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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Depois, abriu a gaiola, tirou o passarinho gentilmente e levou-o para uma janela aberta. Voe para longe, pajarito, murmurou. Todas as criaturas vivas devem ser livres»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Na confusão, os três homens passaram quase despercebidos e aqueles que os viram escapar estavam ocupados demais em salvar as próprias vidas para tomar alguma providência. Em silêncio, Jaime e seus companheiros embarcaram na traseira do furgão, que logo partiu acelerado, dispersando os pedestres desesperados pelas ruas apinhadas. A Guarda Civil, a polícia rural paramilitar, em uniforme verde e quepe preto de couro envernizado, tentava em vão controlar a multidão histérica. A Polícia Armada, guarnecendo as capitais das províncias, também eram impotentes diante da confusão generalizada. As pessoas procuravam fugir em todas as direcções, na tentativa desesperada de escapar dos touros enfurecidos. Os touros representavam menos perigo do que as próprias pessoas, que se esmagavam na ânsia da fuga. Jaime olhou consternado para o espectáculo atordoante de velhos e mulheres sendo derrubados sob os pés da multidão. Não foi planeado para acontecer assim! O furgão deveria estar à espera nas barricadas para controlar os touros! Olhava desolado para a carnificina, mas não podia fazer coisa alguma para detê-la. Fechou os olhos para não ver. O furgão chegou aos arredores de Pamplona e seguiu para o sul, deixando para trás o clamor e a confusão da multidão em pânico. Para onde estamos indo, Jaime?, perguntou Ricardo Mellado. Há uma casa segura perto da Torre. Ficaremos lá até escurecer e depois seguiremos em frente. Felix Carpio estremecia de dor. Jaime Miró observou-o, com uma expressão compadecida.
Chegaremos num instante, amigo, murmurou, gentilmente. Ele não conseguia tirar da cabeça a cena terrível de Pamplona. Meia hora depois, eles se aproximaram da pequena aldeia de Torre e contornaram-na, seguindo para uma casa isolada nas montanhas. Jaime ajudou os dois homens a saltarem da traseira do furgão. Vocês serão apanhados à meia-noite, informou o motorista. Avise-os para trazerem um médico, disse Jaime. E livre-se desse furgão. Os três entraram na casa. Era uma casa de fazenda, simples e confortável, com uma lareira na sala de estar e viga no tecto. Havia um bilhete na mesa. Jaime Miró leu-o e sorriu para a frase de recepção: Mi casa es su casa. Encontrou garrafas de vinho no bar e serviu bebida para os três. Não há palavras para lhe agradecer, amigo. A você, brindou Ricardo Mellado. Jaime levantou o copo. À liberdade.
Um canário cantou de repente numa gaiola. Jaime foi até lá e observou a sua agitação por um momento. Depois, abriu a gaiola, tirou o passarinho gentilmente e levou-o para uma janela aberta. Voe para longe, pajarito, murmurou. Todas as criaturas vivas devem ser livres.

Madrid
O primeiro-ministro Leopoldo Martínez estava possesso. Era um homem pequeno, de óculos, todo o corpo tremia enquanto falava. Jaime Miró deve ser detido!, gritou, a voz alta estridente. Estão-me entendendo? Olhou furioso para a meia dúzia de homens reunidos na sala. Estamos à procura de um único terrorista, e todo o exército e a polícia são incapazes de encontrá-lo. A reunião estava ocorrendo no Palácio Moncloa, residência e local de trabalho do primeiro-ministro, a cinco quilómetros do centro de Madrid, na Carretera da Galicia, uma estrada sem placas de identificação. O prédio era de alvenaria, verde, com sacada de ferro batido, janelas verdes e guaritas em cada canto. Era um dia quente e seco, e através das janelas, até onde a vista podia alcançar, colunas de ondas de calor elevavam-se como batalhões de soldados fantasmas.
Ontem Miró converteu Pamplona num campo de batalha. Martínez bateu o punho na mesa. Assassinou dois guardas e tirou dois dos seus assassinos da prisão. Muitos inocentes foram mortos pelos touros que ele soltou nas ruas. Por um instante, ninguém disse nada. Ao assumir o cargo, o primeiro-ministro declarou, presunçoso: o meu primeiro acto será acabar com esse grupo separatista. Madrid é a grande unificadora. Transforma andaluzes, bascos, catalães e galegos em espanhóis. Fora excessivamente optimista. Os bascos, fervorosos na sua independência, tinham outras ideias, e a onda de atentados a bomba, assaltos a bancos e manifestações de terroristas da organização ETA (Euzkadi Ta Azkatasuna) continuara sem cessar. O homem à direita de Martínez na reunião disse calmamente: eu o encontrarei. Era o coronel Ramón Acoca, o chefe do GOE, Grupo de Operaciones Especiales, criado para perseguir os terroristas bascos. Acoca era um gigante, de sessenta e poucos anos, rosto marcado por cicatrizes, olhos frios e implacáveis. Fora um jovem oficial sob o comando de Francisco Franco durante a Guerra Civil e ainda era fanaticamente devotado à filosofia de Franco: somos responsáveis apenas perante Deus e a história. Acoca era um oficial brilhante e fora um dos assessores em que Franco mais confiara. O coronel sentia saudade da disciplina de punho de ferro, a punição rápida (maldito) daqueles que questionavam ou desobedeciam à lei». ». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Quase me convenceu. Ele tentou sorrir, com a boca inchada. Eles maltrataram vocês de jeito, não é mesmo? Mas não se preocupe»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O padre fitou-o atentamente. Era difícil dizer com o que o homem parecia. O rosto estava inchado e esfolado, os olhos quase fechados. Através de lábios grossos, o homem murmurou: fico contente que tenha vindo, padre. Sua salvação é o dever da igreja, meu filho. Eles vão-me enforcar esta manhã? O padre afagou-lhe o ombro, gentilmente. Foi condenado a morrer pelo garrote. Não! Lamento muito. As ordens foram dadas pelo primeiro-ministro pessoalmente. O padre pôs a mão na cabeça do preso e entoou: diz-me teus pecados... Pequei muito em pensamento, palavra e acção, padre, e arrependo-me de todos os pecados com toda a força do coração. Ruego a nuestro Padre celestial para la salvación de tua alma. En el nombre del padre, del Hijo y del Espiritu Santo... O guarda, escutando do lado de fora da cela, pensou: uma perda de tempo estúpida. Deus cuspirá no olho deste. O padre acabou. Adiós, meu filho. Que Deus receba sua alma em paz. O padre encaminhou-se para a porta da cela. O guarda abriu-a, depois recuou, a arma apontada para o preso. Depois de trancar a porta, o guarda deslocou-se para a cela seguinte.
Abriu a porta e disse: ele é todo seu, padre. O padre entrou na segunda cela. O homem também fora brutalmente espancado. O padre fitou-o em silêncio por um longo momento. Qual é seu nome, meu filho? Felix Carpio. Era um homem corpulento e barbudo, com uma cicatriz recente e lívida na face, que a barba não conseguia esconder. Não tenho medo de morrer, padre. Isso é óptimo, meu filho. Ao final, nenhum de nós é poupado. Enquanto o padre ouvia a confissão de Carpio, ondas de som distantes, a princípio abafadas, depois tornando-se mais altas, começaram a reverberar pelo prédio. Era a trovoada de cascos e gritos da multidão em fuga. O guarda prestou atenção ao barulho, sobressaltado. Os sons aproximavam-se depressa. É melhor se apressar, padre. Alguma coisa estranha está acontecendo lá fora. Já acabei. O guarda abriu a porta da cela, o padre saiu para o corredor. A porta foi trancada de novo. Havia um estrépito rumoroso na frente da prisão. O guarda virou-se para espreitar pela janela estreita e gradeada. Que barulho será esse? O padre disse: parece que alguém deseja uma audiência connosco. Pode-me emprestar isso? Emprestar o quê? A sua arma, por favor.
Enquanto falava, o padre aproximou-se do guarda. Em silêncio, removeu o topo da cruz que prendia no pescoço, revelando um estilete comprido. Num movimento rápido, mergulhou o estilete no peito do guarda. Saiba, meu filho, murmurou, enquanto tirava a metralhadora das mãos do guarda agonizante, que Deus e eu decidimos que você não precisa mais desta arma. Fazendo devotadamente o sinal da cruz, Jaime Miró acrescentou: In Nomine Patris... O guarda caiu no chão de cimento. Jaime Miró tirou-lhe as chaves e abriu rapidamente as portas das duas celas. Os sons da rua tornavam-se mais intensos. Vamos embora, ordenou Jaime. Ricardo Mellado pegou a metralhadora. Você dá um padre e tanto. Quase me convenceu. Ele tentou sorrir, com a boca inchada. Eles maltrataram vocês de jeito, não é mesmo? Mas não se preocupe. Todos pagarão por isso. O que aconteceu com Zamora? Jaime Miró passou os braços pelos dois homens e ajudou-os a avançarem pelo corredor.
Os homens espancaram-no até a morte. Pudemos ouvir os seus gritos. Levaram-no depois para a enfermaria e disseram que ele morreu de infarto. Havia uma porta de ferro trancada à frente. Esperem aqui. Disse Jaime Miró. Aproximou-se da porta e informou ao guarda no outro lado: já acabei aqui. O guarda abriu a porta. É melhor se apressar, padre. Há algum distúrbio ocorrendo lá fora... Não concluiu a frase. Enquanto o estilete de Jaime penetrava no corpo, o sangue esguichou pela boca do guarda. Jaime fez sinal para os dois homens. Vamos. Felix Carpio pegou a arma do guarda e começaram a descer. A cena lá fora era um caos. A polícia corria de um lado para outro, freneticamente, na tentativa de descobrir o que acontecia e controlar as pessoas que, aos berros, no pátio, debatiam-se para fugir dos touros enfurecidos. Um dos touros investira contra a entrada do prédio, esmagando a entrada de pedra. Outro dilacerava o corpo de um guarda uniformizado no chão. O furgão vermelho encontrava-se no pátio, o motor ligado». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Joana ergueu o olhar, logo se alegrando, pois ainda poderia haver esperança. Meu senhor arcebispo Cisneros e meu querido tio, por favor, perdoai esta recepção tão pouco hospitaleira»

