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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?»

Cortesia de wikipedia

O reverendo padre Lefèvre
«(….) Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboreando uma expressão de severa majestade, que incutia respeito. Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerimónia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido… como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Noutra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua onisciência, que a condessa já de nada se espantava. Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?
Sim, meu padre, disse Diana. Preciso de encontrar nas palavras e nos conselhos de Vossa Paternidade um conforto às dúvidas, que me amarguram a vida. Supliquei-vos que fosseis o meu director espiritual, porque a vossa fama de piedade, de saber, de austeridade… Obrigado, minha filha. A Companhia de Jesus foi instituída há poucos anos, mas o Senhor abençoou os nossos esforços, e hoje já dirigimos a consciência dos mais ilustres personagens católicos. De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu, e o frade inclinou-se com orgulhosa modéstia, não é difícil tarefa manter-vos sempre no caminho da salvação. Diana parecia hesitar.
Meu padre, disse ela afinal, tenho de fazer-vos confissão de algumas faltas mais graves; mas primeiro desejava saber…, se é certo…, como se diz... Eu concluo a vossa frase, filha. Desejais saber se é certo, como se diz, que os padres da Companhia de Jesus têm para com os pecadores uma indulgência muito superior à que costumam ter os outros confessores; se é verdade que eles têm os meios de diminuir aos olhos dos pecadores a gravidade das suas faltas, e de reconciliar com Deus, sem sacrifícios. É isto que desejais saber minha filha? É, meu padre..., ou pelo menos alguma coisa parecida. Pois bem, ficai então sabendo que esta nossa indulgência que os descrentes nos censuram como uma culpa gravíssima, é verdadeira. Diana fez um gesto de espanto. Oh! entendamo-nos!, disse com o seu frio sorriso o padre Lefèvre, nós somos tão severos como os outros, quando trata de culpas cometidas com pura maldade e só com a intenção de fazer mal; mas, quando julgamos os pecados, sabemos distinguir o elemento mau da intenção, das circunstâncias e dos impulsos exteriores; e quanto mais fortes são estes, tanto mais benévolos nós somos em perdoar a queda.
Não vos compreendo bem, meu padre, disse a jovem viúva, tornando-se pensativa. Eu vos apresento um exemplo, disse o jesuíta, envolvendo num olhar perscrutador toda a pessoa da condessa. Suponhamos que uma jovem, vendo passar um príncipe belo, valoroso galante, lhe corre ao encontro e se lhe lança aos pés, oferecendo-se o corpo; essa tal seria uma mulher perdida, uma cortesã dissoluta, uma condenada às penas eternas, que sofrem os que pecam por luxúria. E então?..., perguntou Diana em grande ânsia. Mas suponhamos agora que aquele príncipe, tanto mais pronto a irar-se, quanto mais poderoso, tinha resolvido fazer morrer o pai daquela jovem. Suponhamos que ela resgatou, à custa da própria honra, a vida de seu pai, e nesse caso converteu-se ela numa Judite, transformou-se numa heroína.
Padre! Padre!, que dizeis!, exclamou a condessa. Porventura conheceríeis vós alguma jovem, alguma mulher que se achasse nestas circunstâncias?, perguntou com absoluta tranquilidade o padre Lefèvre. Diana, completamente abatida, deixou pender os braços. Eles sabem tudo; murmurou, sabem tudo, e eu, como louca, quero competir com eles… Com estes aliados serei tudo, sem eles não serei nada… Oh! É preciso que eu me decida! E resolutamente, voltando-se para o jesuíta, disse-lhe: meu padre, tende a bondade de me ouvir de confissão. Estou pronto, minha filha, respondeu o jesuíta, disfarçando um sorriso de triunfo, que lhe despontava nos lábios». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O Papa Negro no 31. Ernesto Mezzabota. «De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O reverendo padre Lefèvre
«(….) Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboiardo uma expressão de severa majestade, que incutia respeito. Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerim+onia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido. . . como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Em outra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua omnisciência, que a condessa já de nada se espantava.
Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso… Viestes para vos confessardes? Sim, meu padre, disse Diana. Preciso de encontrar nas palavras e nos conselhos de Vossa Paternidade um conforto às dúvidas, que me amarguram a vida. Supliquei-vos que fósseis o meu director espiritual, porque a vossa fama de piedade, de saber, de austeridade… Obrigado, minha filha. A Companhia de Jesus foi instituída há poucos anos, mas o Senhor abençoou os nossos esforços, e hoje já dirigimos a consciência dos mais ilustres personagens católicos. De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu, e o frade inclinou-se com orgulhosa modéstia, não é difícil tarefa manter-vos sempre no caminho da salvação. Diana parecia hesitar.
Meu padre, disse ela afinal, tenho de fazer-vos confissão de algumas faltas mais graves; mas primeiro desejava saber…, se é certo…, como se diz... Eu concluo a vossa frase, filha. Desejais saber se é certo, como se diz, que os padres da Companhia de Jesus têm para com os pecadores uma indulgência muito superior à que costumam ter os outros confessores; se é verdade que eles têm os meios de diminuir aos olhos dos pecadores a gravidade das suas faltas, e de reconciliar com Deus, sem sacrifícios…. É isto que desejais saber minha filha? É, meu padre..., ou pelo menos alguma cousa parecida. Pois bem, ficai então sabendo que esta nossa indulgência que os descrentes nos censuram como uma culpa gravíssima, é verdadeira. Diana fez um gesto de espanto. Oh! Entendamo-nos!, disse com o seu frio sorriso o padre Lefèvre, nós somos tão severos como os outros, quando trata de culpas cometidas com pura maldade e só com a intenção de fazer mal; mas, quando julgamos os pecados, sabemos distinguir o elemento mau da intenção, das circunstâncias e dos impulsos exteriores; e quanto mais fortes são estes, tanto mais benévolos somos em perdoar a queda.
Não vos compreendo bem, meu padre, disse a jovem viúva, tornando-se pensativa. Eu vos apresento um exemplo, disse o jesuíta, envolvendo num olhar perscrutador toda a pessoa da condessa. Suponhamos que uma jovem, vendo passar um príncipe belo, valoroso galante, lhe corre ao encontro e se lhe lança aos pés, oferecendo-se o corpo; essa tal seria uma mulher perdida, uma cortesã dissoluta, uma condenada às penas eternas, que sofrem os que pecam por luxúria. E então ?..., perguntou Diana em grande ânsia. Mas suponhamos agora que aquele príncipe, tanto mais pronto a irar-se, quanto mais poderoso, tinha resolvido fazer morrer o pai daquela jovem. Suponhamos que ela resgatou, à custa da própria honra, a vida de seu pai, e nesse caso converteu-se ela numa Judite, transformou-se numa heroína. Padre! Padre! Que dizeis!, exclamou a condessa. Porventura conheceríeis vós alguma jovem, alguma mulher que se achasse nestas circunstâncias?, perguntou com absoluta tranquilidade o padre Lefèvre. Diana, completamente abatida, deixou pender os braços. Eles sabem tudo; murmurou, sabem tudo, e eu, como louca, quero competir com eles… Com estes aliados serei tudo, sem eles não serei nada… Oh! É preciso que eu me decida! E resolutamente, voltando-se para o jesuíta, disse-lhe: meu padre, tende a bondade de me ouvir de confissão. Estou pronto, minha filha, respondeu o jesuíta, disfarçando um sorriso de triunfo, que lhe despontava nos lábios. Diana sentou-se num escabelo forrado de veludo, e o sacerdote numa cadeira. Meu padre, já sabeis que sou filha do conde de Saint-Vallier, o nobre fidalgo, que auxiliou a fuga do duque de Bourbon, e que por tal facto foi condenado à morte pelo rei Francisco I. Nem os rogos dos amigos, nem as súplicas dos parentes, conseguiram obter para o condenado a clemência do rei. Então, eu, enchendo-me de coragem, corri à corte e lancei-me aos pés do soberano. Foi uma imprudência da minha parte, não é assim, meu padre? Era esse o vosso dever de filha, respondeu o jesuíta, impassível. Continuai. O rei recebeu-me afectuosamente, e quase com respeito: ordenou que se suspendesse por um dia a execução, que estava marcada para o dia seguinte. Quando eu me erguia do chão, onde me tinha prostrado para lhe fazer aquele pedido, o rei murmurou-me ao ouvido: esta noite…, conceder-te-ei completamente..., o perdão de teu pai. Eu quis protestar, quis resistir, mas o soberano disse-me com altiva frieza: dize que não, e a cabeça do conde de Saint-Vallier rolará do patíbulo na praça de Greve». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

