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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «O testamento de Margarida Vicente teve, como o de seu marido, um percurso curioso. Lavrado em Estremoz, nas casas da testadora, em 15 de Abril de 1384 (1422 da era de César), o seu original, pergamináceo…»

Testamento de D. Margarida Vicente, A.D. 1384, traslado autêntico de 1814
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A capela de Vasco Esteves de Guatuz. Bens vinculados à capela de Vasco Esteves
«(…) Os imóveis que então garantiam o pagamento das capelanias eram dominados por uma grande herdade no termo de Elvas, a herdade da Torre de Guatus, a qual, arrendada, dava ao tempo ao administrador cerca de trezentos mil réis por ano. Demarcavam esta propriedade vinte marcos, oito dos quais em mármore de Estremoz e com um letreiro que dizia Gatus, acompanhados de suas testemunhas. De perímetro, entre marcos, eram mais de doze quilómetros. Para além desta herdade grande, os bens da capela incluíam, no termo de Estremoz, três pedaços de olivais e, arriba de Anha Laura, a herdade denominada Devezinha. Os restantes bens, cinco casas na vila, um chão em Anha Loura, hoje dita Ana Loura, uma azenha e metade de outra, dezassete vinhas, uma delas também com oliveiras, um chão com oliveiras e um serrado, tudo ao que parece no termo de Estremoz, estavam aforados e rendiam, anualmente, mais de quatro mil réis, doze galinhas, meio almude de vinho e vinte alqueires, muito provavelmente, de trigo. As propriedades e os foros, incluindo a herdade grande de Elvas, davam um rendimento anual estimado, nos meados do século XVI, em trezentos e trinta mil réis.

NOTA: Da grande herdade no termo de Elvas, a lembrança dá-nos, pormenorizadamente, os limites, a colocação dos marcos e a distância entre eles, bem como as dimensões das casas ali existentes e o seu número de divisões. Descreve também a torre de Guatus, torre velha que tinha o comprimento, pela parte do Nascente, de sete varas e, pela parte da estrada, contra os frades de Santo Agostinho de Coimbra, que possuíam então a herdade do Curvo, cinco varas, tendo pela outra parte, contra o Sul, também cinco varas. A torre tinha duas tulhas em baixo e uma divisão em cima. Pegada a ela, havia uma casa com forno.

Execução das disposições testamentárias
Fr. Fernando Roberto Gouveia, ao responder, com manifesta sensibilidade histórica, ao inquérito que em 1758 deu origem à colecção das Memórias Paroquiais, hoie conservadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, quando se reportou ao túmulo de Vasco Esteves, acrescentou que junto deste túmulo esta sepultada sua mulher, D. Margarida Vicente, que faleceu alguns anos antes. Esta informação sobre a data relativa do falecimento de D. Margarida Vicente não corresponde à realidade. Senhora crente e esmoler, ainda em 1384 era viva, como já dissemos. Nesse ano mandou lavrar ao tabelião de Estremoz Álvaro Pires as suas últimas vontades.

NOTA: O testamento de Margarida Vicente teve, como o de seu marido, um percurso curioso. Lavrado em Estremoz, nas casas da testadora, em 15 de Abril de 1384 (1422 da era de César), o seu original, pergamináceo, foi apresentado no mosteiro de S. Francisco de Estremoz, pelo juiz Gonçalo Martins, a 15 de Fevereiro do anno do nacimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e quatrocentos e vinte e tres annos, na presença de Vasco Afonso, juiz por el-rei na vila, segundo diz um traslado do século XIX. Em 25 de Janeiro de 1622 foi parcialmente transcrito, em Lisboa, no tombo da capela instituída por Margarida Vicente no referido mosteiro (ANTT - Tombo das Capelas da Coroa, livro 4). Em 15 de Julho de 1638 foi feito um traslado dele para o tombo do mesmo convento estremocense, pelo tabelião António Gonçalves. Com base neste registo fez o tabelião de notas de Estremoz Manuel Inácio Fernandes, em 8 de Outubro de 1814, um traslado autêntico que foi apensado a uns autos cíveis de abolição da capela de Margarida Vicente lavrados em Estremoz a 9 de Setembro de 1815. É junto a esses autos que o texto integral do testamento de Margarida Vicente hoje se encontra (ANTT-Desembargo do Paço. Alentejo e Algarve, maço 289, n.º 18). O original pergamináceo parece estar perdido. Adiante, transcrevemos o traslado de 1814.

O testamento revela, também, um forte pendor pelo cenóbio franciscano de Estremoz. Mando, diz ela, ser emterrada no mosteiro de Sam Francisco do dicto logo e que me emterrem no abito de São Francisco. Institui testamenteiros a Gil Nunes e Diogo Nunes, seu sobrinho, e a Mafalda Vicente, sua prima, e manda que des da morte da dicta Mafalda Uisente em diante cante por mim hum capellão a missa por minha alma em cada hum dia em o dicto mosteiro e saia sobre mim e diga a dicta misa por mim frade do dicto mosteiro qual meus testamenteiros consederem. À capela de D. Margarida Vicente foram vinculados bens que é de supor terem pertencido, no todo ou em parte, ao casal, os quais incluíam diversas casas em Sousel, uma delas na Rua Nova, perto do coval, e que fora lagar de vinho, duas covas de ter pão nesse mesmo coval, uma delas com capacidade para cinco moios e meio de trigo, vários ferragiais, dois fornos de cozer tijolo, a horta das Fontainhas, um pomar, a horta das Viúvas, outras hortas e pomares, chãos, mais casas e um moinho». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «Podemos fazer hoje uma ideia, ainda que pálida, do que foram esses bens através de uma lembrança das propriedades, colhida, no início do século XVII, no respectivo Livro dos Administradores»

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Identificação de ‘Gatuz’
«(…) Nesse topónimo estará também, muito provavelmente, a origem de uma emblemática assumida e traduzida num brasão que foi comum ao vizinho de Estremoz e à família Gato. Poderá supor-se que o cavaleiro Estêvão Gonçalves, vizinho de Vila Viçosa, e sua mulher, D. Sancha Anes, proprietários de uma das herdades de que nos vimos ocupando, em Gatuz, na primeira metade do século XIV, tenham algum parentesco com Vasco Esteves. O patronímico deste e de seu irmão Martim não rejeita a hipótese, pode apontar um estreito elo, porventura a paternidade. Mas não é possível estabelecê-la, enquanto persistir a ausência de testemunhos que a assegurem.

NOTA: A uma ascendência desconhecida e a um escasso número de familiares identificados, no que se refere a Vasco Esteves, contrapõe-se uma genealogia de família em que, para os séculos XIII e XIV, os livros de linhagem e alguns outros documentos permitem identificar mais de uma centena de membros e parentes afins, sem que em algum momento se descortine uma sobreposição reveladora de inserção de Vasco Esteves ou de seus parentes na família Gato.

Certezas e Interrogações
É altura de recapitularmos:
  • Vasco Esteves, o de Estremoz, viveu no século XIV;
  • Foi vizinho e morador na então vila de Estremoz;
  • Casou com D. Margarida Vicente e o casal não teve descendência;
  • Da sua família, conhecem-se vários elementos: um irmão, cunhados, sobrinhos e primos consanguíneos e por afinidade, bem como um parente não especificado;
  • Foi escudeiro;
  • Teve bom relacionamento na sociedade estremocense;
  • Possuiu razoáveis bens materiais em numerário e em bens imóveis situados nos termos trecentistas de Estremoz e Elvas, designadamente, neste último, a herdade da Torre de Gatuz;
  • Foi amante da caça, em especial de altanaria;
  • Foi pessoa temente a Deus, esmoler, protector de parentes, generoso para com familiares, servidores, amigos, pobres, em especial os envergonhados, peregrinos, virgens casadoiras, igrejas e mosteiros;
  • Fez testamento em 1363, cujo texto integral se conhece;
  • Teve por testamenteira a sua mulher, cujo testamento de 1384, também é conhecido;
  • Instituiu uma capela com ónus pio na igreja do mosteiro de S. Francisco de Estremoz, à qual vinculou bens imóveis situados, ao tempo, nos termos de Estremoz e Elvas. O mesmo sucedeu com a sua viúva;
  • Contribuiu para a construção desse mosteiro franciscano;
  • Morreu entre a primeira semana de Abril de 1363 e 15 de Abril de 1384;
  • Foi sepultado em túmulo trecentista na igreja do mosteiro de S. Francisco de Estremoz, túmulo classificado monumento nacional em 1922;
  • Foi designado, pelo menos desde 1408 e até à segunda metade do, século XVII, com o sobrenome de domínio de Gatuz, pelo que, modernamente, passou a ser conhecido por Vasco Esteves de Gatus;
  • O seu túmulo ostenta, por duas vezes, um brasão com peças falantes, dois gatos passantes e sobrepostos, dentro de bordadura carregada de crescentes, a mais antiga representação que conhecemos de armas que foram, igualmente, das famílias Gato e Gatacho.
Apesar destas certezas, a sua biografia conserva muitas interrogações. Por isso a investigação que lhe diz respeito deve prosseguir, em parte para esclarecer qual a ascendência de Vasco Esteves, qual a data do seu nascimento, como se desenvolveu a sua vida, em família e em sociedade, como se processou a sua ascensão a escudeiro, como terá entrado na posse de seus bens imóveis e como os utilizou correntemente, qual o nível intelectual desse homem, que previu a possibilidade de um sobrinho querer seguir estudos e o dotou para tal, e qual a data exacta do seu falecimento.