jdact

«(…) A rainha Isabel encarregou-me da vossa segurança e peço a vós que fiqueis aqui. Não, berrou ela. Como é que a minha mãe me pode fazer isso de novo? Chega! Haveis-me pedido que ficasse e eu recusei. E tentou passar por ele. Fonseca avançou para a frente dela. Suas Majestades pretendem apenas que fiqueis mais um pouco até poderem vir dizer adeus. Ah! Peço-vos que não insulteis a minha inteligência. Afastai-vos, quero passar. Fechai os portões! Baixai a ponte levadiça!, ordenou Fonseca. O estrondo da madeira reforçada e o ranger de correntes dilaceraram-lhe a alma. Ouvia o esmagar de todos os seus sonhos e esperanças. Recebi ordens para que não vos ausenteis deste local até Suas Majestades darem autorização. Não podeis visitar a cidade, nem sequer pensar em viajar. Lembram-vos que seria extremamente perigoso para vós viajar sem autorização. Devo tomar todas as precauções necessárias que vos impeçam de agir contra o desejo deles. Seu vilão! Seu vilão inqualificável. Pensei que éreis meu amigo. Revelastes todos os meus planos pelas minhas costas e depois conspirastes contra mim. E agora aprisionais-me. Confiava em vós e traístes-me. Agora não tenho qualquer esperança. Cuspiu-lhe aos pés. Não sois digno das vestes que envergais. Deixai que vos diga que, quando for rainha, farei com que os vossos actos sejam justamente recompensados. Antes de fazer o que quer que seja, ordenarei que vos enforquem. Ao contrário dos que me rodeiam, cumpro as minhas promessas, Fonseca. Odeio-vos! Hei-de mandar cortar a vossa língua viperina!
O padre curvara-se e apressara-se pelo portão do postilhão, lançando ordens enquanto caminhava. Já partira havia algum tempo quando Joana se apercebeu de como fora ofensiva para com a pessoa que insistira ter sempre a seu lado quando fosse rainha. Ergueu as saias e correu pelos degraus acima até às ameias, chamando-o. Meu senhor bispo, por favor, voltai, não pretendia dizer aquilo, perdoai-me. Não, acho melhor informar a rainha Isabel da situação. Ela irá aconselhar-me sobre o melhor a fazer. Joana desceu, vacilante, doente de apreensão. Só quero ir para junto do meu Felipe. Durante o resto do dia e da noite caminhou pela estreita passagem que corria junto às muralhas, mergulhada na sua infelicidade. Não dava conta da chegada das criadas, não reparava na mudança da guarda, ignorava a oferta de mais um manto. A um dado momento, na manhã seguinte, ouviu uma voz que se dirigia a ela. Dois visitantes, Vossa Majestade.
Joana ergueu o olhar, logo se alegrando, pois ainda poderia haver esperança. Meu senhor arcebispo Cisneros e meu querido tio, por favor, perdoai esta recepção tão pouco hospitaleira, mas, como vedes, espero partir a qualquer momento. Assim ouvimos, Senhora, mas não estaríeis mais confortável lá dentro? Tendes razão, e convidou-os a segui-la. Ambos se aperceberam de que a vitória seria fácil.

Joana, isto são as cozinhas. Pensamos ir para os vossos aposentos, sussurrou dom Fradique. Tio, aqui serve muito bem para mim. Vou esperar lá fora e comer e beber aqui até chegar o momento de partir. Joana, vim da parte da rainha para vos implorar, a bem da vossa saúde, que volteis para os vossos aposentos. Tendes de ter mais cuidado com a vossa pessoa para que, quando chegar a Primavera, estejais bem para viajar. Porque terei imaginado que trazíeis boas notícias? A minha mãe fala da primavera, não é verdade? Pretende deixar-me aqui para sempre, que eu bem sei. Fostes enviado com um monte de mentiras. Tio, eu só quero o meu Felipe, por que ela não me deixa ir ao seu encontro? Por que me tortura assim? Joana, minha querida, é claro que quereis o vosso príncipe e ireis ao seu encontro, mas a seu tempo. Tendes de vos recordar que não sois uma mera senhora a tentar voltar para o marido e para os filhos: é necessária muita cautela em todas as acções que vós e nós empreendermos. Analisemos a situação cuidadosamente». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Não se afastara muito quando encontrou Fonseca. Nenhum ficou feliz ao ver o outro. Vossa Alteza, posso perguntar por que motivo haveis abandonado o castelo? Vou a caminho da cidade…»

