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sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Quando era miúda, costumava acreditar que esta luz era uma ponte que permitia atravessar do mundo dos vivos para o dos mortos»

jdact

Alexandria. Egipto. 1799
«(…) A luz mudou. Jac sabia que eram as nuvens a deslocar-se, mas a impressão que criara era a de que o anjo respirava. Seria tão bonito acreditar que um anjo de pedra podia ganhar vida. Que havia heróis que nunca desiludiam. Que a mãe falava de facto com ela da tumba. Ah, mas falo mesmo, veio a resposta sussurrada ao pensamento mudo de Jac. Sabes que sim. Sei o quanto achas perigoso acreditar em mim, mas fala comigo, querida. Faz-te bem. Jac pôs-se de pé e começou a desembrulhar as flores que levara. Nunca falava com o espectro. A mãe não estava ali. Aquela manifestação era provocada por uma anomalia no seu cérebro. Vira a ressonância magnética na secretária do pai e lera a carta do médico. Jac tinha na altura catorze anos, mas mesmo agora precisaria de ver o significado de algumas palavras no dicionário. O exame revelara o que os médicos apelidavam de uma ligeira redução de volume na substância branca no lobo frontal, à zona onde por vezes se encontravam vestígios de doença psicótica. E isso provava que não era a sua imaginação hiperactiva que a fazia sentir que estava a ficar louca, mas um distúrbio que os médicos podiam observar.
Contudo, não era algo que pudessem tratar. O prognóstico a longo prazo era incerto. A doença podia nunca vir a tornar-se mais pronunciada. Ou então podia desenvolver tendências bipolares. O médico recomendou terapia imediata em conjunto com um ciclo de psicofármacos para aliviar os sintomas. Jac arrancou o invólucro de celofane e amachucou-o, fazendo-o crepitar ruidosamente, mas não o suficiente para abafar a voz da mãe. Sei que isto é perturbador para ti, querida, e lamento muito. Assim que compôs os ramos na urna, sob a janela de vitral na parede virada a oeste, estes começaram a perfumar o ar. Jac habitualmente preferia aromas mais secos e lenhosos. Especiarias fortes e almíscar. Musgo e pimenta com um leve vestígio de rosa. Porém, aquela flor de perfume doce era a preferida da mãe, por isso trazia-a ano após ano e permitia que ela a recordasse de tudo aquilo de que sentia falta.
O céu escureceu e um súbito aguaceiro martelou o vidro. Agachando-se frente à urna, Jac sentou-se sobre os calcanhares e escutou as gotas apedrejarem com força o telhado e as janelas. Habitualmente, ficava ansiosa por passar à tarefa seguinte. Por mudar de cenário. Nunca tinha vontade de se deter. Faria qualquer coisa para evitar o tédio que convidava a um excesso de contemplação do género que não apreciava. Porém, ali, naquele jazigo, uma vez por ano, Jac sentia uma espécie de alívio doentio em ceder ao medo, ao pesar e à desilusão. Ali, naquele abismo, sob a triste luz azulada, podia ficar quieta e importar-se em demasia, ao invés de nem um pouco. Podia permitir-se abandonar-se às visões. Ser assustada por elas, mas não as combater. Apenas uma vez por ano. Apenas ali dentro.
Quando era miúda, costumava acreditar que esta luz era uma ponte que permitia atravessar do mundo dos vivos para o dos mortos. Jac quase conseguia sentir a mãe afagar-lhe o cabelo enquanto lhe falava naquele suave sussurro que costumava usar quando a ia deitar. Fechou os olhos. O som da tempestade preencheu o silêncio até Audrey voltar a falar. É o que ela é para nós, não é, querida? Uma ponte? Jac não falou. Não podia. Ficou à espera das palavras seguintes da mãe, mas, em vez disso, ouviu a chuva e depois o ranger das dobradiças, ao mesmo tempo que a pesada porta de ferro forjado e vidro se abria. Virando-se, foi atingida por uma rabanada de vento frio que entrava. Jac viu a silhueta de um homem e, por um momento, não percebeu se era real ou não.

Nanjing, China. 10 de Maio. 21h 05
O jovem monge baixou a cabeça por um instante, como que em oração, e acendeu um fósforo. A sua quietude e a calma que deixava transparecer eram quase beatíficas, um momento de profunda paz interior. A sua expressão mal se alterou, mesmo quando aproximou o fósforo aceso das roupas cerimoniais, ensopadas em querosene. Chamas, da mesma cor da sua túnica cor de açafrão, engoliram-no. Xie Ping desviou a sua atenção do website e olhou para os olhos de Cali Fong, sem surpresa por vê-los marejados de lágrimas. É um escândalo, murmurou ela com o lábio inferior a tremer». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Ainda que Ícaro tivesse ignorado o conselho do pai, este estava presente para lho dar»

jdact

Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Talvez tenha existido um inventário dos perfumes que a fábrica de Cleópatra criou, mas nós não o temos. E isso da Fragrância da Memória é coisa que não existe. Não pode haver um perfume que nos faça recordar coisas. Tudo não passa de uma lenda que os nossos antepassados fabricaram para que a Maison L'Étoile adquirisse uma aura mais exótica. Ao longo de mais de duzentos anos, a nossa família tem criado, produzido e vendido perfumes. Apenas perfumes, Robbie. Misturas de óleos e álcool. Não sonhos. Não fantasias. Esses não passam de invenções, Robbie, destinadas a entreter-nos e a cativar-nos. A mãe ensinara-lhe tudo acerca de histórias. Sobre as que se inventam de propósito. E sobre as que nos atingem, sem apelo nem agravo. Mesmo quando são assustadoras e nos têm sob o seu poder, podemos controlá-las, dizia Audrey com um olhar conhecedor. Jac compreendia. A mãe estava a dar-lhe pistas. A ajudá-la a lidar com aquilo que as tornava diferentes dos outros. Apesar dos conselhos da mãe, o faz-de-conta quase conduzira Jac à loucura. Por piores que as suas visões tivessem sido quando Audrey era viva, intensificaram-se com a morte desta. E não houvera forma de Jac se conseguir convencer de que não eram reais. Ao fim de meses de consultas a médicos, que prescreviam tratamentos e medicamentos que não só não ajudavam como por vezes a faziam sentir-se ainda mais insana, houve um que olhou para dentro dela e a compreendeu. Ensinou-a a destilar os terrores da mesma forma que os perfumistas pegavam em flores e daí extraíam as suas essências. Depois trabalhou com ela no sentido de decifrar aquelas sanguinárias e estridentes alucinações. Ensinou-a a encontrar o simbolismo nos seus devaneios e a usar arquétipos mitológicos e espirituais para os interpretar. Os símbolos, explicou ele, não têm de relacionar-se com a vida real da pessoa. Frequentemente, fazem parte do inconsciente colectivo. Os arquétipos são uma linguagem universal. Constituíam as pistas de que Jac necessitava para decifrar o seu tormento.
Numas das alucinações mais terríveis e recorrentes, Jac encontrava-se encurralada num quarto em chamas, num arranha-céus no meio de uma cidade apocalítica. Uma das paredes estava coberta de janelas. Desesperadamente, ao mesmo tempo que o fumo ameaçava sufocá-la, tentou encontrar uma forma de abrir os caixilhos. Se conseguisse sair para o parapeito, sabia que podia usar as asas translúcidas presas às suas costas para voar rumo a um lugar seguro. Algures, fora do quarto, ouvia vozes de pessoas, muito embora tal fosse impossível por cima do rugido do fogo. Gritava por ajuda, mas ninguém vinha em seu auxílio. Iria morrer. Com a ajuda do médico, Jac sondou o seu inconsciente e conseguiu identificar vestígios do mito de Dédalo e Ícaro. Uma importante diferença, que se revelou a pista para o entendimento do significado do sonho, foi que, no seu pesadelo, Jac estava sozinha. Tanto o pai como a mãe a haviam abandonado. Ainda que Ícaro tivesse ignorado o conselho do pai, este estava presente para lho dar. No entanto, Jac não tinha ninguém que a avisasse que não deveria voar demasiado perto do sol ou em direcção ao mar. Estava sozinha. Aprisionada. Condenada. Fadada a morrer queimada.
Aprender sobre os arquétipos e a imagética simbólica fora o primeiro passo num longo caminho que a conduzira à escrita de Caçadores de Mitos e, depois, à produção do programa televisivo. Ao invés de se tornar perfumista como o irmão e o pai, sem esquecer o avô, Jac tornara-se uma exploradora, procurando a origem dos antigos mitos. Deu vida às fabulosas narrativas para as tornar mais realistas. Viajando para Atenas, Roma e Alexandria, procurou marcos arqueológicos e registos históricos, buscando provas da existência das personagens e acontecimentos que se haviam tornado mitos. Jac queria ajudar as pessoas a compreender que as histórias existiam como metáforas, lições e mapas, mas não como verdades. A magia pode ser perigosa. A realidade concede poder. Não existiam Minotauros nem monstros. Tal como não existiam unicórnios, ou fantasmas. Existia uma linha que separava o facto da fantasia. E, enquanto adulta, nunca desviava os olhos dela. Excepto quando ia ali, todos os anos, a 10 de Maio, no aniversário da morte da mãe». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «És descendente de uma família de sonhadores, mas há uma diferença entre a realidade e o faz-de-conta. Compreendes?»

