tia dona Rita. Desde essa hora, o sogro julgou prejudicados todos os seus projectos, e vociferava nos soalheiros de Friume, especialmente na loja, contra o genro, que elle próprio havia conduzido imprudentemente. A victima da cólera de Sebastião era a filha, que nenhuma culpa tinha nas occorrencias que lhe arrancaram dos braços o marido.
Mas o pai enfurecia-se quando via no collo de Joaquina uma creança recemnascida: revelava assomos de medonha cólera. A pobre rapariga, desejando juntar-se ao marido, contratou duas mulheres de Friume, para que fossem a Villa Real levar a Camillo uma carta em que se dizia enferma. As duas mensageiras enganaram-na, porque se occultaram durante alguns dias, findos os quaes appareceram simulando a resposta de que Camillo não estava em Villa Real, mas que dona Rita Castello Branco lhes assegurara que, logo que elle regressasse alli, lhe entregaria a carta de Joaquina Pereira. A verdade é que Camillo estava em Villa Real, e não recebera a mensagem. Apezar de haver encontrado um novo idyllio, os factos, que depois se deram, fazem crer que partiria para Friume se a carta de Joaquina Pereira lhe houvesse chegado ás mãos. Como elle se demorasse em voltar, a filha de Sebastião Santos alliciou um mensageiro de maior confiança, Bernardo Alves, para ir a Villa Real com nova carta. Adivinha-se facilmente o que essa carta diria. Fallar-lhe-ia da filhinha, das suas graças infantis, das cóleras com que Sebastião Santos a atormentava, e da supposta doença, piedosa mentira destinada a commovêl-o.
Camillo contou a Bernardo Alves os motivos que tinha para não ir a Friume: receava a brutalidade do sogro e talvez a vingança da victima da satyra; mas romperia por todas essas considerações, se tivesse meios para sustentar a mulher e a filha. Bernardo Alves contrapoz, certamente, que tudo se concertaria do melhor modo possível, e Camillo não duvidou acompanhal-o a Friume. Avistou-se com a mulher e, reconhecendo que ella não estava doente, teve uma phrase carinhosa, que é confessada por uma testemunha presencial: Então eu por aqui tão afflicto, e tu de perfeita saúde? Beijou a filhinha, e parece que, graças á intervenção de Bernardo Alves, se reconciliou algum tanto com o sogro, que, sempre desconfiado, o vigiava como um Argus, procurando evitar a aproximação intima dos dois casados. Combinou-se que Camillo voltaria para o Porto a continuar os estudos: que, logo que elle se formasse em medicina, Joaquina Pereira sahiria de casa do pai para a companhia do marido: e que a filhinha seria entretanto educada num Recolhimento portuense». In Alberto Pimentel, A Primeira Mulher de Camilo, Silêncio Injustificado, PQ 9261C3Z738, Guimarães & Cª - Editores, Lisboa, 1916.

Cortesia de GuimarãesE/JDACT

A Primeira Mulher de Camilo. Silêncio Injustificado. Alberto Pimentel. «Vivi daquella hora em diante, diz elle, mais clandestinamente com Apollo, já versejando por conta de Elmena, já versejando aos passarinhos que cantavam nos soutos e olivaes visinhos da janella do meu pobre quarto»

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Ha relâmpagos de memoria que abrem um vinco na fronte do homem. E a velhice extemporânea de alguns o que é se não recordarem-se? In Camilo Castelo Branco, A Enjeitada