A capela de Vasco Esteves de Guatuz. Bens vinculados à capela de Vasco Esteves
Para assegurar a satisfação dos encargos financeiros resultantes da instituição da sua capela, Vasco Esteves vinculou-lhe vários bens. Podemos fazer hoje uma ideia, ainda que pálida, do que foram esses bens através de uma lembrança das propriedades, colhida, no início do século XVII, no respectivo Livro dos Administradores, referente a 1556». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «Na linhagem dos Molles, é conhecido um Vasco Esteves. É filho de Estêvão Rodrigues Molles e primo, em grau elevado, de Martim Esteves Molles, por ambos terem em Paio Mendes Molles um antepassado comum»

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Identificação de ‘Gatuz’
«(…) Será este o irmão de Vasco Esteves de Gatuz? Segundo o Livro de Linhagens atribuído ao conde Pedro, este Martim Esteves foi irmão de Gonçalo Esteves. E, segundo o Livro Velho de Linhagens, publicado por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historico e por António Caetano Sousa nas Provas da Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa, também foi irmão de João Esteves Molles e outros. Algum destes se chamaria Vasco Esteves? Se isto vier a ser demonstrado, é possível que o escudeiro de Estremoz seja um Molles a quem a façanha do irmão fez calar a ascendência ao longo da vida e a quem a viúva pode ter preferido lembrar a ascendência materna, a dos Gato. Por ora, não nos é acessível um tal esclarecimento.
Na linhagem dos Molles, é conhecido, na verdade, um Vasco Esteves. É filho de Estêvão Rodrigues Molles e primo, em grau elevado, de Martim Esteves Molles, por ambos terem em Paio Mendes Molles um antepassado comum. Mas este Vasco Esteves não tem ascendentes conhecidos na família Gato. Foi casado com D. Teresa Mendes e dela teve um filho e duas filhas. Não se identifica, pois, com o escudeiro de Estremoz, mas pode, eventualmente, ser o cavaleiro a que se referiu Fernão Lopes, na Chronica do Senhor Rei D. Fernando ... como um dos companheiros de Gonçalo Mendes Vasconcelos, na ida para Elvas como fronteiro.
Vasco Esteves, o morador em Estremoz, no caso de ser descendente de Afonso Pires Gato ou de D. Teresa Pires Gata, irmã deste e mulher de Fernando Gonçalves Sousa e, em segundas núpcias, de Fernando Pires Turrichão, o Velho, ter-se-ia situado, considerando a cronologia e a esperança de vida, na quarta, quinta ou sexta geração dos Gato, segundo uma linha que até agora não vimos definida e devidamente documentada. O símbolo falante, patente nas armas esculpidas no seu túmulo e não só aí, impõe, sem dúvida, uma relação ou um significado. Qual? A omissão em testamento, não sabemos se por lapso, se intencional ou determinada pela rigidez de um formulário tabeliónico, dos nomes dos pais de Vasco e Martim Esteves, os tumulados em Estremoz, gera dúvidas quanto a uma relação com a família Gato, que se estendem aos parentes agora conhecidos de ambos, os Nunes, os Eanes e os Rodrigues. Na tradicional família Gato, também não encontramos nenhum destes. Será suficiente o símbolo falante para testemunhar, no século XIV, a presença de um descendente de Afonso Pires Gato?
Atendendo a que ao tempo se estava numa fase pré-normativa da heráldica em Portugal, há quem hoje pense que não. Pode tratar-se de emblemática assumida por outra razão. A argumentação é reforçada com o facto de naquela família se encontrarem vários indivíduos designados Gato ou Gata, mas nenhum de Gatuz. Ora, a herdade, que tinha no termo primitivo de Elvas, Torre de Guatus, foi, no século XIV, com precisão em 1363, pertença do escudeiro de Estremoz Vasco Esteves. É a propriedade de maior valor de quantas vão ser legadas para sustentar a capela por ele instituída nessa data. Quando e de quem recebeu tal imóvel, não sabemos ainda. Demonstrada a existência, ao tempo, do topónimo Gatuz, hoje perdido, e a relação que com ele teve Vasco Esteves, é, para nós, fora de dúvida que foi graças a este topónimo que o escudeiro de Estremoz recebeu o sobrenome de domínio, que o distingue ainda hoje de outros Vasco Esteves do seu tempo». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «… teremos passado por algum dos seus parentes atrás revelados? Haverá, por exemplo, alguém com o nome de seu irmão, Martim Esteves? Há, com efeito. É Martim Esteves de Molles…»

Antigas terras de Gatuz, entre Santo Aleixo (Monforte) e a Defesa de Vila Fernando (Elvas)
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Identificação de ‘Gatuz’
«(…) Fica, assim, provado que Gatuz é topónimo português anterior a 1277, isto é, já existia mais de oitenta e seis anos antes de Vasco Esteves fazer testamento. É, pois, sem dúvida, anterior ao seu nascimento. A palavra Gatuz, aplicada desde, pelo menos, a segunda metade do século XIII a uma área territorial apreciável, mas parcelada, está hoje perdida como denominação, quer de herdades, quer de uma torre, quer de um ribeiro. Como topónimo, foi usada, que saibamos até à segunda metade do século XVII, dela nos dando lembrança António Carvalho Costa, em 1712. Um pouco mais tarde, em 1758, o pe. Miguel Martins Mendes, pároco da freguesia de Santo Aleixo, no termo de Monforte, ao qual pertencia então a referida área, ao citar as herdades da sua freguesia, muitas das quais com designações que subsistem ainda hoje, aponta a da Torre do Curvo, ao tempo do senhorio dos religiosos de Santo Agostinho Calçados (Gracianos) do Convento de Nossa Senhora da Penha de França de Lisboa (a citada por António Carvalho Costa), outras herdades com o mesmo nome, mas dos religiosos Gracianos do Colégio de Coimbra, e a herdade do Pego do Curvo, também senhorio destes últimos. Mas não faz qualquer referência a Gatuz. Em Aires Varela, no Theatro das Antiguidades d’Elvas (Elvas, 1915), como em Victorino Almeida, nos seus Elementos para urn Diccionario de Geographia e Historia Portugueza. Concelho d’Elvas e extinctos de Barbacena, Villa-Boim e Villa Fernando (Elvas, 1888-1891), também não encontramos referência a Gatuz. Sondagens feitas por nós no concelho de Monforte, também não tornarem possível encontrar quem, na região, conservasse ainda hoje memória desse topónimo perdido do Alto Alentejo.

O problema da ascendência de Vasco Esteves
Voltemos ao problema da ascendência do nosso biografado, agora que estão adquiridos alguns dados relativos, iniludivelmente, a ele e a alguns parentes próximos. Se na árvore genealógica da família Gato, nos séculos XIII e XIV não encontramos até agora, como se disse, nenhum Vasco Esteves, teremos passado por algum dos seus parentes atrás revelados? Haverá, por exemplo, alguém com o nome de seu irmão, Martim Esteves? Há, com efeito. É Martim Esteves de Molles, filho de D. Teresa Martins e de Estêvão Pais de Molles.

NOTA: Martim Esteves ou Martim Esteves de Molles foi neto, por parte da mãe, de Martim Anes ou Martim Anes Cunha e de D. Sancha Gomes Silva, logo trineto, por parte da bisavó, D. Sancha Soares, de D. Constança Afonso Gata e de Soeiro Pires Azevedo. Martim Esteves de Molles foi casado com D. Maria ou Moor Fernandes, filha de Fernão Rodrigues Bugalho e de D. Maria Afonso, filha de Afonso Guilherme, de Santarém. Ignoramos se teve geração e, em caso afirmativo, se teve filhas e alguma delas se chamou Leonor Martins, nome de uma das sobrinhas de Vasco Esteves.

Homem que foi, por parte da mãe, tetraneto de Afonso Pires Gato e trineto de D. Constança Afonso Gato, ignoramos quando nasceu e quando morreu, mas é possível que a sua morte se tenha dado antes do lavrar do testamento, de Vasco Esteves. Viveu no Alentejo, tendo deixado ao tempo amarga lembrança em Alter do Chão, onde matou doze dos seus melhores homens-bons, por o terem corrido da povoação e o rei Afonso IV (1325-1357) não ter corrigido a situação». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «O mosteiro de Alcobaça já no século XIII possuía vários bens no termo de Elvas. Em 1277 (Abril, 15), o abade de Alcobaça, Pedro, e o seu convento, representado por fr. Durando, ao tempo celareiro, receberam de um tal Estêvão Gonçalves…»


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Identificação de ‘Gatuz’
«O sobrenome de Vicente Martins está presente em nossos dias na herdade da ‘Torre do Curvo’, situada a noroeste do Monte do Alvarenga, não longe do local onde a Ribeira de Tira-Calças desemboca na Ribeira Velha. Para nordeste, situa-se a herdade da ‘Torre de Frade’.

NOTA: Carta Militar de Portugal, pelo Serviço Cartográfico do Exército, na escala l: 25 000. A herdade da Torre do Curvo situa-se a sudoeste da foz da Ribeira de Tira-Calças, a cerca de 38º 55' 15" de latitude Norte e 1º 45’, de longitude Leste de Lisboa. A herdade da Torre do Frade localiza-se a nordeste da mesma foz, a cerca de 38º 55' 57" de latitude Norte e lº 45' 12" de longitude Leste de Lisboa.
  • Ainda no século XIV, mas em data um pouco mais distante de nós, uma contenda entre o convento de Alcobaça e Estêvão Gonçalves, cavaleiro, vizinho de Vila Viçosa, por si e como representante de Sancha Anes, sua mulher, relacionou-se igualmente, com a área geográfica de que nos estamos a ocupar.
Jhoane, abade de Alcobaça, e o seu convento consideravam-se legítimos proprietários de uma erdade que ha en termho d'Eluas en logo que chamam Gatuz e, por tal, diziam que Estêvão Gonçalves Ihe tomara e tijnha tomada per força hüa gram peça d[esse] erdamento d’Alcobaça.

