Mostrar mensagens com a etiqueta Escritora. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escritora. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de maio de 2013

A Hora da Estrela. Clarice Lispector. «Ao afirmar que ‘Tudo no mundo começou com um sim’, o narrador revela que sabe que as coisas se criam por um acto de vontade e de afirmação. Sabe, portanto, do modo pelo qual algo passa a existir. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou»

jdact

«(…) Pela perspectiva filosófica a os limites e alcances do conhecimento o mundo mediante à palavra e a consciência, através das quais o ser humano se distingue dos outros seres pela perspectiva social, investiga os impasses criados pela separação dos indivíduos em diferentes grupos, dando destaque à inserção do escritor e do nordestino na sociedade brasileira; pela perspectiva estética, sonda o gesto criador e o trabalho na busca da expressão que inaugure uma apreensão original do real. Os três aspectos, é claro, apresentam-se de forma imbricada no livro. Pelo ângulo filosófico, a evidência de que as origens do ser se perdem no tempo e de que é impossível voltar à época em que as coisas acontecem antes de acontecer, leva o indivíduo a um estado de perplexidade. Ao afirmar que Tudo no mundo começou com um sim, o narrador revela que sabe que as coisas se criam por um acto de vontade e de afirmação.
Sabe, portanto, do modo pelo qual algo passa a existir. A compreensão deste algo, no entanto, esbarra naquilo que o antecedeu e que possibilitou a expressão de uma vontade, possibilitou haver o não e o sim, para que, então, a escolha se fizesse. Mais importante do que o modo pelo qual algo que não existia ganha existência, há o problema fundamental da origem, do começo de tudo, que se situa em uma ordem temporal inapreensível pelo homem: Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Assim, a pessoa se faz intermináveis perguntas e vive uma série de faltas. A única verdade indiscutível são as existências individuais. Intui, por certo, a identificação de todos em uma unidade Todos nós somos um, mas a unificação se mostra principalmente pela carência e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro, existe a quem falte o delicado essencial. Fica apenas a constatação de que cada ser é um fragmento ou parte de algo. Daí projectar-se, como sentido último da realidade, a realidade que sempre está faltando.
Mais dolorosamente ainda, existe a consciência de cada um, advertindo sobre este vazio, e o empenho em transpô-lo. A consciência aflora como atributo humano paradoxal: dá instrumentos para se tentar responder a essas indagações, possibilita que se busque o sentido da vida e também desponta como fonte de dúvidas, assinalando a ruptura de cada ser individual com um modo de existência originário, em que tudo era um todo cheio de harmonia. A consciência é condição de liberdade e, simultaneamente, aprisionamento. Esta nostalgia de uma integração total com o Cosmos confere uma certa tragicidade ao projecto do narrador. Pois ao mesmo tempo em que sabe que é um ser independente e gosta de sê-lo, anseia por uma identificação completa com o outro, por uma comunicação directa, sem obstáculos, o que acabaria anulando a sua individualidade, a sua autonomia.
A vivência de culpa, como se houvesse um erro fundamental a ser sanado, desponta desde o primeiro subtítulo do livro A culpa é minha e sempre retorna. É ela um dos sintomas deste desgarramento do homem no mundo que, vendo cerradas as portas de acesso à unidade originária, vai investigar, solitário, a dinâmica de sua existência individual. A escolha de Macabéa, anónima, incompetente para a vida, integra essa determinação, que inclui a busca de regressão ao inumano Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira e a expiação de uma possível culpa.
O narrador, perpassado por toda sorte de indagações sobre o ser e o existir, atormentado pela incompletude e pela dualidade da natureza humana para as quais as respostas são precárias, converte a busca em sua única certeza. Daí decorrem pelo menos dois movimentos centrais da narrativa. Primeiro, como toda busca e toda pergunta são busca de algo e pergunta para alguém, o narrador, para saber, tem de desdobrar-se, tem de dialogar. Aquilo que, em uma situação comunicativa banal, passa despercebido projecta-se para o narrador como condição essencial do ser: apreender a si mesmo inclui o confronto com o outro. Ao mesmo tempo, essa projecção traz implícito o retorno para si mesmo, quando se tenta unificar em um único sujeito individual os elementos que estão presentes nos outros seres do Universo». In Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Editora Francisco Alves, correção de Doralice, CDD - 869.93, CDU 869.0(81)-3.