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«(…) Joaquina Pereira, espiritualizada pela paixão, que é dynamite capaz de fazer saltar os mais duros blocos do cérebro humano, e ella era uma pobre camponeza, que ainda assim se distinguia entre muitas outras por saber ler e escrever. Sebastião Santos desvanecido pela satisfação de ter ganho a partida num rápido lance de távolas, dizendo porventura aos convidados que, nas suas mãos, o rapaz havia de ir muito longo. As raparigas de Friume mordidas de inveja pela felicidade que uma estranha lhes viera roubar, levando-lhes o melhor noivo que podiam apetecer, e a herança fabulosa que havia de enriquecel-o um dia. A casa dos noivos, em Friume, era, como a maior parte de todas as da povoação, construída de pedra tosca, sem rebocos e sem vidraças. Foi essa choupana o ninho de amor onde Camillo passou os dias do noivado, certamente sem ambicionar hllandas finas para o leito, manjares delicados para a mesa, perfumes de boudoir que não fossem o do rosmaninho silvestre e da madresilva das sebes floridas.
Elle chegaria a julgar, talvez, que a sua existência derivaria toda alli. Placidamente, á beira do Tâmega, contente com o amor dedicado e leal, que encontrara no coração de Joaquina Pereira. E. comtudo, a vida amorosa de Camillo começava apenas; aquelle sereno idyllio conjugal era o prefacio de um inferno de paixões tempestuosas. Ambições, quem lh’as dera, fora o próprio sogro, fascinado pela evidencia social que lhe viria do genro. A breve trecho Sebastião Martins Santos quis que Camillo se preparasse para um curso superior. Desejava-o medico e, para realizar este ideal, não duvidou affastar Camillo de Friume. Convinha refrescar o latim que padre António Azevedo lhe tinha ensinado, porque o latim era o prato de resistência entre os poucos preparatórios então exigidos. Na Granja Velha, logar da freguezia de Santa Marinha, do mesmo concelho, havia um pregador e latinista de fama, o padre-mestre Manuel Rodrigues ou padre Manuel da Lixa, mas a Granja Velha distava oito kilometros de Friume, mais de légua e meia. Para todos dias, a caminhada de três léguas, ida e volta, seria violenta. Por isso Sebastião Santos entendeu por bem arranjar hospedagem a Camillo no logar de Viella. também da freguezia de Santa Marinha, em casa de Rita Alves, d’onde o estudante mais facilmente poderia ir á Granja Velha. Só aos domingos e dias santificados tinha elle licença para visitar a mulher em Friume.
Foi Sebastião Santos que estragou os seus mesmos planos de grandeza futura, commettendo a imprudência de affastar do amoroso ninho de noivado um rapaz de dezeseis annos. Os laços conjugaes não tiveram tempo de solidificar. Joaquina Pereira não pôde assegurar a conquista do coração de Camillo por uma demorada e carinhosa convivência. A creança achou-se em liberdade como a ave a que mão imprudente abre a porta da gaiola. Na Granja Velha deparou-se a Camillo ensejo para entregar-se ao tracto das musas, que nem sempre são boas conselheiras. Tanto peor para Joaquina Pereira.
O padre Manuel da Lixa tinha, como pregador, certo verniz litterario, e ao passo que admoestava Camillo sobre os perigos da paixão das letras dava-lhe a ler poetas, Garção e Tolentino, o que era contraproducente. Feita a admoestação e lidos os poetas, a imagem de Elmena (pseudónimo com que arcádicamente foi designada por Camilo uma sobrinha de certo vigário transmontano) tornou a apparecer a Camillo, porque o seu espirito começava a precisar de um ideal feminino, que não podia ser a pobre camponeza já possuída como um livro que, depois de lido, nos saciou a curiosidade. Vivi daquella hora em diante, diz elle, mais clandestinamente com Apollo, já versejando por conta de Elmena, já versejando aos passarinhos que cantavam nos soutos e olivaes visinhos da janella do meu pobre quarto.
Comtudo, as cautelas adoptadas por Camilo não eram tão rigorosas, que o segredo das suas composições métricas fosse apenas conhecido dos passarinhos. Os condiscípulos de latim apreciavam-lhe a facilidade de improvisação, e a fama de poeta espalhava-se desde Friume até á Granja Velha. Foi justamente esta prenda litteraria que levou Camillo a abandonar precipitadamente o concelho de Ribeira de Pena. Elle mesmo se constituiu chronista dessa forçada emigração: N’aquella freguezia andavam ás más dois irmãos de fidalga prosápia, á conta do casamento desigual que um d’elles intentava fazer, contra a vontade do mais velho. Por parte dos sequazes d’este me foram pedidos uns versos, em que a noiva menos fidalga e o apaixonado mancebo fossem chanceados á conta de me não lembra que antecedencias mui ageitadas á galhofa métrica. Deu-me soberbas uma incumbência d’este género! Poeta, e de mais a mais requestado para intervir com minha opinião em casamento tão fallado nas vinte aldeias circumpostas!
Escrevi uma folha de papel almaço em quadras, que os interessados na publicidade affixaram na porta da egreja, momentos antes da missa das onze horas. O boticário, que seguia as partes do morgado, lia a satyra á populaça, que ria ás escancaras. E eu de lado a revêr-me na obra. E a saborear-me nas alvares cascalhadas do gentio!» In Alberto Pimentel, A Primeira Mulher de Camilo, Silêncio Injustificado, PQ 9261C3Z738, Guimarães & Cª - Editores, Lisboa, 1916.

Cortesia de GuimarãesE/JDACT

A Primeira Mulher de Camilo. Silêncio Injustificado. Alberto Pimentel. «… uma creança de dezeseis anos, mentalizando a plenitude da posse legitima na contemplação da noiva, cujas graças acirrantes, modeladas numa plástica vigorosa, a elle ofuscariam…»

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Ha relâmpagos de memoria que abrem um vinco na fronte do homem. E a velhice extemporânea de alguns o que é se não recordarem-se? In Camilo Castelo Branco, A Enjeitada

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«(…) Ella era, como já disse, uma guapa e têmpora cachopa. Forte, sadia, reforçada, de peitos altos, estatura regular: nas faces morenas, um clarão de ingenuidade alegre, de bondade expansiva. Na véspera e dia de Natal, quando sahiam as rondas, grupos de rapazes e moçoilas que percorrem a povoação em danças e descantes, Joaquina, que tomara os appellidos da mãe, era a flor do rancho, o que despertava um certo despeito nas raparigas nascidas em Friume, porque ella tinha nascido em S. Cosme de Gondomar. A 10 de janeiro, pela romaria de S. Gonçalo, era das mais gentis cachopas que exhibiam as suas vestes de gala: saia de chita, jaqué de merino, ordinariamente escuro, chinellas de verniz, lenço de seda na cabeça.
Pulando nas danças do arraial, quando o lenço lhe descahia ao abandono, parecia ainda mais gentil, graças ao penteado em uso entre as raparigas de Friume: duas tranças singelamente enlaçadas na parte posterior da cabeça. Joaquina Pereira enamorou-se de Camillo ouvindo-o discursar na loja do pai e recitar versos que exaltavam a imaginação. Depois, a liberdade nas rondas, nos entremezes e nas corridas de gallos ageitava occasião propicia ás confidencias, aos segredos, ás juras de amor, que na loja de Sebastião Santos, interposto o balcão, não eram permittidos aos dois namorados.
Camillo, que tinha ido a Friume por acompanhar apenas a tia Rita, achou alli, quando menos o esperava, uma posição social, postoque modesta, conveniente. Luiz Cunha Lemos, que acumulava as funcções de secretario da camara e da administração do concelho de Ribeira de Pena, tinha sido investido também nas de escrivão de fazenda e escrivão e tabellião do julgado. Não parece, este Lemos, um dos felizes burocratas graúdos dos nossos dias, que são verdadeiros cabides de empregos rendosos? Pois bem!, o indispensável Lemos precisava de um escrevente, que certamente não era de mais, e contratou Camillo para esse cargo, mediante casa e mesa, além, talvez, de alguma remuneração em dinheiro. Que magnifico amanuense seria Camillo! Tinha ortographia, prenda não vulgar em Ribeira de Pena e outras partes, incluindo as ilhas adjacentes, mas, principalmente, dispunha de uma bella calligraphia, que a rapidez da escripta não conseguiu estragar completamente mais tarde.
Sebastião Santos não podia encontrar melhor genro, nem mais a seu geito. Dir-se-ia que o tendeiro de Friume, o antigo alfaiate de Gondomar, tivera a intuição do futuro de gloria reservado a Camillo. A certa altura impoz o casamento, tanto mais invejado quanto a imaginação popular, fascinada pelas eminentes qualidades do sobrinho de dona Rita, acalentára a lenda de que elle teria a receber uma grande herança. Foi por uma tarde de agosto, a 18, de 1841 que, na egreja do Salvador de Ribeira de Pena. Camillo Ferreira Botelho Castello Branco desposou a filha de Sebastião Martins Santos. O párocho encommendado, Domingos José Ribeiro, lançou as bênçãos. Como testemunhas assistiram o padre José Maria Sousa, de Pontido de Aguiar, e o genro de dona Rita. Francisco José Ribeiro Moreira, primo, por affinidade. de Camillo. Está a gente a ver toda a movimentação theatral d’essa tarde de agosto em Friume: Camillo, uma creança de dezeseis anos, mentalizando a plenitude da posse legitima na contemplação da noiva, cujas graças acirrantes, modeladas numa plástica vigorosa, a elle offuscariam nessa hora electrizante os liames e encargos do casamento». In Alberto Pimentel, A Primeira Mulher de Camilo, Silêncio Injustificado, PQ 9261C3Z738, Guimarães & Cª - Editores, Lisboa, 1916.

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