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terça-feira, 21 de junho de 2011

Paulo A. Loução: Portugal, Terra de Mistérios. «O homem arcaico sente muito especialmente a Terra, que é a "mater" e, através dos seus cultos às inúmeras formas da Deusa-Mãe, que foram cristianizadas através das não menos diversas "Nossas Senhoras", recebe dela os seus favores e protecção»

Cortesia de wikipedia

Como chegámos aqui?
«Em nosso entender, o povo português é fortemente religioso e portador de uma alma arcaica. Este último conceito merece ser aprofundado, pretendendo este capítulo introdutório confrontar, sob diversos ângulos, a cosmovisão do homem arcaico e a visão do mundo do homem racionalista «moderno». Esta confrontação afigura-se-nos imprescindível para sentirmos melhor a nossa essência e para nos compreendermos melhor a nós próprios; e também para tomarmos consciência da riqueza espiritual, natural, humana e patrimonial que o mundo português arcaico encerra, objectivo deste ensaio. Como é óbvio, este tipo de riqueza, não é exclusivo de Portugal, mas a nós compete-nos, «des-cobrir» os arquétipos nacionais, o que facilitará o reconhecimento - pela via «interna», espiritual, dos arquétipos e mitos de outras culturas, o que, considerando as idiossincrasias do português, proporcionará naturalmente verdadeiros encontros de culturas.

Cortesia de esquilo

O termo arcaico, na acepção que lhe damos, é um vocábulo mais simbólico do que racional. É necessário senti-lo, encontrando primeiramente dentro de nós a presença do homem arcaico. Este vive dentro de um círculo que é o cosmos, estando o caos fora dele. Isto explica a necessidade que sentem aqueles que vão viver para a cidade de voltarem ciclicamente à aldeia ou lugar «mítico» da origem, estando essa necessidade relacionada com a saudade. Esse círculo é composto tanto pela Natureza visível como pela Natureza invisível, as quais se interpenetram numa totalidade. O homem arcaico sente muito especialmente a Terra, que é a «mater» e, através dos seus cultos às inúmeras formas da Deusa-Mãe, que foram cristianizadas através das não menos diversas «Nossas Senhoras», recebe dela os seus favores e protecção. Ao ligarem-se com os seres que incorporam a sua mitologia (na actualidade: heróis, santos, santas, Nossas Senhoras, Cristo, Deus...), os objectos e lugares vinculados a uma teofania são «pontes» privilegiadas de comunicação, surgindo assim as pedras sagradas, as árvores divinizadas, os locais sagrados, todos eles cultuados e respeitados com zelo, por vezes durante muitos séculos.

Cortesia de esquilo

O psicólogo Jung (1875-1961) exerceu a sua profissão durante décadas, conhecendo milhares de pacientes. Além disso, viajou por diversas zonas do planeta com o objectivo de conhecer homens de diferentes culturas e desenvolveu, com base na sua ampla experiência, uma extensa obra que merece a atenção dos investigadores e amantes das ciências humanas. Freud deu um grande passo científico ao mostrar que a natureza psíquica do homem é muito mais complexa do que se pensava, trazendo à tona a dinâmica entre a consciência e o inconsciente, a líbido e os recalcamentos, e outros novos elementos. Apesar disso, não conseguiu escapar a uma psicologia redutora ao privilegiar o factor sexual como determinante na auto-realização humana. Adler, por sua vez, privilegiou o prestígio social, o que é interessante se pensarmos que Freud e Adler revelaram a cara e a coroa das grandes motivações do homem-exterior, da «persona», que significa «máscara» em latim, termo que , por sua vez, tem origem no étimo grego «prosopon», a máscara utilizada na tragédia grega. O homem-externo, o ego-inferior ou o Eu-animal, quando não disciplinado pelo homem-interior, é o carcereiro da alma e foge da experiência religiosa interna, verdadeira como o «Diabo foge da cruz», sendo o intelecto mecânico o seu grande aliado. Na sua interioridade vazia procura a satisfação sexual, na sua vida externa busca o prestígio-dinheiro-poder». In Paulo Alexandre Loução, Portugal, Terra de Mistérios, Abril de 2001, Editora Ésquilo 6ª edição, 2005, ISBN 972-8605-04-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Paulo A. Loução: Portugal, Terra de Mistérios. «Esta ligação com os lugares é mantida através de tradições, cultos e lendas, permanecendo ainda vivos imensos vestígios de uma integração «arcaica» do homem no cosmos, o que constitui um tesouro inestimável num mundo em fase acelerada de dessacralização, diríamos mesmo de bestialização da vida humana»