No 31. O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(….) Henrique pareceu-lhe ver tremer uma lágrima nos olhos da condessa, tão cruelmente e indirectamente ofendida, e louco, alucinado, caiu-lhe aos pés. Oh! Perdoai-me, Diana!..., exclamou ele extremamente agitado, perdoai-me, porque o meu amor é tamanho que decerto me perturba a razão! Mas ao ver-vos tão bela e encantadora, parece-me impossível que haja alguém que se não apaixone por vós, e que não empregue todos os meios para que vós aceiteis o seu amor… Não me desprezeis, Diana, porque senão, à fé de Valois!..., cometo uma loucura!... E o mancebo, em cujo cérebro se debatiam as mais delicadas fantasias cavalheirescas com os grosseiros costumes das caçadas e dos quartéis, prostrou-se de novo aos pés da condessa. Esta, como que absorvida num pensamento mais relevante, não reparava no mancebo, e deixava que este lhe apertasse a mão com apaixonado ardor. E contudo, murmurou a condessa, ao cabo de um breve silêncio, e contudo, seria todo o meu sonho ser a inspiradora de um jovem, valente, poderoso…, guiá-lo no caminho da glória…, fazer dele um grande príncipe, um herói…
Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerar-vos-ei como a salvadora da casa de França. Silêncio! Erguei-vos!, respondeu a condessa, que viu que era tempo de pôr termo àquela cena. Vem aí algum dos meus criados. Com efeito, naquele momento batiam à porta do salão e uma aia, tendo pedido licença, entrou e inclinou-se, dizendo à condessa: senhora, o reverendo padre Lefèvre chegou agora para a conferência espiritual do costume. Que o reverendo padre tenha a bondade de passar ao oratório… Monsenhor, perdoai-me se vos deixo; vou falar com o senhor de todos os tronos, vou confessar-me a um ministro de Deus. Sois uma santa!, exclamou o príncipe, depondo na bela mão da gentil dama um beijo apaixonado. A condessa deu-lhe em troca um sorriso cheio de amor e de tristeza; depois, tendo acompanhado o príncipe até à porta, como competia à hierarquia do seu real adorador, dirigiu-se para o oratório, onde a esperava o reverendo padre Lefèvre. Se Henrique a tivesse visto naquele momento, é provável que a sua paixão se convertesse em horror. A fisionomia daquela mulher brilhava de uma alegria tão malévola, nos seus lábios pairava um ar de desprezo tão profundo, que a beleza ideal da inconsolável viúva desaparecia, dando-lhe ao rosto uma expressão sinistra em que se reflectiam as mais tristes paixões. Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!
                   
O reverendo padre Lefèvre
Ao passar da sala onde recebera o príncipe para o oratório onde a esperava o jesuíta, Diana lançara sobre os ombros uma capa, que cobria todas as cândidas belezas, cuja vista acendera tamanho fogo de desejos no coração do príncipe Henrique. A sereia bem compreendia que os meios de influir sobre um mancebo inexperiente e inflamável deviam ser diferentes dos que precisava empregar para ser bem-vista por um sombrio e austero frade. Por isso, quando entrou no oratório, Diana levava um vestido muito simples, e apresentou-se de fronte serena, com o olhar franco e tranquilo de quem não tem nada que se lhe lance em rosto. O padre Lefèvre pouco tinha mudado desde aquele dia em que o vimos entre os cavaleiros templários tomar o partido de Inácio de Loiola, e inscrever-se com os outros cinco companheiros na nova instituição, proclamada por Inácio sob o nome de Companhia de Jesus. Era sempre o mesmo tipo de montanhês, de elevada estatura, de porte austero, magro, de feições e formas angulosas. Conservava-se ordinariamente de olhos baixos, mas era fácil perceber, quando erguia o olhar, que a humildade monástica não tinha apagado neles o lampejo de orgulho». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

domingo, 17 de junho de 2018

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «O demiurgo bíblico desempenha assim a mesma função que o deus egípcio Thot que separa as línguas de país em país»

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Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…)
O Egipto e a Bíblia
A Bíblia foi um livro de referência para os imagineiros da Idade Média. A Bíblia no seu sentido mais alargado, uma vez que os livros ditos apócrifos, fundamentalmente por razões de propaganda dogmática, foram também largamente utilizados como livros canónicos. O sábio alemão Siegfried Morenz, que se debruçou sobre o problema das relações entre a Bíblia e o Egipto, considerava que a contribuição egípcia para o livro sagrado dos cristãos era bastante considerável. Quando os escultores faziam nascer na pedra os temas bíblicos, prolongavam desse modo o pensamento egípcio sob a forma que lhes era própria. Em certos casos, as passagens da Bíblia, nomeadamente no domínio dos Hinos, dos Salmos ou dos tratados relativos à Sabedoria, são adaptações, ou melhor, traduções de originais egípcios. Pensemos, por exemplo, na adaptação bíblica do grande hino do faraó Akhenaton, na glória do poder divino que anima todos os seres criados. Para interpretar a Bíblia à luz do Egipto, seriam necessários, sem dúvida, vários volumes.

O Coração dócil de Salomão
O princípio de realeza hebraico não pode ser entendido sem referência à realeza egípcia. O orientalista Frankfort demonstrou claramente que o abandono do princípio real pelos hebreus isolou-os da grande corrente tradicional. Quando reza, o grande Salomão faz um pedido particular ao Senhor: ter um coração dócil. Expressão de cariz muito egípcio. Na simbólica faraónica, o coração é, o símbolo da consciência. Nos hieróglifos, a palavra coração á representada por um vaso. É entendido como o receptáculo interior do homem, o lugar, onde acolhe as directivas divinas. O coração dócil de Salomão não é mais que a inteligência do coração, a intuição das causas de que o rei das tradições antigas se serve para fazer do seu reino uma terra celeste. Somos também levados a pensar num dos aspectos da simbólica do Graal, por vezes considerado como um cálice tão precioso que contém os segredos do universo; e igualmente evocamos o sagrado coração, de Cristo onde os fiéis encontram refúgio.

