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sábado, 15 de dezembro de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Devido a essa amálgama de interesses e afectos, surgidos nos tempos da criação e cultivados ao longo de toda uma vida de estreitos contactos, Joana sentir-se-ia segura para dar poderes ao irmão de leite»

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Para serviço de sua pessoa e casa
«(…) Em finais de Julho de 1453, quando já terminara o quinto mês de gravidez de Isabel de Portugal, rainha consorte de Castela, as autoridades apostólicas terão recebido uma das cópias da sentença de divórcio de Enrique, confirmadas por Blanca de Navarra, como algum tempo mais tarde essas mesmas autoridades assinalariam no documento de dispensa matrimonial; documento este que não deixa nenhum resquício de dúvida de que a Santa Sé considerava legítima a decisão. Além do Rabjuçe, é provável que Enrique tenha enviado para negociar em Portugal o seu secretário, o judeu convertido Alvar García de Ciudad Real. Segundo Palencia, um Cícero que rebusnava as tentativas de Enrique (...), com o qual gostava de conversar Afonso V, [cujo] entendimento, normalmente perspicaz, somente nesta ocasião se mostrou turvo, como que obcecado por uma nuvem funesta. Acolheu benévolo a quem deveria ter olhado com enfado; ouviu muitas vezes aquele comilão, que dificilmente conseguia travar a sua língua, e se por acaso não gostava do orador, agradavam-lhe as suas orações, todas encaminhadas para tratar do futuro matrimónio. E embora seja coisa averiguada que a impotência de Enrique, naquela altura já divulgada por todo o mundo, não se podia ocultar a Afonso, rei de uma nação fronteiriça com Castela e primo tanto da repudiada como do repudiador, apercebeu-se sem esforço que aquele matrimónio falso lhe traria um aumento do império, podendo tratar-se até de um impropério.
De modo que o monarca português, pelo menos segundo o palentino, quando por fim considerou chegada a oportunidade, diz-se que instou com grande impaciência à sua irmã que declarasse se aceitaria um enlace infecundo, satisfeita apenas com o nome de rainha. Ao que a infanta Joana teria respondido entre outras razões, que preferia sê-lo num reino poderosíssimo, a conseguir feliz sucessão com outro esposo. Segundo a Crónica anónima, a resposta da infanta fora, pelo contrário, que estava muito contente por casar com ele, não obstante as coisas ditas. Já em Agosto, Rui Galvão, secretário de Afonso V que antes desempenhara esse mesmo ofício para o pai e a mãe do rei e até havia não muito tempo fora administrador dos gastos de Joana, pôde viajar para Castela para prosseguir aí as negociações relacionadas com o matrimónio da inÍanta.
Na última semana de Outubro de 1453, a menos de um mês para a rainha Isabel de Portugal dar à luz, o rei Afonso V passou procuração ao dr. Lopo Gonçalves, alcaide-mor de Montemor-o-Velho; e três dias depois, em Tomar, o mesmo fez a infanta Joana. Dava-se o caso de que o procurador escolhido por ambas as partes fora colaço da infanta Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, tia de Joana, como filho que era de uma fidelíssima ama com quem a duquesa de Borgonha tivera relações afectivas e económicas desde que deixara o reino, em 1429. Como a a parteira de Joana, também essa mulher era proveniente de Évora.
Devido a essa amálgama de interesses e afectos, surgidos nos tempos da criação e cultivados ao longo de toda uma vida de estreitos contactos, Joana sentir-se-ia segura para dar poderes ao irmão de leite, da sua tia e encarregá-lo da delicada tarefa de viajar até Castela para receber a fabulosa quantia de cem mil florins de ouro de Aragão que Enrique tinha aceitado entregar à prometida em troca da sua mão, uma vez que, ao contrário do costume, seria o noivo que daria à futura esposa o dinheiro para o dote. Uma importante quantidade de ouro cunhado, quase o dobro do dote da infanta Leonor, que Joana poderia conservar para si própria, mesmo que a união fosse infecunda ou se por qualquer motivo o matrimónio acabasse. Isto leva a supor que a parte portuguesa estaria a par dos riscos que implicava para Joana casar-se com um homem que se declarara impotente, ainda que fosse por malefício, e apenas com a sua primeira mulher.
Chegadas a este ponto as negociações do matrimónio de Joana, com carta assinada em Nápoles a 13 de Novembro de 1453, o rei Alfonso V de Aragão solicitou ao papa Nicolau V a dispensa de matrimónio para que Joana e Enrique, primos por parte da mãe, se pudessem casar em conformidade com as leis eclesiásticas, justificando a petição no desejo de essa união contribuir para a paz entre os reinos cristãos da Península Ibérica, e assinalando de novo que o vínculo anterior de Enrique com Blanca fora declarado nulo pelo pontífice». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «A 2 de Junho de 1453, na Plaza Mayor de Valladolid, Álvaro pediu alguma fruta ligeira para se refrescar um pouco. Trouxeram-lhe um vinho suave e umas ginjas; quase não provou a fruta e a seguir bebeu um pouco de vinho»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) A jovem donzela fora resgatada da sua prisão graças à intervenção de um dos seus parentes castelhanos, o conde de Cifuentes, irmão de María Silva, protectora toledana da rainha Leonor. Como não podia, ou talvez não quisesse, voltar a fazer parte da casa da rainha, Beatriz encontrou refúgio no convento de Santo Domingo el Real de Toledo, o mesmo onde permanecera Joana depois da morte da mãe. Com o tempo, essa monja converter-se-ia em inspiradora da fundação da Ordem das Concepcionistas, e, muito depois, em santa da Igreja Católica. Embora as fontes misturem história, lenda e hagiografia, todas coincidem em realçar a sua beleza, que teria atraído muitos cortesãos e até o próprio Juan II, com os consequentes ciúmes da esposa, segundo defende um historiador. No entanto, é possível que, por trás desses ciúmes, aos quais se costumavam atribuir as acções aparentemente irracionais das mulheres nas esferas de poder quando iam contra os critérios do grupo dominante masculino, no ataque de Isabel de Portugal à futura santa Beatriz da Silva estivesse uma causa nada desprovida de racionalidade. Ocorria de novo o que acontecera em Portugal com a rainha Leonor de Portugal na época das suas rivalidades com o regente pela tutoria do seu primogénito e pelo exercício da regência.
As informações de que dispunha a rainha sobre as negociações matrimoniais de Enrique eram um tema que estava directamente relacionado com a rivalidade luso-castelhana pela posse das ilhas Canárias. Velha reivindicação portuguesa à qual se opunha o marido da rainha castelhana, era apoiada e defendida estrategicamente a partir de Ceuta, havia duas gerações, pelo avô e pelo tio de Beatriz da Silva, sucessivos capitães desse enclave português em terra africana. No entanto, as crónicas castelhanas, naturalmente escritas por autores que faziam eco do ponto de vista do poder masculino, preferiam explicar os ciúmes patológicos, da rainha como o resultado da perda definitiva da sua racionalidade, por causa de um facto cuja responsabilidade também atribuiriam, em parte, à rainha: a injusta morte do condestável de Castela.
A 2 de Junho de 1453, na Plaza Mayor de Valladolid, Álvaro pediu alguma fruta ligeira para se refrescar um pouco. Trouxeram-lhe um vinho suave e umas ginjas; quase não provou a fruta e a seguir bebeu um pouco de vinho. Depois disso, o verdugo cortou-lhe a cabeça, levantou-a e colocou-a numa lança à vista de todos, onde permaneceu nove dias. A tradição que adjudica a Isabel de Portugal parte da responsabilidade por esta morte afirma que o fez por vingança pelas intromissões do valido na sua vida marital. A morte violenta do valido que por mais de trinta anos exercera um poder delegado em Castela suscitou neste reino quase o mesmo misto de escândalo, medo e complacência que o desapiedado final do regente infante Pedro em Alfarrobeira provocara quatro anos antes em Portugal.