Cortesia de Editora F. Alves/JDACT

domingo, 7 de abril de 2013

A Hora da Estrela. Clarice Lispector. «Ela se afastou dos escritores que por opção e engajamento defendem valores morais, políticos e sociais, outros cuja literatura é dirigida ou planificada a fim de exaltar valores, geralmente impostos por poderes políticos, religiosos etc., muitas vezes alheios ao escritor»


Cortesia de wikipedia

Apresentação
Escrever estrelas (ora, direis)
«Clarice Lispector deixou vários depoimentos sobre a sua produção literária. Em alguns, parecia se defender do estranhamento que causava em leitores e críticos. Ela tinha consciência de sua diferença. Desde pequena, ao ver recusadas as histórias que mandava para um jornal de Recife, pressentia que era porque nenhuma contava os factos necessários a uma história, nenhuma relatava um acontecimento. Sabia também, já adulta, que poderia tornar mais atraente o seu texto se usasse, por exemplo, algumas das coisas que emolduram uma vida ou uma coisa ou romance ou um personagem. Entretanto, mesmo arriscando-se ao rótulo de escritora difícil, mesmo admitindo ter um público mais reduzido, ela não conseguiria abrir mão de seu traçado:
  • Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro.
Ela se afastou dos escritores que por opção e engajamento defendem valores morais, políticos e sociais, outros cuja literatura é dirigida ou planificada a fim de exaltar valores, geralmente impostos por poderes políticos, religiosos etc., muitas vezes alheios ao escritor, em nome de uma outra forma de questionar a realidade e nela intervir, através da literatura. Talvez sem o saber, Clarice estava optando por um tipo de escrita característica do escritor moderno, para quem, no dizer do crítico francês Roland Barthes, escrever é fazer-se o centro do processo de palavra, é efectuar a escritura afectando- se a si próprio, é fazer coincidir a acção e a afeição (...). Por esta via, formula-se uma outra qualidade de experiência envolvida na escrita, uma nova perspectiva pela qual a linguagem é concebida: mais importante do que relatar um facto, será praticar o autoconhecimento e o alargamento do conhecimento do mundo através do exercício da linguagem.
A hora da estrela leva esta proposta às últimas consequências e por isso a sua leitura torna-se tão instigante. É certo que aqui reencontramos a agudeza na investigação da natureza e psicologia humanas e o gosto pela minúcia, patente no trato dado à palavra, tão peculiares a Clarice Lispector. Mas se lermos o livro como hora e vez, inserindo-o no conjunto de sua obra, constataremos que existe algo de novo para além do insólito prefácio, em forma de dedicatória, da frouxidão do enredo, da mescla de linguagem subtil com um tom desnudo e cru ou, ainda, da intimidade com que o choque social é apresentado. É que aqui a Autora aborda de frente o embate entre o escritor moderno, ou melhor, do escritor brasileiro moderno, e a condição indigente da população brasileira. Isto sem deixar de lado, afinal de contas, traz a assinatura de Clarice Lispector, a reflexão sobre a mulher.
A discussão se arma a partir de estórias que se entrecruzam, como num acorde musical:
  • a da vida de Macabéa, imigrante nordestina que vive desajustada no Rio de Janeiro;
  • a do Autor do livro que, embora sem rosto definido, se dá a conhecer nos comentários que faz;
  • e ainda a estória do próprio acto de escrever.
Em verdade, esta última estória promove o grande elo entre todas. Escrever o livro, escrever Macabéa e, sobretudo, escrever a si mesmo, eis o grande desafio. Dessa proposta cria a dramaticidade da narrativa, pois a escrita envolve múltiplas e complexas relações: entre escritor e seu texto, entre escritor e seu público, entre escritor e esta personagem tão distante de seu universo. A linguagem, moeda de comunicação entre os homens, ganha foros de personagem. E personagem em crise. Emergem indagações:
  • a palavra que se usa expressa o que se é verdadeiramente? É a linguagem que funda a realidade? A palavra distancia ou aproxima pessoas? Dispor da palavra é um dom ou uma maldição? Que palavra cabe ao artista contemporâneo? Que palavra se adequa ao escritor terceiro-mundista para falar de um Brasil miserável? Que papel se espera do artista?
Assim posto, o enredo, fugaz em aparência, revela algumas de suas linhas de sustentação. Está em jogo a linguagem, seu poder de conhecimento, de comunicação e de convencimento, e, com ela, debatem-se a existência humana e os laços sociais. O patente isolamento das pessoas parece conduzir a uma reflexão sobre a condição do ser humano, agravada por um tipo de organização social que segrega os indivíduos entre si. E o artista constata este exílio do homem na própria terra, mas não tem respostas prontas que o justifiquem. Esta inquietação o move, faz com que escreva e tente descobrir na escrita a sua própria identidade e a sua própria humanidade, cara a cara com as de uma outra qualquer pessoa. Em A hora da estrela este empreendimento assume uma ousadia e uma profundidade inusitadas. O escritor solta as amarras e vai até o fundo do poço: as origens do ser e as contradições da sociedade em que vive. Para tal, tomando por base a linguagem, ele se dispõe a três tipos de abordagem: filosófica, social e estética». In Clarice Lispector, A Hora da Estrela, Editora Francisco Alves, correção de Doralice, CDD - 869.93, CDU 869.0(81)-3.

