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terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Segundo Modernismo em Portugal. Eugénio Lisboa. «… mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu, Anatole France, Epicuro de farmacopeia homeopática, ténia, Jaurés do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século XVII…»

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Orpheu e Depois
«O apocalipse de 1914-1918 trouxe à Europa o começo da sua decadência e, a alguns dos seus espíritos mais privilegiados, a lúcida consciência dela: Nós-outras, civilizações, sabemos agora que somos mortais, ecoará Valéry, numa das suas proclamações emblematicamente inquietantes. O ano de 1914 terá sido o começo de uma sombria viragem para o mundo ocidental. Para nós, portugueses, foi a véspera do começo de um período literário que ainda não acabou de terminar: o modernismo. Filhos perturbados e fascinados de Orpheu e de um Fernando Pessoa sorrindo eternamente em itálico, é o que ainda hoje, em parte, somos todos nós ou, pelo menos, os melhores de nós. Dissemos: viragem; e seria este um termo adequado, se a erosão do uso lhe não tivesse, por demais, embotado as arestas. O Orpheu foi mais do que uma viragem: foi um abalo sísmico de uma tal intensidade e fulgor, que ainda hoje se lhe sentem os efeitos. O Orpheu foi mais (ou outra coisa) do que uma simples aventura literária, ainda que intensa e traumática: foi um modo de viver e de morrer (morreu-se muito e depressa, como não mandou o rei Sebastião I, entre os homens do Orpheu), foi um investimento total de um grupo de homens que ousaram ousar, uma missão impossível, um apocalíptico sondar ontológico (Eduardo Lourenço), uma dança da morte no fio acerado duma corda tensa, uma apropriação sistemática do paradoxo como método de apreensão do real mais fundo: se queres ser profundo, dirá um pouco mais tarde o presencista José Bacelar, herdeiro do Orpheu, aprende a pensar à beira do paradoxo. Os homens do Orpheu foram revolucionários, no sentido em que Gauguin, com tanta finura quanta injustiça, dizia: em arte só há revolucionários e plagiários. Não é verdade, mas ilumina.
O massacre metódico de toda uma juventude nas trincheiras europeias (reparai neste absurdo: uma guerra parada, uma matança imóvel!), o recuo da razão, o triunfo fácil e sumptuoso das forças de violência e morte, a traição, à última hora, dos próprios partidos socialistas europeus, trouxeram, como consequência, a morte da fé nos deuses que, pouco antes, triunfavam: a ciência, a razão e o progresso. Os velhos maîtres à penser esboroavam-se ao rés do desespero de quem antes os tinha venerado. Essa juventude perguntava um escritor francês, que tinha ela em 1914-1918? E respondia: um Claudel que construía um novo génio do Cristianismo para eles, que tinham deixado de acreditar; um Barrès, grande comediante que se tinha tomado a si próprio demasiado a sério; um Bourget, que vigiava, como médico, os progressos da doença cerebral do século e nada construía; mestres que não passavam de piões coca-bichinhos e fastidiosos. O que ela (a juventude) pedia, antes de mais nada, era um objectivo que as forças dadas à sua inteligência aceitassem; na falta desse objectivo, um emprego lúcido da sua vida. A ciência, de que tanto se esperava! A ciência, amiga e promotora do homem... Se ela, como tudo o resto, falira, ajudando a construir a técnica mas não sendo capaz de construir, paralelamente, um homem moralmente apetrechado para manipulá-la sem perigo de auto-destruição, se ela, portanto, falira, num mundo que ruía, o anátema dos herdeiros desiludidos e desapossados não iria poupá-la: amaldiçoo a ciência, essa irmã gémea do trabalho, proclamará o surrealista Aragon: Conhecer! Desceste tu jamais ao fundo desse poço negro? Que encontraste lá, que galeria na direcção do céu? Pois bem, só te desejo um jacto de grisú que te restitua finalmente à preguiça, que é a única pátria do verdadeiro pensamento...
Ao recuo da razão responderão os homens traídos, empunhando as forças do irracional e do subconsciente: … os homens estão sempre contra a razão, quando a razão está contra eles, dizia Helvetius. Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, reflectirá a mesma desilusão, em termos de eloquente rejeição: mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu, Anatole France, Epicuro de farmacopeia homeopática, ténia, Jaurés do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século XVII, falsificada! Fora tu, Maurice Barrès, feminista da acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio! O frenesi e a palhaçada são quase sempre máscaras de um abalo profundo e sincero. A paródia serve para esconder a fundura do golpe e disfarçar, com pudor, o pathos. São jogos, dirá mais tarde José Régio (um profissional no exercício exímio do cache-cache), mas são jogos sérios e mortíferos de Édipo com a Esfinge». In Eugénio Lisboa, O Segundo Modernismo em Portugal, Biblioteca Breve, Volume 9, Instituto Camões, Livraria Bertrand, Lisboa, 1984.

Cortesia de ICamões/JDACT

domingo, 28 de outubro de 2012

Campos Matos. Eugénio Lisboa. Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem. «Por natural apelo dos amigos, que não por imposição sua, pois é dos que sabe ouvir, é ele por via de regra o centro polarizador da conversa. Condimenta-a com o seu proverbial humor, sublinhando as suas frases através da pronta e precisa citação…»

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Alguns relances sobre Eugénio Lisboa
«Como matéria que me era afim e onde navegava em águas familiares, pude apreciar mais consideradamente a inteligência crítica, justa, despreconceituada, discordante aqui e acolá, com que ele analisou e valorizou a importância desse grande pioneiro dos estudos pessoanos.
Um outro texto viria depois, num registo que o seu autor diria de ‘frívolo’, intitulado “A senhora Renal”, que é uma outra maneira aliciante, de graça e ternura, que ele tem de nos prender a atenção e de nos ensinar a amar a literatura como um entretenimento supremo. Agora era a heroína de Sthendhal que, numa peça de puro divertimento, ele proporcionava à nossa companhia. E mais não direi da “Senhora Renal”, para não tirar o prazer que decerto terá, com a leitura desse texto, quem não o conhece ainda.
António Sérgio, Gaspar Simões, Régio (o Régio crítico de Eça), Camilo, o Eça d’Os Maias (e não só), Machado de Assis, Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço, Sthendhal, Gide, Martin du Gard, Montherland e tantas outras figuras do meu apreço, constituem matéria do culto literário de Eugénio Lisboa. Para empregar uma expressão coloquial muito queiroziana, ficamos desde então “calhados” depois daquele almoço a três. Com uma memória invejável e uma extensão de leitura sem fim, é um prazer sentarmo-nos à mesa com Eugénio Lisboa, para falar de autores, leituras, acontecimentos, episódios de literatura, e também de ‘misérias literárias’ que como Antero dizia, são as piores de todas as misérias, exercício que em recente tertúlia prandial se prolongou da 1 às 6 da tarde, quando, juntamente com outros convivas, já se hesitava se não se deveria ficar para jantar...

Por natural apelo dos amigos, que não por imposição sua, pois é dos que sabe ouvir, é ele por via de regra o centro polarizador da conversa. Condimenta-a com o seu proverbial humor, sublinhando as suas frases através da pronta e precisa citação de conhecidas eminências da cultura universal, a que ele recorre com a facilidade de quem tem na sua biblioteca, certamente, uma boa dúzia de antologias de ‘Quips & Quotes’, descobertas nas melhores livrarias de Londres. Recordo ainda o dia em que fui ao município de Aveiro, onde me desloquei para ajudar a resolver o enredado e vergonhoso caso da reabilitação do solar de Verdemilho onde Eça passou a infância. Havia que convocar também o Pedro Calheiros, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade e foi-me dado ver então o Eugénio assomar à porta de uma aula, em mangas de camisa, brandindo um papel, e fiquei a pensar nas pérolas de clarificação hábil, pensante e penetrante, que ele devia oferecer aos seus alunos de literatura, em acção pedagógica que faz parte também da sua vocação.
Mas nem sempre é de rosas e de gargalhadas o convívio com esta alma crítica tão firme, tão preparada de literatura e também de ciência. Um sector hipercrítico dos seus dotes, numa tertúlia, num colóquio, numa conversa, pode subitamente eclodir e disparar, com intransigente convicção, e fulminar-nos. Recordo Tormes, e um colóquio queiroziano, em 2007, na Fundação Eça de Queiroz, em que nos engalfinhámos, com muito ardor e muito alarido, já não sei bem por que dissídio acerca de uma crítica de José Régio à ficção queiroziana. E eis que no ruído da discussão, já esgotados todos os argumentos, me preparava para lançar ao Eugénio uma derradeira fecha, acerada e retumbante: a afirmação dele próprio, decerto muito sólida e fundamentada, de que Régio, preocupado com a sua própria obra, como grande autor, tinha pouco tempo para ler. Isto confirmava o meu sentimento de que o romancista d’A Velha Casa não lera Eça tão integralmente, tão em profundidade, como lera o “seu Camilo”. Mas o adiantado da hora e as intransigências do moderador, fizeram-me aliviar o arco e recolher o dardo à aljava...
Logo de seguida, no intervalo para o café, ao pleno ar das serras e da eira de Tormes, já o Eugénio me invocava com displicência e humor uma daquelas apropriadas quotations com que costuma brindar a nossa atenção desvelada e já eu descoroçoado esquecia o meu dardo e o meu argumento... E assim este temperamento crítico, tão convicto de razões, tão de crítica, e de paixões, temperado. O Luís Amaro, ao peso de três quartos de século de literatura, acertava deveras ao dizer-me gravemente e com voz cava: “é necessário conhecê-lo...”». In Campos Matos, Eugénio Lisboa: Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem, organização de Otília P. Martins e Onésio T. Almeida, Opera Omnia, 2011, ISBN 978-989-8309-20-4.