jdact

Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Não é real, recordou Jac a si própria enquanto avançava para o interior, fechando a porta atrás dela. O fantasma da mãe era uma aberração. Um produto da sua imaginação. Um resíduo da sua doença. A derradeira relíquia daqueles terríveis tempos em que o rosto que Jac via ao espelho não era o seu, mas o de alguém irreconhecível a olhá-la. Tempos em que tivera tanta certeza de que os desenhos a lápis que fazia não eram paisagens imaginárias, mas locais onde vivera, que fora à procura deles. Em que conseguia escutar os gritos das pessoas que via serem enterradas vivas..., queimadas vivas..., muito embora mais ninguém conseguisse. Jac tinha catorze anos quando a falecida mãe falou com ela. Escutou-a com frequência nas horas que se seguiram à sua morte, depois todos os dias, e por fim mais espaçadamente. Porém, depois de Jac ter abandonado a França e se ter mudado para a América, só escutava a voz dela uma vez por ano. Ali no sepulcro, em cada aniversário da morte da mãe. Uma mãe que, basicamente, abandonara a filha demasiado cedo e com dramatismo. Audrey morrera na oficina de perfumes, rodeada pelas mais deslumbrantes fragrâncias do mundo. Para Jac, que a encontrou, aquela permaneceria uma arrepiante e chocante memória olfativa. Os aromas a rosas e lírios, a lavanda, almíscar e patchuli, a baunilha, violeta e verbena, a sândalo e salva, e a imagem daqueles olhos abertos e sem vida, a olharem fixamente para o vazio. A imagem de um rosto sempre animado, tornado rígido. De uma mão estendida no colo, como se, no último momento, Audrey se tivesse lembrado de que estava a esquecer algo importante e tivesse esticado o braço para o agarrar. Segurando ainda as flores de macieira que trouxera, Jac atravessou o jazigo e pousou-as numa mesa de mármore ao lado da urna. Tinha uma tarefa para cumprir ali. Ao erguer os ramos secos do ano anterior, estes desintegraram-se, sujando tudo em redor. Agachando-se, usou o rebordo da mão para varrer os detritos e os juntar num monte. Podia ter contratado alguém que se ocupasse daquele ritual, mas assim, durante as suas visitas anuais, sempre se mantinha ocupada e presa a qualquer coisa de tangível e concreto. Não era filha única, mas todos os anos se encontrava sozinha na cripta. Lembrava sempre o irmão da data, esperando, mas nunca contando, que Robbie viesse. As expectativas só conduziam a desilusões. A mãe ensinara-lhe isso, avisando-a de que não tombasse presa das tentadoras promessas da vida. Os sobreviventes, costumava ela dizer, enfrentam os factos. Fora um ensinamento duro, e possivelmente pernicioso, para infligir a uma criança que não tinha idade suficiente para considerar de onde esse conselho provinha: de uma mulher incapaz de seguir o seu próprio conselho. És descendente de uma família de sonhadores, mas há uma diferença entre a realidade e o faz-de-conta. Compreendes? Isto ser-te-á útil. Prometo.
Porém, havia uma diferença entre os sonhos de infância de Jac e os das restantes pessoas. Os dela estavam recheados de barulhos assustadores e de terríveis visões. De ameaças às quais era impossível escapar. Os de Robbie eram fantásticos. Acreditava que um dia encontrariam o livro de fragrâncias que o antepassado deles trouxera do Egipto e usariam as suas fórmulas para criarem maravilhosos elixires. Sempre que falavam sobre isso, Jac sorria para ele daquela forma condescendente, típica das irmãs mais velhas, e dizia: a mãe disse-me que isso não passava de uma invenção. Não, o papá disse que é verdade, argumentava Robbie e corria à biblioteca em busca do antigo livro de história encadernado a couro, que, como que por hábito, já se abria na página certa. Robbie apontava então para a gravura de Plínio, o Velho, o autor e filósofo romano. Ele viu as fórmulas no livro dos perfumes de Cleópatra. Escreve sobre isso aqui mesmo. Jac detestava desiludir o irmão, mas era importante que ele compreendesse que tudo não passava de uma história exagerada. Se conseguisse convencê-lo, então, talvez conseguisse acreditar nisso também». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

domingo, 16 de outubro de 2016

Representações da Saúde e da Doença em Eça de Queiros Ana Luísa Queirós. «Os primeiros preferiam o real circunstancial, reproduzem costumes; aos segundos só interessava a alma humana universal»

jdact e wikipedia

«Partindo da ideia de que a representação da saúde e da doença são traços semânticos relevantes na ficção realista queirosiana, tentaremos aqui compreender por que modos a ficção de Eça acomoda e subverte a mitologia cientista, que faz da patologia a chave do destino do corpo pessoal e social. Apoiando-nos em autores como Cabanès, Dottin-Orsini, Borie, P. Brooks e Vilela, abordaremos nesta comunicação, analisando a sua representação na ficção queirosiana, aspectos como as alusões às ciências médicas; a apologia da saúde e da virilidade; a sequência doença/ morte, associada à culpa e à transgressão; as ligações entre corpo, saúde e erotismo; a mulher e a misoginia positivista». In Resumo