Cortesia de esquilo

Como chegámos aqui?
«Durante a preparação da obra, percorremos amiúde o país ao encontro dos lugares onde os cavaleiros do Templo exerceram o seu domínio. Constatámos que muitos desses locais ainda hoje favorecem a paz espiritual e manifestam uma «energia do lugar» desde há muito ausente das grandes metrópoles, embora no caso português ainda existam certos «lugares e microclimas espirituais» dentro ou próximo das grandes cidades. Mas esses espaços tão caros aos Templários são, na maior parte das vezes, locais ricos em história pré-nacional, isto é, os Cavaleiros do Graal, que tanto contribuíram para a fundação do reino de Portugal no século XII, estabeleceram uma ligação com a corrente de vida humana que percorreu as terras da «Lusitânia» nos últimos milhares de anos. Continuámos a percorrer o território nacional, desta vez também por locais sem vestígios dos Templários, e demo-nos conta da existência de um Portugal telúrico, carregado de vida, alheio à poluição física e mental bem característica da civilização moderna. Mas o mais surpreendente é o facto de grande parte da população deste «Portugal Profundo», ainda viver, de forma atávica, numa certa harmonia com o espírito destes lugares e enquadrada numa cosmovisão religiosa do mundo, absolutamente natural para ela.

Cortesia de esquilo

Esta ligação com os lugares é mantida através de tradições, cultos e lendas, permanecendo ainda vivos imensos vestígios de uma integração «arcaica» do homem no cosmos, o que constitui um tesouro inestimável num mundo em fase acelerada de dessacralização, diríamos mesmo de bestialização da vida humana. Todavia, o homem é um ser religioso por natureza (mesmo os sistemas chamados ateus têm os seus ídolos e as suas mitologias) pelo que, actualmente, e como reacção natural, emergem violentamente as chamadas patologias do sagrado sob a forma de superstições religiosas, alimentadas por líderes «muito pouco religiosos», e por grupos espiritualistas que seduzem o homem-exterior em lugar de proporcionarem a emergência da alma interior, o que é naturalmente doloroso para os hábitos entrópicos da personalidade.

Cortesia de novaacropole

Com clarividência e alguma ironia, Carl Gustav Jung afirmou, em 1944: «Na realidade, não hesitamos em fazer as coisas mais absurdas a fim de escaparmos à nossa própria alma. Pratica-se o ioga indiano de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal - tudo isto porque já não se consegue conviver consigo próprio e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma.

Pouco a pouco, esta última tornou-se aquela Nazaré da qual nada de bom se pode esperar. Vai-se portanto procurá-la nos quatro cantos da Terra: quanto mais distante e exótico, melhor». O eminente psicólogo colocou bem o dedo na ferida: o homem do terceiro milénio tem de restabelecer o diálogo com o seu inconsciente, tem de trazer à consciência o seu mundo mítico a fim de se auto-realizar, ou seja, deve levar a bom termo o seu processo de individuação, abrindo-se à sua interioridade e dimensão espiritual. Por isso, André Malraux afirmou: «o século XXI será espiritual ou não será!». In Paulo Alexandre Loução, Portugal, Terra de Mistérios, Abril de 2001, Editora Ésquilo 6ª edição, 2005, ISBN 972-8605-04-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT