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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina»

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Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
«(…) Em meados do século XVI, nasce o Bairro Alto, primeiro bairro moderno, de Lisboa. Os ares considerados mais saudáveis das suas colinas e a construção da igreja de S. Roque pelos jesuítas, onde o rei e os nobres se reuniam, tornam o Bairro Alto na zona mais aristocrática da cidade. Até ao terramoto de 1755, o Bairro Alto distingue-se pelos seus bailes, teatros ao ar livre e tertúlias literárias, que caracterizavam a vida da nobreza lisboeta. É pouco provável que Francisco e Grácia habitassem o Bairro Alto. Devido ao comércio das especiarias a que se dedicava Francisco, talvez morassem perto das Alfândegas, nomeadamente a Alfândega Nova, do lado ocidental do Terreiro do Paço. Ou ainda com maior probabilidade na Rua Nova, na paróquia da Madalena, nas casas de quatro e cinco andares, de fachadas austeras rasgadas por janelas de venezianas e persianas de madeira, habitadas pelos grandes financeiros portugueses e estrangeiros. Com efeito, a rua Nova situava-se perto da antiga judiara grande, a qual apesar das conversões ainda era habitada por muitos cristãos-novos. A rua Nova também não ficava longe das judiarias da Teracenas ou Alfama, ambas situadas em frente da zona do porto e dos estaleiros navais.
Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina, um nome usado pelos sefarditas da época e até hoje. Mas poucos anos depois, em 1535, Francisco Mendes morre, ficando Grácia e o seu irmão Diogo, que dirigia a filial em Antuérpia, como gestores da sua imensa fortuna. A sua morte dá-se num momento dramático da vivência dos cristãos-novos. Em 1515, Manuel I pedira ao papa a instalação do tribunal da Inquisição (maldita) em Portugal para julgar os hereges, projecto que abandona em seguida. O seu filho e sucessor João III começou por aplicar a política de assimilação de Manuel I. Mas a vitalidade da prática judaizante de muitos cristãos-novos e o zelo religioso da rainha dona Catarina, irmã de Carlos V e neta dos Reis Católicos, foram progressivamente convencendo o rei a pedir ao papa Clemente VII a autorização de estabelecimento de um tribunal segundo o modelo espanhol.
Houve um elemento que terá contribuído para influenciar o rei nesse sentido: em 1525 chegara a Faro uma estranha personagem de nome David Reubéni, que se apresentava como emissário das dez tribos perdidas do Oriente, a fim de propôr ao rei uma aliança judaico-cristã para combater os Turcos. Portador de cartas de recomendação do papa, veio para Lisboa passando por Beja, Évora e Santarém e desencadeando à sua passagem um intenso fervor religioso entre a massa de cristãos-novos que o aclamavam como o Messias. Um funcionário da coroa, Diogo Pires, foi mesmo ao ponto de se circuncidar a si próprio e de o seguir mais tarde, mudando o seu nome para Salomão Molkho. Acabaram os dois nas fogueiras da Inquisição (maldita), Reubéni em Badajoz ou em Évora e Molkho em Mântua, mas este acontecimento que se enquadrava num messianismo crescente entre os cristãos-novos, terá provavelmente alertado João III para os perigos do seu alastramento não só entre os cristãos-novos, mas também entre a própria população cristã-velha, e contribuído para a sua decisão de instalar em Portugal a Inquisição (maldita). Graças a hábeis negociações e a uma política de donativos e subornos levadas a cabo por cristãos-novos, entre os quais Francisco e Grácia Mendes, a implantação do tribunal foi sendo adiada. Por pouco tempo: em 1536, a bula Cum ad Nihil Magis, assinada pelo papa Paulo III a 23 de Maio, estabelecia a Inquisição (maldita) em Portugal. O inquisidor geral era Henrique, o próprio irmão do rei...
Francisco Mendes deve ter previsto os acontecimentos e tentado salvar a família e o seu império das garras da Inquisição, porque em 1531 conseguiu obter do papa um breve de protecção para a sua família contra qualquer eventual acusação de heresia, mas morreu prematuramente. À sua morte, a fortuna familiar foi alvo da cobiça real que concebeu o plano de casar a filha de ambos, Ana, com um elemento do Paço, o que lhe permitiria apossar-se de metade da herança. Escreve H. P. Salomon: em 12 de Maio de 1537, o rei declarou explicitamente o seu desejo que a criança fosse imediatamente levada para a casa da rainha para nela estar, e se criar, e aprender todos os bons costumes […] e daí, com a fazenda que lhe seu pai leixou, a casará com uma pessoa honrada [...] Grácia acabara de fazer vinte e sete anos. Mas era dotada de uma personalidade forte e determinada, e o seu ardente apego às tradições ancestrais judaicas que partilhava com o marido nunca lhe permitiria aceitar tal plano, mesmo que ele significasse uma protecção para a sua família. Por outro lado, o próprio facto de o marido a nomear, em testamento, gestora da sua fortuna juntamente com o irmão Diogo era um indício provável de confiança no seu talento para os negócios e de alguma experiência neste campo». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa»

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Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
«(…) Francisco e o seu irmão Diogo dedicavam-se à compra e venda, para os grandes mercados da Europa do Norte, de pedras preciosas, especiarias e produtos de luxo vindos para Portugal pelas rotas abertas por Vasco da Gama. Muito rapidamente, ascenderam a uma posição de primeiro plano, ocupando um lugar de destaque na praça comercial de Lisboa. Comprando a pronto pagamento carregamentos inteiros de pimenta e especiarias, já tinham em 1525 praticamente o controlo do seu comércio, trabalhando ao serviço do rei, único detentor da importação em grosso. Assim à data do seu casamento, Francisco e o irmão Diogo, que entretanto se estabelecera em Antuérpia, já haviam construído um império que detinha a primazia do comércio de especiarias em toda a Europa. Herman Prins Salomon cita uma carta de privilégios de João III a Francisco Mendes, de 20 de Julho de 1530, que mostra a importância dos Mendes para a coroa portuguesa: [...] que havendo eu respeito aos serviços que Francisco Mendes, mercador, morador nesta cidade de Lisboa, tem feito a el-rei meu Senhor e padre que santa glória haja, e assim a mim, e aos que espero que ao diante me fará, e por ser dos principais mercadores que tratam na minha Casa da Índia, me apraz e hei por bem por lhe fazer graça e mercê [...] A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa. Não estavam, no entanto, ao abrigo das medidas persecutórias, o que contribuía para manter o sentimento de uma identidade própria e de um destino comum.

Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
Na primeira metade do século XVI, sob o reinado de Manuel I, Lisboa estava no apogeu da sua áurea. Se eu fosse rei de Lisboa, dirá Carlos V, imperador e rei de Espanha (1500-1558), seria em pouco tempo rei do mundo. A expansão marítima e os seus imensos ganhos estiveram na origem do desenvolvimento arquitectónico e cultural da cidade: desse esplendor de outrora restam apenas o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Convento da Madre de Deus, que resistiram ao terramoto de 1755. Mas estes monumentos dão-nos uma ideia do que seria Lisboa nessa época, uma cidade onde todos os sonhos pareciam possíveis. Com efeito, Lisboa fervilha de actividade e dinamismo, num ambiente cosmopolita: desde o século XV, homens de negócios franceses, ingleses, flamengos, lombardos, genoveses, venezianos, milaneses e espanhóis agitam-se na cidade em torno de um porto que regista um movimento de quatrocentos a quinhentos navios de carga. O Terreiro do Paço, construído directamente no areal por gigantescos trabalhos de terraplanagem, torna-se o novo centro da capital, onde se instala a residência real, cujo interior luxuoso reflecte a opulência da época. Nas proximidades encontram-se a Casa da Índia e a Casa da Moeda ligada ao comércio de além-mar, assim como o Arsenal Militar onde Manuel I monta a sua colecção de armas e peças de artilharia.
No ar, espalham-se os odores excitantes da canela e noz-moscada armazenadas na Casa da Índia, crescem os jardins de árvores exóticas que despertam a curiosidade dos lisboetas, exibem-se leões, camelos, elefantes e rinocerontes. É ao longo dessa zona nobre, a Ribeira, escreve Dejanirah Couto, que se vai instalar a nobreza urbana, construindo opulentas e rebuscadas residências, como a Casa dos Bicos edificada em 1523, cujo proprietário Brás Albuquerque se inspira no palácio renascentista dito dos Diamantes, em Ferrara. No Mercado da Ribeira vendem-se hortaliças, peixe, caça, flores e manteigas, para além das especiarias, tâmaras e nozes de coco. Por sua vez, o Terreiro do Paço é ocupado por vendedores ambulantes que negoceiam de tudo um pouco, desde a mais simples quinquilharia até objectos de valor como artefactos em marfim. O ouro e a riqueza do Oriente permitem acumular fortunas rápidas, cujos sinais exteriores se multiplicam rivalizando no exotismo, no fausto e na ostentação. Mas são sobretudo os escravos asiáticos, africanos ou mouros, que emprestam à cidade o seu carácter exótico, levando um viajante espanhol a dizer que Lisboa parece um tabuleiro de xadrez com tantas peças brancas como pretas». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «… a frase ritual do noivo: “com este anel, és consagrada a mim conforme a lei de Moisés e Israel”. Terá Francisco no final quebrado um copo com o pé…»

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Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
«(…) Provavelmente viviam a culpabilidade da conversão. Mas não estavam sós, os laços familiares e comunitários ainda permaneciam e nas datas sagradas fechavam os cortinados e abriam os livros rezando ao Deus que amavam acima de tudo e a quem juravam fidelidade eterna. Revelavam o segredo às crianças que cedo deixavam de o ser, impunham-lhes o peso de um silêncio que as acompanharia para sempre. No seu desespero, aguardavam ansiosamente por um salvador, o Messias tão desejado. Em 1528, aos dezoito anos e já órfã do pai, Grácia casa-se com Francisco Mendes Benveniste, natural de Sória em Castela, de onde veio, ainda criança, em 1492. Na medida do possível, os judeus conversos casavam-se entre si para manter a tradição judaica de geração em geração. Foi certamente, como era costume entre os marranos, um casamento duplo: um primeiro casamento judaico em privado, seguido de um casamento católico. Conforme a tradição judaica, a noiva terá ido primeiro ao banho ritual de purificação espiritual, o mikvé, talvez existente na própria casa ou algures na antiga judiaria, e ficado uma semana sem ver o noivo como manda a Lei. A cerimónia propriamente dita ter-se-á realizado na sua própria casa ou na casa do noivo sob o pálio tradicional, a hupá., símbolo do futuro lar do casal, após a assinatura do contrato de casamento, a ketubá, através do qual o noivo se compromete a cumprir todos os deveres conjugais, incluindo o sustento da sua futura mulher. Sob o pálio, Grácia terá rodado sete vezes em torno de Francisco, em lembrança dos sete dias da Criação, e no seu dedo indicador a aliança lembrar-lhe-á para sempre a frase ritual do noivo: com este anel, és consagrada a mim conforme a lei de Moisés e Israel. Terá Francisco no final quebrado um copo com o pé, em sinal de luto pela destruição do Templo de Jerusalém, conforme o salmo Se eu te esquecer, Jerusalém...? Provavelmente, porque essa é a tradição do final de todo o casamento judaico, mas com cuidado para não ser ouvido pelos vizinhos. Consumado o enlace judaico, teve lugar o casamento na igreja, possivelmente na capela particular de Francisco ou na própria catedral, com todo o fausto devido às famílias prestigiadas e poderosas que ambos representavam. Foi certamente um grande acontecimento social com inúmeros convidados, provavelmente com representantes da própria corte, e seguido de banquete sumptuoso, música e dança. Para a jovem Grácia terá sido um teste difícil, o primeiro teste à sua capacidade de dissimulação pública que será obrigada a praticar durante a maior parte da sua vida.
Amaria ela o seu marido, Francisco? Esta é, com efeito, uma pergunta de hoje, não da época. Mais do que o amor o importante era manter o património, a linhagem e, no caso dos marranos, a tradição judaica. Há, no entanto, fortes indícios de que Grácía tenha acompanhado activamente o marido no seu zelo religioso judaico, no apoio aos seus correligionários, incluindo o esforço para impedir a instauração da Inquisição (maldita) em Portugal. A sua viva inteligência ter-lhe-á também permitido aprender rapidamente e até colaborar com Francisco nos seus prósperos negócios». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «O ambiente familiar de Grácia/Beatriz terá sido, sem dúvida, um exemplo de uma família marrana, cristã por fora, judia de alma»

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«(…)
A matança de Lisboa que ocorreu lá em Lisboa…
Sobre esta pronunciou-se assim Léon Poliakov, historiador do anti-semitismo: uma política pérfida e desprovida de princípios, enquanto, com uma grande rigidez de princípios, os Reis Católicos ofereceram aos judeus a escolha entre o judaísmo no exílio e o cristianismo em Espanha. A escolha foi cruel; mas os Reis Católicos demonstraram, à sua maneira, mais respeito pela fé alheia. E Jerónimo Osório, humanista português do século XVI, considera que através de um acto iníquo e injusto cometido contra as leis e contra a religião, o rei permitiu que através da simulação religiosa, a religião fosse indignamente profanada. As diferentes atitudes dos Reis Católicos e do rei português reflectiam, antes de mais, situações internas e posições religiosas diferentes. Não há dúvida que, na sua perspectiva, os Reis Católicos demonstraram mais respeito pela fé alheia, e até pela sua própria, ao permitir a escolha entre a expulsão e a conversão. Mas não foram apenas os motivos religiosos que determinaram essa escolha. Em Espanha existia, desde as perseguições de 1391, um grupo importante de cristãos-novos, convertidos voluntária ou coercitivamente, que preenchia as mesmas funções económicas e financeiras do que os judeus, o que no limite permitia dispensar a presença judaica. Em contrapartida, em Portugal apenas existiam judeus. Não havia, antes das conversões de 1497, um número significativo de cristãos-novos que pudessem assumir as mesmas funções desempenhadas pelos judeus. Terá sido provavelmente esse o principal motivo da diferença de políticas entre Espanha e Portugal, nomeadamente da política manuelina de não deixar partir os judeus, convertendo-os à força.

Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
Entre os convertidos, encontrava-se a família de Grácia, assim como a do seu futuro marido Semah Benveniste, aliás Francisco Mendes. Grácia tinha três irmãos: Brianda, Guiomar e Aires Luna. Como acima referimos, Luna era o nome de baptismo do pai Álvaro Luna. Mas sobre a sua infância e adolescência não há nenhuma informação. Podemos então dar largas à imaginação: vemos uma menina viva e inteligente, com uma educação esmerada, relativamente protegida por uns familiares marcados pela tragédia das expulsões e das conversões, uma menina de semblante um pouco grave cuja sensibilidade a faz intuir o medo e o sofrimento da dissimulação; vemos uma menina que muito cedo sabe que não se chama Beatriz, mas sim Grácia, ou antes que se chama as duas coisas; que muito cedo aprende a distinguir o que tem de esconder e o que pode ou, aliás, deve mostrar; uma menina em cuja casa aprende a ser fiel à religião antiga à qual se entregará apaixonadamente durante toda a vida. Uma casa onde certamente também aprendeu o significado da palavra solidariedade para com os seus irmãos de infortúnio.
O ambiente familiar de Grácia/Beatriz terá sido, sem dúvida, um exemplo de uma família marrana, cristã por fora, judia de alma. Respeitavam o Sbabat, na medida do possível, abstinham-se dos alimentos proibidos, provavelmente comiam pão ázimo na Páscoa e jejuavam no Yom Kipur, o Dia do Perdão. Ao mesmo tempo, iam à igreja, baptizavam os filhos, casavam pela religião cristã, enterravam os seus mortos em cemitérios cristãos, tinham cruzes e até imagens religiosas nas suas paredes. Mas ao entrar na igreja talvez marcassem a sua reserva mental repetindo baixinho, como tantos outros marranos: não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Manuel I reagiu severamente punindo o que não soubera prevenir. Mandou prender e encarcerar os principais cabecilhas do massacre e retirou a Lisboa, por dois anos, os seus privilégios e liberdades»

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A matança de Lisboa que ocorreu lá em Lisboa…
«(…) Esse ódio iria degenerar rapidamente em manifestações violentas. A primeira dá-se a 24 de Maio de 1504 quando um grupo de cristãos-novos é insultado na rua Nova, desencadeando uma rixa, durante a qual quarenta jovens foram presos e condenados ao degredo em S. Tomé. Apesar da intervenção da rainha revogando a deportação, este incidente é já um sinal da tragédia que se abaterá dois anos mais tarde sobre os cristãos-novos. Esta tragédia tem como pano de fundo uma situação em Lisboa de epidemia de peste, de seca e de fome. Os cristãos-novos eram o bode expiatório ideal da situação de sofrimento real da população, para mais sentindo-se esta abandonada pela corte de Manuel I que se tinha refugiado em Abrantes.
Tudo começou com uma denúncia às autoridades da celebração de uma ceia pascal judaica com a presença de marranos sentados à mesa posta com pão ázimo e ervas amargas. Segundo algumas versões, após irrupção da polícia no local do crime (?!) foram presos dezasseis cristãos-novos, os quais depois da intervenção real e à custa de substanciais subornos terão sido libertados, provocando a ira popular que reclamava um castigo pelo fogo. Mas a gota que fez transbordar o vaso, foi o que se passou na igreja do convento de S. Domingos, a 19 de Abril de 1506. Nesse dia, pelas três horas da tarde, estava reunida uma multidão de fiéis em oração pelo fim da peste e pela clemência divina quando da cruz que pendia sobre o altar emanaram uns raios de luz provocando a histeria colectiva: milagre, milagre!, gritava a multidão em êxtase. Entre os presentes estava um cristão-novo que terá dito Como pode um pau seco fazer milagres?, ou segundo a versão de Ibn Verga Mais valia um milagre da água de que tanto precisamos do que um milagre pelo fogo. O certo é que, num clima de fanatismo e excitação colectiva, o imprudente cristão-novo foi imediatamente levado para fora, linchado e o seu cadáver decepado. O irmão que acorreu para prontamente indagar a razão por que o matavam foi também assassinado e ambos os corpos queimados no largo fronteiriço.
Em seguida, instigada por dominicanos gritando Heresia, Heresia! Destruam esse povo abominável!, a populaça correu pelas ruas da cidade massacrando todos os cristãos-novos que encontrava e arrastando em seguida os corpos até ao largo de S. Domingos onde eram queimados, vivos ou mortos. Um alemão que deixou um testemunho detalhado deste massacre conta que três monges percorriam a cidade aos gritos de Misericórdia e morte aos Judeus!, seguidos por uma turba enfurecida de homens e mulheres, à qual se juntaram centenas de marinheiros estrangeiros, que estrangulavam e queimavam os judeus, incluindo mulheres e crianças, e saqueavam as suas casas. Cerca de duas a três mil pessoas foram assim assassinadas em três dias com requintes de malvadez, mulheres grávidas atiradas pelas janelas e aguardadas em baixo por lanças empunhadas, bebés estilhaçados contra os muros, violações, desmembramentos, autos-de-fé... A matança parou por exaustão, mas também porque e já havia pouco para matar, os sobreviventes tinham fugido, alguns com a ajuda de cristãos-velhos.
Manuel I reagiu severamente punindo o que não soubera prevenir. Mandou prender e encarcerar os principais cabecilhas do massacre e retirou a Lisboa, por dois anos, os seus privilégios e liberdades. Os dois frades que instigaram o movimento acabaram na fogueira e muitos outros foram enforcados ou privados dos seus bens. Mas a matança de Lisboa teve consequências importantes. No seguimento do profundo traumatismo sofrido e graças às pressões dos cristãos-novos, Manuel I revogou a proibição de saída destes de Portugal, decretada em 1499. No dia 1 de Março de 1507 publicou um decreto autorizando os que assim o desejassem a partir para países cristãos com as suas famílias e bens, e a regressar, se e quando o quisessem, sem perda de direitos e regalias, o que se aplicava mesmo aos que tinham partido ilegalmente. O monarca Manuel I tentava assim ainda manter a sua disponibilidade à integração dos cristãos-novos, esperando ao mesmo tempo desembaraçar-se dos elementos judaizantes mais activos. Na verdade, toda a sua política se soldou pelo fracasso. Isso mesmo terá ele concluído ao decidir solicitar ao papa, em 1515, a autorização para instalar a Inquisição (maldita) em Portugal. Não levou o projecto avante, como é sabido. Esta só será instalada em 1536 por João III. Mas o facto é revelador da política dúbia e oportunista do rei Afortunado». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «O “apartheid”, escreve Maria Tavares, permanecia religioso e rácico: os cristãos-novos seriam a gente de nação e a religião seria transmitida pelo sangue»