Levada a questão perante um juiz, foi por este aceite a sugestão de Estêvão Gonçalves de se deslocar ao local e achar, por homens-bons, a verdade. Assim aconteceu. Contudo, antes que se acabasse ‘de filhar enquiriçom’, as partes entraram em acordo. Propôs-se neste a divisão da herdade em duas, tomando por limite comum ‘hüu rybeiro que uem dantre duas cabeças que estam na dicta erdade per hu uay o camjnho d'Eluas pera Alcaraujça e como uaj o dicto rybeiro affondo dantre as dictas cabeças entrar en Gatuz’.
Ficaria ‘a dicta Ordem com a dicta erdade des o dicto rybeiro contra os penedos de Gatuz e o dicto caualeiro e sa molher com a outra [sic] erdade des o dicto rybeiro contra Ueiros’.
  • Julgado assim por sentença, do acto lavrou instrumento, aos ‘dez dias de Janeiro Era de mil e trezentos e sateenta e doos anos, ou seja em 1332, o tabelião de Elvas Estêvão Domingues, que apôs nele o seu sinal.
O mosteiro de Alcobaça já no século XIII possuía vários bens no termo de Elvas. Em 1277 (Abril, 15), o abade de Alcobaça, Pedro, e o seu convento, representado por fr. Durando, ao tempo celareiro, receberam de um tal Estêvão Gonçalves, ‘pretori de Turribus Nouis’, e de sua mulher, Estefânia Martins, as terras que estes tinham em Torres Novas e emprazaram ao casal, sob condições de tempo, vida e reversão para o convento, alguns dos bens que os alcobacenses tinham em Elvas, entre os quais ‘unum herdamentum quod iacz in termino predicte villa de Elbis in loco qui dicitur Gatuz (ou seja, uma herdade que jaz no termo da precitada vila de Elvas, no lugar que chamam Gatuz. E acrescenta a carta: ‘quod herdamentum fuit Petri Remondj’ (isto é, cuja herdade foi de Pedro Reimonde).

NOTA: Este antigo possuidor será, segundo cremos, o alcaide e sesmeiro de Elvas que em Abril de 1241 testemunhou a doação de um herdamento no lugar de Monte Longo, junto à estrada de Arronches, no termo de Elvas, ao mosteiro de Alcobaça, assim como a respectiva tomada de posse. Dos actos foram lavrados documentos cujos originais se conservam no Arquivo Nacional, em Lisboa.

Fica, assim, provado que ‘Gatuz’ é topónimo português anterior a 1277, isto é, já existia mais de oitenta e seis anos antes de Vasco Esteves fazer testamento. É, pois, sem dúvida, anterior ao seu nascimento». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

continua
Cortesia da AP da Historia/JDACT

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «O sobrenome de Vicente Martins está presente em nossos dias na herdade da ‘Torre do Curvo’, situada a noroeste do Monte do Alvarenga, não longe do local onde a Ribeira de Tira-Calças desemboca na Ribeira Velha»


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Identificação de ‘Gatuz’
«Os Gato criaram nos séculos XIII e XIV laços familiares com os Gonçalves de Sousa, os Martins de S. Colmado, os Soares de Melo, os Pires de Azevedo, os Pais Curvo de Alvarenga, os Pires de Gundar, os Gonçalves de Portocarrero, os Esteves de Tavares, os Pires de Pereira, os Anes de Paiva, […] e outros mais, a quem o sobrenome aponta para um topónimo de origem ou de domínio. Ter-se-á dado algo de semelhante com ‘Gatuz’?
Não conhecemos hoje, é certo, nenhum lugar designado assim em Portugal. Mas, no século XIV e mesmo antes, tal lugar existia, como vamos ver:
  • Em 1363, havia uma grande propriedade no termo de Elvas, , a oeste de Vila Fernando, onde, além de três casas de residência, um pardieiro e um forno, existia uma torre, a ‘torre de Guatus’, com duas tulhas no rés-do-chão e uma divisão por cima, ficando-lhe adjacentes umas outras casas, com forno. Nos limites dessa herdade situava-se a herdade da Defesa de Vila Fernando, cujo nome se conserva, bem como o ‘ribeiro de Guatus’, cujo leito primitivo estava no século XVI já alterado, e a ribeira de Vila Fernando, de que o ribeiro era afluente, além de herdades cujos topónimos ainda hoje subsistem na região entre Vila Fernando e Santo Aleixo, no concelho agora de Monforte, como sejam Curvo, Famagudo, Taboado, Perú e Sancha Ladra, mais a serra de Aires. Ali passavam, ao tempo, as estradas de Elvas para Veiros e de Avis para Santo Aleixo;
  • No mesmo ano de 1363, Maria Anes Louseira, moradora e vizinha de Estremoz e mulher que fora do sobrejuiz Bartolomeu Pires, fez o seu testamento em Évora e nele instituiu uma capela com ónus pio em Santa Maria de Estremoz e outra em S. Francisco de Évora. Entre os bens vinculados às capelas de Maria Anes Louseira contou-se uma propriedade no termo de Elvas que se chamou ‘herdade de Guatuz’. confrontava com a estrada que ia de Elvas para Veiros e com a herdade da ‘Torre de Guatus’, acima referida. No século XVII, essa herdade, que tinha um perímetro de 5720 varas, passou a ser conhecida, também, por herdade do Alvarenga, designação que ainda hoje subsiste no local;
NOTA: A herdade de D. Maria Anes Loureira atingia a ribeira de Tira-Calças, que ainda hoje conserva este nome, subia essa ribeira a partir da foz, confrontando com a herdade da ‘Torre de Guatus’, e virava para ocidente, ia à estrada de Vila Viçosa para Portalegre, confinava depois com a já mencionada herdade de Sancha Ladra, entestava com a herdade da Serra de Aires e, fechando o circuito, partida de novo com a herdade da ‘Torre de Quatus’ e a estrada de Elvas para Veiros. ANTT-Tombo das Capelas da Coroa.
  • Em 1348 (Agosto, 18), Vicente Martins Curvo, homem que fizera uma capela na igreja de S. Salvador em Veiros, confirmou em sua casa, perante o tabelião Janeiro Pires, as disposições testamentárias que o tabelião Afonso Garcia redigira a seu pedido. No testamento manda que o soterrem na referida capela e determina que na mesma sejam ditas missas por sua alma e pelas almas de seu pai e sua mãe. Para garantia desta obrigação, dispôs de vários bens, entre os quais, segundo leitura do século XVII, ‘a quinta de Guatus que foi de Rodrigue’Annes Redondo como parte por a Ribeira de Guatus acima, e como torna por o Ribeiro que uem pera a villa tornado de contra a villa tornado he direitamente a cabeça do Seixo e como se uai ao penedo ferre, e dahi como se uay ao pee da sertãa’. Vicente Martins Curvo dispôs igualmente a favor da capela de um herdamento que ‘ias em Guatus que parte ho reguengo da Ordem do Prior, e parte com os de Aires Affonço em longo he entesta com a molher, e herdeiros de Aires Affonço’.
NOTA: O instituidor terá sido sepultado na igreja de S. Salvador de Veiros. Repousará ali na capela de S. João Baptista, lembrando-o lá duas lápides, uma do século XVII e outra, bem mais antiga, legendada com caracteres góticos. A capela de Vicente Martins Curvo teve tombo feito por Tomé Pinheiro da Veiga em 5 de Abril de 1622 (ANTT -Tombo das Capelas da Coroa). A propósito da ‘quinta de guatus’, vinculada a essa capela, lembremos que o seu antigo possuidor, Rodrigo Anes Redondo foi filho de João Peres Redondo e de D. Mor Peres de Pereira, em segundas núpcias de ambos (Livro Velho de Linhagens, in Port. Mon. Hist., Scriptores, e Livro das Linhagens atribuído ao conde D. Pedro). Rodrigo Anes Redondo casou com D. Mor Fernandes, filha de Fernão Martins de Curutelo e de D. Urraca Domingues de Santarém, referida também como D. Urraca Rodrigues. Teve casa em Santarém, onde seu sogro, Domingos Johanes, ‘villãao rico e poderoso’, casara com D. Urraca Fernandes. Contemporâneo e homem próximo de el’rei Dinis, Rodrigo Anes Redondo testemunhou, por exemplo, a doação de Atouguia, feita pelo rei Dinis à rainha D. Isabel, em 19 de Outubro de 1307 (ANTT-Chancelaria del-rei D. Dinis, Doações; a doação pode ler-se, igualmente, em Alfredo Pimenta, Idade-Média. Problemas e soluções). Quanto a Aires Afonso, parece identificar-se com Aires Afonso de Veiros. Um dos filhos deste, Rodrigo Aires, veio a fazer testamento em Veiros a 11 de Julho da era de 1401 (ano de Cristo de 1363), pelo qual instituiu uma capela no mosteiro de S. Francisco de Évora. Aí terá sido enterrado. Para a manutenção da capela legou bens em Évora, Estremoz, Sousel, Vale de Frades, etc.

