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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «Abril anda à solta nos pinhais coroado de rosas e de cio, e num salto brusco, sem deixar sinais, rasga o céu azul num assobio»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nocturnos
«Coaxar de rãs é toda a melodia
que a noite tem no seio,
versos dos charcos
e dos juncos podres,
casualmente, com luar no meio».

Espera
«Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça».

Os Amantes sem dinheiro
«Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,

mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços».

Abril
«Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
onde a voz dos ciganos se perdia».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «De mim podia falar-te, mas não sei que dizer-te desta história de maneira que te pareça natural a minha voz»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eugénio de Andrade é, a par de Pessanha, o poeta português mais próximo de uma poesia-música, numa linguagem maximamente cerrada sobre si, ou inesgotável a qualquer paráfrase...» In Óscar Lopes

«Trata-se de um dos maiores líricos da literatura portuguesa, que é também o grande poeta do amor no nosso século XX». In António José Saraiva

(…)
«Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto».

A uma cerejeira em flor
«Acordar, ser na, manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração duma cereja.

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de deixar sós».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Obra de Eugénio de Andrade. 25. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «Foi para ti que criei as rosas. Foi para ti que lhes dei perfume. Para ti rasguei ribeiros e dei às romãs a cor do lume. Foi para ti que pus no céu a lua e o verde mais verde nos pinhais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O vago, o aéreo desta matéria poética faz impressão. E não é que tal vacuidade exclua rigor: antes o vocabulário de Eugénio de Andrade, a sua sintaxe, a sóbria margem do seu metaforismo são instrumentos de expressão ávida de justeza. Mas porque os estados de alma e espírito captados aqui são de um grau excepcionalmente elevado em língua portuguesa». In Vitorino Nemésio

Poética
«O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de Conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra, de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura, é uma reconciliação,  uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho, e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma, é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado. O futuro do homem é o homem, estarmos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, mas o homem do nosso futuro tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração, acção de uma cultura mais interessante em ocultar ao homem o seu rosto que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se revela. E se ousa cantar no suplício é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares de rostos, todos eles  esplendidamente respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.

Canção
«Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?»

Canção Infantil
«Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer? 
Meti tudo no bolso
para os não perder.

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem. 
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece. 
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados. 
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais. 
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A metáfora em Eugénio de Andrade. Carlos Sousa. «Metáfora, o lugar da Mãe, teorias, conceitos, métodos, chuva sobre o rosto, o tempo, o nome da terra, das águas, a transparência do mundo, […] o coração habitado, o rosto precário, a harmonia do mundo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Temas e motivos poéticos
«Importância da linguagem enquanto instrumento  de trabalho: poesia musica verbal; a melodia metafórica; o ritmo; regularidades de ordem silábica, prosódia, de rima, frásica e into-nacional, incidência nas ligações corpo-escrita-terra (ou outros elementos primordiais da natureza); os quatro elementos míticos (fogo, água, ar, terra) metamorfoseados; a natureza, as flores; busca da pureza essencial».

A metáfora em Eugénio de Andrade
A poesia de Eugénio de Andrade é marcada por um lirismo puro, carregado de metáforas luminosas que harmonizam o amor e os quatro elementos primordiais: água, terra, ar, fogo2. Assim: Fogo: verão; Água: fonte, rio, mar; Ar: vento, música, poesia. Terra: ruralidade, casa, mãe, corpo, criança, pastor; reino vegetal (frutos, rosa...); reino animal. Casa, lugar da mãe e do corpo. A habitabilidade prediz o preenchimento, a totalidade. A casa desabitada (porta fechada, casa na chuva...), sinal da ausência da mãe, é lugar de desprotecção e abandono, e, portanto, metáfora do vazio. Poesia do Corpo: na minha poesia o corpo insurge-se, diz coisas despropositadas, põe-se a blasfemar, chegando a pretender-se metáfora do universo (Rosto Precário, 1979). Na poesia de Eugénio a importância do corpo tornou-se um dos mais divulgados lugares comuns do ponto de vista da recepção da sua obra. Mãe, a mãe surge como mediadora face ao desejo (a mãe deseja o desejo para o filho) e à poesia, ao acesso à poesia. Repare-se também na presença de certos aspectos da mitologia cristã ligados à mãe, nomeadamente na sua sacralização, essa fabulosa figura do sacrifício, nas palavras do poeta, que lhe deu o conhecimento da poesia. Encontram-se diversas marcas que podem convalidar esta leitura (das rosas brancas, enquanto metáfora da pureza, à ressurreição e à intercessão) e que nos podem levar a falar de uma revisitação mítica da Imaculada Conceição, veja-se, por exemplo, os ecos da salve-rainha» naquele verso de Coração do Dia (1958) onde se lê: ó cheia de doçura.