A Sombra do Senhor
É no Rei-Deus, concebido não como um indivíduo mas como uma entidade simbólica à medida do cosmos, que os indivíduos encontram equilíbrio e segurança, As Lamentações mostram que as nações vivem na sombra do senhor, que é o sopro das narinas, ou seja, o princípio vital que anima os seres. Ora o faraó Ramsés II era evocado nesses termos: tu que és o sopro das nossas narinas, falcão que protege os seus súbditos com as asas e sobre eles derrama a sombra. A sombra pode, por conseguinte, ter um valor positivo. Não é o peregrino, no interior da catedral, protegido pela sombra das abóbadas para que o sol nele renasça?

A Torre de Babel
Jeová, inquieto pelos conhecimentos ostentados pela comunidade dos construtores, estabelece a confusão das línguas para impedir que os Irmãos se compreendam e levem a bom termo a construção da torre de Babel. O demiurgo bíblico desempenha assim a mesma função que o deus egípcio Thot que separa as línguas de país em país». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «...tanto as formas literárias do pensamento egípcio como o seu conteúdo não eram desconhecidas do judaísmo tardio ortodoxo ou sectário»

jdact

Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…)
O Gnosticismo Egípcio
Entre os principais temas gnósticos está a Luz divina, que se incarna na pessoa simbólica de Cristo, muito mais importante que o Jesus histórico. Como não pensar então numa tradução gnóstica de Ra, o deus-sol dos egípcios que sustenta a energia do universo? Um mito egípcio, de que são conhecidas numerosas versões, conta como o Olho do Sol, tomado por uma cólera terrível, abandona o astro do dia e foge para longe, para o deserto. O pavoroso resultado dessa fuga é o desequilíbrio do mundo e o fim certo da humanidade. Thot, o senhor dos hieróglifos, o santo patrono da ciência sagrada, foi encarregado pelo Criador de apaziguar a cólera do Olho e de transformar a raiva em amor. O deus de cabeça de íbis conseguiu levar a bom termo a sua missão, trazendo o Olho para o Egipto. A ordem primordial foi assim restabelecida. Os gnósticos puseram este mito em paralelo com a redenção da humanidade, conseguida pelo Salvador. Mas também redenção do indivíduo, que tem de encontrar o Olho perdido de modo a recuperar um olhar total, uma visão do mundo que seja Amor. Não apenas um amor afectivo mas também o Amor que nasce do Conhecimento, pela virtude dos ensinamentos de Thot. O primeiro dever do faraó era o de sacralizar a terra egípcia, fazer dela uma terra celeste. Se a Gnose insistiu no carácter maléfico da matéria desviada em relação à Luz, não esqueceu este processo de sacralização. Como não o esqueceram os Mestres de Obras da Idade Média, que se lembravam das palavras de Hermes Trismegisto (nome que os gregos davam a Thot) : ignoras tu, então, dizia ele ao seu discípulo Asclépio, que o Egipto é a cópia do céu ou, melhor dizendo, o lugar onde, aqui em baixo, se transferem e projectam todas as operações que governam e empregam as forças celestes? Para dizer a verdade, a nossa terra é o templo do mundo inteiro. Segundo diz uma profecia, os deuses um dia voltarão a descer até nós. E já escolheram o lugar onde farão a sua morada: no limite do Egipto, numa cidade fundada do lado poente. É para essa cidade que os homens se dirigirão para reencontrar a Sabedoria.

Os Judeus do Egipto
A cabeça do Egipto, o primeiro dos nomos ou províncias, situava-se em Elefantina, onde se encontra a fonte mítica do Nilo, rio ao mesmo tempo celeste e terreno. Foi em Elefantina que se instalou uma colónia judia, que não se contentava apenas em desempenhar um papel económico mas que desenvolveu uma forma religiosa original, composta por elementos hebraicos e egípcios. Como os judeus tinham igualmente uma presença notável em Alexandria, consegue perceber-se que frequentavam os dois pólos extremos do país dos faraós. É facilmente compreensível que os judeus que rumaram a Ocidente trouxessem com eles ideias e símbolos que tinham praticado no Egipto. O egiptólogo François Daumas, ao analisar os ritos do mistério do nascimento divino no Egipto, constata que: ...tanto as formas literárias do pensamento egípcio como o seu conteúdo não eram desconhecidas do judaísmo tardio ortodoxo ou sectário. Vários indícios testemunham, por exemplo, que os essénios (seita judia de que Cristo foi muito provavelmente um dos Mestres e de que revelou uma parte dos mistérios na sua doutrina oral) do Khirbet Qumrân ou os autores dos livros deuterocanónicos, que viviam no Egipto, conheciam a literatura egípcia antiga ou contemporânea.
Moisés, uma das personagens centrais do pensamento judaico, está ligado de forma bastante estreita ao Egipto. O sacerdote erudito Henri Cazelles viu-se obrigado a reconhecer que Moisés era um alto funcionário da corte egípcia. Além disso, segundo os Actos dos Apóstolos, não tinha ele sido educado em toda a sabedoria dos egípcios? É certo que algumas correntes do pensamento hebraico, com uma surpreendente vaidade, afirmaram que as melhores inspirações da religião egípcia lhes eram devidas. Só assim se percebe que Moisés tenha sido por vezes apresentado como o criador e o mestre do alfabeto sagrado, em vez de ThotIn Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «No centro do cristianismo primitivo situa-se a Gnose, isto é, o Conhecimento ou, mais exactamente, o desejo de Conhecimento»

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Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…)
O Egipto, Centro do Mundo
O drama atroz que foi o incêndio da muito celebrada biblioteca de Alexandria privou-nos de testemunhos escritos inegavelmente importantes sobre a efervescência espiritual desta época. Apesar disso, não há dúvida que a antiguidade greco-romana tinha o maior dos respeitos pela tradição egípcia e considerava o país dos faraós a terra da Sabedoria por excelência. Muitas das coisas vindas do Egipto, diz Momus, são enigmas; quem nelas não for iniciado, delas não se deve rir. Plutarco, iniciado nos mistérios egípcios põe-nos igualmente de sobreaviso: se estas coisas forem tomadas à letra, sem cuidar de se procurar o seu sentido mais nobre, é preciso que se cuspa de imediato e que se lave bem a boca. Os gregos revestiram os deuses egípcios de denominações helénicas e integraram-nos na sua mitologia; os romanos tomaram para si esta aparelhagem, simbólica que nunca compreenderam grandemente. Quando se desenvolveu no Ocidente, o cristianismo seguiu a mesma via, preservando assim os originais egípcios sob os véus sucessivos trazidos pelo tempo.