Tanto foi assim que, nos meses seguintes, a atenção dedicada à execução fez passar despercebida inclusivamente a queda de Constantinopla nas mãos dos turcos, a 29 de Maio de 1453. Um acontecimento que, certamente, aceleraria o regresso a Castela de um jovem clérigo que quatro anos antes se deslocara a Roma para estudar: Alonso de Palencia, o culto humanista que anos mais tarde acabaria por escrever uma crónica sobre o reinado de Enrique IV, a chamada Gesta Hispaniensia, base narrativa da lenda difamatória sobre Joana de Portugal na qual se baseariam posteriores cronistas e historiadores até aos dias de hoje (nascido em 1421, na cidade que lhe daria o apelido, possivelmente pertencente a uma família de judeus convertidos. Graças à sua precoce inteligência atraíra a atenção do filho do antigo rabino de Burgos, o bispo dessa cidade, Alfonso de Cartagena, embaixador em Portugal naquele ano e mestre do então príncipe Duarte, além de possível inspirador da candidatura de Leonor ao casamento com Duarte. Como jovem familiaris do bispo […] Graças a esse prelado de grande carisma pessoal e rara generosidade, pudera viajar até Roma antes de cumprir os vinte e cinco anos. O cronista que mais dano causaria à reputação de dona Joana, é muito provável que o tivesse conseguido graças às suas excelentes aptidões históricas, e sobretudo retóricas, pois tivera o privilégio de estudar no colégio romano com o humanista cretense Georgios Trapezuntios, ou Jorge de Trebizonda, então secretário do papa Nicolau V, e Johannes Lascaris, de um ramo colateral dos imperadores de Bizâncio, da que saíra a célebre e culta dona Vetaxa Lascara, aia da rainha Isabel de Portugal, mulher do rei Dinis I, a rainha santa)». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Enrique escolhera como procurador para realizar este trâmite Diego Saldaña, o antigo escrivão de ração da rainha Leonor de Portugal…»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Palencia menciona na sua crónica a intervenção desta personagem e estabelece uma relação directa entre o rabino e o contador-mor de Enrique, contando que vivia em Segóvia e tinha trabalhado diligentemente com Diego Arias na administração das rendas do então príncipe Enrique; e por estas artes pôde conseguir tanta confiança que se atreveu a repreender a temeridade do mestre de Calatrava [Pedro Girón] (...). Com estas denúncias conseguiu despertar a indignação de Enrique contra os dois irmãos (...). Desde aquela época, vivia desterrado o judeu e fugitivo em Portugal. A Crónica anónima de Enrique IV afirma, a respeito deste casamento, que o príncipe o tinha muito procurado mediante um judeu, físico seu, de quem muito se fiava, que era de seu conselho, homem muito agudo e astuto, o qual de algum modo sobre este caso tinha encontrado maneira de os reis de Castela e de Portugal se verem num lugar que se chama Monsaraz, dilatando o negócio bastante tempo, o que ele fazia pelo grande interesse que recebia de ambas as partes durante o tempo de negociar, e como algumas coisas tratasse além disto, que não apraziam ao mestre dom Pedro Girón, morreu a ferro, alguns dizem por seu mandato.
Enquanto ocorriam estes insólitos casos para dar curso ao matrimónio de Joana com o seu primo, a 4 de Abril de 1453, em Burgos, ocorreu a detenção de Álvaro Luna. Dias mais tarde deu-se início ao julgamento por usurpação do poder real. Enquanto a incipiente opinião pública de Castela estava ocupada em seguir o processo, os eficientes e discretos criados do príncipe levavam a cabo, paralelamente, outro julgamento muito menos público, para estabelecer um final canónico ao matrimónio do seu senhor com Blanca de Navarra. A 11 de Maio de 1453, em audiência pública mas dentro de uma pequena igreja de uma perdida aldeia segoviana, Luis Acuña, futuro bispo de Segóvia, ditava a sentença de divórcio de Enrique e Blanca, perante um notário que era escrivão do rei e na presença de diversas testemunhas, todos seguros partidários do príncipe.
Como em trâmites anteriores e posteriores relacionados com a sua boda com dona Joana, Enrique contaria nesta ocasião com a estreita colaboração de homens de origens portuguesas. O primeiro, o bispo encarregado de pronunciar a decisiva sentença de divórcio, era primo afastado da infanta, pois era neto de outro membro da linhagem dos Cunha, pertencente a um ramo aparentado com a casa real de Portugal, que em Castela originara os condes de Valencia de D. Juan. Apesar de todas aquelas argúcias, o documento final que os juízes eclesiásticos entregaram ao procurador de Blanca, para que o assinasse ou rejeitasse, estabelecia critérios então aceites pela Igreja Católica para sentenciar a nulidade e separação de um casal por causa da impotência do cônjuge masculino. A sentença explicava que essa impotência não tinha uma causa física mas que era produto de uma ligadura, ou seja, um malefício. Algo que, segundo os juízes, só tinha acontecido com Blanca, uma vez que na sentença se afirmava que Enrique pudera ter relações com outras mulheres. Por estranho que possa parecer hoje, naquela altura a Igreja Católica não só acreditava nesse tipo de influências, como os canonistas consideravam a impotência por malefício, uma das causas mais claras para anular um matrimónio. Como estabeleceria o Malleus maleficarum, uma obra escrita por dois dominicanos e publicada trinta anos depois do divórcio de Enrique, a possibilidade da intervenção do demónio estabelecia-se como causa indiscutível de impotência. Um ponto sobre o qual também estavam de acordo tanto a Lei de Partidas como a ciência médica da época.
Onze dias depois de proferida a sentença de divórcio, o condestável Álvaro Luna tomava conhecimento da sua condenação à morte, pronunciada por uma junta de dez doutores convocada pelo rei, e que devia ser aplicada por mandato e não por sentença. Isto é, por vontade real e não por decisão judicial. Três dias mais tarde, a princesa Blanca aceitava a sentença de divórcio, emitida por Luis Acuña. Fá-lo-ia na cidade de Olmedo, onde residia, a 25 de Maio de 1453. Enrique escolhera como procurador para realizar este trâmite Diego Saldaña, o antigo escrivão de ração da rainha Leonor de Portugal e futuro secretário e conselheiro de Joana em Castela. A notícia da condenação à morte do valido concentrou tanta atenção que, inicialmente, o divórcio de Enrique, ainda que transcendental para o futuro do reino, passou quase despercebido. Parece não ter acontecido o mesmo com o estado de saúde mental da rainha consorte castelhana.
Terá sido por essa mesma altura que a mãe da rainha Isabel, Isabel de Barcelos, se estabeleceu definitivamente em Castela. É significativo que, na primeira vez que é mencionada nas crónicas, ocupe, a pedido do rei Juan II, um posto no seu conselho privado. Os cronistas contemporâneos, entre eles Diego Valera, reconhecem nela uma muito notável mulher e de grande conselho. O seu estabelecimento definitivo em Castela esteve possivelmente relacionado com a necessidade de ajudar a filha durante a sua segunda gravidez, depois de esta ter dado a primeira mostra de loucura, ao que se conta, encerrando num baú durante três dias a sua donzela Beatriz Silva, irmã do futuro frei Amadeu. Algo que, ao que parece, teria ocorrido depois de a rainha ter ouvido dizer que o rei exprimira admiração pela beleza dessa jovem. Só falta que lhe deem o meu ceptro, diz-se que comentou então Isabel». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Segundo a documentação proveniente da antiga sinagoga de Segóvia, depositada na catedral dessa cidade, da qual Enrique era senhor, é muito provável que o judeu…»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) O discreto encontro de Afonso e Enrique em Monsaraz não podia ter acontecido em momento mais oportuno, se o que se queria era que passasse despercebido, uma vez que o rei e a rainha de Castela se encontravam envolvidos num dos projectos mais ambiciosos e perigosos de que se podia ocupar um casal real naquela época: a tentativa de se desfazerem para sempre do valido ao qual tanto um como o outro deviam em parte o que eram.
Um dia depois de Afonso V de Portugal ter enviado a carta a Pimentel, quarta-feira de Cinzas, o rei Juan II de Castela falou com o outrora poderosíssimo Álvaro Luna. O homem que o rei seguira, segundo a pena de Palencia, enquanto lhe durou a beleza da juventude, compreendeu de imediato que o monarca estava a preparar a sua queda.
Enquanto em Burgos ocorriam estes acontecimentos, impensáveis até havia pouco tempo, Álvaro começara a governar trinta e dois anos antes e nem sequer os audazes infantes de Aragão tinham conseguido contrariá-lo, algo ainda mais excepcional estava a acontecer nos preliminares das negociações matrimoniais: um judeu fora incumbido por Enrique de tratar com a parte portuguesa o casamento com Joana, nomeando-o procurador e embaixador do príncipe. Este é o único caso conhecido numa monarquia católica em que se escolheu um membro dessa significativa minoria religiosa para negociar um matrimónio real.