«Considera-se geralmente que a descrição não idealizada do corpo humano, da sua patologia e da sua fisiologia, do pormenor físico ou da perturbação psíquica, constitui uma conquista da literatura do século XIX e, em particular, das estéticas realistas. A promoção romanesca do corpo, a corporização e a sexualização das personagens, integra a instalação, na segunda metade do século XIX, da temática física no romance, e a consequente criação de uma poética romanesca do corpo. Segundo Peter Brooks, o realismo corresponde a duas tendências simétricas e complementares: a da semiotização do corpo e a da somatização da narrativa. Esta nova importância (dir-se-ia quase obsessiva) concedida à carnalização da personagem aparece associada a uma visão determinista e materialista da individualidade; e irá interagir com a própria modelização romanesca, implicando-lhe uma generalizada renovação e refiguração. Na verdade, o romance realista constitui, em muitos sentidos, uma totalidade orgânica, sistemática e coerente.
Na ficção de Eça de Queirós, quase sempre os protagonistas se caracterizam como detentores de doença ou de saúde (às vezes apenas mental). De facto, a saúde e a doença são traços relevantes na personagem queirosiana. Desde Prosas Bárbaras, os dois termos constituem referências axiais do autor, usadas no campo estético-literário. Em carta a Carlos Mayer, datada de 1867, Eça de Queirós divide os dois antigos bandos dos seus companheiros de Coimbra segundo a sua pertença aos campos da saúde ou da doença: havia nesse tempo, por um lado, os clássicos, os saudáveis; e havia, por outro, os românticos, os doentes. Os primeiros preferiam o real circunstancial, reproduzem costumes; aos segundos só interessava a alma humana universal. Eça declara-se em absoluto um romântico (tal como Ega reconhece a Carlos, n’Os Maias, em 1888) e exclama, então: qual vale mais, esta doença magnífica, ou a saúde vulgar e inútil que se goza no clima tépido que vai desde Racine até Scribe? Refere, nessa altura, que tivera uma cruz e versículos da Bíblia no seu quarto de estudante. Mas que tal decoração fora retirada pois, estando Eça constipado, um amigo defendera que o misticismo proibia o sol, o calor, os bens tépidos, a dilatação da molécula venturosa, a flanela, os melaços e que o ateísmo era para mim uma necessidade higiénica. Foi talvez isso mesmo que o realismo representou para Eça: uma necessidade higiénica, um sistema organizador, uma estrutura coerente, uma terapêutica reequilibrante e compensatória…
Em 1871, o realismo significaria então para Eça de Queirós a apologia da razão e da luz, o fascínio pela ciência e pela sua potencialidade reveladora. E não escapa à inevitável isotopia da visão: na sua conferência no Casino Lisbonense, Eça associa o realismo aos termos olhos, guia, roteiro, pintar, etc., que complementam as metáforas médicas. Assim, o escritor compartilharia com o anatomista e o fisiologista (como no romance fisiológico ou experimental de Zola), um olhar crítico, exterior, científico, que pesquisa e que sistematiza, no corpo, uma rede de indícios, sinais e sintomas. Ao seu conhecimento da intimidade corporal, frequentemente plasmado numa visão excremencial do corpo, alia-se no escritor realista a sua actividade de denúncia dos recalcamentos (censuras, inibições), sempre de um modo ou de outro manifestados na superfície do corpo. Na verdade, pressupõe-se o determinismo psicossomático, a ancoragem fatalmente física da personalidade e a analogia entre o corpo e a mente. E pressupõe-se, igualmente, uma inevitável apassivação do sujeito, presa das suas paixões e dos seus atavismos. A patologia e o seu diagnóstico, extensíveis ao corpo social, é figura central nas narrativas realistas e naturalistas». Ana Luísa Queirós, Representações da Saúde e da Doença em Eça de Queirós, Universidade de Évora, Ler Letras, Universidade do Porto, Faculdade do Porto, 2015, ISBN: 978-989-8648-46-4.

Cortesia de LerLetras/JDACT

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Livro dos Perfumes Perdidos. MJ Rose. «Ao contrário das idosas companheiras, a Imortalidade era jovem, mas a serpente em torno da sua cabeça, a morder a cauda, estava mosqueada de manchas verdes e pretas de deterioração»

jdact

Alexandria. Egipto. 1799
«(…) Por duas vezes. Desde criança que coleccionava fitas e tinha caixas e caixas delas: de cetim, de gorgorão, de veludo, de catassol e jacquard, a maior parte descoberta em cestos cheios de galões em lojas de antiguidades. Havia seis metros e meio daquela fita de cetim creme numa bobina manchada de água e marcada Memorial Black. O condutor avançou pela estrada central do cemitério, até chegar a uma bifurcação, e aí virou à direita. De olho no familiar ornamento de granito com a forma de um orbe, Jac atou e desatou o comprido lenço branco ao mesmo tempo que o condutor percorria, vereda atrás de vereda, um infindável labirinto de lápides, mausoléus e monumentos. Ao longo dos últimos 160 anos, toda a família da sua mãe fora sepultada naquele cemitério vitoriano empoleirado numa cumeada sobranceira ao rio Pocantico. O facto de ter tantos familiares a dormir o sono eterno naquele luxuriante cemitério histórico fazia-a sentir-se estranhamente em casa. Desconfortável e pouco à vontade, mas em casa, naquela terra dos mortos. O condutor parou junto a uma pequena mata de falsas acácias, estacionou e deu a volta ao carro para abrir a porta a Jac. A sua determinação debatia-se com a ansiedade. Vacilou apenas por uns segundos e saiu.
Sob a sombra das árvores, Jac subiu os degraus do mausoléu ornamentado em estilo grego e tentou enfiar a chave na fechadura. Não se recordava de ter tido problemas antes, mas no ano anterior não se lembrava de ter visto aquele rio de ferrugem a emergir do buraco da mesma. Talvez o escatel estivesse corroído. Ao mesmo tempo que agitava o palhetão e empurrava, reparou que os espaços entre os blocos de pedra à sua direita estavam cheios de musgo. No lintel, três cabeças de bronze tinham já sido corroídas pelos elementos. Os rostos, a Vida, a Morte e a Imortalidade, observavam-na com sobranceria. Olhou para cada um deles enquanto sacudia a chave na fechadura. A corrosão que atacara a Morte suavizara-lhe ironicamente a expressão, em especial em redor dos olhos fechados. O dedo que a imagem segurava frente aos lábios, silenciando-os para sempre, esboroava-se de ferrugem. O mesmo acontecia com a sua coroa de papoilas, o símbolo do sono na Grécia Antiga.
Ao contrário das idosas companheiras, a Imortalidade era jovem, mas a serpente em torno da sua cabeça, a morder a cauda, estava mosqueada de manchas verdes e pretas de deterioração. Nada apropriado para um vetusto ícone de eternidade. Apenas o símbolo a alma humana, a borboleta no meio da testa da Imortalidade, permanecia intacto. A luta de Jac com a chave continuou. Começava quase a ficar desmoralizada, perante a ideia de que a entrada não lhe seria permitida, quando a tranqueta se soltou e a fechadura cedeu finalmente. Ao empurrar a porta, as dobradiças gemeram como um idoso. De imediato, o cheiro gredoso a pedra e ar bafiento, misturado com folhas decompostas e madeira seca, veio ao encontro dela. Jac chamava-lhe o cheiro dos esquecidos. Deteve-se na soleira e espreitou para o interior. A luz matutina que penetrava pelas duas janelas de vitral decoradas com lírios roxos saturava o espaço interior com uma espécie de melancólica cor de cobalto, aguada. Derramando-se também por sobre o anjo de pedra prostrado no altar. O seu rosto estava escondido, mas a dor era perceptível pela forma como os seus delicados dedos de mármore pendiam sobre o pedestal e pelo modo como as asas estavam penduradas, as pontas roçando pelo chão.
Sob cada uma das janelas, urnas de alabastro continham as oferendas que Jac trouxera no ano anterior: ramos de flores de macieira, entretanto secos e murchos. No centro do pequeno recinto, num banco de granito, estava sentada uma mulher, à espera, observando Jac, esboçando um sorriso familiar e triste. A luz azul atravessava a forma da mulher e espalhava-se pelas pernas de Jac. Receava que não viesses. A voz suave parecia advir do ar em redor do espectro translúcido, de dentro dele». In M. J. Rose, O Livro dos Perfumes Perdidos, tradução de Eugénia Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-039-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