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«(…) O Castelo La Mota encarava ferozmente do cimo de um monte sinistro e isolado o animado mercado de Medina del Campo. Trazendo as notas de troca, gente de toda a Europa enchia o mercado durante as feiras, comprando e vendendo lãs, sedas, cetins e veludos. A praça, desproporcionadamente grande para uma cidade tão pequena, era um festival de cores e sons. Todavia, o castelo ficava distante e altivo; solene, frio, com aposentos húmidos e cheios de mofo, com frequência inundados pelas chuvas da Primavera que enchiam o fosso. Naquele pardacento e ventoso dia de Novembro, o enorme volume do castelo parecia mais inóspito do que nunca. Uma figura magra de preto, segurando nas saias e no manto contra o vento cortante, seguia caminho por entre as ameias, detendo-se ocasionalmente para espreitar na direcção da cidade. Já deviam estar aqui. O que os terá atrasado? Oh, meu Felipe, aí vou eu, aí vou eu, gritava Joana para as rajadas ferozes. Tinha o rosto encolhido enquanto olhava, os olhos pisados de negro.
Desde que acordava, não pensava em mais nada a não ser no regresso para junto de Felipe, que partira havia quase um ano. Entrara em luto no dia em que ele a deixara. Chorava durante horas e não falava em mais nada a não ser Felipe. Como tinha saudades dele, como o amava, como o desejava, como tinha de voltar para junto dele. Após semanas de pedidos ignorados, abatera-se numa profunda melancolia. Aquele estado de espírito mantivera-se durante os oito meses desde o nascimento do filho, Fernando, mas ela ainda não deixara a Espanha. Todavia, não haveria mais demoras, mais desilusões. As desculpas e as promessas constantemente quebradas seriam desnecessárias, pois desta vez fizera os seus próprios preparativos. Margarida, a sua querida Margarida, e até a rainha Ana da França tinham prometido que haveria carroças prontas à espera dela na fronteira. Partiria, apesar de os pais não lhe concederem licença para viajar. Fora assinado um tratado de paz com a França e isto, do seu ponto de vista, era garantia suficiente para a sua viagem segura para Flandres, para junto do marido. A partir daquele dia não seria mais prisioneira. Partiria. Porém, não via sinais dos cavalos. Desceu apressadamente os degraus, mandou chamar meia dúzia dos seus guardas e, sombriamente determinada, atravessou a ponte levadiça para descer o monte até à cidade, pretendendo lidar pessoalmente com os responsáveis pela demora.
Não se afastara muito quando encontrou Fonseca. Nenhum ficou feliz ao ver o outro. Vossa Alteza, posso perguntar por que motivo haveis abandonado o castelo? Vou a caminho da cidade para descobrir por que motivo os cavalos não foram enviados. Está tudo pronto para partir e, agora, essa demora. Não posso imaginar qual é o problema. Alguém será responsabilizado se não houver uma boa explicação. Estamos perdendo tempo valioso. Bom dia, meu senhor. Senhora, não devíeis ir à cidade sozinha. Então, acompanhai-me. Não é preciso. O problema já foi resolvido, mas não devíamos estar aqui ao frio; voltemos para o castelo e explicarei tudo a vós. E conduziu-a de novo pelo portão do castelo. Joana deteve-se, suspeitosa. Dizei-me o que se passa com os cavalos. Não quereis entrar? Não dou nem mais um passo. Os cavalos!? Estão em Medina. É claro que estão em Medina, cortou ela. É por isso que ia a caminho. Não me trateis como uma idiota. Não vêm para cá. Mandei-os para trás. Como vos atreveis? Com que autoridade?, gritou Joana, a raiva quase impedindo-a de falar». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Virou o rosto para Milagros e viu-a andar erguida, arrogante, atenta a tudo e a todos. Como corresponde a uma cigana de raça, reconheceu então, sem poder evitar um esgar de satisfação. Como não iam reparar na sua menina?»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748
«(…) Em Triana todos sabem que sou sua neta. Riu. Os dentes brancos contrastaram com a tez escura, igual à de sua mãe, igual à de seu avô. Quem se atreveria? A luxúria é cega e ousada, menina. São muitos os que arriscariam a vida para ter-te. Eu só poderia vingar-te, e não haveria sangue suficiente com que remediar essa dor. Lembra-o sempre, acrescentou dirigindo-se à mãe. Sim, pai, respondeu esta. Ambas esperaram uma palavra de despedida, um gesto, um sinal, mas o cigano, hierático na sua esquina, não acrescentou nada mais. Ao final, Ana tomou a filha pelo braço e deixaram a casa. Era uma manhã fria. O céu estava fechado e ameaçava chuva, o que não parecia ser impedimento para que as pessoas de Triana se dirigissem à igreja de São Jacinto para celebrar a bênção das candeias. Também eram muitos os sevilhanos que queriam juntar-se à cerimónia e, com os seus círios às costas, cruzavam a ponte ou venciam o Guadalquivir a bordo de algum dos mais de vinte barcos dedicados a levar gente de uma margem à outra. A multidão prometia um dia proveitoso, pensou Ana antes de recordar os temores de seu pai. Virou o rosto para Milagros e viu-a andar erguida, arrogante, atenta a tudo e a todos. Como corresponde a uma cigana de raça, reconheceu então, sem poder evitar um esgar de satisfação. Como não iam reparar na sua menina? Seu abundante cabelo castanho caía-lhe pelas costas até misturar-se com as longas franjas verdes do lenço que levava sobre os ombros. Aqui e ali, entre o cabelo, uma fita colorida ou uma pérola; grandes brincos de prata pendiam das suas orelhas, e colares de contas ou de prata saltavam sobre os seus peitos jovens, presos no amplo e atrevido decote da camisa branca. A saia azul cingia-se à sua delicada cintura e chegava quase até ao chão, sobre o qual apareciam e desapareciam seus pés descalços. Um homem a olhou de soslaio. Milagros percebeu-o no mesmo instante, felina, e virou o rosto para ele; as cinzeladas feições da moça se suavizaram, e as suas bastas sobrancelhas pareceram arquear-se num sorriso. Começamos o dia, disse a mãe.
Leio-te a sorte, rapagão? O homem, forte, fez menção de seguir o seu caminho, mas Milagros lhe sorriu abertamente e se aproximou dele, tanto que os seus peitos quase o roçaram. Vejo uma mulher que te deseja, acrescentou a cigana, olhando-o fixamente nos olhos. Ana chegou à altura de sua filha a tempo de ouvir suas últimas palavras. Uma mulher… Que mais podia desejar um indivíduo como aquele, grande e sadio, mas evidentemente só, que levava nas mãos uma pequena vela? O homem hesitou alguns segundos antes de fixar-se na outra cigana que se havia aproximado dele: mais velha, mas tão atraente e altiva como a moça. Não queres saber mais? Milagros recuperou a atenção do homem ao mesmo tempo que se aprofundava nuns olhos em que já havia percebido interesse. Tentou pegar sua mão. Tu também desejas essa mulher, não é verdade?
A cigana notou que sua presa começava a ceder. Mãe e filha, em silêncio, coincidiram: trabalho fácil, concluíram ambas. Um carácter acanhado, tímido, o homem havia tentado esconder o seu olhar, enfiado num corpanzil. Certamente havia alguma mulher, sempre havia. Só tinham de animá-lo, insistir em que vencesse essa vergonha que o reprimia. Milagros esteve brilhante, convincente: percorreu com o dedo as linhas da palma da mão do homem como se efectivamente lhe anunciassem o futuro daquele ingénuo. A sua mãe contemplava-a entre sentir-se orgulhosa e divertir-se. Obtiveram um par de quartos de cobre pelos seus conselhos. Depois Ana tentou vender-lhe algum charuto de contrabando. Pela metade do preço das tabacarias de Sevilha, ofereceu-lhe. Se não queres charutos, também tenho pó de tabaco, da melhor qualidade, limpo, sem terra. Tentou convencê-lo abrindo a mantilha com que se cobria para mostrar-lhe a mercadoria que levava escondida, mas o homem limitou-se a esboçar um sorriso bobo, como se mentalmente já estivesse cortejando aquela a que nunca se havia atrevido a dirigir a palavra.
Durante todo o dia, mãe e filha moveram-se entre a multidão que se deslocava do Altozano, pelos arredores do castelo da Inquisição (maldita) e da igreja de São Jacinto, ainda em construção sobre a antiga ermida da Candelária, lendo a sorte e vendendo tabaco, sempre atentas aos oficiais de justiça e às ciganas que furtavam os desprevenidos, muitas delas pertencentes à sua própria família. Ela e a sua filha não necessitavam correr esses riscos e não desejavam ver-se envolvidas em alguma das muitas altercações que se produziam quando flagravam alguma: o tabaco já lhes proporcionava ganhos suficientes». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Todos, quase sem excepção, ofereciam humildes habitações de um ou no máximo dois quartos, num dos quais, quando não estava no próprio pátio ou ruela…»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748
«(…) O bairro sevilhano de Triana ficava do outro lado do rio Guadalquivir, fora das muralhas da cidade. Comunicava-se com a cidade através de uma velha ponte muçulmana construída sobre dez barcaças ancoradas no leito do rio e unidas a duas grossas correntes de ferro e vários cabos estendidos de margem a margem. Aquele arrabalde, que havia sido baptizado como guarda de Sevilha pela função defensiva que sempre havia tido, alcançou a sua época de esplendor quando Sevilha monopolizava o comércio com as Índias; os problemas de navegação pelo rio aconselharam, em inícios do século, trasladar a Casa de Contratação a Cádiz e implicaram uma considerável diminuição da sua população e o abandono de numerosos edifícios. Os seus dez mil habitantes concentravam-se numa limitada superfície de forma alongada na margem direita do rio, que se atravessava no seu outro limite pela Cava, o antigo fosso que em épocas de guerra constituía a primeira defesa da cidade e que se inundava com as águas do Guadalquivir para converter o arrabalde numa ilha. Para além da Cava viam-se alguns esporádicos conventos, ermidas, casas e a extensa e fértil veiga trianeira.
Um desses conventos, na Cava Nueva, era o de Nossa Senhora de la Salud, de monjas mínimas, uma humilde congregação de religiosas dedicada à contemplação e à oração através do silêncio e da vida quaresmal. Atrás das Mínimas, para a rua de San Jacinto, no pequeno beco sem saída de San Miguel, apinhavam-se treze cortiços em que por sua vez se amontoavam cerca de vinte e cinco famílias. Vinte e uma delas eram ciganas, compostas por avós, filhos, tias, primos, sobrinhas, netos e um que era bisneto; as vinte e uma se dedicavam à forja. Existiam outras ferrarias no arrabalde de Triana, a maioria em mãos ciganas, as mesmas mãos que já na Índia ou nas montanhas da Arménia, séculos antes de emigrar para a Europa, haviam convertido o seu ofício em arte. No entanto, San Miguel era o centro nevrálgico da ferraria e da caldeiraria trianeiras. No beco se abriam os antigos cortiços construídos durante a época de esplendor do arrabalde no século XVI: alguns não eram mais que simples ruelas sem saída de míseras casinhas alinhadas e defrontadas de um ou dois andares; outros eram edifícios, amiúde intrincados, de dois e três andares dispostos ao redor de um pátio central, cujos andares superiores se abriam para ele através de corredores altos e grades de ferro forjado ou de madeira. Todos, quase sem excepção, ofereciam humildes habitações de um ou no máximo dois quartos, num dos quais, quando não estava no próprio pátio ou ruela como serviço comum a todos os vizinhos do cortiço, havia um pequeno nicho para cozinhar com carvão. As pias para lavar e as latrinas, se as havia, estavam colocadas no pátio, à disposição de todos eles.
À diferença dos outros cortiços sevilhanos ocupados durante o dia só pelas mulheres e pelas crianças que brincavam nos pátios, os dos ferreiros trianeiros estavam durante toda a jornada de trabalho, pois tinham instaladas suas fráguas no térreo. O constante repicar do martelo sobre a bigorna escapava de cada uma das ferrarias e se unia na rua numa estranha algaravia metálica; a fumaça do carvão das fráguas, que amiúde saía pelo pátio dos cortiços ou pelas mesmas portas daquelas modestas oficinas sem chaminé, era visível de qualquer ponto de Triana. E ao longo do beco, envoltos na algaravia e na fumaça, homens, mulheres e crianças iam e vinham, brincavam, riam, conversavam, gritavam ou discutiam. Contudo e apesar do tumulto, muitos deles emudeciam e se detinham com os sentimentos à flor da pele às portas dessas fráguas. Às vezes se distinguiam um pai que retinha o filho pelos ombros, ou um velho de olhos entrefechados, ou várias mulheres que reprimiam um passo de dança ao ouvir os sons do martinete: um canto triste acompanhado apenas pelo monótono bater do martelo a cujo ritmo se compassava; um canto próprio que lhes havia seguido em todos os tempos e lugares. Então, por obra dos quejíos dos ferreiros, o martelar se convertia numa maravilhosa sinfonia capaz de arrepiar os pelos.
Naquele 2 de Fevereiro de 1748, festa da Purificação de Nossa Senhora, os ciganos não trabalhavam nas suas ferrarias. Poucos deles iriam à igreja de São Jacinto e da Virgem da Candelária para benzer as velas com que iluminavam o seu lar, mas, apesar disso, tampouco queriam problemas com os piedosos vizinhos de Triana e menos ainda com sacerdotes, frades e inquisidores; tratava-se de um dia de folga obrigatório.
Guarda a moça dos desejos dos payos, advertiu uma voz rouca. As palavras, em caló, a língua cigana, ressoaram no pátio que dava para o beco. Mãe e filha detiveram os seus passos. Nenhuma delas mostrou surpresa, embora não soubessem de onde vinha a voz. Percorreram o pátio com o olhar até que Milagros distinguiu na penumbra de uma esquina o reflexo prateado da abotoadura da jaquetinha curta azul-celeste do seu avô. Achava-se de pé, erguido e parado, com o cenho franzido e o olhar perdido, como era habitual nele; havia falado sem deixar de morder um pequeno charuto apagado. A moça, de catorze esplendorosos anos, sorriu-lhe e girou com graça; sua longa saia azul e a sua anágua, seus lenços verdes revolutearam no ar entre o tilintar de vários colares que lhe pendiam do pescoço». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