O sobrenome de Vicente Martins está presente em nossos dias na herdade da ‘Torre do Curvo’, situada a noroeste do Monte do Alvarenga, não longe do local onde a Ribeira de Tira-Calças desemboca na Ribeira Velha. Para nordeste, situa-se a herdade da ‘Torre de Frade’». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «Não menos importante é o facto de ser este o documento em que pela primeira vez, aos nossos olhos, Vasco Esteves é designado Vasco Esteves de Gatuz. A partir de então e até à segunda metade do século XVII, quando nas chancelarias régias houve que aludir à capela por Vasco Esteves instituída»

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

Morte de Vasco Esteves
«O impetrante, sendo uma das partes por ele beneficiadas, já se encontrava na posse do documento. Conservara-se depositado no mosteiro, como então, por vezes sucedia?

NOTA: É exemplar o caso do testamento do rei D. Dinis, lavrado em 1322. Foram dele feitas três cartas do mesmo teor, uma para a Chancelaria, ao fim de ser dada à rainha D, Isabel quando o rei morresse, outra para o abade de Alcobaça e a terceira para um dos testamenteiros. ‘E tanto que eu morrer, mando que os meus testamenteiros sejam logo entregues dessa carta, que eu mandei guardar ao abbade de Alcobaça, que a tenham com as outras para obrarem por elles, e pera comprirem este meu testamento...', (“Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa”, t. 1, Lisboa Ocidental, Oficina Sylviana da Academia Real, 1739).

Tem maior probabilidade que lho tenha facultado Margarida Vicente. Em última análise, ao ir perante o juiz, o que o guardião franciscano pretendeu foi obter uma pública-forma das disposições testamentárias, ‘porque elle por proll do dicto mosteiro se entendia d'ajudar delle’. A cópia ia, por certo, servir-lhe para garantir, por um lado, os direitos da sua própria casa e, por outro, o cumprimento por parte dos administradores da capela das obrigações nele expressas. Mas, por quê o seu pedido naquela data? Não foi dito. Chama, no entanto, a nossa atenção o facto de também nesse ano (e não no ano seguinte, como se escreveu num registo oficial setecentista) Margaria Vicente mandar lavrar o seu último testamento, anulando anteriores.

NOTA: Diz o registo setecentista: “Margarida Vicente ordemnou capela em S. Francisco [de Estremoz]... no anno de 142”. "Descripsam das Capellas da Coroa, sitas em a Provedoria de Evora, com o Index das mesmas, feito sendo juiz dellas Diogo de Castro de Lemos ... Anno-1789". A data indicada pelo autor da ‘Descripsam...’ está errada, por inconsideração do texto do testamento. Este tem a data de 15 de Abril de 1384 (1422 da era de César).

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Por quê vinte e um anos depois de o marido ter ditado o dele e menos de um mês antes do apontado interesse dos franciscanos por este documento? Falecera Vasco Esteves havia pouco?
Fique no ar a interrogação. Por ora, apenas podemos afirmar, com solidez, que Vasco Esteves era ‘ja pasado’ em meados de Maio de 1384, pois assim o certificou Álvaro Pires, o tabelião ao tempo em Estremoz que passou a pública-forma solicitada pelo convento. O testamento de Margarida Vicente revela, por seu turno, ser ela já viúva em 15 de Abril desse ano.
Se 1363 tem a seu favor alguns argumentos não definitivos, 1384, apesar de alguma nebulosidade, surge, face ao exposto, como data a considerar também provável para a morte do escudeiro. Só o melhor conhecimento do seu trajecto terreno pode vir a esclarecer um dia a data exacta do desenlace.

Vasco Esteves de «Gatuz»
Para além do testamento de Vasco Esteves, não conhecemos qualquer outro documento coevo que iniludivelmente se refira ao escudeiro estremocense. O mais próximo dele, além do testamento de Margarida Vicente, é, com alguma probabilidade, um documento avulso, este original, mas já dos princípios do século XV, precisamente de 1408 (Dezembro, 28), que de forma acidental o cita, tendo interesse para a sua biografia.
É uma carta de encampação feita por Gomes Eanes, tabelião do Condestável na vila de Sousel, antigo reguengo no termo ducentista de Estremoz, pela qual Afonso Rodrigues, aí morador, entrega a Rodrigo Afonso, criado de Fr. Fernão Rodrigues, mestre da Ordem de Avis, e seu procurador, ‘hua coua de teer pam’ que ambas as partes reconheciam ser da referida Ordem. Com base neste documento se deve acrescentar aos bens que haviam pertencido a Vasco Esteves uns «paaços», situados em Sousel, junto dos quais se localizava a cova de pão.
Não menos importante é o facto de ser este o documento em que pela primeira vez, aos nossos olhos, Vasco Esteves é designado Vasco Esteves de Gatuz.

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A partir de então e até à segunda metade do século XVII, quando nas chancelarias régias houve que aludir à capela por Vasco Esteves instituída, o seu nome aparece como Vasco Esteves de Gatuz só. Em meados do século XVIII, Fr. Fernando Roberto de Gouveia ainda assim escreve. Modernamente, a consoante fricativa dental ‘z’ enfraqueceu, deu-se o abrandamento para ‘s’ e a forma do nome que subsiste em nossos dias é, como se pode escutar, Vasco Esteves de Gatus. Em vida, no entanto, o único documento que conhecemos como referente, sem dúvida, a ele, o seu testamento, di-lo, repare-se, apenas Vasco Esteves. No testamento de Margarida Vicente mantém-se esta simples forma de nome. Por quê, alguns anos mais tarde, “de Gatuz”?

Identificação de ‘Gatuz’
Os Gato criaram nos séculos XIII e XIV laços familiares com os Gonçalves de Sousa, os Martins de S. Colmado, os Soares de Melo, os Pires de Azevedo, os Pais Curvo de Alvarenga, os Pires de Gundar, os Gonçalves de Portocarrero, os Esteves de Tavares, os Pires de Pereira, os Anes de Paiva, […] e outros mais, a quem o sobrenome aponta para um topónimo de origem ou de domínio. Ter-se-á dado algo de semelhante com ‘Gatuz’?». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. Mário Nunes Costa. «Fica dito o pouco que sabemos, comprovadamente, de Vasco Esteves em sua vida. Vários têm sido os autores, alguns nossos contemporâneos, que afirmaram ter ele morrido em 1401»

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

Pendor franciscano de Vasco Esteves
«A atracção suscitada nas populações centradas nos lugares em que, de Norte a Sul de Portugal, se fixaram, traduziu-se numa fuga de esmolas e outros réditos aos canais tradicionais e numa perda de influência espiritual para as instituições já existentes, o que gerou conflitos, surdos uns, de jurisdição protestada outros, a acrescentar aos que se iam, entretanto, desenhando entre as ordens militares e as autoridades diocesanas.
Os franciscanos, chegados ao arrabalde da Vila de Estremoz no século XIII, porque largamente contactavam com a população, mendigavam pelas portas ou na praça pública e pregavam algo de novo, no mosteiro ou ao ar livre, mereceram veneração e estima da parte da população local.

NOTA: No testamento do rei D. Afonso III, feito em 1271, há já legados para franciscanos de Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto, Alenquer, Leiria, Guimarães, Bragança, Lamego, Guarda, Covilhã, Portalegre, Évora e Beja e para os pregadores de Lisboa, Santarém, Lisboa, Coimbra, Porto e Elvas, este último de sua fundação (ANTT-Chancelaria de D. Afonso III, livro 3, fl. 3.

Vasco Esteves foi um dos estremocenses que, no século XIV, sentiu atracção por eles. Vários dos seus familiares também. O pendor de Vasco Esteves deixou marcas bem vincadas nas suas disposições testamentárias.
Disse ele:
  • «... mando me soterrar no moesteyro de Sam Francysquo d'Estremoz, com meu yrmão e mando hy com meu corpo a jgreja vymte livras».
Preocupado com a alma, continua:
  • «Item, mando des o dia da mynha sepultura ata trimta dias, que os frades da dicta vylla cantem... hüa mjsa ofyçiada em cada hü dia, e sajam sobre mjm com a cruz e demlhes por cada hüa mjsa qujnze solldos».

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Com os bens de seu primo Manuel Rodrigues, pagara, como testamenteiro, as respectivas dívidas e contribuíra já para o mosteiro. Vendidos que fossem seis quartos de vinhas que ao primo tinham pertencido, mais entendia dever ser dado à casa franciscana. Quanto aos despojos de Manuel Rodrigues e ao bem da sua alma, «dos outros dinheiros que hy recreçerem», manda «que se traga ahy o seu moymento e se ponha no pullpetu e metão em elle ho dicto Manoell Rodrigues com sus jrmãos. E dos dinheiros que hy recreçerem, demnos por suas allmas ao dicto Manoell Rodrjgues e em mjsas camtar. E camtem estas mjsas os frades».
Com os próprios bens, Vasco Esteves vai mais longe no mosteiro estremocense:
  • «... mando, diz, ao mosteiro de Sam Francisquo çem ljuras per a obra ...».
Envolve depois sua mãe:
  • «Item mando que dem a dicta obra sesenta ljuras polla alma de mjnha madre».
Em seguida, pensa de novo em si próprio: Item mando que, se eu for soterrado no dicto mosteiro, que pollos meos bens comprem hü moymento muito homrrado... e metão em elle mym e meu irmão Martym Estevez».
Já na parte final das disposições testamentárias, determina a quem for seu testamenteiro, «poer por mym dous capellaes perpetus que cantem pera sempre por mjnha allma, isto é, determina a criação de uma capela com ónus pio a instituir, ainda que o não diga nesta cláusula, em São Francisco de Estremoz».

Morte de Vasco Esteves
Fica dito o pouco que sabemos, comprovadamente, de Vasco Esteves em sua vida.
Vários têm sido os autores, alguns nossos contemporâneos, que afirmaram ter ele morrido em 1401.