Cortesia de Opera Omnia/JDACT

sexta-feira, 16 de março de 2012

Campos Matos. Eugénio Lisboa. Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem. «Serve para o mesmo que um poema épico, uma tragédia, uma sonata, um quadro de género, uma escultura. O préstimo que tem é entreter a gente; a crítica serve para nos dar prazer. Ousemos afirmar que é uma obra de arte, e que se lê como tal [...]. É necessário conhecê-lo! É necessário!"...»

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Alguns relances sobre Eugénio Lisboa
“[…] admirar alguém não é dar-lhe, sem reservas, benesses e coroas de louro. Não é possível, a duas pessoas que não desistem de pensar, estarem sistematicamente de acordo”. In Eugénio Lisboa, Eduardo Lourenço, Os cornos do Dilema”

«Há muito que um amigo comum, Luís Amaro, poeta e bibliófilo, benfeitor de todos os carentes de informação literária, me perguntava: 
  •  "então não conhece o Eugénio Lisboa? É necessário conhecê-lo! É necessário!"...

Aquele meu amigo lançava-me este "é necessário" com voz solene e cava, voz convicta de uma verdade indiscutível. Passava-se isto por finais de 1996, e algum tempo depois combinávamos almoçar com o Eugénio, num restaurante das Avenidas Novas, não muito longe da Gulbenkian, quando Luís Amaro, que trabalhava na “Colóquio-Letras”, já tinha em mente reformar-se.

Educado no culto e admiração dos grandes da escrita e da arte em geral, sempre encarei com algum retraimento e timidez a abordagem pessoal de intelectuais de polpa, acudindo-me por vezes à lembrança o conhecido caso de não sei que escritor brasileiro que admirava o Torga mas não o queria conhecer pessoalmente para preservar essa admiração... Mas Amaro insistia e eu concordava: era "necessário" conhecer este crítico, de quem já havia lido, para lá da sua colaboração no JL (‘Jornal de Letras’), “José Régio, a Obra e o Homem” (biografia modelar); “As Vinte e Cinco Notas do Texto” e a “Crónica dos Anos da Peste”.
O que desde logo me atraíra na sua escrita, além da linguagem clara, precisa, simples, era a sua posição (que se me afigurara desde logo muito sergiana), de recusa frontal de dogmatismos teóricos pré-estabelecidos, sobretudo quando embrulhados numa linguagem abstrusa e esotérica. Mais claramente dizendo: recusa daquilo que uma académica, Maria de Lourdes Belchior, já em 1971 denunciara vigorosamente como linguagem "desvairada", ou seja, "o uso abusivo de uma terminologia caótica e o novo-riquismo de certas amostras de vocabulário ‘crítico’ [...]" Com efeito, no "Prefácio" de “Os Homens e os Livros II”, além da denúncia do desvario, ela fazia também a citação oportuna do poema de Carlos Drummond de Andrade "Exorcismo", cujo “incipit” vem aqui divertir-nos: 
  • Da leitura sintagmática / Da leitura paradigmática do enunciado / Da linguagem fática / Da fatividade e da não fatividade na oração principal / Libera nos Domine. // Da organização categorial da língua / Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos / Da concretez das unidades no estatuto que dialetalize a língua / Da ortolinguagem / Libera nos Domine.