domingo, 25 de agosto de 2019

Valencia de Alcántara. Bartolomé M. Díaz e Dionisio Martín Nieto. «Primeramente, que puesto un hombre en la dicha fortaleza, la cual cae en la parroquia de Roqueamador, hacia la parte que dicen de la Barrera…»

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Esbozo Histórico de la Configuración Urbanística
«Desconocemos totalmente el entramado urbanístico y el nombre de las calles de la Valencia de Alcántara medieval. Probablemente, el núcleo más antiguo giraba en torno al castillo, la villa vieja y su arrabal de Santiago, que quedaron arrasados durante las guerras con Portugal. Las primeras fuentes documentales que puedan generar una visión global se fechan en la segunda mitad del siglo XVI, como son el reparto de alcabalas de 1552 y la división parroquial que figura en la visitación de 1678 referida a la confirmación que hace el visitador Villavicencio en 1575 y que creemos que es un traslado de la realizada hacia 1484 con la creación de la nueva parroquia de la Encarnación. La Guerra de Secesión de Portugal en el siglo XVII modificó sensiblemente la estrutura urbana de la villa, y los primeros planos que disponemos no se remontan más allá de este tiempo.
Dos han sido las formas de organizar el espácio urbano de Valencia de Acántara, recogidas en la documentación, la división eclesiástica en colaciones o parroquias, y la concejil en cuadrillas. Ambas tejieron una red de relaciones sociales que estableció unos fuertes vínculos vecinales. La jurisdicción parroquial delimitaba la malla urbana y también a la comunidad de fieles, fortalecendo un sentimiento de adscripción que se manifestaba en los actos vitales del individuo, como el bautismo, la confirmación, el matrimonio y el entierro, sacralizados en un edificio, el templo, que se convertía en hito principal del vecindario; y en él se renovaban los lazos espirituales con la asistencia a las celebraciones del calendario litúrgico. Asimismo, se generaban unas obligaciones económicas de los vecinos con su parroquia, unas de tipo impositivo como el pago del diezmo y las primicias, y otras de orden moral como las limosnas y el sostenimiento de aniversarios, misas y memorias para descargo del ánima de los difuntos.
Desde la creación de la parroquia de la Encarnación en 1484, la feligresía de Valencia de Alcántara se dividía en tres demarcaciones parroquiales o colaciones: la de Santiago, la de Rocamador y la de la Encarnación. Como en todos los lugares, hubo frecuentes disputas entre ellas, y con motivo de uno de esos pleitos, en 10 de Marzo de 1575 el obispo de Coria mandó guardar esta distribución, que sin duda está copiada literalmente de la establecida a finales del siglo XV a tenor de denominar algunas calles por el nombre de la persona más conocida que en ellas vivían:

Primeramente, que puesto un hombre en la dicha fortaleza, la cual cae en la parroquia de Roqueamador, hacia la parte que dicen de la Barrera, bajando por la calle que dicen de Simón Garçía, a dar al Pósito de la Orden; y de allí a dar a la calle que dizen de Pedro Gómez; y la calle abajo hasta dar en la calle de la Pulga arriba hasta dar en el pozo de la Carneecería; y entrando por la calle de Villagutierre; y la misma calle arriba hasta dar en las Cuatro Calles todo lo que este hombre, viniendo por este camino y calles, es todas las calles y casas, viniendo a sumano izquierda son y pertenesçen a la parroquia de Nuestra Señora de Roqueamador, y las dichas calles y casas que el dicho hombre deja a su mano derecha, son y pertenesçen a la parroquia del señor Santiago.

[…]
In Bartolomé Miranda Díaz, Dionisio Martín Nieto, El Patrimonio Artístico de Valencia de Alcántara, siglos XIII-IX, Gráficas Imdex, 2011, ISBN 978-846-065-324-0.