Cortesia de Editora F. Alves/JDACT

sábado, 3 de dezembro de 2011

Clarice Lispector: Escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia. «Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê»

(1920-1977)
Chechelnyk, Ucrânia
Cortesia de dolindo

«Benjamin Moser… Metade da sua vida tem sido dedicada à brasileira nascida na Ucrânia. A verdade é que esse fascínio nunca parou, ficou cada vez mais intenso. ... transformou-o numa espécie de embaixador, em alguém que está a conseguir dar Clarice ao mudo». In Isabel Coutinho e Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon.

Das Vantagens de Ser Bobo
«O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Cortesia de conhecimentovirtual

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um frigorifico de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Cortesia de sempretop

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo». In O Pensador, Clarice Lispector.

Cortesia de Clarice Lispector/O Pensador/JDACT

domingo, 6 de março de 2011

Pearl Buck: «Quando cessa a vigilância e os esforços dos bons, os maus predominam. ...Saber ler é acender uma luz no espírito. ...Como Confúcio, estou tão absorvida pelo encanto que sinto pela terra e pela vida que a habita que não tenho tempo de pensar no paraíso nem nos anjos»

(1892-1973)
Hillsboro, USA
Cortesia de

Pearl Sydenstricker Buck, também conhecida por Sai Zhen Zhu,  foi uma sinologista e escritora norte americana.
Ganhou o Prémio Pulitzer em 1932 e recebeu o Nobel de Literatura em 1938.

Pearl era filha de pais missionários presbiterianos e aos 3 anos de idade, em 1892, foi levada pelos pais para a China, onde foi criada. Estudou em Xangai (daí o nome de Sai Zhen Zhua) até os 15 anos, tendo um preceptor confucionista. Trabalhou num abrigo chinês para mulheres escravas e prostitutas. A sua vivência na China marcou de modo relevante a maioria das suas obras, invocando a arte e cultura deste país do Oriente.


Cortesia de deacademic
Escreveu mais de 110 livros e várias novelas de rádio. Foi contemporânea de Sinclair Lewis e Eugene O'Neil, dois grandes escritores norte-americanos. Muitos dos seus livros foram transformados em filmes. O  estilo de escrita combinava a prosa bíblica com a saga narrativa chinesa, cuja vida e ambiente eram constantemente presentes nas obras.
O tema mais recorrente era o amor interracial. A Flor Oculta tem o mesmo «argumento» da ópera Madame Butterfly, pois a história narra os problemas de uma família japonesa cuja filha se enamora por um soldado americano. Vários de seus livros foram escritos sob o pseudónimo de John Sedges.
Cortesia de khoahoc
Amiga de Eleanor Roosevelt, advogou muito pelos direitos que deveriam ser concedidos às mulheres e pela igualdade racial, bem antes dos movimentos dos direitos civis, nos Estados Unidos. Fundou e dirigiu o «Movimento de Auxílio à China». Pearl S. Buck fez com que a China moderna se tornasse compreensível para os povos ocidentais.