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«(…) Casavam entre si, habitavam na antiga judiaria, alguns continuavam a falar e a possuir livros em hebraico. Iam à igreja e baptizavam os filhos, mas continuavam a manter de forma mais ou menos secreta as práticas de judaísmo e o sentimento da sua pertença à comunidade. Contrariamente ao judaísmo espanhol que foi perdendo gradualmente a sua energia ao longo de um século de perseguições (1391-1492), de conversões forçadas ou voluntárias e emigrações, o judaísmo português é apanhado pelo decreto de expulsão em 1496, com a sua vitalidade praticamente intacta. O aparecimento de um cripto-judaísmo ou marranismo tão forte e organizado, escreve Yerushalmi, deve-se à coincidência entre o desaparecimento do culto judaico público e o movimento de conversão geral. É como se agora a norma para os judeus, como grupo social, fosse a conversão. De certa maneira, o judaísmo agora definia-se assim. A dimensão comunitária da conversão dos judeus de Portugal dava-lhes o sentimento de partilharem um destino comum, um destino doloroso, mas comum. Diz Samuel Usque, na sua obra Consolação às Tribulações de Israel: ... nunca nas almas lhes tocou mácula, antes sempre tiveram imprimido o selo da antiga Lei.
As conversões em massa, longe de resolverem o problema judaico, revelaram claramente a inadequação desta solução. Aos olhos do povo a situação agora era muito mais perigosa: sob a capa cristã, a sua influência tornava-se mais insidiosa e a clivagem entre velhos e novos cristãos mais evidente do que nunca. Não só porque estes últimos continuavam a judaizar mas porque, paradoxalmente, as conversões e a proibição real de inquérito à fé antiga libertaram-nos de alguma forma das limitações económicas e sociais de que eram alvo enquanto judeus. Todo o ódio acumulado no passado contra os judeus transferiu-se assim para os novos cristãos.
Antes das conversões, actuavam dentro de limites bem definidos e claramente demarcados. Viviam sob um regime específico, limitados por leis restritivas, em bairros separados e pagavam impostos extraordinários. Era um inimigo, mas um inimigo visível, reconhecível. Abolidas as antigas restrições jurídicas, o inimigo tornava-se irreconhecível e portanto muito mais perigoso.
Do seu ponto de vista, o povo não deixava de ter razão. A politica assimiladora de Manuel I favoreceu de facto a inserção dos cristãos-novos que acederam assim a todas as estruturas económicas, científicas, institucionais, e até eclesiásticas, vindo a ocupar cargos de grande importância e poder. A nobreza, a Igreja, as magistraturas, os cargos municipais, o direito de vizinhança, as universidades, as ordens militares, tudo de repente passou a ser acessível aos cristãos-novos sem que o seu passado judeu fosse um obstáculo. O ódio aos cristãos-novos era, pois, cada vez maior, designavam-nos por perros, cam, arreneguado judeu, e à assimilação na sociedade cristã não seria conseguida, nem pela coerção, nem pelos privilégios. O “apartheid”, escreve Maria Tavares, permanecia religioso e rácico: os cristãos-novos seriam a gente de nação e a religião seria transmitida pelo sangue». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

domingo, 22 de maio de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Teve esta política de Manuel I o resultado esperado? O rei acreditava, sem dúvida, na possibilidade de uma assimilação e de uma integração autênticas. Mas na verdade esta política não funcionou»

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«(…) Aliás, é curioso notar que é neste decreto que o marquês de Pombal se vai basear, perto de três séculos mais tarde, para suprimir as distinções e incapacidades legais dos cristãos-novos: mando que a Lei do Senhor D. Manuel I, expedida no Primeiro de Março do Anno de mil quinhentos e sete; e a outra Lei do Senhor Rei Dom João o III, dada em dezasseis de Dezembro do Anno de mil quinhentos e vinte e quatro, em que proibiam a sediciosa e ímpia distinção de Cristãos Novos e Cristãos Velhos, sejam extraídas do Meu Real Arquivo da Torre do Tombo, e de novo publicadas, e impressas com essa para fazerem parte dela, como se nela fossem inteiramente incorporadas. O decreto do marquês de Pombal, aliás do rei José I, de 25 de Maio de 1773, baseia-se também, com algum cinismo histórico, no bom relacionamento sempre havido em Portugal entre os reis portugueses e os judeus...
Para além de proibir as inquirições ao passado judeu dos cristãos-novos, uma outra tentativa de assimilação dá-se com a alteração dos nomes. Aos judeus agora baptizados seriam dados vulgares nomes cristãos: João Fernandes, Gonçalo Rodrigues, Jerónimo Henriques, António Dias, Luís Álvaro, Estevam Godinho, Maria Caldeira, Leonor Ribeira. Não tem fundamento a ideia muito vulgarizada de que seriam adoptados nomes de árvores. Estes pertenciam regra geral à nobreza e foram atribuídos apenas a algumas personalidades cristãs-novas de prestígio. Mas, para além de tentativa de integração, a alteração do nome significava o esforço para apagar e destruir a identidade judaica anterior. Permaneceu, no entanto, a dualidade do nome, um nome cristão público, outro secreto judaico, para os que não aceitavam como sua a nova fé imposta. Grande parte dos convertidos por Manuel I, depois de baptizarem na igreja os seus recém-nascidos, davam-lhes o nome judaico no segredo das suas casas, procurando assim manter o vínculo da tradição ancestral, como forma de resistência à assimilação forçada. As crianças eram pois portadoras de dois nomes e duas identidades. É como vimos o caso de Grácia Nasi, nome ibero-judaico, mas baptizada como Beatriz de Luna.
Assim, a imposição de um nome cristão, longe de significar a tão desejada integração dos cristãos-novos, tornou-se, pela manutenção ou adopção do nome hebraico, um elemento de distanciação e reserva mental face à fé violentamente imposta. Outras duas medidas tendentes à assimilação dos cristãos-novos foram a proibição de casarem entre si, medida que pouco foi aplicada, e o baptismo das antigas judiarias, agora denominadas ruas novas ou vilas novas. Estas seriam reocupadas pelos seus antigos locatários, embora sem a discriminação legal anterior, sobretudo no Porto, Évora e Lisboa. As casas desocupadas seriam entregues a cristãos-velhos, o que era estimulado pelo rei para promover a convivência, mas também a vigilância sobre os conversos. Finalmente a 21. de Abril de 1499 seria publicada uma lei proibindo aos cristãos-novos a saída do reino, sob pena de perda dos bens móveis e de raiz a favor da coroa, exceptuando as viagens de negócios e na condição de deixar as mulheres e os filhos no reino. Temia-se assim que fossem para as terras dos mouros, retornando ao judaísmo e, sobretudo, que levassem consigo os seus bens.