De qualquer modo, tratava-se de uma misteriosa personagem cuja identidade exacta motiva discrepâncias entre os historiadores. Em parte porque, a respeito do seu possível nome completo, se apresenta um dos maiores problemas com que se deparam os investigadores que trabalham com as fontes daquela época, a heterogenia na ortografia dos nomes e a falta de cristalização de um sistema de apelidos coerente, sobretudo no caso da transformação de um sistema onomástico-
Segundo a documentação proveniente da antiga sinagoga de Segóvia, depositada na catedral dessa cidade, da qual Enrique era senhor, é muito provável que o judeu a quem os textos oficiais denominam simplesmente de Rabjuçe, (rabi José) fosse um médico pertencente à linhagem dos Galhon, certamente aparentados com a mulher de Diego Arias, alguns de cujos membros se refugiariam em Portugal depois da expulsão dos judeus de 1492». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «… convertida portuguesa da linhagem dos cavaleiros de Zamora chamados Arias, de acordo com algumas fontes, certamente aparentada com uma linhagem judaica de Segóvia à qual pertencia, provavelmente, o então físico do príncipe Enrique»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Almeida, que chegaria a ser mordomo da filha de dona Joana durante o seu exílio em Portugal, relata também que Leonor esperava na sua câmara que o marido a fosse buscar e, ao ver aparecer no seu lugar um servidor de Frederico, respondeu dizendo que se o imperador não a fosse buscar em pessoa, ela não sairia dali. Consciente da importância política que significava a consumação do matrimónio com a esposa, como ratificação da sua aliança com o papado, e para tornar efectivo o dote, o marido fez o que a sua mulher lhe pedira.
Segundo as crónicas castelhanas, em finais de 1452, o rei de Castela, fazendo uma pausa no seu vertiginoso ir e vir por Castela, passou dez dias seguidos com a esposa para tentar que ela voltasse a ficar grávida. Esperanças que não eram somente suas, como também dos súbditos castelhanos, preocupados pelo facto de o príncipe das Astúrias não ter descendência. Os rumores que tinham corrido nos dias posteriores à sua boda, a separação de Blanca, e o facto de também não se lhe conhecer nenhum filho bastardo, numa época em que nem sequer muitos bispos se livravam disso, criavam bases tanto para vozes maldizentes como para legítimos temores. Não obstante os seus esforços, o rei castelhano não conseguiu engravidar a mulher naquele ano; com grande desgosto de ambos e também do condestável Álvaro Luna, que, como afirmam várias crónicas da época, era quem decidia os momentos em que o rei devia procriar com a rainha Isabel.
De qualquer modo, a informação obtida pelos espiões de Villena acerca das tentativas fracassadas do rei para engravidar a esposa teve efeito em torno do príncipe das Astúrias. Como relata um biógrafo de Enrique, naquele momento os projectos do marquês de Villena estavam a alcançar cotas mais altas. Para isso, era necessário que o condestável desaparecesse, de modo que ele pudesse ocupar o seu papel em Castela. Mas este plano estaria em perigo se Isabel de Portugal ficasse novamente grávida e desse à luz um filho varão. De maneira que, para Villena, era necessário que Enrique voltasse a casar e tentasse ter descendência por todos os meios. Naturalmente que, antes disso, deveria romper os laços canónicos que o uniam a Blanca de Navarra: conjecturas aparte, a exigência de divórcio teve de apresentar-se antes de terminar o ano (1452), dando tempo para que o juiz estudasse o caso de antemão, em conformidade com o que consta na sentença. Para alegria do rei castelhano e angústia do príncipe das Astúrias, em meados de Fevereiro de 1453 Isabel de Portugal voltou a engravidar, notícia da qual se deverá ter tido confirmação definitiva em meados de Março. Não parece casual, portanto, que a 27 de Março de 1453, a partir de Évora, o rei Afonso V de Portugal tivesse escrito ao seu honrado conde amigo, Alonso Pimentel, com a intenção de o informar de que o príncipe de Castela lhe solicitara um encontro com ele, no qual lhe tinha pedido solenemente a mão da infanta dona Joana, minha muito apreciada irmã.
O facto de o monarca português comunicar esta informação ao conde de Benavente pode considerar-se como um indício importante de que Pimentel se encarregara antecipadamente desta questão, mantida em segredo até então para não despertar os receios do rei castelhano. Por dados de crónicas e documentos posteriores sabe-se que, antes de 27 de Março, Afonso V de Portugal se mudara para Monsaraz, povoação próxima da fronteira com Castela, onde o seu primo Enrique lhe pedira que se cumprisse a aliança dinástica acordada em segredo em 1447. É possível que não fosse casual o facto de este pedido se realizar em Monsaraz, uma vila confinante com Castela, muito estratégica, uma vez que do seu castelo era possível vigiar o rio Guadiana. Era então habitada por uma pequena mas muito activa alfama judaica, que aproveitava essa vantagem geográfica para levar a cabo um próspero intercâmbio comercial entre os dois reinos. Dez anos antes, tivera como almoxarife Salomão de Ávila, que também arrendara as sisas gerais dos tecidos e dos vinhos por cinquenta mil reais anuais. Mas o seu apelido era muito provavelmente originário da mesma vila na qual tinha nascido o então contador-mor do príncipe das Astúrias, Diego Arias Dávila.
Segundo Palencia, sendo príncipe Enrique, veio da cidade de Ávila para Segóvia um dos cristãos-novos, e ademais de obscura linhagem, chamado Diego. Homem de ínfimas inclinações, começou a ganhar o sustento vendendo pequenas mercadorias roubadas a outros; ia pelos campos de Segóvia com um pouco de açafrão e cominho, e algo de pimenta negra (...), atraindo com as suas canções árabes grupos de rústicos cujo trato lhe era grato. É provável que a maior parte dos dados do palentino sobre o contador de Enrique fossem inventados com fins difamatórios para atacar o seu senhor, já que, na realidade, Diego Arias, nascido no início do século XV com o nome judeu de Ysaque Abeatar ou Abenatar, o filho do especieiro segundo uma interpretação do apelido, pertencia a uma conhecida família da comunidade de Ávila. E, uma vez instalado em Segóvia, casara-se com uma convertida portuguesa da linhagem dos cavaleiros de Zamora chamados Arias, de acordo com algumas fontes, certamente aparentada com uma linhagem judaica de Segóvia à qual pertencia, provavelmente, o então físico do príncipe Enrique». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Uma descrição muito valiosa, não apenas para poder fazer-se uma ideia do aspecto físico e da educação que Leonor recebera…»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) A intenção difamatória, falsamente moralizante, do cronista ao narrar este suposto episódio escabroso, motivado segundo Palencia pela origem portuguesa da donzela em causa, parece evidente, dado que isso aparecia num texto dedicado à história do reinado castelhano do futuro marido de Joana e, sobretudo, porque a única mulher que Frederico de Habsburgo permitiu que permanecesse não era portuguesa mas castelhana.
Ironia do destino, María Bobadilla, descendente de uma família fidalga da Rioja, converter-se-ia mais tarde na esposa de Diego Saldaña, um dos maiores colaboradores de Joana em Castela. É possível que Palencia desejasse deixar impresso na mente do leitor que tudo o que estava relacionado com as mulheres que rodeavam Joana e as suas irmãs era de moralidade suspeita, quando na realidade parece que tudo não passou de uma desculpa do imperador para não pagar os custos de manutenção de mulheres acostumadas a uma vida cortesã mais rica e refinada do que a que então se conduzia na corte de Viena. O próprio cardeal Piccolomini, que como secretário pessoal conhecera muito bem Frederico III, não hesitaria em classificar o seu senhor literalmente de avarento. No entanto, o recurso de Palencia não deveria fazer duvidar da seriedade intelectual com que se preparava para a sua grande empresa historiográfica…, referência ao elevado nível da educação clássica recebida por esse cronista na corte papal, durante um período de grande esplendor cultural, e aos seus contactos com os Medici, fundamento intelectual do seu trabalho como historiador.
Na realidade, o grande difamador de dona Joana não foi um vulgar adulador do grupo contrário à rainha, mas um homem inteligente e culto, que possuía uma concepção muito elaborada do mundo em que vivia. Como deixaria patente mais tarde na sua obra satírica Bellum luporum cum canibus, traduzida para o castelhano como Batalla campal de los perros contra los lobos, este clérigo, de provável origem judaica convertida, apresenta uma visão crua da condição humana. Daí o êxito das suas obras entre os historiadores e a ampla difusão de tópicos sobre a figura de Joana na historiografia espanhola. Prosseguindo a narração da estada de Leonor em Itália, Palencia omite o episódio da celebração das bodas da infanta pelo bispo de Siena, o cardeal Piccolomini, grande conhecedor da beleza feminina, pai de dois filhos ilegítimos e que numa das suas obras mais conhecidas, a chamada Historia Federici III, deixaria uma breve mas precisa descrição da imperatriz: uma donzela de mediana estatura, cabeça grande, olhos muito negros e luminosos, boca pequena, bochechas rosadas, pescoço branco, figura harmoniosa sem nenhum defeito, verdadeiramente distinta na beleza do seu corpo, que falava sem intérprete (em latim ou talvez em italiano), emitia opiniões ponderadas, respondia com prudência e comportava-se com realeza.