Cortesia de leiloes
Algumas Obras:
  • A Casa Dividida,
  • A Flor Oculta,
  • A Serpente Vermelha,
  • As Três Filhas da  Senhora Liang,
  • Debaixo do Céu,
  • Filhos da Guerra,
  • Há Sempre um Amanhã.
Cortesia do Prémio Nobel/wikipédia/JDACT

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Maria Amália Vaz de Carvalho: A primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa, eleita em 13 de Junho de 1912. A sua residência foi o primeiro salão literário de Lisboa, por onde passaram grandes nomes da literatura e da cultura portuguesa

(1847-1921)
Lisboa
Cortesia de mulheresdeontem

Maria Amália Vaz de Carvalho foi uma escritora polígrafa e poetisa, autora de contos e poesia, mas também de ensaios e biografias. Colaborou em diversos jornais e revistas, publicando crónicas de crítica literária e opiniões sobre ética e educação, para além de ter analisado, com notável clarividência, a condição e o papel da mulher na sociedade do seu tempo. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa, eleita em 13 de Junho de 1912.

Cortesia de emule
Escreveu em várias publicações portuguesas e brasileiras, com o pseudónimo de Maria de Sucena. A obra de Maria Amália Vaz de Carvalho, tem um carácter de versatilidade. Das suas obras, salienta-se Contos para os nossos filhos, uma compilação de contos infantis, publicada em 1886, escrita em parceria com o seu marido, o poeta Gonçalo Crespo, e que foram aprovados pelo Conselho Superior de Instrução Pública para utilização nas escolas primárias.

Cortesia de jfsantacatarina
A sua residência foi o primeiro salão literário de Lisboa, por onde passaram grandes nomes da literatura e da cultura portuguesa, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão ou Guerra Junqueiro.

Algumas Obras:
  • Uma Primavera de Mulher (1867, poema em quatro cantos),
  • Vozes do Ermo (1876), 
  • Arabesco, Cartas a uma Noiva (1911),
  • Crónicas de Valentina,
  • Contos para os Nossos Filhos, 
  • A Arte de Viver em Sociedade (1895),
  • Serões no Campo, Figuras de Hoje e de Ontem (1902),
  • Cérebros e Corações (1903),
  • Ao Correr do Tempo (1906),
  • Impressões da História (1909), etc.

A Reabilitação do Amor
À indiferença oponhamos o amor, à dúvida oponhamos a fé. O céu tem ainda o azul radiante dos dias da mocidade; a natureza é ainda a bela insensível, que assiste radiosa e iluminada às nossas lágrimas eternas, que o vento enxuga num momento!
Contemplemos de mais alto a evolução dos ideais e a transformação das coisas. Se na terra somos efémeros de uma hora, nunca se quebra a cadeia que se vai forjando, dos ideais belos que concebemos ao passar.
Soframos, tal é o nosso destino e quase o nosso dever, mas amemos, que é o meio de tornarmos fecunda para os outros a dor que acima de nós mesmo nos levanta, a dor que é inspiração de todo o bom, de todo o belo, que em nós há. O pessimismo leva à abdicação da vontade, à própria negação do sofrimento, pela completa insensibilidade a que aspira, e que de vez em quando já começa a atingir.
Não vale a pena! Eis a divisa da nossa desolada geração!
Pois é necessário que, em contradição e em protesto a este lema egoístico, se levante das nossas entranhas de mães, dos nossos corações de mulheres, um grito de amor intenso, um grito de amor fecundante e poderoso. Porque um dos defeitos da nossa quadra é este: depois de termos da do ao amor um lugar enorme, predominante, decisivo e tirânico, tendemos a cercear-lhe todos os direitos, a destruir-lhe todas as influências boas.
O nosso século, que por meio de radiante romantismo fez do amor o Deus pagão que foi na Renascença, hoje, pela escola científica do temperamento e do meio, vai fazer do amor um poder inconsciente, que, segundo as circunstâncias em que é chamado a actuar, é um órgão de reprodução animal, ou um elemento de corrupção dissolvente.
Reabilitemos o amor.
Façamos dele alguma coisa de mais ou de menos do que o estão fazendo os mestres da literatura contemporânea, fotógrafos, neste ponto, dos costumes decadentes da época.
Ele não é a suprema e última embriaguez embrutecedora em que a humanidade tende a adormecer, como essa literatura de sensualismo agonizante, parece querer demonstrar-nos; pelo contrário, ele, é a fonte da eterna juventude em que, os velhos, da velhice precoce deste século, da velhice que se traduz pelo excesso do pensamento e da sensação, podem ainda retemperar as forças exaustas; é dele que podem ainda partir as grandes iniciativas transformadoras, as poderosas e viris energias, os sonhos iluminados da virtude e do bem. In Cartas a Luísa. Cortesia do Projecto Vercial.