Cortesia de GImpex/AVdeAlcántara/JDACT

domingo, 11 de agosto de 2019

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Está perdendo o seu tempo aqui, padre. Estes animais não têm almas para serem salvas. Ainda assim, meu filho, devemos tentar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Primeiro vinha o som. Começava como um ténue e distante sussurro no vento, quase imperceptível, depois ficava cada vez mais alto, até se transformar numa explosão de cascos batendo, e subitamente seis bois e seis touros apareciam. Cada um pesando cerca de setecentos quilos, avançavam pela Calle Santo Domingo como expressos mortíferos. Por dentro das barricadas de madeira instaladas em cada esquina, para manter os touros confinados a uma única rua, havia centenas de jovens ansiosos e nervosos, decididos a provar sua bravura enfrentando os animais enfurecidos. Os touros corriam da extremidade da rua, passavam pela Calle Laestrafeta e a Calle de Javier, passavam por farmácias e lojas de roupas, pelo mercado de frutas, a caminho da Plaza de Hemingway, e soavam gritos de olé da multidão frenética. Com a chegada dos animais, começavam uma debandada desesperada para escapar aos chifres afiados e cascos letais. A repentina realidade da morte se aproximando fazia com que alguns participantes corressem para a segurança dos vãos de portas e saídas de incêndio. Eram acompanhados por escárnios de cobardon. Os poucos que tropeçavam e caíam no caminho dos touros eram logo puxados para um lugar seguro.
Um menino e o avô escondiam-se atrás de uma barricada, ofegantes com a emoção do espectáculo que ocorria tão perto dali. Olhe só para eles!, exclamou o velho. Magnífico! O menino estremeceu. Tenho medo, avô. O velho passou o braço pelos seus ombros. Sim, Manuelo. É assustador, mas também maravilhoso. Já corri com os touros uma vez. Não há nada igual. V. testa a si mesmo contra a morte, e isso faz com que se sinta um homem. Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros da Calle Santo Domingo até à arena; no momento em que os touros entravam no curral, um terceiro rojão devia surgir no céu. Naquele dia o terceiro rojão não explodiu, pois ocorreu um incidente que nunca antes acontecera nos quatrocentos anos de história de touros de Pamplona. Enquanto os animais avançavam pela rua estreita, meia dúzia de homens, vestidos nos trajes pitorescos da feria, mudaram as posições das barricadas. Os touros foram obrigados a deixar a rua exclusiva e ficaram à solta no coração da cidade. O que, um momento antes, fora uma comemoração feliz se transformou no mesmo instante num pesadelo. Os animais frenéticos atacaram os espectadores atordoados. O menino e o avó foram dos primeiros a morrer, derrubados e pisoteados pelos touros. Violentas chicotadas atingiram um carrinho de bebê e mataram a criança indefesa, derrubando a mãe com a cara esmagada. A morte pairava no ar por toda a parte. Os animais colidiam com espectadores desprotegidos, derrubando mulheres e crianças, enfiando os chifres compridos e fatais nas pessoas, barracas de comida e estátuas, arrasando tudo o que tinha o azar de se encontrar pela frente. Todos gritavam desesperados, na tentativa de escapar do caminho dos animais enfurecidos.
Um furgão vermelho brilhante apareceu à frente dos touros, que se viraram para atacá-lo, seguindo pela Calle de Estrella, a rua que levava ao cárcel, a prisão de Pamplona. O cárcel é um prédio de pedra, de dois andares, janelas gradeadas, aparência assustadora. Há guaritas nos quatro cantos, e a bandeira espanhola, vermelha e amarela, trémula por cima da porta. Um portão se abre para um pequeno pátio. O segundo andar do prédio consiste de celas, em que estão os presos condenados à morte. No interior da prisão, um corpulento guarda, com um uniforme da Polícia Armada, conduzia um sacerdote de hábito preto pelo corredor do segundo andar. O guarda carregava uma metralhadora. Ao perceber a expressão inquisitiva nos olhos do sacerdote à visão de arma, o guarda explicou: o cuidado nunca é demais aqui, padre. Temos a escória da terra neste andar. O guarda pediu ao padre que passasse por um detector de metal, muito parecido com os usados nos aeroportos. Desculpe, padre, mas os regulamentos... Não tem problema, meu filho. No momento em que o padre passou, uma sirene estridente irrompeu no corredor. Instintivamente, o guarda contraiu a mão que empunhava a metralhadora. O padre virou-se e sorriu para o guarda, murmurando: a culpa é minha. Removeu uma pesada cruz de metal que pendia do pescoço numa corrente de prata e entregou-a ao guarda. Quando tornou a passar, o detector permaneceu em silêncio. O guarda devolveu a cruz e os dois continuaram a jornada pelas profundezas da prisão. O mau cheiro no corredor, perto das celas, era opressivo. O guarda estava com um ânimo filosófico.
Está perdendo o seu tempo aqui, padre. Estes animais não têm almas para serem salvas. Ainda assim, meu filho, devemos tentar. O guarda sacudiu a cabeça. Posso garantir-lhe que os portões do inferno estão à espera para escolher os dois. O padre olhou surpreso para o guarda. Dois? Fui informado que havia três que precisavam de confissão. O guarda encolheu os ombros. Poupamos um pouco do seu tempo. Zamora morreu na enfermaria essa manhã. Ingrato. Eles alcançaram as celas mais distantes. Chegámos, padre. O guarda destrancou a porta de uma cela, depois recuou, cauteloso, enquanto o padre entrava. Tornou a trancar a cela e ficou parado no corredor, alerta a qualquer sinal de problema. O padre aproximou-se do vulto no imundo catre da prisão. Seu nome, meu filho? Ricardo Mellado». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

sábado, 11 de maio de 2019

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros da Calle Santo Domingo até à arena; no momento em que os touros entravam no curral, um terceiro rojão devia surgir no céu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Primeiro vinha o som. Começava como um ténue e distante sussurro no vento, quase imperceptível, depois ficava cada vez mais alto, até se transformar numa explosão de cascos batendo, e subitamente seis bois e seis touros apareciam. Cada um pesando cerca de setecentos quilos, avançavam pela Calle Santo Domingo como expressos mortíferos. Por dentro das barricadas de madeira instaladas em cada esquina, para manter os touros confinados a uma única rua, havia centenas de jovens ansiosos e nervosos, decididos a provar sua bravura enfrentando os animais enfurecidos. Os touros corriam da extremidade da rua, passavam pela Calle Laestrafeta e a Calle de Javier, passavam por farmácias e lojas de roupas, pelo mercado de frutas, a caminho da Plaza de Hemingway, e soavam gritos de olé da multidão frenética. Com a chegada dos animais, começavam uma debandada desesperada para escapar aos chifres afiados e cascos letais. A repentina realidade da morte se aproximando fazia com que alguns participantes corressem para a segurança dos vãos de portas e saídas de incêndio. Eram acompanhados por escárnios de cobardon. Os poucos que tropeçavam e caíam no caminho dos touros eram logo puxados para um lugar seguro.
Um menino e o avô escondiam-se atrás de uma barricada, ofegantes com a emoção do espectáculo que ocorria tão perto dali. Olhe só para eles!, exclamou o velho. Magnífico! O menino estremeceu. Tenho medo, avô. O velho passou o braço pelos seus ombros. Sim, Manuelo. É assustador, mas também maravilhoso. Já corri com os touros uma vez. Não há nada igual. V. testa a si mesmo contra a morte, e isso faz com que se sinta um homem. Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros da Calle Santo Domingo até à arena; no momento em que os touros entravam no curral, um terceiro rojão devia surgir no céu. Naquele dia o terceiro rojão não explodiu, pois ocorreu um incidente que nunca antes acontecera nos quatrocentos anos de história de touros de Pamplona. Enquanto os animais avançavam pela rua estreita, meia dúzia de homens, vestidos nos trajes pitorescos da feria, mudaram as posições das barricadas. Os touros foram obrigados a deixar a rua exclusiva e ficaram à solta no coração da cidade. O que, um momento antes, fora uma comemoração feliz se transformou no mesmo instante num pesadelo. Os animais frenéticos atacaram os espectadores atordoados. O menino e o avó foram dos primeiros a morrer, derrubados e pisoteados pelos touros. Violentas chicotadas atingiram um carrinho de bebé e mataram a criança indefesa, derrubando a mãe com a cara esmagada. A morte pairava no ar por toda a parte. Os animais colidiam com espectadores desprotegidos, derrubando mulheres e crianças, enfiando os chifres compridos e fatais nas pessoas, barracas de comida e estátuas, arrasando tudo o que tinha o azar de se encontrar pela frente. Todos gritavam desesperados, na tentativa de escapar do caminho dos animais enfurecidos.
Um furgão vermelho brilhante apareceu à frente dos touros, que se viraram para atacá-lo, seguindo pela Calle de Estrella, a rua que levava ao cárcel, a prisão de Pamplona. O cárcel é um prédio de pedra, de dois andares, janelas gradeadas, aparência assustadora. Há guaritas nos quatro cantos, e a bandeira espanhola, vermelha e amarela, trémula por cima da porta. Um portão se abre para um pequeno pátio. O segundo andar do prédio consiste de celas, em que estão os presos condenados à morte. No interior da prisão, um corpulento guarda, com um uniforme da Polícia Armada, conduzia um sacerdote de hábito preto pelo corredor do segundo andar. O guarda carregava uma metralhadora. Ao perceber a expressão inquisitiva nos olhos do sacerdote à visão de arma, o guarda explicou: o cuidado nunca é demais aqui, padre. Temos a escória da terra neste andar. O guarda pediu ao padre que passasse por um detector de metal, muito parecido com os usados nos aeroportos. Desculpe, padre, mas os regulamentos... Não tem problema, meu filho. No momento em que o padre passou, uma sirene estridente irrompeu no corredor. Instintivamente, o guarda contraiu a mão que empunhava a metralhadora. O padre virou-se e sorriu para o guarda, murmurando: a culpa é minha. Removeu uma pesada cruz de metal que pendia do pescoço numa corrente de prata e entregou-a ao guarda. Quando tornou a passar, o detector permaneceu em silêncio. O guarda devolveu a cruz e os dois continuaram a jornada pelas profundezas da prisão. O mau cheiro no corredor, perto das celas, era opressivo. O guarda estava com um ânimo filosófico.
Está perdendo o seu tempo aqui, padre. Estes animais não têm almas para serem salvas. Ainda assim, meu filho, devemos tentar. O guarda sacudiu a cabeça. Posso garantir-lhe que os portões do inferno estão à espera para escolher os dois. O padre olhou surpreso para o guarda. Dois? Fui informado que havia três que precisavam de confissão. O guarda encolheu os ombros. Poupamos um pouco do seu tempo. Zamora morreu na enfermaria essa manhã. Ingrato. Eles alcançaram as celas mais distantes. Chegámos, padre. O guarda destrancou a porta de uma cela, depois recuou, cauteloso, enquanto o padre entrava. Tornou a trancar a cela e ficou parado no corredor, alerta a qualquer sinal de problema. O padre aproximou-se do vulto no imundo catre da prisão. Seu nome, meu filho? Ricardo Mellado». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Os que participariam da corrida de touros usavam um lenço vermelho de San Fermín em volta do pescoço»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quarenta anos após a Guerra civil a Espanha ainda é um país fragmentado, sacudido pelo ressurgimento de movimentos separatistas. Ë nesse cenário, na segunda metade dos anos 70, que Sidney Sheldon desenvolve a sua história: o confronto entre o terrorista basco Jaime Miró, que liberta da cadeia dois companheiros condenados à morte, e seu perseguidor, o coronel Ramon Acoca, que invade o esconderijo dos fugitivos, um convento na região rural de Àvila. Sheldon narra o drama de quatro freiras, arrancadas da paz da clausura para a agitação de Madrid, onde conhecem o perigo e a paixão. A Espanha, com as suas paixões ardentes, ainda dilacerada pelos ódios da sangrenta Guerra Civil, é o cenário deste novo e inesquecível romance. A história passa-se logo depois da morte de Francisco Franco, o ditador que governou o país com mãos de ferro por quase quarenta anos. Em 1976, o carismático e idealista líder do proscrito movimento separatista basco, Jaime Miró, liberta da cadeia em Pamplona dois companheiros condenados à morte e foge, perseguido pela polícia e pelo exército. O cruel e vingativo Ramón Acoca, no comando da implacável perseguição, desconfia de que os bascos estão refugiados num convento cisterciense nos arredores de Ávila e resolve invadi-lo. As freiras desta ordem, uma das mais rigorosas do mundo, obrigadas ao silêncio total e à reclusão absoluta, subitamente expulsas do ambiente aconchegante eseguro do convento, são brutalizadas e levadas para Madrid, presas. Mas quatro conseguem escapar e, arremessadas no perigo e na aventura, vêem-se presas de paixões proibidas a que não podem ceder mas não ousam negar. Irmã Teresa, a mais velha, Irmã Lucia, ardorosa beleza siciliana, Irmã Graciela é uma linda jovem, Irmã Megan é loura, de um tipo que não parece espanhol». […] In Sinopse