sábado, 2 de abril de 2016

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Para além da Vita Theotonii, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos, que se atribuem aos séculos XV e XVI…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a data em que São Teotónio morreu. O lapsus calami do dia da semana. Sobre a data de canonização
«(…) A presença do arcebispo de Braga nas cerimónias fúnebres realizadas em Coimbra leva-nos a admitir que possa ter aproveitado a mesma deslocação para Miguel Salomão lhe prestar obediência como seu metropolita. A referência à presença do bispo de Viseu, Odório (1147-1166) parece resolver a dúvida deixada no ar por J. da Encarnação quanto ao ano da canonização, que seria assim o de 1163 (Nicolau Santa Maria, 1668, refere o assento no livro de óbitos do Mosteiro de Santa Cruz que o bispo Odório faleceu a 7 de Dezembro de 1166), pois que em 1167 já seria bispo Gonçalo (1166?-1169). Registe-se ainda a confusão relativamente ao nome do bispo do Porto, sendo de admitir que a fonte se referia apenas a Pedro, e que Nicolau Santa Maria tenha deduzido erroneamente o apelido, pois não poderia ser Pedro Rabaldes (1138-1145) mas sim Pedro Senior (1154-1174). Em consonância com esta interpretação, Timóteo dos Mártires, outro cronista dos Cónegos de Santo Agostinho, refere apenas Pedro ao falar da presença do bispo do Porto na canonização, acrescentando, todavia, mais alguns pormenores. Trata-se da indicação da presença na canonização de outras individualidades para além das referidas. São elas, o bispo de Orense, Pedro Seguino (1157-1169), o prior-mor do Mosteiro de São Vicente, Godinho e o mestre-escola da Sé de Lisboa, Álvaro, também eles discípulos e companheiros no habito do mesmo padre Santo Theotonio. Sublinhe-se a participação do prior do Mosteiro de São Vicente de Fora, evidenciando a sua ligação a Santa Cruz, a reter para o estudo da influência da Vita Theotonii nos documentos do Mosteiro de São Vicente quanto à idade de Afonso I. A nova Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, difundiu-se rapidamente, e após a conquista de Lisboa, em 1147, logo se pensou na fundação de S. Vicente de Fora. A presença de cónegos de Santa Cruz no Mosteiro de São Vicente foi muito significativa no final do século XII. O primeiro prior foi Godinho Afonso, que saiu para bispo de Lamego no ano de 1173. Outro cónego, Payo, foi prior castreiro, saindo depois para segundo bispo de Évora em 1180. Foi também prior castreiro Nicolau Annes Taveira, nomeado, posteriormente, bispo de Viseu pelo rei Sancho I, em 1193. Relativamente à data de canonização, aceitamos, pois, a data de 1163, embora as informações nas quais se baseia esta data se conheçam apenas por via indirecta.

A data de produção do manuscrito da Vita Theotonii
Procurando fazer o historial da datação atribuída ao manuscrito, o Prof. José Geraldes Freire, apesar de nos dar conta que dona Joaquim da Encarnação pensava ser um original autêntico e que Alexandre Herculano o considera também ao que parece, autógrafo, admitiu tratar-se de uma cópia dos finais do séc. XV, com base na data de 1476. Não parece contudo ter razão, pois, de acordo com o Catálogo dos Códices da Livraria de Mão do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a mesma encadernação (século XVI-XVII) contém manuscritos de diferentes épocas, o que o terá induzido em erro. Para além da Vita Theotonii, atribuída aos séculos XII-XIII, inclui a Regra de Santo Agostinho e as Lendas dos Mártires de Marrocos, que se atribuem aos séculos XV e XVI, sendo que é no último que figura a data de 1476. José Antunes considera que o texto original da Vita Theotonii deve ter sido escrito depois de 1175, possivelmente por Domingos Salomão [(as duas hipóteses não são compatíveis, dado que Domingos Salomão faleceu a 12 de Julho de 1169. Sabemos pela Vita Tellonis (A. Nascimento, 1998) que Domingos e, mais tarde, o seu irmão Pedro Salomão obtiveram em São Rufo de Avinhão cópias dos textos necessários à vida da canónica. Pela forma impessoal como o autor da Vita Theotonii  se refere ao envio de emissários a Avinhão, não nos permite supor que seja um deles]. A data de 1175 justifica-a atendendo a que no texto se refere que os monges de Santa Cruz foram chamados para orientar o Mosteiro de S. Vicente de Fora, o que considera só se ter verificado depois do seu sexto prior, isto é, por volta dessa data. No entanto, o estudo da informação do texto da Vita Theotonii de que o presbítero Honório foi enviado a Lisboa com dinheiro para a construção da igreja de São Vicente, permite inferir que os contactos se iniciaram numa data anterior aquela, pois, as obras teriam começado no ano de 1148 (como se deduz, pois, do que ficou dito, o mosteiro de S. Vicente de Lisboa foi fundado pelo rei Afonso e construído no ano de 1148 da encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito pelos séculos), tendo como superintendente o referido cónego, que faleceu neste mosteiro em 1161». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

sábado, 2 de janeiro de 2016

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… este texto aponta o nascimento de Afonso Henriques em 1111, ou até em 1110, admitindo que ainda não tinha completado 15 anos quando se armou cavaleiro, a 17 de Maio. Contudo, se tomarmos o nascimento em 1106, como nos é referido na Vita Theotonii…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Annales D. Alfonsi Portugalensius regis
«(…) Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, constituem uma verdadeira apologia do primeiro rei de Portugal e aproximam-se já do género cronístico; exprimem bem a estreita vinculação entre Santa Cruz e o seu régio fundador: foram provavelmente redigidos imediatamente depois da morte de Afonso Henriques, e a seguir à destruidora invasão almóada de 1184, que ameaçou seriamente a cidade de Santarém; representam, como outros textos historiográficos redigidos em Santa Cruz pela mesma época, uma fonte imbuída do espírito de cruzada, que até então se exprimia raramente em textos e documentos portugueses, apesar da guerra santa. A nossa atenção recai sobre as duas primeiras notícias dos Anais. A primeira é a que descreve a investidura de Afonso Henriques como cavaleiro. Tomando o seu texto vertido para português: 
  • Era de 1163 [1125]. O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso, tendo cerca de 14 anos de idade, estando na Sé de Zamora, no dia santo de Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. 
Este texto aponta o nascimento de Afonso Henriques em 1111, ou até em 1110, admitindo que ainda não tinha completado 15 anos quando se armou cavaleiro, a 17 de Maio. Contudo, se tomarmos o nascimento em 1106, como nos é referido na Vita Theotonii, tem de se corrigir a data da investidura para 1120. Desde esta data até 1127, Afonso Henriques outorgou ou subscreveu, a quase totalidade dos diplomas da sua mãe. Que eu saiba, nunca ninguém relacionou estes factos. Neste contexto, dir-se-ia que a cerimónia correspondia a uma iniciativa de sua mãe para assegurar os direitos do jovem Afonso à sucessão, e não em oposição a ela, como uma data mais tardia poderia insinuar. A segunda notícia dos Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, refere-se à descrição da batalha de São Mamede: 
  • Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Hispânia, D. Afonso, com o auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforço e persistência, mais do que à vontade ou ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o conde D. Henrique, quando ele era ainda criança de dois ou três anos, certos [indivíduos] indignos e estrangeiros pretendiam [tomar conta] do reino de Portugal; sua mãe, a rainha D. Teresa, favorecia-os, porque queria, também, por soberba, reinar em vez de seu marido, e afastar o filho do governo do reino. Não querendo de modo algum suportar uma ofensa tão vergonhosa, pois era já então de maior idade e de bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que preferiam, de longe, ser governados por ele, do que por sua mãe ou por [pessoas] indignas e estrangeiras. Acometeu-os numa batalha no campo de S. Mamede, que é perto do castelo de Guimarães e, tendo-os vencido e esmagado, fugiram diante deles e prendeu-os. [Foi então que] se apoderou do principado e da monarquia do reino de Portugal. 
Em consonância com outras fontes, este texto coloca também a batalha de São Mamede como o primeiro episódio da história portuguesa: o começo do reino independente de Portugal. Sobre a idade de Afonso Henriques, deixa-nos apenas uma referência pouco objectiva de que ia nos dois ou três anos quando o pai morreu, mas coerente com a imprecisão subjacente aos cerca de 14 anos de idade da notícia precedente que, lembramos, foi escrita pela mesma mão. Sendo assim, não me parece que esta notícia traga algum esclarecimento adicional sobre o ano de nascimento de Afonso Henriques, reflectindo antes a dificuldade do autor relativamente ao ano e mês em que morreu o conde Henrique. Merece a pena referir que Alexandre Herculano tomou a primeira notícia da investidura como cavaleiro em 1125, com catorze anos feitos, conciliando-a com a segunda notícia de que tinha dois para três anos quando o pai morreu. Como Herculano admitiu a morte do conde Henrique em 1114, apontou o nascimento em 1111 (De acordo com o fac-simile do cartaz das Festas Gualterianas de Guimarães, realizadas em 1911, apresentado por B. Fonte (2009), foi com a data proposta por Herculano que se comemoraram os 800 anos do nascimento em 1911). Mas, como se veio a considerar que o conde Henrique já se encontrava falecido dois anos antes, em 22 de Maio de 1112, creio que foi isso que levou também a deduzir dois anos à data de nascimento proposta por Herculano, fixando-a actualmente em 1109. Contudo, o ano que melhor concilia as duas notícias é o de 1110, o mesmo proposto no De expugnatione Scallabis, escrito pela mesma altura. Não é impossível que a tradição do nascimento do nosso primeiro rei em 1109 resulte do mesmo equívoco que levou a atribuir a morte de S. Teotónio a uma sexta-feira». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «Os “Anais” são uma relação de factos, segundo a ordem dos anos em que os mesmos ocorrem. Os mais antigos “Anais portugueses” existem em duas versões: ‘a longa’, representada pela segunda parte do Livro de Noa de Santa Cruz; e ‘a breve’, pela primeira parte do mesmo Livro de Noa, procedente de Alcobaça»