NOTA: Vejamos alguns exemplos: «Vasco Esteves de Gato, instituidor de uma capela em 1401» (CRESPO, José Lourenço Marques - Estremoz e o seu Termo Regional, Estremoz, o Autor, 1950, p. 72); «parece ter falecido cerca de 1401» (SANTOS, Reinaldo dos, A Escultura em Portugal, volume 1, Lisboa, Academia Nacional das Belas Artes, 1948, p. 41); «... o sarcófago de Vasco Esteves Gato, da igreja conventual de S. Francisco de Estremoz (1401)» (ESPANCA, Túlio, in Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora, volume 1, Lisboa Academia Nacional de Belas Artes, 19ó6, p. XXXII). Volta a dizê-lo de 1401 o mesmo Inventário ... Distrito de Évora. Concelhos de Alandroal ..., volume 1, Lisboa, a Academia, 1978, p. 369.

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De entre esses, já houve quem posteriormente corrigisse o ano para 1363 e outros, como nós, cedo se pronunciaram por esta ultima data. Será, contudo a data certa? Há que considerar aqui a hipótese de o não ser.
Se os primeiros autores tivessem lido o testamento de Vasco Esteves, o que tem muito fraca probabilidade de ter acontecido, a sua afirmação derivaria de um erro de Cronologia que Fr. Fernando Roberto de Gouveia, prior da freguesia de Santo André de Estremoz, jé em 1758 esclarecia assim: «Vasco Esteves Gattuz... faleceu no anno de 1401 da hera de Cezar, he o anno de Christo de 1363». Muito mais provável é, contudo, que a afirmação daqueles autores tenha origem na lápide que acompanha o túmulo há mais de dois séculos. Nela se refere o «ano» de 1401 e não a era, como o da instituição da capela.
As opiniões, após a correcção do calendário, têm ultimamente convergido para 1363 como a data da morte de Vasco Esteves. Foi neste ano que ele se preocupou, como vimos, por duas vezes e em curto espaço de tempo, com as suas últimas vontades e, pelo menos da segunda vez, encontrava-se doente e de cama. Mas, não é legítimo inferir a data da morte da data do testamento e da falta simultânea de saúde do testador, ainda que isso sugira uma probabilidade com algum peso.

Até hoje, não foi apresentada, há que reconhecer, prova da sua morte em 1363. Terá sido posterior? Persigamos a hipótese.
Não conhecemos a rota do testamento durante os vinte e um anos que se seguiram à sua redacção. Em 1384, mereceu, como vimos, especial atenção da parte do mosteiro de S. Francisco de Estremoz. O «ler e proujcar» nesta data solicitados ao juiz estremocense corresponderia ao que hoje diríamos a abertura do testamento? É possível.

O impetrante, sendo uma das partes por ele beneficiadas, já se encontrava na posse do documento. Conservara-se depositado no mosteiro, como então, por vezes sucedia? Tem maior probabilidade que lho tenha facultado Margarida Vicente». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Mário A. Nunes Costa. Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. «Já sobre ele haviam passado duas dezenas de anos quando, em 1384 (Maio, 12), Fr. Lourenço, ao tempo guardião do mosteiro de S. Francisco de Estremoz, compareceu perante o escudeiro Gil Simões, juiz na mesma vila, e fez ‘ler e proujcar’ o respectivo texto ‘esprito em purgamjnho e feyto e asjnado per mão de Vicente Bertollameu’»

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

Para uma biografia de Vasco Esteves de Gatuz
«Para assegurar a execução das suas últimas vontades, Vasco Esteves instituiu testamenteira a sua mulher, a quem garantiu a manutenção no caso de lhe sobreviver. Caso esta casasse de novo ou morresse, seriam executores João Eanes, o já citado primo, e João Miguens, um e outro beneficiados no testamento.
A finalizar, previu a despesa de cinco libras por ano para pagamento de jantar aos juízes e procurador do concelho de Estremoz, quando, para fiscalização do cumprimento, tomassem contas de quanto deixava disposto.
O testamento de Vasco Esteves foi feito a 5 de Abril de 1363. «Despois desto oyto dias do sobredito mes d'Abrjll da sobredita era», o tabelião voltou à casa do testado, para lavrar um codicilo. Vasco Esteves, «jazemdo hj doemte em hüa cama», mas «com todo seu sjso e entendjmento comprido», prudentemente corrigiu o teor inicial, ao determinar e explicitar que quem quer que fosse contra as suas últimas vontades, em parte ou no todo, se alguma coisa lhe tivesse sido por ele atribuída, em tal caso nada recebesse. Impunha, assim, com firmeza, as suas decisões e cortava cerce com invejas ou veleidades cobiçosas.
Testamento do escudeiro Vasco Esteves
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Caminhos de um testamento
A vida dos testamentos é muitas vezes efémera. A vida do testamento de Vasco Esteves não foi tão efémera como à primeira vista se poderá supor. A maior parte das suas disposições eram, é certo, de execução imediata. Mas continha outras que o fizeram chamar à colação durante séculos, para orientar ou esclarecer actos administrativos e dirimir questões judiciais.
Já sobre ele haviam passado duas dezenas de anos quando, em 1384 (Maio, 12), Fr. Lourenço, ao tempo guardião do mosteiro de S. Francisco de Estremoz, compareceu perante o escudeiro Gil Simões, juiz na mesma vila, e fez «ler e proujcar» o respectivo texto «esprito em purgamjnho e feyto e asjnado per mão de Vicente Bertollameu». Nesse dia, o mosteiro recebeu uma pública forma do documento, escrita por Álvaro Pires, ao tempo tabelião local.

NOTA: Este Fr. Lourenço é o guardião de S. Francisco de que nos fala Fernão Lopes na Crónica de D. João I, cap. XLIII: «Como o castello de Portalegre e o d’Estremoz forom tomados». Serviu de intermediário entre o povo da vila e o alcaide do seu castelo, João Mendes de Vasconcelos, e, com outros, conseguiu a concordância do alcaide em entregar a alcaidaria de Estremoz aos partidários do Mestre de Avis. Margarida Vicente teve Fr. Lourenço em elevada estima. Ao exprimir as suas últimas vontades, declara-o seu conselheiro, nomeia-o vedor do seu testamento e lega-lhe vinte libras para um hábito.

Setenta anos após, em 1454 (Agosto, 17), houve novo interesse pelo testamento. Compareceram no mosteiro de Estremoz o juiz ordinário da vila, de seu nome Fernão de Oliveira, escudeiro, e Fernando Álvares das Medães, também escudeiro e nela morador. Era então guardião Fr. Rodrigo. O escudeiro Fernando Álvares requereu ao juiz, em nome do cavaleiro Rui Dias Cabral, então administrador de capela instituída por Vasco Esteves, que Fr. Rodrigo lhe desse um traslado do testamento, ao que o guardião logo acedeu, desde que fosse na íntegra.
João Afonso de Bragança, ao tempo tabelião del-rei em Estremoz, escreveu o traslado e apôs o seu sinal.


Mosteiro de S. Francisco. Estremoz
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Noventa anos volvidos, em pleno século XVI (1544, Agosto, 27), «amtras portas das pousadas do licenciado Mateus Teyxeira, corregedor e prouedor com allcada nesta Comarqua», compareceu o padre Fr. Francisco, vigário do mosteiro agora dos padres seráficos da Regular Observância da Província dos Algarves em Estremoz. Talvez por o pergaminho de 1384 se haver extraviado, foi o vigário que pediu «ho trellado do testamento de Vasco Esteves de Gatuz, defunto cujas capellas se camtam no dyto mosteiro». Por mandado do corregedor, foi-lhe dada uma pública forma com o teor extraído do Tombo das Capellas da Comarca, feita por Gaspar Dias, escrivão da Provedoria da Comarca da vila de Estremoz.

É esta pública forma, escrita em papel, a que contém o texto avulso mais antigo que conhecemos do testamento de Vasco Esteves. Como e quando passou da posse do mosteiro para o Real Archivo da Torre do Tombo, não sabemos. O certo é que em 1776 já a1i estava. E no Arquivo Nacional português se conserva.

Pendor franciscano de Vasco Esteves
O impacto da entrada em Portugal das ordens mendicantes no século XIII foi grande, a avaliar pelas várias casas, cerca de duas dezenas em meio século, que franciscanos e dominicanos logo fundaram, e pelas oposições que tiveram de enfrentar, da parte do clero secular e das ordens militares já instaladas». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mário A. Nunes Costa. Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. «Como Vasco Esteves não teve filhos, parte dos sobrinhos gravitou à sua volta. Em casa, nem só Gil Nunes foi criado. Também o foi Rodrigo, ao tempo solteiro e que o tio admitiu quisesse estudar»

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

Para uma biografia de Vasco Esteves de Gatuz
Em busca de certos Vasco Esteves
A família
«Em 1363 estava casado com Margarida Vicente e do casal não havia descendência. Da família conhecemos, através do testamento, vários outros membros. Vasco Esteves foi irmão de Martim Esteves, falecido antes de 1363 em Estremoz e aqui sepultado no mosteiro de S. Francisco. Martim Esteves tivera, pelo menos, duas filhas: Leonor Martins e outra cujo nome se ignora. Ambas estavam vivas então, sendo a última morado a na vila, próxima, de Borba.
De Vasco Esteves é conhecido na mesma data um terceiro sobrinho, de nome Gil Nunes, que por ele foi criado, e também outro, de nome Rodrigo.
Entre os primos de Vasco Esteves contam-se João Eanes, que em 1363 morava no Ribatejo, Afonso Rodrigues e seu irmão Nuno, vivos na mesma data, além de Manuel Rodrigues, já falecido. Este último teve vários irmãos, que admitimos serem, além dos dois Rodrigues antes apontados, também um Lopo Rodrigues, que foi casado com Leonor Eanes, irmã do João Eanes morador no Ribatejo. Lopo Rodrigues e Leonor Eanes tiveram a Rodrigo e a Diogo, ambos vivos à data do testamento de Vasco Esteves.
Foi ainda parente um tal Gonçalo Lourenço, seu contemporâneo e, provavelmente, morador no termo de Estremoz, mas desconhece-se o parentesco que os unia.

