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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fernando Mão de Ferro: Feliciano Falcão, Memória Viva. «Naquele tempo, para mal dos seus pecados, tinham sido “desterrados” para a nossa cidade um significativo grupo de jovens médicos com os quais convivi e me relacionei. Guardo da maioria deles as melhores recordações e apesar das vicissitudes da vida»

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Em Tempo dos Rouxinóis.
«Pressentia-o como uma lenda distante e inacessível. Um misto de herói cujos feitos desconhecia, mas cujo espírito se impunha à evidência sempre que se abordava a apatia da cidade face ao regime. Desconhecendo a figura, achei, no entanto, natural, quando, em terras longínquas me exigiram a troca do meu nome por um pseudónimo (por razões de segurança), e de imediato me ocorreu o seu apelido.

Regressei com o 25 de Abril já sem chama e encontrei as hostes e os exércitos da utopia, que parecia ter estado tão acessível, tão à nossa mão, já desmembrados e já descrentes. A realidade tinha sido mais forte que o sonho de uma juventude farta de guerras sem sentido e de futuros sem horizontes.
Naquele tempo, para mal dos seus pecados, tinham sido «desterrados» para a nossa cidade um significativo grupo de jovens médicos com os quais convivi e me relacionei. Guardo da maioria deles as melhores recordações e apesar das vicissitudes da vida inapelavelmente nos ter afastado físicamente, haverá laços de amizade que perduram na nossa memória, e serão, garanto, indestrutíveis. Foi através deste grupo que conheci o Dr. Feliciano Falcão. Que fascínio exercia este homem com idade para ser avô de qualquer um desses jovens médicos? Não seria só a do mestre e experiente médico em quem eles procuravam conhecimentos e conselhos em termos profissionais.


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No entanto ele era um pólo aglutinador de todos os que frequentavam a sua casa quase como um local de culto e ao mesmo tempo de acolhimento. Seria a sua vasta e eclética cultura que atraía a curiosidade de quem, num tempo efervescente de ideias e de saberes vários, queria estar a par, queria estar por dentro das coisas? É possível que tudo isto tivesse alguma influência, mas não esqueçamos que os jovens médicos eram naturalmente detentores de uma sólida bagagem cultural ou não fossem eles fruto de uma rica simbiose universitária que transitou do pré para o pós 25 de Abril.
Seria obviamente esse fascínio que irradiava da figura de Feliciano Falcão, a imensa bagagem cultural e a serenidade de quem tem por detrás de si um saber de experiências cavadas à sua custa.
O percurso da sua vida e obra mereceria uma reflexão mais profunda e oxalá o contributo desta edição seja apenas um despertar para outros trabalhos futuros que possam honrar a memória de tão distinto Portalegrense.

A lição mais bonita que Feliciano Falcão nos transmite é a da humildade. Ao contrário da esmagadora maioria dos homens nascidos em condições semelhantes, ele afirma as suas origens humildes e, ao longo da sua vida, criticando a miséria espiritual e material dos simples, é politicamente ao lado deles que se empenha.

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Distante na sua postura cultural e ética, compreende, no entanto, as razões daqueles que nunca viram a luz do espírito e reproduzem atavicamente formas humilhantes do ser enquanto humanos. «Evocação das Raízes», transcrito nesta obra, é um texto paradigmático do seu pensar e da sua intransigência para com a mediocridade. O seu conhecimento «in loco» do modo de vida das populações, completamente abandonadas à sua sorte, longe da evolução das ciências e da técnica, longe da assistência médica e medicamentosa, longe da assistência social, provocam-lhe uma natural revolta que expressa através de um texto intitulado «De Médico a Curandeiro em Terras Medievais», publicado pelo «República» em 1945 (transcrito nesta obra). A crueza do seu relato sobre a vida miserável nos campos terá suscitado fortes ódios por parte do regime. A sua coragem em tempos tão difíceis deverá ser dada a conhecer aos seus concidadãos e aos jovens primordialmente.