... Saiba, Senhor que o judaísmo faz parte dos males incuráveis
Teve esta política de Manuel I o resultado esperado? O rei acreditava, sem dúvida, na possibilidade de uma assimilação e de uma integração autênticas. Mas na verdade esta política não funcionou. Obrigados a abraçar uma religião que lhes era estranha, a maioria dos judeus terá permanecido fiel ao judaísmo, pelo menos inicialmente. O cronista judeu Salomão Ibn Verga, exilado de Espanha e ele próprio arrastado pelas conversões compulsivas, escreve na sua obra Shebet Yehuda (O Ceptro de Judá): que proveito tirará a Nossa Senhoria e Rei em deitar água benta sobre os judeus, passando a chamá-los Pedro ou Pablo, enquanto eles permanecem ligados à sua fé, como Akiba ou Tarfon? ( ....) Saiba, Senhor que o judaísmo faz parte dos males incuráveis. Na verdade, convertidos em massa e de um só golpe, grande parte dos judeus cristianizados mantinham vivas, pelo menos nos primeiros anos, as suas estruturas comunitárias, os seus laços de solidariedade e sobretudo a consciência da sua identidade religiosa judaica». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «E em Maio de 1497, o rei doaria ao concelho de Lisboa o cemitério judaico para pastos e rossio e as pedras das campas e cabeceiras dos jazigos para a fábrica do hospital real de Todos-os-Santos»

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… e ali lhes deitaram a sua água de baptismo...
«(…) O certo é que o termo de expulsão não é apropriado para designar o que se passou em Portugal, onde poucos foram os que lograram sair. Nesta altura, a grande maioria permaneceu no reino como cristãos-novos, mantendo a fé e as práticas judaicas secretas no interior dos seus lares. Foi o baptismo geral forçado, planificado e executado de forma fria e calculada que pôs fim à presença do judaísmo em Portugal. O que Maria José Tavares denomina de religiocídio. Entre os poucos que saíram neste período, contam-se o já mencionado sábio e médico Abraão Saba, cujos dois filhos foram baptizados, e que enterrou o seu tesouro literário debaixo de uma árvore, a que denominou o carvalho do pranto, Abraão Zacuto, matemático e astrólogo, Joseph Caro, talmudista e comentador da Bíblia, Jacó Ibn Chabib, gramático, e que passou a assinar aquele que nunca se ajoelhou para adorar nem Baal, nem fogo nem pau, todos para o Império Otomano. Ao deixar estas e outras grandes figuras, o rei Manuel I procurava muito provavelmente decapitar a elite dos judeus cristianizados. A grande diáspora dos conversos só acontecerá de facto depois do massacre de 1506 e sobretudo depois do estabelecimento da Inquisição (maldita), em 1536. Desse grupo fará parte Grácia Nasi.

Que se nam posa fazer ordenaçam nova sobre elles como sobre gemte destimta...
A acção do rei Manuel I não se limitou às conversões forçadas. Ao mesmo tempo e sem esperar pelo prazo final de Outubro, o rei levou a cabo a destruição violenta, rápida e total do culto judaico: ordenou a destruição de sinagogas, escolas e bibliotecas; proibiu o uso e o estudo do hebraico, que passou a ser oficialmente restringido apenas à universidade; proibiu o exercício do culto e todas as instituições jurídicas, administrativas e religiosas judaicas. A 15 de Março, a sinagoga de Évora é doada ao Bispo de Tânger e a sinagoga grande de Lisboa reverte para a Coroa, sendo entregue em 1505 à Ordem de Cristo e transformada em igreja. Garcia de Resende afirma: … vimos synagogas mexquitas em que sempre erão dictas e prégadas heresias, tornadas em nossos dias igrejas sanctds benditas… As sinagogas locais seriam entregues a particulares, como residências. E em Maio de 1497, o rei doaria ao concelho de Lisboa o cemitério judaico para pastos e rossio e as pedras das campas e cabeceiras dos jazigos para a fábrica do hospital real de Todos-os-Santos.
Também a posse e existência de livros hebraicos foi proibida, excepto aos físicos e cirurgiões. Em Lisboa, existia um centro de copistas que produziu uma obra notável da qual se destacam, pela beleza da sua caligrafia e das suas iluminuras, as cópias parciais ou integrais da Bíblia executadas entre 1469 e 1496. É este centro ou escola que esteve na origem da instalação em Portugal, em Faro, Lisboa e Leiria, das primeiras oficinas de impressão, sendo em caracteres hebraicos os primeiros livros impressos em Portugal, nas oficinas de Samuel Gacon, Eliezer Toledano e Samuel d’Ortas. Estas obras e outras trazidas de Espanha pelos judeus refugiados deram origem a uma biblioteca hebraica riquíssima, avaliada por um contemporâneo em mais de cem mil cruzados, que Manuel I não hesitou em doar e vender ao desbarato, provavelmente sem noção do seu valor literário, científico e histórico. Manuel I não esperou pelo final de Outubro de 1497 para destruir todos os vestígios do culto judaico. Mesmo antes de expirar o prazo para a sua partida, escreve Maria José Tavares, os judeus assistiam impotentes ao devassar dos seus templos, escolas e bibliotecas e à profanação dos seus cemitérios. O que nos permite concluir que ainda antes de assinar o decreto de expulsão, Manuel I já teria premeditado a conversão geral dos judeus de Portugal.
Ao mesmo tempo que procede à destruição do culto judaico, Manuel I vai levar a cabo o outro lado da sua política que visava a integração social dos antigos judeus, agora baptizados. A primeira medida é a protecção dos cristãos-novos. A ordenação de 30 de Maio de 1497 proíbe, durante quinze anos, as inquirições sobre o seu passado judaico: que se nam posa fazer ordenaçam nova sobre elles como sobre gemte destimta, pois que sam convertidos à nossa samta fee. Este decreto é confirmado a 13 de Março de 1507 e prolongado em 1515 por mais dezasseis anos. Ou seja, no tempo de Manuel I, os cristãos-novos estão isentos do inquérito sobre crimes contra a fé». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

domingo, 1 de novembro de 2015

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «A razão pela qual el-rei ordenou que levassem os filhos dos judeus e não os filhos dos mouros era que os judeus, pelos seus pecados, não tinham reinos, nem domínios, nem cidades, nem aldeias…»

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… e ali lhes deitatam a sua água de baptismo...
«(…) Esperaria Manuel I uma aceitação voluntária e massiva da conversão por parte dos judeus? Se assim era, enganou-se. Mas nada deteria o rei na sua decisão: numa sexta-feira, a 19 de Março de 1497, muito antes de findar o prazo para a saída, estipulado para Outubro, foi dada a ordem de baptismo compulsivo de todas as crianças de quatro a catorze anos no domingo seguinte, dia da Páscoa judaica. Seguindo a táctica de atingir os pais através dos filhos, estes seriam retirados aos seus progenitores para serem educados na fé cristã. As crianças foram assim arrancadas aos pais em verdadeiros cenários de horror: Os pais, levados ao desespero, vagavam como dementes, as mães resistiam como leoas. Muitos preferiam matar os filhos com as próprias mãos; sufocavam-nos no último abraço ou atiravam-nos em poços ou rios, suicidando-se em seguida. Condoídos, muitos cristãos escondiam crianças judias para poupar os pais a tal sofrimento. Os próprios cristãos, escreve um autor anónimo, movendo-os a piedade, e em face dos bramidos e choros que os tristes pais e amorosas mães faziam por aqueles pedaços das suas entranhas que, à força, viam arrancar deles sem esperança de mais poder lograr, escondiam e salvavam crianças. Fernando Coutinho, líder do partido clerical que no Conselho Real se opusera à expulsão, e mais tarde bispo de Silves escreverá uns anos depois: Vi com os meus próprios olhos como muitos foram arrastados pelos cabelos à pia baptismal, como um pai, com a cabeça encoberta, sob dores e lamentações, acompanhou o seu filho e, de joelhos, clamou ao Todo-Poderoso que fosse testemunha de pai e filho, unidos como professos da lei mosaica, desejarem morrer como mártires do judaísmo. Vi actos ainda mais pavorosos, verdadeiramente incríveis, que lhes foram infligidos.
Mas o terror das conversões forçadas ainda não acabara. Com a aproximação da data limite para a saída, em Outubro de 1497, três portos, Lisboa, Porto e Algarve foram designados para o embarque. Mas no último momento o rei mudou de opinião, restringindo-o a Lisboa. Cerca de vinte mil judeus juntaram-se então na cidade, sendo conduzidos ao palácio dos Estaus, no Rossio, onde antes de serem alvo de um baptismo colectivo foram sujeitos a todo o tipo de pressões e ameaças. Abraão Saba, médico, que já fora expulso de Castela em 1492 e a quem levaram os dois filhos, conta que foram mantidos, nos Estaus, sem comer nem beber durante quatro dias, e que os que conseguiram resistir foram arrastados pelas barbas e cabelos, até às igrejas, enquanto outros se suicidavam atirando-se das janelas.
Mais uma vez Manuel I manda tirar aos pais, para os baptizar, os filhos até vinte e cinco anos de idade. Depois destes, também os pais foram arrastados às pias baptismais e ali lhes deitaram a sua água (de baptismo), e tocando com ela uns e mal alcançando outros lhes impuseram sobre isso nomes da cristandade, e os meteram em poder de velhos cristãos para os submeter à religião e guarda da sua fé. Expirado o prazo de 30 de Outubro, deixa de haver, oficialmente, judeus em Portugal como conta Garcia Resende na sua crónica rimada: Os Judeus vi cá tornados todos num tempo cristãos os mouros então lançados fora do reino passados. Como se depreende desta crónica de Garcia Resende houve uma diferença de tratamento relativamente a judeus e mouros. Enquanto aos primeiros não foi permitida a saída, optando o rei por os manter no reino como cristãos, aos segundos foi-lhes permitido deixar o país.
Porquê esta diferença de tratamento? Terá sido por temor de uma eventual vingança dos príncipes mouros, na Ásia e em África, contra os cristãos que aí habitavam, enquanto os judeus não tinham quem os defendesse, como afirmará mais tarde Damião Góis? A razão pela qual el-rei ordenou que levassem os filhos dos judeus e não os filhos dos mouros era que os judeus, pelos seus pecados, não tinham reinos, nem domínios, nem cidades, nem aldeias, mas são, em todas as partes em que vivem, peregrinos e súbditos, desprovidos de poder e de autoridade para executar os seus desejos contra as ofensas e os males exercidos sobre eles... Ou esta diferença de atitude terá estado mais relacionada com o importante papel social, económico e científico desempenhado pelos judeus em Portugal, reforçado ainda pela vinda dos exilados espanhóis? Provavelmente pelos dois motivos». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Contrariamente aos Reis Católicos que cumpriram o estipulado, Manuel I não manteve a sua promessa de deixar sair de Portugal os judeus que o quisessem. A sua decisão era outra: mantê-los no reino e aos seus ‘cabedais’»

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Um rei, um reino, uma religião
«(…) A estes, como castigo, foram retiradas à força duas mil crianças, de dois a dez anos e entregues a Álvaro Caminha, em 1493, para as levar consigo depois de baptizadas à capitania da ilha de S. Tomé que lhe fora oferecida pelo rei. Grande parte dos meninos de S. Tomé, nome pelo qual ficaram tristemente conhecidos, pereceu devido às terríveis condições da ilha, para onde ninguém queria ir. Para além da conversão das crianças, o objectivo era povoar a ilha, o que acabou por acontecer através daqueles que conseguiram resistir aos lagartos, serpes e outras muitas peçonhentas bichas (...) que os tragaram quase todos. Aos sobreviventes, Álvaro Caminha deu em testamento em 1499, herdades, gado e escravos negros trazidos de África, conseguindo assim estabelecer a primeira economia açucareira dos Trópicos.

Que os judeus e mouros forros se saiam destes reynos...
Com a morte de João II e a subida ao trono de Manuel I, em 1495, a situação melhorou inicialmente para os judeus, em particular através da libertação, por ordem real, dos judeus castelhanos feitos escravos. A inscrição da lápide da sinagoga em Gouveia, datada de 1496 e descoberta em 1967, mostra a confiança que os judeus sentiam no início do seu reinado: … a glória desta última casa será maior do que a primeira. Mas essa confiança depressa se desvaneceu. Interessado no casamento com dona Isabel, a filha mais velha dos Reis Católicos, o monarca Manuel I cedeu à sua chantagem: casamento, sim, mas apenas em troca da expulsão de todos os judeus de Portugal. A própria infanta escreveu a Manuel I recusando-se a entrar em Portugal enquanto o país não estivesse esvaziado de todos os hereges.
Contra a vontade de uma parte significativa do seu próprio conselho, receoso da perda de uma comunidade laboriosa e economicamente importante, e em total contradição com a sua própria política anterior, Manuel I assinou o tratado de casamento a 29 de Novembro de 1496. E poucos dias mais tarde, a 5 de Dezembro, decretava em Muge, perto de Santarém, a expulsão de todos os judeus e mouros no prazo de dez meses: ... Determinamos, e Mandamos que da pubricaçam desta Nossa Ley e Determinaçam atá, per todo o mez de Outubro do anno do Nacimento de Nosso Senhor de mil e quatrocentos e nouenta e sete, todos os Judeus, e Mouros forros, que em Nosso Reino ouuer, se saiam fóra delles, sob pena de morte natural, e perder as fazendas... Em troca comprometia-se a deixá-los sair liuremente com todas as suas fazendas e a assegurar-lhes transporte; pera sua hida lhe Daremos todo o auiamento, e despacho que cumprir.
No édito de expulsão, Manuel I não se preocupa em fornecer grandes explicações. Defende que a salvação dos cristãos passa pela expulsão dos judeus e mouros forros porque obstinados no ódio da nossa Santa Fé Católica de Cristo Nosso Senhor. Cita os grandes males e blasfémias que os judeus filhos da maldição, cometiam desde sempre contra a fé cristã, o mau exemplo que davam a muitos cristãos e finalmente outros motivos consideráveis e urgentes, não especificados. Um pequeno texto, uma tragédia imensa. O édito de expulsão foi o golpe de misericórdia no judaísmo ibérico que durante mais de mil anos florescera na Península, e o culminar de um caminho iniciado em Espanha pelos Reis Católicos com a instauração da (maldita) Inquisição espanhola em 1481, e o decreto de expulsão de 1492. O objectivo era a unidade religiosa e política, um Rei, um Reino, uma Religião. Aparentemente tinha sido conseguido.