Uma descrição muito valiosa, não apenas para poder fazer-se uma ideia do aspecto físico e da educação que Leonor recebera, e por consequência também as suas irmãs, mas também porque permite reconstituir, aproximadamente, a fisionomia de Joana, que o próprio Palencia considerava mais bela que Leonor. À excepção de uma miniatura pintada cinquenta anos depois da morte de Joana, a fúria iconoclasta que se abateria sobre esta infeliz rainha de Castela, depois de cair em desgraça, é, possivelmente, a responsável por não termos nenhum retrato fidedigno de uma mulher cuja esplêndida  beleza, como uma medieval Helena de Tróia, viria a ser uma das causas da guerra entre reinos irmãos. Na realidade, também não há retratos originais da imperatriz Leonor, excepto a cópia que um pintor, filho de um retratista da corte alemã e nascido dez anos depois da sua morte, fez a partir de um retrato seu realizado em vida. Nessa obra, Leonor aparece como uma mulher de traços muito proporcionais, algo parecida com o avô paterno, o antigo mestre de Avis, e mais ainda com o homem que aparece com um joelho em terra num dos célebres painéis de São Vicente de Fora, que certamente era um membro da sua família. Ambos se caracterizam por uma cabeça alargada, nariz recto e proporcionado, com a ponte algo pronunciada (uma possível herança materna) e lábios carnudos. No referido retrato, Leonor apresenta cabelos provavelmente clareados, segundo a moda que então imperava entre as mulheres da nobreza italiana e que Joana também terá seguido num certo período da sua estada em Castela.
Sabe-se que Frederico III ficou muito impressionado com o agradável aspecto físico da sua prometida ao vê-la entrar pela primeira vez na catedral de Siena, onde a esperava para receber as bênçãos nupciais das mãos de Piccolomini. Com efeito, segundo um dos embaixadores alemães presentes, assim que Leonor pôs um pé no templo, o imperador, cheio de alegria, aproximou-se e abraçou-a. Outro episódio da estada da irmã de Joana em Itália, curiosamente não mencionado por Palencia na sua crónica mas sobre o qual a futura rainha castelhana teria informação directa através da irmã, é o que se refere à consumação do matrimónio da imperatriz. Sabe-se que o acto teve lugar em Nápoles, na corte de Alfonso V de Aragão, depois de Leonor e o marido terem passado por Roma, onde Frederico foi coroado imperador pelo papa e Leonor recebeu do pontífice o nome de Helena. Graças às cartas enviadas para Lisboa por Lopo Almeida, marido de uma das donzelas expulsas da sua casa pela mãe de Joana em 1440, temos algumas notícias do então ocorrido. Mas o futuro conde de Abrantes limitar-se-ia a contar apenas como Frederico foi buscar Leonor e a conduziu à sua câmara, tanto que entrou, lançaram-na na cama e ele com ela não sabemos que foi la». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Alonso Palencia narra no primeiro livro da sua “Gesta Hispaniensia”: segundo o acordado, os navios que conduziam Leonor, os embaixadores da Alemanha…»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Segundo uma lenda, naquele dia, encontrava-se no paço de São Bartolomeu um jovem chamado João Silva, irmão de Beatriz Silva, donzela da rainha consorte de Castela, o qual se apaixonara pela infanta Leonor. No entanto, por causa da partida desta, o jovem acabaria por entrar para um mosteiro, onde iniciaria uma carreira religiosa que o levaria até aos altares, nos quais seria venerado como frei Amadeu. Outra versão, muito posterior, narra que foi Duarte Meneses, capitão de Ceuta e tio do anterior João Silva, quem se tinha apaixonado por Joana, algo ainda mais improvável. Para além da enorme diferença de idade que o separava dela, é quase certo que, mais do que nos cortejos masculinos, a infanta estivesse sobretudo interessada em decifrar o conteúdo e as implicações do discurso, provavelmente em latim, que a 9 de Agosto de 1451 ouviria proferir na Sé de Lisboa por um capelão de Frederico III, depois de ter dado um beijo a Leonor e entregado um anel da parte do noivo. Estas foram as palavras a ela dirigidas: se consentes, se o César te agrada, se é de tua vontade contrair hoje matrimónio, se desejas receber o homem e unir-te a ele em legítimo leito, neste anel que te entrego te ofereço perpetuamente o meu senhor e o seu corpo, pois tenho esse poder, e se te recebo, a ele te ligo pelo laço indissolúvel do matrimónio.
Embora as crónicas portuguesas não mencionem este aspecto, é muito provável que, naquele dia, também se encontrasse na catedral de Lisboa o conde de Benavente, que o rei Afonso V acabara de nomear membro do Conselho Régio. Uma excepcional honra para um estrangeiro, mesmo sendo descendente de portugueses, e uma nomeação que seguramente estava estreitamente relacionada com o futuro casamento de Joana com Enrique, mas que não seria documentada porque o príncipe das Astúrias tinha antes de se divorciar de Blanca Navarra. E, sobretudo, porque o rei de Castela não estava de acordo em que o seu filho voltasse a casar.
É muito provável que, algum tempo depois de concluídas as cerimónias de despedida da infanta Leonor, em Novembro de 1451, o rei de Portugal tivesse tomado a decisão de separar juridicamente a administração da casa das suas outras duas irmãs, constituindo uma administração específica para cada uma delas. Assim, em finais de Janeiro de 1452, quando o rei concedeu uma mercê por matrimónio a uma filha de Maria Nogueira, a beneficiada era classificada no documento como donzela da casa das infantas, e dias mais tarde, quando deu um dote pelo mesmo motivo a uma certa Isabel Vasques, a jovem era mencionada como donzela da casa da infanta dona Catarina.
É possível que a casa de Joana tenha sido constituída no seu décimo terceiro aniversário, o limite máximo a partir do qual uma mulher era considerada maior de idade. A partir de então, teria sob a sua dependência um conspícuo número de servidores, aos quais podia dar ordens directamente, sem passar, pelo menos em princípio, por Rui Galvão, administrador das suas rendas até então. Dona Joana podia, desse modo, dispor livremente dos serviços das suas aias e donzelas; assim como do administrador, do almoxarife, do reposteiro, do porteiro-mor, do camareiro, do cozinheiro-mor, do cozinheiro, do galinheiro, do penteador e do sapateiro. Elenco ao qual caberia agregar, além disso, o capelão-mor, os capelães, o físico e o alfaiate.
É muito provável que a esse reconhecimento, devido à idade, se tenha seguido outro directamente relacionado com a pessoa de Joana: o de ser escolhida pelo rei para madrinha da filha que a sua mulher, a rainha Isabel de Lencastre, dera à luz em Lisboa, a 14 de Fevereiro de 1452. Uma criança considerada princesa herdeira desde o nascimento e que na pia baptismal recebeu o nome de Joana, talvez em honra da tia, conhecida no futuro como Santa Joana.
Alonso Palencia narra no primeiro livro da sua Gesta Hispaniensia: segundo o acordado, os navios que conduziam Leonor, os embaixadores da Alemanha e o resto da nobreza portuguesa chegaram ao porto de Pisa com zéfiros favoráveis; e de Florença, onde morava então o imperador, chegou o seu irmão Albrecht, egrégio duque da Áustria, para escoltar a sua cunhada. Quis a Fortuna que, ao chegar Albrecht de madrugada, se lhe tenha oferecido motivo de suspeita. Descobriu uma escada apoiada numa janela da pousada da futura [sic] imperatriz, perto do seu aposento privado, e embora se tenha averiguado que o crime era devido à luxúria de uma portuguesa promíscua impudicae Lusitanae libidini, não deixou de produzir tristes consequências para a imperatriz; por ordem do imperador foi privada da companhia de todas as suas damas, tanto as nobres como inclusivamente as vilãs, à excepção de María Bobadilla, que não era portuguesa». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Os seus moradores aventuram-se na crescente actividade marítima, como mercadores, armadores o capitães de naus e caravelas»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Um dos diplomatas que chegou a Lisboa no Verão de 1451 escreveu no seu diário que a capital do reino português não desmerecia na sua comparação com nenhuma das cidades mais importantes da Flandres que conhecera, e outro manifestou o seu assombro pela quantidade de mosteiros que via nela e pelo alto nível da sua escola de leis. A verdade é que Lisboa era considerada então um ponto de encontro de navios carregados de mercadorias provenientes do Atlântico e da Europa é um excelente mercado para encontrar os produtos mais exóticos (...). A cidade comporta uma intensa vida de corte. Aqui reside grande número de fidalgos que possuem terras na Estremadura e ocupam cargos de relevo nas áreas administrativas e financeiras (...). Os seus moradores aventuram-se na crescente actividade marítima, como mercadores, armadores o capitães de naus e caravelas.
Em resumo, um lugar adequado para estimular a curiosidade de uma infanta desperta, mas que, em abono da verdade, não parecia importar-se muito em ter de o abandonar, dado o grande interesse que tinha em casar-se, o que, por tradição, deveria ocorrer com um príncipe estrangeiro. Portanto, parece lógico que prestasse especial atenção à comitiva imperial que, a 1 de Agosto de 1451, depois de ter sido recebida pela rainha Isabel Lencastre, grávida de três meses, se dirigia ao que o autor alemão do citado diário denomina de o palácio das infantas, e que não era outro senão o paço de São Bartolomeu.
Segundo esse texto, os diplomatas imperiais ficaram deslumbrados com a indumentária das irmãs do rei, vestidas de forma esplêndida, assim como impressionados com o que nas páginas dessa obra se qualifica de a dança das infantas. Nas diversas ocasiões em que lhes fazem referência, os viajantes estrangeiros que conheceram Joana e sua irmã Leonor costumam relacioná-las com a prática da dança. Por estes testemunhos podemos supor que tal actividade deveria constituir para elas algo mais que um passatempo habitual nas cortes de finais da Idade Média. Há que recordar que entre os objectos que dona Leonor levara para Portugal, quando se casou com o rei Duarte I, está documentada a existência de um instrumento musical chamado manicórdio, no qual a rainha tocara peças, inclusivamente danças populares, para deleite do marido, facto referido pelas crónicas. Prova esta de uma autêntica paixão pela música que, provavelmente, a mãe transmitiu às suas filhas. No entanto, o citado diplomata alemão falava de dança praticada entre mulheres. Não se tratava de algo invulgar nas cortes da época, mas que neste caso talvez tivesse mais que ver com o seu desejo de representar o ambiente que rodeava a futura imperatriz da Alemanha de uma maneira que se adequasse aos severos critérios morais de que fazia gala Frederico de Habsburgo.
O trato assíduo e próximo das mulheres jovens das famílias reais com varões da alta nobreza era algo habitual nas cortes de finais da Idade Média. Assim o admitiam as normas estabelecidas do amor cortês. Mas esses homens deviam ser extremadamente cuidadosos para não ultrapassar o limite de relações, que geralmente consistiam em escrever composições poéticas dedicadas a essas princesas ou em escolher as suas armas e cores heráldicas nas justas a cavalo». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Documentos posteriores mencionam outra ama de leite portuguesa da Rainha Católica, Maria Lopes, que receberia um pagamento “porque a dita Maria Lopes deu à Alteza o seu leite”»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Antes do final do mês de Março de 1451, chegou a Lisboa um procurador do conde de Benavente com o fim de propôr ao rei Afonso V, da parte do príncipe das Astúrias, uma aliança; muito provavelmente relacionada com o seu casamento com a infanta Joana, para que pudesse iniciar os trâmites do divórcio da sua primeira mulher, uma vez que faltava à rainha consorte de Castela menos de um mês para dar à luz. Inicialmente, o rei Afonso respondeu que entre ele e o primo não havia necessidade de assinar tais pactos dado o grande amor que os unia. No entanto, poucos dias depois registou a sua resposta num memorando em que explicava que uma nova aliança não lhe parecia necessária, mas que se o príncipe o considerava conveniente lhe transmitiria então a sua proposta. A provável pressa do príncipe das Astúrias em casar-se, ante a possibilidade de a sua madrasta dar à luz um varão, diminuiria de qualquer modo depois de se saber que, a 22 de Abril de 1451, eram vinte para as cinco da tarde, na vila de Madrigal, a rainha Isabel de Portugal deu à luz uma menina. Em Castela, as mulheres podiam herdar a coroa, na falta de varão, mas o facto de esse nascimento não ter sido considerado um risco para a sucessão de Enrique é evidente na ausência de toda a informação acerca do baptismo dessa infanta, a mulher que no futuro receberia de um papa o título de Rainha Católica.
No entanto, sabemos por documentos posteriores que, desde os primeiros meses, a infanta Isabel esteve rodeada por um gineceu de portuguesas, começando pela avó, Isabel de Barcelos, vinda de Portugal para assistir ao parto da filha. Assim como as já citadas Inês Alfonso Alvarnaiz (sic), mulher do alcaide de Arévalo, e a sua filha, Clara de Alvarnaiz, que algumas fontes consideram irmã de leite da rainha católica dona Isabel, uma vez que foi filha de uma das mulheres que criaram Isabel em Arévalo. Documentos posteriores mencionam outra ama de leite portuguesa da Rainha Católica, Maria Lopes, que receberia um pagamento porque a dita Maria Lopes deu à Alteza o seu leite.
Há notícias de que o parto da infanta Isabel afectou muito a sua mãe. Segundo Palencia; como a Fortuna jamais concede aos mortais um gozo sem o misturar com algum pesar, a jovem contraiu após o parto uma doença pouco habitual. Não faltavam suspeitas de que fosse um ardil de Álvaro, o qual via com desagrado o grande carinho do rei em relação à rainha e que não tinha a menor dúvida de que aquele parto contribuía para o aumentar. Portanto, supõe-se que o propósito de Álvaro era o de impedir que no futuro a rainha fosse capaz de amar, e que ficasse louca.
A verdade sobre a doença mental da mãe de Isabel, a Católica, nunca seria completamente esclarecida, em parte devido à discrição com a qual esta sempre lidava com as questões pessoais dos membros próximos da sua família, inclusivamente da própria rainha dona Joana. A crónica de Palencia defende que o mal mental de Isabel de Portugal começou devido à sua desilusão por ter trazido ao mundo uma menina, quando o seu marido necessitava de um varão. Mas talvez tenha simplesmente sido afectada no momento da concepção pelo seu pai, uma vez que se sabe que o infante João, duque de Beja, padecia de um grave caso de malária. Segundo o citado cronista, a rainha sofria de violentos arrebatamentos quando não havia causa de tristeza e, contra o que todos esperavam depois do parto felicíssimo, concebeu um desdém constante a toda a alegria, que só o trato suave do seu marido conseguia mitigar. É provável que o nascimento da primeira filha desta rainha consorte de Castela de origem portuguesa também não tivesse sido um acontecimento muito comentado nos palácios lisboetas próximos do castelo. Especialmente porque, na mesma altura, no de São Bartolomeu todos esperavam a chegada dos embaixadores alemães que compareceriam para concluir o matrimónio da infanta Leonor com Frederico III». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

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A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «… consistiria em sessenta mil florins de ouro, cinquenta dos quais deviam ser entregues em Flandres ou Florença nos quinze dias subsequentes à consumação do matrimónio»

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Uma carta escrita pela minha mão
«(…) Pouco depois de Silveira ter partido para Nápoles, o marquês de Villena teve conhecimento, através dos seus espiões na corte da rainha consorte de Castela, que o rei fora visitá-la a Madrigal e que tudo apontava que esse encontro tinha como desejo o de a sua mulher lhe poder dar outro filho varão. Já com vinte e cinco anos de idade, o príncipe das Astúrias não só não tinha descendência como também, além disso, se encontrava definitivamente separado de uma esposa com a qual nem sequer pudera consumar o matrimónio. Em finais de Julho de 1450, as donzelas da rainha Isabel de Portugal souberam que a sua senhora tinha por fim engravidado, depois de decorridos quase quatro intermináveis anos. Um mês mais tarde, exactamente a 28 de Agosto de 1450, o rei de Aragão escreveu, de Nápoles, ao imperador Frederico para lhe comunicar que o embaixador português chegara àquela cidade havia três dias e que ali aguardava a chegada da delegação imperial para ultimar os pormenores da boda da infanta Leonor. Após três meses de negociações, seria assinado, em Nápoles, o contrato de casamento da infanta Leonor de Portugal com Frederico de Habsburgo, na presença do rei Alfonso V de Aragão e do embaixador português, Silveira. O documento estipulava, entre outras coisas, que o matrimónio se realizaria nos seguintes seis meses, que a infanta partiria de Portugal rumo a Itália, por mar, até um porto compreendido entre o da cidade de Pisa e o de Nápoles, que o acontecimento seria comunicado aos portugueses no momento adequado, e que o dote de Leonor, a pagar pelo seu irmão, consistiria em sessenta mil florins de ouro, cinquenta dos quais deviam ser entregues em Flandres ou Florença nos quinze dias subsequentes à consumação do matrimónio.
Frederico, por seu turno, entregaria a Leonor a mesma quantia, na qualidade de doação propter nupcias, segundo o costume alemão. A infanta deveria deixar Lisboa antes de 1 de Novembro de 1451 e a viagem seria paga pelo seu irmão, deduzidos dez mil florins do dote. Por parte do imperador, estes trâmites tinham sido apresentados magistralmente pelo seu secretário, o cardeal Eneas Silvio Piccolomini, bispo de Siena e futuro papa Pio II; o futuro transmissor, através das suas Memórias, de um método provavelmente utilizado pelos médicos de Enrique para que dona Joana ficasse grávida de um marido impotente. Poucos dias depois da assinatura daquele documento, o rei Alfonso V de Aragão dirigiu-se por carta à infanta Leonor de Portugal para lhe comunicar que a negociação do seu matrimónio com Frederico chegara a bom porto e também que lera a missiva na qual ela o informava sobre a saúde do seu irmão Afonso. Carta que Leonor lhe enviara através do embaixador Fernandes Silveira. É muito provável que a infanta Joana tivesse lido com grande atenção a carta do seu tio à sua irmã. A 18 de Janeiro de 1451, o Magnânimo enviou outra carta para Portugal, dirigida à muito ilustre infanta dona Catarina de Portugal, nossa muito cara e amada sobrinha e à muito ilustre infanta dona Joana de Portugal, nossa muito cara e amada sobrinha, mas cujo conteúdo era na realidade exclusivamente dirigido à infanta Joana; a quem dizia: a vossa carta recebemos, da qual tivemos muito grande prazer, como aquele com que muito caramente vos amamos e prezamos [e], à qual vos respondemos que de muito boa disposição e vontade queremos ter na nossa memória por bem encomendada e faremos por vós como pela nossa boa sobrinha e filha. E assim como tivemos em memória de colocar em alto e honrado matrimónio a ilustríssima infanta dona Leonor, vossa irmã, assim teremos em memória a vós, quando o caso será. E disto podeis estar em boa esperança.
É o único caso que conhecemos, numa série quase milenar de infantas hispânicas, de uma carta escrita por uma de onze anos para solicitar a um parente régio que se interessasse pelo seu futuro matrimonial. Este facto permite-nos supor que a carta por ela escrita à esposa do tio, quando tinha seis anos e meio, a pedir a sua ajuda para atender às necessidades dos servidores portogalesos da mãe em Toledo, talvez não tenha sido alheia à sua espontânea vontade, e é inclusivamente possível que tenha sido escrita pela sua própria mão. Apesar do desaparecimento da maior parte dos documentos assinados por dona Joana de Portugal ao longo da sua agitada vida, há provas de que foi uma grande escritora de cartas e de que, quase sempre que o fazia, gostava de precisar com a afectação de senhora culta daqueles tempos que se tratava de uma carta escrita pela minha mão. Como a carta da infanta Joana enviada ao seu tio napolitano também desapareceu, lamentavelmente não nos é possível saber se o seu desejo seria o de que ele acelerasse o seu casamento com o príncipe das Astúrias». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Este castelo daria origem ao apelido da filha ilegítima que tivera com a donzela da mãe da infanta: uma criança que anos mais tarde seria donzela de Joana em Castela»

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Uma carta escrita pela minha mão
«(…) É certo que essas obras dedicadas ao ensino das mulheres das classes altas tinham sido na maioria das vezes inspiradas pelas melhores intenções, e que havia mais de um século que os seus autores se tinham esforçado por acentuar o valor intelectual desses conhecimentos. Mas quase todas tinham sido escritas por homens, na sua maioria clérigos. Por isso, o seu desejo era quase sempre o de tentar moldar os comportamentos e atitudes das adolescentes para, que respeitassem o valor da castidade, virtude suprema das mulheres e inclusivamente dos humanistas realmente interessados na educação feminina. A honestidade e a vergonha eram as outras duas virtudes principais que se exigiam a uma mulher naquela época, qualquer que fosse a sua origem social. Complementares entre si, a primeira era absolutamente necessária, uma vez que faltasse era como se ao homem faltassem todas.
Tudo isto se resumia numa frase então muito em voga e que muito depois andaria na boca de muitos súbditos castelhanos de Joana: o homem para ser bom basta-lhe ser bom, ainda que não o pareça. Mas a mulher para ser boa não lhe basta parecer boa, tendo também de ser boa. Uma espécie de releitura, em código cristão, do velho adágio: a mulher do César não só deve ser honesta como também deve parece-lo. Em finais de 1449, quando a corte se encontrava em Évora, ocorreram em Lisboa os primeiros incidentes graves contra a minoria judaica de que há registo no reino de Portugal no século XV. Desconhece-se se as infantas Catarina e Joana se encontravam nesse momento na capital do reino ou se se tinham deslocado para o Alentejo com a corte do seu irmão. De qualquer modo, a proximidade física do lugar onde ocorreram os factos (a chamada judiaria velha, na actual baixa, de Lisboa), com o lugar onde elas residiam habitualmente e, sobretudo, as contínuas e qualificadas relações da sua mãe, do seu irmão Afonso e do seu tio Henrique, o Navegador (?), com alguns membros conspícuos da linhagem dos Yahia ou Negro, permitem supor que esses acontecimentos não passariam despercebidos às infantas. Mais difícil é saber que grau de influência teriam na configuração da mentalidade da mais nova delas a respeito de pessoas provenientes de uma minoria religiosa, alguns membros da qual chegariam a ter uma influência decisiva na vida íntima da futura rainha de Castela.
De qualquer modo, as tensões religiosas que se viviam em Lisboa não impediram Afonso V de continuar a recompensar os antigos servidores que tinham acompanhado a mãe ao exílio e que, por lhe serem fiéis, tinham sofrido não apenas o afastamento da sua terra natal como também a confiscação das suas propriedades. Entre eles encontrava-se Pedro Góis, filho do antigo prior do Crato, a quem, depois de regressar de Roma, o irmão de Joana doou, em 1450, o castelo da Lousã, no ducado de Coimbra, expropriado a um partidário do antigo regente. Este castelo daria origem ao apelido da filha ilegítima que tivera com a donzela da mãe da infanta: uma criança que anos mais tarde seria donzela de Joana em Castela. Apagados os ecos de Alfarrobeira e sufocadas as revoltas antijudaicas de Lisboa, em Junho de 1450 foram retomadas as negociações de casamento de Frederico III da Alemanha. Fora então decidido que a escolhida para se converter na primeira das duas imperatrizes proveniente da casa de Avis fosse a infanta Leonor.
Começando a cumprir a promessa, que fizera à irmã, de casar as infantas, o rei Alfonso V de Aragão escreveu naquela altura ao sobrinho, Afonso V de Portugal, para lhe comunicar que o imperador Frederico determinara o dia 15 de Agosto seguinte para que os emissários alemães se encontrassem com ele em Nápoles. Por essa razão, e porque desejamos a conclusão do dito matrimónio, se a vós vos convier ao notificar-vos das ditas coisas vos pedimos que, sendo a vós agradável o dito matrimónio, nos mandeis os vossos embaixadores plenamente instruídos sobre o dito negócio. Para tal fim, o rei de Portugal acabaria por enviar a Nápoles João Fernandes Silveira, homen Fydalgo, prudente e gram letrador. O facto de ter sido Leonor a escolhida indica, provavelmente, que, além da opinião das damas austríacas a respeito da virtude dessas jovens, se preferira seguir a tradição de casar primeiro a mais velha delas. Algo que, em teoria, implicava que, antes de se casar, Joana teria de esperar que o fizesse primeiro a sua irmã Catarina. É possível que um acontecimento ocorrido do outro lado da fronteira tenha adiantado essa possibilidade». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Uma circunstância da qual uma infanta de dez anos com inteligência precoce, como era sem dúvida Joana, podia extrair úteis ensinamentos para a sua vida futura»

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Uma carta escrita pela minha mão
«(…) A crónica conta que, ao regressar nessa mesma noite a Lisboa, depois do combate, o muito jovem rei ouviu dos velhos e principais da corte, inimigos do infante, Pedro, o insistente conselho para que se divorciasse da mulher. Mas nesta ocasião, Afonso negou-se rotundamente a contentá-los e, com palavras de muito amor, escreveu à esposa, que se encontrava em Santarém, pedindo-lhe desculpas por não a ir ver e solicitando-lhe que regressasse a Lisboa. Com enorme força de ânimo, e fazendo uso de discrição e prudência, dona Isabel Lencastre, que tinha então dezassete anos, a mesma idade que o marido, obedeceu e dirigiu-se ao palácio das Alcáçovas, onde se encontrou com ele nos aposentos reais. Pouco depois, o rei ordenou que o seu mordomo, Álvaro Castro, fosse libertado e exonerado da acusação de ter cometido adultério com a rainha. A história misturava ambição de poder, invejas cortesãs e relações físicas e afectivas, tudo isso somado à necessidade política de o rei ter um herdeiro o mais depressa possível, para consolidar o poder real num momento de crise de autoridade no reino. Uma circunstância da qual uma infanta de dez anos com inteligência precoce, como era sem dúvida Joana, podia extrair úteis ensinamentos para a sua vida futura. De qualquer modo, mais adequados à sua futura vida do que as lições que lhe cabia aprender de cor naqueles dias.