Ia eu, pois, esclarecendo e querendo significar, que o nosso encontro havia sido motivado, sobretudo, por afinidades várias, geracionais até. Entre elas as de outros posicionamentos de Eugénio Lisboa:  
  • o de que a análise de um texto se deve fazer pela sua leitura em profundidade, "ler, ler e ler" como ele diz no belo "Pórtico" d'as “Vinte e Cinco Notas do Texto”, e o de que a crítica tem de implicar clareza, convocando desta feita, expressamente, António Sérgio, o autor dos “Ensaios”.

E é ainda este meu autor de cabeceira que Eugénio Lisboa cita nas suas reflexões, quando termina por nos afirmar que os textos que nos oferece são o produto "de um exercício que lhe deu prazer". Ainda aqui nos parece sergiana esta tonalidade porque nos acode à mente o que Sérgio nos deixou no prefácio do 3º volume das “Ensaios”, quando, ao questionar sobre o préstimo da crítica, nos responde com meridiana simplicidade: 
  • Serve para o mesmo que um poema épico, uma tragédia, uma sonata, um quadro de género, uma escultura. O préstimo que tem é entreter a gente; a crítica serve para nos dar prazer. Ousemos afirmar que é uma obra de arte, e que se lê como tal [...].

Ora aqui está: a crítica é uma obra de arte que se lê, ou deve ler como tal. E de facto "obras de arte" são muitos dos textos que me tem oferecido o autor do “Portugaliae Monurnenta Frivola”. Sem qualquer esforço de memória, ou pesquisa, com a nitidez que me deu a primeira leitura que dele fiz, recordo o pequeno texto "João Gaspar Simões, atirador solitário", que Eugénio Lisboa dedicou ao biógrafo de Eça de Queiroz, por ocasião do octogésimo aniversário deste crítico e biógrafo». In Campos Matos, Eugénio Lisboa: Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem, organização de Otília P. Martins e Onésio T. Almeida, Opera Omnia, 2011, ISBN 978-989-8309-20-4.

Cortesia de Opera Omnia/JDACT

sábado, 28 de janeiro de 2012

Portalegre. Eugénio Lisboa. Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem. «Um percurso de viajante, descobrindo, criando, e ensinando, que nos remeteria para Erasmus não fosse o nosso homenageado preferir, “et pour cause”, Ulisses. … uma bela lição de vida a favor da internacionalização e contra o imobilismo»

Cortesia da operaomnia

«Eugénio Lisboa homenageado em Portalegre. Apresentação do Livro “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo” e inauguração da Exposição “José Régio: seus papéis e lugares” na Biblioteca Municipal. A Biblioteca Municipal de Portalegre é o local eleito para a apresentação do livro “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo” pela Professora Doutora Otília Pires Martins, e para a inauguração da Exposição Bibliográfica “José Régio: seus papéis e lugares”, que teve lugar no dia de ontem, 6ª feira, dia 27 de Janeiro, pelas 17h00.
Eugénio Lisboa é hoje o mais consagrado estudioso da geração literária presencista, nomeadamente de José Régio, que conheceu em Portalegre e de quem foi amigo de longa data e será homenageado com a obra “Eugénio Lisboa: vário intrépido e fecundo”, que reúne 70 textos dedicados ao próprio.
A par desta homenagem, pode ainda ser visitada a Exposição Bibliográfica “José Régio: seus papéis e lugares”, que pretende mostrar um conjunto de documentos do Centro de Estudos José Régio, em Portalegre, relativos ao tempo do escritor. Os “papéis” que, testemunham o seu tempo de escola, de ensino, as suas preferências literárias, os seus gastos, as amizades, os admiradores, entre muitos outros. A Exposição estará patente até 29 de Fevereiro das 10h30 às 12h30 e das 14h00 às 19h00 de Terça-Feira a Domingo». In BM de Portalegre.

Com a devida vénia a Manuel Assunção

Eugénio Lisboa. Um Percurso Exemplar
«Eugénio Lisboa honrou a Universidade de Aveiro ao percorrer connosco, enquanto Professor Visitante, a "última etapa do (seu) percurso oficialmente activo" como uma vez afirmou. Não tanto por ter atingido o "limite de idade" mas mais por ter sido atingido por ele.
Concedeu-nos, Eugénio Lisboa, igualmente, o privilégio de o contarmos, desde 2002, como par do nosso já insigne colégio de Doutores “Honoris Causa” que ele veio enriquecer ainda mais. Visitante, de visita por que se anseia e que nos dá prazer, é aliás um termo que lhe cai bem. Visitante das ideias e dos lugares, determinado, desde sempre, por uma enorme curiosidade, Por essa vontade indómita de conhecer para além do horizonte e de se projectar para lá do conhecimento. Porém, visita que se demora, que aprende e apreende, que deixa marca. Lourenço Marques e Moçambique, Joanesburgo e Pretória, Estocolmo, Paris, Londres e muita outra Inglaterra, Lisboa e a "linha", Aveiro, são pontos decisivos no mapa do viajante. A que acrescento um outro, quiçá por fraqueza minha: o do meu distrito, Portalegre, "cidade do Alto Alentejo cercada”...(A Bela Cidade de Portalegre, acrescento eu, JDACT)
Um percurso de viajante, descobrindo, criando, e ensinando, que nos remeteria para Erasmus não fosse o nosso homenageado preferir, “et pour cause”, Ulisses. Contudo, um Ulisses de múltiplos périplos, que se não contentou com a ‘sua’ viagem e cuja itinerância representa, por si só, uma bela lição de vida a favor da internacionalização e contra o imobilismo.

Mas, principalmente, um percurso de uma grande humanidade. Mestre no manejo das ideias e na clareza de exposição, no despertar o interesse e a inspiração de tantos, assumiu-se como grande professor e pedagogo fazendo das suas aulas, certamente, o que as aulas devem ser sempre: uma festa! Crítico literário, soube ver, projectado no futuro, o valor, efectivo de muitos autores que tão só despontavam. Esta atenção aos novos autores está, aliás, presente na defesa da causa da língua portuguesa, por que sempre se bateu. Eugénio Lisboa, para além disso, afirmou-se como diplomata e engenheiro (projectou a rede de iluminação de Lourenço Marques); tem mantido uma intervenção cívica notável (em tempos mais difíceis ou menos difíceis); e é um grande comunicador, um excelente conversador e contador de histórias, exímio na prática e na vivência do humor. São desdobradas facetas de uma personalidade de grande fulgor e riqueza.
Destaco ainda, porque me diz muito a mim, a atracção igual que sentiu pelas chama das “duas culturas”:
  • fez muito bem em não ter escolhido, .- ter rejeitado a disjuntiva "ou" … “ou”;
  • em ter percebido logo o que agora sabemos bem, que a cultura é só uma.

Cortesia de arronchesonline

Apenas começou a escrever “quando teve alguma coisa para dizer”, receita que todos deviam seguir a preceito. Mesmo assim foi a tempo de fazer obra séria como ensaísta, como poeta e como dramaturgo.
A trajectória notabilíssima terá tido origem no leitor impenitente e apaixonado que o Eugénio-criança começou logo a ser. Razão maior para concordar com ele quando escreveu “não (crer) que haja desculpa para a literatura a não ser o prazer que ela dá”. E este livro, da iniciativa arrojada dos meus amigos Otília Martins e Onésimo Almeida a quem muito agradeço, pretende também, muito, testemunhar o prazer que Eugénio Lisboa nos deu a todos ao lê-lo.
A dimensão do testemunho é de mais de sete dezenas de contributos, marcante do mérito, prestígio e impacto do homenageado. Aos respectivos autores deixo uma palavra de reconhecimento e gratidão.
Quis a vida e a vontade de alguns que Eugénio Lisboa ficasse para sempre agregado à Universidade de Aveiro. Todavia, ao contrário do agregado de Machado de Assis, e felizmente, estamos perante alguém que acumula pernas longuíssimas com ideias igualmente longuíssimas». In Manuel Assunção, Eugénio Lisboa: Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem, organização de Otília P. Martins e Onésio T. Almeida, Opera Omnia, 2011, ISBN 978-989-8309-20-4.

Cortesia de CMPortalegre/Opera Omnia/JDACT