Ramsés II e São Pedro
Certos grupos religiosos estabelecidos no Egipto recusaram adoptar a nova forma religiosa do cristianismo, pretendendo preservar o que se convencionou chamar paganismo. Não conseguiram escapar à dissolução, mas não sem antes os seus ensinamentos serem estudados e retomados, pelo menos em parte, pela igreja oficial. O pensamento egípcio e o pensamento cristão estiveram em contacto sobre o próprio solo egípcio; podemos mesmo dizer que um aspecto essencial do cristianismo nasceu no Egipto, em contacto, portanto, com a antiga civilização, que não tinha ainda desaparecido por completo. Não esqueçamos que no Egipto, como na Europa, muitas igrejas não eram mais que templos que tinham mudado de nome. Em muitos casos, os novos cristãos celebravam o seu culto no mesmo local onde os pagãos tinham celebrado os seus. Na terra dos faraós, egípcios de linhagem pura tornaram-se cristãos. Embora tenham modificado a sua mentalidade religiosa, não abandonaram, porém, a cultura ancestral de que descendiam.
Para situarmos, através de um caso excepcional, as relações entre o Egipto e o cristianismo, evoquemos uma cena do templo núbio de Ouadi es Sebouâ. Quando os cristãos tomaram o local, encontraram as cenas clássicas da iconografia sagrada dos egípcios, que compreendia, nomeadamente, o diálogo do faraó com os deuses. Fizeram desaparecer tudo isso sob pinturas de acordo com a sua fé. Mas, com o passar do tempo, uma parte da ocra acabaria por desaparecer. Aquilo com que o espectador ficou diante dos olhos foi uma cena inacreditável, que tem para nós, apesar de resultar do acaso, um significado simbólico: o faraó Ramsés II, ressurgindo à luz, oferece o ramalhete ritual a São Pedro!

O Gnosticismo Egípcio
Na sua origem, o cristianismo não é um bloco religioso homogéneo. Não é ainda rígido na formulação da sua fé e conta numerosas tendências no seu seio. No centro do cristianismo primitivo situa-se a Gnose, isto é, o Conhecimento ou, mais exactamente, o desejo de Conhecimento. Ora a Gnose é um movimento egípcio, com as suas múltiplas ramificações, os seus numerosos textos sagrados, as suas diversas percepções da divindade, que não querem ser reduzidas a uma só, a um credo, para evitar o dogmatismo». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «Curiosamente, Alexandria, a Grega, Alexandria ad Aegyptum, isto é, na margem, à beira do Egipto, não se esquece que as tradições faraónicas estavam mesmo ali ao lado»

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Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…)
O falso problema do paganismo
Princípio dos ensinamentos para abrir o espírito,
instruir o ignorante,
e fazer conhecer tudo o que existe,
tudo o que Pta (deus dos artesãos) criou,
tudo o que Thot transcreveu,
o céu com os seus elementos,
a terra e o seu conteúdo,
o que vomitam as montanhas,
o que é arrastado pelo rio,
o que a Luz ilumina,
tudo o que brota do dorso da terra...,

As primeiras linhas destes ensinamentos da autoria do sábio egípcio Amenemope teriam podido ser redigidas por um Mestre de Obras da Idade Média. A mesma inquietação, o mesmo sentido da vida, a mesma missão a cumprir. Uma análise rápida e muito facilmente aceite consiste em opor religião revelada a religião dita pagã. Esta análise é fruto da dogmática romana, não da visão profunda dos homens da Idade Média. Para eles, Deus está em todos os tempos e em todos os lugares. Os Antigos ouviram a Sua voz; assim devemos nós prestar atenção à voz dos Antigos.

A matéria-prima, síntese de todas as formas vitais, da mais animal à mais humana: suporte da Grande Obra, seja ela alquimia ou catedral.

A religião pagã é, no seu sentido etimológico, a religião dos campos. Foi ela que a Roma administrativa e jurídica tentou destruir. Tentativa vã porque a cristandade medieval repousa sobre uma sociedade agrícola onde a natureza desempenha o papel principal. A arte cristã da Idade Média á também ela uma arte pagã. Quando o Mestre de Obras instala o altar no centro da catedral, está perfeitamente consciente de que a pedra fundamental que assenta representa todos os altares dos Antigos que o precederam. A prova desta consciência da Tradição esotérica é-nos dada pelo ritual de consagração do altar. Quando o realiza, o celebrante invoca Deus e dirige-lhe um apelo preciso: que o Criador abençoe a pedra sacrificial que já foi venerada por Abel, o rei-sacerdote Melquisedech, Isaac e Jacob. Assim se reúnem as diferentes expressões religiosas na unidade do culto celebrado no interior da catedral.

O Egipto, Centro do Mundo
O Egipto não se situa em África (?). Ou, pelo menos, não apenas em Africa. Se é verdade que as influências do continente negro são importantes para a elaboração da civilização egípcia, não é menos verdade que os egípcios são semitas ou uma raça aparentada. No ponto da convergência entre o Médio Oriente e o Ocidente, o Egipto foi, durante um considerável número de séculos, o centro do mundo, tendo-se tornado, logicamente, o ponto do globo onde se encontraram as antigas sabedorias e o cristianismo nascente. A Didascália, primeira grande escola, de teologia cristã, nasceu em Alexandria, a Grande, que acolhia com agrado pesquisas espirituais como o hermetismo, o gnosticismo ou o maniqueísmo. A mitologia greco-romana registou a espiritualidade dos faraós e, impregnada destes significados antiquíssimos, passou para a mitologia, dos pensadores medievais.
Durante os primeiros séculos da nossa era, bastante perturbada pelas convulsões da sociedade, os que possuíam a Sabedoria estavam, na sua maioria, afastados da direcção dos assuntos deste mundo. Para se manterem a salvo dos poderes políticos e doutrinais que se sucediam, tinham de falar de maneira hermética, de começar a viver segundo o princípio das sociedades secretas no interior de uma sociedade que já não era uma civilização. Tanto no Médio Oriente como no Ocidente, as comunidades tomaram em mãos a herança simbólica dos Antigos e continuaram a difundi-la. A gnose, fundamento do cristianismo primitivo, constituía um quadro favorável para preservação do esoterismo, apesar da hostilidade de alguns bispos mais preocupados com o poder pessoal que com o Conhecimento.
Curiosamente, Alexandria, a Grega, Alexandria ad Aegyptum, isto é, na margem, à beira do Egipto, não se esquece que as tradições faraónicas estavam mesmo ali ao lado. A redacção e a difusão dos Evangelhos foram uma oportunidade para os sábios de Alexandria incluírem nos seus textos numerosos símbolos e mitos egípcios. O grande porto do Baixo Egipto foi para os cristãos de todas as tendências um fórum cultural onde todas as experiências podiam ser ensaiadas. Esta atitude correspondia perfeitamente ao espírito dos egípcios, que sabiam acolher as ideias novas preservando as palavras dos antigos». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerá-la-ei como a salvadora da casa de França»