… e ali lhes deitatam a sua água de baptismo...
Contrariamente aos Reis Católicos que cumpriram o estipulado, Manuel I não manteve a sua promessa de deixar sair de Portugal os judeus que o quisessem. A sua decisão, provavelmente já anterior à assinatura do decreto de expulsão, era outra: mantê-los no reino e aos seus cabedais, não como judeus, mas sim como cristãos». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Quando Grácia nasce, Portugal já deixara de ser a terra que os acolhera nessa época. Nesse ano fatídico para o judaísmo espanhol e ibérico, como mais tarde se verá, o rei João II de Portugal autorizara, mediante o pagamento…»

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«(…) Mais complexos são os nomes e grafias diferentes de Beatriz de Luna/ Grácia Mendes/ Grácia Nasi ou Nasci... Para uma melhor compreensão do tema, remeto  para o estudo de Herman Prins Salomon e Aron di Leone Leoni, Mendes, Benveniste, De Luna, Micas, Nasci: Em que ficamos? (1532-1558). Direi apenas que a diversidade dos nomes é a expressão da realidade das conversões forçadas. Baptizada com o nome de Beatriz e designada como Beatriz Luna, ou Beatriz Mendes (depois do casamento com Francisco Mendes Benveniste), Grácia passa a usar o nome de Gracia Nasi ou Nasci, quando assume publicamente o judaísmo à chegada ao Império Otomano. Os marranos tinham normalmente dois nomes, correspondendo na realidade a uma dupla identidade: a cristã com o nome do baptismo e a judaica com o respectivo nome que assumiam apenas, em família, no segredo dos seus lares. Toda a família Luna/Mendes/Nasi usava os seus nomes de baptismo em terras da cristandade e os nomes judaicos no seio da família ou em terras de tolerância religiosa. Usei mais frequentemente o nome de Grácia Nasi, mesmo quando ainda era Beatriz porque foi com esse nome que se tornou conhecida. Também acredito que é assim que ela gostaria de ser lembrada: com o nome judaico que durante tanto tempo foi obrigada a esconder.

Um rei, um reino, uma religião
Grácia Nasi nasce em Lisboa, em 1510, com o nome cristão de Beatriz Luna, no seio de uma família de cristãos-novos originários de Castela, vinda para Portugal após a expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, pelos reis católicos, Fernando e dona Isabel. Os seus pais eram os conversos Álvaro e Filipa Luna, cujo patronímico cristão terá origem no apelido dos barões de Luna, senhores de Illueca a norte de Calatayude. A sua mãe era uma Benveniste, irmã daquele que mais tarde será o seu marido, Francisco Mendes Benveniste.
Ambas as famílias integraram a imensa vaga dos exilados judeus espanhóis que procuraram refúgio em Portugal, no seguimento da expulsão de Espanha. A família Benveniste era uma das mais antigas e prestigiadas do judaísmo espanhol. Pelo menos desde o século XII tinham sido médicos e financeiros dos reis de Aragão e Castela e no século XV, devido aos serviços prestados na reorganização das finanças reais, Abraão Benveniste foi nomeado Rabi da Corte, ou seja representante máximo dos judeus de todo o reino junto da corte, cargo de imenso poder e prestígio. Abraão morreu em 1454 perto de quarenta anos antes do trágico decreto de expulsão dos reis católicos, que interrompeu brutalmente a brilhante história de mais de um milénio de presença judaica em Espanha. Um dos seus descendentes próximos ter-se-á então refugiado em Portugal, com os seus filhos Semah e Meir, mais tarde respectivamente denominados pelos seus nomes cristãos de Francisco e Diogo Mendes. Por seu turno, a família De Luna terá tido como antepassado Yuçaf el Nasci, arrematador de impostos e poderoso funcionário judeu do rei Juan II de Castela (1406-1454), o que poderá explicar o apelido judaico mais tarde assumido por Grácia Nasi. Seja como for, ambas as famílias pertenciam à aristocracia judaica espanhola, o que não as poupou ao cruel destino imposto aos seus irmãos de fé.
Quando Grácia nasce, Portugal já deixara de ser a terra que os acolhera nessa época. Nesse ano fatídico para o judaísmo espanhol e ibérico, como mais tarde se verá, o rei João II de Portugal autorizara, mediante o pagamento de oito cruzados por pessoa adulta, a entrada dos judeus em fuga de Espanha e a sua permanência no reino durante o prazo máximo de oito meses. Para além destes, trinta famílias de elevado estatuto, conduzidas pelo rabino Isaac Aboab, foram autorizadas a fixarem-se no Porto onde desde o início desempenharam um papel de primeiro plano. Seiscentas outras famílias abastadas, que podiam pagar cem cruzados, tiveram também a possibilidade de se instalar em zonas da sua escolha. A família de Grácia terá feito parte deste grupo.
Mas para a maioria dos judeus castelhanos sem meios, Portugal foi apenas mais uma etapa de sofrimento: muitos dos que puderam embarcar ao fim dos oito meses eram despojados dos seus bens e atirados à água e as suas mulheres violadas; outros foram desembarcados, sem nada, no primeiro porto africano. Os que não conseguiram embarcar foram feitos escravos». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

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domingo, 12 de julho de 2015

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «… esta mulher não teve medo de desafiar homens, papas, reis e o seu próprio destino. Nasceu em 1510 em Portugal no seio de uma família expulsa de Espanha. Contudo não seria em Lisboa que encontraria a tranquilidade desejada…»

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A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino
«(…) É, em seguida, uma cristã- nova, obrigada a esconder a sua dupla identidade, mas sem nunca dela se desembaraçar completamente, perseguida durante grande parte da sua vida, condenada à errância para se manter fiel a si mesma. Uma mulher que incarna nela própria o destino dos cristãos-novos judaizantes, eternamente dilacerados entre dois mundos, duas culturas, duas pertenças religiosas, duas identidades. Grácia Nasi é, por outro lado, herdeira de uma fortuna colossal por morte do marido. Fortuna cobiçada por reis, príncipes e papas que não se coíbem de exercer sobre ela as mais violentas pressões para se apoderarem da sua riqueza. Fiel às suas convicções e à sua fé inquebrantável, Grácia encontrou sempre alternativas de fuga ou de suborno que lhe permitiram resistir a elas. A sua vida percorre o mapa europeu da Península Ibérica até ao Império Otomano onde finalmente adoptou publicamente, e pela primeira vez, o judaísmo. Viúva aos vinte e cinco anos e à frente dum verdadeiro império, ela assumirá o seu papel de mulher de negócios simbolizando ao mais alto grau o espírito pioneiro, empreendedor e preponderante assumido na época pelos sefarditas judeus/cristãos-novos.
Finalmente, Grácia é uma mulher profundamente crente, habitada por uma paixão mística pelo judaísmo e que coloca o seu fervor religioso e uma parte significativa da sua fortuna ao serviço dos seus irmãos de destino, os marranos, originando uma verdadeira devoção. Samuel Usque chama-lhe o coração do seu povo. Cecil Roth escreve: em toda a história judaica, nenhuma outra mulher foi objecto de uma tal devoção; nenhuma outra mulher o mereceu tanto. Para rabinos e eruditos a quem ela ajudou e patrocinou, Grácia tem a piedade de Miriam, a sabedoria de Débora, a dedicação de Esther e a coragem de Judite. O meu encontro com Grácia Nasi não foi uma revelação fulgurante. O conhecimento da sua personagem foi progressivo, em primeiro lugar através de obras romanceadas, depois da leitura das biografias e estudos históricos. Confesso que o meu interesse por Grácia deve muito ao símbolo que representa. Mais do que uma mulher de carne e osso, uma carne ausente, como refere Catherine Clément, Grácia tornou-se o símbolo do sofrimento dos marranos, do misticismo messiânico que os habitava, da sua fé inquebrantável e ao mesmo tempo do pioneirismo económico que fez deles os precursores do capitalismo global.
Apesar do sentido pejorativo da palavra marranorr, termo pelo qual eram designados, em Espanha e depois em Portugal, os judeus convertidos ao cristianismo que guardavam secretamente as práticas judaicas, mantive este termo ao longo do texto, sem aspas, em vez do termo anuss (forçado) utilizado normalmente pelos judeus da Península para designar os seus irmãos convertidos à força. Com efeito, a expressão marranos, não só consta dos documentos da época, como é hoje quase universalmente utilizada pelos historiadores para designar os judeus secretos ou cripto-judeus. O termo é também, para muitos dos seus descendentes, sinónimo de resistência à assimilação forçada ao cristianismo. Assim, de termo pejorativo que era, a expressão marrano passou a reflectir uma situação histórica e uma conduta colectiva de um grupo de cristãos-novos.
Outros nomes que se podem prestar a equívocos são os de Constantinopla e Istambul, Turquia e Império Otomano. Com a queda ou conquista (conforme o ponto de vista dos derrotados ou dos vencedores) do império bizantino e de Constantinopla, em 1453, pelos Turcos, esta passou a chamar-se Istambul, muito embora o nome só tenha sido oficializado depois do fim do Império Otomano. Apesar de o Ocidente ter mantido o nome de Constantinopla durante muito tempo, adoptei em geral o nome de Istambul que é o nome da cidade desde o século XV. Da mesma forma a república turca, a Turquia, só é criada oficialmente em 1923, após a queda do Império Otomano. Mas tendo em conta que foram os Turcos os seus fundadores, é frequente chamar-se indiferenciadamente Império Otomano ou Império Turco. Os nomes também utilizados de Sublime Porta ou simplesmente, Porta, referem-se ao antigo cerimonial de acolhimento, pelo sultão, dos embaixadores estrangeiros à entrada do palácio». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «A história judaica tem mulheres extraordinárias. Da matriarca Sara à sionista Golda Meir, muitas mulheres judias fizeram história. “Grácia Nasi” foi uma delas. Com uma fé inquebrantável e uma personalidade de ferro moldada pelas agruras da vida»

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A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino
«A primeira biografia de Grácia Nasi foi escrita por uma mulher, Alice Fernand-Halphen, em l929, na Revue de Paris sob o título Une Grande Dame Juive de la Renaissance, Gracia Mendes-Nasi. Antes, já alguns autores se haviam referido a ela no século XVII e no século XIX, nomeadamente, Meyer Keyserling na sua História dos Judeus em Portugal, Geschichte Der Juden in Portugal, publicada em 1867. Mas é sobretudo no século XX que se desenvolvem obras romanescas e estudos históricos dedicados à sua vida e personagem dos quais o grande marco é o livro de Cecil Roth, Dona Gracia Nasi publicado em 1948. Não farei aqui a lista de todas as publicações dedicadas àquela que ficou conhecida como Ha Giveret A Senhora. Em contrapartida, é interessante saber qual o motivo de tão abundante literatura em torno de uma mulher do século XVI sobre cuja vida existe, afinal, muito pouca documentação. Não há dúvida de que a escassez de elementos históricos pode contribuir para alimentar a imaginação, mas a verdade é que se encontram reunidas nesta personagem alguns elementos que atestam a sua singularidade e que contribuem para o símbolo em que se tornou. Em primeiro lugar trata-se de uma mulher. No século XVI, várias mulheres ocuparam um lugar de destaque, tais como Lucrécia Bórgia ou Catarina de Médicis, Maria da Escócia ou Isabel de Inglaterra. Benvenida Abrabanel, em Ferrara, e Esther Kyra, em Istambul, foram duas mulheres judias que, entre outras, desempenharam igualmente um importante papel. Mas, no geral, as mulheres eram consideradas inferiores aos homens no plano jurídico e político. Assim, num universo temporal em que o homem é o elemento preponderante, o que faz história, Grácia Nasi, por força das circunstâncias, morte do marido, perseguição inquisitorial, herdeira involuntária de uma fortuna colossal, e pela força do seu carácter, vai ela própria fazer história. Esta Senhora rompeu com a maneira de ser das mulheres, escreveu no século XVI o grande poeta de Salónica, Saadiah Lungo, o que na sua pena é certamente o maior dos elogios. Não é, pois, por acaso que a primeira biografia a ela dedicada tenha sido escrita por uma mulher e que sejam sobretudo mulheres quem vai ao longo do século XX romancear e ficcionar a sua personagem num processo de identificação e de projecção pessoal…» In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT