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sábado, 28 de abril de 2012

Loulé. Grandes Festas em honra de N. Sra. da Piedade. «Abrilhantadas pelas distintas bandas União Marçal Pacheco e Artistas de Minerva, que darão magníficos concertos…(Abril de 1939)»



Cortesia da amloule

Ex-voto a Nossa Senhora da Piedade
Escola Portuguesa, 1788 - óleo sobre tela, Loulé, ermida de Nossa Senhora da Piedade.
«Apresentamos neste mês de Abril, data em que se realizam as festas da "Mãe Soberana", um ex-voto a Nossa Senhora da Piedade, datado de 1788. Os ex-votos são oferendas entregues ao responsável pelo lugar de culto, após um voto ter sido formulado e depois de o mesmo ter sido atendido. Normalmente são ofertados sob a forma de quadros, figuras ou inscrições e são geralmente colocados nas igrejas, capelas ou ermidas aos quais são oferecidos.
Este ex-voto, da escola portuguesa, é uma pintura a óleo sobre tela, sem moldura, e com a seguinte inscrição:
  • "Milagre que fes N. S. Da Piedade a Manuel Gonçalves Gil que andando em casa cahi/o huma queda, e desparando se a espingarda, lhe hia tirando a vida; e enuocada/a mesma Senhora o livrou de prigo (sic) no ano de 1788:"

Esta pintura é uma composição artística anonima, como é regra geral, estando actualmente em muito bom estado de conservação.
O culto e a devoção a Nossa Senhora da Piedade continuam a ser um testemunho vivo da fé dos louletanos e do respeito pelas tradições religiosas». In Agenda Municipal de Loulé.


‘O Louletano’, ano 6, nº 294, 20 de Abril de 1939’
Cortesia da amloule

Cortesia da Agenda Municipal/JDACT

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Distrito de Bragança. Ex-Votos e religiosidade Popular. «À representação plástica de um favor sobrenatural chamou a religião popular ‘milagre’. São quadros pintados sobre madeira, tela ou outro material. Embora com outra origem etimológica, também se designam por ‘mercês’ ou ‘ex-votos’. A descrição pictórica inclui quase sempre uma legenda»

Ex-Voto de S. Roque, Parada, Bragança
jdact

Ex-Votos e protecção sobrenatural
«Ainda que a dessacralização tente esvaziar as comunidades do seu conteúdo espiritual, tal objectivo ficará no campo das utopias. Onde quer que elas deixaram as marcas do seu peregrinar, ficou também a presença do transcendente. Por destino ou fatalidade, jamais o homem foi capaz de apagar as luzes ou sombras dessa força que condiciona o real da vida. Aras votivas ou painéis de alminhas, embora de épocas diferentes, constituem resposta a esse desejo inato que faz do homem de todos os tempos um peregrino do infinito. Se as respostas dadas pelo homem nem sempre primam pela ortodoxia doutrinal, é um facto a influência obsessiva do espiritual no material.

O ex-voto ou milagre, espécie de testemunho material ditado pelo respeito da promessa em que empenhou a palavra, constitui também um sinal da presença de Deus na vida do homem. Ladear ou ignorar a atracção mútua deste binómio, é subestimar a importância do estudo da religiosidade popular para a compreensão das sociedades ‘agro-pastoris’ de Trás-os-Montes. Ainda bem que à atitude depreciativa e iconoclasta do positivismo dos finais do século XIX, sucede a admiração e o interesse de quem pretende descodificar a complexidade do comportamento total de um povo.

Ex-voto e religião romana
Ex-voto é a expressão clássica, conhecida por quem nutre interesse pelo estudo das marcas culturais que a romanização nos deixou. “Ex-voto” significa ‘por um voto’. Provém do verbo latino ‘vóveo’.

NOTA: Em Horácio e Cícero, voto significa a promessa feita aos deuses. ‘Votum facere’ tem em Plínio o significado de fazer um voto. ‘Votum solvere’, recebe em Ovídio o significado de cumprir um voto.

Nas estelas funerárias, é frequente encontrar as expressões latinas:
  • ‘votum solvit’ (cumpriu um voto);
  • ‘ex voto’ (por um voto);
  • V.S.L.M. (‘votum solvit libens merito’ - cumpriu um voto livremente).


jdact

Se os ex-votos ou milagres são uma pervivência de tradições similares da cultura clássica, não estão de acordo todos os especialistas. Rocha Peixoto refere as pinturas que os marinheiros mandaram fazer nas paredes dos templos. Nas “tabulae votivae”, os cocheiros romanos do circo votavam aos deuses infernais os seus competidores.
Mário Martins, insigne medievalista, afirma categoricamente:
  • “Muitos centros de peregrinação situavam-se, geograficamente, na sucessão de antigos santuários pagãos e deles herdaram certos costumes aceitáveis, entre eles as procissões e os ex-voío”.
NOTA: ‘Caminhos de religiosidade popular’, in revista Communio, ano IV, 1987, nº 1, Jan./Fev., Mário Martins afirma : ‘Figurinhas de cera, representações de animais ou de membros do corpo, madeixas de cabelo, colunas com inscrições votivas, muletas, coroas, quadros, miniaturas nos santuários da beira-mar... tais ex-votos existiam já muito antes do cristianismo e exprimem a gratidão e o sentimento religioso’; ver Carlos Moreira Azevedo, in ‘Algumas Reflexões sobre a Iconografia Religiosa Popular, Estudos Contemporâneos, Religiosidade Popular, p. 86-7.

Sem tentar dirimir a questão, não nos repugna que a religiosidade romana sofresse uma enculturação com a presença do cristianismo. Aliás foi a prática seguida por ele noutras manifestações culturais.
A religião romana dedicava um lugar importante às preces. O voto cabia dentro delas e constituía uma promessa condicionada pela concessão de uma coisa pedida aos deuses. O voto era público ou privado. Este dependia da vontade do indivíduo, e correspondia a exigências de momentos críticos da sua vida. O voto constitui uma oferta e um sacrifício que se faz em substituição do que o ‘vovente’ teria de oferecer aos deuses.

A designação de “ex-voto” não pertence ao vocabulário popular. Corre ainda entre nós a expressão ‘Casa dos Milagres’. Milagre, graça ou mercê. Exprime, na linguagem vulgar, a mesma ideia que “ex-voto”, e encontra-se também vulgarizada nas mesmas tábuas votivas. Ex-voto é a expressão barroca de uma religiosidade dos séculos XVII e XVIII». In Belarmino Afonso, Ex-Votos e Religiosidade Popular no distrito de Bragança, edição da Região de Turismo do Nordeste Transmontano, Escola Tipográfica, Bragança, 1995, ISBN 96-548-0-8.

Cortesia da RTN Transmontano/JDACT