jdact e wikipedia

«(…) A Henrique pareceu-lhe ver tremer uma lágrima nos olhos da condessa, tão cruelmente e indirectamente ofendida, e louco, alucinado, caiu-lhe aos pés. Oh!, perdoai-me, Diana!..., exclamou ele extremamente agitado, perdoai-me, porque o meu amor é tamanho que decerto me perturba a razão! Mas ao ver-vos tão bela e encantadora, parece-me impossível que haja alguém que se não apaixone por vós, e que não empregue todos os meios para que vós aceiteis o seu amor… Não me desprezeis, Diana, porque senão, à fé de Valois!... cometo uma loucura!... E o mancebo, em cujo cérebro se debatiam as mais delicadas fantasias cavalheirescas com os grosseiros costumes das caçadas e dos quartéis, prostrou-se de novo aos pés da condessa. Esta, como que absorvida num pensamento mais alevantado, não reparava no mancebo, e deixava que este lhe apertasse a mão com apaixonado ardor. E contudo, murmurou a condessa, ao cabo de um breve silêncio, e contudo, seria todo o meu sonho ser a inspiradora de um jovem, valente, poderoso…, guiá-lo no caminho da glória…, fazer dele um grande príncipe, um herói… Oh! Diana, exclamou Henrique, correspondei ao meu amor, e fareis de mim o que quiserdes..., e eu considerá-la-ei como a salvadora da casa de França. Silêncio! erguei-vos!, respondeu a condessa, que viu que era tempo de pôr termo àquela cena. Vem aí algum dos meus criados. Com efeito, naquele momento batiam à porta do salão e uma aia, tendo pedido licença, entrou e inclinou-se, dizendo à condessa: senhora, o reverendo padre Lefèvre chegou agora para a conferência espiritual do costume. Que o reverendo padre tenha a bondade de passar ao oratório…, Monsenhor, perdoai-me se vos deixo; vou falar com o senhor de todos os tronos, vou confessar-me a um ministro de Deus. Sois uma santa!, exclamou o príncipe, depondo na bela mão da gentil dama um beijo apaixonado. A condessa deu-lhe em troca um sorriso cheio de amor e de tristeza; depois, tendo acompanhado o príncipe até à porta, como competia à hierarquia do seu real adorador, dirigiu-se para o oratório, onde a esperava o reverendo padre Lefèvre. Se Henrique a tivesse visto naquele momento, é provável que a sua paixão se convertesse em horror. A fisionomia daquela mulher brilhava de uma alegria tão malévola, nos seus lábios pairava um ar de desprezo tão profundo, que a beleza ideal da inconsolável viúva desaparecia, dando-lhe ao rosto uma expressão sinistra em que se reflectiam as mais tristes paixões. Como os grandes comediantes, Diana tinha expressão de teatro e uma expressão verdadeira, e esta era a mais repugnante e odiosa que se podia imaginar!

O reverendo padre Lefèvre
Ao passar da sala onde recebera o príncipe para o oratório onde a esperava o jesuíta, Diana lançara sobre os ombros uma capa, que cobria todas as cândidas belezas, cuja vista acendera tamanho foge de desejos no coração do príncipe Henrique. A sereia bem compreendia que os meios de influir sobre um mancebo inexperiente e inflamável deviam ser diferentes dos que precisava empregar para ser bem vista por um sombrio e austero frade. Por isso, quando entrou no oratório, Diana levava um vestido muito simples, e apresentou-se de fronte serena, com o olhar franco e tranquilo de quem não tem nada que se lhe lance em rosto. O padre Lefèvre pouco tinha mudado desde aquele dia em que o vimos entre os cavaleiros templários tomar o partido de Inácio de Loiola, e inscrever-se com os outros cinco companheiros na nova instituição, proclamada por Inácio sob o nome de Companhia de Jesus. Era sempre o mesmo tipo de montanhês, de elevada estatura, de porte austero, magro, de feições e formas angulosas. Conservava-se ordinariamente de olhos baixos, mas era fácil perceber, quando erguia o olhar, que a humildade monástica não tinha apagado neles o lampejo de orgulho. Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboreando uma expressão de severa majestade, que incutia respeito.
Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerimónia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido…, como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Em outra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua onisciência, que a condessa já de nada se espantava. Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalhe inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso… Viestes para vos confessardes?» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha…»

Cortesia de wikipedia

«(….) Nos olhos de Diana brilhou fulgurante e fulgás um lampejo de orgulho. Havia muitos dias que ela esperava ouvir aquelas palavras, que não eram uma promessa vã, pois que aquele que diante de Diana se expandia com ardor tão apaixonado era o segundo personagem do reino, era Henrique de França, filho e herdeiro presuntivo do rei Francisco I, e que depois reinou com o nome de Henrique II. O príncipe tinha então dezoito anos. Era um mancebo de altiva e nobre figura, muito mais desenvolvido do que a idade parecia permitir. Em lugar dos traços delicados e moles da juventude adolescente, havia nele o desenvolvimento de formas e a robustez de um homem de trinta anos. A caça e a guerra, os seus dois passatempos predilectos, tinham contribuído para dar àquele filho dos Valois a aparência rude e semi-selvática de um soldado aventureiro. Como seu pai, também Henrique era de uma estatura de gigante; mas, principalmente diante de uma mulher, o seu olhar era tímido e doce, e nos seus movimentos havia tal ou qual embaraço. Enfim, era o mais belo Hércules, que jamais se deixara prender nos laços de uma Ônfale moderna. Mas, por outro lado, que admirável domadora era aquela, que tinha feito curvar a cabeça deste leão!... Todos os poetas daquela época nos deixariam o retrato da deusa, que por tantos anos brilhou no céu da corte de França. Pintores, escultores, cinzeladores, como o Primaticcio, como Jean Goujon, como Benevenuto Cellini, idealizaram as formas admiráveis da bela sereia. Ela era realmente a grande cortesã, a mulher que podia desafiar o tempo, e receber, passados os cinquenta anos, as entusiásticas homenagens com que tinha sido saudada na sua primeira mocidade! Diana de Poitiers, condessa de Brezé, orçava então pelos trinta e cinco anos. Nenhum colorido de artista, a não ser o que saía dos pincéis mágicos do Ticiano, poderia reproduzir a cor de pérola daquela carnação, onde todavia ondeavam os reflexos dourados de um sangue quente e vivo. Tinha os cabelos castanhos escuros, tão finos e macios, que comparada com eles a seda pareceria áspera lã. Os olhos negros, grandes, aveludados, profundos, ora pareciam perdidos numa espécie de êxtase, ora relampagueavam clarões de voluptuosidade, capazes de entregar nos braços de Satanás o mais austero anacoreta da ordem de S. Francisco. A condessa trazia um vestido muito simples, todo preto, de luto. Um decote em quadrado sobre o peito deixava entrever a brancura deslumbrante do colo e do seio, que arfava. Das mangas curtas, segundo a moda da época, saíam dois braços admiráveis, que pareceriam de mármore, se não fosse o azulado das veias, que se desenhavam sob aquela finíssima pele. Nenhuma jóia nos braços, nem no colo. Na mão direita só um anel, um só, o anel nupcial do defunto senhor de Brezé. Monsenhor!, disse a condessa, depois de uma pausa habilmente calculada, o que acabais de prometer-me bastaria para tornar feliz a maior princesa do mundo, quanto mais uma pobre viúva como eu. Diana!... Deixai-me continuar. Hoje sois príncipe, monsenhor; hoje não dependeis senão de el-rei, vosso pai; amanhã sereis o senhor absoluto. Mas tereis de ouvir os conselhos da política, que vos dirá que o chefe de um grande povo não pode aparentar-se senão com famílias de soberanos. Nasci bastante próxima do trono, monsenhor, para compreender quanto é perigoso para alguém, mesmo sem o querer, aproximar-se da coroa. As jóias dela queimam a mão profana que as toca. Se o rei Francisco nosso senhor tivesse ouvido as imprudentes palavras, que há pouco pronunciastes, a prisão ou exílio seriam o meu destino. O rosto de Henrique coloriu-se e os olhos injectaram-se-lhe de sangue.
Se tal ousasse!..., exclamou ele, levando a mão aos copos da espada. Diana deteve-o com um olhar. Vós resistiríeis, monsenhor!..., e eu teria o infinito remorso de ter indisposto um filho com seu próprio pai, de ter amargurado a vida de um rei, que foi tão bondoso para com a pobre Diana de Saint-Vallier e que concedeu às súplicas da filha o perdão de seu pai... E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha, e desde então para cá têm-se operado grandes mudanças na corte. Mas desejo que o saibais: meu pai, o conde de Saint-Vallier, implicado na fuga do condestável de Bourbon, foi condenado à morte. O rei estava tão indignado contra os cúmplices e protectores de Bourbon, que ousaram pegar em armas contra o seu rei, que só alguns amigos é que ousaram implorar o perdão de meu pai; mas tudo foi inútil, a condenação era irrevogável. Tive então uma ideia, que decerto me foi inspirada por Deus. Penetrei no Louvre, e na ocasião em que o rei ia passar, lancei-me aos pés dele. Vós!, exclamou o delfim com indizível expressão de ciúme, bem justificada para quem conhecia a galanteria do rei cavaleiro. E ele..., recebeu-vos… Como se recebe uma filha, que implora o perdão para seu pai, respondeu Diana com tal acento de nobreza misturada de melancolia, que era do mesmo passo a censura e a destruição das suspeitas de Henrique. Fez-me erguer e interrogou-me com afabilidade; e como o terror, o respeito, a comoção me tinham alquebrado as forças, recomendou-me benignamente a sua mãe, Luísa de Sabóia, e, um momento depois, meu pai livre dos seus ferros, tornava a abraçar sua filha… E depois disso não tornastes a ter outras conversações…, com o rei meu pai?... Não, monsenhor; disse Diana com altiva dignidade, poucas semanas depois desposava eu o conde de Brezé, grande senescal da Normandia. Conservei sempre sem mácula o meu nome de esposa…, como hei-de conservar o de viúva…» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um Imaginário Europeu. Maria Isabel Barreno. «E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada?»

jdact

Primeiro andamento
«(…) Um país pode ser terceiro-mundista e ter uma excelente literatura e meia dúzia de bons cineastas. O passadismo torna-se incontornável quando tentamos algum tema mais englobante: papel de Portugal na história europeia e mundial, características essenciais da cultura portuguesa. Ou o turismo. Ou a identidade nacional. Em todos estes temas fazemos a festa com os descobrimentos, os monumentos históricos e o fado, juntando um pouco da fundação do país e do sebastianismo, se a ementa necessitar de mais alguns condimentos. Duas simples perguntas: por que não há cartazes do ICEP com obras de Siza Vieira? Por que é que de todo o nosso património arquitectural moderno o único monumento figurando em cartazes do ICEP é o monumento das Descobertas? O problema de fundo é que não nos estimamos. Não nos estimamos (ainda) no presente, não nos estimamos suficientemente para termos de nós, portugueses, uma imagem positiva e afirmativa.
E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada? Não exagero certamente quando digo que essas crianças, nas suas visitas a Portugal, pouco ouvirão que as encoraje a ter algum orgulho de suas raízes portuguesas. O tom dominante em Portugal é (ainda) o lamento, a autoflagelação, o lá fora é que é bom, neste país nada presta. Apesar de termos quebrado o nosso isolamento, de conhecermos mais sobre o mundo, de nos termos tomado menos provincianos. A vergonha tem várias gradações e formas. Para além da vergonha sem disfarces das crianças, crescem a raiva, a timidez, a introspecção obsessiva e acusadora. Com o passar do tempo, tive frequentes oportunidades de analisar as muitas e desvairadas reacções dos portugueses aqui residentes a essa imagem negativa de Portugal, as minhas incluídas. Uma generalizada mistura de indignação contra a arrogância e o egocentrismo franceses e de, surpresa?, autoflagelação. Uma autoflagelação onde parecem coexistir estranhamente a impotência total, somos assim, não há nada a fazer, com a mais irreal ilusão de omnipotência, nós (ou Portugal, ou o governo) é que temos a culpa, culpa de tudo, aí incluída a ignorância francesa. A partir deste ponto, dividem-se as reacções por classes. Todos os que dispõem de um nível cultural e económico confortável tratam de desligar-se da imagem negativa pelas formas de afirmação individuai mais variadas. Os outros, as concierges e os maçons, defendem-se fechando-se num colectivo, a comunidade, as associações reinventando folclores e tradições, confundindo identidade nacional com microcosmos regionais, sonhando com um Portugal que já não existe. E aqui cheguei a um dos pontos nevrálgicos da motivação para a escrita deste livro: o sofrimento.
A motivação para tentar transformar notas dispersas e de objectivo incerto num texto de reflexão e vivência, de razão e sentimento. O sofrimento dos emigrantes, no qual poucos parecem reparar. A sua perda de identidade. Os seus esforços patéticos para juntar os pedaços que espalharam pela estrada no seu ir e vir de desassossego. Fui convidada pelas autoridades francesas a assistir a uma atribuição de prémios que se passava num hospital pediátrico. Turmas de alunos de várias escolas francesas tinham feito trabalhos sobre um país europeu, à escolha. Essa iniciativa envolvia também uma componente de solidariedade com as crianças hospitalizadas, por isso fora o hospital escolhido como local da festa. Uma turma de crianças que fizera um trabalho sobre Portugal (com um professor francês) ganhou um prémio. No final fui felicitar a classe. Por que escolheu Portugal?, perguntei ao professor. Já eu estava em França havia mais de um ano. perguntei sem grande esperança de receber respostas animadoras ou interessantes. Porque tenho muitos alunos de origem portuguesa respondeu-me, e eles têm uma auto-estima tão baixa! Achei que este trabalho poderia ajudá-los. Olhei os meninos, que iam saindo da sala, terminada a sessão. Caras tristes, premiadas e tristes. Tão tristes como a tristeza daquele hospital de crianças doentes». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Um Imaginário Europeu Maria Isabel Barreno. «Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista…»

jdact

«Um espaço de nada
Por íntima deslocação do sujeito
para espaços de outrem
nascem as catástrofes humanas
e as maravilhosas aventuras

entre catástrofe e aventura
um espaço de nada
um nada de tempo
variações de ser»

Primeiro andamento
«Como ensinar português a crianças que têm vergonha de ser portuguesas? Como lhes retirar essa vergonha se ela é simultaneamente incutida pela sociedade francesa, onde nasceram e crescem, e pela sociedade portuguesa, que visitam e escutam através de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos? Exagero, dirão muitos. Ou equaciono a questão pelo seu lado mais negativo. A maioria das crianças portuguesas ou lusodescendentes que vivem em França não terá, ou já não terá, vergonha de suas origens portuguesas, diz-se. Mesmo quando a auto-estima é baixa, e os resultados escolares fracos. As crianças já ouvem falar de Portugal, ou já o conhecem, de uma outra forma, diz-se. É muito possível. Mas, chegada a Paris em 1997, para dirigir os serviços da Coordenação do Ensino de Português, rapidamente me dei conta, como acontece com todos os que para aqui vêm trabalhar, da imagem negativa de Portugal vigente nestas paragens gaulesas. Uma imagem cujo conteúdo é ainda predominantemente fornecido pelos estereotipos construídos com base na emigração maciça dos anos sessenta e setenta, sem nenhuma actualização posterior: país inteiramente rural, de pobreza e resignação extremas, do qual as pessoas têm que fugir para conseguir padrões de vida menos terceiro-mundistas.
É evidente que atrás desta imagem estão duas razões que, a merecer a vergonha de alguém, não seria certamente a das crianças portuguesas (ou lusodescendentes): o tradicional chauvinismo francês, com a correspondente tendência para ignorar tudo o que se passa fora da França, e a tendência geral de todos os grupos humanos para a formação de estereotipos sobre outros grupos humanos. Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista, a ruralidade, a pobreza contentinha, a humildade, o fado imagem que até hoje perdura porque nós, portugueses, ainda não produzimos nenhuma outra sobre nós próprios. Esta última afirmação pode parecer injusta, e inexacta. Tem havido, ao longo dos últimos dez ou quinze anos. um esforço de divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro, em particular da literatura. Esse esforço deu já alguns frutos. Paradoxalmente, ou sintomaticamente, só aos franceses tenho ouvido louvar a política portuguesa de divulgação cultural. Porque, evidentemente há franceses que conhecem a literatura, a história, a cultura portuguesas. Há cátedras de português em França, pesquisadores e especialistas. Mas, obviamente, todos estes sabedores, na maioria académicos, alguns outros jornalistas ou pessoas de intensa curiosidade, são uma minoria praticamente invisível no meio dos sessenta milhões de franceses, e os artigos ou livros que eles escrevem uma gota de água no oceano de palavras editadas em França. E, obviamente também, os esforços feitos para a divulgação da cultura portuguesa têm sido fragmentados (ressalvando algumas perspectivas mais globais, recentes e ainda episódicas) e, frequentemente, com tendências redutoras e passadistas.
Fragmentados porque não há ainda uma política comum aos diferentes organismos que representam ou apresentam Portugal no estrangeiro, muito menos a consciência da necessidade duma imagem global. Trabalham os organismos económicos e turísticos para um lado, os que assinam acordos internacionais em áreas educacionais, científicas e tecnológicas para outro, os culturais para um terceiro. Os culturais tendem a reduzir a cultura aos seus aspectos mais clássicos (em particular a literatura, como referi; e algum cinema. Nos últimos anos acrescentem-se alguns ciclos de conferências ou exposições sobre aspectos históricos e sociais, sobre arquitectura e, timidamente, um ou outro pintor ou músico. Por estas vias ainda estreitas os coloco entre aspas. O design em geral e o design de moda em particular, por exemplo, ainda não saíram da zona comercial do ICEP, ainda não foram promovidos a cultura o que é uma segunda forma de fragmentação, a qual produz, enfim. uma ausência de lugar onde se possa inserir e divulgar a cultura portuguesa actual na sua totalidade. Forma de fragmentação, e forma de passadismo também: damos de nós uma imagem antiquada com esta apresentação predominantemente clássica da nossa cultura». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Diana soube quem foi que dissera aquelas palavras e não se deu por ofendida; mas naquele coração, que era friamente vingativo e cruel»

Cortesia de wikipedia

«(….) Inácio sentiu um calafrio penetrá-lo até à medula dos ossos mas o rosto não manifestou senão um profundo desprezo. Um momento depois, pela escarpada encosta de Mont-Serrat caminhavam os sete homens que, conduzidos pelo génio de Inácio Loiola, viam constituir a famosa Companhia de Jesus, cujos actos e tenebrosas tiranias haviam de causar o assombro e o terror do mundo.

A confissão de Diana
O palácio de Brezé, um dos mais antigos edifícios feudais da parte mais velha de Paris, perdera havia já muito tempo o esplendor das festas e alegrias, que por um momento o haviam animado. Quando João Brezé, grande senescal da Normandia, oferecera a mão de esposo à filha do conde Saint-Vallier, no palácio ressoara o bulício e a animação das antigas festas; naquelas sala desertas ressurgira uma nova vida, acordando os ecos adormecido dos festins, por influência duma mulher nova, bela e sociável. Uma tradição, de que adiante falaremos, circundava a formosíssima Diana de uma espécie de auréola de grandeza, que tornava mais brilhantes as festas e as reuniões em que Diana era a rainha. Os senhores mais grados da corte reuniam-se nas salas do grande senescal, e se Brezé fosse ciumento, defeito que por fortuna dele não tinha, decerto teria pensado seriamente nas homenagens que a flor dos cavaleiros franceses tributava à sua jovem esposa. É certo também que Diana, aceitando aquela corte e comprazendo-se com aquele tributo de admiração, não dava à maledicência o mais pequeno motivo para falarem dela. Pelo contrário, mostrava ter pelo marido um afecto tanto mais para admirar e louvai quanto os cabelos grisalhos do senescal eram mais próprios para inspirar o respeito filial do que o amor das mulheres. A corte, de sua natureza maledicente, procurava explicar aquela virtude, que a ninguém parecia natural; e alguns dos cortesãos mais maledicentes do que os outros, diziam que, se a formosa Diana fazia tanto alarde do seu amor ao marido, era para vender mais cara a sua complacência para com outro.
Diana soube quem foi que dissera aquelas palavras e não se deu por ofendida; mas naquele coração, que era friamente vingativo e cruel, o nome do homem que a insultara ficou gravado em caracteres indeléveis, e Diana jurou a si mesma que, cedo ou tarde, o insolente havia de pagar-lhe a ofensa. João Brezé morreu pouco tempo depois de ter casado. A esposa mostrou a sua dor em públicas manifestações de luto, renunciou aos bailes, às festas e a tudo, e transformou o palácio numa espécie de convento, onde não tinham entrada senão pessoas sérias, graves e tementes a Deus. Daí a pouco, Paris inteira fazia os maiores elogios à gentil senhora, que aliava à piedade e à fé da viuvez a mais liberal beneficência. Sempre vestida de luto, Diana constituía um exemplo para as senhoras da corte, mais dispostas a enganar os maridos vivos do que a conservarem-se fiéis à memória dos mortos. No palácio, em que agora vamos encontrar Diana, reinava absoluto sossego. A gentil viúva não recebia senão raríssimas vezes e, na ocasião em que vamos entrar nas suas salas, estava ela conversando com um mancebo, que devia pertencer à mais alta classe social, a avaliar pelo respeito com que o tratava a altiva condessa. Ah! monsenhor, dizia ela, pois não reparais neste luto, que me cobre? Isto mostra que renunciei à vida e às suas pompas; com a minha idade quase que poderia ser vossa mãe… Ah! monsenhor, aos vossos pés curvam-se hoje todas as belezas de Paris; renunciai a despertar um pobre coração, que só deseja consagrar-se à sua salvação eterna. E Diana ergueu os olhos para o céu com uma expressão tão encantadora, que o mancebo a quem ela se dirigia sentiu-se ainda mais apaixonado. Mas vós não quereis compreender-me, Diana!, insistia o jovem com uma espécie de impaciência febril. Eu desejo o vosso amor, não para o ocultar ou envergonhar-me dele, mas para dele fazer a maior glória da minha vida! Concedei-me o vosso amor, Diana, e na corte de que hei de ser rei vós sereis a rainha!» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Os cavaleiros presentes ergueram a mão. Adeus, irmãos; disse Loiola, com uma voz a que não pôde, por mais que fizesse, tirar um certo tom de tristeza»

Cortesia de wikipedia

«(….) Esta interrupção produziu um sussurro, o qual, graças à presença de Beaumanoir, não degenerou em tumulto. A maior parte de templários pôs-se do lado de Burlamacchi; alguns, poucos, mas decididos partidários, rodearam Inácio Loiola. Irmãos, bradou Francisco Burlamacchi, acabais de ou vir a proposta que vos foi feita: a escravidão da humanidade e nós convertidos em guardas desses escravos, e todos de joelhos diante de um chefe supremo, de um chefe misterioso, que do fundo de uma cela monacal, imporia as suas vontades. E é para isto que a Ordem há de levantar-se? E é para isso que nós havemos de vencer os potentados da terra? E foi para isto que destruímos nos nossos espíritos as superstições e a ignorância? Só nós, de toda a infinita multidão dos nossos irmãos espalhados pelo mundo, só nós é que fomos iniciados nos terceiros mistérios; só nós que conhecemos a verdade de tudo isso, que o mundo adora e teme; graças à ciência que adquirimos, graças às misteriosas tradições, confiados à guarda dos sete senhores, graças aos imensos tesouros que possuímos, somos os únicos d’entre os nossos irmãos, os únicos d’entre os mortais, que não estamos sujeitos a nenhuma lei, a não ser à da morte. E havemos de ter-nos assim elevado tanto, como miraculosa força, acima do comum dos homens, para afinal ficarmos reduzidos a obedecer como cadáveres ao sinal de um só de nós?... Um murmúrio de aprovação acolheu as animadas e quentes palavras do nobre Burlamacchi. Na verdade era intolerável a pretensão de Loiola!... Eia, pois; prosseguiu Burlamacchi, levantemo-nos, sim, mas para despedaçar os nossos grilhões, e os de todo o mundo! Temos em nossas mãos uma força incalculável; aproveitemo-la e façamos uso dela contra os tiranos de toda a espécie. Os povos nos darão por tal serviço bem melhor recompensa do que o sombrio silêncio e a tenebrosa humildade do túmulo! Nós constituiremos na Europa a grande, a verdadeira aristocracia, a do bem-fazer. Será d’entre nós que as cidades liberais e as nações ressuscitadas hão de eleger os seus regentes; nós reinaremos, não com as forças efémeras do embrutecimento e da ignorância, mas com as do reconhecimento e do afecto. Irmãos! Em nome da fé que depositaste em nós, elegendo-nos para este supremo cargo, convido-vos a rejeitar as propostas de Inácio Loiola, e a proclamar aqui, nesta nossa santa assembleia, que a ordem do Templo se transforma na sociedade secreta dos Pedreiros Livres!
Viva a Maçonaria!, gritou o príncipe de Conde, saudando com este nome francês, tradução da denominação proposta por Burlamacchi, a origem de uma sociedade, que depois havia de ter tanta influência sobre os destinos do mundo. Quase todos os presentes repetiram o grito de Conde e saudaram e aclamaram Burlamacchi. Beaumanoir usou então da palavra. Não nos esqueçamos, irmãos, de que neste concilio todos somos livres. Ninguém é obrigado a aceitar qualquer mudança, que não seja aprovada pelo seu pensar e pela sua consciência. Que respondes a isto, irmão Inácio Loiola? Respondo, disse com altivez o peregrino, que estas cisões não me dizem respeito. Fui irmão da ordem do Templo, observei fielmente os seus estatutos: agora, que o Templo acabe retiro-me da instituição que lhe sucede, e em face da Maçonaria, que acabais de proclamar, declaro instituída a Companhia de Jesus! Este nome, que mais tarde devia tornar-se tão terrível, repercutiu sonoramente sob aquelas abóbadas; tão forte e solene fora voz com que Loiola o pronunciara! Ninguém, disse Beaumanoir, ninguém quer acompanhar o nosso irmão no caminho a que ele quer aventurar-se sozinho? Seis cavaleiros se levantaram, e foram colocar-se ao lado de Inácio Loiola, que os olhou com um ar triunfante. Somos sete!, disse ele com um ar inspirado. Pois bem, convosco, primeiros irmãos, que acreditastes em mim, reparto eu o império do mundo. Somos bastantes para vencer, e teríamos a certeza da vitória, se não tivéssemos de lutar contra os nossos antigos companheiros. Irmãos, o beijo de paz! Entretanto, a voz de Beaumanoir pronunciava friamente os nomes dos que se tinham declarado prontos a aceitar a proposta i Loiola. Pedro Lefèvre, de Villaret, na Sabóia. Francisco Saverio, cavaleiro de Navarra. Jacopo Laynez, de Almazar. Afonso Salmeron, de Toledo. Nicolau Afonso, de Bobadila. Simão Rodrigues, de Avedo.
Na medida que iam sendo pronunciados os nomes daqueles poucos, Inácio ia-os inscrevendo num pequenino livro, que tinha na mão. E agora, disse Beaumanoir, agora, que os dissidentes nos abandonaram, repitamos, irmãos, o juramento de há pouco, e declaremos que a ordem do Templo se transformou na associação dos Pedreiros Livres. Os cavaleiros presentes ergueram a mão. Adeus, irmãos; disse Loiola, com uma voz a que não pôde, por mais que fizesse, tirar um certo tom de tristeza, por muito tempo estivemos unidos e concordes e agora estamos divididos em dois campos, que pugnarão com ferocidade sem par um contra o outro. Pois bem! eu ainda tenho esperança, e peço a Deus que reconheçais finalmente o vosso erro e vos acolhais todos sob a nossa bandeira, sob a bandeira de Jesus. Terás que esperar!, resmungou Burlamacchi, o mais indignado, ao que se via, pela traição de Loiola. Inácio dispunha-se para partir com os seus companheiros, quando o presidente lhe fez sinal para que esperasse. Monge, disse ele, deixaste de pertencer ao Templo, mas os juramentos que prestaste à nossa Ordem têm sempre vigor. Ai de ti, se o segredo que juraste guardar fosse violado. Inácio voltou-se cheio de desdém, estremecendo como um cavalo, ao qual o chicote fustiga. Beaumanoir, murmurou ele num tom de voz que a raiva fazia tremer, em má hora me lembraste, a mim, que não pensava em violá-los, os juramentos que prestei à Ordem. Esqueceste talvez de que para nós, filiados nos terceiros mistérios, para nós, que somos os Sete Senhores, não existe lei moral nem positiva? Esqueceste de que a nossa elevação ao supremo grau nos libertou de todos os deveres? Pois então, disse ameaçadoramente o ancião, lembra-te de que, se o juramento te não fizer calar, nós te faremos calar doutra maneira. Temos irmãos por toda a parte, Loiola, e a ponta dos punhais do Templo ainda se não embotou». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

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