Cortesia de wikipedia

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
«(…) Assinalando fortes pontos de contacto entre a De expugnatione Scallabis e a Vita Theotonii, Lindley Cintra atribuiu-lhes uma autoria comum. Segue a sua argumentação: O estilo vivo, variado, muito pessoal do discípulo do primeiro abade do Mosteiro de Coimbra, que escreveu a sua vida por fins do séc. XII, inícios do séc. XIII, permite a hipótese de também se lhe dever o De expugnatione. Nos dois textos se manifesta a mesma admiração incondicional pelo Rei. E a hipótese é principalmente reforçada: 1.º, pelo facto de, num como noutro texto, se aludir, em termos perfeitamente concordes, à revelação dos objectivos da expedição, feita pelo Rei a S. Teotónio, e às orações com que este e os seus monges acompanharam a arriscada empresa; 2.º, por, na boca do Santo, na sua biografia, na do Rei, no relato da conquista, surgirem precisamente as mesmas citações da Biblia: Domine, Domine… omnipotens qui muros iherico sine gladio et arco subrui fecisti qui etiam ad precem iosue contra gabon solem stare precepisti; Testor deum celi, oculis cuius nuda et aperta saunt omnia, quia nec muros iericho subrutos, nec solis stationem prece iosue ad gabaon in comparationem huius in me pietatis et misericordie facti pro miraculis duco. Não é de crer que estas coincidências sejam puramente ocasionais.
Opinião diferente tem Aires Nascimento, não só porque considera o texto do De expugnatione Scallabis anterior à Vita Theothonii, mas também porque interpreta as semelhanças por dependência e acentua as diferenças. Invocando os preparativos de Afonso Henriques para a tomada de Santarém, salienta que no De expugnatione Scallabis (narrado, como vimos, pelo rei na primeira pessoa), se fazem com uma ampla envolvência dos cónegos de Santa Cruz, a quem dei conhecimento da nossa empresa e em quem tenho confiança, como também por parte de outro clero juntamente com todo o povo, enquanto o envolvimento pressuposto na Vita Theotonii se fica no sigilo de Teotónio. Por outro lado, salienta a profusão de palavras árabes no De expugnatione Scallabis e o seu aparecimento ocasional na Vita Theotonii. Embora considerando, como fizemos, o texto do De expugnatione Scallabis posterior à Vita Theotonii, continuam válidas as diferenças apontadas por Aires Nascimento e, portanto, a não se considera provável uma autoria comum dos dois textos. Só assim se compreende que a anomalia mais acima acentuada de, no segundo destes textos, se situar a morte de S. Teotónio numa sexta-feira, seja a possível origem do equívoco, implícito no primeiro texto, acerca do ano da morte, atribuída a 1166. Subtraindo os 56 anos de idade do rei ao ano assim obtido, fixou-se o seu nascimento em 1110 e portanto, que ia nos 37 anos de idade quando tomou Santarém. Escrito num período crítico da história de Portugal, entre a invasão sarracena de 1184 e a morte do fundador, podemos admitir que o texto do De expugnatione Scallabis desempenhou um papel extremamente importante na transmissão de uma forte ideologia de combate. Estava lançada, em terreno fértil, a semente da nova tradição do nascimento de Afonso Henriques em 1110.

As fontes analísticas
Os Anais são uma relação de factos, segundo a ordem dos anos em que os mesmos ocorrem. Os mais antigos Anais portugueses existem em duas versões: a longa, representada pela segunda parte do Livro de Noa de Santa Cruz e pela chamada Chronica Gothorum; e a breve, pela primeira parte do mesmo Livro de Noa e por uma cópia contida na Summa chronicarum procedente de Alcobaça. A versão longa foi continuada na recensão da Chronica Gothorum por notícias até ao ano de 1122, e depois por outra série sobre Afonso Henriques (até 1184); foram publicadas separadamente, a primeira, sob o nome de Annales Portugalenses veteres, por Pierre David, em 1947, e a segunda, sob o nome de Annales D. Alfonsi Portugallensium regis, por Monica Blöcker-Walter, em 1966. Quanto à recensão breve, publicada por Pierre David, foi também continuada até 1168, existindo igualmente em duas versões: uma na primeira parte do Livro de Noa e outra nos Annales lamecenses (da Sé de Lamego). A recensão breve, tal como foi reconstituída por P. David, não contém qualquer referência à data de nascimento de Afonso Henriques. Na primeira série da versão longa, existem duas referências que o mesmo autor considera que podem ter sido uma interpolação posterior aos Anais (são as que se encontram na PMH, Chronica Gothorum, uma directa, refere o nascimento de Afonso Henriques em 1113; Era MCLI. Natus fuit Infans Alfonsus Comitis Henrici et Regine D. Tarasie filius Regis D. Alfonsi nepos e outra, indirecta, sobre a morte do conde Henrique em 1114; Era MCLII. Cal. Maii obiit Comes D. Henricus; Posteriormente, R. Azevedo dá grande plausibilidade à conjectura de J. Ribeiro (1810), de que no arquétipo da notícia da morte do conde Henrique estivesse Era MCL. II Cal. Maii, o que coloca a morte no dia 30 de Abril de 1112, harmonizando-se perfeitamente com os últimos documentos em que comparece o conde de Portugal e os primeiros que revelam o seu desaparecimento). In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «O primeiro filho do casal régio foi um menino chamado Henrique, que teria morrido cedo, pois este é o único registo do primogénito do rei Afonso Henriques»

Cortesia de wikipedia

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
«(…) José Mattoso reforça a ideia de que se trata de um escrito único em toda a historiografia portuguesa, por não existir nenhuma outra narrativa de uma acção militar feita pelo rei na primeira pessoa. Mas, como refere, o que permanece por explicar é a atribuição da autoria ao próprio rei e o uso da narrativa na primeira pessoa. O seu autor seria da Sé de Coimbra, segundo Aires Nascimento, ou de Santa Cruz, segundo Lindley Cintra. Esta distinção é, para mim, pouco relevante se atendermos à profunda influência exercida pela comunidade crúzia no restante clero, na segunda metade do século XII, para onde saiu um número significativo de bispos e priores.
Na descrição dos factos, a determinação do tempo faz-se de forma explícita, com pormenores que fornecem quase a nossa desejada certidão civil do rei: Foi ela [Santarém] tomada a quinze de Março, ao raiar de um sábado, na era de 1185 (a. D. 1147), ano esse em que os Mouros, a quem se dá o nome de Mozamida, deram entrada em Espanha e destruíram a cidade de Sevilha, e em que eu tinha quase completado 37 anos de idade e 19 de reinado, ainda não era passado um ano inteiro sobre o meu casamento com Mafalda, filha do conde Amadeu, de quem haveria de nascer o meu filho primogénito, Henrique, a 5 do mesmo mês em que a cidade foi tomada segundo esta sequência de acontecimentos. Obtemos assim, desta forma espantosa, na pessoa do próprio visado, a informação que nasceu em 1110, depois de 15 de Março. Mais se diz que vai no 19º ano de reinado, o que é o mesmo que dizer que estes se contam a partir de 1128, o ano da batalha de São Mamede, que ocorreu a 24 de Junho (a importância da batalha de S. Mamede está subjacente ao título de uma conferência proferida por José Mattoso em 1978 na cidade de Guimarães, a primeira tarde portuguesa numa alusão ao painel da autoria de Acácio Lino, que representa a batalha de S. Mamede e se encontra no Palácio da Assembleia da Republica). A consideração do ano de 1128 como o começo do reinado de Afonso Henriques encontra-se expressa em muitas das notícias dos Annales D. Alfonsi Portugalensius regis.
Os almóadas tomaram Sevilha aos almorávidas em 17 ou 18 de Janeiro de 1147, o casamento com dona Mafalda foi provavelmente a 31 de Março de 1146, portanto quase a fazer um ano, conforme é referido no texto. O primeiro filho do casal régio foi um menino chamado Henrique, que teria morrido cedo, pois este é o único registo do primogénito do rei Afonso Henriques. Torna-se evidente a preocupação do narrador em caracterizar o ano da tomada de Santarém, por indicações cronológicas coerentes entre si e até bem informadas. O tom parece ser o de recordar um acontecimento passado, numa perspectiva de exaltação heróica de um acto de conquista, amplificado pelo decorrer do tempo, como sucedeu relativamente à batalha de Ourique registada nos Anais de D. Afonso por volta de 1185. Registo este que seria da mesma altura da produção da narrativa da tomada de Santarém. De acordo com a opinião de Luís Krus, esta poderia ter sido escrita na sequência do cerco de Santarém pelas hostes almóadas em 1184 (no mesmo sentido, B. Reilly considera a Tomada de Santarém como um texto de natureza literária baseado em contos populares e, portanto, afastado dos acontecimentos que descreve; parece-nos menos plausível a hipótese avançada por A. Nascimento, que considera que a sua composição possa ter sido realizada muito próximo dos acontecimentos, ainda no contexto da emoção provocada pela conquista, e antes da tomada de Lisboa, no mesmo ano, a 25 de Outubro de 1147, com o argumento que esta remeteria, mais tarde, a notícia da tomada de Santarém para segundo plano; podemos contrapor a este argumento que o texto, a ser escrito imediatamente antes da conquista de Lisboa, não poderia deixar de nomear esse objectivo, pois quando a armada dos Cruzados vinda de Dartmouth chegou ao Porto, no dia 16 de Junho de 1147, já o bispo da cidade tinha instruções do rei para os receber, e lhes propor participarem na conquista de Lisboa)». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

A Data de Nascimento de Afonso Henriques. Abel Estefânio. «… estas formaes palavras, de que dou a copia com a sua mesma orthographia: Eodem die sub era 1222. Obijt illustrissimus Rex Portugallensium doñus Alfonsus…»

Cortesia de wikipedia

Indiculum Fundationis Monasterii Beati Vincentii Vlixbone
«A contagem dos anos de reinado, ao subentender o início do reinado de Afonso Henriques em 1129 (=1147-18), difere das outras fontes. Se tomarmos 1128, como é mais usual, a mesma contagem daria 19 anos, como acontece aliás no De expugnatione Scallabis. Do texto se retira o ano de nascimento em 1107 (=1147-40), mas possível de harmonizar para 1106, se o nascimento foi posterior ao mês de Junho. Na parte final do texto, uma outra referência dá-nos a indicação da data em que este documento foi escrito: …, durante a governação do rei Sancho, filho do referido rei Afonso, governação essa que leva já três anos decorridos no ano da Encarnação do senhor de 1188. Como se vê, o texto tem data de composição certa em 1188, embora o testemunho manuscrito que possuímos seja cópia dos inícios do século XIII (A. Nascimento, 2001, considera que a não referência no texto a aspectos como o da disputa das relíquias de S. Vicente, levam a pensar que a sua redacção primitiva possa ser anterior a esse episódio que data de 1173). A referência a Sancho, que também aparece no Translatio et Miracula S. Vincentii induz a que pelo menos a parte final do Indiculum tenha sido influenciada por aquele texto, como possivelmente também aconteceu no que respeita à idade de Afonso Henriques.

Martirológio da Sé de Lisboa
Refere ainda o ano de 1106 um martirológio da Sé de Lisboa, citado por José Barbosa, aonde, a seis de Dezembro, se lê na margem estas formaes palavras, de que dou a copia com a sua mesma orthographia: Eodem die sub era 1222. Obijt illustrissimus Rex Portugallensium doñus Alfonsus año vitæ suæ septuagesimo octavo. Regni vero ejus quinquagesimo sexto. Qui inter plurima militiæ suæ gesta Civitatem hanc à potestate Sarracenorum eripuit. & operis hujus Ecclesiæ ad honorem Dei, ac memoriam beatæ Virginis regali munificentia extitit fundator, & factor. Continua o mesmo autor: Dizem em Vulgar. No mesmo dia na era de 1222. morreo o Illustrissimo Rey dos Portuguezes D. Affonso aos 78. annos da sua idade, e aos 56. do seu reinado. O qual entre as muitas acções da sua vida, ganhou aos Mouros esta Cidade, e para honra de Deos, e em memoria da Virgem Maria fundou, e fez com Real magnificencia a obra desta Igreja A Era de 1222 corresponde ao ano do nascimento de Cristo de 1184, pelo que subtraindo 78 anos, remeteria o nascimento para 1106, em sintonia com a Vita Theotonii e as fontes do Mosteiro de São Vicente e da Sé de Lisboa. Note-se contudo a deficiência de um ano na indicação da data da morte do rei Afonso Henriques, pois esta só ocorreu em 1185. Apesar disso, constata-se a coerência interna dos dados cronológicos apresentados, sendo correcta a contagem do número de anos de reinado, desde 1128 até 1184.
Apesar do empenho que colocámos na busca do martirológio, e do apoio dado por vários especialistas de que nos socorremos, não o encontramos, o que nos levou a atribuir a sua perda ao terramoto de Lisboa de 1755. Como também não conseguimos encontrar mais nenhuma referência a este martirológio, hesitamos em inclui-lo neste trabalho. Todavia, para além das conclusões que se poderão retirar numa futura análise crítica do texto citado, as referências que lhe são feitas por José Barbosa, de que se trata de um manuscrito antiquíssimo e a importância que atribui à fonte ao sublinhar de que [dele] se naõ lembrou frei António Brandão, permite-nos intuir alguma ancianidade. Acabamos assim por decidir inclui-lo para memória futura.

A tradição associada ao ano de 1110. De expugnatione Scallabis
O De expugnatione Scallabis é um texto de celebração da tomada de Santarém aos mouros, em que o narrador se reveste da personagem de Afonso Henriques para conduzir a narrativa na primeira pessoa. Recentemente, Aires Nascimento apresentou uma nova edição crítica deste documento com o título que detinha anteriormente este manuscrito medieval Quomodo sit capta Sanctaren a rege Alfonso comitis Henrici filio. A sequência dos momentos da acção da conquista de Santarém dá-nos um relato de pormenor que parece transmitir o testemunho de alguém que acompanhou ou refez todo o percurso da acção. Aires Nascimento considera assim que terá sido escrito por algum membro do séquito que participou no ataque, ou por alguém que recolheu impressões de um testemunho directo. Chama ainda à colação um trabalho de Armando de Sousa Pereira onde se admite que represente a memória de um companheiro do rei que depois tenha professado no Mosteiro de Santa Cruz». In Abel Estefânio, A Data de Nascimento de Afonso I, Medievalista, nº 8, 2010, Instituto de Estudos Medievais, direcção de José Mattoso, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A fala perfeita. Fiama H. P. Brandão. Um diálogo íntimo com a realidade. Vivian Steinberg. «’Fiama: está entre a palavra e as coisas’, como escreveu Eduardo Lourenço no prefácio à sua Obra Breve. A partir dessa reflexão, podemos dizer que os textos se dobram sobre si mesmos, fazendo do exercício da escrita o objecto de reflexão»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Este trabalho tem como objecto de estudo a investigação da poética de Fiama Hasse Pais Brandão buscando entender o que é fala perfeita para a autora. Analisamos minuciosamente o poema Teoria da Realidade, tratando-a por tu, que é toda uma poética, e o relacionamos com a sua obra, demonstrando assim uma coerência em seu projecto poético. O poema analisado faz parte da série Poéticas, do livro Cenas Vivas de 2000. Nesse poema há um desdobramento do sujeito poético que persegue a sua voz desde seus balbúcios. Podemos dizer que o sujeito da enunciação nos conta como a sua voz poética apareceu, desenvolveu, adquiriu a fala perfeita e a ofereceu aos leitores. Desde a publicação de Morfismos, em 1961, que a autora preocupou-se em resgatar a língua da estreiteza de seu uso comum e em dar autonomia à linguagem, buscando o que chamou de poesia / substantivo, assim se filiando à tradição da modernidade e especificamente a Mallarmé. Os seus poemas são testemunhos de tudo o que foi escrito e lido por ela, desde as grandes epopeias e a Bíblia, à tradição anglo-germânica, aos grandes poetas americanos e à tradição portuguesa. Fizemos um percurso em sua obra perseguindo poemas que são poéticas, ou seja, que o tema é a própria poesia para descobrir como se dá a visão e o conhecimento que Fiama tem do real e do poético. Constatamos que fez uma opção pela realidade. A matéria poética de Fiama pertence à terra, há uma preocupação em desvendar o real. Podemos constatar essas questões, a partir da nossa leitura dos poemas de Obra Breve, Poesia Reunida. Selecionamos um percurso poético que desaguou em Teoria da Realidade tratando-a por tu, o que nos mostrou a intimidade que adquiriu com a realidade, além de nos revelar como sua voz poética desabrochou».

«Tu, realidade, és nome de ti e do que os poetas fundam, depois de terem a fala perfeita» In Fiama Hasse Pais Brandão

«A fala perfeita é uma expressão retirada do poema Teoria da Realidade: tratando-a por tu, que foi publicado em Cenas Vivas (2000). Faremos uma análise minuciosa dele para compreendermos como se dá a fala perfeita da voz da enunciação de Fiama Hasse Pais Brandão e qual é sua relação com a realidade. Temos a consciência que esse poema produz múltiplos diálogos com sua obra e com a de outros poetas. Mostra-nos a coerência do percurso poético desenvolvido pela Autora como um todo, desde a publicação de Morfismos, em 1961. Fiama, em sua trajetória poética, principia pela palavra condensada, pela palavra substantivo. Amplia o sentido convencional da palavra, na esteira de Mallarmé. Acentua essa passagem de autor em autor. Como ela pronunciou em 1961: A forma poética é a destruição do hábito linguístico. Na sua poética, percebemos, e ela mesma se pronuncia em relação às vivências de sua vida, que há a experiência da leitura-convívio, ou seja, além das vivências da sua vida, há a experiência da leitura profunda, a que ela denomina leitura-convívio.
Aquiesceu perante ela mesma que vivia como Eu lírico e o enreda em outros autores poetas, transformando os seus poemas numa via de mão dupla: dos poetas para ela e dela para os poetas. Lápide e versão indistintamente. O anterior ou é uma lápide (tudo está aí, fixo) ou, então, uma versão, uma interpretação, em mim, para sempre. Assim, confesso: eu escrevo como os poetas, e com os Poetas, escreve a autora em A minha poesia e referências literárias. O que não a impede de clamar: Flosa, mãe, mar, em que versos/ somente sois as palavras minhas? Percorre um caminho singular, relaciona a realidade empírica com a realidade do poema, não perde esse referencial: o poema é realidade também. Dito de outra forma: Esse modo hipotético de estar entre a realidade do mundo e a realidade do poema. Ou ainda: Fiama: está entre a palavra e as coisas, como escreveu Eduardo Lourenço no prefácio à sua Obra Breve. A partir dessa reflexão, podemos dizer que os textos se dobram sobre si mesmos, fazendo do exercício da escrita o objecto de reflexão, nas palavras de Jorge Fernandes Silveira […]

«Este tecido encadeia-me. Eu estou atenta
ao tecido da minha vida. (...)
O contexto que de novo amanhece
é o que me contém. Confirmo que o amanhecer
é já um conflito antigo e ordenado, e que eu posso ser
personagem existente».
In Fiama Brandão

Contexto histórico-literário da obra de Fiama Hasse Pais Brandão
Podemos falar em contexto do poeta enquanto autor e leitor de outros escritores situado num determinado momento literário e social, capaz de filtrar ou rejeitar as vivências espaço-temporal. Por isso, escreveremos uma breve apresentação da autora. Em quase toda a obra de Fiama Brandão (1938-2007), as estações, a luz, as mudanças nas árvores e flores, os pássaros relembram a quinta em que morou na infância e depois na maturidade, Vivenda Azul, com o tanque, os caramanchões, a vasta gaiola contendo dezenas de periquitos, o lago com os peixes, os azulejos do terraço, em meio ao pomar, ovelhas, flores, perto do mar, em Carcavelos, Cascais, distrito de Lisboa. A formação escolar e universitária despertou, em Fiama, um conhecimento das literaturas inglesas e norte-americanas e, mais tarde, da literatura germânica. Estudou no St. Julian's School, colégio inglês, de elite, em Carcavelos, o que lhe deu uma base para os estudos de língua e literatura inglesa. Frequentou o curso de Filologia Germânica na Universidade de Lisboa, até ao terceiro ano, onde se familiarizou com as letras de língua alemã. Traduziu Robert Lowell e Novalis; Brecht, enquanto ainda estava proibido durante o governo salazarista; Cântico dos Cânticos, Artaud, entre outros. O teatro esteve presente em sua formação como escritora, pois foi uma das fundadoras do Grupo de Teatro de Letras, junto com Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, José Silva Louro e outros. Em 1965, o grupo surgiu na sequência do Círculo de Teatro de Letras, uma tentativa encoberta de criar uma associação de estudantes na faculdade, durante o Estado Novo, quando estas eram proibidas. Escreveu, por exemplo, Os chapéus de chuva, censurada, depois publicada em 1961. Ganhou o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de escritores, por essa peça de teatro. A experiência no teatro lhe deu um olhar cénico, que visivelmente se manifesta nos livros Área Branca e Cenas Vivas» In Vivian Steinberg, A fala perfeita. Fiama H. P. Brandão, Um diálogo íntimo com a realidade, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Tese de doutoramento em Letras, Programa de pós-graduação em Literatura Portuguesa, 2011, S. Paulo.

Cortesia de FFLCHumanas/JDACT

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Comunicação. 2009. Geraldo L. Lino. «De facto, as evidências mostram que o aquecimento atmosférico verificado a partir de meados da década de 1970 finalizou em 1998 e, desde então, a tendência tem sido de uma ligeira queda das temperaturas globais…»

Cortesia de wikipedia

Verdadeiras emergências globais
«(…) O alarmismo ambientalista em geral, e o aquecimentismo em particular, têm contribuído para desviar as atenções das verdadeiras emergências mundiais, que não existem apenas em modelos matemáticos computadorizados e são ameaças reais e presentes, que estão a exigir acções urgentes em um novo nível de cooperação e coordenação internacional, motivado por um Princípio do Bem Comum, e não pelos habituais interesses corporativos e hegemónicos das grandes potências. Os problemas ambientais mais sérios do mundo, particularmente nos países em desenvolvimento, são os relacionados à escassez de infra-estrutura de água e saneamento básico, como a poluição hídrica e as doenças transmitidas pela água (que, segundo o UNICEF, matam uma criança a cada 15 segundos em algum lugar do mundo). No Brasil, menos da metade da população tem acesso à rede de esgotos: a contaminação da água e a falta de saneamento são responsáveis por 63% dos internamentos pediátricos e 30% das mortes de crianças com menos de um ano de vida. Uma pesquisa efectuada em 2007 pelo British Medical Journal entre médicos de todo o mundo apontou por larga margem o saneamento como a principal conquista da medicina nos últimos 150 anos, um privilégio ainda fora do alcance de mais de 40% da população mundial.
A falta de acesso a fontes energéticas modernas por grande parte da população mundial. Na África, 90% da população têm as suas necessidades diárias atendidas pela queima de esterco e lenha, os combustíveis mais primitivos conhecidos pelo homem. Embora com números menores, o mesmo ocorre em grande parte da Ásia, América Latina e Caribe. Como 80% do consumo mundial de energia primária é atendido pelos combustíveis fósseis, não é difícil antecipar as consequências potenciais das restrições aos seus usos. Ademais, tais combustíveis são usados para gerar cerca de dois terços da electricidade do planeta, sendo o resto proporcionado quase totalmente por centrais hidro-eléctricas e nucleares (ambas, também crescentemente na mira dos ambientalistas). Até à segunda metade do século, dificilmente, os combustíveis fósseis perderão a sua importância. A fome e suas consequências matam uma criança a cada seis segundos, segundo a FAO. Cerca um bilhão de pessoas em todo o mundo padecem de fome crónica, quadro que certamente se agravará com a presente crise económico-financeira mundial. Além do imoral desperdício de vidas produtivas, o custo económico anual de semelhante tragédia, em perdas de produtividade, rendas, investimentos e consumo, é estimado entre 500 bilhões e um trilhão de dólares. E quando foi a última vez que alguém viu grandes ONGs ambientalistas (WWF, WRI, UICN, Greenpeace, International Rivers Network etc.) e/ou a comunicação social fazendo campanhas ruidosas em prol do saneamento básico ou da electrificação em massa da África, Ásia e América Latina?

Conclusão. É preciso despolitizar a Climatologia
Antes que o aquecimentismo transformasse a Climatologia em uma ciência politizada, os períodos mais quentes que o actual costumavam ser chamados óptimos climáticos, pela constatação de que não só a biosfera, mas a própria Humanidade, têm se adaptado mais confortavelmente aos períodos mais quentes do que aos mais frios. De facto, o frio é muito mais problemático para as actividades humanas que o calor, como se constata facilmente na agricultura, saúde pública e outras áreas. Aliás, é possível que os problemas causados pelo clima nas próximas décadas sejam, precisamente, na direcção oposta à alardeada pelos aquecimentistas. De facto, as evidências mostram que o aquecimento atmosférico verificado a partir de meados da década de 1970 finalizou em 1998 e, desde então, a tendência tem sido de uma ligeira queda das temperaturas globais, a qual poderá se acentuar devido a uma combinação de actividade solar fraca e uma fase de arrefecimento do oceano Pacífico (que cobre 35% da superfície terrestre). Se tal tendência se confirmar, as temperaturas mais baixas poderão acarretar sérios problemas para a agricultura mundial, num mundo em que os excedentes de produção de alimentos passaram a se concentrar em alguns países e no qual as antigas políticas nacionais de segurança alimentícia passaram a ser consideradas distorções de mercado pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Assim sendo, pode ser que em poucos anos estejamos realmente sentindo saudades do aquecimento global». In Geraldo Luís Lino, Comunicação, 2009, Alguns factos básicos sobre mudanças climáticas, autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenómeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial, Capaz Dei, 2009, Oikos, Volume 9, Rio de Janeiro, 2010, ISSN 1808-0235.

Cortesia de Oikos/JDACT

domingo, 6 de setembro de 2015

Comunicação. 2009. Geraldo L. Lino. «… os cientistas financiados por governos não precisam ser desonestos para que a ciência seja distorcida; eles precisam apenas fazer o seu trabalho...; milhares de cientistas têm recebido verbas para encontrar uma conexão entre as emissões de carbono…»

Cortesia de wikipedia

O ambientalismo como ideologia e instrumento político
«(…) Na estrutura de comando do ambientalismo, encontramos: governos, EUA, Reino Unido, Canadá, Holanda e outros; órgãos governamentais, principalmente, agências de ajuda internacional USAID, DFID, CIDA etc.); fundações privadas, Rockefeller, Ford, MacArthur, C.S. Mott etc; ONGs internacionais, WWF, UICN, World Resources Institute, Friends of the Earth, Aspen Institute etc.
Os seus objectivos podem ser assim sintetizados:
  • obstaculizar a industrialização e o desenvolvimento socioeconômico no III Mundo, transferindo a influência sobre o processo dos Estados nacionais para entidades não-governamentais (governanção global); 
  • induzir pessimismo e descrença quanto às perspectivas da ciência e da tecnologia para o progresso, num processo de moldagem de crenças e modos de pensar dos estratos educados das sociedades; 
  • deter o crescimento demográfico; 
  • controlar reservas de recursos naturais.
A indústria aquecimentista
A institucionalização do movimento ambientalista internacional como uma entidade que acabou ganhando uma espécie de vida própria se mostra com toda clareza no conluio de interesses estabelecido em torno do aquecimento global antropogénico, que vai além da agenda do Establishment anglo-americano. De facto, o aquecimentismo converteu-se numa verdadeira indústria que já movimenta valores da ordem das centenas de bilhões de dólares por ano, envolvendo verbas oficiais e privadas para pesquisas científicas e tecnológicas, incentivos fiscais para tecnologias de baixo carbono, campanhas de ONGs e propagandísticas, lobbies parlamentares e o florescente mercado de créditos de carbono.
Desde 1990, apenas o governo dos EUA gastou 32 bilhões de dólares em pesquisas referentes às mudanças climáticas, mais US$ 36 bilhões no desenvolvimento de tecnologias e assistência sectorial ao exterior. Somente em 2009, tais gastos atingiram a casa de US$ 7 bilhões, além de outros US$ 3,4 bilhões para projectos de sequestro de carbono. Para muitos cientistas, semelhante cornucópia representa uma atracção irresistível, além de implicar numa orientação das pesquisas científicas para uma busca forçada de explicações antropogénicas para as mudanças climáticas. Por outro lado, as verbas para as pesquisas que não consubstanciam as teses alarmistas têm passado longe de tal generosidade.
Como resumiu a jornalista australiana Joanne Nova: os cientistas financiados por governos não precisam ser desonestos para que a ciência seja distorcida; eles precisam apenas fazer o seu trabalho...; milhares de cientistas têm recebido verbas para encontrar uma conexão entre as emissões de carbono humanas e o clima; poucos têm recebido verbas para fazer o oposto; jogue 30 bilhões de dólares em uma questão qualquer, como poderiam pessoas brilhantes e dedicadas não achar 800 páginas de conexões, vínculos, previsões, projecções e cenários? (o que é impressionante é o que não encontraram, evidências empíricas). Mas a maior fonte de rendimentos aquecimentistas são os mercados de créditos de carbono, que movimentaram nada menos que 130 bilhões de dólares em 2009. Algumas estimativas elevam esse potencial para a casa dos trilhões de dólares, caso venham a ser aprovados acordos internacionais de vinculação obrigatória para a limitação das emissões de carbono provenientes do uso de combustíveis fósseis, como se pretendia na fracassada Conferência de Copenhague (COP-15), em Dezembro de 2009.
O chefe do Comité Assessor para Mercados de Energia e Ambientais da Comissão de Comércio de Futuros de Mercadorias (CFCC) dos EUA, Bart Chilton, prevê que, até 2014, o mercado de carbono poderá chegar a 2 trilhões de dólares em transacções anuais, convertendo-se no maior mercado de commodities do mundo. Seu colega Richard Sandor, executivo-chefe da Bolsa de Valores Climáticos (Climate Exchange PLC) de Londres, a maior do mundo, é ainda mais optimista, antevendo um mercado de 10 trilhões de dólares anuais, a maior commodity não financeira do mundo. Nada mal, para instrumentos financeiros desprovidos de qualquer valor económico real, excepto para quem os transaciona, verdadeiros futuros de fumaça». In Geraldo Luís Lino, Comunicação, 2009, Alguns factos básicos sobre mudanças climáticas, autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenómeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial, Capaz Dei, 2009, Oikos, Volume 9, Rio de Janeiro, 2010, ISSN 1808-0235.

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