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

De seus pais, Vasco Esteves, com surpresa nossa, não referiu os nomes, ainda que os relembre com amor. Pela parte de Margarida Vicente, sua mulher, os parentes que esta identifica cerca de duas décadas mais tarde são uma prima, Mafalda Vicente, mãe de Diogo Nunes e de Gil Nunes, um sobrinho, Rodrigo, talvez o acima já citado, e um filho deste, de nome Álvaro. Margarida Vicente referiu ainda como irmão dela a Brásio Anes, na década de oitenta casado e com filhos, e, na mesma data, as filhas de outro irmão dela, Gonçalo Anes.

Como Vasco Esteves não teve filhos, parte dos sobrinhos gravitou à sua volta. Em casa, nem só Gil Nunes foi criado. Também o foi Rodrigo, ao tempo solteiro e que o tio admitiu quisesse estudar.

Inserção social
O itinerário social de Vasco Esteves é muito pouco conhecido. Já houve quem o dissesse cavaleiro. A afirmação, contudo, não tem real fundamento, para além da iconografia tumular tradicional no século, que lhe empolou o estatuto social. À data do seu testamento era escudeiro, situação que manteve até final da vida.
Sabe-se, no entanto, que foi homem de razoáveis bens materiais, designadamente em numerário e em bens imóveis, e que se inseria na sociedade estremocense bem relacionado, quer com pessoas da sua condição, quer com mesteirais, funcionários locais e membros do clero regular e secular radicados na povoação.
Como muitos dos seus contemporâneos, gostava de caça de montaria e da de altanaria, não faltando entre os seus bens um apreciado falcão.

Disposições testamentárias
Corria o ano do nascimento de Cristo de 1363 quando Vasco Esteves, por temer o fim da sua vida, chamou a casa, em Estremoz, a Vicente Bartolomeu, tabelião del-rei na vila, e lhe declarou «com todo… syso e emtemdymento comprido» as disposições que tinha como suas últimas vontades.

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

O testamento revela-nos um português da sua época, antes de mais temente a Deus e com o pensamento posto no dia do Juizo Final. Depois, porque os bens lho permitiam, deseja que lhe soterrem o corpo em instituto religioso e cuida da alma sua e das de seus pais e seu irmão Martim. Dispõe de verbas para que todos os clérigos da vila, sejam ou não de missa, lhe «facão homra» após a morte e sejam ditas missas cantadas por sua alma durante os oito e os trinta dias seguintes ao da sepultura.
Ao homem temente a Deus, preocupado com o destino do seu corpo e a encomendação da sua alma, alia-se em Vasco Esteves um coração generoso.

Dota com esmolas as igrejas de Santa Maria de Estremoz e Santa Maria da Alcáçova de Elvas, bem como o mosteiro de S. Francisco de Estremoz. E resolve distribuir boa parte dos seus restantes bens materiais, beneficiando sobrinhos, primos, dependentes e amigos. Favorece, também, quem o havia acompanhado ou servido. Não esquece os desprotegidos da sorte, os pobres, sobretudo os pobres envergonhados, aos quais manda entregar, aos oito e aos trinta dias após a morte, víveres e peças de valencina, «os panos coseytos». Não esquece ainda os peregrinos, nem as virgens casadoiras de boa linhagem e boa fama.
Em resumo, poderá dizer-se que, na segunda metade do século XIV, precisamente em 1363, a fortuna de Vasco Esteves permitia-lhe dispor de mais de mil libras para esmolas e legados, estes à volta de duas dezenas e de valores compreendidos entre dez e duzentas libras, que o testamento especifica um a um. E permitia-lhe distrair de seus bens, igualmente, metade de certas vinhas, olivais e casas que tinha em Elvas, umas casas de morada, provavelmente em Estremoz ou Sousel, e um chão a par da Albergaria de S. Brás». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mário A. Nunes Costa. Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. «Não que tenhamos localizado qualquer documento do século XIV que refira um Vasco Esteves de Gatuz ou um Esteves da Gata. Mas localizamos, já em 1951, o esquecido testamento do nosso Vasco Esteves. É documento que revela preciosos dados para a biografia do testador. »

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

Para uma biografia de Vasco Esteves de Gatuz
Em busca de certos Vasco Esteves
«Dizê-lo foreiro del-rei em Vila Viçosa em 1375, seria insustentável, por ausência de prova, e duvidoso, pela cronologia. Identificar o cavaleiro Vasco Esteves de Molles com Vasco Esteves de Gatuz não teria, como veremos adiante, qualquer base de sustentação.

Vasco Esteves e a família Gato
Para conhecer o percurso terreno de Vasco Esteves de Gatuz há uma outra via, a qual importa explorar desde já, ainda que sem abandonar a primeira. Dado que o seu túmulo ostenta, a toda a altura da face lateral esquerda da arca, dois brasões, iguais entre si, onde se têm identificado as armas tradicionalmente ditas da família Gato, terá havido alguma ligação real ou sentimental do tumulado a esta família?
Comecemos pelas palavras. O Dr. José Pedro Machado já registou a mais recuada grafia de «Gatus» no ano de 922 da nossa era. Quanto ao apelido «Gato», o mesmo filólogo registou-o em 1258. Como tantos outros, este apelido terá começado por ser alcunha. Foi nos fins do século XII ou em princípios do século XIII que nasceu aquele que deu origem à família a respeito da qual o genealogista Manuel de Sousa da Silva escreveu mais tarde:

De Gestaço honra antiga
Do concelho de Bayão
Naturaes os Gatos são
…………………….

Segundo uma vulgarizada afirmação contida no «Livro de Linhagens» correntemente atribuído ao conde D. Pedro, que velhos e novos genealogistas seguem, a família Gato descenderá da família Velho. Pero Nunes Velho, filho de D. Nuno Soares Velho e de D. Mor Pires Perna, terá casado com D. Maria Anes, de quem teve três filhos e uma filha. Um dos filhos, D. Afonso Pires Gato, foi o que deu origem à nova família. Em Janeiro de 1234 estava já, pudemos dizê-lo com segurança, casado com D. Urraca Fernandes. Esta era filha de D. Urraca Nunes, casou em segundas núpcias com Fernão Pelegrim.
D. Afonso Pires teve desta senhora dois filhos e, segundo o comum dos genealogistas, três filhas. Registe-se que Afonso Pires Gato teve de Maria Gonçalves, mulher de Fernão Álvares um filho a furto. Há, no entanto, que acrescentar uma quarta filha do casal, D. Mor, como a avó, ou D. Maior Afonso, monja de Arouca a quem a Ordem de Avis deu em préstamo, no, ano de 1273, casais em Teomonde, terra de Cambra, e Lordelo. Tais filhos formam a geração de apelido Afonso Gato. Três da filhas, Teresa, Constança e Guiomar, vão, por seus casamentos, integrar-se nas famílias Melo, Azevedo e Alvarenga, respectivamente.

Cortesia da academiaportuguesadahistoria

NOTAS:
D. Teresa Afonso Gata foi casada com D. Mem Soares de Melo. É, de 1286 (Set., 14) uma sua doação de quinta em Vila Verde, no termo de Paiva, a outra filha, Sancha Mendes, com a condição de, por morte, a deixar ao mosteiro de Arouca. No ano seguinte, 1287 (Maio, l2), D. Teresa Afonso de Melo doa à abadessa e ao convento de Arouca parte de uma quinta também em Vila Verde, no julgado de Paiva.
D. Constança Afonso ou Constança Afonso Gata casou com D. Soeiro Pais de Azevedo ou Soeiro Pires de Azevedo. Em Outubro de 1244 já estavam casados, segundo o Censual do Cabido da Sé do Porto. O Livro Antigo de Linhagens atribui-lhes um filho, Paio Soares, e seis filhas, mas destas cita apenas cinco: uma monja no mosteiro de Mier (Santa Ovaia das Donas), outra que casou com D. João Martins da Cunha, Maria Soares, monja de Arouca, Teresa Soares e D. Maria Peres. O Livro Velho de Linhagens refere Paio Soares, Sancha Soares e João Soares e o Livro das Linhagens atribuído ao conde D. Pedro dá como filhos de D. Soeiro e D. Constança apenas a Paio Soares de Azevedo e D. Maria Soares. A filha que casou com D. João Martins da Cunha é identificada como D. Sancha Soares ou como D. Maria Soares de Azevedo. Quer este casal, quer o constituído por Paio Soares de Azevedo e Teresa Gomes, filha de Gomes Correia, tiveram geração.
D. Maria Peres foi casada, com Rodrigo Pais de Valadares, de quem teve filhas. D. Guiomar Afonso Gata casou com Pero Pais Curvo. Foram seus filhos: Martim Peres de Alvarenga e D. Estevainha Peres. Martim foi casado com D. Inês Pais, filha de Paio Rodrigues de Valadares; e D. Estevainha com Mem Rodrigues Rebotim. De ambos os casais houve geração. D. Estevainha foi também casada com Martim Gomes, de quem não teve descendência.