«A Espanha dilacerou a terra com unhas, quando Paris era mais bela. A Espanha projectou sua vasta árvore de sangue, quando Londres cuidava de seu jardim e o seu lago de cisnes». Pablo Neruda

Pamplona, 1976. Espanha
«Se o plano falhar, todos nós morreremos. Ele repassou-o mentalmente pela última vez, sonhando, avaliando, à procura de defeitos. Não encontrou nenhum. O plano era usado e exigia um cálculo do tempo cuidadoso, em fracções de segundos. Se desse certo, seria um feito espectacular, digno de El Cid. Se falhasse... Bom, o tempo de se preocupar já passou, pensou Jaime Miró. É tempo de acção. Jaime Miró era um mito, um herói para o povo basco e anátema para o governo espanhol. Tinha mais de um metro e oitenta de altura, rosto forte e inteligente, corpo musculoso e olhos escuros taciturnos. Testemunhas tendiam a descrevê-lo como mais alto do que era, mais moreno do que era, mais impetuoso do que era. Era um homem complexo, um realista que compreendia as enormes desigualdades contra si, um romântico disposto a morrer por aquilo em que acreditava.
Pamplona era uma cidade enlouquecida. Era a última manhã das corridas de touros, a Fiesta San Fermín, a celebração anual realizada de 7 a 14 de Junho. Trinta mil visitantes enxameavam a cidade, procedentes do mundo inteiro. Alguns estavam ali apenas para observar o perigoso espectáculo da corrida dos touros, outros queriam provar sua coragem, correndo na frente dos animais em disparada. Todos os quartos de hotel há muito que estavam ocupados, e universitários de Navarra dormiam em vãos de portas, saguões de bancos, automóveis, na praça central, e até mesmo nas ruas e calçadas da cidade. Os turistas lotavam os cafés e os hotéis, assistindo aos ruidosos e pitorescos desfiles de gigantes de papier-maché e escutando as músicas das bandas que desfilavam. Os participantes do desfile usavam mantos violetas, com capuzes verdes, vermelhos ou dourados. Fluindo as ruas, as procissões pareciam rios de arco-íris. A explosão de fogos de artifício pelos postes e fios dos bondes aumentavam o barulho e a confusão geral. A multidão comparecia à tourada final da tarde, mas o evento mais espectacular era o encierro,  a corrida matutina dos touros que lutariam mais tarde, naquele mesmo dia. Dez minutos antes da meia-noite, na noite da véspera, os touros eram levados dos corrales de gas, pelas ruas escuras da parte inferior da cidade, atravessando o rio por uma ponte, até ao curral na base da Calle Santo Domingo, fechada por barricadas de madeira em cada esquina, até alcançarem os currais de Plaza de Hemingway, onde ficavam até a tourada à tarde.
De meia-noite às seis horas da manhã os visitantes permaneciam acordados, bebendo, cantando e fazendo amor, excitados demais para dormir. Os que participariam da corrida de touros usavam um lenço vermelho de San Fermín em volta do pescoço. Às quinze para as seis da manhã as bandas começaram a circular pelas ruas, tocando a música vibrante de Navarra. Às sete horas em ponto um rojão voava pelo ar, para anunciar a abertura dos portões do curral. A multidão era dominada por uma expectativa febril. Momentos depois um segundo rojão era disparado, um aviso à cidade de que os touros já estavam correndo. O que se seguia era um espectáculo inesquecível». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

sábado, 10 de novembro de 2018

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Isto é só teoria, inspetor-chefe, disse Jorge. Ele nunca teve o benefício da experiência directa. O que sabe disso? Disse Felipe, pondo-se de joelhos, agarrando nuns quadris imaginários…»

jdact

«(…) Estas capas estão limpas, bem como o vídeo, o televisor, o móvel e o comando. Este tipo vinha preparado para fazer o trabalho. Tipo? Perguntou Falcón. Ainda não falamos sobre isso. Felipe ajustou ao rosto um par de lentes de aumento especiais e deu início a uma inspecção minuciosa do tapete. Falcón estava assombrado com os dois peritos de investigação criminal. Tinha a certeza de que nunca haviam visto nada tão horrendo em toda a sua carreira, pelo menos não em Sevilha, seguramente. E no entanto, ali estavam... Tirou do bolso um lenço quadrado, perfeitamente passado a ferro, e secou a testa com ele. Não, não era um problema de Felipe e de Jorge. Era seu. Eles portavam-se assim, porque era como ele próprio se portava normalmente e como lhes tinha ensinado que era a única maneira de proceder numa investigação de homicídio. Frieza. Objectividade. Distância. O trabalho de detective, se ouvia dizendo numa aula no anfiteatro da academia, é um trabalho destituído de emoção.
O que havia então de diferente com Raúl Jiménez? Porquê este suor, numa manhã fresca e clara de Abril? Sabia como lhe chamavam nas costas, na Jefatura Superior de Policia, na calle Blas Infante. El Lagarto. Gostava de pensar que era por causa da sua imperturbabilidade física, a impenetrabilidade da sua expressão, a sua tendência para olhar intensamente para as pessoas enquanto as escutava. Inês, a sua ex-mulher, a sua recém-divorciada mulher, tinha-lhe esclarecido esse mal-entendido: é frio, Javier Falcón. É frio como as pedras. Não tem coração. Então o que seria esta coisa me ribombando no peito? Empurrou a lapela com o polegar e deu por si de queixo cerrado, enquanto Felipe, junto ao chão, olhava para ele com olhos de peixe de aquário. Encontrei um cabelo, jefe, disse. Trinta centímetros. Cor? Preto.
Falcón se aproximou da mesa e olhou para a fotografia de la Familia Jiménez. Consuelo Jiménez vestia um casaco de peles até aos pés, com o cabelo louro armado ao alto como um bolo, enquanto os três filhos faziam um sorriso forçado para a fotografia. Mete num saco, disse e chamou o médico forense.
Na fotografia, Raúl Jiménez estava de pé ao lado da mulher, com os dentes de cavalo expostos num sorriso, a bochecha caída, dando-lhe um ar de avô e, à mulher, de filha. Casamento. Dinheiro. Conhecimentos. Falcón perscrutou o sorriso deslumbrante de Consuelo Jiménez. Belo tapete, este, disse Felipe. Seda. Mil nós por centímetro quadrado. Boa densidade, para que tudo assente perfeitamente em cima dele. Quanto acha que Raúl Jiménez pesa? Perguntou Falcón ao médico forense. Agora, entre os setenta e cinco e os oitenta quilos. Mas tendo em atenção a flacidez do peito e estômago, diria que já teve muito para cima de noventa. Problemas cardíacos? O médico dele deverá saber, se a mulher não souber. Acha que uma mulher seria capaz de erguê-lo daquela cadeira de pele, baixa, e pô-lo naquela cadeira de espaldar alto? Uma mulher? Perguntou o médico forense. Acha que foi uma mulher que fez isto? Não foi isso que lhe perguntei, doutor. O médico forense se empertigou, com esta segunda vez em que Falcón o fazia sentir-se idiota.
Já vi enfermeiras experientes levantarem homens mais pesados do que este. Homens vivos, claro, o que é mais fácil... Mas não vejo por que não. Falcón afastou-se, sem mais conversa. Devia perguntar ao Jorge acerca de enfermeiras experientes, inspetor-chefe, disse Felipe, de nádegas para o ar, como se estivesse farejando o tapete. Cale-se, disse Jorge, farto daquela piada. Parece que é uma questão de ancas, disse Felipe, E de contrapeso das nádegas. Isto é só teoria, inspetor-chefe, disse Jorge. Ele nunca teve o benefício da experiência directa. O que sabe disso? Disse Felipe, pondo-se de joelhos, agarrando nuns quadris imaginários e fingindo dar-lhes umas estocadas. Também tive a minha juventude. Não era grande coisa, a do seu tempo, disse Jorge. As garotas eram todas fechadas como ostras, não eram? As espanholas eram, disse Felipe. Mas eu sou de Alicante. Benidorm fica logo ao virar da esquina. Aquelas inglesas todas, nos anos 60 e 70... Está sonhando, disse Jorge. Sim, tive sempre sonhos muito excitantes, disse Felipe.
Os investigadores riram e Falcón olhou para eles, rastejando pelo chão, fuçando como porcos em busca de bolotas, com futebol e sexo lutando pela supremacia dentro das suas cabeças. Achou-os um pouco repugnantes e voltou-se para as fotografias penduradas na parede. Jorge meneou a cabeça para Falcón e articulou com os lábios para Felipe: maricas. Voltaram a rir. Falcón ignorou-os. O olhar, à semelhança de quando apreciava um quadro, foi atraído para as extremidades do conjunto das fotografias expostas. Afastou-se da secção central de pessoas famosas e deu com uma fotografia de Raúl Jiménez com os braços à volta de dois homens, ambos mais altos e corpulentos do que ele. À esquerda, estava o Jefe Superior de la Policia de Sevilla, comissário Firmin Léon, e, à direita, o promotor Juan Bellido. Falcón sentiu uma pressão física se abater sobre os ombros e mexeu-os para aliviá-la». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, tradução de Ana Pires e Pedro Pla, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668). Joaquim Veríssimo Serrão. «O coroamento desse longo sacrifício foi alcançado em 1668, quando o Tratado de Madrid reconheceu de vez a Restauração Portuguesa»

jdact

O Oriente Português: a perda de Ormuz e Malaca. O Brasil
O espírito de autonomia
«(…) Qual o juízo da história acerca dos sessenta anos da realeza espanhola em Portugal? Por um ponto de vista plenamente negativo, como o fez a historiografia liberal?, ou entendendo que a administração filipina deve ser encarada em franjas temporais e sectores de actuação antes de se formular o juízo crítico que a história requer? Não pode hoje manter-se a versão da decadência, como se de um cativeiro se houvesse tratado. Esse conceito foi criado para justificar a dinastia nova e avolumou-se na segunda metade do século XIX para impedir a difusão do iberismo que certos espíritos tinham como salvador do Reino. Muitos desejaram então contrapor à clara manhã de 1640 a longa noite de sessenta anos, como se a liberdade da pátria tivesse de passar forçosamente pela reconstrução de um país destruído. Que o sentimento nacional buscasse o termo do domínio espanhol para devolver ao Reino os seus foros de nação livre, é mais do que evidente. Assim se cumpria o fervor autonomista de que a cultura do tempo oferece largos testemunhos. Porém, que a revolta eclodisse apenas para salvar Portugal da decadência em que o lançara o governo dos Filipes, eis uma afirmação que não resiste à crítica histórica.
Antipática no ponto de vista político, para muitos que guardavam as lembranças da independência, e desfavorável no ponto de vista financeiro, devido ao agravamento da tributação que se fez sentir com intensidade desde 1620, a realeza dos Filipes valorizou Portugal em muitos aspectos da vida económica, social e cultural. Pelo menos até 1625, aumentou a população, intensificou-se o progresso do ultramar, em especial do Brasil, aumentou o movimento dos portos, estabeleceu-se apropriada legislação, ampliou-se a vida regional, alastraram os focos de cultura. Foi com a ascensão de Filipe IV ao trono e o governo despótico de Olivares, desejoso de integrar Portugal no corpo hispânico, que veio ao de cima a impossível conciliação do interesse das duas coroas ibéricas. A conquista de Ormuz pelos Ingleses e o domínio do Nordeste brasileiro pela Holanda foram dois golpes decisivos na monarquia dualista. Deve acrescentar-se que a Guerra dos Trinta Anos teve efeitos nefastos para Portugal, na medida em que os inimigos da Espanha voltaram as suas armas contra o nosso país e o ultramar. Tem, pois, de concluir-se que a política externa de Filipe IV contribuiu para o desfasamento da união Ibérica e aumentou grandemente o ódio dos Portugueses contra a realeza vizinha.
O juízo severo que atinge a administração dos Filipes visa rigorosamente os últimos vinte anos desse governo, pois não se pode negar o desenvolvimento até então obrado em quase todos os sectores da vida nacional. A verdade é que as energias derramadas no corpo português se voltaram depois contra a Espanha, o que nunca seria possível se a Nação estivesse reduzida ao estado de decadência que muitos autores ainda referem. Conclua-se que, por mais benefícios que Portugal houvesse recebido dessa administração, nada era bastante para apagar a tradição de independência a que 1580 pusera um termo que muitos portugueses não queriam aceitar. Daí o interesse que o sentimento nacional representa para a compreensão histórica de 1640.

A Restauração de 1640
No sábado 1 de Dezembro de 1640, um grupo que se estima em quarenta nobres dirigiu-se pelas nove horas ao Paço da Ribeira, onde venceu a resistência da guarda real e reduziu ao silêncio a duquesa de Mântua, governadora do Reino, que, invocando o princípio da obediência, lhes saíra ao caminho. Não tardou que Miguel Vasconcelos, secretário de Estado e símbolo do ódio que os Portugueses votavam a Castela, fosse descoberto num armário de papéis. Logo morto a tiro, foi o seu corpo lançado pela varanda e sujeito às iras da população, que, entretanto, acorrera em apoio aos conjurados. Do alto do balcão, o velho Miguel Almeida proclamou a realeza do duque de Bragança. E este por intermédio de Pedro Mendonça Furtado e de Jorge Melo, que haviam partido para Vila Viçosa, na manhã do dia 3 teve notícia do sucesso.
Enquanto dom João não chegava a Lisboa, o que só aconteceu na noite do dia 6, formou-se uma junta de governadores, com o arcebispo de Braga, o bispo de Lisboa e o visconde Lourenço Lima, este em substituição do inquisidor-mor, Francisco Castro, que não aceitou. Para não perturbar a vida pública, deu-se ordem para os tribunais se manterem em funções, logo se providenciando em obter dinheiro e armas para a defesa, nomeando-se fronteiros para o Minho, as Beiras e o Alentejo. A Secretaria de Estado foi confiada a Francisco Lucena, que haveria de sofrer as graves consequências da crise política de 1641. Desde o dia 1 que a notícia da aclamação fora transmitida às várias câmaras, não havendo uma só terra que nos fins do ano não tivesse procedido à aclamação do novo monarca, na plena adesão nacional à dinastia nova.
Desta forma se abriu o processo da Restauração, que haveria de durar vinte e oito anos de grandes sacrifícios humanos e materiais impostos ao Reino. Apesar de duras condições de vida, que a nova tributação mais agravou, todo o País colaborou nessa obra de salvação nacional, que assim foi considerada na metrópole e no ultramar. Ao equilíbrio de governo de João IV se deveu a estabilidade política que assegurou o primeiro triunfo do movimento. Com os dons de patriotismo revelados por Luísa Gusmão, que assegurou a regência na menoridade de Afonso IV, foi possível suster a primeira grande ameaça militar na Batalha das Linhas de Elvas. Nos anos compreendidos entre 1663 e 1665, foi o talento previdente do conde de Castelo Melhor que assegurou os grandes triunfos do Ameixial, Figueira de Castelo Rodrigo e Montes Claros. O coroamento desse longo sacrifício foi alcançado em 1668, quando o Tratado de Madrid reconheceu de vez a Restauração Portuguesa». In Joaquim Veríssimo Serrão, O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668), Edições Colibri, Estudos Históricos, Lisboa, 1994, ISBN 972-8047-58-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668). Joaquim Veríssimo Serrão. «O arauto dessa literatura de resistência, como lhe chamou Hernâni Cidade, foi frei Bernardo Brito que compôs a história dos primórdios e acabou precisamente na formação do Condado Portutalense»

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O Oriente Português: a perda de Ormuz e Malaca. O Brasil
O papel de dom João, duque de Bragança
«(…) Qual a maneira de encetar a revolta? Sugeriu-se o ataque ao castelo de Lisboa ou às fortalezas da barra no dia 1 de Janeiro de 1640, o que não se levou avante pelo receio das guarnições castelhanas ali de prevenção. Ao longo do ano foram-se amadurecendo outros projectos, mas sem que os conjurados tomassem a grande decisão, evitando que a mesma chegasse ao conhecimento da duquesa de Mântua. Na última semana de Novembro decidiu-se não protelar o movimento, quaisquer que fossem os riscos da sua execução. E assim, o plano foi marcado para 1 de Dezembro, num ataque de surpresa ao Paço da Ribeira, para tirar o poder à governadora de Portugal. Houve trinta e quatro conjurados que responderam à chamada, jurando fazê-lo mesmo com o sacrifício da vida. Costuma afirmar-se que o secretário Miguel Vasconcelos não soube da revolta, pelo que não tomou providências. A verdade é que lhe chegou uma carta com rumores da alteração, mas por imprevidência não a abriu, pelo que lhe teria sido fácil desfazer a conjura. Mas a força do destino acompanhou a vontade dos homens, e assim o triunfo da Restauração, em 1 de Dezembro de 1640, permitiu abrir uma nova página da história nacional.

O espírito de autonomia
Para compreender o eclodir da Restauração, importa ter em conta as grandes correntes mentais e ideológicas que ao longo de sessenta anos mantiveram em Portugal o espírito da autonomia. Sem uma forte vibração de alma, na consciência de um passado que mergulhava fundo no espírito dos Portugueses, talvez não fosse possível a aclamação de 1640. O sebastianismo foi um desses motores. Inspirado na ideia de que o Desejado não morrera nos areais de Alcácer Quibir, foi-se transformando de culto em doutrina, na esperança colectiva de que Portugal haveria de ser fiel ao seu destino. Várias figuras, de carácter aventureiro, se fizeram passar por Sebastião I entre 1584 e 1601, numa vaga de sabor messiânico e profético que ganhou auréola junto das populações. Para esse espírito contribuíram as trovas de Gonçalo Eanes Bandarra, sapateiro de Trancoso, em que se anunciava a hora da redenção na pessoa do Encoberto, ou rei salvador de Portugal. O regresso de Sebastião transformou-se assim em doutrina anunciadora da Restauração, no herói antevisto um século antes: João, duque de Bragança, cuja presença se tinha cumprido na hora certa.
Os Mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de Santa Maria de Alcobaça foram, no ponto de vista cultural, os dois grandes focos do sentimento autonomista. O primeiro, pela adesão profunda que consagrava à memória de dom António (18º monarca), prior do Crato, que fora escolar dos Crúzios. Foi também ali que se manteve vivo o culto de Afonso Henriques, o que fazia crer na protecção divina, por intercessão do primeiro monarca, sobre a coroa nacional. De maior projecção foi, porém, a obra dos monges de Alcobaça. O espírito da independência consolidara-se, na régia abadia, ao longo do governo espanhol. Foi ali que se ergueu a Monarchia Lusitana, projecto de uma história da Nação desde as mais remotas origens, obra forjada em grande parte com um objectivo Patriótico.
O arauto dessa literatura de resistência, como lhe chamou Hernâni Cidade, foi frei Bernardo Brito que compôs a história dos primórdios e acabou precisamente na formação do Condado Portutalense. Estilista admirável, não recuou todavia em servir-se de textos duvidosos, se não de pessoal feitura, para localizar no mais longínquo passado as raízes de Portugal. Coube ao seu sucessor, frei António Brandão, escrever as partes III e IV da grande História alcobacense, englobando os reinados do conde Henrique a Afonso III, ou seja, os primeiros cento e cinquenta anos do Estado Português. Foi ele, sem dúvida, o maior dos historiógrafos de Alcobaça, pelo elevado espírito de ciência histórica que a sua obra revela. Outros nomes viriam, depois da Restauração, a prosseguir a magna empresa que correspondia a um imperativo nacional. Mas a frei Bernardo Brito e a frei António Brandão se deve a permanência de uma tradição cultural que o domínio dos Filipes não foi bastante para apagar.
Desde 1580 que uma parte da nobreza, para marcar o seu protesto contra a realeza estranha, deixara o paço e fora morar nas suas terras, onde se dera a uma forma de recolhimento para, nas lembranças do passado, manter o espírito da autonomia. Em muitas povoações surgiram assim pequenas Cortes na Aldeia que, no caso expresso de Leiria, o poeta Francisco Rodrigues Lobo admiravelmente retrata. Com o apoio dessa nobreza solarenga criaram-se focos de pensamento que muito contribuíram para a valorização regional do País. Por parte de escritores e antiquários, como Manuel Severim Faria, Gaspar Estaço, Jerónimo Mendonça e Miguel Leitão Andrade, muitos aspectos do passado nacional foram objecto de estudo. Tão-pouco se pode omitir o labor de figuras que então prestaram às letras assinalável serviço. Tal o caso de Manuel de Sousa Coutinho, em religião frei Luís Sousa, que com a sua biografia de frei Bartolomeu Mártires e a história da província de São Domingos mostrou dons de prosador que fizeram dele um dos clássicos na nossa língua». In Joaquim Veríssimo Serrão, O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668), Edições Colibri, Estudos Históricos, Lisboa, 1994, ISBN 972-8047-58-4.

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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668). Joaquim Veríssimo Serrão. «No dia 21 de Agosto de 1637, dois procuradores dos mesteres, o barbeiro João Barradas e o borracheiro Sesinando Rodrigues, exigiram do corregedor local…»

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O Oriente Português: a perda de Ormuz e Malaca. O Brasil
As alterações de Évora
«(…) A partir de 1634, o peso dos impostos, a meia anata e o real de água, gerou novas manifestações de protesto. No ano de 1635 - 1636, houve manifestações hostis em terras do Minho (Viana do Lima) e de Trás-os-Montes (Chaves, Arcozelo, Vila Real). O País sofria os efeitos de maus anos agrícolas e da falta de numerário, o que levou ao aumento do desemprego rural. O mal-estar atingiu muitos estratos do clero e da nobreza regionais, exaustos pelo peso da tributação. Manuel Severim Faria, chantre da Sé de Évora, podia ao tempo escrever:

E ainda que é grande o cuidado e zelo de S.A., crescerão tanto com a indústria dos inimigos de Espanha, e com as esterilidades dos anos, os infortúnios neste reino, que está reduzido a um miserável estado.

Nobres castelhanos foram enviados para Lisboa, a fim de ocuparem postos militares da confiança da duquesa de Mântua, o que mais aumentou o ódio da população contra a política de Olivares. Em Julho de 1637, os pescadores do Tejo entenderam protestar contra a exigência de um passaporte aos que, na faina da pesca, desejavam sair da barra. Como reacção, lançaram pedras contra as janelas do Paço da Ribeira. Mas a coroa, não satisfeita ainda com o peso dos impostos, mandara proceder ao cadastro de todas as fazendas do Reino, para sobre elas fazer incidir um novo tributo. Pode afirmar-se que, nos meados daquele ano, uma surda hostilidade alastrava na população contra a política espanhola.
A cidade de Évora foi o principal baluarte da reacção antifilipina. Além do descontentamento pela política fiscal do Governo, acrescia a crise agrícola que se fizera sentir na província do Alentejo. No dia 21 de Agosto de 1637, dois procuradores dos mesteres, respectivamente o barbeiro João Barradas e o borracheiro Sesinando Rodrigues, exigiram do corregedor local a revogação da medida, no que não foram atendidos. Tanto bastou para que a população se amotinasse e o corregedor tivesse de fugir pelo telhado, sob pena de massacre. Depois o povo saqueou a morada dos vereadores e oficiais do número afectos a Castela, ficando a cidade em poder dos revoltosos. Começaram a circular panfletos em nome de um Manuelinho, pobre doente mental que a população muito estimava, o que mais afervorou o ânimo dos Eborenses. Nesses papéis exortava-se o povo a varrer o domínio estranho e a restituir a coroa aos reis naturais, ainda que não se mencionasse, como é evidente, a casa ducal de Bragança.
Todos os estratos sociais aderiram ao movimento, sendo de registar o apoio dos professores jesuítas da Universidade de Évora, em especial do padre Sebastião Couto, que, na opinião do Doutor Filipe Mendeiros, parece ter sido o cérebro das alterações. Embora a coroa procurasse minimizar o acontecimento, o certo é que a revolta de Évora teve imediata projecção no Reino. Muitas terras do Alentejo (Portel, Campo de Ourique, Montargil, Coruche) também se revoltaram contra os impostos. Há notícia de motins no Porto, Vila Real e Viana do Lima, assim como em várias povoações do Algarve, Tavira, Faro, Loulé, Albufeira), onde também se protestou contra a política fiscal de Olivares. No Ribatejo (Golegã, Abrantes, Sardoal, Mação, Ferreira do Zêzere) queimaram-se os livros camarários. Por toda a parte o clero, a nobreza regional e o terceiro estado se uniram contra o poder estranho, como bem demonstrou o Doutor António Oliveira, o melhor especialista da última fase do domínio filipino. E, perante o alastramento dos ruídos, Filipe IV mandou reforçar as guarnições militares, com ordens expressas para castigar os culpados, o que fez aumentar em todos os cantos do País a resistência passiva contra Castela». In Joaquim Veríssimo Serrão, O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668), Edições Colibri, Estudos Históricos, Lisboa, 1994, ISBN 972-8047-58-4.

Cortesia de Colibri/JDACT