O tempo
Essencialmente há três linhas segundo a metáfora vitalista: a infância, a idade madura (onde se instaura a coincidência estrutural que faz representar a idade como verão) e por fim o declínio. Setembro, mês de passagem, o mesmo que Outono, com o sentido de melancolia. Inverno, tempo de ausências e um dos tempos de travessia. São sobretudo as formas verbais (crescer, chegar, aproximar, atravessar) que evidenciam o alcance metafórico da etapa. É o corpo o lugar que mais sofre a travessia. Dezembro traz em si a primavera (As Mãos e os Frutos, 1948), a presença de Dezembro neste verso mais do que afirmar ou expandir propriedades que em si figurariam a metaforização de um universo de desolação, desertificação ou esterilidade, reenvia para os sentidos de um Inverno fecundante pretextando a Primavera. Diremos prado bosque / primavera, / e tudo o que dissermos / é só para dizermos / que fomos jovens (Mar de Setembro, 1961). Visão global da metáfora desejo, exaltação, claridade, juventude. A Primavera como tempo (metáfora) de transição anunciando outra estação que será outra, mais acabada, metáfora do desejo enquanto plenitude: o Verão. Portanto, são impacientes e amargos os dias de Abril (Ostinato Rigore, 1964) e as luzes de Março aparecem adjectivadas de inquietas, loucas, despidas. Talvez, afinal, só o Verão (metáfora) conduza à coroa do lume: Esse gosto a sangue / que trazia a primavera, se primavera havia, / não conduz à coroa do lume (Branco no Branco, XVIII, 1984). O Verão (a luz, o sol, o calor, o incêndio, o sul, a brancura, as águas, as dunas, a animalidade, a habitabilidade...) aparece como lugar do desejo e da plenitude amorosa, metáfora feliz de sedução, conectando-se intimamente com as referências ao corpo: lábios, peito, flancos. Justamente o poema 26 de Mar de Setembro, 1961, intitula-se Eros e em Ostinato Rigore o poema Anunciação da Alegria é paradigmático ao nível de uma anunciação positiva:

«Devia ser verão, devia ser jovem
ao encontro do dia caminhava
como quem entra na água.

Um corpo nu brilhava nas areias
corpo ou pedra?, pedra ou flor?

Verde era a luz, e a espuma
do vento rolava nas dunas.

Aproximei-me desse corpo nu,
o coração latino de alegria.

De repente vi o mar subir o prumo,
Desatar inteiro nos meus ombros.

Sem muros era a terra, e tudo ardia».

Dentre as histórias de Verão, declaradas histórias de desejo, releva-se a presença do animal, do cavalo. Fábula é uma história exemplar que mostra a contemplação da cena fundadora, olhar de criança que descobre a realização plena do desejo: sobreleva a imagem do homem. Um cavalo ofegante, olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto, mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo. Esta noite preciso de outro verão sobre a boca crescendo nem que seja de rastos; O verão é branco e sempre ficam sinais (Véspera da Água, 1973), sinais do desejo». In Carlos Mendes Sousa, O Nascimento da Música, A Metáfora em Eugénio de Andrade, Edições Almedina, Cultura e Literatura Portuguesa do século XX, Coimbra, 1992, ISBN 978-972-400-678-9.

Cortesia de Almedina/JDACT

As Mãos e os Frutos de Eugénio de Andrade e de Lopes-Graça. Ana Ribeiro Oliveira. «… “sinais que foi semeando” (considerando que, em poesia, as palavras não são nomes, são sinais, Eugénio de Andrade é um semeador de sinais) ao longo da sua obra e que nos permitirão ilustrar o percurso da sua escrita»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Falar da poesia de Eugénio de Andrade implica, de certa forma, falar de música. Da música das suas palavras e da que a prolonga, nascida, neste caso, das mãos de Lopes Graça, que um feliz acaso me fez encontrar e que originou a vontade de me deter nestas duas formas de arte, para tentar descobrir como os sons musicais e a palavra se cruzam e se complementam no universo destes artistas». In Ana Cristina R. O.

«Haverá, certamente, alguma forte razão para que em parte alguma encontremos culturas cujo canto seja completamente desprovido de palavras, desprovido de poesia. De facto, apesar de serem artes autónomas e com características muito próprias e distintivas, a literatura e a música sempre conviveram e se influenciaram mutuamente ao longo da sua história, ainda que feita de encontros e desencontros, mantendo uma intensa relação criativa e inspirando-se reciprocamente. Orpheu, o músico e o poeta que, com o seu canto, amansava as feras, animava as pedras, fazia mover as árvores e pacificava os homens, é o símbolo mítico desta profunda união entre as duas artes…, diz-nos Aguiar Silva. Protegidas pelas musas da antiga Grécia, música e poesia eram indissociáveis. A música acompanhava a poesia lírica, que deverá esta designação à lira, instrumento usualmente utilizado, a par do aulos e da cítara. Se bem que hoje não se possa considerar que a música e literatura se influenciem de forma directa como já aconteceu no passado, em que a evolução de uma testemunhava de perto a da outra, ou que a literatura seja a principal influenciadora da música, e muito menos a música a fonte mais demandada pelos homens de letras, é difícil não concordar com João Freitas Branco quando afirma que não é preciso ser profeta para intuir a perduração deste intercâmbio de musas. Há genes comuns a literatura e música.
Para Lopes Graça, torna-se igualmente difícil estabelecer rigoroso e nítido ponto de separação entre a palavra e o canto; se é certo que aquela pode, sob o império da paixão, tender para a música, (…) também o canto, ao invés, quando se quer fazer mais persuasivo e, sobretudo, quando expõe, canta ou narra, como no recitativo, tende para as condições da voz falada. Tentaremos perceber esta ligação entre poesia e música, analisando a linguagem poética de Eugénio de Andrade e a linguagem musical de Lopes Graça, ligação que estes homens que se destacaram nas artes portuguesas cultivaram de forma modelar. É usual, por parte da crítica, a associação da escrita de Eugénio de Andrade à arte dos sons. De resto, o próprio escritor, frequentemente, a referiu nos seus escritos. A musicalidade das suas palavras, a sonoridade e ritmo dos seus versos, as diferentes tonalidades melódicas que sugerem e a brevidade das suas composições serão alguns dos aspectos que aproximam a sua à arte dos sons. Também Lopes Graça encontrou na literatura inspiração frequente para a sua criação musical, onde é visível o enorme interesse que a produção literária portuguesa sempre lhe suscitou. De facto, percorrendo a vasta obra musical que nos legou, deparamo-nos com um extenso leque de escritores que mereceram a sua atenção, entre os quais se encontram os mais representativos da nossa literatura, desde os seus primórdios à actualidade, e que ele tentou incansavelmente difundir e ilustrar com os sons musicais.
Da obra destes dois artistas, seleccionámos As Mãos e os Frutos, primeiro livro do poeta e o ciclo de músicas para voz e piano do compositor, com o intuito, não só de fazer uma leitura das composições, mas também de tentar demonstrar que duas formas de arte podem completar-se, evidenciando essa união tão natural e que se manteve inalterável durante tanto tempo. A poesia de Eugénio de Andrade será objecto de uma abordagem genérica e abrangente, dando especial ênfase a palavras que o poeta reutiliza ao longo da sua criação poética e intimamente ligadas ao seu primeiro livro, sinais que foi semeando (considerando que, em poesia, as palavras não são nomes, são sinais, Eugénio de Andrade é um semeador de sinais) ao longo da sua obra e que nos permitirão ilustrar o percurso da sua escrita. Assim, as mãos e os frutos, que nele surgem com um destaque especial, que lhes é dado até pelo próprio título do livro, constituirão a fonte de onde decorrem outras imagens e palavras que povoam o seu universo poético.
Encontramos, na sua poesia, algumas repetições obsessivas de temas, palavras, expressões ou imagens que atestam as suas preferências solares, mas também algumas que podemos adjectivar de nocturnas, que se vão transformando para dar lugar sucessivamente a novas palavras e imagens. De resto, é o próprio poeta o primeiro a reconhecer a sua atracção pelas metamorfoses que surgem frequentemente na sua poesia: À melodia exasperada e expectante, cálida e apaziguadora de Eros, a esse canto que da fundura do ser remonta às vertentes da morte, deve a minha poesia quase sempre o impulso inicial. Mas só esse impulso, pois é então que outra paixão começa: a das metamorfoses. Muitas palavras poderiam ser apontadas, já que as metamorfoses que se vão apresentando nos seus versos são múltiplas e algumas até surpreendentes. Consideraremos, no entanto, as palavras que estão mais intimamente ligadas ao seu primeiro livro, ou o que foi por ele assim considerado, durante muito tempo». In Ana Ribeiro Oliveira, As Mãos e os Frutos de Eugénio de Andrade e de Lopes-Graça, Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 7 de março de 2014

Mãe-D’Água. Ou a Poesia de Eugénio. Óscar Lopes. «… a própria astrologia morre entre Kepler e Newton, a segregar uma mecânica que é tão terrestre como celeste; a alquimia morre entre Paracelso e Niels Bohr a segregar estruturas moleculares, atómicas e quânticas»

jdact e wikipedia

«Este título ocorreu-me sem que eu ainda agora saiba ao certo porquê, e de um modo obsessivo. Reconheço que a frase mãe-d'água já mexe de há muito comigo; grafada assim, com um apóstrofo, lembro-me de a ter lido, numa ressonância de lenda à esquina de uma rua, ou travessa, ou escadinhas, era então estudante em Lisboa; mas o apóstrofo não corresponde à minha pronúncia infantil nortenha, sem contracção vocálica e boleada por um ditongo que hoje me soa um pouco ao galego: mãe diágua. Fico logo a ver uma fonte, nascente, mina ou reservatório de aqueduto, mas com o líquido a borbulhar desde o fundo, o que terá talvez que ver com outra expressão afim, olhos de água, aliás um título ribatejano de Redol. Hoje os mitos refugiam-se em constelações verbais como estas, que bastam para animar um devaneio, sem qualquer necessidade de enredo ou lenda. E eis desde já uma coisa que se liga à poesia de Eugénio de Andrade: a sua aura mítica, mas sem o alarde de qualquer mito, a sua materialidade verbal ou frásica directamente presa a uma certa memória, como que imemorial, quero dizer, uma memória que mal precisa do suporte de um sujeito civil, porque irradia logo dos usos de certas palavras em certas conexões, certas entoações, a evocar flutuantes situações de fala, memória que se coa através de não se sabe que interstícios comunicativos, ligados entre si, mas sempre de maneira nova a cada leitura do poema.
A mãe-d'água do título surgiu, portanto, como um enigma a decifrar; e a frase está aí ligada ao nome do poeta através de um ou que é também muito seu e perturbante. Não se trata do ou de disjunção (que, de resto, os semanticistas já consideram muito ambíguo no seu estrito sentido lógico); não é o ou de certas subtitulações muito em moda no século XVIII (Justine, ou les Malheurs de la Vertu); é um ou de conexão resignadamente imprecisa, aberta às disponibilidades receptivas do leitor ou destinatário, e que num seu belo poema se desdobra em ou, se preferes, e que, aí mesmo (como noutros poemas), equivale a coisas ou referências puramente virtuais, marcadas por um como se, um como quem, e, outras vezes, nos convida a arbitrar entre sinónimos de criação meramente contextual pássaro ou rosa ou mar, ou entre um rosário de imagens a apontar para o objecto de um mesmo ardor. Podemos generalizar a toda a obra de Eugénio o âmbito desta disjunção que se oferece ao leitor. Com efeito, e tal como nas nossas melhores poesias paralelísticas do século de 1200, embora abandonando qualquer rigidez arcaica de ordem estrófica ou outra, os seus poemas avançam por modulação contínua das imagens ou frases, como que entre coisas disjuntas mas afins, aleatórias mas afinal consequentes, num certo enrredar das palavras com aquele grande silêncio em que elas se perfazem.
Falei há pouco na disseminação dos mitos antigos, cuja real vitalidade acaba por se abrigar em simples junturas verbais que, despercebidamente, nos brincam na boca e que certos poetas conseguem coagular e chamar à atenção em textos surpreendentes. Eugénio parece que precipita os mitos em cristais, mas de uma substância que escapasse a qualquer fórmula química ou a quaisquer eixos definidos de cristalização, e que todavia sugerissem a precisão de uma sua especial química ou cristalografia. Já certos românticos (e deles há ecos em Eça e Antero) explicaram a importância moderna (pós-renascentista) da música como sendo o indispensável sucedâneo da mitologia, e também dos dogmas e dos ritos solenes, claramente em agonia, apesar de apoiados por tantos artifícios ou próteses: a própria astrologia morre entre Kepler e Newton, a segregar uma mecânica que é tão terrestre como celeste; a alquimia morre entre Paracelso e Niels Bohr a segregar estruturas moleculares, atómicas e quânticas. Fazem-se ainda hoje prodígios de elucubração metafísica (talvez sempre, no fundo, teológica) para ressalvar a vigência de quaisquer mitos esotéricos ou cabalísticos, a pretexto de contradições teoréticas que há nas ciências, contradições inevitavelmente nascentes a cada passo em frente e até propulsoras do próprio progresso racional e de uma eficácia técnica crescente (de que o esotérico nem prescinde). Mas para quê tanta freima fideísta, se o melhor de todos os mitos subsiste, despercebido, na mais correntia das frases e nos actos de comunicação, e comunicação tem até, etimologicamente, que ver com comunhão: aquilo que ainda vive das religiões ou mistérios mora, afinal, no grande mistério quotidiano de as pessoas se falarem, e de cada qual de nós se identificar, sem dar por isso, a qualquer outro na alteridade (a ambos comum) da própria fala». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Mãe-D’Água, ou a Poesia de Eugénio, Boletim da 63ª Feira do Livro, 1993, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Jazz. As Mãos. Bernardo e Mário. «Como um sol de polpa escura para levar à boca, eis as mãos: procuram-te desde o chão, entre os veios do sono e da memória procuram-te: à vertigem do ar abrem as portas: vai entrar o vento ou o violento aroma de uma candeia…»

Cortesia de wikipedia

«As minhas mãos magritas, afiladas,
tão brancas como a água da nascente,
lembram pálidas rosas entornadas
dum regaço de Infanta do Oriente.

Mãos de ninfa, de fada, de vidente,
pobrezinhas em sedas enroladas,
virgens mortas em luz amortalhadas
pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.

magras e brancas... Foram assim feitas...
Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...
Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!

Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!
Ó minhas mãos, aonde está o céu?
...Aonde estão as linhas do teu rosto?»


«Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
 - eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece».

JDACT

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Poesia. Eugénio de Andrade: «Assim se morre dizias tu, assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura. “Em cada dia que passa vemos o mundo tornar-se menor…”»

Cortesia de icicomup

Sobre a Palavra
Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente.
Eugénio de Andrade, in «Véspera da Água»


Sobre o Caminho
Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho.
Eugénio de Andrade, in «Véspera da Água»

JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2011

Há dias assim... Dia Mundial da Poesia: Eugénio de Andrade. «...Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura. ...esqueceste que as minhas pernas cresceram... e até o meu coração ficou enorme, mãe!»

Cortesia de coremmovimento

No Mais Fundo de Ti No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, in «Os Amantes Sem Dinheiro»

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sábado, 13 de novembro de 2010

Eugénio de Andrade: «Respiro o teu corpo: sabe a lua-de-água ao amanhecer, sabe a cal molhada, sabe a luz mordida, ... »

Cortesia de lagrimaacesa

Respiro o teu corpo
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade

As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade

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