Quanto aos varões, Lopo Afonso Gato e Fernando Afonso Gato, vão dar origem à geração seguinte, a dos Lopes Gato e dos Fernandes Gato, de que temos notícias pontuais, mas seguras, desde 1262 e até 1337, com notória longevidade para D. Inês Gata, também monja de Arouca. A sequência destes Gato perde-se, contudo, na linha masculina, em pleno século XIV, por ausência de geração ou por omissão de descendência nos livros de linhagem. Tal como no caso quatrocentista de Gaspar Gato, pai de Nuno Gato, que foi contador de Safim em tempo de D. Manuel I, a ligação entre o nosso Vasco Esteves trecentista, Vasco Esteves de Gatus ou Esteves da Gata e os apontados descendentes de D. Afonso Pires Gato, dos quais indubitavelmente foi contemporâneo, é ainda hoje insustentável.

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Pelo Decreto nº 8228, de 4 de Julho de 1922, que classificou vários imóveis como monumentos nacionais, o túmulo de Vasco Esteves passou a ter, oficialmente, a designação de túmulo de «Esteves da Gata». O decreto não alude a intervenção do Conselho de Arte e Arqueologia da 1ª Circunscrição, como ao tempo era regra em idênticas circunstâncias. A redacção do, então, Ministério da Instrução Pública foi infeliz. A disposição legal altera o sobrenome multissecular de Vasco Esteves e dá à expressão uma forma de aparência coloquial para exprimir uma ascendência materna. Sabia-se, então, quem fora a mãe de Vasco Esteves? Temos fortes dúvidas quanto ao conhecimento dessa particularidade histórica. Quem foi a «Gata?» A designação vintista, com a omissão, irreflectida e sem fundamento, do nome próprio do tumulado, mais a torna suspeita. O escudeiro Vasco Esteves de Estremoz pode ter sido um membro da família Gato por linha materna, um filho legítimo ou ilegítimo, mesmo um filho espúrio. Qualquer destas duas últimas hipóteses era susceptível de levar à omissão, em vida, do nome dos pais, salvo se obtida, entretanto, legitimação.
Nas genealogias até à data traçadas para a família Gato não é citado qualquer Vasco Esteves. Fora das genealogias tradicionais, é, não obstante, possível encontrar outros Gato em Portugal nos séculos XIII e XIV. Serão uns o fruto da adopção acidental de alcunha como sobrenome, poderão outros ser descendentes de D. Afonso Pires, por lapso ou desconhecimento não registados.

A via genealógica de investigação apresenta-se, pois, bloqueada. A exploração da documentação escrita, com relevo para a documentação avulsa coeva, assume, assim, um interesse especial no presente caso.
Não que tenhamos localizado qualquer documento do século XIV que refira um Vasco Esteves de Gatuz ou um Esteves da Gata. Mas localizamos, já em 1951, o esquecido testamento do nosso Vasco Esteves. Voltarei a ele. É documento que revela preciosos dados para a biografia do testador.

Vasco Esteves, o de Estremoz
O Homem
Vasco Esteves, aquele de quem aqui nos ocupamos, foi, segundo afirmou um tabelião local, morador e vizinho da então vila de Estremoz, povoação alentejana a quem el-rei D. Afonso III dera foral cerca de um século antes, 1258 (24)». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.

NOTAS:
Lopo Afonso Gato foi casado com D. Sancha Pires de Gundar, filha de D. Pedro Lourenço de Gundar. Estavam em 1270 já casados. O Livro Antigo de Linhagens cita Lopo Gato, mas não D. Sancha. Os filhos de ambos: Afonso Lopes, Diogo Lopes, Fernão Lopes, Lopo Mendes, Martim Lopes, Guiomar Lopes e «outra que casou com o Petite e matou-a». Esta última filha parece ser D. Urraca Lopes. Fernando Afonso Gato estava casado em 1270 com D. Urraca Gonçalves de Portocarrero, filha de Gonçalo Viegas, o Alfeirão. Como seu irmão Lopo Afonso Gato, teve bens em Vila Verde de Paiva e, como o irmão, fez deles escambo, na referida data, com D. Maior Afonso. Foram seus filhos Rui Fernandes Gato e D. Sancha Fernandes Gata. Rui Fernandes Gato foi casado com D. Guiomar Martins, filha de Martim Afonso de Cambra. Foram pais de D. Maria Rodrigues.
D. Sancha Fernandes Gata foi casada com João Esteves de Tavares, o orvalhuz. Tiveram três filhos. Quanto a Álvaro Fernandes Gato, nada apuramos a seu respeito, o mesmo sucedendo com D. Urraca, salvo, por obsequiosa referência do Prof.José Mattoso. De notar que em 1304 não entrou nas partilhas por morte de Fernando Afonso Gato.

Cortesia da AP da Historia/JDACT

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Mário A. Nunes Costa. Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz. «Quando procuramos investigar o que foi a sua vida, apercebemo-nos, em breve, de que em Portugal foram muitos os indivíduos que no referido século tiveram o nome de Vasco Esteves, o que dificulta em extremo a tarefa»

Cortesia da academiaportuguesadahistoria
 
Para uma biografia de Vasco Esteves de Gatuz
Em busca de certos Vasco Esteves
«O homem que ficou, por longo tempo, conhecido como Vasco Esteves de Gatuz faleceu, segundo alguns autores, logo no início do século XV. Segundo outros, terá morrido no terceiro quartel do século antecedente. Apesar desta divergência, há, sem dúvida, acordo em que a sua vida decorreu, fundamentalmente, durante o século XIV, o que através deste nosso trabalho se verá confirmado.
Para biografar Vasco Esteves de Gatuz temos, à partida, um nome estranho. Vasco e o patronímico Esteves são vulgares na antroponímia medieval portuguesa. Quanto ao sobrenome alatinado «Gatuz», é extremamente rarro, se não único, na época.
 
Quando procuramos investigar o que foi a sua vida, apercebemo-nos, em breve, de que em Portugal foram muitos os indivíduos que no referido século tiveram o nome de Vasco Esteves, o que dificulta em extremo a tarefa. De boa parte deles, a memória ainda subsiste em documentos escritos, como sejam, os registos das chancelarias régias, as crónicas medievais e os documentos avulsos coevos.
Nos livros de registo das chancelarias de D. Afonso IV, D. Pedro I e D. Fernando encontramos alguns a beneficiar de disposições várias. Com D. Afonso IV (1325-1357), é um vizinho de Muje, em 1328. Se passarmos a D. Pedro I, em cujo reinado (1357-1367) o nosso Vasco Esteves sem dúvida viveu, verificamos que nos registos reformados da respectiva Chancelaria se referem vários, a saber:
  • um nomeado alcaide do castelo de Évora (1357-06-06);
  • um clérigo apresentado à igreja de S. João de Monsarás (1363);
  • um Vasco Esteves de Ferreira (1357);
  • outro dito de Serpa (1361).

Armas dos Gatachos
Cortesia da academiaportuguesadahistoria
 
A Chancelaria de D. Pedro revela ainda que, em tempo del-rei D. Dinis (1279-1325), a aldeia de Liofrei, povoação depois chamada Lufreu, na honra de Farinha Podre, julgado de Penacova, terá pertencido a um Vasco Esteves e à sua linhagem.
Do reinado de D. Fernando (1367-1383), a Chancelaria regista, pelo menos, dois Vasco Esteves apresentados a igrejas do Bispado do Porto e, além desses, um a quem o rei afora «hua meia acenha» em termo de Vila Viçosa, «na ribeira de Pardiellas», em 1375, outro que estava casado, em 1378, com Domingas Gonçalves e recebia, por aforamento, um olival no lugar da Rapada, em termo de Santarém e, e ainda outro que, em 1380, era alcaide pequeno de Loulé.
Quanto aos Vasco Esteves do reinado de D. João I (1385-1433), desnecessário é falarmos aqui, já que a cronologia os exclui, por tardios, da identificação procurada.
 
Outros contemporâneos e de igual nome se juntariam, muito provavelmente, aos já mencionados, se dispuséssemos ainda de todos os livros primitivos das chancelarias régias do século XIV. Infelizmente, mais de meia centena destes livros já não existe, por precipitada decisão e falta de sensibilidade histórica. Não obstante, temos memória, como se disse, de mais Vasco Esteves do século XIV através de outras fontes. É o caso, por exemplo, das crónicas medievais. Ilustremos a asserção com citações de Fernão Lopes.
 
Armas de Vasco Gatuz, no túmulo na Igreja de S. Francisco.
 Estremoz
Cortesia da academiaportuguesadahistoria
 
O muito louvado cronista, ao escrever a Crónica de D. Pedro I, não cita qualquer Vasco Esteves. Mas, na sua «Chronica do Senhor Rei. D. Fernando Nono Rei de Portugal, refere um que, em 1369, traiu os homens de Çadavi e, um pouco mais tarde, «foi enforcado em uma ameia do muro» respectivo. O cronista igualmente cita Vasco Esteves de Molles, um dos «cavaleiros» que, após o levantamento do cerco a Guimarães por Henrique de Castela e a retirada deste para os seus domínios, acompanharam Gonçalo Mendes de Vasconcelos, quando o rei de Portugal D. Fernando o mandou partir para Elvas, como fronteiro desta praça.
 