Está previsto um encontro de familiares, amigos e admiradores do Dr. Feliciano Falcão sendo apresentada esta obra que procura resgatar do esquecimento o exemplo da sua vida. O local é o «Café Alentejano». Foi aqui o nosso último encontro. Contava-me então da sua felicidade porque um rouxinol tinha cantado toda a noite junto da sua casa - «um rouxinol completamente maluco». Depois, e talvez por causa desse rouxinol, desabafou com um ar triste sobre a inevitável caminhada da vida para o seu término, onde não consta que se possa ainda fruir da companhia dos entes queridos, ou haja jardins à medida dos rouxinóis e das suas sinfonias». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 12 de junho de 2011

Augusta Isabel Falcão: Feliciano Falcão, Memória Viva: «Era também um homem generoso. As suas generosidades fê-las com grande discrição, quer no seu laboratório de análises clínicas,enternecendo-se facilmente com aqueles para quem a vida era hostil, quer ajudando os amigos, como é o caso de José Régio, de quem era admirador incondicional»

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Recordando Feliciano Falcão.
Não é fácil escrever sobre um homem de grande erudição, com quem tive a sorte de privar e por quem sinto um grande carinho. Pegar em todas as memórias que dele tenho e seleccioná-las torna este momento doloroso e simultaneamente gratificante. As suas palavras continuam vivas. O tempo não as desactualizou. Elas expressam, a par da cultura, uma evidente consciência cívica e social. o seu amor à liberdade e à justiça granjearam-lhe, no entanto, alguns dissabores, algumas incompreensões. Deslumbrou-se com os grandes da literatura, da escultura, da música, da pintura... que lhe suscitavam toda a gama de emoções, de sentimentos. Dentro de si coabitavam muitos entusiasmos. «A vida é feita de espaços e geometria, não só de linhas. As pessoas têm que ter franjas, aberturas, porque a vida é uma aprendizagem permanente», comentava.
Sempre atento às inquietações da juventude, sempre receptivo e incentivando os jovens, dizia-lhes frequentemente «se não sentimos impaciência por nada, situamo-nos à margem da vida». Homem extremamente coeso e digno. Homem singular, em que se aliavam o humor e a lucidez intelectual. Alimentava com entusiasmo as ilusões dos seus interlocutores, despertando-lhes inquietações, a chamá-los «à plenitude do ego».

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Os fins-de-semana, na sua quinta da Serra, eram uma festa. os meus horizontes alargavam-se a seu lado. Ouvia atentamente o seu solilóquio, que fluía com facilidade e profundidade. Foram momentos únicos, irrepetíveis de descoberta, de confronto, de beleza.... Ele foi, durante muito tempo, o pólo cultural de Portalegre. Era em seu redor que os serões ganhavam matizes e se afastavam do vulgar quotidiano. Se o que define a juventude é o seu encanto, a sua inadaptação, a sua rebeldia, a sua ânsia de saber, posso dizer que Feliciano Falcão não envelheceu. o seu espírito permaneceu jovem, até ao fim.
A vertigem superficial do quotidiano faz de nós desconhecidos conviventes e quantas vezes indiferentes ao que acontece de belo ao nosso ladô! Não nasce o homem, faz-se. Assim este homem foi evoluindo, foi construindo o seu saber, à custa de muitas noites mal dormidas, rodeado dos seus livros, da sua música, olhando os seus quadros de que fruía até ao mínimo pormenor.
Não dispensou nunca o convívio com os seus amigos, que o acompanhavam nas divagações pelo mundo da estética, da política, do humanismo. Ele é a minha referência cultural. Devo-lhe muito da minha formação. Estou a vê-lo a transbordar de entusiasmo, com o seu olhar transparente, a querer fazer partilhar com os outros a sua exigência por uma vida polifacetada, plasmada nos saberes universais. Era um humanista, um idealista.

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Era também um homem generoso. As suas generosidades fê-las com grande discrição, quer no seu laboratório de análises clínicas,enternecendo-se facilmente com aqueles para quem a vida era hostil, quer ajudando os amigos, como é o caso de José Régio, de quem era admirador incondicional. Dele falava com grande entusiasmo e muitas vezes o ouvi lamentar a falta de projecção dada ao seu amigo Reis Pereira.
Bento de Jesus Caraça era outra figura que venerava. Considerava-o «seu mestre de humanismo». Entusiasmava-o a sua personalidade poliédrica, o seu amor à Arte em todos os seus meandros. Atento ao fim que se aproximava e invadido por um sentimento de angústia, chega a uma conclusão desconcertante: já não se importava de viver uma vida «morninha». Estava junto dos seus, principalmente da sua mulher, da sua «Baki», e isso lhe bastava, lhe preenchia os dias outonais com um carinho feito de cumplicidades, ao longo de uma vida vivida no requinte da cultura. O seu amor era um amor para além do amor». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 8 de maio de 2011

Mamé. Feliciano Falcão, Memória Viva: Parte II. «Esta Saudade... Juntos recordámos ainda as tardes passadas debaixo do velho castanheiro, o odor dos mangericos à entrada da porta, a resina perfumada das estevas, e a aurora a entrar leve pelas janelas, a despertar-lhe sempre desvarios com o canto dos rouxinóis...»

Cortesia defalcaodejade

«Era uma pessoa pura como o canto das cigarras, apaixonada como a cor dos poentes, capaz de se dar por completo como só as crianças se dão. Uma vez escreveu-me, numa carta, uma frase do poeta: «É preciso arder. E não só em versos». Amar a vida com furor, procurar os limites de tudo, ter loucura, euforia...
Para o meu pai, a caminhada da vida valia a pena, nem que fosse só para apreender o divino dentro dela, pois só os homens eram deuses, dizia ele.

Nas nossas conversas e cartas, voltava sempre a falar-me da sua infância e adolescência camponesas, das lagartixas nos muros da sua casinha tão simples no campo, das andorinhas nos beirais, do colorido das papoilas e dos olhos azuis do seu pai, serenos e lúcidos. E sempre da sua ânsia de uma sociedade sem classes, sem desigualdades, do desejo de levar a todos um coral de máxima emoção e felicidade, no seu grito de protesto perante a apatia e indiferença dos outros.


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Disse-me um dia que tinha feito de divisa para si próprio uma máxima de Terêncio, que o tinha impressionado muito e que era mais ou menos: «Nada do que é humano me é alheio». Verdadeiramente nada lhe era alheio, porque ele tudo sentia. Sem atropelar ninguém, ele dominava-nos a todos. Era a figura superior, o Mestre, tão certa a sua percepção de ética e justiça, tão profundo o seu saber, tão luminoso o seu convívio! Os nossos encontros prolongavam-se, muitas vezes, até ao amanhecer, ouvindo a sua música preferida, ouvindo Beethoven, que o fazia chorar.
O seu pasmo. O silêncio. A noite. E a sua mudez a senti-la, sofregamente, de cigarro em punho...

Também nos seus últimos dias de despedida, na nossa casa, tão longe dos campos dourados, da planície batida pelo sol, do seu amado medronheiro, da roseira com rosinhas minúsculas, que ele tanto gostava de colher para nos oferecer, dos cravinhos selvagens, que ele comigo procurava, o meu pai tentou deixar-me a sua «herança», o seu «Mistério»:
  • - Sabes, a vida é uma coisa maravilhosa quando nos decidimos por ela... Existe uma condição, sim, - continuou - que as experiências, inesperadamente más ou boas, não nos paralisem ou sufoquem, que nos permitam chegar aos altos, onde se cobre a visão larga!


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A sua resistência ao absurdo e medíocre, à vivência vegetal, a sua denúncia do imobilismo de pedra, a sua procura da verdade, do real escondido, manteve-as até ao fim. - Porque nós vivemos uma só vez e num sopro desaparecemos e temos de gritar a nossa riqueza e a nossa pureza, a pureza onde a vida se nos espraia no que tem de sério e essencial - defendia.
- Lembras-te? - perguntava. Sim, eu lembrava-me. E vejo ainda hoje a nudez do seu olhar atento na noite, a sua mão grande a dar-me um belisco na face, ouço-o dizer: «Tu partiste para longe, apenas a paisagem se alterou. Algumas pessoas levam, ao partirem, o mundo inteiro com elas...».
Assim aconteceu com o meu pai. Apenas a paisagem se alterou. O mundo inteiro, esse levou-o ele consigo, quando partiu. A nós deixou-nos toda esta saudade». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

Mamé. Feliciano Falcão, Memória Viva: Parte I. «Esta Saudade...

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«Fui encontrar fotografias antigas do meu pai na velha secretária da casa da quinta. Estavam juntas com desenhos dos netos, quando eles ainda tinham a cabeça povoada de piratas e de índios. Com estas imagens nas mãos, de repente veio-me o cheiro intenso do rosmaninho e da giesta, a magia dos dias com ele, no meio da serra, desbravando os campos, à procura dos cravinhos silvestres, dos cardos, das alcachofras de S. João, dos grilos, na ilusão, por vezes, de que o meu pai não era apenas meu pai, mas também meu irmão.

Debruçados sobre o chão, no meio das espigas e das ervas altas, as coisas simples que ele dizia e que eram tão profundas! O deslumbramento que só ele era capaz de ter, a sua transparência, a sua permanente atenção... Falávamos de tudo, eu, com ele, era capaz de falar de tudo.

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Encostado a uma figueira, colhendo aqui e ali um figo, falava-me das amolgadelas da vida, dos tropeções que foi dando, da dificuldade que teve em sair «do nu e do cru» - como ele gostava de dizer - para um caminhar em frente.
Depois, como parado no tempo, pensativo, longe (mas nunca distante), voltava a falar-me dos pássaros, dos melros, e perguntava-me se eu já tinha ouvido, de madrugada, o cantar dos rouxinóis, enquanto eu olhava embevecida as suas mãos inquietas. As suas mãos... os seus cabelos brancos, longos e rebeldes... - «E as azinheiras? Gostas mais de azinheiras ou de sobreiros?», perguntava-me.

Ficávamos muitas vezes também em silêncio, a olhar a terra dura, observando as carreirinhas infinitas de formigas, imaginando as suas conversas quando se encontravam e esbarravam umas com as outras, se algumas na verdade seriam mais apressadas que outras...
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Na vida dos humanos, eu sabia que sim, que havia empurrões, que havia rasteiras... nas formigas também? E o meu pai sorria e o Seu Sorriso era sempre doce. As suas sobrancelhas grossas e despenteadas elevavam-se ligeiramente, na face direita surgia uma covinha prolongada e o seu riso era interrompido, mas ele continuava alegre.

Gostava muito de o olhar, porque, mesmo quando o meu pai estava sério, nunca tinha um ar sombrio ou impenetrável. Havia sempre uma luzinha a brilhar nos seus olhos, que nos incitava a falar, a fazer perguntas. E havia sempre tempo, disponibilidade e um gesto terno que nos arrastava na descoberta de um novo diálogo.
Como o meu poeta diz: «Gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do Verão, aos barcos no vento, gosto das palavras lisas como Seixos, rugosas como pão de centeio...», o meu pai dizia que gostava das palavras virgens e absolutas, das vogais doces e prateadas, com sabor a música...». In Feliciano Falcão, Memória Viva, António Ventura, Edições Colibri, C. M. de Portalegre, 2003, ISBN 972-772-440-X.

Continua.
Cortesia de Edições Colibri/JDACT