Sobretudo porque, no que diz respeito à educação das mulheres da realeza, é obrigatório perguntar até que ponto as lições aprendidas, e nessa época quase sempre dadas por religiosos chamados a fazer carreira na corte e na Igreja, eram realmente apreendidas por crianças e adolescentes privilegiados que tinham sido tratados desde o berço com respeito reverencial, inclusivamente por parte das pessoas da mais alta e antiga nobreza. Dona Joana chegara a Portugal num período em que a irmã dona Catarina, piedosa e estudiosa por natureza, segundo todas as fontes, já recebia aulas do irmão da sua aia, Afonso Nogueira. Este sacerdote estava empenhado em levar adiante uma obra religiosa e assistencial no antigo convento e hospital de Santo Elói, situado muito perto do paço de São Bartolomeu (foi fundado em 1286 e Afonso Nogueira seria uma espécie de refundador, depois de ter participado na criação de uma comunidade religiosa dos cónegos seculares de S. Salvador de Vilar, instalados no mosteiro de Vilar de Frades, Barcelos, os futuros loios ou padres azuis, pela cor do seu hábito, que se tinham proposto acabar com o clima de lassidão moral vivido em muitas casas religiosas fundadas por nobres e prestar um serviço espiritual, e também médico, aos fiéis). O clérigo, graças à relação das suas irmãs com as infantas e sobretudo à influência que exerceria sobre dona Catarina, veria muito beneficiada a sua carreira eclesiástica, a ponto de anos mais tarde ser eleito arcebispo de Lisboa.
A infanta também começara a receber aulas de latim, e possivelmente de outras disciplinas, dadas por Jorge Martins, posteriormente apelidado da Costa, outro clérigo chamado a ocupar a cadeira arcebispal de Lisboa e que, provavelmente, ensinou a dona Joana as primeiras noções de latim, uma vez que existem provas de que ela conhecia correctamente esse idioma, ainda que não tão bem como dona Catarina que, com a ajuda do arcebispo Jorge, chegaria a traduzir alguns textos religiosos para português. É provável que tivesse sido também este clérigo, de nascimento humilde, mas de elevado intelecto, o designado para ensinar a dona Joana outras matérias mais especializadas, como história, genealogia e história sagrada, que então faziam parte do ensino das mulheres da elite. O conteúdo de todas estas matérias variara, na verdade, muito pouco desde a Antiguidade, e era geralmente transmitido por meio do estudo de esboços biográficos (espelhos) e biografias, nas quais as princesas e infantas encontravam traçadas, através das vivências de mulheres destacadas da história, rainhas, santas e heroínas, linhas de conduta que respondiam a um modelo feminino baseado na doutrina cristã estabelecida pelo apóstolo São Paulo e por São Jerónimo». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «... tem a cargo receber e gastar os dinheiros e outras coisas da manutenção das infantas dona Catarina e dona Joana, minhas muito apreciadas e amadas irmãs, e das pessoas que as serviram durante os anos 1447 e 1448»

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Uma carta escrita pela minha mão
«(…) Tanto assim, que esses cortesãos não tiveram dúvidas em atacar o lado mais vulnerável do infante Pedro: a reputação da sua filha, a rainha consorte dona Isabel Lencastre. Os inimigos do antigo regente tentaram inicialmente convencer o rei a separar-se da esposa. Como Afonso não estava de acordo, alguns dos membros que o rodeavam começaram a insinuar que as suas relações com dona Isabel tinham um carácter de concubinato, fruto de união não legítima, porque estava obrigada pelo seu sogro. Mas o rei, que não sentia nenhum rancor em relação à jovem esposa, a viva imagem da delicadeza, não deu importância. De maneira que, por fim, acabou por se acusar a rainha de adultério com o mordomo-mor do rei, Álvaro Castro, mais tarde conde de Monsanto e pai de uma donzela da rainha dona Joana. Algo que, desta vez, abalou o inseguro orgulho masculino do rei adolescente, que acabou por ordenar a prisão do mordomo. Dona Joana não podia ignorar este acontecimento, uma vez que a família do acusado vivia numa residência situada a pouca distância do palácio de São Bartolomeu e também porque o detido era sobrinho da condessa Guiomar Castro, aia da sua irmã, a infanta Leonor. O anonimato das fontes a respeito de que membros da cúria de Afonso V participaram nessa intriga cortesã não permite saber o grau de implicação de Gabriel Lourenço, antigo capelão-mor da rainha dona Leonor de Portugal, que tinha regressado ao reino em 1445 e que nessa altura prestava serviço no palácio.
O certo é que nem todos os antigos servidores dessa rainha tinham tido a sorte de regressar a Portugal tão cedo como o seu capelão-mor. Na realidade, a 1de Março de 1449, o rei Alfonso V de Aragão assinou em Nápoles uma carta dirigida ao papa Nicolau V para lhe recomendar frei Pedro Góis pelos serviços que lhe tem prestado e ainda pelos que dispensou a sua irma a rainha dona Leonor, o qual vai tratar de assuntos da própia consciéncia. É muito provável que a viagem a Roma desse monge cavaleiro que até então tinha estado ao serviço do rei aragonês, graças a uma recomendação da infanta Joana, tivesse que ver com a legitimação dos filhos tidos com uma donzela da falecida dona Leonor. Também se sabe com certeza que, nessa mesma altura, Alonso Pimentel, o honrado conde amigo, se encontrou no palácio das Alcáçovas de Lisboa com Afonso V, talvez com a intenção de transmitir alguma mensagem da parte do marquês de Villena, graças ao qual o conde pudera fugir da prisão na qual o encerrara o rei de Castela. Mas não há notícia de que o conde de Benavente tivesse visitado o palácio de São Bartolomeu e, portanto, essa infanta que estava prestes a fazer dez anos e que conhecera na boda da sua irmã, dona Beatriz Pimentel, com o infante Enrique de Aragão, o que fazia do conde uma espécie de tio político de dona Joana. Curiosamente, apenas um mês depois de o rei ter mandado o seu secretário Rui Galvão redigir o salvo-conduto com o qual Pimentel pudera entrar em Portugal, esse antigo secretário do rei Duarte I, e mais tarde da sua esposa, viu-se confirmada por parte do rei Afonso uma carta na qual se especifica o seguinte: ... tem a cargo receber e gastar os dinheiros e outras coisas da manutenção das infantas dona Catarina e dona Joana, minhas muito apreciadas e amadas irmãs, e das pessoas que as serviram durante os anos 1447 e 1448.
Ficamos a saber por este documento que os fundos para financiar as despesas dessas duas crianças eram provenientes dos impostos que na alfândega de Lisboa pagavam os tecidos provenientes da cidade de Bristol, tal como se precisava nos recibos passados por dona Maria Nogueira, aia das ditas senhoras infantas. Nestes documentos indicava-se, além disso, que ambas eram assistidas por uma irmã de Maria, dona Violante Nogueira. Duas mulheres que, talvez graças às irmãs do rei, se livrariam de cair em desgraça, como a que, havia algum tempo, começara a cair sobre alguns dos seus parentes, antigos aliados do ex-regente. Sobretudo, Álvaro Vaz Almada, conde de Avranches, antigo alcaide de Lisboa, primo-direito de dona Maria e dona Violante e único português não pertencente à família real que obtivera em Inglaterra a prestigiosa Ordem da Jarreteira. Um fiel cavaleiro (do infante Pedro) cujo corpo, no entanto, seria decapitado e estendido toda uma noite à intempérie, nos campos de Alfarrobeira, à mercê dos animais, depois de ter morrido numa batalha travada ao lado do seu grande protector, a 29 de Maio de 1449, contra as tropas de Afonso V de Portugal. A vingança, testemunhada pela infanta, levara o seu tempo mas o resultado fora contundente». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «… e amado sobrinho, para ver as ilustres infantas, suas irmãs, com uma das quais tem grande desejo de tratar matrimónio»

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Uma carta escrita pela minha mão
«(…) Os palácios régios lisboetas também não se livrariam deste flagelo de todas as cortes que eram os rumores, com a diferença de que os que circulavam na margem do Tejo, no início de 1448, continuavam a ter como alvo o Regente. Tratava-se de envenenar as suas relações com o rei adolescente para provocar a ruptura definitiva entre ambos. Os mesmos nobres que um dia tinham estado a favor da rainha dona Leonor, acabando depois por aceitar o poder do infante Pedro, conspiravam agora para que o rei se desentendesse com o seu tio. Assim, quatro meses depois de ter feito nove anos, a infanta dona Joana testemunhou o seu primeiro golpe palaciano em terras lusas. Segundo as crónicas, em meados de Julho de 1448, em Santarém, Afonso V tomou sua casa e sua mulher (...) com as habituais bênçaos, cerimónias e festejos, ainda que não tan grandiosos quanto o gostaria o infante Pedro. Houve apenas alguma mostrança de festas. Depois de escrever ao seu sobrinho uma carta na qual lhe entregava formalmente o poder, o cada vez mais preocupado pai da nova rainha de Portugal mudou-se para as suas terras de Coimbra. E assim pareceu acabar tudo. No entanto, pouco depois, começaram a ocorrer alvoroços em algumas cidades do reino. Ao mesmo tempo, o rei não deixava de manifestar publicamente a sua preocupação com as injustiças sofridas por aqueles que tinham apoiado a sua mãe, e que, por causa do tio, se tinham visto forçados ao exílio e à perda dos seus bens.