O estabelecimento, fundamentado, de uma identidade entre algum dos Vasco Esteves acima citados e Vasco Esteves de Estremoz mostra-se impossível, Na verdade, este não foi, como veremos, vizinho de Muje ou da região, não foi clérigo, nem designado por de Ferreira ou de Serpa. Não consta que tenha estado envolvido nas lutas entre Portugal e Castela e, pela cronologia e pelo património posterior, é difícil admitir que lhe tenha pertencido a aldeia de Liofrei. Além do exposto, em 1378 não estava casado com Domingas Gonçalves, no termo de Santarém, como teremos ocasião de provar.
Se disséssemos, por exemplo, que ele foi alcaide-mor de Évora em 1357, isso seria, pelo menos, prematuro, dado que a súmula da Chancelaria, de tão sucinta, não permite uma conclusão a tal respeito». In Mário Alberto Nunes Costa, Vasco Esteves de Gatuz e o seu Túmulo Trecentista em Estremoz, Academia Portuguesa da Historia, 1993, ISBN 972-624-094-8.
 
NOTA:
Vasco Esteves, aquele a quem o rei D. Pedro I entregou em 1357 o castelo de Évora, teve-o durante menos de dois anos. Em 1359, Janeiro, 2, o rei, por carta que estava, como a de Vasco Esteves, por extenso em livro da Chancelaria Régia, mas que hoje conhecemos apenas em súmula, mandou entregar o castelo a João Fernandes Cogominho, também seu vassalo (ANTT-Chancelaria de D. Pedro I, livro 1, fl. 40v). João Fernandes Cogominho foi cavaleiro (ANTT -Chancelaria de D. Pedro I, livro 1, fl.4). E o seu antecessor? Cavaleiro também ou escudeiro, como Fernando Álvares o era, ao receber em 1359 (Outubro, 4) o castelo de Elvas? (ANTT -Chancelaria de D. Pedro I, livro 1, fl. 39v). A súmula do registo relativo a Vasco Esteves é omissa a tal respeito, mas será de interesse sabê-lo.
 
Cortesia da AP da Historia/JDACT

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cidade de Estremoz: O FIAPE 2010 (28 de Abril a 2 de Maio)

«Entre 28 de Abril e 2 de Maio, o Parque de Feiras e Exposições recebe a XXIV edição da FIAPE, em paralelo com a realização da XXVIII edição da Feira de Artesanato de Estremoz. Ambos os certames constituem um dos principais eventos de promoção económica do Concelho de Estremoz e do Alentejo, tendo vindo, ao longo dos anos, a conquistar o seu espaço no calendário regional e nacional das feiras de actividades económicas.Este lugar de referência foi atingido tanto pela qualidade, como pela quantidade das exposições presentes e ainda pela excelência da diversificada oferta em termos de animação cultural e espectáculos. Com efeito, os milhares de visitantes que habitualmente nos honram com a sua presença, já sabem que aqui encontrarão uma série de produtos de qualidade, que correspondem àquilo que de melhor se produz na nossa região». In Câmara Municipal.
Lago do Gadanha
Cortesia CMEstremoz
 Estremoz é uma cidade portuguesa no Distrito de Évora, região Alentejo, subregião Alentejo Central, sendo um município subdividido em 13 freguesias. O município é limitado a norte pelos municípios de Sousel e Fronteira, a nordeste por Monforte, a sueste por Borba, a sul pelo Redondo e a oeste por Évora e por Arraiolos.
Estremoz é uma cidade conhecida internacionalmente pelas suas jazidas de mármore branco. A exploração do mármore de Estremoz tem uma origem muito antiga, como comprova o Templo romano de Évora, que contém mármore originário de Estremoz. Está também presente no altar-mor da Catedral de Évora.

Em 1336, a Rainha Santa Isabel, então com 65 anos, deslocou-se a Estremoz desde o convento franciscano em Coimbra, onde se tinha recolhido após a morte de D. Dinis, seu marido, de modo a evitar uma guerra entre o seu filho Afonso IV e o rei de Castela Afonso XI. Afonso IV declarou guerra a Afonso XI pelos maus tratos que este infligia à sua esposa D. Maria (filha do rei português). A Rainha Santa Isabel colocou-se entre os dois exércitos desavindos, e de novo evitou a guerra tal como tinha acontecido em 1323 na batalha de Alvalade, entre as tropas de D. Dinis e as de D. Afonso IV. Estremoz foi o local de falecimento do rei D. Pedro I, em 1367, no convento dos franciscanos.

Na crise de 1383-1385, foi uma das cidades conquistadas no Alentejo por João Mestre de Aviz e Nuno Álvares Pereira, logo a seguir ao início das hostilidades desta crise dado com o assassíno do Conde de Andeiro em Lisboa. Foi nas proximidades de Estremoz que se deu a primeira batalha entre as duas facções da crise, a batalha dos Atoleiros. Em 1659, foi em Estremoz que o exército português se reuniu às ordens de D. António Luís de Meneses, conde de Cantanhede, para socorrer Elvas, que se encontrava cercada por um exército espanhol, comandado por D. Luís de Haro. De ali partiram para derrotar os espanhóis na Batalha das Linhas de Elvas, tendo causado enormes baixas aos seus adversários.
Convento das Maltezas
O Centro Ciência Viva de Estremoz está instalado no antigo Convento das Maltezas e constitui-se num espaço de cariz museológico, integrante da rede de Centros Ciência Viva. Este espaço privilegia a interactividade entre os visitantes e a exposição permanente, a qual é dedicada ao planeta Terra e à sua evolução geológica. O projecto é uma parceria entre a Câmara Municipal de Estremoz, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a Universidade de Évora, a Direcção Regional de Educação do Alentejo e o Ciência Viva / Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica.
Quem coordena as actividades quotidianas do Centro é o Laboratório de Investigação de Rochas Industriais e Ornamentais, uma unidade de investigação da Universidade de Évora, com sede no Pólo de Estremoz.
Inaugurado em Maio de 2005, o Centro está integrado na Rede de Museus do Concelho de Estremoz desde 2006, sendo um membro fundador da mesma.
Porta de Évora

Porta de S. António

Porta de Santa Catarina

Porta de Santarém

Porta dos Currais
«Não existem dados concretos acerca das origens do castelo de Estremoz. É de crer que a fortificação só tenha começado a ser erguida na viragem dinástica que impôs D. Afonso III no poder, o que lhe confere um estatuto de fortaleza-símbolo do novo quadro político saído da primeira guerra civil do jovem reino de Portugal. No tempo de D. Dinis, já o castelo deveria estar definido, sendo o projecto um dos mais importantes da altura, a ponto de a cerca ser defendida por 22 torres e a população intra-muros poder ser abastecida por cerca de 20 cisternas. A importância de Estremoz na primeira metade do século XIV é inquestionável, datando desse período um importante conjunto patrimonial que tem o castelo como denominador comum, mas que se estende a outras obras, como o Paço da Audiência ou secções consideráveis do paço real, hoje transformado em pousada. Na posse da rainha Santa Isabel, que aqui faleceu em 1336, Estremoz transformou-se num dos principais centros políticos do reino, acolhendo figuras importantes e sendo palco privilegiado da política régia durante todo o final da primeira dinastia. O castelo segue uma planta genericamente pentagonal, adaptada ao maciço rochoso em que se implanta. A secção principal localiza-se do lado Sul, onde avulta a imponente torre de menagem. De planta quadrangular, tem cerca de 27 metros de altura e deve ter sido concluída pela década de 70 do século XIV, quando D. Fernando procedeu às derradeiras obras no conjunto. Interiormente, organiza-se em três andares: o primeiro, escassamente iluminado, terá servido de prisão; o segundo corresponderá a uma sala de audiência real, onde se encontra o brasão nacional: é uma sala de planta octogonal, coberta por abóbada polinervada estrelada, assente sobre capitéis de decoração vegetalista plenamente naturalistas; o terceiro possui balcões de matacães que desempenham uma função exclusivamente militar. Finalmente, o terraço é protegido por ameias (a quase totalidade incorporada na torre aquando do restauro de 1940). Conhece-se um mestre que trabalhou neste projecto e que assinou, mesmo, uma chave de abóbada: ANTON, certamente o mesmo que consta dos Paços da Audiência de D. Dinis, estrutura arquitectónica anexa ao castelo, aberta por galilé de cinco tramos, cuja galeria foi inicialmente coberta por tecto de madeira, entretanto substituído pela actual abóbada de cruzaria de ogivas no reinado de D. Manuel I. Ao centro, um portal apontado, sobrepujado por moldura escultórica com as insígnias do rei D. Afonso IV (monarca que terá terminado o conjunto) permite o ingresso no salão de audiências, espaço de planta trapezoidal coberto por abóbada octogonal manuelina.
Do conjunto fortificado medieval faz ainda parte a cerca de tendência poligonal que terá sido iniciada em tempo do rei D. Afonso III. Esta era aberta por duas portas principais (a do Sol, também designada por Frandina, e a de Santarém, mais tarde conhecida como Porta de Santa Ana) que rasgavam o recinto fortificado de nascente a poente. Para além disso, existiam outros postigos e portas secundárias que permitiam uma constante mobilidade entre o interior e o exterior das muralhas. De todas elas, a que melhor se conserva é o Arco de Santarém, vão ogival protegido por alta torre quadrada e acompanhada por legenda epigráfica que testemunha o início da edificação, no reinado de D. Afonso III. Apesar desta aparente permeabilidade, o conjunto apresenta um notável sistema defensivo, enriquecido nos séculos finais da Idade Média com novos dispositivos e uma poderosa cisterna junto à actual capela da Rainha Santa. Nos séculos seguintes, a relevância de Estremoz no quadro militar do país acentuou-se, o que determinou o total amuralhamento da cidade durante as grandes obras de meados do século XVII, comandadas por João Pascásio Cosmander». In IPPAR
Alcáçova, Castelo

Porta da Frandina
http://www.cm-estremoz.pt/
Cortesia da CMEstremoz/JDACT