Cortesia de Projecto Vercial/JDACT

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Maria Gabriela Llansol: A sua ficção caracteriza-se por uma hibridez de registos e de convocação, temporal e espacial de entidades, que no entanto assume uma coesão que lhe é dada por uma marca discursiva persistente e inconfundível

(1931-2008)
Lisboa
Cortesia de triplov

Maria Gabriela Llansol é considerada como uma das mais inovadoras escritoras da ficção portuguesa contemporânea. A sua escrita é também por vezes considerada hermética e de difícil leitura, sendo difícil aplicar designações tradicionais como conto, romance ou mesmo diário.


Cortesia de foleirices
«A herança paterna, presente «na verticalidade e na maneira frontal de olhar», e o legado catalão que lhe vem dos bisavós maternos, darão corpo de escrita ao nome Llansol. Concluídos os cursos de Direito e de Ciências Pedagógicas, Maria Gabriela inicia um trabalho de experiência pedagógica que terá continuidade na Bélgica, na chamada Escola da Rua de Namur, em Lovaina (1971-1979), onde põe em prática uma experiência inovadora com a linguagem.

Cortesia de headandneckdanieldesousa
É já a busca de uma língua «nova«, a «língua sem impostura», tão presente em Um Beijo Dado Mais Tarde (1990), a que fará surgir um texto «novo». Na sua vasta obra, Maria Gabriela Llansol mostra como a experiência do real se transfigura em realidade no texto – «escrever é o duplo de viver».
O CCB homenageia-a com um dia da sua programação e uma exposição que reinventa os lugares da sua itinerância europeia». In Agenda do CCB.


Cortesia de mtiagopaixao
«Porque se eu respondesse "porquê" criava uma relação de causa e efeito. Ora, eu não sinto em mim o porquê de escrever, como eu não sinto em mim o porquê de beber ou o porquê de olhar. Há a constatação de uma realidade: e nasci constitutivamente assim, escrevendo». Uma frase-resposta ao JN de Gabriela Llansol.

Cortesia de actounico
Maria Gabriela Llansol é um caso ímpar na ficção contemporânea, de jorrante, inesperada e original criatividade. A sua forte personalidade e o seu estilo muito próprio afirmaram-se desde 1957, com as narrativas de Os Pregos na Erva, consolidando-se com O Livro das Comunidades, e com todas as obras posteriores, de que saliento:
  • Causa Amante 1984;
  • Contos do Mal Errante 1986;
  • Da Sebe ao Ser 1988;
  • Amar um Cão 1990;
  • ( ... )
  • Lisboaleipzig I 1994. O encontro inesperado do diverso;
  • Lisboaleipzig II 1994. O ensaio de música;
  • A Terra Fora do Sítio 1998;
  • ( ... )
  • O Começo de Um Livro é Precioso 2003;
  • O Jogo da Liberdade da Alma 2003;
  • Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 (2006).

Cortesia de fragmentosculturais
Aliando a subjectividade enunciativa a um forte pendor mítico de implicação lírica, que funda numa visão da vida e do mundo de tipo religioso herético, sensualista e naturalista, a sua ficção caracteriza-se por uma hibridez de registos e de convocação, temporal e espacial de entidades, que no entanto assume uma coesão que lhe é dada por uma marca discursiva persistente e inconfundível.

Cortesia de wikipédia/CCBelém/JDACT

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Luísa Dacosta: «Devo aos alunos o não me ter afastado do sonho e começar a escrever para eles à volta desse sonho…»

Cortesia de feup

Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, mais conhecida por Luísa Dacosta é uma escritora portuguesa.

Luísa Dacosta, transmontana de nascimento, formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Mas as suas «Universidades» foram as mulheres de A-Ver-O-Mar, que murcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e de os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga - «Ele não me bate muito, só o preciso» - e que, mesmo afeitas, num treino de gerações, às vezes não aguentam e se suicidam. Oh! Senhora das Neves! E tu permites!

Cortesia de cm-pvarzim
Depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Às mulheres de A-Ver-O-Mar «Deve» a língua ao rés do coloquial. Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. Isso a tem motivado a escrever para crianças.  

http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/biblio_luisa_dacosta_a.pdf
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/primeirapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/segundapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/terceirapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/fotobiografia.html

Cortesia de torrinhasnetianos5c
Escreveu:
  • Província;
  • Aspectos do Burguesismo Literário;
  • Notas de Leituras;
  • Vóvó Ana,Bisavó Filomena e Eu;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...I;
  • O Príncipe que Guardava Ovelhas;
  • O Valor Pedagógicao da Sessão de Leitura;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...II;
  • O Elefante Cor-de-Rosa;
  • Teatrinho do Romão;
  • A Menina Coração de Pássaro;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...III;
  • A-Ver-O-Mar;
  • Nos Jardins do Mar;
  • Prefácio a Raul Brandão;
  • Corpo Recusado;
  • A Batalha de Aljubarrota;
  • História com Recadinho;
  • ( ... )
  • Sonhos Na Palma da Mão;
  • Na Água do Tempo;
  • Lá Vai Uma... Lá Vão Duas... .

Cortesia de camelecocacola

Cortesia da Faculdade de Engenharia da U. do Porto/JDACT

sábado, 25 de setembro de 2010

Clarice Lispector: Escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia. «Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite».« Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho»

(1920-1977)
Chechelnyk, Ucrânia
Cortesia de macarraocomfeijao

Clarice Lispector, nascida Haia Lispector.  A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1921).  Chegou ao Brasil quando tinha dois anos de idade.
Embora com formação em Direito, Clarice Lispector nunca advogou, sobrevivendo basicamente do jornalismo e, acessoriamente, dos trabalhos de tradução. Em 1940, quando ainda frequentava a faculdade, ela ingressou no Departamento de Imprensa e Propaganda para exercer, em princípio, a função de tradutora, mas findou sendo redactora da Agência Nacional. A sua primeira reportagem, «Onde se ensinará a ser feliz», foi publicada em 19 de janeiro de 1941, no Diário do Povo, de Campinas (SP), relatando a visita da primeira-dama da República, Darcy Vargas, a um orfanato feminino. No ano seguinte, ela começou a trabalhar como redactora de A Noite e obteve a carteira profissional como jornalista, profissão que exerceria até dois meses antes de falecer
Durante os anos 50 e 60, Clarice escreveu, sob os pseudónimos de Teresa Quadros, Helen Palmer e como ghost-writer da actriz e modelo Ilka Soares. Os textos tratavam do universo próprio das mulheres da época, dando dicas de economia doméstica, receitas culinárias, saúde e comportamento. Passada esta fase das colunas femininas de contingência, reunidas nos títulos Correio feminino e para mulheres, organizados por Aparecida Maria Nunes, Clarice Lispector teve papel de destaque no Jornal do Brasil, onde foi colaboradora na mesma época que Carlos Drummond de Andrade, assinando uma crónica semanal.
 
Cortesia do globo
Paralelamente, obteve, a partir de 1968, grande sucesso como entrevistadora. Na revista Manchete, onde assinava a rubrica «Diálogos possíveis com Clarice» e, depois, na revista Fatos & Fotos, também pertencente à Editora Bloch, onde a sua derradeira contribuição saiu em Outubro de 1977, menos de três meses antes de sua morte, ocorrida em Dezembro do mesmo ano.
 
A Obra:
  • Perto do coração selvagem;
  • O lustre; 
  • A cidade sitiada;
  • Laços de família;
  • A maçã no escuro;
  • A legião estrangeira;
  • A paixão segundo G.H;
  • ( ... );
  • Água viva;
  • Onde estivestes de noite;
  • A via crucis do corpo;
  • ( ... )

Cortesia de Clarice Lispector       

«Benjamin Moser acaba de fazer 34 anos. Metade da sua vida foi dedicada à brasileira nascida na Ucrânia. A verdade é que esse fascínio nunca parou, ficou cada vez mais intenso. ... transformou-o numa espécie de embaixador, em alguém que está a conseguir dar Clarice ao mudo». In Isabel Coutinho e Maria da Conceição Caleiro, Ípsilon.


Cortesia de Clarice Lispector/Ípsilon/JDACT       

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Luzia - Luísa Grande: Uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX. Foi considerada, «O Eça de Queirós de Saias». Segundo as suas palavras, «é fácil e doce a nossa vida. Não corre mais tranquilo um rio manso»

(1875-1945)
Portalegre
Cortesia de Luísa Lopes da Silva
Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino Dias, foi uma escritora que viveu na Ilha da Madeira durante muitos anos. Embora tivesse nascido no Alentejo, Luísa Grande passou grande parte da infância na Ilha da Madeira, Quinta das Cruzes, em companhia dos avós maternos. Casou com Francisco João de Vasconcelos, de quem se divorciou aos 36 anos. O divórcio só foi possível depois da Proclamação da República, oficialmente, em 1911, aproveitando e beneficiando da Lei da República de 3 de Novembro de 1910.

Cortesia de falcaodejade
Além duma educação esmerada e de ter visitado várias cidades europeias, Luísa Grande foi uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX. Ficou considerada, «O Eça de Queirós de Saias», numa época em que as mulheres tinham extrema dificuldade em se afirmar, publicamente, como autoras literárias. Utilizando nos seus trabalhos o pseudónimo de «Luzia», Luísa Grande Lomelino Dias, só bastante tarde começou a escrever e a publicar, incentivada pela sua talentosa amiga, também escritora e investigadora, Maria Amélia Vaz de Carvalho, que foi casada com o célebre poeta Gonçalves Crespo. Contudo, depois de ter publicado o seu primeiro livro Luzia jamais deixou de escrever, mesmo após ter adoecido e ficado cega.
Deste modo divulgou entre outras obras:
  • Rindo e Chorando (1922);
  • Cartas do Campo e da Cidade (1923);
  • Os Que se Divertem – A Comédia da Vida; (1931);
  • Almas e Terras Onde eu Passei (1936);
  • Uma Rosa de Verão (1940).

Comentando a forte relação da escritora com a Ilha da Madeira, José Martins S. Conde, no livro «Luzia: O Eça de Queirós de Saias», referiu que «quando uma amiga de Lisboa lhe escreve e pergunta:
  • Quando voltas? Não te agarres. Tu és de cá, não és de lá…Luzia responde: - Eu já mal sei donde sou. Como certas plantas em todos os terrenos deito raízes. Onde chego, julgo sempre que vou ficar. Sinto-me já amadeirada. Tenho o meu lugar em todas as mesas de «bridge». Pertenço a todas as associações».

Por sua vez, Luís Peter Clode mencionou no «Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses», que «embora nascida no Continente, na cidade de Portalegre, a Ilha da Madeira era para Luísa Grande a sua terra adoptiva e onde passou a maior parte da vida». (…) Acrescentou ainda, que segundo um biógrafo da escritora «os seus livros não são uma obra de mocidade. Não há nela a inquietação, o entre abrir de sonhos, os passos irreflectidos e audazes de quem marcha na vida, supondo levar na mão um facho de triunfo. A sua obra é sobretudo evocadora para o fio de luar das suas recordações».

http://bmfunchal.googlepages.com/assim_foi_Luzia.pdf

Numa primeira carta endereçada à sua jovem amiga Maria Amélia, escrita em 4 de Abril de 1919, no Funchal, «Luzia» exaltava o clima da Ilha da Madeira: - «Chove e faz sol. O céu está cinzento, azul, cor-de-rosa, verde, doirado…Um céu inverosímil, sobre uma terra inverosímil, onde se pisam flores…E toda a Madeira rescende como o teu lenço, Maria. «Estou talvez no Paraíso… Sim, foi certamente aqui que Adão e Eva comeram aquela deliciosa maçã que tanto lhes amargou depois… «Aqui os nossos antepassados venerandos trocaram a monotonia da perfeição sem fim pela doce vida imperfeita, onde as rosas são mais belas porque se fanam, onde a hora é mais querida porque foge, onde se tem sede de eternidade porque se morre…Aqui conheceram a mortal tristeza e o mortal amor… «Por isso os madeirenses andam sempre enamorados de …seja lá do que for, que a gente afinal gosta é da ilusão» …In Rui Nepomuceno.
Animada, Luísa Grande, incitava a amiga, tentando convence-la a fazer as malas para visitar a Madeira, e afiançava: - «É fácil e doce a nossa vida. Não corre mais tranquilo um rio manso».
E sempre aguçando a sua lupa conservadora e aristocrata, mas temperada por uma fresca ironia, Luísa Grande, a «Luzia», confidenciava à amiga as transformações significativas que ia verificando no tecido urbanístico do Funchal.

Cortesia de verportalegre
Passou o resto dos seus dias a viajar entre Paris, Lisboa e Funchal.
Morre aos 70 anos de idade. 
 
Cortesia de Luísa Lopes da Silva/Rui Nepomuceno/JDACT