É possível que o interesse prestado pela infanta dona Joana a essas intrigas palacianas, que terão sem dúvida contado com a participação de servidores muito próximos dela, pelo menos durante o seu exílio castelhano, fosse muito menor que o dedicado a um acontecimento que certamente atrairia, pouco tempo depois, a sua atenção, assim como a da sua irmã, a infanta dona Leonor. E tudo isso devido à chegada à corte de Lisboa de uma carta dirigida aos reis de Portugal, da parte da rainha dona María de Aragão, antiga protectora de dona Joana, enviada em meados de Outubro de 1448. Uma missiva na qual a rainha aragonesa recomendava ao casal real português as pessoas do barão Jorge von Volrestorff e Ulderico Riedrer, embaixadores do ilustríssimo príncipe Federico, rei de romanos. Tratava-se de distintos diplomatas alemães que tinham estado antes em Nápoles, com Alfonso V de Aragão, com o fim conseguir a apresentação de o Magnânimo perante o nosso muito caro e amado sobrinho, para ver as ilustres infantas, suas irmãs, com uma das quais tem grande desejo de tratar matrimónio. É possível que esta ideia tivesse surgido entre os que rodeavam o papa Nicolau V, apesar de tanto os portugueses como os aragoneses terem logo atribuído a si próprios a iniciativa. Na realidade, o pontífice assinara pouco antes uma concordata com o Império e desejava assegurar também a lealdade do reino de Nápoles, em teoria vassalo da Santa Sé. Pelo que oferecera a Alfonso V de Aragão a possibilidade de casar uma das suas sobrinhas portuguesas com o jovem imperador da casa de Habsburgo.
No fim de contas, esta antiga linhagem, originária das montanhas da actual Suíça, dera um verdadeiro salto qualitativo no século XIII, quando a outro pontífice ocorrera favorecer a escolha de um dos membros da dita família como imperador de Alemanha. Supostamente, aquela família seria mais fácil de controlar, e o membro escolhido poderia ser usado contra a muito mais prestigiosa e poderosa casa imperial de Hohenstaufen. Na sua carta, a rainha de Aragão explicava ao sobrinho Afonso V que, com o séquito dos embaixadores alemães viajavam também três senhoras nobres austríacas, cuja tarefa consistia provavelmente em realizar determinadas pesquisas discretas sobre aspectos relacionados com a virtude, das três infantas candidatas.
Naquela época o êxito de um matrimónio dinástico baseava-se quase exclusivamente em duas tradicionais premissas femininas: a fertilidade e a castidade da futura rainha consorte. Nas monarquias hereditárias do antigo regime, à rainha é exigido um respeito rigoroso das normas morais, especialmente no que se refere à fidelidade matrimonial, e não só pela sua posição social, mas também porque a legitimidade da dinastia descansava na sua própria honestidade (...), a feminilidade e a exaltação moral da soberana, até ao ponto de se converter na figura paradigmática da qual dependia a ordem moral e social.
Segundo a historiografia portuguesa, a primeira tentativa de chegar a um acordo sobre o matrimónio de uma das infantas portuguesas com o imperador alemão não resultou, devido ao boicote do seu parente próximo, o duque de Borgonha. Este fracasso voltou a concentrar a atenção da corte sobre o duque de Coimbra, que nessa altura chegou a indicar numa carta que entre os que procuravam acabar com ele não se encontrava o rei que contra mim nom tem culpa algua, mas sim os partidários ainda ressentidos com a antiga rainha. Muito hábeis, segundo o tio de dona Joana, a utilizar suas falsas palavras». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «… terá sido em Dezembro de 1447, em Valladolid, quando o rei Juan II de Castela encontrou em dona Isabel a beleza e talvez o amor que nunca viu na sua primeira esposa…»

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Metida no Mosteiro de Santa Domingo de Toledo
«(…) O regente acompanharia imediatamente dona Isabel de Portugal a Pinhel, vila onde se procedeu à entrega da nova rainha de Castela aos enviados do respectivo esposo. É muito provável que tivesse sido nessa altura que os castelhanos entregaram a infanta Joana ao regente. Na realidade, Pedro não se dirigiu imediatamente ao ducado de Coimbra, mas a Lisboa, onde chegaria em finais de Julho de 1447 talvez com a finalidade de entregar pessoalmente a pequena exilada ao irmão, o rei Afonso V que estaria ansioso por voltar a ver a irmã, depois de sete anos de ausência. Como afirma um biógrafo de Enrique IV, pode tratar-se de uma simples coincidência, mas é digno de registo que, precisamente no Verão de 1447, encontremos a primeira notícia de um plano concebido por Juan Pacheco para conseguir um acordo matrimonial do príncipe com a infanta Joana de Portugal, que, como irmã de Afonso V estava muito mais próxima do trono que a sua prima. Documentos posteriores provam a existência de contactos entre o rei Afonso V de Portugal e o mordomo-mor do príncipe das Astúrias, tendo como motivo esse casamento.

Uma carta escrita pela minha mão
De volta a Lisboa, dona Joana foi viver com a irmã, a infanta dona Catarina, que então tinha onze anos e residia num casarão que mais tarde seria conhecido pelo nome de paço de São Bartolomeu. Um edifício situado entre o castelo e o bairro árabe da cidade, propriedade havia muito mais de século e meio da família da aia da infanta dona Catarina, dona Maria Nogueira, nobre mulher de cerca de cinquenta anos, viúva de um antigo camareiro-mor do infante Henrique ao cuidado de quem também ficaria a infanta recém-chegada. Curiosamente, pouco depois do seu regresso começaram a ocorrer em Lisboa manifestações de desconfiança pública contra o regente por parte de personagens muito próximas do rei. Segundo as crónicas, alguns membros da casa do duque de Bragança aproveitaram as audiências privadas com Afonso V para o encher com informações pouco abonatórias acerca do infante. Afirmavam que o infante Pedro devia devolver os poderes régios ao monarca, uma vez que este já tinha feito quinze anos.
Um procurador próximo do duque de Coimbra atalhou essas reclamações dizendo que, apesar de o rei ter alcançado a maioridade legal, ainda não estava preparado para dirigir o reino. Observação que seria muito criticada pelo arcebispo de Lisboa, Pedro Noronha, tio-avô do monarca que, pela sua respeitável idade, exercia uma grande influência sobre um jovem definido por um cronista contemporâneo como de vontade mole. Fora através do arcebispo, segundo Rui Pina, que o influenciável Afonso V descobrira que alguem estava por tras da terrivel maquinaçao que levara sua mae a exilarse en Castela. Por ironia do destino, enquanto em Portugal se tentava minar a credibilidade política do Regente, nesse cargo depois de ter conseguido vencer a cunhada numa luta de poder nascida da oposição da rainha para que Afonso V se casasse com a sua prima dona Isabel Lencastre, a sua outra prima e antiga candidata a rainha consorte, dona Isabel de Portugal, convertida agora em rainha consorte de Castela, começava a ser aceite por um marido que inicialmente a tratara com frieza por não ser a princesa francesa com quem quisera casar.
Com efeito, terá sido em Dezembro de 1447, em Valladolid, quando o rei Juan II de Castela encontrou em dona Isabel a beleza e talvez o amor que nunca viu na sua primeira esposa, com uma consequência muito desagradável para o condestável de Castela, que fora o artífice dessas bodas. Como conta Palencia, as segundas núpcias do rei tiveram para Álvaro um resultado diferente do que inicialmente esperara. O rei começou a degustar livremente os abraços honestos de sua formosíssima esposa e no limiar da velhice apaixonou-se pela terna jovem. Mas o condestável não era o único frequentador dos palácios reais castelhanos que se sentia preocupado. Como relata um biógrafo de Enrique, em finais de 1447, na Corte circulavam outros rumores nada favoráveis à pessoa do príncipe, cuja conduta e gostos não se acomodavam ao espírito da cavalaria. Palencia calunia-o ou difama-o quando atribui a influência omnipotente do marquês [de Villena] à sua complacência em desvios sexuais (...). Admitamos que todas estas atribuições eram falsas. Mas, na realidade, mil confusos, mal-intencionados e interesseiros rumores acerca do comportamento sexual do futuro rei estavam já a fazer o seu caminho pelos corredores do palácio». In A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, Marsilio Cassotti, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT